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Da caneta ao servidor: a modernização da tradução em contexto

Ribeiro, Rui Miguel da Silva

Abstract

O presente documento serve o propósito de relatar as tarefas executadas, a aprendizagem realizada, e as competências adquiridas ao longo do estágio integrado no Mestrado em Tradução e Comunicação Multilingue, realizado entre os meses de abril e junho de 2018, na empresa de tradução e desenvolvimento de software i-Disc sedeada em Barcelona, Espanha. O relatório apresenta uma descrição detalhada dos conteúdos abordados, acompanhada de uma análise posterior destes ao longo do processo formativo do estágio, dos métodos e ferramentas utilizadas, assim como dos conhecimentos, estratégias e competências adquiridos. O documento tem como cerne a crescente aceleração ao nível da modernização dos recursos, ferramentas e métodos utilizados para a tradução, mais precisamente a multiplicidade de ferramentas CAT (Computer Assisted Translation) disponíveis. Os preceitos da empresa i-Disc estão em destaque pela importância que dão à formação, desenvolvimento de estratégias de tradução e de competências, tanto interpessoais como de agilização e de aprendizagem de novas ferramentas, sendo estas dispostas pela ordem que foram introduzidas durante o programa formativo do estágio. Como demonstração do trabalho realizado, o relatório apresenta um enfoque concreto na análise de alguns problemas ilustrativos encontrados ao longo da tradução dos textos respetivos, bem como uma explicação das soluções encontradas. Estes problemas são enquadrados tendo em conta a categorização de erro de tradução apresentada pela empresa.

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ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição CC BY https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/ iii Agradecimentos Agradeço primeiramente ao meu orientador Prof. Fernando Alves, pelo seu enorme apoio, e pela orientação em cada fase deste relatório e ao longo da licenciatura e do mestrado. Agradezco a mi orientadora, Olga López y a toda la empresa i-Disc por la oportunidad que me han dado, y por su suporte permanente en cada momento de las prácticas. Agradeço finalmente aos meus pais, pelo seu apoio incansável e a quem devo tudo. iv DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. v Resumo Da caneta ao servidor: A modernização da tradução em contexto profissional O presente documento serve o propósito de relatar as tarefas executadas, a aprendizagem realizada, e as competências adquiridas ao longo do estágio integrado no Mestrado em Tradução e Comunicação Multilingue, realizado entre os meses de abril e junho de 2018, na empresa de tradução e desenvolvimento de software i-Disc sedeada em Barcelona, Espanha. O relatório apresenta uma descrição detalhada dos conteúdos abordados, acompanhada de uma análise posterior destes ao longo do processo formativo do estágio, dos métodos e ferramentas utilizadas, assim como dos conhecimentos, estratégias e competências adquiridos. O documento tem como cerne a crescente aceleração ao nível da modernização dos recursos, ferramentas e métodos utilizados para a tradução, mais precisamente a multiplicidade de ferramentas CAT (Computer Assisted Translation) disponíveis. Os preceitos da empresa i-Disc estão em destaque pela importância que dão à formação, desenvolvimento de estratégias de tradução e de competências, tanto interpessoais como de agilização e de aprendizagem de novas ferramentas, sendo estas dispostas pela ordem que foram introduzidas durante o programa formativo do estágio. Como demonstração do trabalho realizado, o relatório apresenta um enfoque concreto na análise de alguns problemas ilustrativos encontrados ao longo da tradução dos textos respetivos, bem como uma explicação das soluções encontradas. Estes problemas são enquadrados tendo em conta a categorização de erro de tradução apresentada pela empresa. Palavras-chave: CAT Tools, Edição, Formação, Revisão, Tradução vi Abstract From the pen to the server: The modernization of translation in a professional environment The present document serves the purpose of reporting the executed tasks, received training, and acquired skills throughout the internship lasting between April and June 2018, integrated into the Masters of Translation and Multilingual Communication, at the translation and software development company, i-Disc, based in Barcelona, Spain. The report features a detailed description of the contents addressed, followed by their respective analysis, throughout the training process of the internship, the methods and tools used, as well as the knowledge, strategies and skills acquired. The document focuses on the growing acceleration of the modernization of translation tools, methods, and resources, specifically, the plethora of available CAT (Computer Assisted Translation) tools. The precepts of the company are featured due to the elevated importance they give to training, the development of translation strategies and skills, both interpersonal and of tool learning and streamlining. These are presented by date of introduction during the internship’s training program. As a demonstration of the work carried out, the report displays a concrete focus on the analysis of some illustrative problems found throughout the translation of its respective texts, as well as an explanation of the solutions found. These problems are framed according to the translation error categorization method introduced by the company. Keywords: CAT Tools, Editing, Training, Revision, Translation vii Lista de abreviaturas ATA – American Translators Association CAT – Computer Assisted Translation EMT – European Master’s in Translation ELIA – European League of Institutes of the Arts FTP – File Transfer Protocol IDCP – i-Disc Collaboration Portal ISO – International Organization for Standardization LISA – Localization Industry Standards Association LTB – Linguistic Toolbox MT/TA – Machine Translation/Tradução Automática QA/CQ – Quality Assurance/Controlo de Qualidade RGPD – Regulamento Geral de Proteção de Dados SDL – Software and Documentation Localization TAUS – Translation Automation User Society TÜV – Technischer Überwachungsverein, Technical Inspection Association TMS – Translation Management System TWS – Translation Workspace viii Índice Agradecimentos ........................................................................................................ iii Resumo ...................................................................................................................... v Da caneta ao servidor: A modernização da tradução em contexto profissional ... v Abstract ..................................................................................................................... vi From the pen to the server: The modernization of translation in a professional environment .................................................................................................................... vi Lista de abreviaturas ............................................................................................... vii 1. O dilema da tradução ............................................................................................ 1 1.1. O funcionalismo de Skopos ........................................................................... 2 2. i-DISC Information Technologies, S.L. .............................................................. 4 2.1 História da Empresa ....................................................................................... 4 2.2 Parcerias ........................................................................................................... 5 2.3 Contacto inicial ................................................................................................ 5 3. Metodologia ........................................................................................................... 6 3.1 Objetivos gerais ............................................................................................... 6 3.2 Objetivos específicos ....................................................................................... 6 3.3 Programa de estágio detalhado ...................................................................... 7 3.4 Estruturação do processo de tradução .......................................................... 8 3.5 Competências desenvolvidas .......................................................................... 9 3.5.1 Fornecimento de serviços de tradução: .................................................. 9 3.5.2 Competências linguísticas: .................................................................... 10 3.5.3 Competências interculturais: ................................................................. 10 3.5.4 Aquisição e procura de informação: ..................................................... 11 3.5.5 Competência temática: .......................................................................... 11 5 2.2 Parcerias Ao longo da sua expansão, a i-Disc criou vários protocolos de cooperação com outros parceiros comerciais no campo do software, como a Oracle, WatchGuard e a Microsoft, e no domínio das línguas e da tradução, como a ATA (American Translators Association), a ELIA (European League of Institutes of the Arts), e a Rosetta Stone LTD. Finalmente, a empresa tem múltiplos acordos assinados com várias universidades no mundo direcionados para a formação de alunos universitários, oferecendo também oportunidades de estágio, como foi o caso da experiência que está na origem deste relatório. Além da Universidade do Minho, a empresa também tem acordos internacionais com a universidade de Kent nos Estados Unidos, a universidade de Swansea no Reino Unido, entre várias outras. 2.3 Contacto inicial O contacto inicial com a empresa iniciou-se através da sua parceria com a Universidade do Minho, e com o Instituto de Letras e Ciências Humanas. No âmbito de um dos módulos da unidade curricular de Gestão de Projetos e Avaliação da Qualidade, os estudantes do mestrado receberam formação por parte da empresa na componente preponderante de revisão e controlo de qualidade, assim como na identificação e categorização do erro. Esta temática tinha sido introduzida, e serviu como tema no projeto realizado ao longo das aulas, sendo que a experiência proporcionada pela i-Disc reforçou o trabalho desenvolvido pelos docentes. Este curto período formativo, foi acompanhado de testes de desempenho de tradução para avaliar os alunos. Esta avaliação mostrou-se inédita pelo facto de ser a primeira vez que os estudantes foram avaliados não pelos docentes e critérios académicos, mas sim por uma empresa com os seus próprios padrões e metodologia. Esta experiência proporcionou uma oportunidade vital para a ambientação com as exigências do mercado de trabalho, e tendo sido selecionado pela empresa, deu-se início ao estágio descrito neste relatório. 6 3. Metodologia 3.1 Objetivos gerais No decorrer do estágio curricular, foram desenvolvidas as seguintes atividades propostas: 1. Formação nas ferramentas utilizadas pela empresa; 2. Formação nas metodologias e práticas da empresa; 3. Formação na categorização de erros de tradução; 4. Tradução de documentos de inglês para português; 5. Tradução de documentos de espanhol para português; 6. Revisão e Edição de documentos traduzidos por membros da empresa ou terceiros; 7. Integração em contexto empresarial orientada através de um gestor de projetos; 8. Aquisição das competências conforme descrito na norma ISO-17100. 3.2 Objetivos específicos Em concretização dos objetivos acima mencionados, foram desenvolvidos os seguintes pontos por ordem cronológica: 1. Formação em ferramentas e plataformas variadas: idcp, Skype e FTP FileZilla 2. Formação nas ferramentas de tradução: a. Trados Freelancer 2007 b. Trados TagEditor c. Passolo 2016 d. TWS XLIFF Editor e. memoQ 8.4 f. Trados Studio 2017 g. Trados TagEditor, Trados Freelancer 2007, Trados Studio 2017 3. Formação nas plataformas de tradução: Crowdin, Smartling e Transifex 4. Formação nas ferramentas de revisão e Controlo de Qualidade (QA): a. Linguistic Toolbox (LTB) b. XBENCH 5. Integração dos métodos de procedimento de uma encomenda de tradução dentro do contexto empresarial, em equipa e orientado por um gestor de projetos. 7 3.3 Programa de estágio detalhado Tal como acordado com a empresa, o programa dividiu-se em três fases: 1. Formação nas ferramentas utilizadas pela empresa. Começamos com um período de formação nas ferramentas referidas acima que durou desde a primeira semana de abril, até ao final desse mês. Esta formação específica foi geralmente acompanhada de documentação introdutória, juntamente com tarefas práticas baseadas em exercícios preparados pela empresa, ou de traduções realizadas anteriormente. Os exercícios práticos eram avaliados posteriormente mediante um teste de controlo de qualidade, no qual a tradução era comparada com a versão publicada pela empresa. Recorrendo a este relatório de qualidade, procedia-se então à correção de quaisquer erros sinalizados, à sua categorização e posterior concessão ou contestação, adicionando, assim, uma dimensão extra à componente formativa desta primeira fase do estágio; 2. Traduções clonadas ( shadow translations ). Findo o período de formação, deu-se início a um período no qual foram efetuadas várias traduções clonadas. Nestas, o objetivo era, tal como indicado pela sua designação, repetir uma tradução anteriormente feita por outro tradutor da empresa. Posteriormente, fazendo uso do relatório de controlo de qualidade, era necessário mais uma vez comparar e aceitar ou contestar as traduções marcadas como erros. Esta segunda fase estendeu-se até ao final do estágio já que a terceira fase que incluía encomendas, tinha períodos onde não havia trabalho disponível, fazendo com que o foco do estágio recaísse na segunda fase; 3. Tradução de encomendas para clientes reais. A última fase apresenta finalmente encomendas de tradução reais a serem traduzidas e entregues dentro dos prazos esperados, em coordenação com o revisor destacado para o projeto e sob as orientações do respetivo gestor de projetos. Seria errado, no entanto, chamar a isto de uma fase contínua, visto que, devido à natureza do trabalho, nem sempre estas traduções reais estavam disponíveis. Como tal, estas foram sendo propostas ao longo de todo o estágio, finda a primeira fase de formação. 8 3.4 Estruturação do processo de tradução A empresa i-Disc possui uma plataforma privada, o idcp (i-Disc Collaboration Portal), criado nas suas origens enquanto empresa de desenvolvimento de software. Esta plataforma é mantida e atualizada pela equipa informática da empresa, o que demonstra a sua dedicação à permanente modernização das suas ferramentas. É através desta plataforma que o processo de tradução ocorre, sendo iniciado pelo gestor de projetos, tal como demonstrado abaixo. Figura 1 - Processo de Encomenda e Entrega de Tradução O gestor recebe a encomenda do cliente ou revendedor e verifica quais os tradutores que estão disponíveis para o par ou pares de línguas, os prazos desejados pelo cliente, o programa ou plataforma pretendida para o trabalho, bem como outras variáveis. Escolhido um tradutor ou tradutores, as encomendas são divididas em parcelas dentro do programa de tradução, sendo que cada uma destas pode apenas ser editada pelo tradutor designado pelo gestor de projetos. 9 Posteriormente, o gestor de projetos designa um revisor para o projeto, que procede à revisão do trabalho feito pelos tradutores. Em coordenação com o gestor e o cliente, tanto o tradutor como o revisor podem colocar dúvidas específicas, geralmente de origem terminológica, (mas também de outros domínios). Estas dúvidas são comuns quando a tradução se refere a uma área especializada, sendo respondidas ou pelo cliente ou por um especialista. Quaisquer correções a serem feitas, são realizadas de imediato pelo revisor se as achar necessárias, sendo que, posteriormente, estas mudanças são compiladas num Relatório de Controlo de Qualidade, (Q.A. Report) que é entregue ao tradutor original que pode, então, contestar as mudanças realizadas ou aceitá-las. É de notar que estas revisões são também realizadas com ferramentas próprias, que tal como na tradução facilitam imenso o trabalho do revisor, como o LBT e o XBench que serão exploradas mais à frente no relatório. Assim que o conteúdo final estiver satisfatoriamente traduzido, a tradução é entregue ao cliente. No entanto, o processo está ainda longe de estar terminado. A i-Disc trabalha maioritariamente com revendedores, ou representantes de marcas, que muitas vezes possuem as suas próprias equipas de revisão. Estas, em certos contextos, tal como na descoberta de uma falha grave, ou na adição de novo conteúdo, devolvem a tradução à empresa para uma nova tradução e revisão antes da impressão e distribuição final. 3.5 Competências desenvolvidas A ISO-17100 (International Standard, 2015) enuncia de modo abrangente as competências específicas que um tradutor deve ter para a produção de textos através de um processo de tradução em conformidade com os parâmetros de qualidade adequados e assegurados. Estas competências são explicitadas num segundo documento do EMT (European Master’s in Translation), redigido por Yves Gambier (Gambier, 2009). É a partir destes dois documentos que passo à explicação das competências adquiridas ao longo do estágio. 3.5.1 Fornecimento de serviços de tradução: Começamos pela competência fulcral para a prestação do serviço em si, analisada sob a dimensão interpessoal, correspondente à capacidade de trabalho em equipa e em regime colaborativo, e a dimensão de produção que diz respeito ao processo de organização e planeamento da tradução em si. A. Dimensão interpessoal. O mercado da tradução requer qualidade, eficiência e rapidez, qualidades obtidas mais facilmente através do trabalho em equipa, orientado e organizado. 10 Esta dimensão exige que o tradutor esteja ciente do seu papel social, desta necessidade da interação e negociação mútuas entre colegas de trabalho e clientes para definir prazos, taxas e condições de trabalho. Implica também que o indivíduo consiga trabalhar sob pressão, em equipa com várias pessoas, respeitando sempre o cumprimento da ética profissional e mantendo um espírito autocrítico. Durante o estágio, esta competência foi fortemente trabalhada durante a terceira fase, com vários projetos em contexto colaborativo, particularmente os que envolveram as plataformas, Crowdin, Smartling e Transifex. B. Dimensão de produção. Criar uma tradução apropriada ao pedido do cliente, respeitando o seu propósito (skopos) e contexto; saber definir os passos e estratégias necessários para a tradução de um documento, resolvendo os problemas de tradução com soluções apropriadas; saber justificar estas mesmas soluções, e, finalmente, saber como rever e corrigir uma tradução, ao mesmo tempo que são mantidos os padrões de qualidade, são alguns exemplos a seguir nesta dimensão. Ao longo do estágio foram encontrados vários problemas, alguns dos quais constarão da sua secção respetiva mais abaixo, sendo que foram também trocados vários relatórios de controlo de qualidade, no âmbito dos quais foi necessário justificar as opções realizadas. 3.5.2 Competências linguísticas: Estas competências passam pelo conhecimento profundo das línguas de trabalho, capacidade de compreender as estruturas gramaticais, lexicais e idiomáticas, e as convenções gráficas e tipográficas da língua A, assim como de outras línguas de trabalho que o tradutor possua (B, C). Esta competência foi trabalhada constantemente ao longo do estágio através das múltiplas traduções realizadas. Como mencionado anteriormente, as línguas de trabalho foram o Português, Inglês e Espanhol. 3.5.3 Competências interculturais: Estas competências requerem um conhecimento das nuances culturais que existem subjacentes às línguas de trabalho, dividindo-se nas dimensões sociolinguística e textual, sendo a primeira muito pouco explorada, infelizmente. A. Dimensão textual. A natureza desta dimensão envolve a compreensão das nuances acima mencionadas. Trata-se da capacidade de compreender e analisar a macroestrutura de um documento, compreender as alusões implícitas, estereótipos e a natureza intertextual do documento, avaliar problemas de tradução e encontrar soluções para estes, extraindo e 11 sumariando a informação essencial para a língua de chegada. Trata-se também de saber reconhecer valores e referências apropriados às culturas representadas, e de, a partir da informação recolhida, ser capaz de unir estes elementos culturais. Isto possibilita a composição de um documento de acordo com as convenções do género e dos padrões retóricos para essa língua, ou seja, os critérios específicos de argumentação e classificação. No contexto do estágio, e tendo em conta as línguas de trabalho, esta dimensão foi particularmente visível nos textos com o par Português – Espanhol, devido à similaridade entre as duas línguas, e a quantidade de termos fónica e graficamente similares, embora distintos no significado. Já do lado que envolveu o Inglês, esta dimensão demonstra ser mais simples, muito devido à pesada presença da cultura inglesa no nosso dia-a-dia, facto que facilita o conhecimento das nuances e a descoberta de equivalências. 3.5.4 Aquisição e procura de informação: Na era da informação, esta competência foi, de longe, a mais desenvolvida durante o estágio, pois exigiu a procura constante de termos e conceitos em documentos relacionados com temas distintos, muitos dos quais nos eram completamente desconhecidos. Saber desenvolver estratégias de pesquisa documental, extrair informação relevante, diferenciar a fiabilidade das fontes, utilizar motores de busca de forma eficaz e arquivar os documentos de modo organizado são alguns desses exemplos. 3.5.5 Competência temática: Esta competência liga-se à competência de produção, no sentido em que se refere ao respeito pelas normas, sistemas conceptuais, métodos de raciocínio, linguagem controlada, entre vários outros aspetos, específicos de um tema ou área em particular. Esta capacidade de adaptar o estilo e estruturação da tradução ao tema foi trabalhado várias vezes, em particular nas áreas cientifico-tecnológicas e do domínio jurídico, devido à aprovação do novo Regulamento Geral de Proteção de Dados, implementado durante a terceira fase do estágio. Um outro ponto que advém desta competência, é o desenvolvimento do espírito de curiosidade, de análise e de síntese, fulcrais para a compreensão de conteúdos de áreas de conhecimento novas para o tradutor. 12 3.5.6 Competência tecnológica: Finalmente, mas não menos importante, falamos da competência que constitui o cerne deste relatório. As ferramentas digitais são essenciais para o desenvolvimento do nosso trabalho. Como tal, compreender as limitações da tradução automática, saber como utilizar as aplicações disponíveis para o auxílio na tradução e correção de forma eficaz, utilizar a Internet e motores de busca, memórias de tradução, bases de dados e, acima de tudo, ser capaz de se adaptar a novas ferramentas, são alguns dos exemplos que caracterizam esta competência vital. As competências apresentadas nos pontos de Aquisição e procura de informação e de Competência tecnológica são de interesse particular para a temática deste relatório. Nestas podemos ver que a capacidade de controlar e aprender a utilizar novas ferramentas é não só uma vantagem, como também uma necessidade dentro do paradigma atual em que um tradutor tem, necessariamente, de recorrer a tais recursos. Esta necessidade é demonstrada com um estudo realizado pelo EMT, no qual à data, 99% de todas as empresas fazem uso de tais ferramentas (EMT, 2018). No que toca à capacidade de aquisição e procura de informação, esta ganha destaque na medida em que as informações terminológicas, idiomáticas e relacionadas com uma cultura específica estão disponíveis na internet. Informações que, anteriormente, estariam disponíveis apenas para alguns, podem agora ser acedidas graças ao desenvolvimento desta capacidade de procura pela informação, possibilitando um estado de formação contínua na qual o tradutor tem a possibilidade de se informar e manter informado sobre uma vasta gama de temas e conceitos. 13 4. Evolução e Formação O método de formação da empresa serve como o tema principal deste relatório, daí ser um ponto separado da apresentação da mesma. O seu programa de aprendizagem encontra-se estruturado para treinar o estagiário em várias ferramentas progressivamente mais modernas, transferidas do plano físico para o plano digital e online. Foi esta estruturação que inspirou a deste relatório, pois constituiu um momento de elucidação sobre o estado atual da tradução. 4.1 Da caneta… Os tempos longínquos de São Jerónimo e dos monges católicos, lenta e penosamente a traduzir a Bíblia, palavra a palavra, há muito tempo que ficaram para trás. Com eles, ficou também a prática da atividade à mão, com papel e caneta, uma ideia arcaica e obsoleta. A invenção da imprensa de Gutenberg e, posteriormente do dactilógrafo, vieram auxiliar em muito esta tarefa, mas foi com os computadores que, finalmente, os tradutores tiveram acesso a uma ferramenta que permitia criar e editar texto de forma fácil, sem ter de desperdiçar uma folha inteira devido a um único erro ortográfico. 4.2 …ao computador… Do advento do computador nasceram inúmeras ferramentas de crescente complexidade e funcionalidade que irei apresentar nas páginas seguintes. A sua organização está estruturada tendo em conta o quão deslocadas do contexto online estas se encontram. Começaremos pelas ferramentas completamente offline, em seguida apresentaremos as que estão sincronizadas com recursos online, e terminaremos com as completamente integradas na cloud, sem necessidade de aplicações além do browser. 4.2.1 Ferramentas offline não especializadas. As aplicações de computador de edição complexas como o Microsoft Word trouxeram consigo um novo padrão de qualidade e de conforto para o tradutor: correção ortográfica, formatação, exportação, entre várias dezenas de opções que permitem um controlo mais personalizado do texto. O Word, em conjunção com outros programas como o Excel, e dicionários de línguas que podiam ser importados, criaram um ambiente mais vantajoso comparado com as ferramentas anteriores. No entanto, apesar das múltiplas opções para o tradutor e das múltiplas ferramentas para o aumento do controlo de qualidade, apresentação e velocidade para o cliente, mesmo contando com os dicionários e as ferramentas de redação e revisão disponíveis, o Word e outros programas similares não constituem ferramentas especializadas para a tradução. 14 A crescente procura de serviços de tradução, mostrou que tais ferramentas eram cada vez mais insuficientes para satisfazer a oferta necessária, e atualmente, poucos são os tradutores profissionais que consideram tais aplicações como sendo capazes de auxiliar a tradução de modo satisfatório. Relembramos o estudo europeu realizado pelo EMT que exige, em nome da continuação da competitividade no mercado de trabalho, a evolução tecnológica que por consequência, se torna vital para empresas como a i-Disc. 4.2.2 Ferramentas offline com memórias de tradução. Tendo em mente o Word como paradigma, a crescente procura da tradução como um produto, torna-se essencial a agilização do processo. Desta necessidade nascem dois conceitos que, aliados, criam a base para as características de outras CAT Tools mais avançadas. Estes dois conceitos são a divisão do corpo do texto em segmentos, e a memória de tradução. O primeiro permite uma análise mais clara e distinta, tornando possível, num contexto de gestão de projetos, o agrupamento do texto em blocos de segmentos e a sua distribuição pelos vários tradutores do projeto. O segundo conceito, da memória de tradução, está presente em qualquer ferramenta nos dias de hoje tanto em ferramentas antigas como o Trados Freelancer, ou mais atuais como o memoQ ou o Trados Studio. Este conceito traz uma nova vertente pois permite evitar em grande parte a repetição de segmentos, ou partes de segmentos que já foram traduzidos anteriormente no texto. Utilizando um exemplo muito simples, faço referência a um exemplo do Anexo 1 encontrado adjunto a este relatório: “(…)refer to the Privacy Statement attached to the employment contract.”, traduzido como “(…)consulte a Declaração de Privacidade anexada ao contrato laboral.” Esta tradução será inserida na memória de tradução que irá sinalizar segmentos idênticos e inserir a tradução já realizada. O verdadeiro valor desta componente incide, porém na identificação de traduções parciais e reciclagem ou reutilização das mesmas. Se no texto em questão existisse algo como “refer to”, a componente iria inserir “consulte a.” caso esta tivesse sido confirmada anteriormente. Apesar da tradução não estar 100% correta, uma parte do segmento já está traduzido. Com isto, o tradutor pode acelerar o processo limitando-se a corrigir as diferenças nos segmentos parciais sinalizados. Em última análise, a memória de tradução é uma ferramenta vital que cresce continuamente com o uso, poupando tempo ao tradutor, especialmente com frases repetitivas de poucas alterações. 21 5. Outras ferramentas Findas as ferramentas exclusivamente para a tradução, resta explicitar outras ferramentas auxiliares que foram utilizadas durante o estágio, em particular, as ferramentas de revisão, de comunicação, de arquivamento e organização de ficheiros e diretorias. 5.1. Ferramentas de telecomunicação. A empresa i-Disc aposta muito na relação entre os trabalhadores, tendo em conta que, como demonstrado acima, a tradução é um trabalho colaborativo e em equipa. Neste sentido, a aplicação Skype foi de utilização obrigatória na empresa pois permitia a transmissão instantânea de informação, a marcação de encomendas para verificar a disponibilidade de tradutores e também um veículo para pedir ajuda a outros membros da empresa com problemas sobre a tradução sem necessitar sair do computador. Outra plataforma de comunicação utilizada pela empresa é o IBM Notes, uma plataforma de email online, onde é possível a troca de emails de foro administrativo ou financeiro, em substituição, ou em conjunto com o email pessoal. Finalmente, a empresa conta também com o previamente mencionado idcp para a organização do processo de tradução. 5.2. Ferramentas de arquivamento e organização. Uma outra ferramenta que convém mencionar é o Filezilla FTP, um sistema FTP para o arquivamento na cloud de todos os documentos traduzidos e a ser traduzidos, entre outros recursos úteis para o desenvolvimento da empresa e dos seus funcionários. Este tipo de organização torna-se vital com o passar do tempo, sobretudo porque, a qualquer momento, um determinado cliente pode reiniciar o processo de tradução, sinalizando problemas ou erros indicados numa encomenda passada. Como tal, a empresa ensina que é uma boa prática armazenar todos os documentos de qualquer tradução realizada. 22 5.3. Ferramentas de revisão. Estas ferramentas ajudam a rever documentos utilizando parâmetros e recursos de correção integrados no próprio programa. O LBT (Linguistic Toolbox) da Lionbridge pode ser utilizado para carregar um ficheiro com parâmetros prédefinidos pelo utilizador, que incluem dicionários, regras para o tratamento de termos, entre outros. Estes parâmetros são, por conseguinte, cruzados com o documento a ser corrigido, que sinaliza os segmentos conforme o que foi definido e cria um ficheiro Excel, um QA Report, ou Relatório de Controlo de Qualidade. Através deste documento, o revisor pode corrigir os erros e classificar o tipo de erro encontrado, entregando-o ao tradutor para que este possa contestar ou aceitar os erros. Dado que os parâmetros são pré-definidos seguindo regras específicas, por vezes alguns segmentos são sinalizados como erros, apesar de não o serem no contexto. Para estes casos, o ficheiro Excel que é criado contém uma secção onde podemos sinalizar quais dos erros sinalizados estão corretamente assinalados, podendo também classificá-los. Posto isto, é também possível excluir os que o LBT sinaliza erroneamente devido a limitações várias. O XBench funciona de modo similar, mas contém alguns recursos distintos, nomeadamente no modo como lida com palavras desconhecidas e falsos positivos, ou seja, os erros sinalizados incorretamente devido a limitações do programa. Um exemplo muito simples deste conceito de falsos positivos vem com a inserção de glossários pelo cliente. Uma palavra que tenha um termo para a traduzir, conforme indicado pelo cliente, poderá não ser a mais indicada em termos de linguagem, mas poderá dar-se o caso de que o cliente assim o prefere por motivos de marketing. Outro exemplo é o sistema de numeração que difere entre línguas e que deve ser alterado conforme a necessidade, mas que o programa assinala como erro, caso seja diferente. Por exemplo, 12 000 escreve-se com espaço em português, e com ponto em inglês. Se o texto de origem for inglês, 12 000 será assinalado como erro apesar de estar correto, daí sendo um falso positivo. 23 O tradutor pode selecionar as palavras identificadas como erro de uma tradução (marcadas a vermelho) e sinalizar quais as que constituem verdadeiros erros, passando-as para a coluna da direita, tal como se pode ver na imagem acima. Ao fazer esta separação, o revisor terá um trabalho facilitado na elaboração do seu QA, e também na posterior correção e contestação de erros, visto que o programa irá sinalizar ao tradutor quaisquer erros maiores que lhe tenham escapado, agilizando, assim, todo o processo. Figura 4 - XBench 24 6. Categorização de erro Dando continuidade ao tema da revisão, colocamos agora em destaque o Relatório QA, mencionado anteriormente. O ficheiro Excel onde é realizado o QA na i-Disc, é de importância fulcral para este documento, pois centraliza a formação oferecida pela empresa, e serve como base para a estruturação da análise de problemas de tradução. Os relatórios QA estão, geralmente, organizados em duas partes dentro do ficheiro Excel. A(s) aba(s) para a categorização do erro de tradução, e a aba com a informação relevante para a identificação do tipo de erro, incluindo o seu subtipo e a sua gravidade. Esta aba pode ser uma única ou várias dependendo da extensão do documento. Geralmente, projetos de tradução com mais do que um documento gera um Relatório QA com várias abas, uma para cada documento. Estas abas servem também para estabelecer a comunicação entre o revisor e o tradutor. Após a revisão dos erros por parte do revisor, o tradutor pode contestar ou aceitar as alterações, e estas são justificadas ou contestadas com recurso à última aba. Esta última aba informativa que serve de auxílio, pode ser verificada abaixo. Esta primeira secção da tabela, recortada devido a limitações de espaço, serve para indicar o tipo e o subtipo (ou razão) pela qual uma determinada tradução constitui um erro. Os vários tipos incluem uma curta definição que os sumariza, e, para cada um dos subtipos, uma explicação a justificar porque é que se constitui como um erro. Além do tipo de erro, a segunda característica importante a mencionar é a gravidade deste. Os níveis de gravidade podem ser consultados na próxima imagem. Figura 5 - Relatório QA: Tipo de Erro 25 Os níveis de gravidade classificam o erro de acordo com o quão danoso é para a compreensão do leitor. Como demonstrado acima, existem três níveis de gravidade: Críticos. Um único erro crítico impede a viabilização de todo o documento. Este tipo de erros é assim classificado por ser altamente visível, e pelas consequências severas que traz. Podem inclusive tratar-se de erros que o cliente considere ser desta severidade, ou seja, enquanto não forem corrigidos o documento não será aceite. Graves. Estes são erros que colocam em causa a qualidade de um segmento de texto, mas não todo o documento como um todo. A presença de dois destes erros é suficiente para invalidar um documento completo. Estes erros classificam-se por falhas graves no cumprimento de exigências do cliente, ou da linguagem em segmentos isolados. Menores. Tal como o seu nome indica, um erro menor é um erro que não põe em causa a inteligibilidade de um segmento, mas que é possível de notar. Por ser menor, a existência deste tipo de erros é mais permissiva, mas a presença excessiva de erros menores também irá invalidar o documento. Independentemente do tipo de erro, se estes forem detetados durante a revisão, estes serão simplesmente corrigidos pelo revisor. A classificação existe, tanto para servir como referência para o revisor, como para medir o nível de competência do tradutor. Como exemplo, a imagem seguinte mostra uma das tabelas de classificação tratadas durante o estágio. Figura 6 - Relatório QA: Gravidade do Erro 26 Na imagem acima, cortada por limitações de espaço, temos a tradução original, seguida da tradução, ou revisão, feita pelo revisor. Neste caso em particular, o revisor corrigiu a palavra “usuário” para “utilizador” tendo como contexto o original em inglês, “user”. Após introduzir a sua versão, o relatório é entregue ao tradutor, que terá apenas as duas primeiras colunas da imagem preenchidas. Com isto, o tradutor deve classificar o erro que cometeu, ou que teria cometido (mesmo que esteja correto). No exemplo acima, seria um erro menor de linguagem, porque para o texto em questão, em que a língua de chegada era o português do Brasil, tanto usuário como utilizador seriam aceitáveis. Posta a classificação, o tradutor pode aceitar ou contestar a correção do tradutor. Neste caso, contestamos a decisão e apresentamos a justificação para tal. Estas devem ser escritas sempre em inglês pois tratava-se da língua internacional dentro da empresa. Para este caso único, a explicação de “usuário” ser preferível a “utilizador” é que o texto se referia a um “computer user”, e apesar de utilizador estar correto, no português do Brasil, usuário é utilizado especificamente para definir um utilizador de computadores, e outros aparelhos e serviços informáticos ou computorizados. Tendo sido contestada a correção, resta ao revisor apresentar uma contraproposta, ou aceitar a justificação do tradutor. No caso apresentado, o revisor aceitou a justificação. Figura 7 - Relatório QA: Classificação do Erro do Segmento 27 6.1 LISA e outros sistemas de categorização Existem vários sistemas de categorização que utilizam diferentes parâmetros para a designação do tipo de erros encontrados. No caso demonstrado acima, o sistema utilizado pela empresa é o da LISA (Localization Industry Standards Association) QA Metric. Este propõe a divisão de erros pelos três graus de gravidade, menor, maior e crítico, assim como a categorização do tipo de erro entre 7 categorias: precisão, linguagem, terminologia, estilo, funcional, regional e conformidade. O mecanismo LISA seleciona os erros encontrados e multiplica cada um deles por um multiplicador associado com a gravidade do erro, que é tanto maior quanto a gravidade deste (SDL TMS, 2015). Assim sendo, um erro menor tem um multiplicador de 1, enquanto um crítico tem um multiplicador de 10. Isto diz-nos que 10 erros menores equivalem a um único erro crítico o que põe em perspetiva sobre que tipo situações um tradutor deve evitar a todo o custo. Calculada a pontuação total, esta é contrastada com o número total de palavras do texto, e caso o resultado esteja abaixo de um valor pré-determinado, a tradução não é aprovada. No entanto, esta rejeição é apenas informativa visto que o texto seguirá o seu decurso normal de revisão. Como tal, o mecanismo serve mais como uma medida da performance do tradutor. O mecanismo da LISA é o resultado da progressão natural advinda dos seus predecessores, o modelo TMS Classic, e o modelo SAE J2450. No primeiro, os erros não tinham classificação por gravidade, apenas por tipo com todos a receber a pontuação de 1 (SDL TMS, 2015). No segundo, a divisão de severidade aparece nas duas categorias de “menor” e “sério” (SDL TMS, 2015). Esta divisão seria feita novamente pelo sistema LISA para as categorias menor, maior e crítico. O sistema de divisão da LISA acaba por ser o mais objetivo especialmente quando comparado com o inicial TMS Classic. Um erro que não afete a compreensão do texto, não é comparável a um que o faça, ou que transmita informação incorreta, daí ser importante realizar esta distinção. Com estas noções em mente, procedemos agora à apresentação de resultados e análise de problemas. 28 7. Resultados Esta secção destina-se à identificação dos resultados gerais das traduções realizadas, que serão apresentadas de forma resumida e genérica, com a intenção de colocar o foco nos problemas específicos encontrados ao longo das traduções, e das soluções respetivas encontradas ou desenvolvidas. Posteriormente, apresenta-se uma curta secção de análise exemplificativa dos relatórios de controlo de qualidade, efetuados durante o estágio, em complemento às traduções mencionadas. Fase do estágio Número de encomendas Total aprox. de palavras 1.ª Fase: Formação 20 13 000 2.ª Fase: Tarefas Clonadas 5 24 000 3.ª Fase: Encomendas Reais 25 30 000 7.1 Fases do Estágio 7.1.1. Formação Todas as traduções realizadas neste contexto foram feitas previamente por outros tradutores, sendo posteriormente comparadas e acompanhadas de um relatório de controlo de qualidade (QA) para a análise e classificação dos erros e discrepâncias encontradas, assim como para a contestação e discussão dos mesmos. De entre as várias traduções realizadas nesta fase formativa, apenas uma conteve os pares de línguas Espanhol – Português, tendo todas as outras sido desenvolvidas nos pares Inglês – Português. 7.1.2. Traduções clonadas A segunda fase do estágio envolveu a realização de traduções clonadas, ou seja, traduções anteriormente realizadas por terceiros, que foram posteriormente comparadas com o trabalho realizado. Apesar de similar à primeira fase, a componente formativa manteve-se, embora a um nível de autoaprendizagem, na medida em que se pedia ao estagiário que lidasse com as tarefas como se se tratasse de encomendas reais de tradução, respeitando prazos, requisitos e registo, entre outros parâmetros. 29 7.1.3. Traduções reais A terceira fase do estágio exigiu o tratamento de encomendas de tradução oriundas de clientes reais, sendo que, devido às limitações de procura e disponibilidade, foi intercalada com a segunda fase. Esta decisão serviu para preencher os períodos em que não existiam encomendas, ou quando as que existiam eram de volume reduzido. Nesta lista não constam várias traduções de volume extremamente reduzido, realizadas em grande escala em plataformas como o Crowdin, Transifex e Smartling, cujo armazenamento dos documentos trabalhados não foi possível devido a motivos de sigilo profissional. A vasta maioria das traduções realizadas teve como pares de línguas o Inglês – Português, com apenas uma única instância de Inglês – Espanhol e uma de Espanhol – Português. 7.2 Condicionantes e temáticas É importante mencionar os temas nos quais se centraram grande parte das traduções reais, porque dizem respeito a conteúdos previamente discutidos neste relatório. As encomendas de tradução foram dominadas por documentos do domínio científico-tecnológico e do domínio legal. Da primeira parte, temos inúmeras traduções, de volume muito reduzido, de sites e plataformas de criptomoedas, um conceito atual, numa época em que as moedas digitais como a Bitcoin atingem os 5000 euros. O investimento de outras empresas que tentam seguir o sucesso da criptomoeda original é o grande motivador para a quantidade de encomendas deste tipo. Quanto à segunda parte, várias empresas encomendaram a tradução da atualização do RGPD, e, sendo que o período de estágio coincidiu com o momento de implementação deste regulamento, muitas das encomendas foram desta natureza. Estes dois fatores influenciaram o volume e o conteúdo das encomendas de tradução da terceira fase e encaixam-se, entre outros, no domínio da competência interpessoal, segundo a qual o tradutor deve estar a par dos acontecimentos e das necessidades flutuantes do mercado. A primeira, em particular, apresenta uma relevância especial para o relatório na medida em que todas as traduções foram realizadas num ambiente comunitário, multilingue e através de plataformas completamente online. A sua tradução foi realizada em sincronia com os tradutores de outras línguas e sob o aval do cliente, sendo possível o acesso a glossários, memórias de tradução e outros recursos, incluídos dentro da plataforma do idcp. 30 8. Análise de problemas Analisamos em seguida alguns exemplos de problemas encontrados ao longo do estágio nas várias encomendas trabalhadas. Cada um destes exemplos enquadram-se num anexo referido no início de cada secção. Estes anexos estão disponíveis nos CDs para uma eventual contextualização adicional das razões que levaram à solução apresentada. A lista contém tanto problemas encontrados durante a tradução em si, como durante a contestação de erros assinalados pelo revisor aquando da entrega dos relatórios de QA. Os exemplos estão dispostos de acordo com o tipo de problema ou erro que constituíam conforme o sistema de QA utilizado pela i-Disc. Finalmente, os problemas descritos abaixo dizem respeito apenas aos documentos da segunda e terceira fases, servindo o propósito de demonstrar o trabalho prático realizado ao longo do estágio. 8.1 Precisão Ex. Língua A. Inglês (EN) Língua B. Português (pt_PT) - Tradução Língua B. Português (pt_PT) - Revisão Subtipo de Erro A Privacy Shield Escudo de Privacidade Escudo de Proteção de Privacidade Adição B Time & Attendance (ESC) Presença e pontualidade (ESC) Tempo e assiduidade (ESC) Significado incorreto C (Exec) Virus scanner (Exec) Scanner de Vírus (Exec) Detetor de Vírus Texto não localizado D Worldwide Mundial Em todo o mundo Significado incorreto E Vendor, depending on country to the nearest premises of Vendor Fornecedor, dependendo do país para as premissas mais próximas do fornecedor Fornecedor, dependendo do país mais próximo das instalações do fornecedor Significado incorreto F Driving business results through accountability and talent development A impulsionar resultados de negócios através da responsabilização e do desenvolvimento de talentos Obtenção de resultados de negócios através da responsabilização e do desenvolvimento de talentos Significado incorreto 37 8.4 Estilo Ex. Língua A. Inglês (EN) Língua B. Português (pt_PT) - Tradução Língua B. Português (pt_PT) - Revisão Subtipo de Erro A Health & Safety Training Treino de saúde e segurança Formação de Saúde e Segurança Estilo geral B Employee events (EHQ, ESC) Eventos de funcionários (EHQ, ESC) Eventos de colaboradores (EHQ, ESC) Estilo geral C (Exec) Active Directory (Exec) Diretoria ativa (Exec) Diretório ativo Estilo geral D Foot Locker, saved per location (EHQ, ESC, Recklinghausen) Foot Locker, guardado por localização (EHQ, ESC, Recklinghausen) Foot Locker, armazenado por localização (EHQ, ESC, Recklinghausen) Estilo geral Anexos: Os exemplos acima, de A a D correspondem ao Anexo 1. Esta secção está de mãos dadas com a da Linguagem, sobretudo em termos da gravidade dos erros encontrados pelo revisor. A quase totalidade das correções de estilo devem-se às diferenças de escrita pessoais entre o tradutor e o revisor. Olhando para os exemplos acima, Treino é uma tradução muito literal, mas não deixa de estar correta no contexto, ainda que Formação seja o termo mais adequado. Colaboradores é, no contexto, um sinónimo de funcionários. Diretório e diretoria são duas grafias do mesmo conceito, uma pasta que contém ficheiros dentro do computador. E, finalmente, guardado e armazenado são também sinónimos. Em última instância, é uma questão de preferência, e é fácil fazer a equação entre precisão e linguagem. É de notar que existe um segundo subtipo de erro para estilo que não está presente por não ter ocorrido durante as encomendas. Este subtipo designa-se guia de estilo, e ocorre quando o cliente apresenta um registo específico que o tradutor deve seguir durante a tradução. Por exemplo, formal ou informal, ou algo menos específico como “algo próprio para adolescentes”, critério que foi requisitado numa das encomendas. 38 8.5 Regional Ex. Língua A. Inglês (EN) Língua B. Português (pt_PT) - Tradução Língua B. Português (pt_PT) - Revisão Subtipo de Erro A Fiat to fiat currency exchange - exchange between GBP, EUR & USD at an excellent rate Câmbio de moedas fiat - câmbio entre GBP, EUR e USD a uma taxa excelente --- Anexos: O exemplo acima corresponde ao Anexo 5. Problemas regionais incluem a utilização incorreta de formatos de data, unidades de medida, moeda, endereços e códigos zip. Estes pontos referem-se a padrões regionais ou nacionais e é o campo ao qual pertence o exemplo acima com as siglas GBP, EUR e USD, nomeadamente, o porquê de deixar as siglas e não colocar libra, euro e dólar. A razão para isto surge da preferência por este código internacional de modo a colocar estes valores de forma padronizada. Este esforço foi introduzido pela norma ISO 4217, instituída em 1978. Segundo o documento, os símbolos são substituídos por um código internacional que retira qualquer hipótese de ambiguidade, utilizando os códigos ISO 3166-1 alpha-2, definidos na ISO 3166-1, que por sua vez constitui parte do código ISO 3166 para a representação de países, regiões dependentes e áreas especiais de interesse geográfico. Segundo estas normas, o código que irá substituir o símbolo monetário é escolhido utilizando as duas letras do país conforme designado pelo ISO 3166-1 alpha-2, e sendo adicionada uma terceira letra, a primeira da moeda em questão. Usando os Estados Unidos da América como exemplo, temos US (United States) e D (Dólar), ou seja, USD. Existem alguns casos onde este código não segue as normas habituais, sendo utilizado para um conjunto de países, ou área geográfica, onde uma única moeda é partilhada, como é o caso da União Europeia. Aqui temos EU (European Union) que, normalmente, teria um E de Euro, mas por estar na lista de exceções do ISO 3166 apresenta-se como EUR, muito similar a Euro. Antes de proceder à análise do segundo tipo de problemas regionais, há que mencionar o uso do termo moeda fiat, presente no segmento que foi assim traduzida a pedido pelo cliente, devida à existência de um termo já aceite, moeda fiduciária. O adjetivo fiduciário define algo como sendo de confiança. Moeda fiduciária é como tal, um título sem valor intrínseco, 39 retirando-o da confiança que as pessoas têm em quem emitiu o título, geralmente o governo. No contexto, esta designação aparecia emparelhada com o termo criptomoeda que, aplicando um pouco de morfologia, surge da junção de cripto- (escondido), com moedas. Seguindo a formação de outras palavras similares como criptografia, criptoanálise, criptobrânquio, entre outras. Opta-se assim pela criação da palavra justaposta. Esta palavra possui um termo alternativo, moeda digital, mas a pesquisa efetuada aquando da tradução mostra uma preferência pelo primeiro termo. Infelizmente, as traduções referentes às criptomoedas foram realizadas sob sigilo, e como resultado, não foi possível apresenta-las nos anexos. O segundo tipo de problema regional relaciona-se com segmentos de texto que façam referência a expressões locais, leis, trabalhos, provérbios, entre outros que percam o significado ao ser traduzido para a língua e cultura de chegada, necessitando de uma adaptação. No decorrer do estágio, não foram encontrados exemplos deste ponto. 8.6 Funcional e de Cumprimento O primeiro ponto desta categoria diz respeito a erros que são de natureza técnica e não linguísticos. Exemplos incluem erros de formatação, listas mal sinalizadas, formatação de etiquetas alteradas, etiquetas de memórias de tradução corrompidas, entre vários outros. O segundo ponto diz respeito a casos onde os requisitos, parâmetros ou instruções dadas para o projeto de tradução, quer pela empresa, a i-Disc, quer pelo cliente, não sejam respeitadas. Felizmente, não foram encontrados erros deste tipo durante a realização das encomendas. 8.7 Outros Anexos Finda esta análise de resultados, resta mencionar que serão incluídos outros anexos para além dos mencionados durante a análise para constatação do volume dos conteúdos trabalhados ao longo do estágio, relembrando que muitos deles foram alterados de modo a garantir o sigilo profissional. 40 9. Conclusão e Comentário Final O mundo da tradução está integrado no mercado global e deu já grandes passos na marcha da evolução tecnológica. O antigo paradigma da ausência de ferramentas de auxílio à tradução está cada vez menos presente, e a tendência é que esta evolução continue para um estado cada vez mais online, separado dos limites físicos do computador, em direção a um ambiente online, na cloud. Também há algo a ser dito sobre a cooperação com outras pessoas, outro conceito que advém desta globalização. Com o aumento da procura pelas traduções, de forma célere e com qualidade, a necessidade de coordenação em equipa com múltiplas pessoas sob a supervisão de um gestor de projetos torna-se um conceito familiar. No que toca à informação e a maneira como esta é utilizada, o conhecimento da língua em si continua a ser vital para a realização da tradução, mas tal conhecimento serve apenas para a escrita coesa, fluída e gramaticalmente correta. Entrando no domínio do vocabulário, um tradutor, por muito informado que seja, rapidamente descobrirá a vasta gama de temas com que nunca lidou. Ao atingir este espectro especializado, cria-se uma necessidade de pesquisa que não é fornecida pelo mero conhecimento académico da língua. Para isso, o tradutor deve agora ter a agilidade mental e o conforto tecnológico para obter essas informações especializadas no mundo online e em rede. Deve também ser capaz de lidar com novas tecnologias em desenvolvimento, e com novas ferramentas substituídas repetidamente, com atualizações, novas características, e novos modos de funcionamento com os quais se deve ambientar. Em suma, o mundo do tradutor há muito que abandonou as suas humildes origens dos monges católicos. O tradutor já não é um indivíduo solitário, por detrás de uma secretária, copiando minuciosamente um texto palavra a palavra. Junto de empresas como a i-Disc e inserido no mercado global, o tradutor é agora um trabalhador moderno, ligado à rede, a par das tecnologias que em muito auxiliam a execução da sua profissão. Talvez um dia este avanço tecnológico venha a suprimir de vez a necessidade do papel do tradutor, mas por enquanto, a agilidade tecnológica, a capacidade de pesquisa e o trabalho em comunidade, interconectado, e organizado e em equipa, continuam o legado iniciado por São Jerónimo. Ficamos apenas com a curiosidade sobre o que estará para vir. 41 10. 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