Ler Peter Pan hoje
Abstract
Síntese dos temas constantes na obra Peter Pan. Literatura Infantil e Imaginário, publicada com a chancela do Centro de Investigação em Estudos da Criança da Universidade do Minho.
Full text
5 Ler Peter Pan hoje Fernando Azevedo Alberto Filipe Araújo Joaquim Machado de Araújo Peter Pan representa hoje um ícone na cultura e na literatura popular. Com efeito, o jovem rapazinho, que se recusa a crescer e que, regularmente, visita as crianças para as levar a descobrirem a Terra do Nunca, autonomizou-se do seu criador e é reconhecido por si só. Este volume reúne contribuições de especialistas nacionais e estrangeiros das áreas da Literatura Infanto-Juvenil e do Imaginário Educacional. No primeiro capítulo, intitulado Da hermenêutica dos paratextos: leituras de capas de Peter Pan, Fernando Azevedo, Ângela Balça e Moisés Selfa Sastre analisam um conjunto de oito capas da obra Peter Pan, buscando, nesses elementos paratextuais, percursos interpretativos adjacentes que complementam e, em alguns casos, subvertem ou anulam algumas das linhas de leitura dominantes que a tradição e as comunidades interpretativas lhe têm atribuídas. O ponto de partida dos autores é que a composição gráfica dos elementos paratextuais não é ingénua ou destituída de valores ideológicos. Escolher o que mostrar ou selecionar algo como elemento agregador constitui um ato deliberado do editor, a que se podem associar outras vozes como o ilustrador, o tradutor ou o adaptador. Os autores concluem que a análise dos paratextos
6 mostra que esta é uma narrativa que pode ser lida numa pluralidade de perspetivas. Se a tónica dominante é a representação iconográfica das crianças voando sobre o céu da grande cidade, numa noite de luar, sugerindo a emancipação das mesmas face ao mundo dos adultos, noutras situações, o foco da atenção do leitor centra-se na perspetiva das aventuras, convidando o leitor a ativar determinados quadros de referência que, provavelmente, já farão parte da sua competência enciclopédica. No segundo capítulo, intitulado Peter Pan, um herói sob o signo do Puer Aeternus, Alberto Filipe Araújo, Joaquim Machado de Araújo e Iduína Mont’Alverne perscrutam a identidade de Peter Pan, o menino que, não querendo crescer, se refugia na na “Terra do Nunca”, onde lhe é possível viver na sua condição de criança e viver aventuras intermináveis numa espécie de presente eterno. Os autores asseveram que esta sua condição de Criança arquetipal (Jung), caraterizada pela rejeição do crescimento e pela consequente perpetuação do estado da infância, remete para o arquétipo da “eterna juventude” ou do puer aeternus, cujas caraterísticas arquetípicas podem ser encontradas nos mitos gregos dos deuses Pã, Hermes e Dioniso e da figura mítica de Ícaro. Trata-se de um estudo que, ancorandose na perspetiva junguiana e neo-junguiana e da mitocrítica de Gilbert Durand, assinala o perfil mítico de Peter a partir daqueles mitos e arquétipos e o analisa na sua qualidade de criança heroica complexa, que assume facetas de anti-herói, caraterizando-o como um herói de tipo solar e lunar. No terceiro capítulo, intitulado Da Criança Interior: A abordagem de James M. Barrie, Joaquim Machado de Araújo e Alberto Filipe Araújo estudam as diversas histórias contidas na narrativa, nomeadamente a de Peter Pan, o menino que quer continuar a ser criança, e a de Wendy, a menina que decide voluntariamente tornar-se adulta, e evidenciam como o
7 entrelaçamento destas duas histórias com a dos “meninos perdidos” e a dos pais de Wendy conduz o leitor ao interior da “mente” infantil e, permite o autoconhecimento do adulto e o reconhecimento e a libertação da Criança interior. Este estudo identifica os tipos de lar que estão presentes em Peter Pan e que constituem cenários estruturantes da narrativa, distingue as conceções de mãe que nela se confrontam, explicita indícios que ajudam a desvendar o mistério da sombra de Peter Pan e assinala o ideal sugerido pelo criador de Peter Pan, um ideal que resulta da superação da cisão criança-adulto através do amor maternal e da libertação da Criança interior. No quarto capítulo, intitulado Peter Pan e a eterna infância, Alberto Filipe Araújo e Joaquim Machado de Araújo centram-se na personagem criada por James Matthew Barrie, uma criança que se carateriza sobretudo pela rejeição do crescimento e a perpetuação do estado de infância e descrevem a imagem arquetípica da criança, evocando aspetos marcantes do seu simbolismo e explicitando os seus contornos míticos. Este estudo arrola as caraterísticas de Peter Pan que fazem dele metamorfose da figura arquetipal da Criança e permitem compreender de que modo a figura deste herói infantil age sob a influência do puer aeternus. No quinto capítulo, intitulado Peter Pan e Pedrinho: dois meninos brincantes na ficção para infância, Eliane Debus analisa a versão brasileira de Peter Pan, adapatada por Monteiro Lobato, a partir da obra de James Barrie. A autora destaca o dialógo intertextual e as práticas de homenagem paródica que Lobato estabelece com a personagem e a narrativa de Barrie, ao longo das suas obras. Peter Pan, de Barrie, e Pedrinho, de Monteiro Lobato, cruzam-se e o menino inglês da Terra do Nunca faz parte do imaginário dos leitores brasileiros, ao viver aventuras com o menino brasileiro do Sítio do Picapau Amarelo. Nas outras oito narrativas em que a personagem aparece, ora de modo mais
8 articulada, ora em passagens rápidas, Lobato utiliza estratégias várias para apresentar aos leitores brasileiros a história de Peter Pan, até então não traduzida no Brasil. Instigando nas personagens do Sítio e no leitor o espírito detetivesco, vai lançando, ao longo das narrativas, pistas se Pena de Papagaio, Peninha e Peter Pan seriam a mesma figura. No sexto capítulo intitulado Compreendendo Peter Pan: Práticas de leitura para a sala de aula, Renata Junqueira de Souza e Fernando Teixeira Luiz partem da obra de James Barrie e propõem um conjunto de estratégias de leitura baseadas nos princípios da compreensão leitora (inferência, conhecimento prévio, visualização, conexão, perguntas ao texto, sumarização, e síntese), visando dotar os professores de pressupostos teóricos capazes de os ajudarem a pensar em práticas pedagógicas para abordar Peter Pan em contexto de sala de aula. No último capítulo, Ecos dos lugares de Peter Pan: coordenadas improváveis para lugares intangíveis, Paulo Costa convoca três textos que, no seu entender, se conectam entre si, por meio de complexas relações de diálogo intertextual, efectuando uma fina e minudente leitura hermenêutica dos mesmos: A Utopia, de Tomás Morus; As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino, e Peter Pan, de J. M. Barrie. No seu conjunto, os vários capítulos percorrem vias hermenêuticas diversas, mas complementares, assinalando a relevância e a capacidade de novas e inusitadas leituras deste clássico da literatura infanto-juvenil. CIEC, Instituto de Educação, Universidade do Minho, 2017