Significado e fundamentos dos valores: para uma fenomenologia
Abstract
Surge o “valor” como elemento fundamental da vivência ética, que expandiu a ideia de Pascal como ordo cordis, através de uma construção hierárquica de valores. Os valores poderão surgir como qualidades objectivas que se prendem com os sentidos e afectividades, havendo uma função cognitiva e determinante na elaboração de teorias a priori, havendo a formação individual e colectiva dos valores, que tem o seu centro no coração. Aqui são apresentadas leituras sobre filosofia.
Full text
«F RAGMENTOS DE FILOSOFÍA », nº 15 (2017), pp. 85-110. ISSN 1132-3329 S IGNIFICADO E FUNDAMENTOS DOS VALORES : PARA UMA FENOMENOLOGIA THE MEANING AND VALUES’ FOUNDATIONS: ACCORDING TO A PHAENOMENOLOGY R AMIRO D ÉLIO B ORGES DE M ENESES Universidade Católica Portuguesa. Centro Regional de Braga borges27[email protected] Resumo Surge o “valor” como elemento fundamental da vivência ética, que expandiu a ideia de Pascal como ordo cordis, através de uma construção hierárquica de valores. Os valores poderão surgir como qualidades objectivas que se prendem com os sentidos e afectividades, havendo uma função cognitiva e determinante na elaboração de teorias a priori, havendo a formação individual e colectiva dos valores, que tem o seu centro no coração. Aqui são apresentadas leituras sobre filosofia. Palavras-chave: Valor, bem, significado, fundamentos e resposta axiológica. Abstract Of paramount importance was his work on ethics, which expands. Pascal’s idea of an – ordo cordis – by the construction of a hierarchical system of values. He taught that values as objective qualities are disclosed in feelings, which have a cognitive function and, thus, aid in the fabrication of a priori theories in all realms of being. But the recognition of the realms of universal values, a sector of which forms the ethos of a given age, has to be supplemented by that of the order of the time with its individual values, and claims. KeyWords: Value, Good, meaning, foundations, and axiologic answer. 1. Introdução. Naturalmente, Kierkegaard e Nietzche destronam o primado do conhecimento e da Vernunft, despertando a burguesia da inactividade. O desenvolvimento da vida exige actividade e esta requer como seu “digno” incentivo o Wert (valor),
86 S IGNIFICADO E FUNDAMENTO DOS VALORES «FRAGMENTOS DE FILOSOFÍA», NÚM. 15, 2017, pp. 85-110. ISSN: 1132-3329 palavra introduzida por Kant. 1 Segundo a Psicologia e em linguagem vulgar, o“valor” significa o resultado de uma avaliação (Geltung). Porém, na linguagem filosófica, Wert refere-se, fenomenologicamente, como princípio da avaliação. Em sentido ontológico, não parece haver uma tal relatividade, dado que o valor intrínseco da coisa mantém-se inalterável. Apesar do mesmo objecto ser avaliado de modo diferente, nem por isso, deixa de ser aquilo que é, e a coisa em si, vale porque é, daqui que a sua hierarquia axiológica corresponder ao seu grau na escala dos seres. Assim, seguiremos as ideias gerais da “filosofia dos valores”, que se poderão apontar nos pontos seguintes: que características possuem os valores, considerados em si mesmos; como se apreendem os valores e como se fundamentam. Serão estas as questões axiológicas que consideramos ao longo deste estudo. Os valores são, no aspecto formal, positivos e negativos, pessoais e reais (de coisas), autónomos e dependentes. Pelo aspecto material, são sensíveis (hedónicos, vitais e utilitários) e espirituais (lógicos, éticos, estéticos e religiosos). Do mesmo modo, em M. Scheler, os critérios para a “hierarquização dos valores” são a maior duração, a menor divisibilidade, o facto de servirem de fundamento a outros pela maior proximidade da sensibilidade espiritual. Os mais altos de todos são os religiosos, os do heilig (santo). Para Kant, a revolução crítica estabelece o privilégio ontológico da razão prática. O valor, na perspectiva do deontologismo kantiano, é deslocado do “cosmos” para o domínio da consciência moral – Bewsstsein –, porque a – Guter Wille – pode, sem restrições, ser julgada boa e ser o fundamento da obrigação moral (Verbindlichkeit). Não obstante, a metafísica moral de Kant estabelece que a realidade é dominada pelos valores da consciência moral, acabando por coincidir o ser e o bem, na orientação de Hessen. O idealismo transcendental kantiano acentua a tendência para considerar o valor como um princípio supremo da vida prática. Lotze é considerado, in stricto sensu, o fundador da “filosofia dos valores” por ter introduzido o conceito de “valor”. Na sua obra Mikrokosmos, distingue entre conexões causais, de sentido e de fim, e estuda a relação do homem para estes três círculos, considerando a relação do homem a Deus, como uma “ética”, tal como em Kant. Assim, distingue rigorosamente o ser das coisas do valor. Todavia, tal como Kant, está convencido de que ser e valor acabam por ter uma raiz 1 Cf. Kant, I.( 1911), pp. 72-79.
R AMIRO D. B ORGES 87 «FRAGMENTOS DE FILOSOFÍA», NÚM. 15, 2017, pp. 85-110. ISSN: 1132-3329 comum. Objectivamente, o Valor é aquilo que fundamenta uma avaliação determinante de que um querer certo pela bondade transforma o essente num bem: bonum. Será, na verdade a avaliação da bonitas,o problema da ontologia medieval, que está por detrás da filosofia moderna do Valor. Mas, será Lotze que torna autónoma a percepção espiritual do Valor. Na verdade, procura uma demonstração análoga ao argumento ontológico, baseada na consciência do valor (Valere), para refutar o panteísmo e provar a existência de Deus. Diferentemente, da neo-escolástica, Hessen, como estudaremos neste artigo, considerou que Aristóteles confundiu o conceito de ser com a ideia (conceito do “dever ser”), o que esteve na ordem da incorporação do Valor na realidade – omne ens est bonum –. Geralmente, a neo-escolástica fundamenta o bonum no ser e a Bona (valores particulares) nos aspectos diferentes do ser, interpretando, deste modo, a célebre e concisa frase do De Veritate de S. Tomás de Aquino: essentialis bonitas non attenditur secundum considerationem naturae absolutam, sed secundum esse ipsius humanitas enim non habet rationem boni vel bonitatis nisi in quantum esse habet. De facto, a hierarquia de valores depende dos seres ou da sua perfeição. Segundo a perspectiva neo-escolástica, Rintdem considera o Valor como um conteúdo de sentido em que o ser realiza um fim (finis), porque: omne ens agit propter finem. Esta concepção de valor é apoiada numa interpretação da história pelo desenvolvimento da consciência moral, tal como surge em Kant. Para terminar esta introdução, poderemos terminar com o pensamento de Antero de Quental, para quem os valores do “santo”, caminham à frente de todos os outros, no progresso da Humanidade. Assim, a “axiologia” é uma fenomenologia, porque é uma descrição daquelas coisas que são apetecíveis em ordem ao Bem, como seu fundamento último. Assim, procuramos determinar o significado e o fundamento dos valores, ao longo deste esrudo. 2. Axiologia: posições e características. Lotze frisara que os seres são, mas não valem, enquanto que os valores valem, mas não são, não possuindo realidade objectiva e são como “dignidades do ser”. Os valores são imaginários e “valem” independentemente da sua realização. Todos nós consideramos a amizade como um “valor”, dado que esta ut sic não existe. Mas, vivemo-la e dignificamo-la. Para prova desta acção temos o
88 S IGNIFICADO E FUNDAMENTO DOS VALORES «FRAGMENTOS DE FILOSOFÍA», NÚM. 15, 2017, pp. 85-110. ISSN: 1132-3329 pensamento de M. Scheler, quando diz que ela não sofre quebra, porque um amigo meu me traiu. 2 Com efeito, Hessen acrescenta: os valores estéticos perdurariam, mesmo que fossem destruídos todos os objectos de arte, através dos quais se tornam visíveis. 3 Igualmente, Hessen refere que os valores dão sentido e bem à existência do homem, quer em relação ao próprio indivíduo, quer à comunidade e demonstrao a partir do estudo do sentido da vida e do sentido da cultura. Segundo Scheler, de acordo com os princípios fenomenológicos, o “valor” (Wert) é uma qualidade inerente aos objectos, não uma qualidade real, mas algo de “irreal”, que corresponde ao “estado afectivo” e que acompanha os objectos ou fenómenos apresentados na consciência pura. 4 Hessen não reduz o valor a um puro fenómeno da consciência pura, admite o mundo irreal de Hartmann, irredutível ao mundo dos valores. Todavia, segundo Hessen, os valores não são absolutos, mas essencialmente relativos. Não há valores em si, mas só valores para alguém. 5 Com efeito, estes, sem deixarem de ser aquilo que são, na ordem ideal, podem realizar-se, ao incarnar num objecto real, numa obra de arte. Será só através dos valores realizados, que descobrimos o mundo dos valores ideais. Será pelo culto prestado aos valores espirituais, que o homem se personaliza. Logo, a personalidade será a realização de valores. Procuramos realizar os valores espirituais, colocando-os ao seu serviço e procurando dar-lhes realidade, tanto quanto couber, tão abundante e absolutamente quanto for possível. Os valores chamam por ti, sê tu, por isso, o seu realizador, o portador do seu facho luminoso, por mercê de quem elas hão-de tornar-se realidade. 6 Apesar de tudo, neste aspecto concordam Hartmann e Scheler, o valor realizado não se identifica com o objecto ou com o ser em que se realiza. Este é apenas o seu portador, podendo variar, permanecendo o mesmo valor, como pode ser também portador de diferentes valores. Consequentemente, o valor 2 Cf. Scheler, M. ( 1966), pp. 32-45. 3 Cf. Hessen, J ( 1944), p. 57. 4 Cf. Ortega y Gasset, J. (1943), p.861. 5 Cf. Hartmann, N. ( 1948), pp. 62-64. 6 Cf. Bruges, M. L.P. (2004), pp. 38-40.
R AMIRO D. B ORGES 89 «FRAGMENTOS DE FILOSOFÍA», NÚM. 15, 2017, pp. 85-110. ISSN: 1132-3329 artístico pode ter como suporte uma estátua, uma pintura, uma paisagem e a mesma estátua é susceptível de valores estéticos, económicos e religiosos. 7 Esta radical distinção não impede uma íntima relação entre valor e ser, que se completam mutuamente. Isto porque qualquer ser encerra algum valor e qualquer valor tende a realizar-se num ser. Segundo Hessen, os valores pertencem à ordem ideal do valor intemporal. Contudo, acham-se numa certa relação com a ordem real. 8 Tal será a opinião dos axiologistas da Escola de Baden (Von Willelband, Rickert, etc.), para quem o valor (Wert) se identifica com o pensamento lógico ,será valor tudo quanto for pensado como tal, como impressão agradável ou desagradável, vivida pelo sujeito. 9 O valor não apresenta existência objectiva, na perspectiva de Ehrenfels, sendo determinado pelo desejo que se deve unir ao sentimento. Dizemos que as coisas têm valor, porque as desejamos, logo o valor da coisa consiste no desejável. 10 Não queremos uma coisa porque a conhecemos como boa ou útil, mas conhecemo-la boa ou útil, porque a queremos. Na verdade, se desejo um objecto, então tem valor; se o não desejo, não tem valor. Com efeito, como desejamos o que é útil ou deleitável, segue-se que a sua essência consiste no prazer que originam no sujeito ou na satisfação de uma necessidade. Os valores, pela leitura de Croce, são os sentimentos orgânicos, enquanto acompanham a actividade espiritual. 11 Estas reflexões, segundo Hessen, mostram bem como o sentido da vida está dependente dos valores. O sentido da vida alcança-se tanto melhor, quanto maior for a capacidade do homem para realizar os valores, para os quais nasceu e aos quais está subordinado. Hessen afirma que há valores espirituais e não-espirituais. Os espirituais são aqueles que constituem a cultura; os outros, especialmente os utilitários, são o substrato daquilo a que se chama de “civilização”. Todo o acto da cultura consiste na realização de um valor, que pode ser na forma de valor científico, estético ou 7 Cf. Fragata, J. (1946), p. 23. 8 Cf. Hessen, J. (1944), p. 312. 9 Cf. Ribot, C. (s.d.) p. 40-41. 10 Cf. Ibidem, pp. 42-43. 11 Cf. Donat (1921), p. 118.
90 S IGNIFICADO E FUNDAMENTO DOS VALORES «FRAGMENTOS DE FILOSOFÍA», NÚM. 15, 2017, pp. 85-110. ISSN: 1132-3329 ético. Todo o processo cultural é um processo condicionado e definido por valores. 12 A sua actuação obedece a um “deve ser” que a cultura assume. Este é o apelo que os valores dirigem ao homem e que ele tem de realizar, se quiser obedecer à lei da sua própria autorealização na perspectiva de Hessen. Sendo o mundo dos valores uma produção do espírito, dependente dos sentimentos excitados no sujeito, segue-se logicamente o relativismo. O valor é relativo como o conhecimento. Mas, o valor ontológico, do mesmo objecto, pode ser diferente para várias pessoas ou ainda para a mesma, noutras circunstâncias. Uma característica, relacionada com as anteriores, será considerar o valor dotado de graus, ou seja, há várias qualidades de valores. Será preocupação de todos os axiologistas formar uma “escala ascendente”. 13 As escalas de valores, normalmente, vão subindo dos valores económicos, passando pelos intelectuais, até aos religiosos, que são os mais elevados. Como escreve Hessen, na ordem do ser, não se dá tal hierarquia: há o mundo inorgânico, o psíquico, o espiritual, etc., mas estes degraus da realidade não correspondem aos graus do ser. Não se pode afirmar que qualquer deles possua mais ser do que o outro. A única alternativa, que, neste caso, se impõe, é ser ou não ser, existir ou não existir, não havendo meio termo. 14 Para cada degrau das escalas, os valores são aos pares, dado que a um sentimento agradável corresponde um valor positivo, a um sentimento desagradável deve corresponder um valor negativo. Esta qualidade, denominada – polaridade –, é exclusiva do mundo dos valores; os seres são todos positivos;o ser negativo; o não-ser; o puro nada. Embora como verdade, o desvalor não elimina inteiramente o valor, mas apenas a sua positividade. Assim, escreve N. Hartmann: existem no mundo a imperfeição, o mal, o desvalioso. Sem dúvida, o Mal existe. Ele não tem menos realidade do que o Bem e a perfeição. 15 Hessen acrescenta que negar a realidade do Mal ou considerá-lo um simples ens privatum, será o mesmo que fechar os olhos à evidência. A escala axiológica comprova a irredutibilidade entre ser e valor. Teoricamente, construímos esta escala, que poderemos considerar fixa, em 12 Cf. Coreth, E.( 1988), pp. 261-262. 13 Cf. Marquez, G. (1942), pp. 54-56. 14 Cf. Hessen, J. (1944), pp. 59-62. 15 Cf. Ibidem, p.80-81
R AMIRO D. B ORGES 91 «FRAGMENTOS DE FILOSOFÍA», NÚM. 15, 2017, pp. 85-110. ISSN: 1132-3329 determinado grau, será fundamentação exclusiva do sujeito e portanto “relativa”. Com efeito, por esta razão, Küppe escreveu: toda a determinação do valor fundamenta-se no subjectivismo, isto é, na aprovação ou reprovação do sujeito. 3. Fundamentos axiológicos: significado e evolução. 3.1. Os valores bastam-se a si mesmos, afirmam alguns. Naturalmente, não se apoiam no ser, são não-seres, absolutos, eternos, necessários e valem porque valem. Existe o valere e o desvalere, que, na parábola do Bom Samaritano (Lc 10, 25-37), tem duas metáforas vivas: o “semi-morto”, como “desvalido no caminho” da dor e do sofrimento e, finalmente, o Samaritano que se “comove” e presta auxílio. Um representa o “valor” e o outro o “contra-valor”, respectivamente. Os valores são activos e passivos, simultaneamente, sendo representados linguisticamente pela “voz média”. Teologicamente, pela parábola do Homo Viator, os valores fundamentam-se nos rahamim ou pela “comoção das vísceras”. Toda a conduta do Bom Samaritano foi de um Samaritano bom,porque reveladora de um comportamento axiológico e digno. Fenomenologicamente, Scheler fundamenta o valor no próprio ser. Segundo a parábola do Desvalido no Caminho, os valores da conduta exemplar do Samaritano fundamentam-se na “comoção poiética”, determinante de nova forma axiológica poiética. 16 Se Scheler afirma que o valor se funda no ser é só porque requer necessariamente um portador, como o líquido exige um recipiente para se transportar. O valor está intrinsecamente no esse, como um corpo no lugar do qual se distingue realmente. Segundo Hessen, que adequadamente impugna o subjectivismo puro e o relativismo, existe um reino supra e trans-individual de valores, que não pode ser apenas referido a um sujeito humano. Este pensador conclui pela necessidade de admitir um correlativo subjectivo de um tal mundo num sujeito supra e transindividual, isto é, sobre-humano e supra-terreno. Estes valores terão de ser pensados e vividos por nós na forma de conteúdos mentais de um Espírito absoluto. 17 O valor absoluto da parábola é o Pai misericordioso, daqui que deveríamos chamar parábola do Pai misericordioso no Desvalido do Caminho (Lc 10,25-37). 16 Cf. Borges Meneses, R. D. (2005), pp.87-101. 17 Cf. Hessen, J. (1944), pp.70-86.
92 S IGNIFICADO E FUNDAMENTO DOS VALORES «FRAGMENTOS DE FILOSOFÍA», NÚM. 15, 2017, pp. 85-110. ISSN: 1132-3329 Segundo os sequazes do subjectivismo, o fundamento ontológico do valor aparece ou manifesta-se num sujeito que deseja satisfazer um sentimento ou uma necessidade. Esta satisfação seria a essência do valor. Tal aparece metaforicamente, pela “fruição” dos salteadores, segundo a parábola do Desvalido no Caminho. Com efeito, se determinada coisa é para mim, um valere, objectam outros axiologistas contra esta opinião, o sentimento colectivo vem aumentar ainda em mim esse valor. A origem ontológica do valor não é a sociedade, dado que o valor colectivo é um novo valor, que se vem juntar ao que eu já possuía. Evitam estas dificuldades os que, mais imbuídos do espírito de Kant, fundamentam o valor na “obrigação” (Verbindlichkeit), onde se fundamenta o “dever” (Pflicht). Qualquer acto humano será bom, então terá valor, se satisfizer uma obrigação. Segundo o idealismo transcendental de Kant, a “obediência” ao dever constitui o verdadeiro valor (valere). 18 3.2. Como conhecemos os valores? In genere, os valores são a-lógicos, uma vez que incluem uma relação essencial, não ao entendimento, como o ser, mas ao sentimento. Para a sua apreensão não é necessário raciocinar, basta o sentir. Definem-se na “ordem do coração”, de que nos fala Pascal. De acordo com a fenomenologia axiológica de Scheler, a apreensão dos valores, em harmonia com os princípios fenomenológicos e a faculdade de apreensão será o “sentimento”. Se o homem fosse só entendimento, então não conheceria os valores. O acto fundamental, correspondente a esta apreensão, é o sentir intencional, intuitivo e a priori. Os valores são qualidades, que se tornam presentes directamente no nosso sentir intencional. O a priori tem por objecto, não a coisa que existe fora do sujeito, mas unicamente o fenómeno ou vivência, que se apresenta na consciência pura. 19 Scheler assinala o “sentir intencional” como um estado afectivo do sujeito. Logo, a objectividade do valor identifica-se com o “estado afectivo” e o conhecimento deles com o sentir deste estado afectivo. 20 Hessen dá mais realce à actividade intelectual, apesar de a conservar ainda num estado secundário. Assim, opõe-se ao “sentir intencional” fenomenológico, 18 Cf. Leguam, M. (2001), pp. 242-243. 19 Cf. Scheler, M. (1941), pp. 36-38; 91-93. 20 Cf. Scheler, M. (1966), pp. 262-266.
R AMIRO D. B ORGES 93 «FRAGMENTOS DE FILOSOFÍA», NÚM. 15, 2017, pp. 85-110. ISSN: 1132-3329 que Scheler apresenta como acto de nova faculdade, e admite uma intuição emocional semelhante à “ordem do coração”, como um misto de sentimento e de intelectualidade, com preponderância exagerada do sentimento, o que o leva também a certo alogicismo. 3.3. Se ser e valor se convertem, e se todo o ser vale e todo o valor existe, então é evidente, que a resposta tem de ser negativa. O valor supõe uma tendência, pois amamos e buscamos o que vale e como podemos desejar e tender para aquilo que não existe? Será verdade que reconhecemos à amizade um valor, independentemente da sua realização actual, mas daqui não se segue que estes valores não sejam seres. Todo o ser tem valor, ou seja, todo o ser é bom; pois se é bom, é conveniente; se é conveniente pode aperfeiçoar e o que pode aperfeiçoar vale. Que todo o ser é conveniente não o podemos negar, se consideramos que, para cada ser, é melhor existir, que não exista. A existência, pela qual está constituído, em determinado grau de perfeição, convém-lhe a ele um valor. Tudo o que existe ama a sua perfeição e emprega todos os esforços para a conservar. 21 O valor não é mais que o próprio ser, enquanto diz relação a outro, que o pode apetecer. Também, o valor não prescinde do ser, pois, o valor é, necessariamente, o valor de alguma coisa, como a subida é subida do caminho. Será impossível conceber o valor (valere) sem o ser. Na ordem ontológica, nem o ser prima sobre o valor, nem o valor sobre o ser, visto que ambos se identificam. 22 O valor das coisas é que se impõe e atrai a si o sujeito que apetece, de tal modo que este só não é arrastado necessariamente, porque o valor se lhe apresenta como imperfeito, e, portanto, outro pode ser preferido. O Bom é, segundo S. Tomás de Aquino, o “ser”, enquanto apetecível: bonum est aliquid in quantum appetibile est. 23 Logo, a nota essencial do valor é ser apetecível, o que supõe necessariamente uma relação ad aliquid. O valor avalia-se pela relação do ser a determinado apetite, que actualmente deseja, e na medida em que deseja; por isso, o ser pode ter em si valor, sem ser actualmente um valor para mim, ou possuir um valor diferente daquele de que desfruta e um apetite determinado pode atender só a um aspecto da perfeição total do ser. 21 Cf. Aquinatis, St. Th. ( 1985), De Veritate.I, q,42, a.,3. 22 Cf. Idem,(1985), Summa Theologiae, I, quaest. 26, art. 2. 23 Cf. Ibidem (1985),I, quaest. 5, art. 6, c.; I, quaest. 16, art. 4,2.
100 S IGNIFICADO E FUNDAMENTO DOS VALORES «FRAGMENTOS DE FILOSOFÍA», NÚM. 15, 2017, pp. 85-110. ISSN: 1132-3329 5.3. Na esfera dos valores, não só existe uma escala, como também uma “graduação hierárquica”, em virtude da qual podemos dizer que um valor é superior e outro inferior, ou, segundo o valor inerente, de um bem superior e do outro inferior. Esta ordem hierárquica é de tal relevância, que o aderir ou não aderir a ela, na – ordo amoris – será, segundo S. Agostinho, a fonte da moralidade. Outro critério axiológico repousa sobre o sentido dos temas, daqui que seja possível falar de valores estéticos e intelectuais, morais, etc. Neste sentido, vemos como a humildade, pureza, justiça, prudência pertencem à mesma família dos valores morais, caracterizados pelo valor fundamental da bondade moral. Cada um dos domínios de valor possui o seu tema fundamental. Assim, cada domínio possui a sua “própria hierarquia”. Estas “hierarquias axiológicas” poderão ser ascendentes ou descendentes, como se observa pelo esquema anteriormente apresentado. Qualquer uma das formas possui “determinação axiológica”, porque evoluirá no agir e no ser. Os mais significativos são os espirituais, que possuem graduação. Assim, a humildade é mais eminente do que a sinceridade, bem como a “profundidade espiritual”, relativamente ao engenho, porque a humildade omnium virtutum mater, segundo S.Agostinho.. 33 5.4. Perante o eminente valor de um ser pessoal, como tal, perante o valor ontológico da pessoa, a dignidade de um ser com alma espiritual, investido de razão e de livre vontade, não dúvida de que nos encontramos perante algo intrinsecamente importante. Segundo Von Hildebrand, distinguimos entre valores ontológicos (valores de ser vivo, de ser homem ou de um anjo) e “valores qualitativos”. O típico expoente dos valores qualitativos são os “valores morais”, como valores positivos e com a contrapartida pelos desvalores ou “valores negativos”. Não existe nenhuma antítese qualitativa de elevado valor do ser humano. O ser impessoal carente deste valor não possui um carácter negativo. Não existe a oposição contrária à pessoa, somente a sua contraditória e esta não existência não é, enquanto tal. Segundo Von Hildebrand, outra nota distintiva será dada pela relação entre o valor e o ser, que o encarna. Os valores morais apresentam maior independência 33 Cf. Augustin, St.(1985), p. 289.
R AMIRO D. B ORGES 101 «FRAGMENTOS DE FILOSOFÍA», NÚM. 15, 2017, pp. 85-110. ISSN: 1132-3329 relativamente ao seu portador, como o valor da pessoa, relativamente ao ser humano. De modo diverso, o valor moral, por um lado, e o valor ontológico da pessoa são um reflexo de Deus. Os valores morais manifestam Deus de um modo específico, se são expressão do mesmo Deus, como reflexo mais íntimo da sua “infinita bondade”, como diz Von Hildebrand, surgem como “mensagem do alto”. O eminente valor ontológico da pessoa humana reflecte Deus não de um modo tão directo, como os valores morais quanto pela sua realidade. Neste sentido, o homem é imago Dei. Todos os valores, num ser criado, reflectem de modo específico Deus, que os reúne de modo eminente: “Nada é bom, sem Deus” (Lc 18, 19). No tocante aos valores ontológicos, trata-se de um reflexo exemplar, modelo ou paradigmático, que brilha e resplandece em todos os seres. Quoad se, o valor ontológico pressupõe Deus, enquanto que quoad nos conduz-nos a Deus, como ponto de partida ou uma indicação ou ordenação para este Ser. Em síntese, o valor ontológico é um esplendor da infinita bondade ontológica de Deus. Outra característica fundamental revela-se nas diversas atitudes, que o homem deveria adoptar perante o seu próprio valor ontológico e para os próprios valores qualitativos. A verdadeira humildade estende um véu sobre todos os valores qualitativos, que mostra a nossa própria pessoa, como capax universi . Glossando Von Hildebrand, o valor ontológico de uma pessoa é próprio deste ser enquanto tal, uma vez que existe, tem um valor ontológico e é impossível que o perca. A existência do valor moral está garantida devido à existência da pessoa. A sua possível existência está em dependência de um acto da vontade livre. 34 Porém, diante dos valores morais poderemos falar de graus e dizer que um homem é mais leal, mais justo do que outro, isto é, possui esta virtude em grau superior a outra. Com efeito, os valores ontológicos realizam-se mediante a existência de um ser humano. Nunca cessam. Os valores morais tornam-se reais, mediante as acções livres da pessoa, quando possuem uma virtude. Deixa de ser real, quando a pessoa perde tal expressão ontológica. Naturalmente, expressa Von Hildebrand que o valor moral transcende o ser, que é o seu “portador”. O seu carácter transcendente possui, em virtude da sua própria essência e apresentam-se como excepcional mensagem de Algo superior a nós de Deus. 34 Cf. Von Hildebrand, D. (1950), pp. 61-62.
102 S IGNIFICADO E FUNDAMENTO DOS VALORES «FRAGMENTOS DE FILOSOFÍA», NÚM. 15, 2017, pp. 85-110. ISSN: 1132-3329 5.5. Um conhecimento claro e profundo dos valores exige mais requisitos morais que qualquer outro tipo de conhecimento. No domínio dos valores morais, exigese mais, não somente é necessária em maior medida a reverência e a abertura do nosso espírito, perante a voz do ser, um maior grau de conspiração com o objecto, requerendo-se, também, uma disponibilidade da nossa vontade para nos adaptar à exigência dos valores, quaisquer que sejam estes. O decisivo, na conduta moral, são as disposições interiores: si oculus tuus fuerit simplex, totum corpus tuum erit lucidum (Mt 6, 22). Do coração do homem brotam as obras que o enobrecem e elevam ou as que o degradam. Tanto o bem como o mal são originados da interioridade pessoal. As disposições interiores revelam-se por meio de seus frutos, que são as obras. Trata-se, pois, da trágica ambiguidade do coração. O bem é a fonte do valor moral do nosso agir ou pode converter-se em cúmplice da injustiça. O coração, que é o centro dos valores, deve ser purificado. O coração puro faz fecundar a luz da inteligência. Onde está o teu tesouro, aí está o teu coração (Mt 6, 21). A direcção fundamental do coração leva consigo um compromisso total. Assim, entende-se o coração como núcleo dinâmico da pessoa. O coração aparece e manifesta-se como o resumo, a fonte, a expressão e o fundo último dos pensamentos, das palavras e das acções. O homem vale, o que vale o seu coração. O coração não só sente, como sabe e entende, segundo Von Hildebrand. 35 5.6. A essência da reposta ao valor, dado o seu papel proeminente na Ética, orienta o nosso interesse até à análise das respostas ao valor e as motivadas só pelo subjectivamente satisfatório. Existem certas respostas afectivas que, em razão da sua essência, estão motivadas exclusivamente pelos valores. Na verdade, também, existem respostas afectivas geradas por algo subjectivamente satisfatório ou insatisfatório. Se a nossa atitude está determinada pelo importante em si, pelo valor, perante as habilidades brilhantes do nosso próximo, admirar-nos-iamos. Se a resposta é a inveja, o desejo de vingança, então o nosso egoísmo, orgulho ou concupiscência estão feridos, em definitivo, o nosso interesse pelo valor é pobre. 35 Cf. Ibidem, pp.68-70.
R AMIRO D. B ORGES 103 «FRAGMENTOS DE FILOSOFÍA», NÚM. 15, 2017, pp. 85-110. ISSN: 1132-3329 Numa resposta motivada pelo subjectivamente satisfatório ao desejar-se somente o satisfatório não transcendemos a fronteira do nosso egoísmo, nem nos ligamos ao objectivamente importante. Estamos aprisionados pelo nosso próprio egoísmo. Em resposta ao valor (valere), a fonte do nosso interesse, até ao objecto, fundamenta-se na sua intrínseca bondade, na sua beleza e eminente valor e na entranhável riqueza do importante em si mesmo. Esta intrínseca e luminosa importância axiológica exige que nos demos de um modo novo, exige uma transcendência, um ligar-se a algo maior do que nós próprios. 36 A harmonia pelo valor, aquilo a que o nosso espírito se entrega em ordem ao bem objectivo implica uma oposição ao orgulho e a todo o tipo de egocentrismo. Apreender um valor, estando consciente dele, reconhecer e compreender a sua importância intrínseca é uma participação única e relevante da pessoa no mundo dos valores. 37 Tal conhecimento constitui a base fundamental e indispensável para a moralidade. Este enfoque racionalista fora refutado pelo poeta Ovídio, no seu famoso verso: “vejo o melhor e aprovo, mas sigo o pior” e sobretudo, por S. Paulo, quando diz: “não faço o bem que quero, mas o mal que não quero” (Rom 7, 19). 38 A apreensão do valor não inclui uma recta direcção da vontade. O conhecimento seguro e irrefutável dos valores não faze um homem bom, não contém o elemento de entrega pessoal e a transcendência própria da resposta ao valor. A participação nos valores pressupõe a união alcançada na compreensão do mesmo e implica algo de novo, em novo grau de união mais íntima, profunda e superior à do conhecimento. 5.7. Os valores afectam um domínio de receptividade específico, um plano mais íntimo da nossa alma, um centro qualitativo e nitidamente diferente do que entra em jogo no caso do subjectivamente satisfatório. Trata-se do centro de onde emerge o amor. Ao sermos afectados pelos valores, transcendemo-nos e elevamonos sobre nós mesmos. Diverso é o caso quando nos afecta o subjectivamente satisfatório. 36 Cf. Von Hildebrand D. (1946), pp. 10-39. 37 Cf. Dalt de Mangione, E. (2005), pp. 160-161. 38 Cf. Aland K. et al. (1994), Rom 7, 1; p. 536.
104 S IGNIFICADO E FUNDAMENTO DOS VALORES «FRAGMENTOS DE FILOSOFÍA», NÚM. 15, 2017, pp. 85-110. ISSN: 1132-3329 A experiência específica de ser comovido pela a generosidade ou pureza de outra pessoa, será o facto de que o valor actua no coração de um modo mais íntimo, profundo e significativo, atravessando a crosta da minha indiferença e implica uma participação, um contacto novo e uma maior intimidade com o “valor” (valere). O facto de que esperamos ser afectados por um valor determinado revela a maior intimidade da união alcançada, mediante este novo contacto e constitui a melhor disposição respeito ao influxo e profundidade de participação com o valor, que o alcançado mediante a simples apreensão, em boa medida da participação no mundo dos valores, que se materializa na resposta ao valor. 39 A alegria e o amor são as vozes do nosso coração, nelas aderimos ao Bem com todo nosso coração e portanto, com o nosso mais íntimo núcleo. O amor, neste respeito, tem uma “prioridade” incomparável. 40 A essência específica do valor motiva-nos e determina a qualidade do conteúdo da resposta. O conteúdo qualitativo da resposta ao valor corresponde necessariamente à essência do domínio do valor, a que esse valor pertence. O conteúdo da resposta ao valor, segundo Von Hildebrand, varia em função da qualidade e em função do domínio de valores a que pertence o valor, que nos motiva. 41 Na resposta ao valor capta-se a realidade objectiva e a ligação ao valor reflectese na palavra interior com que respondemos a este bem. Von Hildebrand assinala a qualidade distinta e superior contida na admiração pelo martírio de Tomás Moro, mais do que a morte de Sócrates. O grau de afirmação da nossa resposta refere-se ao núcleo próprio da palavra interior, intencional e significativa, da “resposta axiológica”, que aqui se manifesta pela conexão necessária entre o valor e a palavra interior da resposta. 4.8. A palavra interior da resposta ao valor pela admiração e alegria, por exemplo, e o objecto dotado de valor, até aquele que se dirige a palavra guardam uma profunda e significativa relação. O objecto portador de um valor deve dar-se numa resposta positiva. 39 Cf. Fragata J. (1946), pp. 40-41. 40 Cf. Von Hildebrand , D. (1950), pp. 16-48. 41 Cf. Idem, (1952), pp.242-244.
R AMIRO D. B ORGES 105 «FRAGMENTOS DE FILOSOFÍA», NÚM. 15, 2017, pp. 85-110. ISSN: 1132-3329 Todo o bem portador de um autêntico valor e todo o objecto tido como desvalor exigem uma resposta adequada. A dita adequação não só engloba a conformidade do carácter positivo ou negativo da essência do domínio do valor com a resposta conveniente, como também a correspondência entre o domínio do valor e a profundidade da resposta entre o domínio do valor e o grau da nossa afirmação. Esta conformidade com a hierarquia dos valores alude à ordo amoris augustiniana, como fundamento ontológico da ética. Na apreciação de um objecto aparece um elemento axiológico referido à natureza do valor, não só na medida em que existe, também em quanto como é importante em si mesmo. Quando está em jogo o valor, o princípio geral que exige uma resposta adequada desliga-se, numa nova direcção, ao dirigir-se ao interrogante sobre a essência e existência de um objecto. 42 Uma observação à nossa própria vida descobre-nos pela experiência de não poder permanecer indiferentes ou insensíveis frente ao valor de um objecto e isto determina maior capacidade para a resposta. O engrandecimento do coração é o deleite da justiça. Isto é um dom de Deus, para que nos encontremos em seus preceitos, para que nos engrandeçamos na justiça e pela dua complacência, segundo S. Agostinho. Toda a resposta ao valor está, em si mesma, dotada de valor e realiza a relação de exigência objectiva, a entrega de nós mesmos ao valor e participa do valor de modo único. Tudo isto outorga um valor ao próprio acto. Mas, este valor distingue-se do valor ao qual se responde. Qualquer resposta ao valor é per se portadora de um valor pessoal, mas tal não implica que toda a resposta esteja dotada de um valor moral. Uma resposta adequada de entusiasmo por uma grande obra de arte não tem um valor estético, senão intelectual, isto é, a sensibilidade e a profundidade perante a beleza e o élan espiritual. 43 Quando a resposta adequada ao valor seja per se portadora de um valor pessoal, não implica que toda a resposta ao valor esteja dotada de um valor moral. Toda a acção moralmente boa é uma “resposta axiológica”, muito embora esta relação não pareça recíproca. 42 Cf.Idem,. (1933), pp. 10-49. 43 Cf. Idem,( 1950), pp. 16-49.
106 S IGNIFICADO E FUNDAMENTO DOS VALORES «FRAGMENTOS DE FILOSOFÍA», NÚM. 15, 2017, pp. 85-110. ISSN: 1132-3329 5.9. Todo valor exige uma resposta adequada. Neste sentido, realiza-se um valor metafisicamente fundamental, quando se dá a resposta conveniente. Esta resposta constitui uma harmonia objectiva entre o valor e a resposta que encarna o valor. Uma resposta contrária ou a indiferença frente a um valor constitui uma desarmonia que encarna um desvalor. Será necessário elucidar a essência específica desta relação de exigência. Perante uma resposta desarmónica, quando alguém se altera numa acção virtuosa de outra pessoa, podemos focalizar a tenção no mal objectivo e podemos considerar o conteúdo dessa atitude, que entranha essa resposta equivocada como tal e o prejuízo irreverente que revela. A desarmonia objectiva, materializada nesta resposta inadequada, distinguese destes dois aspectos assinalados. Quando a desarmonia objectiva desemboca numa resposta incorrecta, que tem a sua raiz num erro de que a pessoa, que emite não é responsável ou não tem consciência, focalizar a atenção nos desvalores intelectuais, sempre que manifestados na resposta errónea. 44 6. Conclusão. O valor é algo que é objecto de uma experiência, de uma vivência por parte do sujeito ou por parte da pessoa podemos ver o valere de uma personalidade, a beleza de uma paisagem e o carácter sagrado de um lugar. Estamos perante valores éticos, estéticos e religiosos. E a nossa vivência destes valores é um facto real, quando inserida naquilo a que poderemos chamar de “qualidades axiológicas”, de um quale dos objectos em questão: homem, paisagem ou lugares. É este quale que constitui o carácter e desperta em nós o sentimento respectivo ou a referida vivência. Para M. Scheler, existe uma relação íntima entre valor e “deve-ser”, onde todo o “deve-ser” se apresenta como valor. Este “deve-ser” é distinguido de duas formas: uma ideal e outra normativa. O “deve-ser” vive-se num valor por nós contemplado, no aspecto da sua relação com um possível ser real. Será, neste sentido, que podemos falar de um “dever ser ideal” (ideales sollen). Mas a este, contrapõe-se outro “dever-ser” por nós contemplado, dentro de uma outra relação: a que se estabelece entre ele, no 44 Cf. Scheler, M. (1966),pp. 173-239.
R AMIRO D. B ORGES 107 «FRAGMENTOS DE FILOSOFÍA», NÚM. 15, 2017, pp. 85-110. ISSN: 1132-3329 seu conteúdo e um certo querer que se propõe realizar esse conteúdo, o dever ser da obrigação (pflichsolen). Scheler é, portanto, da opinião que o “dever ser” ideal pertence à essência dos valores, quando estes são contemplados na relação com uma possível realidade. O “dever ser” ideal tem o seu fundamento na relação entre o valor e a realidade. Assim, os valores, quando contemplados em si, não contêm o momento do dever ou obrigação. Todo o “dever-ser” está associado à esfera da existência ou nãoexistência dos valores. 45 Como todos os valores se referem a um sujeito, poderemos classificar estes em duas classes fundamentais: valores sensíveis e valores espirituais. Os primeiros referem-se ao homem como simples ser da natureza. Os segundos são para o homem como um “ser espiritual”. A pessoa surge como unidade de ser, concreta e essencial de actos. Significa, que, para M. Scheler, a pessoa não é um simples conjunto de actos, que se unificam num centro comum, como os raios de luz convergem num só ponto. Assim, em M. Scheler, a pessoa é uma unidade concreta, isto é, possui uma identidade, considerada por Scheler como primeiro valor. Numa palavra, possui auto-consciência do ser pessoa, como realidade prioritária, significando que, por um lado, o homem se diferencia dos outros seres animais e, por outro, se relaciona com o mundo. Segundo M. Scheler, não basta, para ser pessoa, auf dem Rücken, ter a capacidade de pensar nem a capacidade de pensamento reflexivo sobre si mesmo, mas significa muito mais: a autoconsciência. Só se é pessoa, quando esta integra todas as classes possíveis de consciência: a cognitiva, a volitiva, a sentimental, a do amor e do ódio. Significa que a autoconsciência é sinónimo de identidade, quando compreende todas as virtualidades da pessoa. A pessoa, segundo Scheler, é acto unificado, como acto, essencialmente, de natureza unificada num caminho concreto particular. Os actos são as pessoas. Se um acto não pode ser um objecto, então a pessoa, que vive na execução de actos, a fortiori, nunca poderá ser um objecto. 46 Os valores são qualidades autênticas e verdadeiras a priori, não são aparentes nem falsas, mas sim objectivas, independentemente dos bens e dos fins. São a priori, porque nos indica que não são fruto da experiência indutiva, ou seja, designa aquelas unidades significativas e ideais, que são dadas, por si mesmas, 45 Cf. Hessen, J. (2001), pp. 188-189. 46 Cf. Spader, P. H. (2002), pp. 104-105.
108 S IGNIFICADO E FUNDAMENTO DOS VALORES «FRAGMENTOS DE FILOSOFÍA», NÚM. 15, 2017, pp. 85-110. ISSN: 1132-3329 em virtude do conteúdo de uma intuição imediata. Significa que o ser dos valores é independente das variações e transformações da existência dos bens, não se podendo conceber os fins de uma acção moral, separadamente dos valores a serem realizados. O valor da pessoa coloca-se por M. Scheler, pelo grau supremo da hierarquia axiológica, no vértice da pirâmide, local onde convergem todas as arestas, que ascendem progressivamente até ele. Naturalmente, a pessoa é o “autovalor”, como o fornecedor de referência de todo e qualquer valor infra-humano. Pelo carácter dinâmico que M. Scheler reconhece na pessoa, não só a reduz a um conjunto de actos, mas explicita, de forma clara, o “valor da identidade”, conforme aquele que ele mantém sobre a autoconsciência da pessoa. A pessoa adquire, maior sentido de identidade, na medida em que sai de si mesma. Para M. Scheler, ela surge do valor da própria identidade do homem. O valor do núcleo da pessoa é objecto da participação activa do homem. A aplicação do valor às ciências, além de ser causa do esclarecimento de muitos pontos obscuros, dirigiuas para um fim mais prático, afastando-se assim o perigo do intelectualismo exagerado, tendente a manter-se em especulações estéreis. Com razão se salienta a relação do valor ao sujeito, pois o valor aperfeiçoa o sujeito como bonum est perfectivum subiecti. Deste modo, originaram-se novas impulsões de realização e aperfeiçoamento, pois o homem, dotado de uma vontade que necessariamente abraça o Bem, tende espontaneamente para aquilo que participa do Bem, ou seja, que se lhe apresenta como valor. Sem as bases ontológicas, que constituem o fundamento da verdadeira filosofia, a teoria dos valores não pode manter-se. A sua pujança, que ao princípio parecia avassaladora, depressa esmoreceu, de tal modo que esta corrente filosófica, quase se extinguiu. A filosofia dos valores será sempre um marco do pensamento filosófico. Outras ideias, das quais fará parte a “filosofia dos valores”, dominam hoje o pensamento crítico. Mas, que dizer do valor que oscila, quanto ao fundamento, entre uma “aretologia axiológica”,seguindo um caminho ético,e uma “axiologia ontológica”,dominada pela interpretação metafísica do Bem.
R AMIRO D. B ORGES 109 «FRAGMENTOS DE FILOSOFÍA», NÚM. 15, 2017, pp. 85-110. ISSN: 1132-3329 BIBLIOGRAFIA KANT, I. – Kritik der praktischen Vernunft, in: Gesammelte Schriften, Band V, Berlin, Verlag von G. Reimer, (1911). SCHELER, M. – Der Formalismus in der Ethik, Berlin, Francke-Verlag, (1966). HESSEN, J. – Filosofia dos Valores, tradução do alemão por L. Cabral da Moncada, Coimbra, Gráfica de Coimbra, ( 1944). ORTEGA y GASSET, J. – Obras Completas, Madrid, Revista do Ocidente, (1943). HARTMANN, N. – Grundlegung der Ontologie, Berlin,Weltcultur Anton Hain, (1948). PARREIRA BRUGES, M. L. – “O Homem e os valores”, in: Enfermagem Oncológica, 30/31 (2004). FRAGATA, J. – “Filosofia do Valor”, in: Revista Portuguesa de Filosofia, II, nº 1 (1946). RIBOT, C. – Logique des sentiments, Paris, Presses Universitaires de France, (s/d). DONAT, J. – Ontologia, Innsbruck, Apud Aedes Universitatis, (1921). CORETH, E. – O que é o Homem? Elementos para uma Antropologia Filosófica, tradução do alemão por Maria de Lourdes Stiegeler, Lisboa, Verbo, (1988). MARQUEZ, G. S. J. – “Crítica de la Filosofia de los Valores”, in: Razón y Fé,( 1942). BORGES DE MENESES, R. D. – “Do Desvalido ao Samaritano”, in: Eborensia, 27, (2005). LEGUAM, M. – La philosophie morale de Kant, Paris, Éditions du Seuil, (2001). SCHELER, M. – Ética, traducido del aleman por H. R. Sanz, tomo I, Madrid, Revista do Ocidente, (1941). AQUINATIS, St.Th.– Opera Omnia, De Veritate, IV, Frommann-Verlag, Stuttgart, (1985). Idem – Opera Omnia, Summa Theologiae,I, (1985). KOZIER, E. R. B. – “Valeurs, Ethique et Infirmières”, in: Documents pour l’enseignement de l’éthique, 27/28 (1985). KANT, I. – Schriften zur Ethik und Religions Philosophie, Band II, Darmstadt, W. Buchgesellschaft, (1981). VON HILDEBRAND, D. – Die Ehe, Muenchen,Verlag Ars Sacra, (1929). ARISTOTE – Éthique a Nicomaque, nouvelle traduction avec introduction, notes et index par J. Tricot, Paris, Livrairie Philosophique J. Vrin,( 1959).