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Assédio sexual em Hollywood: comentários às notícias em Portugal

Gonçalves, Ana Sofia Pereira

Abstract

Este estudo debruça-se sobre as notícias do assédio sexual em Hollywood, pretendendo-se compreender as perspetivas dos portugueses sobre este acontecimento, bem como eventuais discursos sobre o assédio sexual em geral. Os objetivos foram compreender os argumentos utilizados para desculpar/culpabilizar o ofensor e/ ou a vítima e avaliar um eventual posicionamento diferenciado entre mulheres e homens. Assim, foram recolhidas 31 notícias do jornal Público resultando em 218 comentários extraídos da página de Facebook deste. Os dados foram analisados através de uma Análise Temática indutiva permitindo identificar dois Temas: “O Discurso da Masculinidade Hegemónica” com dois subtemas, “Culpando as Vítimas de Assédio Sexual no Geral” e “Culpando as Vítimas de Hollywood: os Benefícios do Assédio Sexual e a Denúncia Tardia” e o Tema “Desconstruindo a Masculinidade Hegemónica” também com dois subtemas “Culpando o Assediador e Defendendo a Vítima” e “Todos Sabiam e Ninguém Fez Nada: Cumplicidade em Hollywood”. Os resultados evidenciaram um maior número de comentários de homens no Tema “O Discurso da Masculinidade Hegemónica” e de mulheres no Tema “Desconstruindo a Masculinidade Hegemónica”. Este trabalho revela ainda uma maior frequência de comentários por parte dos homens e, tanto eles como mulheres, dividem-se entre culpar/defender a vítima e o ofensor.

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Universidade do Minho Escola de Psicologia Ana Sofia Pereira Gonçalves Assédio Sexual em Hollywood: Comentários às notícias em Portugal junho de 2019 UMinho | 2019 Ana Gonçalves Assédio Sexual em Hollywood: Comentários às notícias em Portugal Dissertação de Mestrado Mestrado Integrado em Psicologia Psicologia da Justiça Trabalho realizado sob a orientação da Professora Doutora Luisa Saavedra Universidade do Minho Escola de Psicologia junho de 2019 Ana Sofia Pereira Gonçalves Assédio Sexual em Hollywood: Comentários às notícias em Portugal iii Agradecimentos À Professora Doutora Luísa Saavedra por toda a compreensão, disponibilidade, atenção e ajuda ao longo destes meses. Obrigada por todos os ensinamentos e por toda a preocupação! Aos meus pais por toda a dedicação, por todo o carinho, por todos os esforços que fizeram para me dar sempre o melhor e por toda a paciência que me pediram para ter. Valeu a pena! Obrigada, mãe, por seres sempre o meu ombro amigo e me teres acalmado tantas vezes. E, obrigada também a ti, pai. Ao final de 5 anos, finalmente, compreendeste que o meu curso é Psicologia e não Criminologia. Desculpa, mas não vou para a PJ, pai. Quem sabe, ainda vou trabalhar contigo para os camiões. Ao Miguel por todos os chocolates naqueles dias difíceis, mas sobretudo obrigada pelo apoio, pela paciência e por todo o amor que tiveste nos dias em que mais ninguém me podia aturar e por toda a ajuda nas partes técnicas apesar de todas as discórdias e picardias. Obrigada à Stephanie e à minha Rita por me perturbarem tantas vezes e me terem levado a tanta procrastinação. Sem vocês… teria feito tudo mais rápido, mas já está feito! Por último, um muito obrigada a minha eterna equipa de estágio que apesar de não terem contribuindo para a realização desta tese, contribuíram, e muito, para a minha felicidade e sanidade mental. Obrigada pelo vosso apoio. Vocês são os melhores! - “Not easy, but always worth it!” v Assédio Sexual em Hollywood: Comentários às Notícias em Portugal Resumo Este estudo debruça-se sobre as notícias do assédio sexual em Hollywood, pretendendose compreender as perspetivas dos portugueses sobre este acontecimento, bem como eventuais discursos sobre o assédio sexual em geral. Os objetivos foram compreender os argumentos utilizados para desculpar/culpabilizar o ofensor e/ ou a vítima e avaliar um eventual posicionamento diferenciado entre mulheres e homens. Assim, foram recolhidas 31 notícias do jornal Público resultando em 218 comentários extraídos da página de Facebook deste. Os dados foram analisados através de uma Análise Temática indutiva permitindo identificar dois Temas: “O Discurso da Masculinidade Hegemónica” com dois subtemas, “Culpando as Vítimas de Assédio Sexual no Geral” e “Culpando as Vítimas de Hollywood: os Benefícios do Assédio Sexual e a Denúncia Tardia” e o Tema “Desconstruindo a Masculinidade Hegemónica” também com dois subtemas “Culpando o Assediador e Defendendo a Vítima” e “Todos Sabiam e Ninguém Fez Nada: Cumplicidade em Hollywood”. Os resultados evidenciaram um maior número de comentários de homens no Tema “O Discurso da Masculinidade Hegemónica” e de mulheres no Tema “Desconstruindo a Masculinidade Hegemónica”. Este trabalho revela ainda uma maior frequência de comentários por parte dos homens e, tanto eles como mulheres, dividemse entre culpar/defender a vítima e o ofensor. Palavras-chave: Assédio sexual, denúncia, Hollywood, masculinidade, poder vi Sexual Harassment in Hollywood: Comments to the News in Portugal Abstract This study focuses on the news about sexual harassment in Hollywood and intends to understand the perspectives of portuguese people about this event, as well as, possible discourses on sexual harassment in general. The objectives were to understand the arguments used to apologize/blame the ofender and/or the victim and to evaluate a possible differentiated positioning of women and men about this phenomenon. Therefore, 31 news from the newspaper Público were collected resulting in 218 comments extracted from it´s Facebook page. The data was analyzed through an inductive thematic analysis allowing to identify two Themes: "The Discourse of Hegemonic Masculinity" with two sub-themes, "Blaming the Victims of Sexual Harassment in General" and "Blaming the Victims of Hollywood" and the Theme "Deconstructing Hegemonic Masculinity" also with two sub-themes "Blaming the Harasser and Defending the Victim" and "Everyone Knew and Nobody Did Something: Complicity in Hollywood". The results showed a greater number of comments from men in the Theme "The Discourse of Hegemonic Masculinity" and of women in the Theme "Deconstructing Hegemonic Masculinity". This study also reveals a higher frequency of comments of men and, both men and women, are divide between blaming and defending the victim and the offender. Keywords: complaint, Hollywood, masculinity, power, sexual harassment vii Índice Direitos de Autor e Condições de Utilização do Trabalho por Terceiros ..................... ii Agradecimentos .............................................................................................................................. iii Declaração de Integridade ........................................................................................................... iv Resumo ................................................................................................................................................. v Abstract ............................................................................................................................................... vi Introdução ........................................................................................................................................... 8 O assédio sexual: Visão legal e científica .................................................................................. 8 Explicando o assédio sexual masculino ................................................................................. 10 Denunciar ou não denunciar o assédio sexual .................................................................... 12 Metodologia ..................................................................................................................................... 14 Corpus de análise ........................................................................................................................... 14 Recolha de dados ........................................................................................................................... 14 Análise de dados............................................................................................................................. 15 Resultados ........................................................................................................................................ 15 Apresentação dos Temas ............................................................................................................ 15 Análise dos comentários em função do sexo ...................................................................... 19 Discussão .......................................................................................................................................... 20 Tema “O Discurso da Masculinidade Hegemónica”: predominância de comentários de homens ....................................................................................................................................................... 20 Tema “Desconstrução da Masculinidade Hegemónica”: predominância de comentários de mulheres .......................................................................................................................... 22 Conclusão ......................................................................................................................................... 24 Referências ...................................................................................................................................... 26 Anexos .............................................................................................................................................. 29 Anexo AParecer do Conselho de Ética .............................................................................. 30 Assédio Sexual em Hollywood: Comentários às notícias em Portugal 14 sobre os pressupostos que estão na base do assédio sexual possibilitando, desejavelmente, a prevenção e intervenção nesta área. Assim, os objetivos deste estudo são: a) identificar os argumentos utilizados para defender ou atacar o alegado ofensor e as vítimas, (b) analisar se existem discursos gerais sobre o assédio sexual de mulheres gerados por estas notícias e (c) identificar e comparar diferenças entre os comentários realizados por homens e mulheres. Metodologia Corpus de Análise Neste estudo, foram encontradas 31 notícias referentes ao escândalo do assédio sexual das atrizes de Hollywood no período entre 1 de outubro e 30 de novembro de 2017, resultando em 230 comentários a estas mesmas notícias. Contudo, devido a critérios de exclusão, 12 comentários foram excluídos ficando o corpus de análise circunscrito a 218 comentários. Cerca de 63% dos comentários são de homens, o equivalente a 138 comentários, e 37% são de mulheres (80 comentários). Recolha de Dados No que diz respeito aos jornais, estes foram selecionados com base na sua representação da população. O jornal Público é destinado a uma classe da população considerada alta ou média-alta. Por sua vez, o Correio da Manhã é destinado a uma classe média-baixa acabando por ser um jornal mais sensacionalista (Machado e Santos, 2009; Saavedra et al., 2017). Inicialmente a recolha de dados centrou-se nos websites dos jornais Público e Correio da Manhã recorrendo às palavras-chave “assédio sexual”, “assédio sexual em Hollywood”, “Hollywood”, “atrizes”, “assédio e atrizes”. Constatando a inexistência de comentários nos websites, passámos para a página de Facebook dos mesmos. Aí verificámos a existência das mesmas notícias, bem como comentários às mesmas, mas apenas no Jornal Público. Na página de Facebook do jornal Correio da Manhã, apesar de existirem as notícias sobre o escândalo do assédio sexual em Hollywood, não existiam comentários. Assim, os dados foram unicamente recolhidos na página de Facebook do jornal Público. Assédio Sexual em Hollywood: Comentários às notícias em Portugal 15 Apenas foram extraídos comentários de utilizadores com fotografia de perfil identificável e coerente com o sexo indicado no seu perfil. O presente estudo foi previamente submetido a apreciação do Conselho de ÉticaCiências Sociais e Humanas tendo recebido um parecer positivo (ver Anexo A). Análise de Dados Para analisar os comentários, recorremos ao método da Análise Temática que nos permite identificar e analisar padrões dentro dos dados, ou seja, temas/assuntos que se vão repetindo ao longo dos vários comentários refletindo os vários discursos difundidos na sociedade (Braun e Clarke, 2006; Saavedra et al., 2017). Dentro desta metodologia, enveredamos por uma abordagem indutiva que parte do material existente sem qualquer tema ou categoria previamente definidas (Braun e Clarke, 2006). Pretende-se com esta análise, não apenas identificar e enumerar temas, mas também interpretar quais as ideias e pressupostos sobrejacentes aos comentários realizados, ou seja, uma análise latente (Braun e Clarke, 2006). Resultados Para responder aos objetivos deste estudo, os resultados serão apresentados em duas partes. Em primeiro lugar, serão explicados os conteúdos dos temas resultantes da Análise Temática (Braun e Clarke, 2006), bem como excertos ilustrativos dos mesmos (ver Tabela 1). E, em segundo, será apresentada a percentagem de cada um destes temas em função do sexo das pessoas que emitiram os comentários (ver Gráfico 1). Apresentação dos Temas No que diz respeito à primeira parte dos resultados, a Análise Temática permitiu organizá-los em 2 temas sendo que estes subdividiram-se em dois subtemas cada. Posto isto, temos: Tema 1: O Discurso da Masculinidade Hegemónica 1.1: Culpando as Vítimas de Assédio Sexual no Geral 1.2: Culpando as Vítimas de Hollywood: os Benefícios do Assédio Sexual e a Denúncia Tardia Tema 2: Desconstruindo a Masculinidade Hegemónica Assédio Sexual em Hollywood: Comentários às notícias em Portugal 16 2.1: Culpando o Assediador e Defendendo a Vítima 2. 2: Todos Sabiam e Ninguém Fez Nada: Cumplicidade em Hollywood No primeiro Tema, intitulado “O Discurso da Masculinidade Hegemónica”, os comentários legitimam os atos do assediador, quer de uma forma geral (primeiro subtema), quer os assediadores de Hollywood (segundo subtema) reafirmando assim o poder masculino e denegrindo a mulher e o feminino (Connell, 1987; McLean, 1995). A subdivisão deste tema deveu-se ao facto de os comentários se centrarem ora no assédio em geral, ora no tema das notícias propriamente ditas, ou seja, no assédio sexual em Hollywood. Assim, no primeiro subtema, “Culpando as Vítimas de Assédio Sexual no Geral”, os comentários não parecem defenderem o assediador, mas focam-se sobretudo na culpabilização das vítimas de assédio sexual sem se centrarem em Hollywood. No segundo subtema, “Culpando as Vítimas de Hollywood: os Benefícios do Assédio Sexual e a Denúncia Tardia”, os comentários questionam os anos que as atrizes demoraram a denunciar o assédio. Deixam claro a culpa das vítimas por terem beneficiado da situação, uma vez que Harvey Weinstein, produtor cinematográfico de quem as vítimas alegam terem sido vítimas de assédio sexual, era uma pessoa influente no mundo de Hollywood, capaz de contribuir para a celebridade das vítimas. No segundo tema, “Desconstruindo a Masculinidade Hegemónica” são refutados os discursos que desculpabilizam o assediador e naturalizam o assédio. Há como que uma desconstrução do primeiro tema e estes comentários surgem, em geral, na sequência de comentários que se enquadram nos dois primeiros subtemas. Deste modo, no subtema “Culpando o Assediador e Defendendo a Vítima”, os comentários vão no sentido de explicar que o assédio é difícil de provar, que não é algo que deve ser naturalizado, que é sempre crime, que a sexualidade dos homens não deve ser apresentada como incontrolável e que as vítimas sentem dificuldades em expor a situação porque as suas queixas levantam, por norma, muita desconfiança por parte do sistema de justiça e da opinião pública. No subtema, “Todos Sabiam e Ninguém Fez Nada: Cumplicidade em Hollywood”, os comentários acusam as pessoas do mundo do cinema, denunciando o assédio como algo que ocorre há muitos anos em Hollywood. Culpabilizam aqueles atores e realizadores que tendo consciência do que se passava no que diz respeito ao produtor Harvey Weinstein, Assédio Sexual em Hollywood: Comentários às notícias em Portugal 17 nada fizeram para mudar a situação. Estes comentários acabam por denunciar os homens que se tornaram cúmplices do assediador. De seguida (tabela 1), serão apresentados os excertos que explicitam os temas supramencionados. Tabela 1. Temas e Subtemas: excertos ilustrativos dos comentários. Tema Exemplo de comentário 1) O Discurso da Masculinidade Hegemónica 1.1) Culpando as Vítimas de Assédio no Geral Mulher: "Algumas andam quase nuas e depois queixam-se de assédio"; Homem: “Muitas põem-se a jeito ao pé dos poderosos na expectativa de treparem na vida, são as promoções pelas vias urinárias, quando não dá certo foram assediadas.”; Mulher: “Hoje em dia as mulheres não se respeitam a elas próprias vestem -se de forma a provocar”; Homem: “Não entendo queixinhas de assédio sexual, sinceramente. Se não é uma violação, se não foi à bruta, a mulher só não parou o assédio na hora porque não quis, ou porque tem a mente fraca e isso não vamos ser nós homens a resolver.”; Homem: “Muitas tem o que querem, porque para subir na vida vendem a alma ao diabo. Se te poes a jeito não te podes queixar!”. 1) O Discurso da Masculinidade Hegemónica 1.2) Culpando as Vítimas de Hollywood: os Benefícios e a Denuncia Tardia Homem: “Porque não o denunciaram na hora??? Ou com tanta ambição de uma grande carreira foram seduzidas pelo poder...”; Mulher: "Enquanto foi para subir na carreira ninguém se queixou infelizmente."; Homem: “É provável que a senhora tenha obtido dividendos por favores, ou que tenha sido alvo de violação, de facto, e que tenha obtido benefícios sociais, económicos e de carreira, por compensação...”; Assédio Sexual em Hollywood: Comentários às notícias em Portugal 18 Mulher: “As mulheres sabiam ao que iam... Tudo leva a crer... Agora pedem indemnizações.”; Homem: “Eu penso que o homem é superior à mulher e por isso não sei qual é o mal desta notícia. Ainda por cima ainda lhes dava emprego e tudo e acho que ganhavam bem por fazerem os filmes daquele hollywood. Se não lhes desse emprego achava mal, mas assim tudo bem”; 2)Desconstruindo a Masculinidade Hegemónica 2.1) Culpando o Assediador e Defendendo a Vítima Mulher: "Em 1° lugar, assédio sexual é uma das coisas mais difíceis de provar no mundo. Em 2° lugar existiram muitas queixas ao longo de 20 anos, mas essas mulheres eram logo rotuladas de mentirosas ou interesseiras, tanto pela imprensa com pela opinião pública, passavam rapidamente atrizes de categoria B ou nem eram contratadas."; Homem: Esta mania que as mulheres "já deviam saber" que os homens são uns "pobres coitados que apenas seguem a sua natureza" nunca mais acaba. O sexismo afeta todos!”; Mulher: “As mulheres (e homens) tem o direito de se vestir como quiserem, faz parte da democracia o direito a escolha, mas a nossa pessoa e inviolável, ie, por muito exposta a mesma esteja, ninguém tem o direito de lhe tocar, assediar, violar tendo como pretexto que ela estava a pedi las, essa e a desculpa dos tarados q de outro modo, não conseguem arranjar mulher... Isso e crime!!!”; Homem: “Provavelmente não denunciaram antes por causa de indivíduos que mais rápido as acusam a elas do que ao homem que cometeu o crime.”; Mulher: “Assédio é SEMPRE crime, mesmo que estejas toda nua só com um véu. Isto de estar sempre a arranjar desculpas para este tipo de coisa já cansa.”. 2)Desconstruindo a Masculinidade Hegemónica Mulher: "Agora é que dizem? As vítimas compreendo, mas os colegas? Torna-vos cúmplices."; Assédio Sexual em Hollywood: Comentários às notícias em Portugal 19 2.2) Todos Sabiam e Ninguém Fez Nada: Cumplicidade em Hollywood Mulher: “Disto é o que não falta em Hollywood, infelizmente para ele, veio a público, e agora estão todos muito surpreendidos e desiludidos como se não soubessem”; Homem: “Agora todos sabem qualquer coisa, mas todos pactuaram e conviveram com a situação omitindo quando lhes convinha”; Homem: “Claro que para ser predador sexual você tem acima de tudo de ser pobre, porque se for rico então há sempre alguém a defendê-los”. Análise dos comentários em função do sexo Tendo em conta que um dos objetivos deste estudo era compreender se havia diferenças na forma como ambos os sexos comentavam este tema, decidiu-se fazer uma análise das percentagens dos temas em função do sexo que se apresentam no gráfico 1. Gráfico 1. Número de Comentários por Sexo em cada Tema e Subtema. Uma primeira análise permitiu concluir que o assunto destas notícias parece motivar mais homens (N= 138) a emitir comentários sobre o tema do que mulheres (N= 80). Assédio Sexual em Hollywood: Comentários às notícias em Portugal 20 Para além disso, o tema que atrai um maior número de comentários de homens é o Tema “O Discurso da Masculinidade Hegemónica”. Ademais, se passarmos para a análise dos seus subtemas verificamos um padrão oposto em ambos os sexos. Os homens emitem mais comentários no subtema “Culpando a Vítima de Assédio no Geral”, enquanto que a maioria de comentários de mulheres é no subtema “Culpando as Vítimas de Hollywood: os Benefícios do Assédio e a Denúncia Tardia”. Por sua vez, no Tema “Desconstruindo a Masculinidade Hegemónica”, a maioria de comentários é de mulheres. Além disso, analisando os respetivos subtemas, as mulheres tecem mais comentários no subtema “Culpando o Assediador e Defendendo a Vítima”, o que indica um maior esclarecimento das leitoras sobre a questão do assédio e das dificuldades que existem em denunciá-lo. Já no subtema “Todos Sabiam e Ninguém Fez Nada: Cumplicidade em Hollywood”, há um maior número de comentários de homens, o que parece demonstrar maior consciência e indignação com a corrupção neste meio por parte dos colegas que compactuaram com o assediador. Discussão Esta discussão pretende analisar os resultados à luz da teoria integrando-os com os objetivos deste estudo. Assim, analisaremos os temas de modo a compreender que argumentos são utilizados para defender ou acusar a vítima e o assediador relacionandoos com a parte qualitativa deste estudo, ou seja, com quem profere estes comentários. Posto isto, damos início à análise abordando os temas e subtemas, fazendo também referência às percentagens de comentários por sexo em cada um destes. Tema “O Discurso da Masculinidade Hegemónica”: predominância de comentários de homens No Tema “O Discurso da Masculinidade Hegemónica”, os leitores argumentam por forma a legitimar o assédio sexual de mulheres focando-se na culpabilização das mulheres. Neste tema, quem mais tece comentários são os homens. No subtema “Culpando as Vítimas de Assédio Sexual no Geral”, os discursos acerca da culpabilização da vítima baseiam-se no facto de estas se vestirem de modo provocatório e de quererem subir na carreira pelo método mais fácil que será ter relações Assédio Sexual em Hollywood: Comentários às notícias em Portugal 21 sexuais com um superior hierárquico. A partir disso, os abusadores são desculpados com base numa sexualidade incontrolável. Estes discursos são representativos dos tradicionais papéis de género que definem não só aquilo que a mulher deve, ou não, ser e fazer (Dias, 2008; Sottomayor, 2015), mas definem também a superioridade masculina e as regalias associados ao poder que esta superioridade confere aos homens (Berdahl, 2007; Uggen & Blackstone, 2004; McLaughlin, Uggen & Blackstone, 2012; Sottomayor, 2015). Assim, um homem numa posição de poder pode cometer assédio sexual com suas as subordinadas, pois são elas que o procuram em virtude de obterem mais e melhores oportunidades de emprego (Dias, 2008). Neste subtema, também a maioria de comentários são de homens, ou seja, mais homens culpam as mulheres pelo assédio sexual por parte dos homens. Como sabemos, a masculinidade é mantida através dos discursos de masculinidade que os homens têm nas suas interações (Bird, 1996), afirmando a solidariedade entre eles. Desta forma, os homens reafirmam entre eles o conceito de que a identidade masculina assenta em serem diferentes e melhores do que as mulheres e vão solidificando as normas da masculinidade entre as quais, a objetificação da mulher (Bird, 1996; Dias, 2008). Assim, os homens podem sentir-se mais motivados para tecer comentários neste tema como forma de promoção das normas da masculinidade, numa espécie de propaganda de género e de solidariedade entre eles. Relativamente ao subtema “Culpando as Vítimas de Hollywood: os Benefícios do Assédio Sexual e a Denúncia Tardia”, os argumentos usados pelos leitores alegam a legitimidade dos comportamentos de assédio do produtor Harvey Weinstein devido ao seu sucesso profissional e devido ao facto de as vítimas terem beneficiado disto profissionalmente. Este tema enquadra-se no que em Portugal é descrito como assédio sexual no Código do Trabalho, pois insere-se não só no mundo de trabalho devido à troca de favores sexuais por papéis no mundo do cinema, mas também na retaliação daquelas mulheres que não se silenciaram face ao assédio (Sottomayor, 2015). Além disso, o assediador é uma figura de poder que ocupa na hierarquia um estatuto superior às atrizes, estando as suas contratações dependentes deste. Revela-se, portanto, uma objetificação da figura feminina por parte de um homem numa posição de poder incontestada (Berdahl, 2007; Bird, 1996; Dias, 2008; Sottomayor, 2015) que se encontrava motivado para competir e usar o seu poder e estatuto (Berdahl, 2007; Sottomayor, 2015). Assédio Sexual em Hollywood: Comentários às notícias em Portugal 22 Tal como supramencionado, os leitores culpam as atrizes vítimas de assédio focando-se no facto de estas terem denunciado tardiamente, fazendo referência aos benefícios que terão surgido em virtude do assédio. Para estes leitores, os benefícios legitimam a ocorrência do assédio e a falta destes benefícios, na atualidade, está na origem da denúncia tardia. Tal como já vimos, mulheres que dependam de homens ao nível de oportunidades de emprego têm uma maior probabilidade de serem vítimas de assédio (Dias, 2008). E, homens numa posição de poder, por norma, aproveitam-se do poder e estatuto que têm para introduzir regalias, a nível laboral, pela troca de favores sexuais mantendo assim as mulheres sob o seu domínio (Berdahl, 2007; Dias, 2008; Sottomayor, 2015). Neste subtema, por oposição ao anterior, são as mulheres quem mais comentários tecem a culpabilizar as atrizes vítimas de assédio sexual. Conforme supracitado, as mulheres têm uma maior probabilidade de culparem mulheres vítimas de assédio sexual se tiverem interiorizadas as crenças acerca dos tradicionais papéis de género e se considerarem que a vítima, de algum modo, proporcionou o assédio e não o impediu (Jensen & Gutek, 1982). Tema “Desconstrução da Masculinidade Hegemónica”: predominância de comentários de mulheres No que diz respeito ao Tema “Desconstruindo a Masculinidade Hegemónica”, tal como a designação refere, trata-se de contestar os discursos da masculinidade hegemónica. Assim, os argumentos aqui utilizados refutam os argumentos utilizados no primeiro Tema, estando voltados para a defesa da vítima. Nesta Tema, por oposição ao primeiro, as mulheres são quem mais comentários tecem. Assim, no subtema “Culpando o Assediador e Defendendo a Vítima” os leitores focam-se no facto de o assédio ser sempre crime, na não naturalização do assédio e na desconstrução da ideia de que sexualidade masculina é incontrolável para desculpabilizar ou legitimar o assédio. Além disso, os leitores defendem as vítimas, enfatizando o facto de o assédio sexual ser um crime de difícil prova e com consequências graves para a vítima caso esta denuncie. Conforme supramencionado, nem sempre as vítimas se reconhecem como tendo sido vítimas de assédio sexual (Brooks & Perot, 1991; Dias, 2008; Uggen & Blackstone, 2004; Sottomayor, 2015) e temem também o advir de consequências Assédio Sexual em Hollywood: Comentários às notícias em Portugal 23 negativas após a denúncia (Brooks & Perot, 1991; Jensen e Gutek, 1982). Para além disto, o simples facto deste assédio sexual ocorrer, por norma, em privado ou sem testemunhas, torna-o um crime de difícil prova que se agrava, uma vez que só os casos de assédio sexual onde ocorre violência física é que chegam a tribunal (Dias, 2008; Sottomayor, 2015). Se aliarmos isto ao receio das consequências de denunciar, compreendemos o porquê de muitas vítimas se remeterem ao silêncio (Brooks & Perot, 1991; Jensen & Gutek, 1982). Neste subtema, também a maioria de comentários provém de leitoras mulheres e vão no sentido de refutar a naturalização e banalização do assédio. Apesar de não ser coerente com resultados de investigações anteriores (Brooks & Perot, 1991), isto pode demonstrar uma maior consciência das mulheres acerca do assédio sexual bem como uma contestação dos papéis tradicionais de género. Como sabemos de estudos anteriores, mulheres com uma maior ideologia feminista têm maior probabilidade de reconhecer os comportamentos de assédio e, deste modo, atribuir a culpa ao assediador (Holland & Cortina, 2013). Esta justificação parece ser também válida para o maior número de comentários de mulheres, em geral, neste Tema. Quanto ao último subtema “Todos Sabiam e Ninguém Fez Nada: Cumplicidade em Hollywood”, os argumentos são como que uma denúncia da corrupção que existe em Hollywood devido ao compactuar entre o produtor e os colegas da área que, tendo conhecimento da ocorrência de assédio sexual, permitiram que o mesmo continuasse remetendo-se ao silêncio. Aqui, os comentários predominantes são de homens e revelam, portanto, uma revolta para com estes colegas do produtor. Este compactuar entre os colegas e o assediador não é mais do que um ato de cumplicidade com a masculinidade hegemónica que, tal como já vimos, se caracteriza pela objetificação da mulher (Bird, 1996; Dias, 2008). Caso os colegas de Weinstein tivessem denunciado o que se passava em Hollywood, estariam a quebrar com as normas da masculinidade e seriam considerados com tendo uma masculinidade cúmplice (Connell & Messerschmidt, 2005) e traidores às normas de género. Resumidamente, os nossos resultados revelam vários aspetos importantes que, se encontram patentes na Tabela 1 e Gráfico 1, e que dizem respeito não só aos discursos encontrados nos Temas, mas também à percentagem de comentários por sexo em cada um dos dois grandes Temas. 30 ANEXO A: Parecer do Conselho de ÉticaCiências Sociais e Humanas