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A linguagem não verbal no exercício do poder social

Carvalheira, Diogo Agostinho Gonçalves Martins Morais

Abstract

Esta dissertação tem como intuito fundamental entregar uma pequena contribuição para o estudo da linguagem não verbal e a sua importância no meio social. Partindo de uma fase inicial, em que me centrei num enquadramento teórico de investigações outrora feitas, fui afunilando este trabalho numa análise mais prática e empírica, sem nunca descurar os "mapas" que fui descobrindo ao longo da minha pesquisa. Numa primeira fase, centrei-me em relembrar quais as distintas formas de comunicar não verbalmente, criando uma base consistente para uma análise social feita no decorrer desta dissertação. Após isto, debrucei-me sobre a utilização deste tipo de linguagem aquando de uma interação entre um orador e um público, partindo daí uma primeira análise sobre os atores políticos, a sua conduta e o poder que conseguem exercer aproveitando estas ferramentas. Para que esta investigação não decorresse de um modo estritamente teórico, analisei distintos sujeitos e o seu comportamento não verbal para conseguir entender de que modo estes usam os modos não verbais para convencer, manipular, transmitir mensagens poderosas e controlar as massas. Para isto, enveredei por uma análise videográfica (partindo das bases teóricas apreendidas anteriormente) para demonstrar de modo "palpável" a utilização efetiva e os resultados visíveis da comunicação não verbal. Por fim, tudo isto gerou uma sensação de contribuição para com este vasto campo de estudo, terminando com uma perceção clara da importância deste tipo de linguagem para aquilo que tem de ser o nosso combate conjunto contra a manipulação, em prole de uma melhor democracia e de uma melhoria na nossa liberdade individual.

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Universidade do Minho Instituto de Ciências Sociais Diogo Agostinho Gonçalves Martins Morais Carvalheira A linguagem não verbal no exercício do poder social Novembro 2023 Diogo Agostinho Gonçalves Martins Morais Carvalheira UMinho | 2023 A linguagem não verbal no exercício do poder social Diogo Agostinho Gonçalves Martins Morais Carvalheira A linguagem não verbal no exercício do poder social Dissertação de Mestrado Mestrado em Ciências da Comunicação, Ramo Investigação Trabalho efetuado sob a orientação da Professora Doutora Maria Zara Simões Pinto Coelho 02 Novembro de 2023 DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Atribuição-Não comercial-Sem Derivações CC BY-NC-ND https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/ iii AGRADECIMENTOS Uma dissertação é um longo caminho que se atravessa durante alturas distintas, com perceções diferentes e até versões diferenciadas de nós mesmos. Quando revista, é como revisitar velhos eus, relembrar muitas ideias antigas, e culminar com ideias renovadas e transformadoras, por diversas vezes, ideias que surgem devido à experiência que foi a escrita desta dissertação. Apesar de o caminho ser moroso, solitário e muito individual, a pesquisa daquele que investiga vai fazendo com que este se cerque de autores, pessoas e documentação que o vai fazendo sentir mais acompanhado, sustentado e que servem como uma “lamparina” no meio da gruta escura que simboliza a perceção deste percurso, inicialmente. Esta luz vai-nos dando forças para avançar, e a cada atenuar, logo surgem outras para nos fazer sentir apoiados e inspirados a seguir caminhando. Em primeiro lugar quero agradecer a quem me guiou ao longo deste projeto, a minha orientadora, profª. Drª Zara Pinto Coelho, que me inspirou a continuar e a melhorar constantemente, sendo que a sua ajuda preciosa alcançou uma abrangência enorme, contemplando os diferentes níveis de pesquisa: investigação, recolha, método, criatividade e busca pelo perfecionismo. Auxiliou-me a aprender a aprender, entregando-me a “cana” para que eu pudesse aprender a pescar. Dedico também à minha família, que desde cedo me passou o gosto pela leitura, desencadeando um ciclo muito agradável de aprendizagem constante. Esta pequena diferença que criou este gosto, levou-me por um caminho enriquecedor que me permitiu chegar até aqui, ultrapassando muitas etapas, e divertindo-me muito pelo caminho. Além de tudo isto, expresso a minha gratidão a todas as pessoas que me apoiaram neste percurso, e que através da sua atenção e carinho, me levaram a ultrapassar todos os obstáculos, de modo a concretizar este objetivo de vida. Um obrigado a todos. iv DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer outra forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. v RESUMO Esta dissertação tem como intuito fundamental entregar uma pequena contribuição para o estudo da linguagem não verbal e a sua importância no meio social. Partindo de uma fase inicial, em que me centrei num enquadramento teórico de investigações outrora feitas, fui afunilando este trabalho numa análise mais prática e empírica, sem nunca descurar os "mapas" que fui descobrindo ao longo da minha pesquisa. Numa primeira fase, centrei-me em relembrar quais as distintas formas de comunicar não verbalmente, criando uma base consistente para uma análise social feita no decorrer desta dissertação. Após isto, debrucei-me sobre a utilização deste tipo de linguagem aquando de uma interação entre um orador e um público, partindo daí uma primeira análise sobre os atores políticos, a sua conduta e o poder que conseguem exercer aproveitando estas ferramentas. Para que esta investigação não decorresse de um modo estritamente teórico, analisei distintos sujeitos e o seu comportamento não verbal para conseguir entender de que modo estes usam os modos não verbais para convencer, manipular, transmitir mensagens poderosas e controlar as massas. Para isto, enveredei por uma análise videográfica (partindo das bases teóricas apreendidas anteriormente) para demonstrar de modo "palpável" a utilização efetiva e os resultados visíveis da comunicação não verbal. Por fim, tudo isto gerou uma sensação de contribuição para com este vasto campo de estudo, terminando com uma perceção clara da importância deste tipo de linguagem para aquilo que tem de ser o nosso combate conjunto contra a manipulação, em prole de uma melhor democracia e de uma melhoria na nossa liberdade individual. PALAVRAS-CHAVE: Comunicação Não Verbal, Manipulação Poder, Política. vi ABSTRACT This dissertation has the fundamental aim of making a small contribution to the study of non-verbal language and its importance in the social environment. Initially, I focused on a theoretical framework of previous investigations, I began to funnel this work into a more practical and empirical analysis, without ever neglecting the "maps" that I discovered throughout my research. Initially, I focused on remembering the different ways of communicating nonverbally, creating a consistent basis for a social analysis carried out throughout this dissertation. Afterwards, I looked at the use of this type of language during an interaction between a speaker and an audience, by first analysing a series of politicians, their conduct, and the power they were able to exercise by taking advantage of these tools. To make this investigation not a strictly theoretical one, I analyzed different subjects and their non-verbal behavior to understand how they convince, manipulate, transmit powerful messages, and control the masses. To this end, I embarked on a videographic analysis (starting from the theoretical bases previously learned) to demonstrate in a "tangible" way the effective use and visible results of non-verbal communication. By the end, I was left with a feeling of contribution to this vast field of study, with a clear perception of the importance of this type of language for what must be our joint fight against manipulation, in favor of a better democracy and of an improvement in our individual freedom. KEYWORDS: Manipulation, Non-Verbal Communication, Power, Politics. vii ÍNDICE AGRADECIMENTOS ...............................................................................................................................................III DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE ..................................................................................................................... IV RESUMO…………………………………………………………………………………………………………………………………V ABSTRACT ............................................................................................................................................................... VI ÍNDICE ..................................................................................................................................................................... VII CAPÍTULO 1: INTRODUÇÃO .................................................................................................................................8 CAPÍTULO 2: COMUNICAÇÃO NÃO VERBAL ................................................................................................ 18 CAPÍTULO 3: LIDERANÇA E COMUNICAÇÃO NÃO VERBAL .................................................................... 38 CAPÍTULO 4: ANÁLISE EMPÍRICA ................................................................................................................... 47 CAPÍTULO 5: DISCUSSÃO ................................................................................................................................... 72 CAPÍTULO 6: CONCLUSÃO ................................................................................................................................. 80 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ..................................................................................................................... 86 A linguagem não verbal no exercício do poder social INTRODUÇÃO 14 1.3. Objetivos e Justificação De modo a sintetizar do modo mais claro tudo o que se pretende atingir com esta investigação, exponho certos objetivos claramente definidos que visam guiar esta dissertação. Pretende-se: -Contribuir para aprofundar o conhecimento sobre a linguagem não verbal e a sua relação estrita com o exercício do poder social; -Identificar estratégias claras e eficientes de comunicação não verbal para conseguir influenciar em situações que se interligam com a prática do poder social; -Compreender as funcionalidades teóricas e práticas do uso desta “arte”, visando uma comunicação mais equilibrada e eficaz por parte de qualquer interessado; -Fornecer material para a análise crítica e reflexiva sobre o papel da linguagem não verbal na construção e manutenção das relações entre cidadãos sociais em contextos distintos; -Propor informações que impelem à prática, de certa maneira, criar/intervir para que haja um natural desenvolvimento de habilidades comunicativas não verbais no seio da sociedade (algo fundamental nos tempos digitais em que vivemos). Estes objetivos foram pensados de modo a corresponder ao interesse próprio e ao usufruto que poderão ter para o indivíduo, enquanto ator social, e para a sociedade em que este indivíduo se insere. Estes quatro tópicos descritivos visam centrar a análise numa perceção mais prática, de modo a que consigamos perscrutar as diferentes áreas de análise do bom entendimento da linguagem não verbal, dando resposta a necessidades reais, no mundo real das ligações diárias existentes. Esta sistematização é exposta desta maneira para: primeiro, conseguir acrescentar informações relevantes ao fio condutor dos investigadores datados para esta área temática, de modo a ser mais um auxílio para certos fundamentos acerca da ligação comunicação-poder social; segundo, para conseguir dotar as pessoas comuns de materiais e informações que as levem a perceber o alcance destas informações, relevantíssimas para aquilo que poderá ser a aplicação na sua vida, de modo a A linguagem não verbal no exercício do poder social INTRODUÇÃO 15 conseguirem afirmar-se numa vertente pessoal e profissional; terceiro, facilitar a transparência entre as pessoas, agir como um facilitador para as pessoas, de modo a que estas consigam reconhecer uma situação com maior facilidade, para que as suas relações melhorem, e de certa maneira sintética, para que melhor se adaptem e mais facilmente se coordenem com aquilo que está à sua volta; e por último, dar um pequeno contributo que vise, de uma determinada maneira, auxiliar a “acordar” a sociedade atual que se vira (e bem, em muitos casos) para uma vertente futurista e digital, mas que não se poderá esquecer da sua principal vertente humana e social, algo que é parte da natureza da nossa espécie e que não poderá ser descurado, sob pena de rompermos certas ligações importantes e caminharmos, aos poucos, para uma vertente mais solitária e não colaborativa, que apenas trará uma realidade mais mórbida, facilmente manipulada, com vertentes emocionais e relacionais mínimas, e que fará as pessoas ficarem deficientes em muitos dos seus atributos naturais atuais. Desta maneira, e por todas as razões supracitadas, considero ser de vital importância uma passagem para um prisma de maior consciência da importância da comunicação verbal e não verbal, sendo meu dever e meu prazer dar o meu contributo para a continuidade e manutenção das habilidades interrelacionais e comunicacionais que nos caraterizam enquanto seres sociais. A linguagem não verbal no exercício do poder social INTRODUÇÃO 16 1.4. Metodologia Com base no problema de pesquisa e nos objetivos estabelecidos, a metodologia escolhida para esta pesquisa será a análise de vídeos e fotos de figuras políticas e ditadores, a fim de identificar os tipos de linguagem não verbal utilizados no exercício do poder social e examinar como a linguagem não verbal é utilizada para influenciar o comportamento e as decisões de outras pessoas. A análise de imagens e vídeos será realizada por meio de uma abordagem qualitativa, utilizando técnicas de análise de conteúdo. Será feita uma codificação dos elementos de linguagem não verbal presentes nas imagens, classificando-os em categorias específicas, tais como expressões faciais, gestos, postura e tom de voz. Essa metodologia tem por base áreas teóricas como a psicologia social, que tem estudado a influência da linguagem não verbal na formação de impressões e estereótipos, bem como em estudos de comunicação e da média, que têm explorado o uso da linguagem não verbal na persuasão e na manipulação da opinião pública (Ekman, 2003; Pease & Pease, 2004; Hall, 1966) A análise de imagens e vídeos é uma forma rica e complexa de se estudar a comunicação não verbal, permitindo uma análise mais detalhada dos elementos presentes nas interações sociais. Embora as entrevistas e inquéritos possam ser técnicas valiosas em certas pesquisas, eles podem não ser os mais adequados para investigar a relação entre linguagem não verbal e poder social. Através do uso deste método, as respostas obtidas em entrevistas e inquéritos seriam baseadas nas perceções e interpretações dos participantes, o que poderia levar a imprecisões e visões enviesadas na coleta de dados. Por outro lado, a análise de vídeos e fotos de líderes políticos e figuras públicas pode fornecer uma fonte rica e vasta de dados abrangentes. Essas imagens capturam gestos, expressões faciais, posturas e outros comportamentos não verbais de maneira objetiva e direta, sem depender das perceções dos participantes (mesmo contando a análise com base num sistema detalhado como tendo uma nuance subjetiva, é bem mais objetiva do que múltiplas análises feitas com base na opinião das distintas pessoas). Concluindo a análise metodológica deste sistema empírico, a análise de vídeos e fotos é uma escolha metodológica apropriada para esta pesquisa, já que A linguagem não verbal no exercício do poder social INTRODUÇÃO 17 permite uma investigação mais aprofundada sobre a relação entre linguagem não verbal e poder social. CAPÍTULO 2 COMUNICAÇÃO NÃO VERBAL A linguagem não verbal no exercício do poder social COMUNICAÇÃO NÃO VERBAL 19 2.1. Breve história da comunicação não-verbal Os primeiros estudos sobre linguagem não verbal remontam ao final do século XIX e início do século XX, quando os psicólogos começaram a perceber que a comunicação humana envolvia muito mais do que apenas palavras faladas. Entre os primeiros estudiosos da linguagem não verbal estão Charles Darwin, Gustav Theodor Fechner e William James. Charles Darwin, conhecido principalmente por sua teoria da evolução das espécies, também foi um dos primeiros estudiosos da linguagem não verbal. Na sua obra A expressão das emoções no homem e nos animais, publicada em 1872, Darwin argumenta que as expressões faciais são universais em todas as culturas e que essas expressões estão ligadas a emoções específicas. Darwin realizou uma extensa pesquisa observando e comparando as expressões faciais de diferentes animais, incluindo humanos, cães, gatos e primatas. Ele acreditava que as expressões faciais eram adaptativas e que evoluíram ao longo do tempo para ajudar os animais a comunicarem uns com os outros, de modo a haver um entendimento sinérgico e um melhoramento individual constante baseado na entreajuda entre diferentes animais, das mais distintas espécies. Para este autor, a linguagem não verbal não era apenas uma forma de comunicação entre os animais, mas também uma evidência da evolução das espécies (aplicação da linguagem não verbal vista nos seres humanos baseada em observações vistas em muitos animais anteriores). Ele argumentava que as expressões faciais que vemos hoje em humanos e noutros animais distintos são vestígios de expressões ancestrais que evoluíram ao longo do tempo, tendo o homem criado uma maneira de se adaptar e ir aumentando o seu leque de capacidade para interagir com os seus semelhantes. (Darwin, 1872, pp. 116-146) Os estudos de Darwin sobre a linguagem não verbal foram muito influentes e ajudaram a estabelecer a base para futuras pesquisas na área. A sua teoria da evolução das espécies também teve um grande impacto, impacto direto na compreensão da linguagem não verbal, já que ele demonstrava, como foi referido, que muitas das expressões faciais que ainda visualizamos hoje em seres humanos evoluíram de forma gradual para nos ir auxiliando na nossa procura de sobreviver no nosso ambiente social e físico. De certa forma, expôs que a linguagem não verbal, circunscrita à teoria da evolução, era mais uma das muitas maneiras de o ser A linguagem não verbal no exercício do poder social COMUNICAÇÃO NÃO VERBAL 20 humano se tornar mais completo e mais capaz de usufruir da sua vida em sociedade: “A necessidade aguça o engenho”. (Darwin, 1872, pp. 27-49) Gustav Theodor Fechner (1801-1887) foi um psicólogo alemão que, assim como Charles Darwin, também contribuiu significativamente para o estudo da linguagem não verbal. Em 1860, Fechner publicou um livro intitulado Elemente der Psychophysik (Elementos da Psicofísica), no qual explorou as relações entre estímulos físicos e as sensações que eles produzem. Essa obra foi uma das primeiras a examinar a perceção humana de forma quantitativa e sistemática. Fechner também se interessou pelo estudo da expressão facial das emoções. Ele argumentava que as emoções tinham uma expressão facial universal e que essas expressões eram inatas, ou seja, inerentes à biologia humana. Essa ideia foi posteriormente desenvolvida e ampliada por outros estudiosos, como Paul Ekman, que se tornou um dos principais investigadores da expressão facial das emoções no século XX. Gustav Theodor Fechner, na sua obra Elementos da Psicofísica, apresentou a ideia de que há uma relação entre as sensações físicas e as impressões psicológicas que elas produzem. Ele argumentou que a percepção dos estímulos sensoriais depende não apenas da sua intensidade física, mas também da sensibilidade psicológica do observador. Em relação à linguagem não verbal, Fechner afirmou que a expressão facial é uma forma importante de comunicação não verbal. Na obra antes referida, ele descreveu uma experiência em que pediu a vários indivíduos que tentassem identificar diferentes emoções expressas em fotografias de rostos humanos. Fechner concluiu que "a expressão dos olhos e da boca pode ser suficiente para transmitir emoções". Além disso, Fechner destacou a importância da postura e dos gestos na comunicação não verbal. Ele aborda a conclusão de que os gestos, a postura, as ações e os movimentos, tudo isso se trata de algo que tem valor expressivo, e a observação dos mesmos pode-nos fornecer informações importantes sobre o estado mental de uma pessoa (Farooqi, 2021). Portanto, Fechner foi um dos primeiros estudiosos a reconhecer a importância da comunicação não verbal na expressão e transmissão de emoções e pensamentos, e as suas ideias ainda são relevantes para a compreensão da linguagem não verbal na atualidade. A linguagem não verbal no exercício do poder social COMUNICAÇÃO NÃO VERBAL 21 Passando para William James, um dos fundadores da psicologia moderna, podemos indicá-lo como mais um interessado pelo estudo da linguagem não verbal. Na sua obra Principles of Psychology (1890), ele defendeu a ideia de que a linguagem não verbal é uma parte importante da comunicação humana, e que gestos, expressões faciais e posturas, podem ser interpretados de forma semelhante em diferentes culturas. Além disso, James argumentou que a linguagem não verbal pode ser usada para expressar emoções e estados internos que não podem ser expressos por meio da linguagem verbal: "What, he asks, would grief be "without its tears, its sobs, its suffocation of the heart, its pang in the breast-bome?" Not an emotion, James answers, for a "purely disembodied human emotion is a nonentity"" (Goodman, 2022) e descreveu como a tensão muscular em diferentes partes do corpo pode revelar o estado emocional de uma pessoa ou como a postura pode indicar a sua disposição para enfrentar uma situação. Assim, as contribuições de William James para o estudo da linguagem não verbal resumem-se na ideia já idealizada de que a comunicação humana é composta tanto da componente verbal quanto da componente gestual, passando por expressões faciais e posturas, e a importância de considerar a linguagem não verbal como um meio de expressar emoções e estados internos (Goodman, 2022). Partindo de um princípio mais individualista e interno para uma análise mais relacionada com o indivíduo e o espaço à sua volta, surge o nome de Edward Hall, um antropólogo americano que fez importantes contribuições para a compreensão da comunicação não verbal e da cultura. Edward T. Hall, antropólogo cultural e especialista em comunicação não verbal, nasceu em 16 de maio de 1914, em Webster Groves, Missouri, nos Estados Unidos, e faleceu em 20 de julho de 2009. A relação entre Edward Hall, Ray Birdwhistell e Paul Watzlawick é notável na medida em que esses três estudiosos influenciaram e contribuíram muito e conjuntamente para o desenvolvimento da comunicação não verbal. Embora tenham abordado o tema de maneiras distintas, as suas contribuições ajudaram a moldar o campo e a compreensão da importância da comunicação não verbal na interação humana naquilo que se chamou posteriormente como “Colégio invisível da comunicação”. Eles abordavam o facto de ser uma inevitabilidade humana o facto de se comunicar, já que até uma tentativa de não se comunicar era por si só uma A linguagem não verbal no exercício do poder social COMUNICAÇÃO NÃO VERBAL 22 mensagem transmitida. A comunicação encaixa no ser humano e espelha-se em duas vertentes distintas, a analógica e a digital. A primeira, mais virada para a parte corporal, para aquilo que existe de modo básico, uma comunicação constante e inevitável dos nossos corpos. A segunda, uma componente mais verbal, mais independente do corpo e das expressões, mais analítica e direta, com menos vicissitudes (Watzlawick, 1967). Edward Hall (1966) é um autor reconhecido da "proxémica", que se refere ao estudo da relação entre as pessoas e o espaço físico que as rodeia. Dentro deste campo este autor vem-nos trazer algo diferente, já que a análise não incide tanto sobre a influência da cultura sobre a expressão não verbal facial ou expressiva, mas sim sobre como a cultura influencia a maneira como as pessoas percecionam e usam o espaço. Este autor identificou quatro zonas de distância pessoal: íntima (15 a 45 centímetros, normalmente utilizada por casais ou pessoas com extrema confiança), pessoal (45 a 120 centímetros, proveniente, normalmente, de interações com amigos, festas, reuniões), social (120 a 360 centímetros, normalmente a distância praticada quando caminhamos na rua ou esperamos numa fila), e distância pública (+360 centímetros, normalmente praticada quando existe um orador e uma plateia), e mostrou ainda como a distância preferida varia, por vezes, de acordo com a cultura. Ou seja, apesar de haver trâmites gerais com os quais podemos analisar (e generalizar), aquilo que é uma distância social num local pode ser tratado como uma distância pública noutra cultura. Convém por isso, praticar uma certa “imitação” quando nos deparamos com uma cultura diferente, já que a linguagem não verbal e sua utilização é também algo cultural e influenciado pelo meio, sendo importante respeitar aquilo que é a norma vigente numa determinada localização. Além disso, além deste contexto espacial, ele argumentou que a comunicação não verbal, como a postura, gestos e expressões faciais, também pode variar de acordo com a cultura, claro está. Este autor mostra-nos a importância de controlar as expressões e adequálas consoante a situação e o contexto, visto que a base da integração social numa determinada cultura é o comportamento humano, e muitas vezes, devido às barreiras linguísticas, esse comportamento humano adequado será totalmente transmitido de forma não verbal, de modo não linguístico, mas antes corporal, facial ou mensagem transmitida a partir da utilização do espaço pessoal Além do espaço e das expressões corporais, Hall aponta ainda à importância do tempo para um pleno A linguagem não verbal no exercício do poder social COMUNICAÇÃO NÃO VERBAL 23 entendimento social. Enquanto num determinado local uma marcação de hora pode significar chegar pontualmente, noutra cultura pode significar chegar antes da hora, ou até ser comum chegar bem depois da hora marcada. Aquilo que rege o comportamento adequado a ter depende da cultura e as diferentes conceções em relação ao tempo pode, também, afetar a comunicação. É óbvio que numa tentativa de estabelecer uma comunicação cordial e de confiança com um indivíduo, se o pusermos a esperar (para aquilo que é o seu parâmetro em relação ao tempo) isso vai estragar, de certa maneira, a base de que partimos quando iniciamos a interação. Por outro lado, se estabelecermos um horário e o sujeito com o qual combinamos chegar exatamente à hora, ou até antes (conforme o nosso padrão estabelecido de excelência na pontualidade), já iniciaremos a interligação de uma maneira distinta, de uma maneira mais pacífica e satisfatória em relação à pessoa com a qual estamos a comunicar. (Hall, 1966) Nesta área de análise teremos de abordar a importância de Ray Birdwhistell (1970), um antropólogo americano que é considerado um dos fundadores do estudo da comunicação não verbal. Este autor será aprofundado com maior profundidade seguidamente, sendo para já importante sintetizar algumas das suas inovações enquanto estudioso deste tema. Ele fez diversas contribuições importantes para o campo, principalmente na sua época, sendo que algumas das novas análises incluem: - Desenvolveu a técnica da “cinésica” para analisar os movimentos do corpo humano; - Cunhou o termo "quase-comunicação" para se referir a comportamentos que parecem comunicativos, mas não são intencionalmente comunicativos; - Defendeu que a comunicação não verbal é tão importante como a comunicação verbal e que ambas são necessárias para uma compreensão completa da comunicação humana; - Identificou padrões universais de comportamento não verbal, mas enfatizou que a interpretação desses comportamentos varia de acordo com o contexto cultural específico em que ocorrem; A linguagem não verbal no exercício do poder social COMUNICAÇÃO NÃO VERBAL 30 importância de entender o corpo como uma parte integral da experiência humana e da identidade pessoal. Segundo Le Breton, a corporeidade ou corporalidade envolve tanto a dimensão física do corpo quanto as experiências subjetivas e simbólicas relacionadas a ele. É o nosso equipamento que nos serve tanto para atingir certos entendimentos e facilitações expressivas no âmbito dos relacionamentos, como para experimentarmos certas coisas individualmente, ou seja, uma afirmação de que somos algo, derivado da linguagem não verbal sobre nós mesmos. Com isto, além de podermos passar distintas mensagens a outras pessoas, podemos também autoafirmarmo-nos como algo ou passar uma mensagem interna para nós mesmos, de modo a que a nossa linguagem não verbal possa corresponder exatamente àquilo que somos ou queremos ser. Le Breton explora a relação entre o corpo e o espaço social, argumentando que o corpo é um meio pelo qual as pessoas se relacionam com o mundo à sua volta e que a perceção do espaço e do ambiente pode ser influenciada pela corporalidade. Além disso, Le Breton destaca a importância da linguagem corporal na formação de identidades sociais e na construção de relações interpessoais. Partindo da importância retratada por estes autores acerca da teoria da comunicação não verbal, existe também uma componente conceptual obrigatória, conceitos esses que nos fazem “visualizar”, entender de que modo estes termos mais abrangentes se conseguem subdividir em comportamentos quotidianos, ou seja, na aplicação prática daquilo que estudamos. No livro "The definitive book of body language" (2004) de Allan e Barbara Pease podemos encontrar diversos conceitos sobre a comunicação não-verbal aplicada, ou seja, conceitos esses que nos mostram a aplicação prática que a componente não verbal poderá ter nas distintas culturas (e ainda que podendo variar com estas, existem certas expressões que podemos discernir e entender do mesmo modo nas mais variadas situações). Entre estas, e apresentadas neste livro existem, por exemplo: - Microexpressões: são expressões faciais breves e involuntárias que refletem emoções verdadeiras e muitas vezes são difíceis de serem escondidas e detetadas, pois duram apenas frações de segundos. A linguagem não verbal no exercício do poder social COMUNICAÇÃO NÃO VERBAL 31 - Espelhamento: é o fenómeno em que duas pessoas imitam inconscientemente a linguagem corporal uma da outra, criando uma sensação de empatia e conexão. - Posicionamento do corpo: a posição do corpo em relação aos outros e ao ambiente pode transmitir mensagens diferentes. Por exemplo, alguém que está com os braços cruzados pode-se estar a fechar perante uma situação, uma interação, enquanto alguém que se posiciona de frente para o interlocutor pode indicar interesse e abertura naquela interligação. - Gestos emblemáticos: são gestos que possuem um significado cultural específico e que podem ser usados para comunicar uma mensagem. Um exemplo comum é o gesto de "ok" feito com o polegar. - Toque: o toque pode transmitir diferentes mensagens, dependendo do contexto cultural e social. Por exemplo, em algumas culturas, o toque é uma forma comum de demonstrar afeto e conexão, enquanto em outras pode ser visto como invasivo ou agressivo. - Posição de poder (Ocupação do espaço): segundo os autores, a posição mais poderosa é aquela em que a pessoa ocupa o maior espaço possível, como ficar em pé com os braços e pernas afastados. Além destas visões mais ligadas à exclusividade da “corporeidade”, é importante perspetivar, também, segundo uma noção semiótica. Embora estas “descontinuidades” sejam importantes, o gesto pelo gesto, a expressão pela expressão, é de vital importância a reflexão sobre as “continuidades”. De acordo com aquilo que podemos extrair de Fontanille, a semiótica do corpo em nada vem retirar importância à semiótica do discurso, vem antes complementá-la, enriquecê-la. A semiótica do corpo serve o propósito de analisar tanto as questões corporais como as conexões com as vertentes discursivas, conseguindo desta maneira encontrar um elo que a aproxima da “verdade”, daquilo que é uma melhor perceção do sentimento, das paixões, dos gestos (e seu porquê), das ações (Fontanille, pp. 96-97) Esta análise mais direcionada para a semiótica da linguagem não verbal requer capacidade para conseguir depreender os significados dos gestos, das expressões e dos símbolos. Esta semiótica verga-se sobre a importância do corpo, A linguagem não verbal no exercício do poder social COMUNICAÇÃO NÃO VERBAL 32 daquilo que é mais lato a este, as questões mais profundas do seu funcionamento e de que modo este “aparelho” próprio que cada um possui pode afetar a linguagem não verbal de cada indivíduo. A semiótica do corpo vem trazer uma nova componente de interpretação dos significados não verbais, com o auxílio da semiótica discursiva, passando o conteúdo da comunicação não verbal a linguagem verbalizada de um modo mais fluido (e conecto entre linguagem e corpo) (Fontanille, pp. 92, 96-97) A linguagem não verbal no exercício do poder social COMUNICAÇÃO NÃO VERBAL 33 2.3. Importância da comunicação não-verbal em diferentes contextos A comunicação não verbal é importante enquanto unidade, tem um valor intrínseco e geral, mas que não pode ser separado daquele que é o seu valor situacional ou parcial. Enquanto apreendemos a importância da comunicação verbal por si só, a importância comunicativa por si mesma, teremos também de balançar essa análise com as distintas importâncias vocacionais desta, em diferentes contextos. Inicialmente, e com a ajuda de diversos autores, consegui estudar a linguagem não verbal por si só, ou seja, a extrema relevância desta tipologia de linguagem como um fim, mas não poderia nunca esquecer aquela que é a sua vertente mais prática e talvez mais preponderante: a importância desta como um meio. Quando aplicamos esta linguagem como uma ferramenta conseguimos ver a sua plasticidade, aquilo que a faz importante numa situação pode-a fazer irrelevante na seguinte, e vice-versa, e por isto é esta área de análise tão interessante, vendo o interesse e desempenho desta linguagem nas distintas categorias de ação/situação. Ao longo da nossa vida, e até do nosso dia, passamos por várias situações diferentes que nos obrigam a sermos pessoas distintas com expressões também diferentes. A forma como eu falarei para um pai não será a mesma maneira utilizada para falar com um bebé, tanto da maneira verbal como não verbal, assim como será também distintivo o tratamento para com um amigo ou para com um presidente da câmara. Além da situação, alteram-se as palavras, alteram-se os sentimentos, alterase a expressão corporal e facial. Para ilustrar de modo mais simplista o ponto de vista contextual na linguagem não verbal, referirei certos exemplos ilustrativos: - Contexto empresarial: A comunicação não-verbal é importante na negociação de contratos, na apresentação de ideias e na criação de relações comerciais. Um aperto de mão firme, contacto visual direto e frontal e uma postura confiante podem ajudar a criar uma impressão positiva (Peleckis & Polajeva, 2016) - Contexto médico: Abordando a interação do médico com o paciente. Os profissionais de saúde podem usar expressões faciais e gestos para mostrar empatia e conforto aos pacientes, o que pode ajudar a melhorar sua experiência, ou até utilizar certas expressões de encorajamento e resiliência, que podem aumentar a A linguagem não verbal no exercício do poder social COMUNICAÇÃO NÃO VERBAL 34 confiança no tratamento e, posteriormente, facilitar a cura (Ramos & Bortagarai, 2012) - Contexto educacional: Os professores podem usar expressões faciais, gestos e posturas para ajudar a manter a atenção dos alunos e transmitir a sua mensagem de forma mais eficaz. Certas tonalidades de voz distintas e de vibrações variadas podem até tornar os alunos em espetadores atentos e ávidos de saber mais sobre uma determinada temática. (Okon, 2011, p.36) - Contexto social: A comunicação não-verbal é uma “fatia” notória daquilo que são as ferramentas que possuímos para estabelecer relações sociais, incluindo amizades, namoros e interações familiares. As pessoas podem usar expressões faciais, gestos e posturas para mostrar as suas emoções e estabelecer conexões emocionais com os outros. Pode também facilitar a transmissão de uma mensagem ou facilitar a vida a alguém próximo, com a transmissão de alegria e serenidade. - Contexto jurídico: É utilizada em ambientes jurídicos, como em julgamentos e depoimentos. Advogados e juízes podem observar a linguagem corporal dos envolvidos para avaliar a sua credibilidade e determinar a veracidade das suas declarações (Silva, 2010, p. 32). - Contexto policial: Por último, a linguagem não verbal é fundamental na aplicação da lei. A observação cuidadosa da linguagem corporal pode ajudar a polícia a determinar se uma pessoa está a mentir ou a esconder alguma coisa. Com uma análise centrada em códigos pré-definidos, podem até, através das microexpressões, entender certas verdades não ditas capazes de levar à detenção de um indivíduo (Navarro, 2008). A linguagem não verbal no exercício do poder social COMUNICAÇÃO NÃO VERBAL 35 2.4. Técnicas de análise da comunicação não-verbal A comunicação verbal requer uma observação perspicaz. Esta apenas será útil se bem avaliada pelo analista, por quem observa, porque, por muitos e óbvios que sejam os sinais e as mensagens encaminhadas pelo corpo de um sujeito, estas só serão relevantes na medida em que elas chegam e se vislumbram com o auxílio da mente que a analisa. A análise da comunicação não verbal envolve uma variedade de técnicas que proporcionam uma compreensão mais aprofundada dos comportamentos não verbais. Uma destas técnicas é a observação sistemática, observação esta em que quem analisa vê a mensagem não verbal como um todo, havendo uma interpretação daquilo que se observa e na qual os observadores registam de modo consciente os comportamentos não verbais em determinados contextos específicos, de modo a posteriormente poderem chegar a conclusões com o auxílio de um “mapa” com significados pré-definidos para cada movimento. Esta análise é a análise mais básica e generalista, podendo ser feita por observação direta daquilo/ de quem se pretende analisar ou por meio de observação de vídeos ou fotografias, que transmitem de um modo não tão direto (por serem mediados pelo ecrã) aquilo que o autor de um discurso ou intervenção poderá estar a pensar ou a sentir 1 . Esta análise tem a vertente de poder rastrear de maneira minuciosa os gestos, expressões faciais, posturas e outras manifestações não verbais, ocupandose ainda do momento em que estas expressões são expostas, todo o contexto e diferenças relevantes no orador e no seu discurso durante a sua intervenção. A observação sistemática é crucial para identificar padrões e relações entre os comportamentos não verbais e o contexto em que ocorrem (Eckman & Rosenberg, 1998, pp. 5-6) Seguidamente, passamos para uma outra técnica com interesse investigativo e mais voltada para a análise profissional de um discurso ou contacto entre duas pessoas: a codificação e categorização de comportamentos não verbais. Ao longo de décadas, especialistas vão desenvolvendo sistemas de classificação que permitem 1 Moodle USP: e-Disciplinas.https://edisciplinas.usp.br/mod/resource/view.php?id=107452 (p.7) A linguagem não verbal no exercício do poder social COMUNICAÇÃO NÃO VERBAL 36 identificar e rotular diferentes tipos de comportamentos não verbais. Toda esta análise, segregação e avaliação tem como missão auxiliar a organização dos dados observados, facilitando a conclusão de certos resultados especulativos (com isto, mais voltados para aquilo que são os factos) e para a comparação entre estudos. A codificação e a categorização permitem uma análise mais precisa e quantitativa dos comportamentos não verbais (Ekman & Rosenberg, 1998, p. 13) Abordando as expressões, os gestos e o espaço, resta-nos uma vertente que fecha o quadro das análises mais importantes a serem feitas numa comunicação não verbal: a análise da vocalização e da entoação na transmissão de uma mensagem não verbal. A maneira como falamos, incluindo a entoação, o ritmo, a ênfase e outras características vocais, podem transmitir informações e emoções adicionais sobre o nosso estado emocional. Um analista conseguirá “rasgar” por entre o discurso e discernir aquilo que realmente vai na alma do orador, aquilo que ele pensa, as verdadeiras intenções, se esconde alguma coisa, se deixa algo por dizer… Tudo isto, por vezes, através de uma capacidade de perceber um tom de voz distinto, uma entoação falsa, uma frequência mais aguda num registo de voz normalmente grave, por exemplo. A análise desses aspetos vocais pode fornecer “insights” muito valiosos sobre o estado emocional, a intenção e até mesmo a identidade do orador (Hall & Murphy, 2019, pp. 277-278) Neste trabalho, disponho-me a avaliar uma série de políticos e diversas mensagens transmitidas não verbalmente no âmbito da relação orador/ouvinte. Desta feita, é necessária uma análise de como podemos integrar todas estas técnicas rastreadoras, nas mais variadas vertentes, para interpretar a linguagem não verbal de um político durante um discurso, sendo para isso fundamental observar uma série de elementos para uma análise abrangente, mas conclusiva. Primeiramente, as expressões faciais podem fornecer informações valiosas sobre as emoções e atitudes deste político ou orador determinado. Sorrisos, franzir a testa, levantar as sobrancelhas ou olhares de desaprovação podem revelar reações emocionais fortes, por vezes genuínas, noutras vezes, intencionais. Além disso, nesta análise concreta, os gestos e a postura corporal do político são indicadores cruciais. Gestos amplos e enérgicos podem ser usados para enfatizar pontos-chave e transmitir confiança, e a postura corporal no geral, como uma A linguagem não verbal no exercício do poder social COMUNICAÇÃO NÃO VERBAL 37 observável tensão ou relaxamento da postura, esta ser ereta ou inclinada, tudo isto pode ser determinante para conseguirmos captar determinadas mensagens (e transmiti-las, do ponto de vista do orador) sobre a confiança e a autoridade deste político (Pease & Pease, 2004, pp. 128-141) A vocalização e a entoação são elementos essenciais que já foram abordados e que são crucialmente considerados numa análise deste tipo. O tom de voz, a velocidade da fala, as pausas e os silêncios podem influenciar a perceção da mensagem transmitida, e tornar o orador em alguém entendido como calmo, capaz, irritado ou nervoso. Se a pessoa tiver um discurso pausado, seguro e articulado pode inspirar confiança e pode mais facilmente passar à persuasão, enquanto uma fala hesitante ou incoerente gerará dúvidas, e infligirá sobre si mesmo uma imagem de incapacidade (Pease & Pease, 2004, pp. 347-348) Além de tudo isso, a linguagem corporal e sua análise não se ficam só por aí, sendo que a análise e as técnicas utilizadas para esta atividade se podem ainda prender com o uso do espaço, o contacto visual com o público, os movimentos corporais subtis e a interação com outros presentes. Todos estes pontos poderão ser pontos importantes para o entendimento do orador, perante o seu público (Pease & Pease, 2004, p. 188). CAPÍTULO 3 LIDERANÇA E COMUNICAÇÃO NÃO VERBAL A linguagem não verbal no exercício do poder social LIDERANÇA E COMUNICAÇÃO NÃO VERBAL 39 3.1. Características e comportamentos dos políticos A comunicação não verbal, como salientamos anteriormente, refere-se a todas as formas de comunicação que não envolvem palavras faladas ou escritas. Inclui gestos, expressões faciais, postura corporal, tom de voz e outros sinais não verbais. Esses elementos podem transmitir mensagens poderosas e têm um impacto significativo na forma como somos percebidos e como percebemos os outros. Se num contexto familiar e quotidiano estamos já iluminados acerca da importância da utilização deste tipo de linguagem, quando falamos de pessoas com maior relevância e abrangência, o valor e o poder desta linguagem fica ainda mais acrescido, sendo possível, através dele, fazer o melhor e o pior. No contexto político, a linguagem não verbal desempenha um papel importante na construção da imagem e na influência social dos políticos. Neste momento somos levados a “afunilar” a nossa análise, vergando-se esta para aquilo que são os meios passíveis de ser utilizados pelas pessoas em cargos de chefia. No papel de uma pessoa desta estirpe aqui estão alguns pontos a considerar: Expressões faciais: neste contexto as expressões faciais podem transmitir emoções e demonstrar autenticidade. Políticos que conseguem expressar emoções adequadas ao discurso, como empatia ou indignação, tendem a ser percebidos como mais autênticos e conectados com o público. Podemos abordar de forma distintiva esta questão das “expressões faciais” na vida política, porque se para a maioria dos demais a expressão é algo que “lhes acontece”, na vida política ativa as expressões são algo muitas vezes ludibriado, assessorado, de modo a fazer-se servir da linguagem não verbal do melhor modo, como um meio teatralizado para conseguir alcançar o fim (um entendimento por parte do espetador) (Ekman, 2003, pp. 111112). Postura corporal: Como já abordamos a postura e o campo gestual podem transmitir confiança e autoridade. Políticos que adotam uma postura ereta, movimentos controlados e gestos firmes geralmente são percebidos como mais poderosos e competentes. Pessoas de cargos altos e com poder costumam retratarse como seres mais calmos, com uma lentidão digna e poderosa, em contraste óbvio com os “serventes”, com as pessoas de poder reduzido, pessoas essas que se A linguagem não verbal no exercício do poder social LIDERANÇA E COMUNICAÇÃO NÃO VERBAL 46 Campanhas publicitárias: As campanhas políticas utilizam imagens e vídeos como parte integrante da propaganda, da manipulação orquestrada pelos diretores de campanha. Estes anúncios empregam uma linguagem não verbal impactante de modo a criar emoções e rivalidades, para que o fanatismo, muitas vezes, ultrapasse a razão, de modo a que, futuramente, as pessoas defendam aqueles pelos quais foram manipulados mesmo quando confrontados com valores que outrora detinham e já não “autorizados” a ter mais. Exemplificando, um discurso de promessas de apoio ou de ódio para com outros, acompanhado do “resultado”, retratado com imagens de famílias felizes, paisagens inspiradoras, gestos de apoio e expressões faciais positivas são usados para criar uma conexão emocional com o público, que terá que ser forte para se libertar destas “amarras” e manter-se fiel à sua individualidade, pensamento próprio e racionalidade (Seidman, 2008). Imagens de campanha: Símbolos como cartazes, ofertas e material promocional, são criados para transmitir mensagens políticas de forma visual e ser como que um “clique” para todo o sentimento outrora criado pela mensagem. A linguagem não verbal de pessoas, nomeadamente dos políticos visados nestes casos, é frequentemente utilizada nestas imagens, trabalhando com as distintas formas das poses dos candidatos, a forma como estes se vestem, os seus sorrisos, expressões faciais e gestos, para criar uma imagem positiva e atrair o eleitorado que se identificará com aquela posição/forma de se apresentar (Seidman, 2008, p. 241). Aparições públicas e comícios: Durante comícios e aparições públicas, líderes políticos utilizam a expressão corporal para “ativar” a multidão e projetar o seu carisma. Os atores políticos podem empregar gestos amplos, expressões faciais entusiasmadas, movimentação dinâmica no palco e um uso de linguagem corporal aberta para transmitir o seu, falso ou verdadeiro, entusiamo por estarem ali, naquele dia, àquela hora, com aquelas pessoas (Vivo, 2015, February 10). CAPÍTULO 4 ANÁLISE EMPÍRICA A linguagem não verbal no exercício do poder social ANÁLISE EMPÍRICA 48 4.1. Descrição do corpus Para esta análise empírica, uma análise mais prática de tudo o que foi perspetivado até então, eu optei por me acercar de exemplos sérios e famosos de pessoas que se estabeleceram/estabelecem no nosso panorama social e político como pessoas influentes, com a linguagem não verbal bem presente naquilo que é o seu panorama discursivo diário e nas quais é possível observar uma conexão óbvia entre o acumular do poder social e a sua linguagem não verbal. São atores políticos que foram, ao longo do tempo, criando uma imagem própria, dominante, aliados a uma comunicação forte e persuasiva, e que demonstram, de certa maneira, como a linguagem não verbal (conectada à linguagem) consegue ser um alicerce poderosíssimo de propaganda, de persuasão, de manipulação. Primeiramente, a minha escolha foi a do presidente da Federação Russa Vladimir Putin, tanto por ser alguém que já se movimenta na esfera do poder há várias décadas, como também por ser uma pessoa que se encontra bastante presente no panorama social mundial neste momento, devido à guerra com a Ucrânia. Além de tudo isto, creio que este é um bom exemplo do uso da comunicação não verbal no panorama político, já que Putin tem de criar uma imagem e uma retórica constantes para corresponder às exigências dos russos, à “vitimização” da Rússia sobre a guerra com a Ucrânia e à “dureza” que se pede que tenha para lidar com todos os líderes do Ocidente de forma firme. É um bom exemplo a constante imagem que transmite de alguém “duro” nos média internacionais, seja através da pesca, da boa forma física ou da prática de artes marciais. Para utilizar as informações, as técnicas e os conceitos que aprendi durante o estudo da parte teórica da linguagem não verbal, para este ator político, decidi analisar a entrevista com a NBC News: “Exclusive: Full Interview with Russian President Vladimir Putin” e o seu comunicado a 21 de Fevereiro de 2022 a partir do Kremlin, Moscovo às 22:35h “Address by the president of the Russian Federation”. Após Vladimir Putin, analisarei Donald Trump, que tem bastante influência num país como os EUA e que, para mim, tem interesse devido à projeção que ele tem no plano mediático e na grande atualidade em que ele está inserido, sendo que, ao que tudo indica, será o candidato republicano às eleições de 2024. Devido à imagem distintiva deste ator político, aos seus discursos, à sua retenção das massas e até a A linguagem não verbal no exercício do poder social ANÁLISE EMPÍRICA 49 um certo idolatrar que conseguiu por parte de vários milhões de americanos, penso que Donald Trump faz parte de um lote restrito em que se nota, e que faz sentido analisar, como a sua comunicação não verbal (mais uma vez, alicerçada à comunicação verbal), consegue ser forte o suficiente para criar uma imagem tão poderosa ao ponto de chegar a um cargo tão importante como presidente dos EUA. Por isto, creio fazer sentido analisar este ator político numa certa situação difícil aplicando de forma prática as análises teóricas por mim aprendidas, devido à sua ligação à linguagem não verbal e ao poder social, utilizando para a análise a este caso o seu testemunho em tribunal no caso de difamação na suposta violação cometida sobre Jean Carroll. Por último, optei por analisar aquele que foi um dos mais temíveis ditadores do último século, e que com o auxílio da linguagem não verbal, através de símbolos, de gestos, de bandeiras e de movimentos, conseguiu criar uma manipulação/alienação das massas nunca vista: Adolf Hitler. Neste ator político, a análise centrar-se-á na observação dos movimentos durante os seus discursos, baseado na análise de um vídeo com uma compilação de trechos de discursos dados por este. Com aquilo que observei e aprendi até então, pretendo fazer uma análise daquilo que levou a que um homem conseguisse “cegar” tanta gente, tentando pôr em prática uma análise dentro de certos parâmetros para conseguir perceber qual foi a sua grande base em termos de gestos, expressões, postura e movimentos, que o conseguiu levar a conquistar todo o poder social que este alcançou. A linguagem não verbal no exercício do poder social ANÁLISE EMPÍRICA 50 4.2. Procedimentos da recolha e da análise dos dados Durante este processo existiu uma preocupação patente de analisar alguns dos maiores intervenientes mundiais no âmbito da política, em situações de algum conflito e em situações em que a tranquilidade e o à-vontade não reinassem. Incidir sobre discursos feitos em situações de normalidade ou rotina, não traria tanta informação àquilo que seria a recolha do conteúdo não verbal, mas traria sim discursos mais simplistas, mais "vazios" gestualmente e expressivamente falando, sendo que alguém que está num clima de total descontração e geral à vontade com a situação, muito mais dificilmente transmitirá algo fora daquilo que está a tentar transmitir com toda a força, ao seu público. O procedimento de recolha foi feito de uma forma bastante simples, encontrando os vídeos de Putin e Donald Trump na plataforma 'Youtube', e tratando da sua interpretação diretamente a partir desta. Um dos discursos de Putin retirei do site do governo russo, já que é uma mensagem enviada ao seu país e ao mundo a partir desta plataforma. Para Hitler, encontrei também um vídeo no 'Youtube', diferente do dos restantes analisados porque é uma compilação de discursos, certos momentos em situações distintas, já que o acesso a conteúdo do ex-líder do partido nazi é de maior dificuldade. Em todas estas análises, destes três líderes, optei por ver os vídeos e disporme de uma forma mais prática, ou seja, decidi transpor aquela que tinha sido a perspetiva mais teórica de toda a dissertação e tornar esta experiência realmente empírica e imersiva. Não me verguei, para esta análise, sobre muitas componentes teóricas específicas, mas preferi ao invés "atirar-me de cabeça" para uma interpretação direta, passando a analisar aquilo que via com uma perspetiva única por parte da minha pessoa, tentando experimentar de forma concreta um exercício prático de análise à linguagem não verbal, baseado em tudo o que aprendi até ao momento. Além desta análise direta e livre, optei ainda por me rodear de alguns dos maiores especialistas do mundo em interpretação direta da linguagem não verbal da atualidade, visualizando os vídeos do canal "The Behavior Pannel" para colocar em contraste com aquelas que tinham sido as minhas análises, mas também para me suportar e acrescentar certas coisas àquela que pode ser a análise aos movimentos A linguagem não verbal no exercício do poder social ANÁLISE EMPÍRICA 51 corporais destes líderes. Todas as pequenas análises por parte destas pessoas são valiosas e estão devidamente assinaladas durante o ponto 4.3: "Resultados da análise dos vídeos e fotos dos autocratas". A linguagem não verbal no exercício do poder social ANÁLISE EMPÍRICA 52 4.3. Resultados da análise dos vídeos e fotos de autocratas Para principiar a minha análise empírica de alguns dos autocratas mais influentes das últimas décadas, iniciei a minha análise com o vídeo "Exclusive: Full Interview with Russian President Vladimir Putin"2: Nesta entrevista eu tentei de certa forma analisar Putin numa situação de maior tensão e dificuldade, de modo a verificar aquilo que seria transmitido não verbalmente abordando temas difíceis como a guerra na Ucrânia, a ligação à China e difícil relação com os Estados Unidos ao longo de vários anos. Para esta entrevista começo por denotar que obviamente Putin vem preparado, que é alguém experiente e que não cede à pressão do jornalista de forma facilitada. No minuto 30:08 (um dos vários exemplos da primeira parte desta entrevista), vemos o presidente da Rússia a agir casualmente, de uma forma tranquila corporalmente falando, tendo um tom de voz cordial e amigável, tentando transmitir uma sensação de ser alguém totalmente natural, até normal, e perfeitamente ponderado. 2 Como espelho desta tentativa por parte de Vladimir Putin perscrutei um encolher dos ombros enquanto referia "everybody understand that" em russo, 2 https://youtu.be/m6pJd6O_NT0?si=iRmzXYp5TS4groCO A linguagem não verbal no exercício do poder social ANÁLISE EMPÍRICA 53 tentando passar uma mensagem que nos diz "não sou só eu que o acho, é algo geral, eu sou como outra pessoa qualquer". Nesta fase sorri amigavelmente, até chega a rir, exalando uma postura total de alguém que nada mais tem a aprontar do que um consenso entre todos (e entre todas as partes). No cômputo geral ele aparece confiante, com uma postura nem muito hirta nem muito frágil, aparece tal e qual como alguém que fala amigavelmente com alguém de quem gosta. De referir também, algo que os intervenientes de "The Behavior Pannel" também indicam, que Vladimir Putin opta sempre por usar um tradutor apesar de ser público o facto de que o presidente russo compreender muito bem o idioma inglês (algo que já foi demonstrado sob outras circunstâncias/entrevistas). É provável que atue desta maneira para que possa ter mais tempo para pensar sem que isto seja visto de forma direta como hesitação. Assim, usa este tempo para responder, evitando hesitar e passando a mensagem de alguém confiante e assertivo. A velocidade a que alguém responde a uma questão tem influência na forma como é vista em relação àquilo que é verdadeiro ou falso, e os líderes mais confiáveis e que as pessoas têm mais tendência para seguir são, como todos sabemos, pessoas que são visualizadas como sendo convictas e assertivas, e não apreensivas, nervosas e hesitantes. No minuto 51:50 existe já uma mudança em relação àquela que foi a minha visão inicial da entrevista, sendo que Vladimir Putin, embora mantenha uma posição amigável, descontraída e um olhar direto e confiante, começa a embrenhar-se em gestos vistos como mais "duros" e "temíveis". Neste caso, o presidente russo fala já com alguma rispideza em relação aos seus homólogos norte americanos e perante a "provocação" do jornalista norte americano, ele reage de forma um pouco mais distante daquilo que tinha sido o seu comportamento até então, passando do "amigo" para o "líder temido", sem perder a sua compostura, mas passando da transmissão de simpatia, a uma transmissão mais relacionada com ironia, relacionada com dureza e poder (que é bastante visível no aplauso do presidente e na sua expressão facial de total sarcasmo). A linguagem não verbal no exercício do poder social ANÁLISE EMPÍRICA 54 Quando Putin aplaude a provocação do jornalista norte americano, tenta de certa maneira, através da ironia, rebaixá-lo e levá-lo a uma posição de inferioridade, deixando o jornalista pouco à vontade. Segundo a análise dos intervenientes de "The Behavior Pannel", Putin "tenta fazer o jornalista recuar, sendo quase uma ameaça à sua boa figura". Nesta fase, o entrevistado renuncia provisoriamente à sua face amigável e insere-se numa fase de maior força, tentando passar por cima do entrevistador, de modo que a sua postura e a assertividade com que diz o que diz transmita uma mensagem de verdade. A forma assertiva com que fala leva-nos a crer que acredita piamente no que diz, passando uma mensagem subliminar poderosa. Para culminar uma entrevista em que, maioritariamente, o entrevistado consegue estar em controlo da entrevista (e em controlo da mensagem não verbal que transmite) devido ao seu treino, experiência e à sua capacidade de comunicação, vergo-me agora sobre o minuto 1:14:40, numa situação que poderia ser de extrema dificuldade, mas que é gerida de forma relativamente aceitável. Questionado sobre a possibilidade de a China invadir Taiwan e a relação da Rússia com este possível evento, Putin tem uma certa mudança de atitude: existe um movimento corporal A linguagem não verbal no exercício do poder social ANÁLISE EMPÍRICA 55 (que embora reduzido) é superior ao habitual, havendo ainda no minuto 1:15:00 um lamber dos lábios por parte do presidente. Além disto, dá-se um leve movimento de pés e mãos que pode ser revelador de alguma informação que o presidente tinha em sua posse, mas que é habilmente A linguagem não verbal no exercício do poder social ANÁLISE EMPÍRICA 62 por cima do pulso (mais uma vez, um sinal claro de um certo mecanismo de defesa inconsciente), e ainda vai agarrando e largando com os seus dedos. Mark Bowden analisa esta questão de uma forma muito similar, indicando que a mão por cima do pulso é "o 1º sinal de stress". Prosseguindo, no entanto, continuamos a conseguir visualizar aquilo que já anteriormente vimos, uma desconfiança e desconforto que são anulados por respostas rápidas, decididas e confiantes. Apesar do desconforto sentido, ele vai respondendo instantaneamente às questões com autoridade, e como Scott Rouse indica ele mantém o seu anterior testemunho com um forte contacto visual e com um claro e ressonante: "Yes, I do!". Das 11:45:50 às 11:46:30 é onde realmente se apresenta o cerne da questão, onde a acusação mais notória e séria vem ao de cima, sendo respondida por Trump com um olhar direto, postura ereta, sem balancear ou arquear os ombros e com um tom de voz decidido e confiante, "enfrentando" a procuradora de modo mais A linguagem não verbal no exercício do poder social ANÁLISE EMPÍRICA 63 concreto, passando, na minha opinião, uma sensação de credibilidade e inocência. Scott Rouse adiciona a esta análise o facto de que o número de vezes que este pisca os olhos se mantêm igual, o que é indicativo de não haver stress ou qualquer problema para ele em relação a esta afirmação que ele faz. Continuando com a análise, situamo-nos agora nas 11:59:14 para fazermos um ponto de situação acerca da postura de Trump, que neste momento adota uma postura serena e responde sempre imediatamente, sem medo das palavras ou de possíveis remedeios que possivelmente teria de fazer se estivesse a inventar toda uma narrativa. Neste momento, ele continua, no cômputo geral, confiante naquilo que diz, transparecendo honestidade. Greg Hartley adiciona a este momento o facto de que quando Trump diz "She's not my type" levanta o queixo, sinal de que está a enfatizar um ponto, um sinal de afirmação e não de raiva. Às 12:00:00 ele ajeita-se e troca a posição corporal, alterando também a posição das mãos e mostrando um leve desconforto, mas neste momento, já a caminhar para as duas horas de audiência é normal que haja uma resposta natural do corpo à irritabilidade que a inércia desta situação provoca, sendo que Mark Bowden e Scott Rouse leem esta mudança da posição das mãos como a de alguém que está aborrecido e, portanto, terá de reagir de alguma maneira. A linguagem não verbal no exercício do poder social ANÁLISE EMPÍRICA 64 Das 14:22h às 14:23:33h vemos Donald Trump confiante, com uma manutenção de uma boa postura, a responder no imediato, sem ter necessidade de pensar em qualquer resposta ou sequer a parar um pouco para ter cuidado com as palavras. Neste momento, ele já se encontra mais animado e mais dentro do estilo que se lhe reconhece, dizendo que pensa usando frases polémicas, com uma velocidade de quem nada tem a esconder. Quando ele utiliza a expressão "very dishonest", segundo Mark Bowden, conseguimos reconhecer uma expressão facial de nojo, mostrando um grau de raiva que se apresenta, na minha opinião, como um sentimento verdadeiro. A linguagem não verbal no exercício do poder social ANÁLISE EMPÍRICA 65 Para finalizar esta análise empírica ao poder que o ex-presidente dos Estados Unidos da América consegue arrecadar com o bom uso de uma linguagem não verbal, conseguimos, às 15:08:52 ver o Donald Trump (acompanhado do seu portefólio gestual) ao qual estamos habituados: recheado de gestos expansivos, "tornando-se maior", muito confiante e a declarar cada afirmação de uma maneira e com uma entoação e dicção dignas de alguém que apenas está a apresentar factos, e nada mais. Está, neste momento da sua inquirição, totalmente à vontade e a dizer tudo aquilo que lhe vem à cabeça, transparecendo honestidade, credibilidade, controlo e poder. Scott Rouse define este momento como o "Classic Trump". A linguagem não verbal no exercício do poder social ANÁLISE EMPÍRICA 66 Numa última análise discorrerei sobre Hitler e um vídeo que compila alguns dos seus discursos durante o seu reinado de terror durante a liderança da Alemanha nazi. Para isso utilizarei um vídeo intitulado "Hitler Speeches - Stock Footage". 5 Neste vídeo podemos ver inicialmente no oitavo segundo o primeiro sinal da clareza e convicção que marcavam a linguagem não verbal dos discursos de Adolf Hitler. O seu punho cerrado tem como ideal tentar trazer ainda mais alento para com aquilo que ele diz, sendo que ao 51º segundo do vídeo vemos o punho no ar, uma postura ereta e o queixo levantado por diversas vezes, uma compilação completa de tudo aquilo que ele pode usufruir para transmitir o seu discurso de uma forma mais confiante, fiável e convicta. Este conjunto que gera uma "ação afirmativa" na sua globalidade tenta que o público entenda como verdade aquilo que é dito. 5 https://youtu.be/t992mKgw60c?si=7Uf5WXMmoboDpFQl A linguagem não verbal no exercício do poder social ANÁLISE EMPÍRICA 67 No minuto 1:03 começamos a visualizar algumas outras caraterísticas que se interligam bastante com a imagem que temos deste antigo líder alemão: os seus gestos expansivos e firmes aliados à sua postura ereta, que nos fazem levar ao entendimento da "certeza" com que fala o orador. Além disto, o tom de voz é, de forma geral, muito altivo e expressivo, com uma dicção ideal que faz o seu discurso "ribombar" no interior das pessoas que fazem parte do público dessa altura. A linguagem não verbal no exercício do poder social ANÁLISE EMPÍRICA 68 No minuto 2:01, com um plano mais aproximado, podemos ver mais alguns pontos que, todos juntos, perfazem o conjunto que é Hitler: sobrancelhas carregadas, nariz e bochechas tensas, boca a mexer-se de uma forma violenta, e tudo isto sempre aliado a gestos mecânicos e hirtos (sem qualquer hesitação ou ondulação, membros constantemente esticados), trazendo tudo isto uma certa "energia" carregada aos ouvintes, uma certeza que vai penetrando em cada um sob forma de energia, que tem como propósito criar um estímulo na cabeça de cada um e, consequentemente, uma "conexão emocional". A postura, no cômputo geral, nunca descai, e a isto ainda se acrescenta a força da simbologia: a postura à membro das forças armadas, as vestes de general e toda uma significância assente na sua "pujança", para que as pessoas o entendam como alguém duro, alguém credível, alguém que os pode liderar, a eles e à sua revolta. Após isto, no minuto 2:40 ao minuto 2:53, podemos analisar melhor o tom de voz e a "melodia gradual" com que é feito o discurso, de modo que o público comece devagar, vá entranhando e aceitando, até chegar a um êxtase final. No início existe uma preocupação para começar mais devagar, criando "espaço" para que o tom de voz vá subindo, a violência das palavras vá crescendo, e para que as pessoas se vão A linguagem não verbal no exercício do poder social ANÁLISE EMPÍRICA 69 sintonizando ao longo deste caminho manipulativo, dando azo a que no fim o grupo esteja totalmente sintonizado e aja como um organismo comum que se expressa de uma maneira única: o estrondo. Estrondo esse que é o culminar do discurso e que ainda cresce mais no entendimento de cada sujeito individual, devido ao barulho criado pela massa de gente que está à sua volta. Hitler cria esta energia ribombante de uma forma muito orgânica e natural. Regula e utiliza o tom de voz, subindo gradualmente os níveis da sua força, a multidão vai gradualmente subindo o apoio, dá-se uma "explosão", e por fim esta explosão gera ainda um entendimento de uma importância ainda maior sobre aquilo que foi dito, devido ao ressoar que entra na mente das pessoas. No minuto 3:20 conseguimos ver, através da linguagem gestual, um apontar decidido, que está inevitavelmente ligado à força, ao poder, à criação de um clima hostil, que serve, neste momento, para "mandar mais achas para a fogueira", alcançar a manutenção de um ambiente ensurdecedor e de companheirismo entre todos na "sua luta" comum. No minuto 4:35 vemos uma parte da linguagem não verbal importantíssima do partido nazi, sendo que a propaganda sempre foi passada à multidão através de uma interligação entre a presença de Hitler, o "seu salvador", e grandes símbolos que tentavam passar uma imagem de algo grandioso e muito superior ao sujeito individual. Neste momento do vídeo conseguimos ver que o discurso é feito acima de uma cruz suástica enorme, um símbolo forte e impactante que torna as pessoas mais servis, e dando ainda mais impacto àquilo que estão a ser a força e a autoridade inerentes ao discurso de Hitler. A linguagem não verbal no exercício do poder social ANÁLISE EMPÍRICA 70 Já no minuto 5:26 continuamos a ver a propaganda patente na linguagem não verbal associada à simbologia: neste caso vemos uma enorme multidão de soldados, símbolos, bandeiras, que transmitem uma imagem de superpotência, fazendo com que as pessoas mais facilmente acreditem que tudo aquilo tem o seu sentido, que é "correto" aquilo que está a acontecer (porque senão como haveria toda aquela organização, sustentada por multidões, concórdia e união entre milhões?). Para terminar, conseguimos ver a partir do minuto 6:26 algo na sua expressão facial que nos faz entender que Adolf Hitler era já bastante treinado e capaz de transmitir a mensagem que queria através de todo o corpo, através de toda a sua figura como uma só. Enquanto discursa, as suas pupilas dilatam, faz um esforço A linguagem não verbal no exercício do poder social ANÁLISE EMPÍRICA 71 óbvio para manter uma expressão de esgar de raiva e de força para se "ir alimentando" perante a tarefa exigente de manipular todas aquelas pessoas, enquanto quase não pisca os olhos, de modo a passar uma imagem ainda mais convincente de foco, de verdade inerente às suas palavras, e principalmente de não haver qualquer hesitação naquilo que está a transmitir: quase como tentando transmitir que aquelas palavras não são treinadas, não são artificiais, mas que ao invés saem naturalmente daquilo que lhe passa na cabeça momentaneamente. Para esta tarefa difícil, o olhar direto e constante tem um papel preponderante, sendo que a mensagem tenta ser o mais profunda possível, disfarçando aquilo que é um discurso treinado, aquilo que é o "racional", com emoção libertada exponencialmente e um olhar hipnotizante. A linguagem não verbal no exercício do poder social DISCUSSÃO 78 dentro de um determinado contexto. No entanto, a menos que o conteúdo seja bastante recente, é muito complicado encontrar certos registos antigos de determinadas pessoas, não se tratando de uma não existência desses registos, mas do facto de uma má organização, de não se tornarem públicas várias gravações ou da tentativa de "apagar" aquilo que houve de negativo na nossa história. O meu entender é exatamente o oposto, creio que é importante haver um esforço para repescar o máximo de conteúdo possível, de modo que possamos aprender ao máximo, apreender aquilo que de bem se fez e também, claro está, entender como certas situações negativas se desencadearam, analisando-as, de modo que nos possamos proteger de circunstâncias similares no futuro (e no presente). Uma das minhas sugestões para pesquisa futura prende-se no facto de que se faça uma análise mais aprofundada, mas, fundamentalmente, que essa análise recaia sobre um maior número de líderes analisados. Embora toda esta pesquisa tenha denotada uma clara ligação entre o bom uso da linguagem não verbal e o alcançar de poder social derivado da primeira, existe ainda um vasto campo de investigação possível delineado em encontrar as caraterísticas definidoras do porquê de alguém se tornar um líder, enquanto outra pessoa não. Verguei-me sobre o ponto de vista geral em relação à linguagem não verbal patente num líder: o movimento, o espaço, as expressões faciais, o tom de voz e a postura; mas por vezes há várias pessoas que são treinadas dentro desta área, respeitando as "regras de conduta" desta arte, mas mesmo assim, apenas alguns são vistos como pessoas capazes de ser líderes, como pessoas poderosas. Enquanto a minha análise se centrou num ponto de vista mais abrangente acerca das caraterísticas gerais definidoras de um líder, e a linguagem não verbal a ser demonstrada empiricamente na análise dos três líderes escolhidos, existe a necessidade de uma investigação que não se centre em apenas três pessoas, mas sim num número muito maior. Creio haver muito espaço para que se faça uma investigação da liderança nos mais diferentes campos (empresarial, política, organizacional) de um ponto de vista mundial, sendo que aquilo que seria "extraído" numa análise desta magnitude (encontrando os pontos comuns entre todos, nas mais diversas culturas, com diferentes línguas, com distintos ambientes circundantes), seria um "concentrado" fantástico, um produto final que seria uma espécie de "elo" baseado num número de pontos comuns entre todos, de modo a interligar e a fazer-nos entender o que levou A linguagem não verbal no exercício do poder social DISCUSSÃO 79 (e o que têm em comum todos eles) um empresário chinês a alcançar uma dada influência, um político africano a alcançar um certo estatuto, um bilionário australiano a chegar a esse patamar económico, um líder de uma tribo brasileira a ser respeitado acima de todos os outros membros, um líder de uma fundação religiosa a governar todos os outros. Esta análise requereria uma espécie de Diagrama de Venn investigacional em que, com o aumentar das pessoas visadas, dos dados analisados, teríamos uma perceção muito mais próxima da verdade sobre como a linguagem não verbal pode impactar radicalmente a vida de qualquer um de nós, estando mais próximos de criar um mapa de uma boa utilização (e perceção do uso por parte de outros), tornando-nos melhores individualmente, mais "ligados" enquanto sociedade, e mais capazes de discernir a propaganda e a manipulação. CAPÍTULO 6 CONCLUSÃO A linguagem não verbal no exercício do poder social CONCLUSÃO 81 6.1. Recapitulação dos objetivos e resultados Esta dissertação tinha como principal foco o objetivo de cimentar de forma ainda mais concreta a ligação entre a linguagem não verbal e o poder social. Com isto, espero ter trazido, de modo mais prático, uma visão alargada de todos os "braços" deste tipo de linguagem e como estes podem auxiliar e até criar, quando utilizados conjuntamente, um "pacote" único e especial, alguém que com estas práticas inerentes à sua presença em público, consegue, de certo modo, ser respeitado, passar uma imagem positiva, controlar-se e controlar. Inicialmente, centrei-me um pouco sobre uma análise mais teórica, para que existisse uma perceção alargada daquilo que são as inúmeras tipologias de possibilidades de linguagem não verbal, de que maneira são condicionadas dado o status, o ambiente e a cultura em que estão inseridos, passando ainda por uma apresentação de quais os signos que nos fazem denotar uma mentira, e também que práticas nos fazem emanar concórdia, sobressalto, poder ou simpatia. Tudo isto e todas as passagens pelo estudo dos mais variados autores e teorias fez-me entender muito melhor a riqueza desta temática, as inúmeras variantes que podem existir dentro do mesmo segmento, e de que modo cada autor foi acrescentando um bocadinho de si à teoria já existente, havendo uma complementaridade enorme que nos encaminhou para o entendimento tão amplo (mas em contínuo progresso) que detemos nos dias de hoje. Com esta perceção mais alargada daquilo que são os distintos tópicos passíveis de serem analisados dentro desta área temática, "linguagem não verbal", pude estabelecer uma compilação, uma filosofia de análise mais própria, que variará sempre consoante o apreender de informação e as vivências do analista. Com isto, propus-me a tentar definir de modo mais prático e independente, naquilo que é uma situação em que um líder (alguém que arrecadou um certo poder social) está a agir em público, quais os signos, controlados e inconscientes, que podemos ver caraterizados num certo ator político. Creio que esta análise é mais uma forma de expor publicamente a importância da linguagem não verbal no entendimento das massas sobre em quem devem confiar, e na sua perceção da verdade/mentira num discurso (e de que modo os líderes trabalham em prol de passar a melhor imagem possível). A linguagem não verbal no exercício do poder social CONCLUSÃO 82 Neste âmbito, a análise empírica versou-se sobre aquilo que foi transmitido por três líderes políticos a nível corporal, facial e tom de voz, criando um "filtro" para a informação que está a ser vista, interpretando-o, e muitas vezes, trazendo à baila certas verdades escondidas, manipulações possíveis e mentiras que de outro modo ficariam encriptadas. Esta análise mais prática, de três atores políticos conhecidos pela generalidade das pessoas, em formato de vídeo, serve para criar mais um auxílio apelativo à informação de que a linguagem não verbal é importante e, muitas vezes, decisiva. O meu objetivo final foi tentar "alimentar" um pouco mais esta visão, tentar dar um pequeno contributo à perceção geral da importância da mensagem não verbal para o nosso dia a dia, tentando apelar a que mais pessoas se juntem a este entendimento e que se crie uma consciência generalizada da força deste tipo de comunicação. A linguagem não verbal no exercício do poder social CONCLUSÃO 83 6.2. Contribuições para a área da comunicação política e social Dentro do segmento comunicacional, creio que este trabalho tem a capacidade fundamental de ajudar a aumentar a perceção já existente da importância da linguagem não verbal para todos, tanto na interpretação como na sua utilização. É mais uma ferramenta passível de ser utilizada para conseguir percecionar aquilo que pode ser alterado no nosso dia a dia com este auxílio, e de que modo os nossos líderes nos poderão (ou não) manipular, com o auxílio desta força. Do mesmo modo que nos consegue fazer entender aquilo que os outros nos conseguirão fazer (de modo social) com o auxílio desta ferramenta poderosa, esta dissertação serve também o propósito de conseguirmos, de certo modo, discernir certas medidas eficazes que são utilizadas pelos políticos, e que podemos adaptar ao nosso dia a dia de modo eficiente. Certos mecanismos corporais de resposta, certas posturas específicas, o tom de voz adequado, e todas as outras caraterísticas moldáveis apresentadas ao longo da dissertação, podem-nos trazer uma eficácia discursiva diferente, e resultados, consequentemente, distintos. Todo este estudo apresentado, quando estudado e aplicado, tem potencial para auxiliar alguém a entender quais os pontos que fazem um comunicador mais poderoso, auxiliando o leitor a traçar o perfil combinatório de um líder, e até de se tentar aprouver daquilo que é lido, de modo a ser visto e entendido de uma forma diferente, e mais conectado a quem realmente é/quer ser. A minha dissertação, analisando as caraterísticas não verbais que melhoram a força de um comunicador e a credibilidade de um líder, pode até servir de apoio a uma análise mais aprofundada no âmbito do marketing e da comunicação institucional. Ao haver uma perceção de como entendem as pessoas, subconscientemente, um certo sinal não verbal, ou o que é realmente transmitido aquando de uma determinada postura, empresas podem utilizar todas essas ferramentas para passar uma imagem diferente, tanto na publicidade, como no marketing, como ainda no âmbito das relações-públicas (incluindo a conexão pessoal entre pessoas da organização com pessoal externo e interno). No âmbito académico creio que é um trabalho que reflete de uma maneira interessante um ponto de vista relacional entre linguagem e poder social, tendo esta A linguagem não verbal no exercício do poder social CONCLUSÃO 84 análise uma função de auxiliar (em conjunto com o enorme trabalho feito nesta área) a perceção moral e ética da linguagem não verbal, podendo ser "uma pequena faísca" para a criação de uma discussão mais ampla acerca daquilo que deve ser considerada a boa utilização da linguagem não verbal, e até onde vai aquilo que é o bom usufruto desta, sem que esta passe para aquilo que é considerado já como manipulação. Neste âmbito, este trabalho surge inserido numa coletiva de informação que zela pelo melhoramento pessoal e social, tentando ajudar a criar uma consciência coletiva deste poder inerente à comunicação, para que se cultive uma tradição de discussão de problemas éticos, tanto no dia a dia político e organizacional, como em possíveis estudos e trabalhos académicos futuros. A linguagem não verbal no exercício do poder social CONCLUSÃO 85 6.3. Implicações para a sociedade e para a democracia Para concluir, creio que o foco primário desta dissertação foi alcançado, ao permitir a discussão sobre a direta implicação da linguagem não verbal no modo como entendemos e escolhemos os nossos líderes (e como estes o utilizam). Ao nos apercebermos que existe toda uma coletânea de recursos disponíveis nesta área, a sua boa utilização e interpretação pode ser de importância suprema para a manutenção de uma sociedade democrática, livre e de excelência. Se conseguirmos dispor todas as pessoas de um entendimento acerca do potencial deste recurso, através de comentadores televisivos, da comunicação social escrita e de ensino, denotaremos que as pessoas ficarão imbuídas com um espírito crítico maior, uma opinião mais consistente, uma perceção mais próxima da realidade, resultando num maior acerto nas escolhas sociais e ao nível do entendimento mais concreto de quem é realmente uma certa pessoa. Todo este novo patamar de perceção, de entendimento e de, consequentemente, melhores escolhas, trará um "ar fresco" à realidade social, resultando em pessoas mais capazes de tomar decisões informadas, e de daí, criar sociedades e relações mais bem conseguidas. Ao dispormos as pessoas com recursos deste potencial (um entendimento sobre os 70% de comunicação que anteriormente desconheciam completamente), o que estamos a fazer é a nutrir cada unidade individual de uma melhoria sobre si e sobre o entendimento para com os outros. Se conseguirmos criar uma "onda" de educação positiva sobre todas estas unidades individuais, todas elas vão crescer em termos de qualidade de pensamento e entendimento, criando ligações superiores entre elas e gerando um resultado, um fluxo comum poderoso sobre todas estas unidades, uma união gigantesca que trará toda a comunidade para um pedestal distinto de onde se encontra neste momento, pedestal esse que fará que esta "massa social" seja mais instruída, mais discernente, mais capaz, mais consciente da manipulação e falta de ética, mais poderosa. E é com esta melhoria individual derivada da educação que se gera uma melhoria coletiva, melhoria essa que será cada vez mais acessível de se gerar a si mesma, algo exponencial, e que fará as sociedades serem lideradas e "entregarem o poder" a alguém mais próximo e caridoso com elas, alguém menos manipulativo e que, para liderar, terá de ser justo, bom e verdadeiro. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 87 Atkinson, M. (1984). Our Master's Leaders. Londres: Methuen & Co. Ltd. Beeman, W. O. (1986). Language, status and power in Iran. Bloomington: Indiana University Press. Beeman, W. O. (2012). Philosophy of linguistics. Amsterdam: Elsevier Science. Birdwhistell, R. (1970). Kinesics and context. Philadelphia: University of Pennsylvania Press. Bonnell, V. E. (1998). Iconography of power: Soviet political posters under Lenin and Stalin (Vol. 27). Berkeley: University of California Press. Darwin, C. (1872). A Expressão das emoções no homem e nos animais. Londres: Penguin Books Limited. Ekman, P., & Rosenberg, E. L. (1998). What the face reveals. Oxónia: Oxford University Press, USA. Ekman, P. (2003). Emotions revealed: Recognizing faces and feelings to improve communication and emotional life. Nova Iorque: Henry Holt and Company. Farooqi, R. (2021). Unit-2 contributions to early modern psychology: Hermann Helmholtz, Gustav Fechner, Wilhelm Wundt, William James. egyankosh.ac.in//handle/123456789/72472 Fechner, G. (1860). Elemente der Psychophysik. Lausanne: Universidade de Lausanne. Golovanova, I. (2022). Zelensky ensina como tornar comunicação remota clara e memorável. https://www.linkedin.com/pulse/zelensky-ensina-como-tornarcomunica%C3%A7%C3%A3o-remota-clara-e-golovanova/?originalSubdomain=pt