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Carolina Reis De Matos Projetar para Curar: A Ala Psiquiátrica do Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro junho de 2023 Universidade do Minho Escola de Arquitectura, Arte e Design Carolina Reis De Matos UMinho | 2024 Projetar para Curar: A Ala Psiquiátrica do Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro
junho de 2024 Dissertação de Mestrado Mestrado Integrado em Arquitetura Trabalho efetuado sob a orientação do Professor Dr. Miguel Jorge Alves Miranda Bandeira Duarte Carolina Reis De Matos Projetar para Curar: A Ala Psiquiátrica do Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro Universidade do Minho Escola de Arquitectura, Arte e Design
7 Agradecimentos Ao Professor Dr. Miguel Jorge Alves Miranda Bandeira Duarte por ter embarcado comigo nesta viagem, por me guiar nesta aventura e por nunca colocar o tema em causa. Ao CHTMAD por me ter permitido estudar e investigar a ala psiquiátrica, dando-me a possibilidade de colocar todo o trabalho em prática. Ao enfermeiro Faceira por me ter guiado ao longo de várias reuniões para que a investigação tivesse a aprovação da Comissão de Ética do CHTMAD. À Doutora Dulce por prontamente aceitar que o estudo tivesse lugar na Psiquiatria do Centro Hospitalar. Ao enfermeiro Paulo por ser o meu elo de ligação aos doentes e equipa de saúde. Aos próprios doentes, que apesar das limitações diagnosticadas, foram de uma doçura extrema e sempre se mostraram empenhados e disponíveis para tudo. Levo com muito carinho os nossos encontros e toda a experiência absorvida. À Camara Municipal de Vila Real pela colaboração e prontidão na resposta e pelos documentos cedidos. Ao Arquivo Municipal de Vila Real pela disponibilidade e pelo tratamento. A todos os que se cruzaram comigo e que direta ou indiretamente, tiveram influência no meu percurso académico. À professora Joaquina, por me mostrar como um(a) professor(a) realmente deve ser. À doutora Marinela, por me dar bases para manter a cabeça erguida e abraçar desafios. À minha família. Aos meus pais por me proporcionarem a possibilidade de tirar um curso superior. À Beatriz por ser a irmã gémea que não sabia que precisava. Ao Tiago, por tudo.
13 Lista de Figuras Figura 1.1. A descoberta. Com base na ilustração disponível online em: https://dribbble.com/shots/6514181-Changingmindsetarticleillustration?utm_source=Pinterest_ Shot&utm_campaign=Nurulkusuma&utm_content=Changing+mindset++article+illustration&utm _medium=Social_Share. Figura 1.4.1. Esquema representativo das variadas fases do estudo com o intuito de mostrar a metodologia do trabalho. Figura 2.1. A Casa das Lamentações. Colagem feita a partir de vários elementos artísticos. Figura 2.1.1.1. Evolução histórica dos hospitais. Feita a partir de elementos disponíveis online em: https://mittechreview.com.br/hospitais-inovadores-utilizam-a-natureza-em-prol-do-bem-estar/ https://www.anparq.org.br/dvd-enanparq/simposios/15/15-13-2-SP.pdf https://gloriadaidademedia.blogspot.com/2020/05/tratado-medico-medieval-inspira-combate.ht ml https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/02.014/871 https://www.pinterest.es/pin/397442735869522191/ https://docomomobrasil.com/wp-content/uploads/2021/12/hospital-das-clinicas.pdf Figura 2.3.1. Esquema do conceito de ambiente construtivo. The Architecture and Health, pág 23. Por Michael P. Murphy (et. al). Figura 2.3.1.1.1. Maggie’s Cancer Centre, Dundee, Reino Unido. Disponível online em: https://www.maggies.org/about-us/how-maggies-works/our-buildings/dundee/ Figura 2.3.1.1.2. Vista interior do Maggie’s Cancer Centre, Dundee, Reino Unido. Disponível online em: https://www.maggies.org/about-us/how-maggies-works/our-buildings/dundee/ Figura 2.4.1.2.1. Vista para o pátio adjacente a um espaço de trabalho. Disponível online em: https://www.archdaily.com/783542/the-christ-hospital-joint-and-spine-centersom/56e1368ae58 ece8a1400001d-the-christ-hospital-joint-and-spine-center-som-photo?next_project=no Figura 2.4.1.2.2. Mobiliário escolhido numa das salas de formação. Disponível online em: https://www.archdaily.com/783542/the-christ-hospital-joint-and-spine-centersom/56e13719e5 8eceeacf000023-the-christ-hospital-joint-and-spine-center-som-photo?next_project=no Figura 2.4.1.3.1. Rondas interdisciplinares. Disponível online em: https://consultqd.clevelandclinic.org/interprofessional-teamwork-is-key-to-top-notch-patient-careand-outcomes
14 Figura 2.4.1.3.2. Reunião de discussão de tratamento. Disponível online em: https://my.clevelandclinic.org/professionals/connected Figura 2.4.2.1.1. A área central do centro, um espaço de convivência social. Disponível online em: https://www.maggies.org/media/filer_public/93/16/9316d6e0-fc97-40d3-beec7fd2840 ae2b1/maggieswestlondon_designguide.pdf Figura 2.4.2.1.2. Pormenor da luz natural num dos espaços de lazer exteriores. Disponível online em: https://rshp.com/projects/health-and-science/maggies-west-london-centre/ Figura 2.4.2.2.1. Pormenor da luz colorida usada no hospital. Disponível online em: https://www10.aeccafe.com/blogs/arch-showcase/2012/04/14/phoenix-childrens-hospital-inarizona-by-hks-inc/ Figura 2.4.2.2.2. Espaço principal de acesso ao elevador. Disponível online em: https://www10.aeccafe.com/blogs/arch-showcase/2012/04/14/phoenix-childrens-hospital-inarizona-by-hks-inc/ Figura 2.4.2.3.1. Uma das salas de lazer do hospital. Disponível online em: https://www.archdaily.com/243120/the-johns-hopkins-hospital-perkinswill Figura 2.4.2.4.1. Disposição dos móveis e equipamentos na sala de triagem dos doentes. Disponível online em: https://renewsinai.sinaihealth.ca/areas-of-transformation/ Figura 2.4.3.1.1. Pormenor da fachada do edifício. Disponível online em: https://www.reckli.com/en/showroom/reference/karolinska-hospital-stockholm-sweden Figura 2.4.3.1.2. Os materiais, a cor e a arte são usados como ferramentas de design. Disponível online em: https://whitearkitekter.com/project/new-karolinska-solna/ Figura 2.4.3.2.1. Zona de lazer interativa. Disponível online em: https://hga.com/projects/stanford-childrens-health-lucile-packard-childrens-hospital-stanford/ Figura 2.4.3.2.2. Pormenor no pavimento. Disponível online em: https://hga.com/projects/stanford-childrens-health-lucile-packard-childrens-hospital-stanford/ Figura 2.4.4.1.1. Vista para o exterior a partir de um quarto individual. Disponível online em: https://www.hksinc.com/what-we-do/case-studies/the-royal-childrens-hospital/ Figura 2.4.4.1.2. Vista do aquário de dois andares. Disponível online em: https://www.australiandesignreview.com/interiors/healthy-interiors-at-the-royal-childrenshospital/
15 Figura 2.4.4.2.1. Pormenor das ilustrações feitas por Aracelli Paz nas instalações do hospital. Disponível online em: https://www.fundacionmariajosejove.org/murales-en-urgencias-pediatricasdel-hospital-materno-infantil-de-a-coruna/#prettyPhoto Figura 2.4.4.2.2. Entrada para a Unidade de Cuidados Intensivos. Disponível online em: https://www.fundacionmariajosejove.org/murales-en-urgencias-pediatricas-del-hospital-maternoinfantil-de-a-coruna/#prettyPhoto[g1]/5/ Figura 2.4.5.1.1. Detalhe do sistema de visualização utilizado durante as cirurgias. Disponível online em: https://med.stanford.edu/news/all-news/2024/02/augmented-reality-surgery.html Figura 2.4.5.2.1. Sistema de navegação digital. Disponível online em: https://www.cloudgehshan.com/projects/newyork-presbyterian-columbia-university-medicalcenter/ Figura 3.1. Ilustração feita durante a cadeira de Projeto de Investigação (2022). Figura 3.1.1.1. Mapa de Localização do caso de estudo no contexto da cidade de Vila Real. Figura 3.1.1.2. Esquema atual da unidade hospitalar de Vila Real, retirado do site do CHTMAD. Disponível em https://www.chtmad.min-saude.pt/como-chegar-2/ Figura 3.1.2.1. Fotografia parcial da ala psiquiátrica, década de 80 do século XX. Arquivo do CHMTAD. Figura 3.1.2.2. Vista da entrada para a ala, década de 80 do século XX. Arquivo do CHMTAD. Figura 3.1.2.3. Fotografia parcial das traseiras da ala, década de 80 do século XX. Arquivo do CHMTAD. Figura 3.2.1. Entrada principal para a ala. Figura 3.2.2. Átrio de segurança subjacente à entrada (Piso Térreo). Figura 3.2.3 Corredor posterior ao átrio (Piso Térreo). Figura 3.2.4. Sala de Estar 1 (Piso Térreo). Figura 3.2.5. Instalações sanitárias (Piso Térreo). Figura 3.2.6. Refeitório (Piso Térreo). Figura 3.2.7. Refeitório (Piso Térreo). Figura 3.2.8. Sala de Atividades 1 (Piso Térreo). Figura 3.2.9. Sala de Fumadores (Piso Térreo). Figura 3.2.10. Gabinete do Enfermeiro Chefe (Piso Térreo). Figura 3.2.11. Gabinete de Admissão de doentes (Piso Térreo). Figura 3.2.12. Porta de Acesso ao Hospital de Dia (Piso Térreo).
16 Figura 3.2.13. Sala de Isolamento 1 (Piso Térreo). Figura 3.2.14. Interior da Sala de Isolamento 1 (Piso Térreo). Figura 3.2.15. Corredor de acesso ao Hospital de Dia (Piso Térreo). Figura 3.2.16. Sala de Multimédia e de acesso ao Espaço Exterior (Piso Térreo). Figura 3.2.17. Vista do Espaço Exterior. Figura 3.2.18. Espaço Exterior. Figura 3.2.19. Sala de Estar 3 (Piso Térreo). Figura 3.2.20. Espaço de Descanso da Equipa de Saúde (Piso Térreo). Figura 3.2.21. Zona de espera do Hospital de Dia (Piso Térreo). Figura 3.2.22. Instalações sanitárias do Hospital de Dia (Piso Térreo). Figura 3.2.23. Vestiário do Hospital de Dia (Piso Térreo). Figura 3.2.24. Entrada do Hospital de Dia e Elevador de acesso ao Piso 1. Figura 3.2.25. Zona de lazer (Piso 1). Figura 3.2.26. Vestiário da Equipa de Saúde (Piso 1). Figura 3.2.27. Duche, Zona Feminina (Piso 1). Figura 3.2.28. Instalações Sanitárias, Zona Feminina (Piso 1). Figura 3.2.29. Sala de Arrumos (Piso 1). Figura 3.2.30. Instalações Sanitárias, Zona Feminina (Piso 1). Figura 3.2.31. Arrumos dos Doentes (Piso 1). Figura 3.2.32. Rouparia dos Doentes (Piso 1). Figura 3.2.33. Quarto Partilhado, Zona Feminina (Piso 1). Figura 3.2.34. Quarto, Zona Feminina (Piso 1). Figura 3.2.35. Quarto, Zona Feminina (Piso 1). Figura 3.2.36. Instalações Sanitárias, Zona Feminina (Piso 1). Figura 3.2.37. Sala de Isolamento 2 (Piso 1). Figura 3.2.38. Interior da Sala de Isolamento 2 (Piso 1). Figura 3.2.39. Acesso Exterior ao Piso 1 (Piso 1). Figura 3.2.40. Corredor de Acesso (Piso 1). Figura 3.2.41. Gabinete Enfermagem (Piso 1). Figura 3.2.42. Instalações Sanitárias, Zona Feminina (Piso 1). Figura 3.2.43. Corredor de Acesso à Zona Masculina (Piso 1). Figura 3.2.44. Vestiário Equipa de Saúde (Piso 1).
17 Figura 3.2.45. Quarto Partilhado, Zona Masculina (Piso 1). Figura 3.2.46. Instalações Sanitárias, Zona Masculina (Piso 1). Figura 3.2.47. Duche, Zona Masculina (Piso 1). Figura 3.2.48. Instalações Sanitárias, Zona Masculina (Piso 1). Figura 3.2.49. Sala de Estar da Equipa de Saúde (Piso 1). Figura 3.2.50. Copa da Equipa de Saúde (Piso 1). Figura 3.2.51. Copa da Equipa de Saúde (Piso 1). Figura 3.2.52. Quarto com Instalações Sanitárias Privadas, Zona Masculina (Piso 1). Figura 3.2.53. Entrada para as Instalações Sanitárias Privadas, Zona Masculina (Piso 1). Figura 3.2.54. Instalações Sanitárias Privadas, Zona Masculina (Piso 1). Figura 3.2.55. Quarto, Zona Masculina (Piso 1). Figura 3.3.1. Axonometria explicativa do espaço da ala psiquiátrica. Figura 3.3.2. Planta do Piso Térreo. Escala 1:200. Figura 3.3.3. Planta do Piso 1. Escala 1:200. Figura 3.3.4. Planta de Coberturas. Escala 1:200. Figura 3.3.5. Alçados. Escala 1:200. Figura 3.3.6. Corte AA’, BB’, CC’, DD’. Escala 1:200. Figura 3.4.1. Série Big Mouth, Episódio 8, minuto 2:33, @Disney+ (2023). Figura 3.4.2. Exposição Backstage, DAC (2021). Figura 3.4.1.1. Desenho 1. Figura 3.4.1.2. Desenho 2. Figura 3.4.1.3. Desenho 3. Figura 3.4.1.4. Desenho 4. Figura 3.4.1.5. Desenho 5. Figura 3.4.1.6. Desenho 6. Figura 3.4.1.7. Desenho 1. Figura 3.4.1.8. Desenho 2. Figura 3.5.1. O local de trabalho. Colagem feita a partir de elementos disponíveis online em: https://www.behance.net/gallery/43675655/personal-collage-work https://littlethings.com/lifestyle/history-nurses-uniform?spot_im_comment_id=sp_6Md8natL_hi story-nurses-uniform_c_eJwF3T&utm_content=Comments&utm_medium=Recommendation&ut m_source=SpotIM
18 Figura 4.1. Visto do espaço exterior da ala (2023). Figura 4.1.1. Esquema do processo de pensamento. The Architecture and Health , pág. 192. Michael P. Murphy (et. al). Figura 4.1.2. Diagrama. The Architecture and Health , pág. 192. Michael P. Murphy (et. al). Figura 4.2.1. Diagrama explicativo da tentativa de organização do espaço exterior por zonas. Figura 4.2.1.1. Vista adjacente à porta de acesso para o Espaço Exterior. Figura 4.2.1.2. Pormenor a seguir à entrada para espaço. Figura 4.2.1.3. Portão desativado. Figura 4.2.1.4. Ginásio exterior. Figura 4.2.1.5. Pormenor situado no meio do jardim. Figura 4.2.1.6. Zona seguinte. Figura 4.2.1.7. Pneus amontoados no centro do espaço. Figura 4.2.1.8. Área de estar. Figura 4.2.1.9. Área de estar. Figura 4.2.1.10. Entrada para o Espaço Exterior. Figura 4.2.3.1. Ilustração apresentada no Inquérito VIII (Equipa de Saúde). @Pinterest. Disponível online em https://pt.pinterest.com/pin/572942383866101106/ Figura 4.2.4.1. Diagrama da organização do espaço exterior por zonas segundo a análise feita. Figura 4.2.5.1. Vista geral da zona da horta (Abril 2024). Figura 4.2.5.2. Vista geral da zona da horta, na última visita ao caso de estudo (Abril 2024). Figura 4.2.5.3. Vista para a zona da horta, na última visita ao caso de estudo (Abril 2024). Figura 4.2.5.4. Pormenor da zona da horta, na última visita ao caso de estudo (Abril 2024). Figura 4.2.5.5. Detalha na zona da horta, na última visita ao caso de estudo (Abril 2024). Figura 4.2.5.6. Análise espacial de possíveis soluções para o espaço (feito na primeira visita ao local). Figura 4.2.5.7. Análise espacial do exterior da ala (durante a primeira visita ao local, 2023).
19 Lista de Acrónimos OMS Organização Mundial da Saúde SNS Serviço Nacional de Saúde CHTMAD Cento Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro UTAD Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro SPSS Statistical Package for the Social Science
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21 1.Introdução Figura 1.1. A descoberta.
22 ‘’(…) They taught me something I had not learned in architecture school. They taught me that architecture can both impede and advance our collective rights – such as the right to health care or the right to breathe. But they also taught me that buildings, made with great care, can help us locate ourselves within the sometimes dizzying and alienating pressures of the world around us. They locate us and ground us, and through this they give us hope. Buildings can fulfil our most elemental right – the right to dignity.’’ 1 1 MURPHY JR, Michael P. (et. al) – The Architecture of Health, pág. 241.
29 (4) O quarto capítulo (4. O Espaço Exterior), é dividido em dois subcapítulos. O primeiro, (4.1. O Jardim Terapêutico como um Elemento de Design Biofílico), explica o conceito e introduz o tema de ter um espaço exterior desenhado e pensado no bem-estar dos seus utilizadores. O segundo subcapítulo (4.2. O Existente) apresenta como o espaço exterior do caso de estudo através de um levantamento fotográfico, atividades e inquéritos realizados e faz uma análise sobre os seus resultados. Apresenta também uma perspetiva para o futuro do espaço exterior da ala. (5) O quinto capítulo (5. Considerações Finais), apresenta as conclusões de todo o trabalho feito. (6) O sexto capítulo (6. Bibliografia), exibe todas a bibliografia utilizada ao longo do presente trabalho de pesquisa. (7) O sétimo capítulo (7. Anexos), contém todos os dados utilizados no trabalho e que não foram apresentados anteriormente.
30 1.6. Metodologia Figura 1.4.1. Esquema representativo das variadas fases do estudo com o intuito de mostrar a metodologia do trabalho. A metodologia da presente dissertação está dividida em duas fases, que são a fase teórica e a fase prática. Sobre a teórica, estão envolvidas duas etapas. A primeira trata-se do capítulo introdutório (1. Introdução), que apresenta e explica a pertinência do tema de investigação, realizando uma revisão sistemática. A segunda etapa corresponde ao segundo capítulo (2. Fundamentos para o Entendimento do Tema), onde investigada a pesquisa desenvolvida em torno do tema principal. O capítulo aborda a importância do tema, a diferença entre dois conceitos (arquitetura hospitalar e arquitetura para a saúde), a relação entre o ambiente construído e saúde mental através do conceito de neuroarquitetura, e analisa como valores arquitetónicos afetam o bem-estar dos utilizadores, apresentando exemplos práticos. O terceiro capítulo (3. O Hospital como Local de Internamento), reúne a informação apresentada nos dois primeiros capítulos e apresenta o caso de estudo juntamente com a sua relevância histórica e cultural. Encerra a primeira parte e inicia a fase prática, focando a sua análise no CHTMAD, no edifício da Psiquiatria. Apresenta a metodologia utilizada para realizar atividades de análise ao caso de estudo com recurso aos utilizadores do mesmo. O quarto capítulo (4. O Espaço Exterior) apresenta a metodologia usada para realizar atividades de análise no espaço exterior do caso de estudo e comprova a veracidade dos resultados obtidos na pesquisa e atividades propostas. Os dois capítulos expõem assim o conhecimento acumulado durante todo o
31 trabalho de investigação para o desenvolvimento de conclusões sobre o caso de estudo. O estudo adota uma abordagem de pesquisa mista, combina elementos de pesquisa qualitativa (dados não numéricos como observação dos participantes e análise de documentos) e quantitativa (dados numéricos como questionários e análise estatística) par obter uma compreensão mais abrangente do problema de pesquisa. No total, oito questionários foram respondidos exclusivamente em formato papel, sendo que cada participante lacrou devidamente o envelope com os documentos antes de o entregar ao elo de ligação (profissional de saúde que liga o investigador exterior ao serviço com os utilizadores do espaço). O público-alvo consiste nos doentes internados na ala psiquiátrica há pelo menos três dias e que manifestaram capacidade cognitiva para participar no estudo (esta avaliação foi feita pelo elo de ligação), e na equipa de saúde. Durante todas as atividades realizadas, foi obtido um consentimento informado, adotando medidas éticas adequadas, o que levou a um reestruturamento da abordagem de estudo. O foco da análise passou a ser a equipa de saúde e a análise dos dados recolhidos foi realizada com recurso ao software de tratamento estatístico SPSS (Statistical Package for the Social Science), que foram processados e armazenados numa tabela única e posteriormente analisados.
32 1.7. Limitações do Trabalho O presente trabalho apenas pretende abordar e analisar a qualidade do ambiente construído (Ala Psiquiátrica do CHTMAD) e a sua influência no bem-estar dos seus utilizadores. Não há qualquer intenção de crítica no que diz respeito à avaliação da qualidade dos serviços prestados pelos elementos da equipa de saúde durante as visitas ao caso de estudo. A análise refere-se assim aos aspetos integrantes do espaço (referidos em 2.4. A Perceção do Espaço no Contexto Hospitalar), independentemente de como o espaço da ala é utilizado. A escolha do caso de estudo trouxe algumas limitações ao presente trabalho, sendo elas: • A enorme burocracia por detrás do processo de autorização do estudo e as suas condicionantes; • A limitação do acompanhamento durante as visitas ao local, impedindo a permanência para aprofundar os elementos de interesse; • A falta de documentos relacionados com o caso de estudo (históricos e arquitetónicos); • A impossibilidade de fotografar o dia-a-dia da ala psiquiátrica por motivos de proteção dos seus utilizadores, de privacidade e de dados; • A dificuldade de obter autorização para a realização de diferentes abordagens de contacto com a equipa de saúde e com os doentes, limitando-se a questionários e um tipo de atividades.
33 2. Fundamentos para o Entendimento do Tema Figura 2.1. A Casa das Lamentações.
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35 2.1. Enquadramento A saúde mental é uma parte integrante da saúde, pois simboliza que se está num estado de bem-estar. Em Portugal, ainda existe uma percentagem importante de pessoas que não têm acesso a cuidados de saúde mental, apesar de ser um país com maior prevalência de indivíduos portadores de doenças do foro mental. Por essa razão, é importante investir cada vez mais na promoção da saúde mental de cada um. O objetivo de estudar e compreender como a arquitetura pode ajudar nessa mudança de paradigma e integrar a comunidade é fundamental para que se possa evoluir nessa matéria (Melissa Jorge, 2019). Cada indivíduo tem a sua própria forma de sentir e vivenciar o espaço, assim como a forma como se movimenta nele. Desde os detalhes mais subtis às características mais óbvias, o ambiente que rodeia a pessoa influencia profundamente a experiência e o bem-estar. Ao longo da história, a arquitetura desempenhou um papel fundamental na criação de espaços que não só abrigam, mas também influenciam profundamente o bem-estar físico e emocional. Desde ambientes acolhedores e inspiradores, até espaços opressivos e desanimadores, o desenho arquitetónico tem o poder de moldar as experiências e perceções de cada um. No entanto, é importante reconhecer que o impacto da arquitetura vai além do seu aspeto estético. Desempenha também um papel importante na promoção da saúde mental e no bem-estar emocional da pessoa que habita ou utiliza os espaços. Este aspeto é particularmente relevante ao considerar ambientes hospitalares, como alas psiquiátricas, onde a qualidade do ambiente físico pode ter um impacto significativo na recuperação e no conforto dos doentes. É nesse contexto que surge a necessidade de compreender mais profundamente como a perceção do espaço numa ala psiquiátrica pode afetar o bem-estar dos doentes e influenciar o seu processo de recuperação. Ao explorar essa temática, é procurado não apenas entender os elementos físicos que compõem esses espaços, como também examinar como eles são percebidos e vivenciados pelos utilizadores do espaço. Através do uso consciente de elementos arquitetónicos como a luz, a cor, a textura, a acústica e a materialidade, o arquiteto pode criar espaços que promovam a saúde mental e o bem-estar emocional da população. Esses espaços podem ajudar a reduzir o stress provocado pelo dia a dia e promover sentimentos de tranquilidade e segurança, dois fatores fundamentais para o utilizador do espaço. Além disso, um ambiente bem concebido e planeado pode facilitar a interação social e a comunicação, beneficiando pessoas que sofram de algum tipo de doença psicológica, como a depressão e a ansiedade, doenças bem conhecidas da sociedade.
36 2.1.1. A Evolução da Arquitetura Hospitalar A evolução da arquitetura hospitalar passou por várias fases tipológicas até se chegar ao que é o modelo hospital atual, evidenciando uma transição de espaços meramente funcionais para ambientes que promovem a cura e o bem-estar dos doentes. Segundo a descrição de Melissa Jorge na sua dissertação de mestrado, a primeira, na Grécia Antiga, a arquitetura de espaços dedicados à saúde tinha uma forte componente espiritual. As Asclepieias, do Deus da saúde e da cura Asclépio, localizavam-se longe das cidades e tinham uma abordagem de integração do tratamento espiritual com a natureza, oferecendo aos peregrinos um ambiente propício para a cura holística. Durante a Idade Média, a função dos hospitais continuava a ser baseada no tratamento espiritual, religioso e de isolamento. Os doentes eram confinados para evitar a propagação de doentes e as condições dos espaços refletiam a mentalidade da época, ambientes escuros e pouco ventilados onde o conforto do doente era secundário. Em meados do século XVIII surgiu uma transformação significativa com o aparecimento dos hospitais como espaços de cura e terapêuticos. Esses espaços passaram a valorizar a qualidade espacial como integrante do processo de cura. Em ‘’A Microfísica do Poder’’ , Michel Foucault destaca essa mudança onde a arquitetura hospitalar passa a ser vista como um instrumento terapêutico. Argumenta que os hospitais passaram a ser locais de intervenção médica ativa, onde o controlo do ambiente (ar, água e alimentação) se tornou crucial para o processo de recuperação dos doentes. A reorganização funcional dos espaços, a separação por áreas de tratamento e a introdução de ambientes mais saudáveis e confortáveis refletiram assim essa nova abordagem. Já nos séculos XIX e XX, os avanços tecnológicos redefiniram a função dos hospitais. O modelo pavilhonar, que usava o ambiente natural como uma ferramenta terapêutica, passou a dar lugar a estruturas monobloco verticais em resposta ao crescimento urbano e ao custo associado. As novas edificações incorporaram tecnologias de ventilação e elevadores, o que permitiu um uso mais eficiente do espaço e o melhoramento da qualidade do ar. O hospital contemporâneo surge durante as últimas décadas do século XX, onde houve um retorno ao cuidado humanizado, refletindo um tratamento centrado no doente. O crescimento de doenças crónicas e o aumento da longevidade da população exigiu uma abordagem que integrasse a cura e o cuidado contínuo. O conceito de Evidence Based Design emerge como resposta a essa necessidade, combinando pesquisas científicas com práticas de design para a
37 criação de ambientes que não promovem somente a recuperação física, como também ajudem a reduzir o stress e o bem-estar do doente. Desta forma, a arquitetura hospitalar contemporânea (arquitetura para a saúde) exemplifica a importância do design cuidadoso e da humanização dos espaços de saúde. Hoje, os hospitais são pensados e projetados para serem mais do que simples locais de tratamento. Passam a ser ambientes terapêuticos que consideram o conforto, a segurança e o bem-estar dos seus utilizadores. A inclusão de elementos como a iluminação natural e espaços verdes refletem essa abordagem holística, fazendo da arquitetura uma ferramenta vital no tratamento de doenças físicas e psicológicas. Esta interdependência entre arquitetura e saúde mostra como os avanços no desenho hospitalar influenciam positivamente a recuperação dos doentes e a eficácia dos cuidados prestados (Melissa Jorge, 2019). Grécia Antiga: Asclepieia (Componente Espiritual) Idade Média: Hospital de Confinamento Século XVIII: Hospital Terapêutico (Modelo Pavilhonar) Século XIX e XX: Hospital Terapêutico (Modelo Tecnológico) Arquitetura Contemporânea: Hospital Terapêutico (Modelo Humanizado) Figura 2.1.1.1. Evolução histórica dos hospitais.
44 2.4. A Perceção do Espaço no Contexto Hospitalar A compreensão do espaço em ambientes hospitalares transcende a mera disposição física projetual. Elementos intrínsecos e extrínsecos convergem para moldar a experiência dos utilizadores do espaço, influenciando diretamente a sua perceção e interação com o ambiente circundante. Neste contexto, o bem-estar, a satisfação, a eficiência, a luz, a cor e materialidade, o ruído, a disposição dos elementos, a experiência, a humanização, e a tecnologia e inovação emergem como elementos-chave que exercem um impacto significativo na vivência dos espaços. 2.4.1. Importância da Perceção do Espaço em Ambiente Hospitalar 2.4.1.1. Impacto no bem-estar do doente A perceção do ambiente hospitalar é de extrema importância no que toca ao bem-estar e à recuperação dos doentes. O estudo de Ulrich (1984) destaca a influência significativa que a exposição à natureza tem sobre o processo de recuperação. Ulrich conduziu uma pesquisa inovadora no Hospital Geral de Massachusetts, em Boston, onde comparou o tempo de recuperação de doentes com e sem vista para a natureza. Os resultados relevaram uma correlação entre a exposição à natureza e a recuperação dos doentes. Aqueles com uma vista para a natureza experienciaram não apenas uma redução no tempo de recuperação, como também demonstraram níveis mais baixos de stress e ansiedade durante a estadia hospitalar. 2.4.1.2. Satisfação dos Funcionários Para o The Christ Hospital Joint and Spice Center, em Cincinnati, foi projetado pelo gabinete de arquitetura SOM com o foco especial na integração de espaços abertos e cheio de luz natural, o que contribui para um ambiente de trabalho mais agradável e eficiente para os seus funcionários. O design do hospital incorporou estações de enfermagem descentralizadas e que ficam próximas dos quartos dos doentes. Esta opção aumenta a eficiência, reduz o ruído nas áreas comuns e ajuda a criar um ambiente mais calmo e menos stressante tanto para os doentes como para os funcionários. Os espaços comuns, como as áreas de descanso para a equipa médica, estão estrategicamente localizados perto de janelas com vista para os pátios internos (Figura 2.4.1.2.1.), o que proporciona um ambiente de trabalho mais relaxante e esteticamente agradável.
45 As áreas são também equipadas com mobiliário confortável (Figura 2.4.1.2.2.), permitindo aos utilizadores terem um espaço adequado para descanso e recuperação entre turnos (SOM, 2016). O desenho acolhedor e humanizado promove uma atmosfera de tranquilidade, o que melhora a satisfação no trabalho e consequentemente a qualidade do atendimento prestado. 2.4.1.3. Eficiência operacional O Hospital de Cleveland Clinic Main Campus, em Cleveland, tem implementado práticas inovadoras para aprimorar a eficiência operacional, o que resulta em fluxos de trabalho melhorado e tempo de resposta mais rápidos. Uma das práticas intitula-se Rondas Interdisciplinares, que consiste em reuniões de diferentes membros da equipa de profissionais para discutir informações específicas dos doentes, o que permite a resolução rápida de problemas e acelera o progresso dos tratamentos. Para além de melhorar a qualidade dos resultados, aumenta também a satisfação dos doentes e da própria equipa, reduzindo o tempo de internamento e otimizando o fluxo de trabalho (Cleveland Clinic, 2020). A clínica usa ainda ferramentas de avaliação contínua e programas educacionais para aprimorar constantemente a qualidade dos cuidados e seguranças para com os doentes. A Figura 2.4.1.2.2. Mobiliário escolhido numa das salas de formação. Figura 2.4.1.2.1. Vista para o pátio adjacente a um espaço de trabalho.
46 iniciativa ‘’Cleveland Clinic Connected’’ facilita a transferência de conhecimentos e práticas recomendadas para hospitais afiliados em todo o mundo, melhorando assim a prestação de cuidados através de consultas médicas remotas e de suporte operacional. A iniciativa assegura que as melhores práticas são partilhadas e implementadas de maneira uniforme (Cleveland Clinic 2022). 2.4.2. Elementos que Afetam a Perceção do Espaço 2.4.2.1. Iluminação No Maggie’s West London Centre, no Hospital de Charing Cross, em Londres, a iluminação desempenha um papel crucial na criação de um ambiente acolhedor e terapêutico para os doentes. Projetado por RSMP, em colaboração com o consultor de iluminação Speirs and Majror, o edifício utiliza uma combinação de luz natural e artificial para alcançar os seus objetivos projetuais. A estrutura inclui um teto flutuante com aberturas que permitem a entrada de luz natural, vento e chuva nas áreas ajardinadas internas, o que cria uma conexão contínua entre o interior e o exterior. O design do centro não só maximiza a entrada de luz natural, como também contribui para a ventilação natural do edifício, proporcionando um ambiente mais saudável e sustentável (e.architect, RSHP, Maggie’s Home). Figura 2.4.1.3.2. Reunião de discussão de tratamento. Figura 2.4.1.3.1. Rondas interdisciplinares.
47 Para complementar a luz natural, foram utilizados candeeiros de alta qualidade da Louis Poulsen em todo o edifício. A iluminação foi projetada para ser simples e eficiente, facilitando assim a manutenção feita pelos voluntários. A combinação da luz direta e indireta cria uma atmosfera doméstica e confortável, essencial para o bem-estar dos visitantes do centro (e.architect, Maggie’s Home). O edifício é ainda cercado por árvores e plantas que filtram o ruído e a poluição do ambiente urbano circundante, o que aumenta a sensação de tranquilidade dentro do centro. A iluminação exterior também desempenha um papel importante, destacando a estrutura arquitetónica e única, e proporcionando segurança e orientação durante a noite, quando a luz natural é escassa (RSHP) (e.architect). 2.4.2.2. Cores e materiais O Hospital Infantil de Phoenix, no Arizona, projetado pelo coletivo HKS Architects, é um exemplo de como o uso de cores e materiais pode transformar a experiência hospitalar para crianças e as suas famílias. Foi concebido para ser um espaço acolhedor e visualmente estimulante. As cores utilizadas no hospital são inspiradas na flora e fauna locais, como os pássaros e os catos, o que proporciona um ambiente que é simultaneamente tranquilizante e Figura 2.4.2.1.2. Pormenor da luz natural num dos espaços de lazer exteriores. Figura 2.4.2.1.1. A área central do centro, um espaço de convivência social.
48 estimulante. A iluminação LED roxa na fachada do edifício evoca a imagem das flores noturnas do deserto, o que transmite uma sensação de magia ao anoitecer. No interior, as luzes projetadas criam flores coloridas nas pareces, e a presença de zonas de estar vibrantes em todo o espaço ajudam a reduzir o stress e a ansiedade das crianças ao entrarem no hospital (Vinnitskaya, 2012). Os materiais escolhidos para o hospital foram selecionados com o objetivo de minimizar a liberação de compostos orgânicos voláteis1 (COV) e maximizar o uso de produtos reciclados e locais. Isso inclui o uso de alvenaria de baixa manutenção e materiais reciclados, que não só são sustentáveis, como também proporcionam um ambiente mais saudável para os doentes (AECCafe). O projeto inclui ainda esculturas de animais nos elevadores e murais que contribuem para um ambiente lúdico e reconfortante. A disposição dos espaços foi cuidadosamente planeada para facilitar a circulação e melhorar a eficiência, com áreas como o jardim no telhado e espaços de espera iluminados naturalmente que oferecem um refúgio para os seus utilizadores (Vinnitskaya, 2012, Architect, 2013). Figura 2.4.2.2.2. Espaço principal de acesso ao elevador. Figura 2.4.2.2.1. Pormenor da luz colorida usada no hospital. 1 são compostos caracterizados por possuírem uma alta pressão de vapor sob condições normais, evaporam-se facilmente em contacto com o ar.
49 2.4.2.3. Ruído e acústica O Hospital Johns Hopkins em Baltimore, Maryland, foi projetado por Perkins+Will. Incorporou estratégias para mitigar os problemas de ruído que podem afetar os utilizadores do espaço. Ao longo dos anos, o nível de ruído em hospitais aumentou significativamente, ultrapassando as diretrizes recomendadas pela OMS1. (Bush-Vishniac, 2005) Para combater esse problema, o hospital adotou a tecnologia de comunicação silenciosa em unidades como a de cuidados intensivos pediátricos. Substituíram os sistemas de chamada por altifalante por comunicadores pessoais silenciosos, reduzindo drasticamente o ruído (ScienceDaily, 2005). Além disso, foram instalados materiais de absorção do som, como painéis acústicos e azulejos no teto e paredes, o que ajudou a reduzir o tempo de reverberação do som. Os materiais foram especialmente escolhidos para cumprir com os padrões de controlo de infeções, utilizando isolantes de fibra de vidro revestidos com tecido antibacteriano. O desenho das unidades foram otimizados para minimizar o ruído, o que inclui quartos privados para doentes, estações de enfermagem descentralizadas e o uso de painéis acústicos nas paredes e tetos. Os equipamentos médicos foram também escolhidos com base no ruído, optando por alarmes ajustáveis e mais silenciosos (HFM Magazine, 2012). Figura 2.4.2.3.1. Uma das salas de lazer do hospital. 1 Organização Mundial da Saúde
50 2.4.2.4. Disposição dos Móveis e Equipamentos No Hospital de Mount Sinai em Toronto, o projeto de renovação envolveu a expansão e o redesenho de unidades cruciais, como a Unidade de Cuidados Intensivos, o Departamento de emergência e as Salas de Cirurgia. A reorganização não só aumentou a capacidade de atendimento, como melhorou a funcionalidade dos espaços. A disposição estratégica dos móveis e equipamentos foi essência para otimizar os fluxos de trabalhos dos profissionais de saúde e garantir que os doentes recebam cuidados mais eficientes e confortáveis. A nova disposição nas áreas de cuidados críticos permite um melhor acesso e acessibilidade aos equipamentos hospitalares, o que reduz o tempo de resposta em situações de emergência. As salas de cirurgia foram dispostas de maneira a maxixar a eficiência dos procedimentos cirúrgicos, minimizando o movimento desnecessário, o que melhorou a segurança dos doentes (Infrastructure Ontario). A reorganização das áreas de atendimento ambulatorial foi feita com o objetivo de melhor a experiência dos doentes, proporcionando um ambiente mais acolhedor e menos stressante. A integração de espaços de espera confortáveis e bem equipados com os consultórios médicos promove uma sensação de continuidade de trabalho. Figura 2.4.2.4.1. Disposição dos móveis e equipamentos na sala de triagem dos doentes.
51 2.4.3. Design e Arquitetura Hospitalar 2.4.3.1. Princípios de Design Localizado em Estocolmo, na Suécia, o Hospital Universitário de Karolinska, foi projetado com uma abordagem centrada no doente. O conceito ‘’Patient First’’, guiou todo o design hospitalar. Os quartos são individuais, amplos e com instalações sanitárias privativas, proporcionando uma maior privacidade e segurança. A luz natural predomina nos espaços que oferecem vistas amplas para a cidade, o que contribui significativamente para a recuperação dos doentes. A ideia é que os mesmos sejam atendidos nos seus próprios quartos pelas equipas multidisciplinares, evitando assim uma movimentação desnecessária pelo hospital. A disposição compacta do hospital facilita a proximidade entre diferentes funções, incentivando metodologias de trabalho interdisciplinar. Os espaços dedicados aos funcionários foram projetados para serem altamente funcionais e integrados. As estações de enfermagem são descentralizadas e os equipamentos de suporte localizados próximos dos doentes para garantir que as necessidades médicas são atendidas rapidamente. Juntamente com a iluminação natural, cria um ambiente de trabalho agradável e produtivo (Reckli, s.d.). Cerca de 99,7% da energia provem de fontes renováveis, incluindo o aquecimento, plantas geométricas e energia reciclada de sistemas de ventilação (Lomholt, 2011, White Arkitekter). Os materiais e as cores utilizadas no design do hospital foram cuidadosamente escolhidas para criar um ambiente calmante e acolhedor. São usados elementos naturais e táteis com intuito de melhorar a experiência sensorial e funcional dos espaços. A inclusão de obras de arte e um sistema de sinalização eficaz ajudam na orientação dentro do hospital, contribuindo para uma experiência positiva tanto de doentes como visitantes (White Arkitekter, Reckli, s.d.).
52 2.4.3.2. Exemplos de Boas Práticas O design do Hospital Infantil de Lucile em Stanford, Califórnia, coloca a experiência do doente e da família como central. Todas as áreas de internamento possuem quartos privados que permitem a presença de até dois elementos familiares, o que promove um ambiente de apoio contínuo. As áreas comuns incluem espaços de estar familiares, cozinhas e lavandarias, transportando os utilizadores para um local mais caseiro e confortável durante a sua estadia hospitalar (Stanford Medicine Children’s Health, s.d.) O processo de planeamento envolveu amplamente a comunidade, incluindo feedbacks de famílias, médicos e funcionários hospitalares para garantir que o resultado final atendesse às necessidades de todos os utilizadores. A transparência em relação ao uso de recurso é promovida através de painéis eletrónicos que mostram dados como o consumo de água e energia, tanto na sala principal, como no sistema de entretenimento ao lado das camas dos doentes (HGA, 2018). Por conseguinte, é considerado um dos hospitais mais sustentáveis do mundo, com uma certificação LEED Platinum. Entre as inovações, estão o uso de materiais reciclados e reaproveitados. Utiliza cerca de 38% menos água e 60% menos energia que a média dos hospitais no Norte do estado da Califórnia. Figura 2.4.3.1.1. Pormenor da fachada do edifício. Figura 2.4.3.1.2. Os materiais, a cor e a arte são usados como ferramentas de design.
53 2.4.4. A Perceção do Espaço e a Experiência do Doente 2.4.4.1. Experiência do Doente Localizado em Melbourne, Austrália, o Royal Children’s Hospital foi projetado para ser um ambiente acolhedor e estimulante. Incorpora diversos elementos que ajudam a distrair e entreter as crianças durante as suas visitas e estadias no hospital. Um dos elementos que se destaca mais é o uso de espaços lúdicos e de conexão com a natureza, como um aquário de dois andares que fascina não só crianças como adultos (Figura 2.4.4.1.2.). Elementos como esse não servem apenas como pontos de interesse, mas também ajudam na orientação dentro do hospital, o que cria um ambiente menos intimidante (HKS Architects, s.d., Australian Design Review, 2014). As áreas de espera são flexíveis e permitem que as famílias explorem as várias atrações, como o aquário, jardins e playgrounds enquanto aguardam pelas suas consultas. Mais de 85% dos quartos dos doentes são individuais, o que oferece maior privacidade e conforto tanto aos doentes como acompanhantes. 80% desses quartos têm vista para um parque vizinho, proporcionando um ambiente mais terapêutico e agradável (HKS Architects, s.d., Australian Design Review, 2014). Figura 2.4.3.2.1. Zona de lazer interativa. Figura 2.4.3.2.2. Pormenor no pavimento.
ϱϱ 3. O Hospital como Local de Internamento ϱϲ Figura 3.1. Ilustração feita durante a cadeira de Projeto de Investigação (2022).
ϱϱ 3. O Hospital como Local de Internamento ϱϲ Figura 3.1. Ilustração feita durante a cadeira de Projeto de Investigação (2022).
61 3.1. O Lugar: A Ala Psiquiátrica do CHTMAD 3.1.1. Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro O caso de estudo apresentado na presente investigação faz parte do Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro (CHTMAD), uma empresa pública com sede em Vila Real, criada em Fevereiro de 2007. Resulta da junção do Centro Hospitalar de Vila Real e Peso da Régua, com o Hospital Distrital de Chaves e com o Hospital Distrital de Lamego. De acordo com o site oficial do SNS1, na cidade de Vila Real, o Hospital de São Pedro tem um passado que remonta a 1915 ‘’quando a Santa Casa da Misericórdia local inaugurou o Hospital da Divina Providência’’ , passando a ter a designação atual a partir de 1980. Inicialmente funcionava nas instalações da Santa Casa da Misericórdia, até que, a 25 de Outubro de 1980 começou a operar em dois polos distintos, mantendo alguns serviços nas instalações antigas. A partir de 1991, o Hospital de S. Pedro passa a funcionar num único local. Assim como mostra o jornal da época (Anexo 1), no dia ensolarado da sua inauguração, esteve presente o Ministro do Planeamento Norueguês juntamente com alguns ministros portugueses e até o Bispo da Diocese, que abençoou as instalações. Para a cidade de Vila Real, a abertura do Hospital de São Pedro foi uma melhoria crucial, pois reduziu a necessidade de transferências para o Porto, evitando perdas de vidas devido à distância entre cidades. Além disso, o ambiente tranquilo e agradável ao redor do hospital são considerados propícios para a recuperação dos utentes. A construção de uma avenida, da Noruega, que liga o centro da cidade, onde se encontrava o antigo hospital da Misericórdia, ao novo hospital em apenas três minutos garante uma resposta mais rápida em casos de emergência. Numa segunda fase do projeto, que inclui a construção da Escola de Enfermagem, entretanto mudada para o polo universitário da UTAD2, estava também já em andamento, demonstrando assim o compromisso contínuo da época. 1 Serviço Nacional de Saúde 2 Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro
62 Figura 3.1.1.1. Mapa de localização do caso de estudo no contexto da cidade de Vila Real.
63 Figura 3.1.1.2. Esquema atual da unidade hospitalar de Vila Real, retirado do site do CHTMAD.
64 3.1.2. A Ala Psiquiátrica De acordo com a Figura 3.1.1.2. retirada do site oficial do CHTMAD, o edifício da ala psiquiátrica (D) encontra-se no extremo oposto da entrada principal para o recinto hospitalar. Ao longo de seis semanas foi estudada a rotina dentro da ala psiquiátrica, assim como interagir com os seus doentes e equipa de saúde. Neste subcapítulo, é pretendido partilhar os conhecimentos adquiridos durante o período de estudo, salientando sempre a opinião daqueles que participaram no estudo de forma clara e transparente. É importante salientar que parâmetros impostos pelo diagnóstico dos doentes, impuseram limites ao estudo, de modo a salvaguardar a verdadeira recolha de informação. Figura 3.1.2.1. Fotografia parcial da ala psiquiátrica, década de 80 do século XX. Arquivo do CHTMAD.
65 Figura 3.1.2.2. Vista da entrada para a ala, década de 80 do século XX. Arquivo do CHMTAD. Figura 3.1.2.3. Fotografia parcial das traseiras da ala, década de 80 do século XX. Arquino do CHTMAD.
66 3.2. Levantamento Fotográfico 3. Caso de Estudo – Centro Hospitalar Trás-os-Montes Alto Douro: Edifício de Psiquiatria
67 Figura 3.2.1. Entrada Principal para a ala. Figura 3.2.2. Átrio de Segurança subjacente à entrada (Piso Térreo). Figura 3.2.3. Corredor posterior ao átrio (Piso Térreo). Figura 3.2.4. Sala de Estar 1 (Piso Térreo).
68 Figura 3.2.5. Instalações Sanitárias (Piso Térreo). Figura 3.2.6. Refeitório (Piso Térreo). Figura 3.2.7. Refeitório (Piso Térreo). Figura 3.2.8. Sala de Atividades 1 (Piso Térreo).
75 Figura 3.2.33. Quarto Partilhado, Zona Feminina (Piso 1). Figura 3.2.34. Quarto, Zona Feminina (Piso 1). Figura 3.2.35. Quarto, Zona Feminina (Piso 1). Figura 3.2.36. Instalações Sanitárias, Zona Feminina (Piso 1).
76 Figura 3.2.37. Sala de Isolamento 2 (Piso 1). Figura 3.2.38. Interior da Sala de Isolamento 2 (Piso 1). Figura 3.2.39. Acesso Exterior ao Piso 1. Figura 3.2.40. Corredor de Acesso (Piso 1).
77 Figura 3.2.41. Gabinete de Enfermagem (Piso 1). Figura 3.2.42. Instalações Sanitárias, Zona Feminina (Piso 1). Figura 3.2.43. Corredor de Acesso à Zona Masculina (Piso 1). Figura 3.2.44. Vestiário da Equipa de Saúde (Piso 1).
78 Figura 3.2.45. Quarto Partilhado, Zona Masculina (Piso 1). Figura 3.2.46. Instalações Sanitárias, Zona Masculina (piso 1). Figura 3.2.47. Duche, Zona Masculina (Piso 1). Figura 3.2.48. Instalações Sanitárias, Zona Masculina (Piso 1).
79 Figura 3.2.49. Sala de Estar da Equipa de Saúde (Piso 1). Figura 3.2.50. Copa da Equipa de Saúde (Piso 1). Figura 3.2.51. Copa da Equipa de Saúde (Piso 1). Figura 3.2.52. Quarto com Instalações Sanitárias Privadas, Zona Masculina (Piso 1).
80 Figura 3.2.53. Entrada para as Instalações Sanitárias Privadas, Zona Masculina (Piso 1). Figura 3.2.54. Instalações Sanitárias Privadas, Zona Masculina (Piso 1). Figura 3.2.55. Quarto, Zona Masculina (Piso 1).
81 3.3. O Desenho e a Organização Espacial da Ala A Ala Psiquiátrica do CHTMAD é composta por um volume transversal em formato T, contendo dois pisos diferentes. O piso térreo, piso de entrada, é utilizado para espaços públicos e de lazer, enquanto o piso 1 destina-se a espaços privados, como o quarto dos doentes, instalações sanitárias, zonas de arrumos e espaços utilizados pela equipa de saúde. A entrada principal, localizada a Norte, é composta por um hall (antecâmara) de entrada de segurança com duas portas. Ao entrar neste volume, do lado direito segue-se uma série de gabinetes, incluindo o de admissão de doentes, e por fim uma sala de atividades e de fumadores. Do lado oposto aos gabinetes encontram-se salas de descanso, instalações sanitárias e um refeitório. No volume transversal ao de entrada, localiza-se o hospital de dia1, este também no piso térreo. Nesse corpo, encontra-se uma sala de isolamento, gabinetes, salas de enfermagem, uma sala de multimédia com a única ligação ao espaço exterior acessível aos doentes, salas de stock, uma sala de rouparia e instalações sanitárias. Se a entrada for feita pela porta do Hospital de Dia, no extremo oposto do volume, encontra-se um elevador adjacente à porta que faz a ligação com o piso superior. Utilizando o elevador para aceder ao piso 1, encontra-se um balneário pertencente à equipa de saúde, seguido por instalações sanitárias e o quarto dos doentes. Existe uma capacidade para 24 doentes, 12 do sexo feminino, 12 do sexo masculino. Esta divisão é feita através dos dois volumes que formam aquilo que é a ala psiquiátrica, sendo o volume onde se encontra a entrada principal pertencente ao sexo masculino e o outro ao sexo feminino. Este piso contém ainda salas de stock, enfermarias, o refeitório da equipa de saúde e duas salas anteriormente utilizados para atividades. 1 O hospital de dia encontra-se desativado, tendo tido o seu pico de utilização durante a pandemia de COVID-19.
82 Figura 3.3.1. Axonometria do programa da ala psiquiátrica.
ϳϵ Figura 3.3.2. Planta do Piso Térreo. Escala 1:200. 83
84
ϴϳ Figura 3.3.6. Corte AA’, BB’, CC’ e DD’. Escala 1:200. 91
ϴϳ Figura 3.3.6. Corte AA’, BB’, CC’ e DD’. Escala 1:200. ϴϳ Figura 3.3.6. Corte AA’, BB’, CC’ e DD’. Escala 1:200. ϴϳ Figura 3.3.6. Corte AA’, BB’, CC’ e DD’. Escala 1:200. ϴϳ Figura 3.3.6. Corte AA’, BB’, CC’ e DD’. Escala 1:200. ϴϳ Figura 3.3.6. Corte AA’, BB’, CC’ e DD’. Escala 1:200. ϴϳ Figura 3.3.6. Corte AA’, BB’, CC’ e DD’. Escala 1:200. ϴϳ Figura 3.3.6. Corte AA’, BB’, CC’ e DD’. Escala 1:200. 92
93 3.4. O Doente Figura 3.4.1. Série Big Mouth, Episódio 8, minuto 2:33, @Disney+ (2023).
94
95 Durante um período de seis semanas, o presente trabalho concentrou-se na Ala Psiquiátrica do CHTMAD, estabelecendo uma abordagem de contacto direto tanto com os membros da equipa de saúde (médicos, enfermeiros e assistentes operacionais), como com os próprios doentes, a quem esta ala é destinada. O foco do estudo não é apenas provar como o espaço físico arquitetónico pode moldar as vivências diárias, as relações interpessoais e o bem-estar dos seus utilizadores, mas também compreendê-lo. O grande objetivo é a contribuição para a criação de espaços terapêuticos que verdadeiramente respeitem e enriqueçam as vidas daqueles que o utilizam. A interação direta com os doentes não se restringiu apenas ao ambiente clínico por si. Foram autorizadas duas atividades de resposta direta: uma na primeira semana do estudo, convidava o doente a desenhar o que via através da janela da sala de Atividades 1 (Figura 3.2.8.); A segunda, ocorreu três semanas depois, onde era pedido ao doente que ilustrasse o espaço exterior que o rodeava e a que o mesmo tinha acesso (Figura 3.2.17.). Ambas as atividades serviram também para aferir o estado de orientação dos participantes, dando assim um feedback direto à equipa de saúde que esteve presente durante as atividades. Este subcapítulo não pretende apenas revelar os resultados dessas atividades, mas também explorar as narrativas adjacentes aos desenhos, dando voz aos utilizadores do espaço e desvendar as possíveis implicações práticas e emocionais do desenho arquitetónico na promoção do bem-estar na ala psiquiátrica. É importante destacar que todos os tipos de atividades foram concebidos antes de conhecer o espaço da ala, e foram previamente aprovados pela Comissão de Ética do CHTMAD, conforme demonstra o Anexo 3 e 4. Os critérios de inclusão para os doentes passam por aqueles que estavam internados no dia, com um período mínimo de internamento de três dias e, que manifestavam capacidade cognitiva para participar no estudo (de acordo com a avaliação do profissional de saúde – elo de ligação). Contrariamente, os critérios de exclusão estavam limitados a doentes que não estivessem internados no dia e num período mínimo de três dias; que não quisessem participar; e a não manifestação de capacidade cognitiva para a sua participação (de acordo com a avaliação do profissional de saúde – elo de ligação). O estudo adotou uma abordagem fundamentada numa iniciativa conduzida pelo DAC (Centro de Arquitetura Dinamarquês) no ano de 2021, conforme ilustrado na Figura 3.4.1. Esta atividade integrava a exposição Backstage, intitulada ‘’Architecture for Debate: Conversation Starters’’ . A dinâmica consistia em apresentar uma pergunta na parede, desafiando o público a
96 responder por meio de frases ou desenhos, posteriormente afixando-os na mesma parede. O que se destaca desta atividade é a capacidade de proporcionar um retorno praticamente instantâneo às questões colocadas, promovendo o diálogo e a reflexão tanto entre os participantes ativos como entre aqueles que observavam de forma mais passiva. Figura 3.4.2. Exposição Backstage, DAC (2021).
97 3.4.1. Atividades A Atividade 1, Ao pedido ‘’Desenhe o que vê pela janela’’, destacam-se 6 desenhos, onde é possível ver que os doentes em questão têm noção de estar fechados num sítio e do que os rodeia. Foram feitos a partir da Sala de Atividades 1 a olhar para o exterior, conforme identificado na Figura 3.2.8.
98 Figura 3.4.1.1. Desenho 1.
99 Figura 3.4.1.2. Desenho 2.
106 Figura 3.4.1.8. Desenho 2.
107 3.5. A Equipa de Saúde Figura 3.5.1. O local de trabalho.
108
109 3.5.1. Caracterização do Estudo e dos Participantes O presente estudo foi desenvolvido com o intuito de conhecer melhor as instalações da Ala Psiquiátrica do CHTMAD. Como primeira ação, procedeu-se à análise das respostas obtidas a partir dos questionários aplicados aos utilizadores do espaço, nomeadamente à Equipa de Saúde. Teve como objetivo proporcionar um maior conhecimento e compreensão sobre a influência do desenho arquitetónico no comportamento humano, procurando perceber o grau de satisfação geral. Através do Elo de Ligação , foram distribuídos envelopes com materiais para preenchimento. Juntamente em cada envelope, foi introduzido um Diário de Bordo 1, para que, caso faltasse alguma informação nos inquéritos e atividades específicas implementadas, o participante pudesse dar o seu contributo. O total de oito questionários foram respondidos exclusivamente em formato papel, sendo que cada participante lacrou devidamente o envelope antes de o entregar ao Elo de Ligação. Os dados recolhidos foram armazenados numa tabela única e analisados com recurso ao software de tratamento estatístico SPSS (Statistical Package for the Social Science). Esta atividade decorreu entre Setembro e Dezembro de 2023, tendo sido recolhidas 118 respostas consideradas válidas e completas. Conforme referido anteriormente, todas as atividades e inquéritos foram criados antes da primeira visita ao edifício da ala, e previamente aprovados pela Comissão de Ética do CHTMAD, conforme comprovado pelo Anexo 7.3 e 7.4. A caracterização dos participantes do estudo revelou que 87,1% do total de integrantes da Equipa de Saúde decidiu participar no estudo, sendo que os restantes 12,9% se encontravam de baixa médica. Apesar dessa percentagem em falta, as mais de 100 respostas recolhidas permitiram obter uma visão geral do tipo de dados produzidos no âmbito da presente dissertação de mestrado, aferir o nível de sensibilidade para as questões em estudo, antever as necessidades e projetar possíveis soluções futuras para a Ala Psiquiátrica. A participação por género foi de 59,3% do sexo feminino e 40,7% do sexo masculino, sendo a média de idades compreendida entre os 40 e os 50 anos. Cerca de 77,8% dos inquiridos residem na cidade de Vila Real e, aproximadamente metade (47,8%) demora menos de dez minutos a chegar ao local de trabalho, sendo que 100% se desloca através de um veículo próprio. Em termos profissionais, a maioria dos participantes são enfermeiros (78,3%), seguindose 13% composto por médicos, 4,3% por assistentes operacionais e 4,3% por outro tipo de funções 1 Diário de Bordo, Anexo 7.8
110 não especificadas. Quanto ao tempo profissional na ala psiquiátrica do CHTMAD, 21,7% trabalha na mesma num intervalo temporal de pelo menos 11 a 25 anos. Outros 21,7% trabalha há menos de um ano na ala. Seguem-se três grupos temporais com 17,4% cada, dos 6 aos 10 anos, dos 26 aos 30 anos e profissionais que trabalham na ala há mais de 30 anos. Por fim, 4,3% dos trabalhadores encontra-se a desempenhar funções entre 1 e 5 anos.
111 3.5.2. Atividades e Resultados Inquérito 3: Composto por 15 questões, com o inquérito 3 pretendeu-se compreender a opinião dos participantes sobre o edifício da ala psiquiátrica. O questionário utilizou sete variáveis de resposta: Discordo Totalmente; Discordo; Às vezes; Concordo; Concordo Totalmente; Não Sei e Não se Aplica. Q1: ‘’Os acessos à ala são fáceis’’ • 55,6% dos inquiridos mostrou concordar com a afirmação, juntamente com mais 18,5% que concordou totalmente. 11,1% assinalou às vezes, enquanto 14,8% discordou. A maioria considera os acessos à ala fáceis, com uma pequena percentagem a discordar. Q2: ‘’O edifício da ala está bem localizado’’ • 81,5% concordou e 7,4% concordou totalmente. 3,7% respondeu às vezes, 3,7% discordou e 3,7% discordou totalmente. A esmagadora maioria concordou com a boa localização do edifício. Q3: ‘’As instalações da ala são visualmente atrativas’’ • 42,3% concordou com a questão e 3,8% concordou totalmente. 19,2% assinalou às vezes, enquanto 23,1% discordou, juntamente com 11,5% a discordar totalmente. As opiniões sobre a atratividade visual das instalações são mistas, com uma ligeira maioria positiva. Q4: ‘’A ala psiquiátrica tem várias áreas de utilização e a circulação entre elas é fácil, não existem barreiras’’ • 37% discordou e 14,8% discordou totalmente. Já 22,2% assinalou às vezes, 18,5% concordou e 7,4% concordou totalmente. Existe uma perceção de dificuldade na circulação entre áreas, com uma maior percentagem a discordar com a afirmação. Q5: ‘’A área destinada à alimentação é ampla e arejada’’ • 40,7% concordou e 25,9% concordou totalmente. 7,4% assinalou às vezes e 25,9% discordou. A maioria vê a área de alimentação como ampla e arejada, mas há uma divisão considerável de opiniões. Q6: ‘’Os materiais utilizados no chão e o mobiliário da ala encontram-se em boas condições’’ • 37% concordou juntamente com 7,4% a concordar totalmente. 22,2% discordou e 18,5% discordou totalmente. Já 14,8% assinalou às vezes. As opiniões estão divididas quanto à condição dos materiais e mobiliário, com uma tendência para a discordância. Q7: ‘’As diferentes áreas da ala estão identificadas e sinalizadas’’
112 • 37% concordou, 14,8% concordou totalmente e 25,9% assinalou às vezes. 18,5% discordou, juntamente com 3,7% a discordar totalmente. A sinalização das áreas é vista de forma positiva por uma ligeira maioria. Q8: ‘’O pessoal veste-se de forma apropriada e estão identificados’’ • 48,1% concordaram, 22,2% assinalaram às vezes, 22,2% concordaram totalmente, 3,7% discordaram totalmente e 3,7% discordaram. A maioria considera que o pessoal está devidamente vestido e identificado. Q9: ‘’Normalmente, as atividades programadas são realizadas’’ • 40,7% concordou e 18,5% concordou totalmente com a afirmação. 29,6% assinalou às vezes, 3,7% discordou e 7,4% não sabia. As atividades programadas são vistas como cumpridas pela maioria dos participantes. Q10: ‘’Quando uma atividade programada é realizada, sou informado(a) da razão’’ • 37% assinalou às vezes. 29,6% concordou e 11,1% concordou totalmente. 11,1% discordou, juntamente com mais 3,7% a discordar totalmente. Já 7,4% respondeu não se aplica. A comunicação sobre a realização de atividades programadas é vista como insuficiente por uma parte significativa. Q11: ‘’No geral, penso que o pessoal gosta daquilo que faz’’ • 63% concordou, 7,4% concordou totalmente e 18,5% assinalou às vezes. Houve ainda 11,1% a responder que não sabia. A maioria sente que o pessoal demonstra gostar do seu trabalho. Q12: ‘’As instalações estão sempre limpas’’ • 55,6% concordou, juntamente com 18,5% a concordar totalmente. 18,5% assinalou às vezes e 7,4% discordou. A limpeza das instalações é vista de forma positiva pela maioria dos trabalhadores da ala. Q13: ‘’O doente é tratado com dignidade’’ • 44,4% concordou e 25,9% concordou totalmente. 25,9% assinalou às vezes e 3,7% discordou da afirmação. A dignidade no tratamento dos doentes é reconhecida pela maioria. Q14: ‘’O edifício da ala encontra-se em boas condições’’ • 33,3% concordou, contrariamente a 29,6% que discordou e 111,1% discordou totalmente, Já 25,9% assinalou às vezes. Há opiniões divididas sobre as condições do edifício, com uma leve inclinação para a discordância.
113 Q15: ‘’Considerando todos os aspetos, estou satisfeito(a) com a ala psiquiátrica’’ • 44,4% concordou e 7,4% concordou totalmente. 25,6% assinalou às vezes, 18,5% discordou, e 3,7% não sabia. Os resultados mostram a perceção geralmente positiva sobre a localização, acessibilidade e alguns aspetos da infraestrutura e funcionamento da ala psiquiátrica. No entanto, há áreas que necessitam de melhorias, como a circulação entre áreas, a comunicação sobre atividades programadas, e a condição dos materiais e mobiliário. A limpeza das instalações e o tratamento digno dos doentes são pontos fortes destacados pelos participantes. A análise sugere a necessidade de intervenções específicas para aumentar a satisfação geral e melhorar a experiência dos utilizadores da ala. Inquérito 4: Composto por 9 questões (sendo a primeira a autorização para participar no estudo), o inquérito 4 pretendeu compreender a opinião dos participantes sobre a iluminação do edifício. O questionário utilizou diferentes variáveis de resposta, assim como perguntas de resposta aberta. Q2: ‘’A iluminação geral da ala é adequada e boa’’ • 74,1% dos participantes respondeu que sim, enquanto 25,9% respondeu não. Isto indica que a maioria considera a iluminação da ala satisfatória. Q3: ‘’Qual o tipo de luz mais utilizado’’ • 59,3% indicou que a luz natural é a mais utilizada, e 40,7% afirmou ser a luz artificial a predominar. A preferência pela luz natural é evidente, no entanto, a luz artificial tem uma presença significativa. Q4: ‘’Tendo em conta a resposta anterior, mudaria o tipo de luz predominante’’ • 63% dos inquiridos não mudaria o tipo de luz predominante, enquanto 37% gostaria de o fazer, mostrando assim uma divisão considerável, com uma tendência ligeiramente maior para manter a luz atual. Q5: ‘’Se respondeu sim na alínea anterior, indique o motivo’’ • 30% indicou que a ala precisa de obras para aumentar a entrada de luz natural e outros 30% mencionou que a luz de cor muito clara é um problema. 20% prefere a utilização de LEDs, 10% sugeriu ser necessário espalhar melhor as fontes de luz e 10% afirmou que a luz artificial contribui para a desorientação temporal dos doentes. Q6: ‘’A luz, quando bem projetada, influencia o espaço onde se encontra’’
114 • 81,5% concordou que a luz bem projetada influencia positivamente o espaço, 14,8% nem concordou nem discordou e 3,7% discordou. A esmagadora maioria reconhece a importância da boa projeção de luz nos espaços. Q7: ‘’Sente-se mais cansado(a) quando a luz predominante é artificial’’ • 74,1% dos participantes afirmou sentir-se mais cansado com luz artificial, enquanto 25,9% não sente essa diferença. A luz artificial está então associada ao aumento de cansaço. Q8: ‘’A luz natural ajuda a controlar os estímulos dos doentes’’ • 66,7% dos inquiridos acredita que a luz natural ajuda no controlo dos estímulos dos doentes, enquanto 33,3% não concorda com a afirmação. A maioria vê benefícios na luz natural para o bem-estar dos doentes. Q9: ‘’Se respondeu sim na pergunta anterior, indique o motivo’’ • 44,4% dos participantes disse que a luz natural transmite tranquilidade e regula o sono, enquanto a luz artificial provoca agitação nos doentes. 38,9% afirma que a luz natural ajuda a regular e manter a orientação dos doentes e 16,7% mencionou que a luz natural dá uma sensação de liberdade aos doentes, evitando a sensação de estarem fechados. Os resultados sublinham a importância da iluminação, especialmente a luz natural, na perceção e bem-estar dos utilizadores da Ala Psiquiátrica do CHTMAD. A maioria dos participantes reconhece que uma boa projeção de luz influencia positivamente o ambiente e que a luz natural tem um impacto benéfico no comportamento e nos estímulos dos doentes. Os dados sugerem a necessidade de possíveis reformas para aumentar a entrada de luz natural e melhorar a qualidade da luz artificial, visando a criação de um ambiente mais saudável e acolhedor para os doentes da ala. Inquérito 5: Composto por 19 questões (sendo a primeira a autorização para participar no estudo), o quinto inquérito pretendeu compreender a opinião dos inquiridos sobre a cor e textura do edifício a ala. O questionário utilizou diferentes variáveis de resposta, assim como perguntas de resposta aberta. Q2: ‘’Identifico-me mais’’ • 66,7% dos participantes identifica-se mais com cores frias, enquanto 33,3% prefere cores quentes. Q3: ‘’As cores utilizadas na ala tornam o local de trabalho acolhedor e alegre para se trabalhar’’
115 • 74,1% dos inquiridos respondeu positivamente, enquanto 25,9% respondeu o seu oposto. A maioria acha que as cores atuais criam um ambiente acolhedor e alegre. Q4: ‘’São utilizadas predominantemente cores’’ • 74,1% dos inquiridos respondeu frias, enquanto 25,9% respondeu quentes. A predominância de cores frias é evidente. Q5: ‘’Mudaria a cor do espaço onde passa mais tempo’’ • 76,9% não mudaria a cor, enquanto 23,1% mudaria. Isto sugere uma preferência geral pela cor atual do espaço. Q5.1: ‘’Qual’’ • 50% escolheria amarelo, 16,6% branco, outros 16,6% verde-água e 16,6% escolheria múltiplas cores. Q6: ‘’A cor dominante nos quartos dos doentes é adequada’’ • 77,8% dos participantes concordou que a cor dominante é adequada, enquanto 22,2% discordou. Q7: ‘’Se respondeu não na alínea anterior, para que gama mudaria a cor’’ • 66,6% mudaria para cores quentes, enquanto 33,3% mudaria para cores frias. Q8: ‘’A textura do chão é adequada, facilitando os movimentos necessários’’ • 63% concorda, 25,9% optou nem concordar nem discordar e 11,1% discordou. Q9: ‘’Se respondeu discordo na pergunta anterior, indique o motivo’’ • 66,7% achou que o chão precisa de obras, enquanto 33,3% apontou que o piso molhado fica escorregadio, causando quedas. Do grupo que discordou (11,1%), todos indicaram que o chão necessita de obras devido ao desgaste e ao risco de escorregamento quando molhado. Q10: ‘’Nas instalações sanitárias, a cor utilizada é adequada e não a mudaria’’ • 83,4% concordou, 8,3% discordou e 8,3% nem concordou nem discordou. Q11: ‘’Concorda com a cor do exterior do edifício da ala psiquiátrica’’ • 83,3% concordou, enquanto 16,7% discordou com a afirmação. Q12: ‘’Os espaços de terapia/cuidados de saúde têm uma cor que transmite tranquilidade’’ • 87,5% concordou e 12,5% discordou. Q13: ‘’Mudaria a textura utilizada nas paredes e chão da ala’’ • 45,8% concordou, 33,8% discordou e 20,8% nem concordou nem discordou. Q14: ‘’Diferentes texturas despertam diferentes estímulos’’
122 .
123 4. O Espaço Exterior Figura 4.1. Vista do espaço exterior da ala (2023).
124
125 4.1. O Jardim Terapêutico Como um Elemento de Design Biofílico Por definição, o termo jardim terapêutico , consiste num espaço verde terapêutico desenhado para promover o bem-estar e facilitar a recuperação emocional e cognitiva dos doentes, dos visitantes e equipa de saúde. Em projetos hospitalares, especialmente em ambientes urbanos, é fundamental integrar paisagens e espaços verdes como parte essencial do design. Esta abordagem representa uma evolução natural na tendência de introduzir áreas verdes nas cidades (Battisto et. al, 2020). A ideia de trazer alguma normalidade a um espaço que não faz parte do dia-a-dia comum de uma pessoa é importante. Nos ambientes familiares usa-se os cincos sentidos para que a pessoa se envolva no ambiente, desfrutando de cheiros, sabores, texturas, sons e estímulos visuais. Rudolf Steiner, na sua conferência em 1916, expande essa ideia ao identificar dozes sentidos, divididos em três categorias: os sentidos corporais (tato, a vida, o movimento e o equilíbrio), os sentidos intermediários (o olfato, o paladar, a visão e o calor) e os sentidos superiores (a audição, a palavra, o pensamento e o eu). No entanto, em ambientes hospitalares esta experiência sensorial é muitas vezes limitada ou nula, com estímulos estéreis e mecânicos. O jardim terapêutico vem assim oferecer uma oportunidade de reintrodução da experiência sensorial em ambiente hospitalar, podendo proporcionar uma distração positiva à preocupação associada ao internamento. Por exemplo, vistas para a natureza a partir do quarto dos doentes, assim como em áreas de grande stress (como salas de isolamento) e em salas de espera, podem oferecer um alívio visual significativo. O acesso a um jardim terapêutico, a uma capela ou até mesmo a uma sala de meditação são elementos que promovem uma sensação de tranquilidade e refúgio. Além disso, a inclusão de arte que retrate a natureza pode criar um ambiente mais acolhedor. A música, seja em áreas comuns ou nos quartos dos doentes, programada especificamente para criar um ambiente de recuperação, pode também trazer um impacto positivo durante o internamento. A prática de exercício físico de leve intensidade, como caminhar pelos corredores ou em espaços exteriores que convidem a um passeio, e até mesmo a presença de animais são outras atividades que podem ajudar a nutrir o bem-estar positivos dos doentes. Contudo, existe ainda uma desconexão entre a visão idealizada do design/desenho de hospitais e jardins terapêuticos e a sua implementação prática, evidenciando a necessidade de um processo claro para transformar essas visões em realidade. Muitas vezes, os centros hospitalares são projetados com base em normativas – nomeadamente espaciais – que dimensionam e preparam os espaços para acolher as diversas atividades hospitalares que o
126 espaço exige, e nas necessidades e prioridades dos profissionais de saúde, o que pode resultar em soluções projetuais padronizadas e desconectadas das necessidades reais dos doentes. A criação de jardins terapêuticos eficazes ainda é frequentemente informal e baseada em abordagens ‘’ad hoc’’, ou seja, para a situação em específico. Para superar essa lacuna, é necessário adotar uma abordagem de design mais rigorosa e centrada no bem-estar, identificando objetivos e implementando estratégias para alcançá-las. Desenvolver considerações de design específicas e uma leitura de projeto exterior pode orientar as esquipas multidisciplinares na criação de jardins terapêuticos que promovam o bem-estar dos doentes. Embora o processo de design seja orgânico e iterativo, uma abordagem estruturada pode garantir a produção de espaços verdes eficazes que atendam às necessidades dos utilizadores dentro dos parâmetros do projeto. Figura 4.1.1. Esquema do processo de pensamento, Architecture and Health , pág. 192. Apesar de o diagrama do processo de projeto de um jardim terapêutico (Figura 4.1.1.) possa mostrar uma progressão linear é, de facto, um processo orgânico e cíclico, o que requer uma avaliação regular no que diz respeitos aos seus objetivos principais e potenciais de inovação. Além disso, é fundamental desenvolver uma lente de design (Figura 4.1.2.), que se foca nos resultados de bem-estar, reconhecendo que o design é um processo criativo (Battisto et. al, 2020).
127 A utilização de uma metodologia com base na concretização de uma visão ou ideia do resumo do projeto, deve considerar primeiramente a abordagem do design e, de seguida, analisar os seus objetivos e sintetizá-los, culminando num design holístico. Ao saber como projetar jardins terapêuticos, a equipa multidisciplinar pode garantir assim a produção de espaços verdes eficazes dentro da infinidade de parâmetros do projeto. Figura 4.1.2. A lente de design. Architecture and Health, pág. 192.
128 4.2. O Existente Embora não haja sinalização a indicar a existência de uma área ajardinada, durante a primeira visita à ala psiquiátrica do CHTMAD, foi indicado que de facto existe um espaço exterior acessível aos doentes. Apesar dos esforços consideráveis por parte da equipa de saúde para melhorá-lo, ainda gera desagrado considerável. Tanto os doentes como a equipa de saúde admitiram a falta de um espaço exterior terapêutico adequado e funcional1. No entanto, é possível observar que houve uma tentativa de organizar o espaço por zonas (Figura 4.2.1.), suportada por relatos durante as visitas ao ‘’caso de estudo’’, onde foi confessado o ativo envolvimento na tentativa de melhorar as condições do espaço em questão. A experiência pessoal da equipa de saúde e dos doentes tornou mais fácil a compreensão das necessidades específicas e dos parâmetros a ter em conta numa reestruturação do espaço. Embora o objetivo da presente dissertação não seja encontrar uma solução concreta e definitiva, é importante destacar o que a pesquisa evidenciou. Estas evidências não sublinham apenas as deficiências atuais do espaço exterior, como também ilustram as aspirações e esforços contínuos para transformá-lo num ambiente mais funcional e terapêutico. A análise detalhada das intervenções propostas e das perceções dos utilizadores do espaço fornecerá uma base sólida para futuras melhorias e servirá como um guia para o desenvolvimento de soluções que melhor atendam às necessidades dos doentes e da equipa de saúde. Figura 4.2.1. Diagrama explicativo da tentativa de organização do espaço exterior por zonas. 1 Análise detalha em 4.2.3.
129 4.2.1. Levantamento Fotográfico 4. Caso de Estudo – Centro Hospitalar Trás-os-Montes Alto Douro: Espaço Exterior do Edifício de Psiquiatria
130 Figura 4.2.1.1. Vista adjacente à porta de acesso para o Espaço Exterior. Figura 4.2.1.2. Pormenor a seguir à entrada para o espaço. Figura 4.2.1.3. Portão desativado. Figura 4.2.1.4. Ginásio exterior.
131 Figura 4.2.1.5 Pormenor situado no meio do jardim. Figura 4.2.1.6. Zona seguinte. Figura 4.2.1.8. Área de estar. Figura 4.2.1.7. Pneus amontoados no centro do espaço.
138 É essencial considerar o interesse no desenvolvimento e aprimoramento do espaço numa perspetiva futura. Os doentes, sob a vigilância necessária, deveriam ter acesso ao espaço exterior sem que fosse necessário pedir a um elemento da equipa que abrisse as portas que os separam do espaço. Há que reconhecer uma potencial contribuição para um ambiente terapêutico mais eficaz e acolhedor. Figura 4.2.4.1. Diagrama da organização do espaço exterior por zonas segundo a análise feita.
139 4.2.5. Perspetivas Futuras Durante a última visita ao caso de estudo, em Abril de 2024, houve uma novidade no espaço exterior da ala. A equipa de saúde construiu aquilo que esperam tornar-se uma horta funcional a incluir na terapia dos doentes. Apesar da dimensão e da localização, adjacente ao ginásio, é possível identificar o esforço de toda a equipa no constante melhoramento e atualização das condições do espaço em prol do bem-estar do doente. A iniciativa demonstra também o compromisso contínuo com a qualidade do ambiente terapêutico, e destaca a importância da inovação e adaptação às necessidades em evolução. Sugere ainda um potencial para a expansão e diversificação das atividades terapêuticas e do programa ao ar livre, o que pode enriquecer ainda mais a experiência dos doentes e promove a sua recuperação de forma holística. Figura 4.2.5.1. Vista geral da zona da horta (Abril 2024).
140 Figura 4.2.5.2. Figura 4.2.5.3. Figura 4.2.5.4. Figura 4.2.5.5.
141 Análise Espacial: Figura 4.2.5.6. Análise espacial de possíveis soluções para o espaço (feito na primeira visita ao local, 2023). Figura 4.2.5.7. Análise espacial do exterior da ala (durante a primeira visita ao local, 2023).
142
143 5. Considerações Finais Quando se fala de um internamento numa ala psiquiátrica, o estigma social ainda se encontra enraizado no pensamento das pessoas. É necessário implementar um programa que vise mudar este paradigma. A requalificação e valorização dos espaços de internamento são essenciais para garantir a qualidade e o bem-estar dos doentes. A perceção do espaço em ambientes hospitalares é um fator crítico que afeta profundamente a experiência de todos os seus utilizadores. Elementos como a luz, a cor, a materialidade, o ruído e a tecnologia impactam a experiência hospitalar. Estudos como o realizado por Ulrich em 1984 destacam a importância da exposição do doente com a natureza. Espaços bem iluminados e ventilados são essenciais para o bem-estar dos doentes, enquanto projetos centrados no doente, exemplificados por hospitais como o The Christ Joint and Spine Center e o Universitário de Karolinska, demonstram a importância de integrar sustentabilidade e eficiência energética. Práticas inovadores no hospital de Cleveland Clinic mostram como o desenho arquitetónico e a gestão podem otimizar o processo de internamento. Investir em ambientes confortáveis, eficientes e inovadores é crucial para melhorar continuamente os cuidados de saúde e a experiência dos utilizadores do espaço. Ao transformar e/ou atualizar espaços consoante a necessidade do seu público-alvo, tornando-os mais confortáveis, funcionais e dignos, não se melhora apenas as condições dos doentes, mas ajuda-se a eliminar o estigma associado às alas psiquiátricas. Esta mudança de perspetiva beneficia o bem-estar do doente e demonstra como a reestruturação arquitetónica pode desempenhar um papel crucial na construção de espaços hospitalares de internamento mais inclusivos e eficazes. Ter um espaço bem pensado e projetado é um direito, e deve-se investir continuamente nas melhorias das condições, pois o conhecimento em torno do tema está sempre a evoluir. Com isto, não se transforma apenas o espaço físico, mas também se aprimora o processo de recuperação e a maneira como este é feito. Ao integrar o caso de estudo com evidências e quadros teóricos, o presente trabalho procurou desvendar o impacto que o ambiente construído da Ala Psiquiátrica do CHTMAD tem no processo de recuperação e cura dos doentes. Foi possível observar a relação entre o espaço e o doente, ainda que com algumas limitações devido a questões éticas e de diagnóstico. Além disso, a investigação alargou o foco ao bem-estar dos profissionais que trabalham diretamente com os doentes, reconhecendo a relação simbiótica entre o ambiente físico e a qualidade dos cuidados prestados.
144 De acordo com a análise feita, conclui-se que existe um conjunto de mudanças que devem ser feitas para melhorar. A análise destaca perceções sobre o ambiente construído, incluindo a acessibilidade, a iluminação, as cores e texturas, a privacidade e a segurança. Embora a maioria considere os acessos fáceis e bem localizados, há uma discordância sobre a circulação entre áreas e a atratividade visual das instalações. A iluminação natural é valorizada e reconhecida, assim como a utilização de cores frias na ala. A privacidade é considerada satisfatória, exceto nas instalações sanitárias. A segurança dos doentes é uma prioridade comum a todos os elementos da equipa de saúde, mas existem algumas preocupações que persistem sobre as condições físicas da ala e dos sistemas de segurança. Os resultados destacam ainda a importância de um desenho arquitetónico centrado no bem-estar dos utilizadores e sugerem melhorias na circulação, privacidade e segurança, o que oferece uma visão valiosa para futuras intervenções, visando sempre melhorar o ambiente terapêutico e os serviços na ala psiquiátrica. Estas alteração podem, potencialmente, aumentar a satisfação e o bem-estar dos seus utilizadores. Nesse sentido, o ato de reestruturar a ala não deve limitar-se apenas à mudança no ambiente construído, deve também envolver uma reformulação dos paradigmas com uma abordagem evolutiva responsável pelo processo de mudança. A reestruturação deve requerer uma colaboração entre doentes, equipa de saúde e profissionais da área arquitetónica, promovendo assim uma cooperação onde cada grupo se sinta parte integrante do projeto, não apenas como beneficiário (o doente), mas como agente ativo de transformação do espaço, reforçando o sentido de pertença e de responsabilidade. Existem ainda algumas problemáticas a serem solucionadas, como uma reabilitação bem estudada do espaço exterior existente, centrada no doente e orientada para a inclusão, atingindo um espaço de internamento digno e de igualdade. Revelou um amplo reconhecimento da importância do espaço exterior adjacente ao edifício da ala psiquiátrica para a recuperação dos doentes, com 96,2& dos participantes a concordar que a qualidade do espaço identificado é crucial para o sucesso das terapias no internamento. A maioria também expressou interesse em melhorar o espaço ao sugerir a inclusão de áreas de plantação (hortas), descanso e atividades, sempre com foco na garantia de segurança. Os resultados indicam assim uma preferência por ambientes simples, funcionais e adaptáveis. A análise sugere, portanto, que investir em espaços exteriores de qualidade pode melhorar a eficiência terapêutica e a criação de um ambiente mais acolhedor para os doentes e a equipa de saúde. O acesso direto e seguro a esses espaços por parte dos
145 doentes é uma mudança que deve ser anotada, assim como a sinalização para o jardim terapêutico. Durante a investigação, foi ainda identificada a falta de existência de um espaço de internamento específico para adolescentes, que atualmente ficam internados na pediatria junto de outras crianças com patologias completamente diferentes, o que faz com que o processo de recuperação seja insuficiente e/ou nulo. Medidas futuras devem ser orientadas para a inclusão da facha etária mencionada, criando um espaço mais acolhedor e focado na idade dos adolescentes. Para alcançar tal objetivo, é fundamental implementar normativas baseadas em princípios diversificados como os apresentados na presente dissertação, com recurso a um programa inclusivo, participativo, inovador e humanizado. Deverão ser adotadas metodologias que promovam essencialmente o bem-estar e o processo de recuperação do doente, permitindo que, apesar da diferença de idades entre os adolescentes, estes encontrem um estado de bem-estar durante o seu internamento. O presente trabalho foi balizado pela falta de documentos relacionados com o caso de estudo nas diferentes entidades contactadas, sendo que o Ministério das Obras Públicas e o Ministério da Saúde abriram uma reclamação a fim de resolver a situação. Futuramente, seria valioso investigar a perspetiva dos próprios doentes, possivelmente através de métodos que respeitem as restrições éticas, a fim de obter uma visão mais abrangente e longitudinal da avaliação do impacto a longo prazo das mudanças no ambiente construído sobre o bem-estar e a recuperação dos doentes, visto que o trabalho se focou maioritariamente no ponto de vista da equipa de saúde.
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