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Práticas de tradução e adaptação cultural: experiência profissional na Câmara Municipal de Braga

Volkov, Denis

Abstract

O presente relatório tem como objetivo descrever o trabalho realizado durante o estágio curricular para conclusão do Mestrado em Tradução e Comunicação Multilingue (MTCM) na Universidade do Minho. Este estágio foi realizado na Divisão da Cultura da Câmara Municipal de Braga durante 15 semanas, entre os dias 5 de fevereiro e 21 de maio de 2019. O estágio curricular é um marco fundamental para colocar em prática todos os conhecimentos adquiridos ao longo do curso do mestrado e consolidá-los num ambiente profissional. O estágio consistiu na tradução, de português para inglês e russo, de vários materiais destinados à promoção de eventos culturais organizados e realizados pela Câmara Municipal de Braga, tanto através dos sites institucionais da CMB como em material impresso. Foi o meu pequeno contributo para facultar informação multilingue e suporte aos visitantes da cidade de Braga no âmbito de iniciativas de desenvolvimento turístico apoiadas pela Câmara Municipal. Do ponto de vista prático, para além da própria tradução, foi criada uma base terminológica multilingue que pudesse ser utilizada em futuros projetos de tradução e, assim, assegurar a coerência dos textos produzidos pela/para a Câmara. Foi também elaborada uma proposta de um breve guia de estilo que permite fornecer orientações linguísticas, podendo ser utilizado como referência para futuras encomendas de tradução pela Câmara. Em termo de análise prática do trabalho, uma atenção especial foi prestada aos problemas de tradução de nomes próprios e de referências culturais (também conhecidas como realia) em contexto da divulgação de materiais de cariz histórico-cultural.

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Universidade do Minho Instituto de Letras e Ciências Humanas Denis Volkov Práticas de tradução e adaptação cultural: experiência profissional na Câmara Municipal de Braga dezembro de 2021 Práticas de tradução e adaptação cultural: experiência profissional na Câmara Municipal de Braga UMinho | 2021 Denis Volkov Universidade do Minho Instituto de Letras e Ciências Humanas Denis Volkov Práticas de tradução e adaptação cultural: experiência profissional na Câmara Municipal de Braga Relatório de estágio Mestrado em Tradução e Comunicação Multilingue Trabalho realizado sob a orientação de: Professor Doutor Fernando Gonçalves Ferreira Alves Professora Doutora Nadejda Ivanovna Nagovitsina Machado dezembro de 2021 ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição-CompartilhaIgual CC BY-SA https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/ iii AGRADECIMENTOS Antes de tudo, apresento os meus sinceros agradecimentos ao Professor Doutor Fernando Gonçalves Ferreira Alves e à Professora Doutora Nadejda Ivanovna Nagovitsina Machado pela orientação e pela ajuda na elaboração do presente relatório de estágio através das suas valiosas sugestões e revisões. Agradeço ainda a todos os professores do curso de Mestrado em Tradução e Comunicação Multilingue pela dedicação e por todo o apoio prestado durante os meus dois anos na Universidade do Minho. Quero também agradecer à Dra. Sílvia Faria, Chefe da Divisão da Cultura da Câmara Municipal de Braga, por me ter aceitado ao estágio. Por último, gostaria de agradecer à minha família pelo apoio incondicional ao longo de todo o meu percurso académico. iv DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. v RESUMO Práticas de tradução e adaptação cultural: experiência profissional na Câmara Municipal de Braga O presente relatório tem como objetivo descrever o trabalho realizado durante o estágio curricular para conclusão do Mestrado em Tradução e Comunicação Multilingue (MTCM) na Universidade do Minho. Este estágio foi realizado na Divisão da Cultura da Câmara Municipal de Braga durante 15 semanas, entre os dias 5 de fevereiro e 21 de maio de 2019. O estágio curricular é um marco fundamental para colocar em prática todos os conhecimentos adquiridos ao longo do curso do mestrado e consolidá-los num ambiente profissional. O estágio consistiu na tradução, de português para inglês e russo, de vários materiais destinados à promoção de eventos culturais organizados e realizados pela Câmara Municipal de Braga, tanto através dos sites institucionais da CMB como em material impresso. Foi o meu pequeno contributo para facultar informação multilingue e suporte aos visitantes da cidade de Braga no âmbito de iniciativas de desenvolvimento turístico apoiadas pela Câmara Municipal. Do ponto de vista prático, para além da própria tradução, foi criada uma base terminológica multilingue que pudesse ser utilizada em futuros projetos de tradução e, assim, assegurar a coerência dos textos produzidos pela/para a Câmara. Foi também elaborada uma proposta de um breve guia de estilo que permite fornecer orientações linguísticas, podendo ser utilizado como referência para futuras encomendas de tradução pela Câmara. Em termo de análise prática do trabalho, uma atenção especial foi prestada aos problemas de tradução de nomes próprios e de referências culturais (também conhecidas como realia ) em contexto da divulgação de materiais de cariz histórico-cultural. Palavras-chave: adaptação cultural, estágio curricular, promoção cultural, tradução especializada, turismo cultural vi ABSTRACT Translation and cultural adaptation practices: professional experience at Braga City Council This report aims to describe the work performed during the curricular internship for the conclusion of the Master’s Degree in Translation and Multilingual Communication (MTCM) at the University of Minho. This internship was held during 15 weeks, from February 5 till May 21, 2019, in the Department of Culture of Braga City Council. The internship is a fundamental milestone aimed at putting into practice all the knowledge acquired during the master’s course and at consolidating it in a professional environment. The internship consisted of the translation, from Portuguese to English and Russian, of various promotional materials for cultural events organized and held by the Braga City Council. These materials have been used on City Council’s institutional websites and in handouts for tourists. It allowed for contribution into improved provisioning of tourist information and multilingual support for English-speaking and Russian-speaking visitors to Braga within the scope of tourist development initiatives embraced by the City Council. From the practical point of view, along with translation there was created a specialized multilingual terminological database. It can be used in forthcoming translation projects and thus ensure consistency of texts produced by or for the City Council. A draft of a brief style guide has also been prepared to provide language guidance and reference for future translation ordered by the City Council. In terms of practical analysis of the work, special attention has been paid to challenges in translating proper names and cultural references (also known as realia ) in text of historical-cultural nature. Keywords: cultural adaptation, cultural promotion, cultural tourism, curricular internship, specialized translation vii АННОТАЦИЯ Перевод и культурная адаптация текстов: профессиональный опыт в мэрии города Брага Целью настоящего отчёта является описание работ, выполненных в рамках стажировки по окончании курса магистратуры по переводу и многоязычной коммуникации в университете Минью. Стажировка проходила в течение 15 недель, с 5 февраля по 21 мая 2019 года, в Отделе культуры мэрии города Брага. Академическая стажировка завершает программу курса магистратуры и призвана закрепить полученные в ходе обучения знания, применить и усовершенствовать их на практике. В ходе стажировки были выполнены переводы различных материалов, подготовленных мэрией Браги для продвижения культурных мероприятий, проводимых в городе. Переводы выполнены с португальского на английский и русский языки. В рамках инициатив мэрии по развитию туризма удалось улучшить представление информации о достопримечательностях города для англоговорящих и русскоговорящих туристов на тематическом веб-сайте. С практической точки зрения, кроме собственно переводов, была также создана многоязычная терминологическая база, которая может быть использована в будущих проектах и позволит обеспечить терминологическую консистентность и повысить общее качество переводов. Кроме того, было сформулировано предложение по созданию краткого руководства по стилю, которое может быть использовано в качестве справочного материала переводчиками, работающими над проектами мэрии. Особое внимание в рамках практического анализа было уделено проблемам перевода имён собственных и культурных реалий, а также способам их решения в историко-культурном контексте с учётом специфики туристических текстов. Ключевые слова: культурная адаптация, перевод, стажировка, туризм 3 II. Estado de arte Os termos e expressões que designam especificidades culturais de uma determinada cultura podem constituir problemas de tradução. Ao referir a tais fenómenos, vários estudiosos utilizam uma nomenclatura muito variada. Bertoldi (2016) apresenta uma breve perspetiva histórica de estudos nesta área e cita várias denominações utilizadas para se referir os marcadores culturais: traços culturais, termos culturais, palavras culturais, referências culturais, elementos culturais específicos, realia, enquanto Nord (2003) discute várias técnicas de tradução e a adaptação de nomes próprios. Podemos distinguir dois níveis em que, muito provavelmente, as estratégias de tradução irão diferir: o nível macro e o nível micro. Ao nível macro, os exónimos, ou seja, nomes pelos quais os nomes próprios são conhecidos noutra língua, são, na sua maioria, dicionarizados, e o uso destes apresenta menos desafios na tradução. Os casos mais comuns são os exotopónimos (traduções e adaptações de nomes de lugares: ru: Москва, en: Moscow, pt: Moscovo) e exantropónimos (traduções e adaptações de nomes de pessoas: it: Giovanni Paolo II, en: John Paul II, pt: João Paulo II, ru: Иоанн Павел II). Ao mesmo tempo, a nível micro, tais classes na nomenclatura onomástica como hodónimos (nomes de ruas), orónimos (nomes de montes e serras), hagiotopónimos, ou seja, nomes de lugares que incorporam nomes de santos, ou hagiónimos, podem criar dificuldades na tradução. Por exemplo: Avenida da Liberdade – Liberdade Avenue / Liberty Avenue; Largo de São Paulo – São Paulo Square / St. Paul’s Square / St. Paul Square. Por vezes, até no mesmo texto, alguns tradutores não conseguem seguir a mesma estratégia de uma forma rígida e sistemática. Isto não depende necessariamente de uma tradição histórica ou cultural. Palavras e frases sem equivalentes diretos em outras línguas são, por vezes, muito difíceis de traduzir. Em línguas que utilizam o mesmo sistema gráfico, como é o caso do português e o inglês, é comum utilizar empréstimos enquanto estratégia de tradução mantendo a grafia original no texto traduzido. Para as línguas com sistemas gráficos diferentes, as possíveis soluções são a transliteração ou a transcrição. 4 Para o russo, os estudos sobre a tradução de nomes próprios e de referências culturais centram-se, na maioria, em análises descritivas e comparativas de traduções literárias na combinatória de inglês-russo. Não nos é conhecido nenhum trabalho que aborde esta questão na combinatória de português-russo. 5 III. Contextualização Braga é uma cidade bimilenar muito rica em património material e imaterial. A Câmara Municipal de Braga tem feito muito trabalho em divulgar informações de cariz cultural e valorizar a cidade a nível nacional e internacional. Em 2018, a candidatura do Santuário do Bom Jesus do Monte foi submetida à Lista do Património Mundial e em julho de 2019 o mesmo foi incluído na Lista do Património pela UNESCO. No mesmo ano de 2019, Braga foi votada o segundo “Melhor Destino Europeu 2019” ( Jornal de Notícias , 5.02.2019). Tudo isto destaca a importância dos materiais de promoção cultural em vários idiomas. Conforme os dados estatísticos mais recentes disponíveis, “[e]m termos de crescimento, a nacionalidade com maior crescimento no registo de visitas ao Posto de Turismo de Braga foi a britânica (222,83%)” ( O Minho , 27.09.2017), “[e]ntre 2013 e 2018, o Posto de Turismo de Braga recebeu 1 milhão e 500 mil turistas nacionais e estrangeiros” ( O Vilaverdense , 28.09.2018). Segundo os dados do SEF, a nível nacional, no ano de 2018, o número de estrangeiros residentes em Portugal registou um aumento de 13,9% e atingiu o total de 480.300 pessoas, sendo a nacionalidade britânica no 5º lugar do ranking com um crescimento de 17,9%, em relação ao ano anterior (RIFA, 2018). No mesmo ano, o número total de visitas a Braga subiu 5% em relação ao ano anterior ( Diário de Notícias , 27.09.2018) e no 1º semestre de 2019 o Posto de Turismo de Braga registou um “aumento de 12% face a igual período do ano passado” ( Publituris , 2.8.2019). Este crescimento constante justifica a importância das traduções de materiais promocionais para o inglês e outras línguas estrangeiras. Outra faceta do trabalho, embora de menor proporção, foi a tradução de materiais promocionais no âmbito da cultura, tais como textos para o site institucional da CMB e para folhetos informativos utilizados em visitas guiadas, do português para o russo. Atualmente, existe uma grande escassez de materiais promocionais de caráter cultural em russo, e a qualidade dos poucos materiais disponíveis tem de ser melhorada. Conforme os dados estatísticos do SEF (SEFstat, 2017 e 2018), a comunidade de imigrantes ucranianos continua a ser a segunda maior em Braga ultrapassada apenas por brasileiros. Em 2017, os imigrantes russos residentes em Braga ocupavam o 11º lugar neste ranking. Para a maior parte de imigrantes ucranianos, o russo é uma língua materna ou a segunda língua falada. Juntos, no ano de 2017, os imigrantes ucranianos e russos representavam mais de 11% do total de imigrantes no concelho de Braga e 6 mais de 12,5% no distrito de Braga. No ano de 2018, a percentagem relativa diminuiu devido ao crescimento de outras nacionalidades, mas continuavam a residir no conselho de Braga 570 imigrantes ucranianos e russos. Figura 1. Número de estrangeiros residentes no conselho de Braga (Fonte: SEFstat) Entre as mais variadas iniciativas culturais da Câmara Municipal de Braga destaca-se o Festival Internacional de Folclore de Braga que decorre anualmente em julho, regista grande afluência de público e é um grande encontro de culturas de vários povos do mundo. Nos últimos cinco anos (2014–2019), coletivos folclóricos da Rússia e da Ucrânia, entre outros, tomaram parte nesta iniciativa cultural, o que também justifica a importância de traduções de materiais promocionais para o russo, bem como para o inglês, sendo este último uma língua de comunicação internacional. A tradução de materiais para este festival constava na minha proposta inicial à Câmara Municipal, contudo a direção da Divisão da Cultura optou por limitar a encomenda às traduções para um outro evento cultural, Braga Romana. 604 72 64 505 65 71 0 100 200 300 400 500 600 700 Ucrânia Rússia Reino Unido 2017 2018 7 IV. Enquadramento do estágio 4.1. Motivação A Câmara Municipal de Braga (CMB) foi escolhida como o local do estágio com o intuito de contribuir para a promoção da cidade de Braga, sua história e cultura a nível internacional. A CMB tem um site (www.cm-braga.pt) cujo conteúdo está traduzido para o inglês e o espanhol. No entanto, o conteúdo em inglês precisa de ser homogeneizado, visto que, atualmente, há materiais escritos, tanto segundo a norma norte-americana como segundo a norma britânica, existindo uma certa incoerência a níveis terminológico e estilístico. Sendo um nativo da língua russa, também visava ajudar na criação de conteúdos destinados à comunidade de expressão russa residente em Braga. 4.2. Candidatura ao estágio O meu primeiro contacto com a CMB ocorreu em finais de outubro de 2018 quando passei pela Câmara e tive uma breve conversa com a Chefe de Direção de Cultura e propus a minha candidatura para o estágio curricular. Na primeira semana de novembro já comecei a formalizar o processo, ao enviar à Câmara um formulário de pedido de estágio curricular e, depois de a minha candidatura ter sido aprovada, o protocolo que foi assinado, da parte da Universidade, pelo Sr. Presidente do ILCH Prof. João Rosas, e da parte da Câmara, pelo Presidente da mesma, Dr. Ricardo Rio. Toda essa fase preparatória demorou quase três meses. O estágio decorreu na Divisão da Cultura da CMB durante 15 semanas, entre os dias 5 de fevereiro e 21 de maio de 2019. No dia a seguir, arrancou o festival Braga Romana para o qual a maioria das minhas traduções foi utilizada. O estágio foi supervisionado pela Chefe da Divisão da Cultura, Dra. Sílvia Faria. Da parte da Universidade do Minho, foi coorientado pela Prof. Nadejda Machado e pelo Prof. Fernando Ferreira Alves. A duração do estágio foi fixada no dia 4 de fevereiro quando foi realizada uma reunião de lançamento nas instalações da CMB com a Dra. Sílvia Faria e o Prof. Fernando Ferreira Alves. 8 Inicialmente, estava previsto que o estágio ia ser realizado em regime misto: presencialmente, nas instalações da Câmara Municipal de Braga na praça Conde de Agrolongo (Convento do Pópulo), em Braga, onde a Divisão da Cultura está sediada, e também em casa, mantendo a comunicação regular com a CMB através da Internet e permitindo, assim, uma melhor gestão de tarefas e do tempo. A vertente presencial limitou-se, afinal, a algumas reuniões curtas, visto que a Dra. Sílvia Faria se encontrava atarefada com as preparações para o festival Braga Romana. 4.3. Entidade acolhedora Figura 2. Divisão da Cultura na organigrama da CMB (Fonte: www.cm-braga.pt) A Divisão da Cultura tem como objetivos, entre outros, “dinamizar, coordenar e programar a atividade cultural do município” e “promover a publicação e o apoio à publicação de obras ou outros suportes de difusão dos valores culturais do município” ( Diário da República , nº 77/2017, p.9775). Esta promoção tem sido feita não apenas a nível nacional como também a nível internacional. 9 A Divisão da Cultura é chefiada pela Dra. Sílvia Faria, assistida por dois técnicos superiores, mas carece de uma estrutura própria e de boas práticas de gestão de conteúdos. A falta de um processo apropriado de gestão de conteúdos e de coordenação com o Posto de Turismo de Braga, no qual estudantes da Universidade do Minho costumam ter estágios curriculares, faz com que os materiais já traduzidos não possam ser reutilizados e atualizados. Um layout de impressão, uma vez feito, volta a ser impresso várias vezes, e os eventuais erros nunca são corrigidos. Esse foi, por exemplo, o caso de um mapa de Braga, inicialmente traduzido para o russo, há alguns anos, pela aluna da Licenciatura em Línguas Estrangeiras Aplicadas, Liliana Ferreira. Uma versão corrigida desta tradução foi proposta, em 2015, pela colega do Mestrado em Tradução e Comunicação Multilingue, Tatsiana Yankovich, no âmbito do seu estágio curricular, mas nunca chegou a ser utilizada para imprimir mapas atualizados. Para otimizar e agilizar o processo de gestão de conteúdos, tanto originais como traduzidos, e facilitar o apoio à publicação dos mesmos, a Câmara deveria ter um repositório centralizado bem organizado e indexado, estruturado conforme os temas, idiomas, tipos de conteúdo (arte gráfica, textos destinados para os sites, textos a serem impressos, etc.). Também convém utilizar as tecnologias modernas como memórias de tradução e bases terminológicas. Um guia de estilo também seria muito útil. Apresento as minhas sugestões para a elaboração de tal guia no ANEXO 6. Também incluo uma versão, por mim revista, do texto que acompanha o mapa de Braga acima referido, na memória de tradução disponibilizada à Câmara (ANEXO 8), facilitando, assim, a publicação de uma versão atualizada do mapa. 10 V. Metodologia de trabalho 5.1. Escolha de ferramentas A CMB não teve quaisquer preferências quanto às ferramentas e metodologias de trabalho. No decorrer do curso de mestrado, nas unidades curriculares de Ferramentas e Recursos para Tradução e Ferramentas Avançadas para Tradução, tive a oportunidade de conhecer e trabalhar com duas ferramentas CAT mais conhecidas no mundo profissional de tradução: o SDL Trados Studio e o memoQ. Embora o SDL Trados Studio continue a ser um líder na indústria, a minha escolha sentida foi o memoQ. Esta escolha foi determinada pelo leque de opções que a dita ferramenta oferece e pelas quais ela realmente se destaca da concorrência. Além disso, tive acesso gratuito à licença do memoQ disponibilizada aos alunos do Mestrado em Tradução e Comunicação Multilingue no âmbito do licenciamento académico conforme o acordo de parceria entre a Universidade do Minho e a Kilgray, a empresa húngara que tem desenvolvido a ferramenta. A equipa da Kilgray é muito dinâmica, e o memoQ tem sido atualizado com regularidade. Novas funcionalidades aparecem de uma versão para outra, como, por exemplo, a possibilidade de pré-visualizar ficheiros PDF durante a tradução que foi adicionada na versão mais recente 9.1.8 (outubro de 2019). Nas versões anteriores, foram adicionadas várias outras funcionalidades que aumentam a produtividade – entre elas, a possibilidade de pré-visualizar vídeos quando o memoQ é utilizado para a tradução de legendas. Essas e muitas outras funcionalidades não estão disponíveis no SDL Trados Studio. A norma internacional ISO 17100 que entrou em vigor em 2015 substitui a norma europeia EN 15038, de 2006, e tem como objetivo definir pré-requisitos para assegurar a qualidade dos serviços de tradução. O memoQ permite realizar todas as tarefas previstas por esta norma ISO 17100 no fluxo de trabalho de tradução, inclusive conversão de ficheiros de vários formatos originais, análise, tradução, controlo automatizado de qualidade, revisão, gestão de terminologia e de memórias de tradução no mesmo ambiente de trabalho. A interface de utilizador do memoQ é bastante intuitiva e amigável, e as mais variadas funções desta ferramenta são muito eficazes e altamente personalizáveis. Entre as vantagens do memoQ, em comparação com o SDL Trados Studio, encontra-se a possibilidade de gerir e atualizar a terminologia no mesmo ambiente de tradução, sem necessidade de abrir outras ferramentas (MultiTerm, no caso do SDL Trados Studio). Além disso, o memoQ permite, através da funcionalidade integrada LiveDocs, criar corpora 11 paralelos com base em traduções já existentes em vários formatos digitais (DOC, HTML, PDF etc.) sem fazer alinhamento de ficheiros individuais como é necessário no SDL Trados Studio e outras ferramentas. Estes corpora podem, então, servir de memórias de tradução de referência ou, após a verificação, ser exportados para uma memória de tradução ativa utilizada no projeto. A funcionalidade de LiveDocs revelou-se muito útil e eficaz no meu trabalho durante o estágio. Figura 3. Ambiente de trabalho no memoQ Como se vê pela figura acima, o ambiente de trabalho do memoQ integra todas as ferramentas necessárias: os termos encontrados nas bases de dados terminológicas estão realçados na janela “Source”; cada segmento aparece pré-visualizado no contexto na janela “View pane”, em baixo; a parte direita mostra sugestões da memória de tradução (vermelho), de glossários, tanto locais como online, associados ao projeto (azul) e as concordâncias encontradas no corpus paralelo LiveDocs (amarelo). A figura abaixo mostra o mesmo ficheiro prestes a ser traduzido no ambiente do SDL Trados Studio. Em contraste com o memoQ, o SDL Trados Studio não permite pré-visualizar a tradução de cada segmento em contexto. A gestão de terminologia no SDL Trados Studio também é muito menos amigável e menos eficaz. Em geral, o SDL Trados Studio consome mais recursos de computador e é menos intuitivo para o utilizador. 12 Figura 4. Ambiente de trabalho no SDL Trados Studio 5.2. Trabalhos efetuados Inicialmente, foi acordado que durante o estágio iria traduzir materiais promocionais para as visitas guiadas, bem como para o festival Braga Romana e o Festival Internacional de Folclore. No entanto, a CMB limitou o âmbito de trabalho aos textos da Braga Romana. Foram produzidas, ao longo do estágio, traduções de materiais promocionais na área de turismo cultural de português para inglês e russo. Essas traduções foram, depois, colocadas no site temático dedicado ao festival anual Braga Romana (bragaromana.cm-braga.pt) e foram utilizadas em folhetos e cartões distribuídos aos turistas. O material traduzido foi processado e armazenado em formato digital, o que permitirá a sua reutilização no futuro. O uso da ferramenta CAT memoQ permitiu assegurar a coerência de textos e a utilização de terminologia mais adequada. Como já referi, tendo em conta que a CMB não dispõe de espaço suficiente para assegurar postos de trabalho para os estagiários, trabalhei em regime freelance a partir de casa, sem um horário fixo, tendo apenas algumas breves reuniões na CMB no início do estágio. 19 5.3.2. Ortografia Como já referi, os textos existentes são incoerentes, inclusive na grafia. A norma americana prevalece nas páginas da CMB, com a única exceção no par “theater/theatre”. Assim, por exemplo, a grafia norte-americana “center” tem 850 ocorrências nos textos colocados no site, o que representa 83,6% em contraste com apenas 114 ocorrências (16,4%) da grafia britânica “centre”. Contudo, como a maioria dos turistas anglófonos vindos a Braga são britânicos, a Câmara concordou em usarmos a norma britânica nas traduções. Figura 10. Distribuição percentual de grafias US / UK no site da CMB 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 100% meter/metre center/centre program/programme color/colour splendor/splendour honor/honour theater/theatre US UK 20 Para as traduções russas a convenção ortográfica que adotámos foi o uso obrigatório da letra «ё». É uma prática comum de substituir «ё» por «е» em textos embora ambas as letras façam parte do alfabeto russo. Usamos a letra «ё» sempre que existe na grafia padrão por duas razões principais: ajuda a não confundir formas parónimas como «все» (‘todos’) — «всё» (‘tudo’); «небо» (‘céu’) — «нёбо» (‘palato’); «осознаете» (futuro do verbo ‘perceber’) — «осознаёте» (presente do verbo ‘perceber’); «перед» (‘antes’) — «перёд» (‘dianteira’); «совершенный» (‘perfeito’) — «совершённый» (‘feito’) etc.; a presença da letra «ё» ajuda a pronúncia correta e, sendo os textos traduzidos destinados para a Web, também pode ser útil para os leitores de texto automáticos (TTS) utilizados em computadores e outros dispositivos eletrónicos. Enquanto a pronúncia correta de nomes comuns, adjetivos, pronomes e formas verbais fica óbvia para um falante nativo a partir do contexto, os nomes próprios são um caso específico e o uso da letra «ё» é muito importante para assegurar a pronúncia correta dos mesmos. 21 5.3.3. Terminologia Antes de começar a traduzir, analisei traduções já existentes nos sites da Câmara Municipal de Braga (www.cm-braga.pt) e da Direção-Geral do Património Cultural (www.patrimonioculural.gov.pt) e fiz uma recolha da terminologia básica. Logo à partida, surgiram dúvidas devido à incoerência terminológica em várias fontes. Para o russo, tive maior liberdade em escolher um termo mais apropriado ou um nome de um sítio, já que não existe muito material traduzido. Para o inglês, pelo contrário, há várias fontes e era difícil escolher qual seria melhor e mais fidedigna. Já no próprio site da CMB há duas traduções para “Câmara Municipal de Braga” – “the City Council of Braga” e “Braga City Council”. Optei por incluir a segunda opção no glossário por esta ser mais concisa e mais correta. Como se vê na tabela abaixo, para alguns pontos de interesse havia até mais de duas traduções possíveis. Fonte do Ídolo Mosteiro de Tibães The Fountain of the Idol Monastery of São Martinho de Tibães The Idol Fountain Monastery of St. Martin of Tibães The Idol’s Fountain St. Martin Monastery of Tibães Tabela 1. Variações tradutórias Às vezes, até num pequeno desdobrável havia variantes de tradução, como foi o caso da Fonte do Ídolo, com “The Idol’s Fountain” no texto e “The Idol’s Spring” no título. Figura 11. Excerto de um desdobrável da Fonte do Ídolo 22 Para evitar discrepâncias, decidimos usar, quando possível, os mesmos nomes que são usados nos títulos de artigos da Wikipédia. A razão era simples: se um leitor quiser saber mais, seria mais fácil encontrar material na Wikipédia. Embora exista um certo preconceito em torno da fiabilidade da Wikipédia, comparada com outras fontes mais académicas e fiáveis, a Wikipédia continua a ser uma fonte mais acessível e abrange as mais variadas áreas de conhecimento, tendo, atualmente, quase 6 milhões de artigos na versão inglesa, mais de 1,5 milhões na versão russa e mais de 1 milhão na versão portuguesa. Porém, mesmo a Wikipédia tem erros. Assim foi o caso da Casa dos Crivos . O respetivo artigo na versão inglesa está intitulado “Residence of the Crivos” como se tratasse de uma casa da família dos Crivos . Neste caso, obviamente, não copiamos o erro. Figura 12. Artigo sobre a Casa dos Crivos na Wikipédia inglesa Nos textos trabalhados há vários termos ligados à história, religião e arquitetura que podem ser desconhecidos para um leitor comum. Para tais termos, como por exemplo “tímpano”, “peristilo”, “hipocausto” etc., não usamos notas explanatórias no texto, deixando o leitor consultar a Wikipédia, caso for necessário. Caso contrário, o texto principal seria sobrecarregado com notas, e o volume do texto explanatório iria prejudicar a fluidez da leitura. 23 5.4. Controlo de qualidade Ao discutir qualidade na tradução, Daniel Gouadec (2010) refere à norma EN 15038 substituída, há alguns anos, pela norma ISO 17100. O controlo de qualidade é uma etapa fulcral no fluxo de tradução, como é definido por ambas as normas. O memoQ permite realizar várias verificações automatizadas para assegurar uma melhor qualidade de tradução. Entre outras, encontram-se as verificações seguintes: ✓ uso coerente da terminologia; ✓ consistência de traduções; ✓ uniformidade de formatação; ✓ ortografia; ✓ pontuação; ✓ normas regionais em formatos de números, datas, etc. É possível configurar verificações de qualidade através de um menu especial no memoQ. Figura 13. Configurações de controlo de qualidade no memoQ O controlo de terminologia até permite proibir a utilização de termos ou grafias indesejáveis ou assegurar que os termos específicos sejam mantidos na grafia original (por exemplo, nomes próprios ou assim chamados termos DNT – “do not translate”). 24 Uma das vantagens do memoQ, em comparação com o SDL Trados Studio, no controlo de terminologia é o reconhecimento da morfologia. Enquanto o SDL Trados Studio apenas reconhece plurais regulares com -s final, o que torna glossários para as línguas flexivas praticamente inúteis, as bases de dados terminológicas no memoQ podem ser configuradas para reconhecer várias flexões, inclusive plurais irregulares, formas verbais e, o que é até mais importante, as mais variadas flexões nas línguas como russo. Para tal, o memoQ utiliza uma sintaxe especial: uma barra vertical (|) para separar o radical de uma palavra das variadas flexões ou um asterisco (*) para indicar que as flexões podem ser adicionadas a uma forma dicionarizada (infinitivo de um verbo ou caso nominativo de um nome). A tabela e a figura abaixo mostram como isso funciona no memoQ. Português Inglês Russo centro* histórico* historic centre* [Forbidden: historic* center*] историческ|ий центр* exposiç|ão temporária* temporary exhibition* временн|ая выстав|ка praia* fluvia|l riverside beach* речн|ой пляж* sondage|m arqueológica* archaeological survey* археологическ|ое исследовани|е Tabela 2. Codificação de termos para o glossário no memoQ Figura 14. Excerto de um glossário no memoQ 25 Assim, o memoQ irá reconhecer tais formas como “centro histórico” e “centros históricos” para português, “historic centre” e “historic centres” para a grafia britânica, avisando ao mesmo tempo de grafias americanas e formas indesejáveis na tradução (Forbidden term) como “historic center”, “historical center”, “historic centers", “historical centers”. Também reconhecerá as mais variadas flexões para russo, como “исторический центр” (nominativo singular), “исторические центры” (nominativo plural), “исторического центра” (genitivo singular), “исторических центров” (genitivo plural), etc. 26 VI. Análise de resultados Este capítulo tem como objetivo analisar de uma forma quantitativa e qualitativa as traduções realizadas ao longo do estágio. Também apresentarei os principais problemas e dificuldades encontrados. 6.1. Análise quantitativa É difícil medir a produtividade de tradução durante o estágio. O volume de textos não era grande, mas a natureza dos textos exigiu uma pesquisa mais aprofundada. A Wikipédia não foi a minha única fonte de informação. Para me familiarizar melhor com o tema, antes de começar a tradução, visitei vários sítios mencionados nos textos e consultei obras publicadas pela Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho e pela Câmara Municipal de Braga sobre os mesmos. Todos os textos foram disponibilizados em formato MS Word, exceto o “Convite Braga Romana”. Este último foi em formato PDF. Para o glossário multilingue foram recolhidos termos que constituíram 995 entradas terminológicas. É de notar, porém, que nem todas as entradas no glossário têm equivalências nas três línguas, havendo algumas entradas bilingues e algumas monolingues. Estas últimas servem para assegurar a grafia original dos termos que não devem ser traduzidos (termos DNT). As memórias de tradução resultantes do meu trabalho compreendem 443 entradas na combinatória português-inglês e 207 entradas na combinatória português-russo. Tanto o glossário como as memórias de tradução estão anexados ao presente relatório em ficheiros separados. Ao falar sobre as ferramentas de tradução assistida por computador (CAT) e o papel das mesmas no aumento da produtividade de um tradutor, Bowker e Fisher (2010) explicam que “[a] TM is a tool that allows users to store previously translated texts and then easily consult them for potential reuse. ” Embora, segundo os mesmos autores, textos de cariz literário e de marketing, como foi o caso dos textos trabalhados durante o estágio, apresentem menor percentagem em repetições e “ fuzzy matches ”, diminuindo, assim, a vantagem das ferramentas CAT no que diz respeito à produtividade, a reutilização de memórias de tradução criadas irá ajudar a atualizar textos para as futuras edições de eventos culturais. 27 Como já referi, a encomenda da Câmara Municipal de Braga limitou-se aos textos para o festival Braga Romana. É um evento anual que decorre durante uma semana nos finais de maio. Em 2019, Braga recebeu a 16ª edição deste evento. As minhas traduções estão colocadas no site dedicado ao evento, mas para o ano será necessário atualizar algumas delas. As memórias de tradução irão permitir fazê-lo de modo rápido e eficaz, sem necessidade de retraduzir tudo de raiz. Figura 15. Página do site Braga Romana com traduções feitas durante o estágio 28 Figura 16. Tradução para a língua inglesa na página da Inscrição dedicada à Isis Figura 17. Tradução para a língua russa na página das Termas Romanas 35 Seguem abaixo alguns exemplos de decalques lexicais. Há, porém, casos em que para o mesmo termo numa língua se mantém um empréstimo do latim (e. g. tympanum em inglês), enquanto noutra se usa um decalque: Português Inglês Russo edícula aedicule эдикула hipocausto hypocaust гипокауст peristilo peristyle перистиль pórtico portico портик tímpano tympanum тимпан Tradução literal A tradução literal foi limitada a frases curtas como: Português Inglês Russo Contactos Contacts Контакты Horário Opening hours Часы работы Localização Location Адрес Para os fragmentos mais longos, a tradução literal era muito rara e, mesmo assim, nunca era puramente literal, implicando os ajustes necessários na ordem de palavras, pontuação, etc.: PT: Entre 1982 e 1997 foram realizadas várias sondagens arqueológicas no logradouro do Ex Albergue Distrital. EN: Between 1982 and 1997, several archaeological surveys were conducted in the backyard of the former shelter for the poor. PT: No seu interior existiam vários compartimentos frios e quentes RU: Внутри было несколько холодных и тёплых помещений Noutros casos, utilizei uma combinação de estratégias mais elaboradas. 36 Transposição A transposição consiste na mudança de categoria gramatical de elementos que constituem o segmento a traduzir. Nome – adjetivo: PT: Na impossibilidade de se realizar uma escavação arqueológica em área, os muros foram desenhados e fotografados EN: Being impossible to carry archaeological excavations in the area, the walls were sketched out and photographed Voz passiva – voz ativa e vice-versa: PT: Em 2002, o monumento foi objeto de uma profunda intervenção EN: In 2002, the monument underwent profound intervention works PT: As escavações permitiram identificar várias estruturas romanas associadas a uma domus (casa familiar) EN: Following excavations, it was possible to identify several Roman structures associated with a domus (familiar house) Predicado verbal – predicado nominal: PT: É possível que a inscrição pertencesse a um templo EN: The inscription is believed to be part of a temple PT: A figura togada está saliente em relação ao plano vertical da fonte EN: A figure in toga is extending from the vertical plane of the source 37 Modulação A modulação é a variação da forma da mensagem obtida pela mudança do ponto de vista. Utilizei este procedimento raras vezes nas minhas traduções. Entre os exemplos, é a mudança de formas indiretas como “visitante”, “participante”, etc. em português para a forma direta de tratamento “you”, em inglês. PT: Neste espaço o visitante pode visualizar as mais variadas formas de tratamento medicinal EN: In this area, you will see the most varied forms of medicinal treatment PT: Uma aula em que os participantes fazem uma viagem até à origem romana e conhecem melhor os Deuses Romanos, através de histórias e jogos. EN: A class where you will take a journey to Roman origins and get to know Roman Gods through stories and games. PT: Estudada e publicada em 1905 por José Leite de Vasconcelos, a Fonte viria a ser classificada como Monumento Nacional, em 1910. RU: Этнограф и археолог Жозе Лейте де Вашконселуш изучил и описал его в 1905 году. В 1910 году источник получил статус памятника национального значения. 38 Equivalência Na maioria dos casos, utilizei a equivalência, ou seja, não traduzi literalmente, mas usei a substituição de um segmento da língua de partida por um outro segmento da língua de chegada, mantendo-o funcionalmente equivalente. PT: Descobertas numa intervenção arqueológica, conduzida pela Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho, realizadas entre 1977 e 1999, as termas romanas localizam-se dentro de uma ampla área vedada, no Alto da Cividade, União de Freguesias da Sé, Cividade e Maximinos. EN: Located inside a large protected and fenced area on the hill of Alto da Cividade, Union of Parishes of Sé, Cividade and Maximinos, the Roman public baths were discovered during archaeological excavations carried out by the Archaeology Unit of the University of Minho between 1977 and 1999. PT: Os vestígios exumados aquando das sondagens arqueológicas realizadas em 1996, pelo Gabinete de Arqueologia da Câmara Municipal de Braga, no subsolo deste estabelecimento comercial, no contexto de obras de remodelação promovidas para o interior deste imóvel. EN: The remains were found during the archaeological survey carried out by the Archaeology Office of Braga City Council in 1996 in the basement of this commercial establishment while refurbishment works were in progress inside the building. 39 Adaptação Julie Sanders (2006) salienta que “ an adaptation will usually contain omissions, rewritings, maybe additions, but will still be recognized as the work of the original author ”. Devido à complexidade de algumas frases nos textos originais, tive de recorrer várias vezes à adaptação: PT: No espaço arqueológico do Alto da Cividade é possível atualmente visitar os restos arqueológicos das termas romanas encontrando-se o seu espaço de receção pública dotado de um dispositivo interativo que permite ao visitante perceber a evolução do edifício e funções dos diversos espaços que o compunham. EN: Nowadays, the archaeological remains of the Roman baths of Alto da Cividade are open to visitors. At the reception area, an interactive screen can be used allowing visitors to learn about the evolution of the building and the use of its spaces. PT: No entanto, aos dias de hoje apenas chegaram estes dois exemplares, adquiridos pela Câmara Municipal de Braga em 1980 e recuperados sob um programa e projeto que visou a instalação de um espaço de exposições temporárias, um auditório de apoio e duas salas de serviço educativo, conferindo-lhe um uso público de natureza cultural. EN: However, only these two samples have survived to our days. The buildings were purchased by Braga City Council in 1980 and then restored under a special programme. According to the project, a temporary exhibition space, a support auditorium and two educational rooms were installed in Casa dos Crivos providing for its cultural public use. PT: Possui loja, cafetaria, biblioteca e jardim, de acesso livre. RU: Вход в сад при музее, а также в музейный магазин, кафетерий и библиотеку бесплатный. 40 Adaptação às normas socioculturais Ao discutir as normas no contexto dos Estudos da Tradução, Gideon Toury (1995) define as mesmas como as convenções sociais que influenciam a tradução. Na dimensão sociocultural, as noções de certo e errado na tradução e as estratégias adotadas por um tradutor estão condicionadas por vários fatores. Segundo Toury, a tradução é “adequada”, quando o tradutor respeita as normas do texto de partida, e “aceitável”, quando se segue as normas da cultura de chegada. As decisões tomadas por um tradutor envolvem, portanto, uma combinação ad hoc de abordagens diferentes, já que as normas têm um caráter sociocultural específico e são instáveis. Christina Schäffner (2010) reitera ainda que “ norms express social notions of correctness or appropriateness, i.e., what a particular community regards as correct or proper at a particular time ”. Neste sentido, algumas traduções podem ser inapropriadas e inaceitáveis devido a conotações diferentes associadas a certas palavras em LP e LC. Assim, por exemplo, tanto em inglês como em russo, as palavras “exhumated” e “эксгумированный”, respetivamente, que correspondem a “exumados” em português, têm conotações primárias com “cadáveres tirados da sepultura” e não podem ser utilizadas na tradução sem provocar confusão. PT: Os vestígios exumados aquando das sondagens arqueológicas realizadas em 1996, pelo Gabinete de Arqueologia da Câmara Municipal de Braga […] EN: The remains were found during the archaeological survey carried out by the Archaeology Office of Braga City Council in 1996 […] RU: […] со следами раскопок, проведённых в 1996 году Отделом археологии муниципального совета 41 Explicitação Às vezes convém explicitar uma informação implícita que pode ser desconhecida pelo leitor. Explicitações integradas no texto permitem evitar o excesso de comentários e melhorar a fluidez da leitura. Assim, ao falar do papel de José Leite de Vasconcelos nos estudos da Fonte do Ídolo, adicionamos, na tradução para russo, “etnógrafo e arqueólogo” para melhor apresentar a pessoa ao público-alvo no determinado contexto. PT: Estudada e publicada em 1905 por José Leite de Vasconcelos, a Fonte viria a ser classificada como Monumento Nacional, em 1910. RU: Этнограф и археолог Жозе Лейте де Вашконселуш изучил и описал его в 1905 году. В 1910 году источник получил статус памятника национального значения. Ao falar de Luciano dos Santos, substituímos “o Cónego” que é pouco informativo para o público-alvo, apresentando a pessoa explicitamente como “reitor do Seminário de Santiago, arqueólogo e historiador”. PT: As escavações realizadas na década de 60 do século passado, no claustro do edifício do Seminário de Santiago, sob a orientação do Cónego Luciano dos Santos, permitiram identificar vestígios de uma casa romana (domus). RU: В результате раскопок, проведённых в 60-х годах прошлого века в клуатре семинарии Св. Якова под руководством ректора семинарии, археолога и историка Лусиану душ Сантуша, были обнаружены следы римского дома (домуса). 42 Omissão / Simplificação Além da explicitação, também recorremos à simplificação para manter a fluidez da leitura. No exemplo abaixo, “Alto da Cividade” está explicitado como a colina e o resto da frase está simplificado. PT: No espaço arqueológico do Alto da Cividade é possível atualmente visitar os restos arqueológicos das termas romanas encontrando-se o seu espaço de receção pública dotado de um dispositivo interativo que permite ao visitante perceber a evolução do edifício e funções dos diversos espaços que o compunham. RU: На археологической площадке холма Алту-да-Сивидаде можно посмотреть руины римских терм, а при входе в комплекс — узнать назначение различных его частей и увидеть эволюцию здания на интерактивном экране. No exemplo a seguir, simplificamos ainda mais para evitar uma verbosidade desnecessária. PT: Edifícios civis com estas características, constituíam a marca fundamental da área urbana central de Braga no século XVII, tendo-se prolongado até ao século XVIII. RU: Такие жилые здания были характерны для центральной части Браги в XVII–XVIII веках. Posto isso, o uso das mais variadas estratégias e técnicas de tradução fez com que as confusões e embaraços fossem evitados e que o sentido original e as particularidades estilísticas do texto original fossem expressos de uma forma mais natural, assegurando, na medida do possível, uma boa qualidade de tradução. Ao limitar-nos apenas a algumas delas, não conseguiríamos este objetivo. 43 VII. Conclusão Apesar de o volume de trabalho realizado durante o estágio ter sido, por motivos alheios a mim, relativamente escasso, permitiu enriquecer os meus conhecimentos nos temas ligados à história e ao património cultural e comprovou a capacidade de me adaptar a novos temas. Acredito que esta experiência se tornou uma mais-valia no meu perfil profissional permitindo diversificar áreas de especialização na tradução. Antes de começar o estágio, propus à CMB fazer uma localização completa de sites institucionais, ou seja, traduzir e adaptar os mesmos à cultura de chegada, mas a Câmara optou por traduzir apenas algumas páginas e colocar links para versões traduzidas. Mesmo assim, essas traduções ajudam os turistas a melhor conhecer Braga, o seu património e os eventos culturais. Os materiais produzidos durante o estágio serão úteis para manter e atualizar o site da CMB dedicado ao evento “Braga Romana”. A escassez de materiais disponibilizados para a tradução pela Câmara não permitiu generalizar, como foi pretendido no início, os procedimentos de tradução / adaptação de nomes próprios e de referências culturais. No entanto, podemos destacar vários níveis de hierarquia deste léxico. Tanto em antropónimos (nomes de pessoas) como em topónimos (nomes de lugares), existe um nível macro que compreende exónimos, ou seja, nomes pelos quais estas classes de palavras são conhecidas numa língua de chegada. Este nível é geralmente dicionarizado e não apresenta grande dificuldade em tradução. No contexto dos textos trabalhados durante o estágio, os exemplos deste nível incluem os nomes e cognomes de imperadores romanos e de outros monarcas, nomes de pontífices e de santos, nomes de grandes cidades e de províncias romanas. Ao nível inferior da hierarquia enfrentamos a necessidade de adotar uma das possíveis abordagens, entre as quais são a utilização de empréstimos diretos sem alteração da grafia original na tradução, a transliteração para outro sistema gráfico ou a tradução / adaptação para a língua de chegada. É de notar, porém, que na língua russa existe, pelo menos em algumas classes de nomes próprios, uma tendência significativa de passagem gradual da domesticação (traduções consagradas) para estrangeirização (com adaptação à grafia da LC). É, por exemplo, o caso de monarcas portugueses cujos nomes no século XIX eram usados na forma consagrada e agora passam a ser transliterados: João: Иоанн → Жуан, Manuel: Эммануил → Мануэл. Este 44 fenómeno deveria ser alvo de maior estudo visto que o mesmo não se nota noutras combinatórias de línguas – os nomes de monarcas franceses e ingleses, por exemplo, continuam a ser usados nas variantes consagradas: fr: François: Франциск ≠ Франсуа, Louis: Людовик ≠ Луи, en: Charles: Карл ≠ Чарльз, George: Георг ≠ Джордж, James: Яков ≠ Джеймс. No nosso trabalho, como regra geral, optámos por manter a grafia original nos sistemas gráficos baseados no alfabeto latim (português e inglês) e usar a transliteração para um sistema gráfico baseado num alfabeto diferente (cirílico em caso do russo). Sempre mantivemos referências a endereços no original para facilitar a localização de um local de interesse. Noutros contextos, utilizamos a tradução de um nome próprio, sempre que possível, seguido pelo nome original ou pela respetiva transliteração entre parênteses. Esta abordagem pode ser registada num guia de estilo para assegurar a uniformidade de traduções. Além disso, a elaboração de um guia de estilo, mesmo que seja básico, pode trazer vantagens para futuras traduções, sobretudo quando vários tradutores trabalham no mesmo projeto, para garantir a consistência terminológica e estilística dos textos produzidos. Apresentamos algumas sugestões para serem incluídas no tal guia de estilo no ANEXO 6. O trabalho realizado sugere que a escolha de uma ou outra estratégia de tradução de nomes próprios e de referências culturais pode não depender de uma classe de palavras, mas depende, sim, do nível de uso (macro ou micro) na cultura de chegada. Dentro da mesma classe de palavras (antropónimos, hidrónimos, orónimos, hodónimos, hagiónimos, etc.) podem existir esses dois níveis: macro, ou seja, nomes e termos dicionarizados e bem conhecidos para o público-alvo, e micro, ou seja, nomes e termos menos conhecidos. A distribuição dos nomes e termos por estes níveis pode ser diferente em várias culturas. Já referimos o caso de antropónimos, quando o mesmo nome pode e deve ser tratado de uma maneira diferente, conforme o contexto (nomes de monarcas vs. nomes de pessoas comuns, várias épocas, várias combinatórias de línguas de partida e de chegada). Observamos a mesma dependência noutras classes de palavras. Em hidrónimos, ao nível macro temos, por exemplo, en: Thames, pt: Tâmisa, ru: Темза; de: Donau, en: Danube, pt: Danúbio, ru: Дунай. Mas quando passamos para o nível micro (rio Ave, rio Este, rio Caldo, etc.) resta-nos apenas a única possibilidade de usarmos empréstimos (mantendo a grafia original) ou transliteração. Em hagiónimos, os nomes dos santos e das festas religiosas podem estar ao nível macro e ter traduções consagradas nas línguas de chegada: pt: Imaculada Conceição, en: Immaculate