scieee AI-readable full text Open interactive document viewer

Uma cartografia do ódio no Facebook: gatilhos, insultos e imitações

Costa, Pedro Rodrigues

Abstract

A popularização das redes sociais digitais veio introduzir facilidade e instantaneidade na expressão pública dos atores. Tal proporcionou um aumento de debates na internet. Esta popularização deu maior visibilidade aos discursos de ódio e à intolerância, expondo insultos e modos de violência (Waldron, 2010). Estão em causa responsabilidades, individuais e regulatórias, de âmbito nacional, internacional e empresarial (Silva, Nichel, Martins, & Borchardt, 2011). Todavia, neste artigo aborda-se o tema do ódio por uma perspetiva de interação: dinâmica entre notícias publicadas no Facebook e interações conflituosas. O objetivo foi o de perceber alguns gatilhos para a ativação de conversações em que insultos e ódios tomassem a dianteira. Partindo dos conceitos de imitação (Tarde, 1978), coligação (Simmel, 1950) e associação (Latour, 2012), estudamos o ódio em 350 comentários, 913 respostas geradas e 23 959 palavras contidas nas publicações do Jornal de Notícias mais partilhadas, mais comentadas e com mais gostos em 2017, 2018 e 2019. Os resultados revelam forte presença de discursos de ódio e de insultos face a temas, notícias, ideias, opiniões ou dilemas. Em um terço da amostra, notou-se forte presença de discursos de ódio, estando estes mais presentes nas publicações mais comentadas (16,7%). Os índices de ódio mais elevados foram encontrados no tema do “futebol” e no “crime/agressão”. Numa variante mais qualitativa, percebemos que os discursos de ódio se imitam, tanto na lógica dos argumentos como no tipo de insultos usados.

Full text

Comunicação Pública Vol.15 nº 29 | 2020 Númerocomdossiêtemático Uma cartografia do ódio no Facebook: gatilhos, insultos e imitações A map of hate on Facebook: triggers, insults and imitations PedroRodriguesCosta* Ediçãoelectrónica URL: http://journals.openedition.org/cp/11367 ISSN: 2183-2269 Editora Escola Superior de Comunicação Social Ediçãoimpressa ISBN: 2183-2269 ISSN: 16461479 Refêrenciaeletrónica Pedro Rodrigues Costa*, « Uma cartografia do ódio no Facebook: gatilhos, insultos e imitações », Comunicação Pública [Online], Vol.15 nº 29 | 2020, posto online no dia 15 dezembro 2020, consultado o 15 dezembro 2020. URL : http://journals.openedition.org/cp/11367 Este documento foi criado de forma automática no dia 15 dezembro 2020. Comunicação Pública Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial 4.0 Internacional. Uma cartografia do ódio no Facebook: gatilhos, insultos e imitações A map of hate on Facebook: triggers, insults and imitations Pedro Rodrigues Costa* NOTA DO EDITOR Recebido: 29 de maio de 2020 Aceite para publicação: 21 de outubro de 2020 NOTA DO AUTOR *Doutorado em Ciências da Comunicação com especialização em Sociologia da Comunicação e Informação, pela Universidade do Minho, com a tese Entre o Ver e o Olhar: Ecos e Ressonâncias Ecrãnicas (2013). É mestre em Sociologia das Organizações e do Trabalho e licenciado em Sociologia. Entre as suas áreas de investigação constam as questões em torno da Cibercultura, Tecnologia e Estudos sobre redes sociais digitais. É investigador do CECS, onde integra o grupo de Estudos Culturais e o Museu Virtual da Lusofonia. Na lista dos trabalhos de investigação mais recentes, constam os seguintes temas: a presença de arquétipos nos youtubers: modos e estratégias de influência; o medo do consumo solitário: comentários nos canais infantojuvenis de YouTube do Brasil e de Portugal; suicídio e redes sociais: aproximações em português no Facebook, no Instagram e no YouTube; dar “vistas” ao ecrã em rede: problemáticas, desafios e consequências da era digital. Uma cartografia do ódio no Facebook: gatilhos, insultos e imitações Comunicação Pública, Vol.15 nº 29 | 2020 1 1. Introdução 1 As redes digitais são hoje os principais espaços de consumo de notícias, sendo o Facebook a rede social mais usada para o consumo de notícias em Portugal (Cardoso, Paisana, & Pinto-Martinho, 2018). Esse consumo e a respetiva interação têm desmascarado alguns vícios privados. Entre esses está o ódio: anteriormente na esfera privada, tem alcançado recentemente uma faceta mais pública. Esta dinâmica acrescenta-se, entre outras possibilidades, à instantaneidade, positiva ou negativa, dos comentários às notícias online (Stein, Nodari, & Salvagni, 2018). 2 Mas o tema do ódio não é novo nas ciências sociais. No século XVIII, Mandeville alertava para o facto de alguns vícios privados, como o ódio, terem adquirido aceitabilidade pública. Nos últimos vinte anos, este vício de demonstração pública de ódio ter-se-á ampliado (Waldron, 2010). Ter-se-á dado uma crescente aceitação da cultura de ódio como algo normalizado, em que “aplaudimos os olhos e as palavras iradas da jovem Greta, os comentários daqueles que querem decidir sobre quem pode ocupar o espaço político, os antis de toda a espécie, os que acusam os outros de mil e uma fobias” (Fernandes, 2019, §1). Desenvolveu-se uma ausência de “empatia para quem ousa olhar para o mundo com outros olhos” (Fernandes, 2019, §2), que realça um “fanatismo ativista” e uma pretensa “superioridade moral” nos que seguem obsessivamente uma ideia ou opinião, bloqueando-se a “valorização do dissenso e a obtenção de consensos” (Fernandes, 2019, §5). 3 Em nosso entender, esta dinâmica interseta-se com a “economia da atenção”. O “fanático ativista” é mobilizado e acelerado por técnicas de captura de atenção, de emoções e de sentimentos, inclusive iras e ódios. De um lado, as estratégias editoriais dos meios de comunicação. De outro, os algoritmos das empresas que gerem as plataformas digitais (Patino, 2019). 4 Entre as principais estratégias editoriais destaca-se o clickbait no título noticioso, técnica que nasce “de uma necessidade maioritariamente financeira, decorrente da crise do modelo de negócio dos órgãos de comunicação social em contexto online, e da sua própria necessidade de sobrevivência” (Pinto, 2018, p. 3). Um título apelativo às emoções obtém grande volume de interações, beneficiando a notoriedade dos produtores (Vessièrie et al., 2019; Zamith, 2018). 5 Pela perspetiva dos algoritmos, destacam-se ferramentas de captura de atenção cada vez mais performativos e adequados à biografia individual, articulando valores de mercado e modelação comportamental (Mackenzie, 2006). Três novidades sobressaem no Facebook desde 2015: a ferramenta “reações”, “que representa seis emoções que o usuário pode utilizar para demonstrar o que sentiu ao ler”, a patente “técnicas para deteção de emoção e entrega de conteúdo” e a patente “aumento da mensagem de texto com informação de emoção” (Machado, 2018, p. 49). O EdgeRank (algoritmo do Facebook) consegue analisar sentimentos, emoções e ideias, adaptando-se a potenciais respostas ao medir “a velocidade da digitação, a pressão do toque ao digitar, padrões de interação do usuário ou mesmo a sua localização no momento da digitação” (Machado, 2018, pp. 50-51). Emoções e sentimentos ficam à mercê do EdgeRank, que passou assim a conhecer como ninguém os gatilhos da ação e da presença na rede. 6 Deste modo, a figura do “fanático ativista digital” é alimentada por estratégias e algoritmos, sendo-lhe possível a coligação com outros seguidores-imitadores nos Uma cartografia do ódio no Facebook: gatilhos, insultos e imitações Comunicação Pública, Vol.15 nº 29 | 2020 2 discursos e opiniões e a interação com massas menos fanáticas, também reféns da captologia (Patino, 2019). O Facebook, enquanto palco destas dinâmicas, expõe toda esta associação entre ódio, estratégias editoriais e algoritmos (Costa, 2019). 7 O tema do ódio nas redes sociais digitais pode seguir várias perspetivas. Neste artigo optou-se pela perspetiva da dinâmica gerada entre notícias e interações conflituosas no Facebook. O objetivo foi o de perceber os principais gatilhos para a ativação de interações e conversações em que insultos e ódios dominem. Partimos dos conceitos de imitação (Tarde, 1978), coligação (Simmel, 1950) e associação (Latour, 1986, 2012) para estudar quantitativamente a presença de expressões de ódio em comentários, respostas geradas e palavras contidas nas publicações de Facebook do generalista Jornal de Notícias, nomeadamente nas publicações mais partilhadas, mais comentadas e com mais gostos nos anos de 2017, 2018 e 2019. Numa análise quantitativa, em que analisamos alguns casos, incidimos sobre interações conflituosas e sobre o modo como estas surgem enquanto gatilhos para o ódio e para o insulto no seio das possibilidades sociotécnicas desta rede social. 2. Sociologia das associações e redes sociais 8 São três os eixos teóricos deste estudo: imitações, teoria do ator-rede e método da complexidade. Isto implica a união dos conceitos de imitação, contraimitação e oposição (Tarde, 1978), de associação e dissociação (Latour, 1986, 2012; Law, 2004)) e de complexidade e contingência (Capra, 2006; Morin, 2003). 9 Para Gabriel Tarde (1978, p. 113), “a sociedade é a imitação”, sendo esta uma ação de continuação ocorrida algures e transmitida na cadeia social. Neste sentido, uma ideia ou uma imagem são factos sociais quando colocadas “inicialmente no espírito por uma conversa ou por uma leitura, se o ato habitual teve por origem a vista ou o conhecimento de uma ação análoga de outrem” (Tarde, 1978, p. 100). 10 De facto, a imitação enquanto facto social advém de “uma memória e um hábito, não individuais mas coletivos” (Tarde, 1978, pp. 100-101). Subscrevemos a imitação enquanto promotora de “um laço social; porque o que liga os homens é o dogma (ideia, religiosa ou não, política, por exemplo, ou outra qualquer, que se implanta no espírito de cada associado por pressão do ambiente) ou o poder” (Tarde, 1978, p.8). Como entendem Christakis e Fowler (2009), é na imitação que reside o poder maior da conexão. 11 Para Tarde (1978, p. 9), são duas as “maneiras de imitar: fazer exatamente como o seu modelo, ou fazer exatamente o contrário”. Consideramos estes dois modos blocos da “sociedade”, na medida em que revelam “um grupo de pessoas que apresentam entre elas semelhanças produzidas por imitação ou por contra-imitação” (Tarde, 1978, p. 9). Ao contraimitar os atores “vão assimilando cada vez mais” a corrente de imitações, acionando-as. As “próprias contra-correntes nascem da corrente” (Tarde, 1978, p. 10). 12 Tal como em Tarde (1978), entendemos que contraimitação não é não-imitação nem oposição. Já a oposição revela invenção, porque, sendo voluntária e perseverante, aparece com “um sentido purificador” (Tarde, 1978, p. 11). Na perspetiva de uma sociologia das associações contingentes, a oposição funciona como uma derivação para outras associações e dissociações. Aquele que imita outrem associa-se a um cluster existente de ações e ideias, aproxima-se de indivíduos com posições semelhantes, Uma cartografia do ódio no Facebook: gatilhos, insultos e imitações Comunicação Pública, Vol.15 nº 29 | 2020 3 afastando-se de outros – os contraimitadores. Por seu turno, a oposição abre a possibilidade de um novo cluster, constituindo um novo conjunto. 13 Partindo desta teoria para tentar perceber as interações nas redes sociais digitais, a teoria do ator-rede (doravante designada de TAR) enquadra a sociologia das associações numa lógica prática: imitar, contraimitar e opor são o resultado de associações e dissociações. Para a TAR, é a mapear e a perceber associações e dissociações que se entendem relações entre pessoas e entre pessoas e coisas (Latour, 2012, p. 23). 14 A TAR permite-nos a ampliação e a atualização de Tarde: a sociedade passa a ser um combinado de associações e dissociações que se obtém nas dinâmicas sociotécnicas de associação através da imitação e coligação e nas dinâmicas sociotécnicas de dissociação através da contraimitação e da oposição. Ante a TAR, para que uma ideia se inicie é necessário um confronto entre forças que atuam sobre atores humanos e não humanos. Assim, “todos os elementos heterogéneos precisam ser reunidos de novo em uma dada circunstância” (Latour, 2012, p. 23). Computadores, plataformas, softwares e respetivas formas de uso, leis, conversações, notícias, emoções, entre outros elementos, entram nas imitações, nas contraimitações e nas oposições, servindo de base para processos sociais. 15 Uma associação torna-se factícia através das imitações anteriores – interações passadas que estabelecem laços e que ligam no tempo pessoas e coisas. Com uma nuance: o humano não imita apenas humanos, mas também coisas, máquinas, modos de fazer e de agir (Benjamin, 1992). Por isso as causas sociais da imitação podem ser lógicas ou extralógicas, isto é, a imitação lógica atua quando uma ideia nova ou uma inovação é considerada por alguém, num exercício de subjetividade, mais útil ou verdadeira do que as outras, e, por sua vez, a imitação extralógica não obedece a um reconhecimento racional de algo que cria um trilho imitativo, mas antes a movimentos de imitação não conscientes ou mesmo inconscientes (Tarde, 1978). 16 Se as associações obedecem às estruturas e às dinâmicas da imitação, as dissociações fundam-se nos afastamentos gerados, por contraimitação ou por oposição. Numa dissociação, rejeitados os sentidos e os conteúdos das imitações, abre-se o trilho para novas possibilidades. 17 É aqui que entra a complexidade. O real acontece numa contingência que está dentro de um conjunto, alargado e complexo, de possibilidades. Dar conta do complexo contingente exige religar saberes. A sociedade humana é “aquilo que é tecido em conjunto” (Morin, 2003, p. 8). Partindo daqui, a contingência só pode ser entendida a partir do conjunto que une passado e presente. Tal implica “um método que detete e não oculte as ligações, articulações, solidariedades, implicações, imbricações, interdependências, complexidades” (Morin, 1977, p. 67). Entende-se que o existente são “redes aninhadas dentro de outras redes. Entender ecossistemas será, em última análise, entender redes” (Capra, 1997, p. 14). 18 Uma sociologia das associações contingentes revela-se enquanto modo de entender redes que se emaranham e que revelam associações e dissociações, através de imitações e coligações contingentes (Costa, 2020). Os processos conflituosos geradores de manifestações de ódio, em plataformas digitais e publicações noticiosas, surgem-nos enquanto possibilidades e facilidades sociotécnicas do ator-na-rede num tempo em que a interação digital conta como modo de afirmação, seja do sujeito na rede, seja do sujeito enquanto ator de acontecimentos e dinâmicas atuais. Deste modo, subscrevemos um entendimento sociológico tendo em consideração sete pressupostos: i) antes de um Uma cartografia do ódio no Facebook: gatilhos, insultos e imitações Comunicação Pública, Vol.15 nº 29 | 2020 4 ator se relacionar com outro (humano ou não humano), existem imitações, contraimitações e oposições que o condicionam; ii) associações e dissociações derivam de imitações, contraimitações e oposições anteriores; iii) associações resultam da imitação; iv) dissociações resultam da contraimitação ou da oposição; v) associações tendem a gerar afinidade e dissociações tendem a gerar afastamento; vi) o modo como as associações ou dissociações se constituem depende das forças da contingência; vii) as relações, geradas nas associações e dissociações, aparecem numa dada contingência e refletem intelectos contingentes, quer dizer, o conjunto de entendimentos, lógicos e extralógicos, que orientam a ação presente. 3. Da ira ao ódio 19 Para Hesse (2018, p. 68), que tratava insistentemente o ódio, quando “se odeia alguém, é porque se odeia alguma coisa nesse que faz parte de si. O que não faz parte de nós não nos perturba”. O autor concede ao ódio uma dimensão associativa, uma perturbação que se interliga com um outro. Em algum momento, aquele que sente ódio foi invadido por uma ira sobre o próprio “Eu”. 20 A partir de Dias (2012), Freud e Lacan poderiam subscrever Hesse. Em Freud, o ódio apareceria pelo desprazer. Em Lacan, como uma função que viria do outro na medida em que “a experiência do ódio é a colocação em exercício desse Outro que barra as demandas, ao mesmo tempo que inaugura a dimensão do exterior. O exterior é promotor de ódio” (Dias, 2012, p. 32). Assim, o ódio surge enquanto facto social, não na perspetiva de laço social, mas antes como contravínculo ou contraforça diante da corrente de imitações. Em nosso entender, esta perspetiva alinha-se com a sociologia da contingência na medida em que o ódio surge para estabelecer associações e dissociações em rede (Costa, 2020). 21 Finalmente, atentemos à relação entre ira e ódio. A primeira resulta de uma resposta que prepara o corpo com uma descarga em que o “sangue flui para as mãos, tornando mais fácil pegar numa arma ou bater num inimigo; o ritmo cardíaco aumenta e uma descarga de hormonas como a adrenalina, gera uma onda de energia suficientemente forte para permitir uma ação vigorosa” (Goleman, 1995, p. 28). Já o ódio é um sentimento que fica depois. A ira é uma emoção e o ódio um sentimento (Tiedens, 2001). Sentimentos como o ódio “são variações dos sentimentos corporais complexos causados por um objeto específico e que a ele se referem” (Damásio, 2010, p. 104). O aumento do batimento cardíaco e a descarga gerada pela adrenalina são conduzidos pela consciência até se transmutarem em sentimentos (Tiedens, 2001). A ira está na psicobiologia e o ódio na associação. O que nos leva a um outro ponto: imitamos ódio, na medida em que esse revela associações e dissociações entre interior e exterior, implicando nos que o observam “um ato de memória”: supõe uma espécie de hábito, uma imitação inconsciente de si mesmo por si mesmo” (Tarde, 1978, p. 100). Ao aparecer como imitação de “uma conversa ou por uma leitura”, o ódio torna-se “facto social”, abrindo possibilidades associativas ou de coligação (Tarde, 1978, p. 100). Um exemplo: as massas atribuem maior importância ou recompensa a sujeitos que expressam ódio do que aos que expressam outros sentimentos, como tristeza ou mágoa (Tiedens, 2001). Uma cartografia do ódio no Facebook: gatilhos, insultos e imitações Comunicação Pública, Vol.15 nº 29 | 2020 5 4. Negatividade, coligações e redes 22 Técnicas e estratégias de captura da atenção atuam nos ecrãs em geral pelo “viés pela negatividade” (Veissière et al., 2019). A síndrome do “mundo mau” é disso exemplo: aos 12 anos uma criança ocidental terá assistido a cerca de 8000 mortes violentas. A exposição a cenas violentas origina a representação de um mundo perigoso, mais do que na prática (Gerbner et al., 2002). Esta síndrome atrai medos lógicos, como o medo individual ou social, e medos irracionais, simbólicos e não lógicos (Bauman, 2008). 23 Nas notícias, impressas ou online, também vigora um “efeito de negatividade” (Anderson, 1974). Este fenómeno conduz à atribuição de maior peso às informações negativas (Soroka & McAdams, 2010). Nas redes digitais, essa negatividade leva invariavelmente à “expulsão do diferente”, daquele que não partilha a mesma visão do mundo (Han, 2018, p. 9). Surgem assim coligações e tríades carregadas de “forças positivas e negativas, especialmente entre conflito e cooperação” (Higgins & Ribeiro, 2018, pp. 22-23). 24 Para Simmel (1950), nas redes sociais em sentido amplo a tríade permite um senso de controlo que transcende o individual. O mesmo conclui a teoria dos grafos (Barabási, 2003), em que essa é promotora de multiplicidades: relações recíprocas, indiretas, com intermediação, com representação, com bloqueio, com mediação e com coordenação (Higgins & Ribeiro, 2018). Dentro deste esquema, no digital as negatividades e os ódios constituem forças produtivas e circulantes (França & Grigolleto, 2018, p. 35). Despontam aí novos modos de socialização, mais capilares e por isso mais aptos para penetrar as massas (Kucinski, 2009). Esses novos modos podem ser perspetivados sob dois planos: no plano da socialização por homofilia e no plano da socialização por clusterização (Recuero, 2012). O primeiro é aquilo a que Han (2018) chama “geração do idêntico”, bolhas de interesses e opiniões onde os elementos se imitam e se identificam mutuamente. Nesta dinâmica, as tríades cooperam. O segundo – a clusterização – é precisamente o contrário: grupos ou bolhas diferentes que se conectam através de laços fracos, mas que a rede entrelaça. Ante a clusterização, as diferenças surgem com maior nitidez e regularidade. Dois colegas de trabalho, entre os quais o laço primário é apenas profissional, revelam na rede o privado e o pessoal, aumentando a probabilidade de confronto, antes reduzida (França & Grigolleto, 2018). Para Recuero (2017), essas diferenças agora aproximadas materializam a possibilidade de conflito. Tanto as bolhas homofílicas como a clusterização geram condições propícias para o aparecimento de conflitos e discursos de ódio (França & Grigolleto, 2018). 5. Metodologia e amostra 25 Partimos das notícias para o ódio, recorrendo à análise de conversações (Bardin, 2018). Na vertente quantitativa, descrevem-se repetições. Já “na qualitativa considera-se a presença ou a ausência de uma dada característica de conteúdo ou conjunto de características num determinado fragmento da mensagem” (Catalina, Caregnato, & Mutti, 2006, p. 682). 26 Tendo por base “uma atitude orientada para a análise de pistas, sintomas, indícios” (Ginzburg, 1989, p. 154), consideramos três pontos: 1. O discurso exibe padrões recorrentes, produzidos consciente ou inconscientemente; 2. O discurso envolve Uma cartografia do ódio no Facebook: gatilhos, insultos e imitações Comunicação Pública, Vol.15 nº 29 | 2020 6 escolhas do locutor (linguísticas, cognitivas e sociais); 3. A comunicação digital é influenciada pelos sistemas informáticos. Esta orientação assenta na análise “languagefocused” – com ilustrações de discussões da amostra (Herring, 2004). 27 Utilizamos também classificadores de posicionamento face aos títulos noticiosos. Convocamos Simmel (1950) e Law (2004) relativamente aos posicionamentos típicos: conflito, consenso e controvérsia. Com Simmel (1950), compreendemos a pertinência do conflito e do consenso mediado por coligações. Com Law (2004), recorremos à “cartografia de controvérsias” para revelar posicionamentos intermédios que encaminham discursos e conteúdos para novas imitações, contraimitações ou oposições (Venturini, 2010). Se, de acordo com Costa (2019, p. 51), “a maior parte dos comentários feitos são de pendor negativo (1475) – o que corresponde a 67,3%” –, tal revela o Facebook como “propício a interações conflituosas” e controversas (Cabral & Lima, 2018, p.45). 28 Do ponto de vista conceptual, partimos de algumas tendências da imitação anunciadas por Tarde (1978). A saber: a de que o sucesso geométrico de uma imitação a partir do seu ponto de origem é uma função da sua adaptação; a de que as conversações refletem a contingência das ideias que decorrem da recombinação de imitações já existentes e são influenciadas pelo contexto social e pelas capacidades de raciocínio escrito dos envolvidos na recombinação (Tarde, 1978); a de que as imitações capturam de modo não racional o estado de espírito dos conversadores; e a de que existem sobretudo movimentos de imitação do superior para o inferior (Tarde, 1978). 29 Ao percebermos os dez jornais online com maior alcance em Portugal, optámos apenas por considerar os três primeiros de acordo com a Marktest (2020): Público, Correio da Manhã e Jornal de Notícias. Entre os três, o Jornal de Notícias (doravante designado como JN) é o único com uma listagem pública das dez notícias mais partilhadas, mais comentadas e com mais gostos. Sendo os três jornais generalistas e tendo por base as notícias ao minuto, optámos por fazer este estudo a partir dos dados do JN. 30 Assim, aplicámos três filtros como modo de procedimento de recolha de artigos: i) listámos os dez títulos de artigos mais partilhados, mais comentados e com mais gostos; ii) contabilizámos, a partir de cada um dos títulos, referências diretas ao ódio (ou a palavras similares, como por exemplo o verbo “odiar”); iii) contabilizámos, a partir dos títulos, referências que a partir da nossa perspetiva teórica tendem a motivar ira e que por isso constituem modos indiretos de geração de ódio. Estes filtros permitiram-nos a seguinte amostra: Tabela 1: distribuição da amostra por ano e por número de comentários não repetidos Fonte: dados extraídos da página de Facebook do Jornal de Notícias. 31 No total, foram contabilizados 78 artigos, excluindo os repetidos (ver tabela 2). Uma cartografia do ódio no Facebook: gatilhos, insultos e imitações Comunicação Pública, Vol.15 nº 29 | 2020 7 Tabela 2. Top10 do JN com mais partilhas, mais comentários e mais gostos (2017, 2018 e 2019)1 Fonte: dados extraídos do site do Jornal de Notícias. 32 De acordo com esta amostra, em 2017 registaram-se nove artigos com indícios de apelo ao ódio: um com mais gostos (“Menino leva irmão para a escola para não o deixar sozinho”); dois com mais partilhas (“Sinal de telemóvel de jovem desaparecida localizado em Aveiro” e “Portugal também fez vídeo arrasador para Trump”); e seis artigos entre os mais comentados – “Detido por matar cão ao arrastá-lo vários quilómetros com o carro”; “Eurodeputado diz que «mulheres devem receber menos por serem menos inteligentes»”; “«Quando fui ministra não aconteceu nenhuma tragédia com estas proporções»”; “Raríssimas defende-se: «É essencial uma imagem adequada da representante»”; “Mãe matou jovem que violou a filha”; “Detido em flagrante incendiário de Vale de Cambra”. 33 Em 2018, apenas quatro títulos indiciam, e indiretamente, ódio ou ira: uma jovem de 16 anos alegadamente raptada, uma peixaria que colocava olhos de plástico nos peixes, os confrontos entre polícia e adeptos de clube de futebol e o lamento da Amnistia Internacional relativamente a fotografias de detenção (ver tabela 2). 34 Em 2019, foram sete as publicações noticiosas que indiciaram ódio ou ira: uma notícia contém no título o verbo “odiar” (N1), sendo a mais partilhada e aquela que tem mais gostos. As restantes reportam-se indiretamente a temas controversos ao mencionar violência, violação, pedofilia, protestos na justiça, racismo e xenofobia (ver tabela 3). 35 Assim, de 78 resultaram 21 artigos com indícios diretos ou indiretos de ódio. Destes, escolhemos um terço (sete) – utilizámos como critério aqueles que tinham melhor classificação por secção no top 10 dos três anos analisados. Tal implicou ficar sem artigos com data de 2017 na vertente mais qualitativa do estudo (ver tabela 3). Uma cartografia do ódio no Facebook: gatilhos, insultos e imitações Comunicação Pública, Vol.15 nº 29 | 2020 8 conteúdos, a intimidade revelando a ligação afetiva entre sujeitos e conteúdos e, finalmente, a influência dos sujeitos e conteúdos na ação (neste caso, na conversação). 55 Assim, a fórmula para obter o IOD por conversação é: 56 Esta fórmula permite-nos medir, nas conversações mediadas por computador, a presença e a força do ódio através do insulto, ainda que matizada pelo elogio. Uma atmosfera de ódio é tanto maior quanto menor a presença do elogio e vice-versa. Assim, os dados permitiram-nos gerar os seguintes IOD de N1 a N7, tendo em consideração as 913 conversações. Gráfico 10: Índice de ódio nas conversações por tema (n = 913) Fonte: produção própria 57 Revela-se uma forte presença de ódio nos artigos sobre futebol (67,3 no combinado N3 mais N6), seguida de uma forte presença em N2 (“professor agride criança” – 41,77) e em N7 (“amnistia” – 40,77). Para o nosso quadro teórico, esta forte presença de ódio nos artigos de futebol indicia um conjunto de associações contingentes de teor negativo em que prevalecem e circulam desconfianças sobre práticas (resultados, negócios, atos corruptos, etc.). A figura do “fanático ativista digital” encontra aqui eco esgrimindo os seus pontos de vista, imitando ideias e opiniões e estabelecendo coligações. Já relativamente à presença do ódio em N2, a dinâmica é ativada pela emoção gerada pelo modo de exposição da situação. A notícia coloca o professor como ator promotor de violência. A violência, bem como o binómio “forte bate em fraco”, surge como gatilho para respostas que têm por base emoções e sentimentos de ódio e raiva. Já em N7, é exposto o assunto da amnistia, que revela uma dimensão controversa e não consensual. O perdão a um facto que foi anteriormente punível tende a atrair aqueles que não concordam com esta medida internacional, gerando debate e interações conflituosas. 58 Utilizando agora os três vértices de posicionamento face às notícias (conflito, consenso e controvérsia), obtivemos a seguinte distribuição nos comentários excluindo as respetivas respostas: Uma cartografia do ódio no Facebook: gatilhos, insultos e imitações Comunicação Pública, Vol.15 nº 29 | 2020 15 Gráfico 11: Posicionamento inicial de N1 a N7 (n = 350) Fonte: produção própria 59 À partida, os posicionamentos de conflito e de consenso levam vantagem e estão relativamente próximos – 44,6% e 36,6%, respetivamente. Não obstante, quando acrescentamos aos 350 comentários as respostas (ou seja, passando de n = 350 para n = 913), regista-se um crescimento para os 52%. O posicionamento de consenso face à notícia é muito menos gerador de novas conversações (21%) do que o conflito (52%), sendo ainda ultrapassado pela capacidade geradora de controvérsias (27%). Gráfico 12: Posicionamento total face à notícia (n = 913) Fonte: produção própria 60 O tipo de posicionamento que gerou maior número de conversações foi, na totalidade, o conflito. Contudo, na relação entre o número de posicionamentos iniciais em n = 350 e o número de posicionamentos gerados tendo em conta n = 913, as controvérsias geraram, em média, mais conversações (cerca de 2,7 conversações cada). Já os comentários que entraram em conflito com a notícia geraram, em média, duas conversações cada (gráfico 13). Por seu turno, os posicionamentos de consenso foram os que menos conversações geraram (apenas 0,5). Infere-se daqui, tal como exposto no nosso quadro teórico, que, diante das necessidades e das imposições do “mercado da atenção” Uma cartografia do ódio no Facebook: gatilhos, insultos e imitações Comunicação Pública, Vol.15 nº 29 | 2020 16 (Patino, 2019), os conflitos e as notícias com maior tendência para gerar conflitos e controvérsias alcançam maior peso na estratégia digital, coisa que as empresas de comunicação e as suas redações já entenderam (Pinto, 2018). Gráfico 13: Posicionamentos face à notícia e ao número de respostas geradas (n = 913) Fonte: produção própria 61 Num outro plano, ao relacionarmos os posicionamentos com os insultos face aos temas dos artigos, verificamos que os conflitos estão mais povoados: cerca de 1,6 insultos por conflito para 0,8 por controvérsia e 0,6 por consenso. Se o potencial das controvérsias para gerar novos comentários é maior, esses não são os que contêm mais o germe do insulto (gráfico 14). Infere-se daqui uma associação contingente, que não existiria num passado sociotécnico, entre conflito e insulto escrito, na medida em que se revelam traços do atual paradigma das redes: dinâmicas sociais como o conflito renovam as suas formas devido a novas possibilidades sociotécnicas – o insulto escrito, instantâneo e à distância. E aqui surgem outros problemas, nomeadamente o do registo público dessa forma de violência (Stein, Nodari, & Salvagni, 2018). Gráfico 14: Insulto por posicionamento (n = 913) Fonte: produção própria Uma cartografia do ódio no Facebook: gatilhos, insultos e imitações Comunicação Pública, Vol.15 nº 29 | 2020 17 7. Resultados qualitativos 62 Para apurar diferenciais de insultos nos conflitos, nas controvérsias e nos consensos, nesta secção fomos à procura dos gatilhos de ódio e dos respetivos modos de aparição nas sequências de comentários. 63 Começando por N1 (2019) – notícia com o título “Papa diz que é melhor viver como ateu do que ir à igreja e odiar os outros” –, damos conta do facto de o comentário número 11 (ver exemplo 1) iniciar uma controvérsia. Seguem-se seis comentários que imitam a ideia da controvérsia até que um outro (11.7) introduz uma primeira variação ao tema. O seguinte (11.8) assume parte da derivação de 11.7 e começa a contraimitar o modo como o tema é lançado pelo comentário 11 e como é imitado pelos comentários 11.1, 11.2, 11.3, 11.4, 11.5 e 11.6. Esta sequência faz aparecer o 11.9, que através da partilha de uma imagem insulta um dos conversadores. Eis que surge o primeiro gatilho de ódio desta sequência. Exemplo 1. Notícia N12 Fonte: produção própria 64 A partir do gatilho 1 (a imagem ofensiva), aparece um comentário ofensivo: “beatas” (11.10). Segue-se um novo comentário de contraimitação e eis que aparece pela primeira vez um opositor-derivador (11.13), contrariando o alvo do discurso (de católicos para ateus). Sentindo a força desta oposição, o comentário 11.14 reforça a confiança e utiliza dois insultos: “Papagaios” e “hienas” (gatilho 2). Este trecho pode indiciar que numa atmosfera de conflito as coligações podem levar a aumentos de insultos. Uma cartografia do ódio no Facebook: gatilhos, insultos e imitações Comunicação Pública, Vol.15 nº 29 | 2020 18 65 Já na publicação da N2 (“Professora arrasta menino autista pelo corredor da escola”), percebemos que o posicionamento geral face à notícia indicia a geração de sequências de reações. Diante de um título que aponta uma agressão de um adulto sobre uma criança “autista”, as reações mais comuns são as de conflito para com a professora ou agressivamente consensuais. Tal pode indiciar que os posicionamentos (consenso, controvérsia ou conflito) dependem de tema, título e/ou conteúdo. Pode existir consenso com o tema, título ou conteúdo e mesmo assim gerar-se controvérsia ou conflito sobre este. É também a partir destas associações com temas e títulos que as sequências se organizam. Assim, em N2 a violência do agressor recebe uma resposta geral de contraviolência. Os comentários organizam-se desse modo e o gatilho-mor é, neste caso, a própria notícia. Exemplo 2. Notícia N23 Fonte: produção própria 66 Este exemplo não apresenta grandes variações. Existe um conflito com o tema e um consenso generalizado com as reações de insulto. Mais à frente, surge uma controvérsia que se prende com um reparo contra as escolas públicas: “E ainda querem que confiemos os nossos filhos nas escolas e ordens públicas” (comentário 13). Daqui geram-se várias conversações. A controvérsia acaba por originar alguns insultos, desta feita entre comentadores. No entanto, surge uma nuance que volta a demonstrar a importância das coligações informais e das imitações nos posicionamentos: é o caso da chamada de conhecidos através da nomeação (comentários 4 e 5). Esta prática serve para envolver pessoas, das quais já se conhece o posicionamento sobre a temática, o que permitirá aumentar o volume de imitações e porventura novas controvérsias e conflitos. Uma cartografia do ódio no Facebook: gatilhos, insultos e imitações Comunicação Pública, Vol.15 nº 29 | 2020 19 67 Estes exemplos permitem-nos sistematizar uma primeira cartografia do ódio através de um esquema que revela a combinação de forças de atração sobre os vértices adjacentes, e as forças repulsivas sobre os vértices a partir de Fruchterman e Reingold (1991). Esquema 1. Dinâmica de interação de atores (N2) Fonte: produção própria 68 No caso N3 (2019) – “Adeptos do FC Porto protestam em frente ao palácio de justiça contra condenação no caso dos emails do Benfica” – a temática do futebol indicia uma sequência em consenso com a direção comum das posições (do 10 ao 13), até que um comentário (14) se opõe e deriva o caso para o passado, acrescentando-lhe um insulto generalizado a uma comunidade de adeptos (ver exemplo 3). Uma cartografia do ódio no Facebook: gatilhos, insultos e imitações Comunicação Pública, Vol.15 nº 29 | 2020 20 Exemplo 3. Notícia N3 Fonte: produção própria 69 As reações indiciam uma constante: insultos, imitações de insultos, utilização de outros insultos, reforços e coligações constantes, resposta de novos opositores-derivadores, coligação por reforço e imitação dessa oposição-derivação, novos insultos de resposta. 70 Esta constante também se encontra nos restantes artigos analisados (N4(2019) – “Temo pelo que possa acontecer-me”; N5(2018) – “Jovem de 16 anos está desaparecida desde ontem”; N6(2018) – “Confrontos entre polícia e adeptos do Benfica junto ao estádio da luz”; N7(2018) – “Amnistia lamenta espetáculo indigno de fotos de detenção de suspeitos”: posicionamento, imitações que reforçam posicionamento, insulto (gatilho 1), imitação e reforço de insulto, contraimitação do posicionamento, contrainsulto (gatilho 2), nova imitação e respetivo reforço, oposição liminar, insulto de oposição (gatilho 3), imitação e consequente reforço de insulto e posicionamento. 71 Por outro lado, a maior ou menor persistência dos conversadores vai auxiliar a dinâmica conversacional, bem como o seu desenvolvimento. Em N4 (2019) – “Temo pelo que possa acontecer-me” –, uma controvérsia lançada por um comentário gerou cerca de 153 novos comentários. Este número considerável de respostas deve-se à persistência daquele que lança o comentário, bem como à sua articulação com outros imitadores que foram rebatendo argumentos contrários ou derivados. Os esquemas de ação-imitação, contra ou a favor, geraram sucessivos gatilhos de ódio e de questionamento constante, permitindo a derivação de temas desde o caso em questão (um polícia agredido num bairro de Lisboa) até às questões do racismo, das instituições, do Estado, da ética, das práticas (ver exemplo 4). Uma cartografia do ódio no Facebook: gatilhos, insultos e imitações Comunicação Pública, Vol.15 nº 29 | 2020 21 Exemplo 4. Notícia N4 Fonte: produção própria 72 Esta sequência revela a estrutura dos casos anteriores: o comentador 3 lança a ideia da deportação do visado na notícia; o comentador 4 lança a controvérsia de que o visado da notícia vive do sustento dos portugueses, insultando indiretamente (Gatilho 1); o 4.1. imita a ideia da deportação; o 4.2. opõe-se à controvérsia gerada pelo 4; surge um reforço da ideia do 4; o 4.4. lança uma pergunta irónica, subentendendo racismo no 4; seguem-se respostas a 4.2. e a 4.4.; aparece um novo opositor-derivador a fazer frente ao 4; há nova resposta a 4.4.; há coligação com 4.8. Esta dinâmica continua durante 153 comentários. 73 Assim, e observando redundância em N5, N6 e N7, verificamos que os comentários podem aparecer em relação à notícia, a outros comentários ou a ambos. Inicialmente, o foco é a notícia. Particularmente, o título. Seguem-se os comentários, posicionando-se em torno dos três cês: consenso, conflito ou controvérsia. A posição de consenso está de acordo com a notícia. A posição de conflito está contra o assunto ou o modo de expor a notícia. A posição de controvérsia gera derivações variadas, não sendo nem consensual nem conflituosa, mas introduzindo na conversação novos fatores e variáveis. A partir destas possibilidades, desenha-se uma sequência: Uma cartografia do ódio no Facebook: gatilhos, insultos e imitações Comunicação Pública, Vol.15 nº 29 | 2020 22 Esquema 2. Dinâmica de aparecimento dos gatilhos do ódio 74 Fonte: produção própria 75 Resumimos esta cartografia do ódio e respetivos gatilhos, imitações, contraimitações e oposições do seguinte modo: um ator-iniciador comenta em direção ao consenso, conflito ou controvérsia para com a notícia. outros se seguem a imitar e a reforçar essa posição. Com mais imitações, coligações e consequentes reforços, e em função das temáticas, abre-se o espaço para os insultos, as provocações ou as instigações à violência – gatilho 1 (resulta dos pontos 1 e 2). Surge um contraimitador que assume ideia contrária. Outros se seguem a imitar e a reforçar essa segunda vaga. Se insultam, acionam o gatilho 2. Abre-se a possibilidade de aparecimento de um opositor-derivador, que não imita nem contraimita. Antes se opõe ao que está a ser imitado e contraimitado. Geram-se imitações dessa oposição-derivação. Abre-se a possibilidade de maior agressividade – insulto, provocação, instigação, tentativa de superiorização – gatilho 3. Repetem-se os ciclos até ao esgotamento do tema ou da atualidade da notícia. 8. Discussão de resultados 76 Analisadas estas notícias do JN, constatamos que no Facebook Portugal se destacam os seguintes temas: pena/comoção (18%), futebol (12%), política (10,67%), religião (8%), ilegalidades (8%), crimes (6,67%). Um terço (30,7%) das notícias revela associação ao ódio. As mais comentadas estabelecem maior relação (16,7%). Fica em falta o estudo de uma relação socioeconómica e socioprofissional dos conversadores, bem como maior exploração dos temas e das manifestações semióticas de ódio, e.g. insultos. 77 Constatamos também a existência de uma relação entre estratégias editoriais, o algoritmo do Facebook e as emoções. As publicações com mais insultos aumentam 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. Uma cartografia do ódio no Facebook: gatilhos, insultos e imitações Comunicação Pública, Vol.15 nº 29 | 2020 23 consideravelmente o número de conversações, o que por sua vez aumenta o número de comentários. Ao atingir o maior volume possível de pessoas e dinâmicas, através da deteção de emoções e históricos por utilizador, o EdgeRank funciona como força direta (estratégias editoriais) e indireta de “captura da atenção”, modelando comportamentos. Esta modelação aproveita a negatividade gerada pelo ódio, beneficiando em nosso entender o capitalismo informacional. Surge daqui uma reflexão que importa fazer. Até que ponto não haverá a necessidade de se introduzir maior responsabilidade sociotécnica, tanto no algoritmo como nas estratégias editoriais, a favor de melhores índices de saúde mental e social? Neste aspeto, política e lei podem atuar para corrigir, regular ou amenizar a força do “mercado da atenção” sob qualquer pretexto numérico, limitando climas de mal-estar social. 78 Constamos ainda a pertinência da adoção de índices de ódio por publicação. Este instrumento poderia funcionar para dissuadir internautas, avisando-os antecipadamente de debates e conversações com níveis elevados de violência. Medir presença e força do ódio através do cálculo de insultos por publicação poderia possibilitar bots (aplicação em código informático) capazes de atuar para limitar escaladas de violência. Tal como constatamos no tema do futebol ou das agressões, a sua redução poderá contribuir para controlar ou minimizar os efeitos do ódio na saúde, mental e social. 79 Por outro lado, constatamos que imprensa e públicos têm hoje uma relação mais próxima. Cada vez mais, os debates coletivos surgem de temas das notícias e de coberturas noticiosas que alcançam grande presença nos intelectos contingentes, sendo posteriormente retroalimentados pelos próprios interesses dos públicos na sua dinâmica algorítmica. Entendemos que a imprensa online, acelerada pelas tecnologias, constitui fonte iniciadora de conversas, dispondo-as numa teia de associações e dissociações. No conforto do lar, o ator contingente associa-se ou dissocia-se de ódios e discursos, imitando-os ou opondo-se. 80 Por seu turno, os dados qualitativos permitem-nos depreender que cartografar o ódio é analisar associações estabelecidas entre atores e conversações. Dessas, surgem gatilhos, imitações, contraimitações, coligações e oposições. Uma espécie de sequência, em que os iniciadores comentam, imitam e se coligam, os contraimitadores reforçam a oposição e acionam os gatilhos da contraforça e os derivadores acabam por criar novos trilhos de pensamento e opinião, funcionando como gatilhos num viés negativo e de conflito. Estes ciclos repetem-se até que a publicação perca a sua atualidade. Isto é, a contingência das dinâmicas sobrepõe-se ao fenómeno em si mesmo. 81 Esta reflexão implica ainda um debate mais alargado, interligando cultura digital, “economia da atenção” e “capitalismo informacional” (Castells, 2007). Até que ponto a escalada do ódio não está a ser puxada pela manivela dos interesses na captura da atenção e das emoções a favor de maiores lucros e dinâmicas de clickbait, que interessam a todo o tipo de empresas e operadoras de plataformas digitais? Não estará o numérico a impor-se às razões práticas dos sujeitos e com isso a manipular e a iludir, fortalecendo e tornando mais constante e mais presente a “síndrome de mundo mau” (Gerbner et al., 2002)? Não haverá a necessidade de impor aqui limites éticos, que suplantem os interesses meramente de mercado? Não estará a própria “síndrome de mundo mau” a ser usada, como tem acontecido no cinema e na televisão, pelos próprios algoritmos das plataformas digitais, mostrando mais o viés negativo das interações humanas do que um viés equilibrado e tendo como objetivo o resultado numérico? Uma cartografia do ódio no Facebook: gatilhos, insultos e imitações Comunicação Pública, Vol.15 nº 29 | 2020 24