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Sociedade e crise(s)

Abstract

O conceito de crise é particularmente caro às Ciências Sociais. E é-o não apenas no domínio da ciência económica ou política, mas também da Sociologia, da História, da Antropologia, da Educação, da Geografia e da Comunicação. Se no campo da saúde, ela é entendida como uma perturbação momentânea, uma circunstância de anormalidade que afeta o funcionamento regular de um organismo, no campo social, para onde se transporta com o mesmo sentido, a crise também diz respeito a uma certa ideia de interrupção, de descontinuidade, de alteração – por vezes, abrupta – das condições de vida. A metáfora da crise, explica R. J. Holton, terá sido transposta para a reflexão sobre a sociedade como uma forma de perspetivar “as perceções de patologia social, de colapso social e de desorganização” (Holton, 1987, p. 504). É para o corpo social um fenómeno equivalente ao que fragiliza o corpo físico quando confrontado com a ameaça da enfermidade.

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Sociedade e crise(s) Editores Madalena Oliveira Helena Machado João Sarmento Maria do Carmo Ribeiro Os conteúdos apresentados (textos e imagens) são da exclusiva responsabilidade dos respetivos autores. © Autores / Universidade do Minho – Proibida a reprodução, no todo ou em parte, por qualquer meio, sem autorização expressa dos autores. FOTO CAPA (créditos) Sara Balonas DESIGN Tiago Rodrigues PAGINAÇÃO Ricardina Magalhães EDIÇÃO UMinho Editora LOCAL DE EDIÇÃO Braga 2020 ISBN 978-989-8974-30-3 DOI https://doi.org/10.21814/uminho.ed.21 TÍTULO Sociedade e crise(s) EDITORES Madalena Oliveira Helena Machado João Sarmento Maria do Carmo Ribeiro INSTITUTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS Sociedade e crise(s) 4SUMÁRIO Nota introdutória Os sentidos e os contextos da(s) crise(s) Madalena Oliveira, Helena Machado, João Sarmento e Maria do Carmo Ribeiro 7 1. CRISE E DINÂMICAS SOCIAIS 11 As crises sanitárias: uma perspetiva histórica Alexandra Esteves 13 O contributo da Demografia para o conhecimento e políticas de mitigação da pandemia Alice Delerue Matos e Ana Maria Nogales Vasconcelos 19 Crise, migrações e desumanização Rosa Cabecinhas 25 Crise e trabalho: interrogações em tempos de pandemia Ana Paula Marques 31 Tempo e crise: algumas reflexões em torno da sociologia do futuro Emília Araújo 39 Voltas e reviravoltas: crise e os sistemas económicos Rodrigo da Costa Dominguez 45 Vírus, robôs e o mundo em mudança: um comentário sobre crise e dinâmicas sociais Fernando Bessa Ribeiro 51 2. CRISE E TERRITÓRIOS 57 Ambiente e sociedade: será “crise” a palavra certa? Anabela Carvalho 59 Crise e cidade Flávio Nunes 67 Crise societal e turismo – o (re)caminho do global para o local Paula Remoaldo 73 Crise e território Virgínia Teles 81 5Sociedade e crise(s) Crises e proteção civil António Bento Gonçalves, António Vieira e Francisco Costa 85 3. CRISE E INOVAÇÃO 91 A emoção na comunicação de crise – aprendizagens de uma pandemia Teresa Ruão 93 Crise e transformação – um ensaio sobre os catalisadores da mudança Sara Balonas 103 Crises, tecnologias e média sociais: uma reflexão sobre os novos períodos de turbulência José Gabriel Andrade 109 As metáforas guerreiras na crise da COVID-19 Jean-Martin Rabot 115 A pandemia e a inovação: o caso da “Stay Away Covid” Ivo Domingues 123 4. CRISE E INSTITUIÇÕES 129 Crise de confiança Helena Machado 131 Crise e conspiração Joel Felizes 137 Cultura e crise Manuel Gama 143 Em defesa da universidade e em defesa da ciência Moisés de Lemos Martins 149 Crise(s) ou desafios na educação? – entrevista com Maria Emília Brederode Santos Sara Pereira 159 Nota introdutória Os sentidos e os contextos da(s) crise(s) Madalena Oliveira, Helena Machado, João Sarmento e Maria do Carmo Ribeiro Presidência do Instituto de Ciências Sociais, Universidade do Minho 8 O conceito de crise é particularmente caro às Ciências Sociais. E é-o não apenas no domínio da ciência económica ou política, mas também da Sociologia, da História, da Antropologia, da Educação, da Geografia e da Comunicação. Se no campo da saúde, ela é entendida como uma perturbação momentânea, uma circunstância de anormalidade que afeta o funcionamento regular de um organismo, no campo social, para onde se transporta com o mesmo sentido, a crise também diz respeito a uma certa ideia de interrupção, de descontinuidade, de alteração – por vezes, abrupta – das condições de vida. A metáfora da crise, explica R. J. Holton, terá sido transposta para a reflexão sobre a sociedade como uma forma de perspetivar “as perceções de patologia social, de colapso social e de desorganização” (Holton, 1987, p. 504). É para o corpo social um fenómeno equivalente ao que fragiliza o corpo físico quando confrontado com a ameaça da enfermidade. Na sua vocação compreensiva, as Ciências Sociais têm colocado a noção de crise em perspetiva em quase todas as dimensões da vida. Ao procurarem explicar as dinâmicas sociais como processos sujeitos à mudança e à transformação, estas ciências têm desenvolvido a ideia de que as crises são, não apenas momentos de disrupção dos valores instituídos, mas também pontos de viragem histórica e civilizacional. A retórica da crise, que entra no campo das Ciências Sociais pelo prisma da Economia e pelos efeitos da quebra das lógicas de produção, comercialização e consumo, assim como pela identificação de episódios de instabilidade política e de conflitos, domina todo o discurso sobre a modernidade. As definições comuns identificam o conceito de crise como sinónimo de impasse, de perturbação, como contexto de perigo ou tensão, como fase de rutura em relação a hábitos ou crenças, ou ainda como carência ou escassez. Em todas estas declinações, a abordagem da crise oferece-se ao cientista social como um problema e como um desafio. Num ensaio publicado em 1976 na revista Communications, Edgar Morin sugeria que “a noção de crise se propagou no século XX por todos os horizontes da consciência contemporânea” (Morin, 1976, p. 149). Constatava então que não havia “domínio ou problema que não estivesse assombrado pela ideia de crise: o capitalismo, a sociedade, a família, os valores, a juventude, a ciência, o direito, a civilização, a humanidade” (Morin, 1976, p. 149). Pela ciência ou pelos média, a perspetiva da crise estende-se hoje à notícia da crise ambiental, da crise dos refugiados, da crise dos sistemas de informação, da crise de confiança, da crise da cultura e do pensamento. A perceção de que toda a experiência humana está sujeita à prova da crise tem no entendimento de que as próprias Ciências Sociais (e as Humanidades) são um ramo de conhecimento que também se descobre em situação crítica, por insuficiente reconhecimento público e dificuldades de financiamento. O debate sobre a crise (ou as crises) é, portanto, um debate atual que reclama da ciência um exercício permanente de reflexão. Cientes de que o que comanda o progresso é também o que instaura paradoxalmente novas precariedades, os cientistas sociais assumem hoje a responsabilidade de analisar os fatores que desencadeiam as crises, de avaliar os seus efeitos e de propor estratégias de governabilidade que, não resolvendo em definitivo a “origem da ameaça”, recomendam a sua incorporação 9Sociedade e crise(s) como parte do processo de desenvolvimento. A problematização da crise não é um fim em si mesmo; é, antes a assunção necessária do imperativo de deslocação para diante. É por isso que as Ciências Sociais são, não apenas ciências úteis, mas também ciências emancipatórias e transformistas. Com esta convicção, reunimos neste volume um conjunto de leituras que apresentam a experiência da crise como uma experiência transversal. É esse o ponto de originalidade desta obra, que reúne contributos de vários membros da comunidade do Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho. O tema da crise tem sido apresentado na produção científica em abordagens específicas da economia, da política, do jornalismo, da educação, da cultura. Neste livro, porém, juntamos a perspetiva de diferentes disciplinas, assumindo a multiplicidade do próprio conceito de crise. Num registo breve, cada capítulo é um convite à reflexão da diversidade de experiências e problemáticas sociais da crise. Assumida em título como uma noção plural, a noção de crise(s) é aqui encarada ora como fatalidade ora como oportunidade. Todos os capítulos se afinam pela mesma nota: a de que a crise é central à análise crítica das sociedades. Os 22 ensaios que compõem este volume situam esta problemática em contextos vários: na perspetiva histórica da saúde, na demografia, na economia, na comunicação, nas instituições, no ambiente, na tecnologia, na cultura, nas migrações, nos territórios, na educação e na ciência. Como todas as obras coletivas, Sociedade e crise(s) não esconde a heterogeneidade de estilos. E pelo momento que a Humanidade atravessa neste ano de 2020, também não é indiferente à crise sanitária provocada pela COVID-19. A pandemia não era propriamente o pretexto de partida para esta coletânea. No entanto, em quase todos os textos a referência à experiência extraordinária da situação epidemiológica tornou-se inevitável. Porque nela se acentuou o sintoma de todas as outras crises a cujos efeitos não escaparão as próximas gerações. Assinalando o 44º aniversário do Instituto de Ciências Sociais, a edição deste livro tem também um propósito celebrativo e de partilha do que somos enquanto comunidade científica. Que o leitor encontre nestas páginas razão bastante para um saber inquieto que nada tem de conformista. Referências Holton, R. J. (1987). The idea of crisis in modern society. The British Journal of Sociology, 38(4), 502-520. http://www.doi.org/10.2307/590914 Morin, E. (1976). Pour une crisologie. Communications, 25, 149-163. https://www.persee.fr/doc/ comm_0588-8018_1976_num_25_1_1388 16 argumentos racionais. Subjacente a este propósito, talvez esteja o desejo de esconjurar a doença através da identificação de um bode expiatório. Por exemplo, os judeus foram considerados os causadores da peste negra, sendo invocada como prova o facto de, aparentemente, terem sido menos afetados que o resto da população pela moléstia. Não havia uma explicação racional para a sua culpabilização, mas a ignorância ditou a perseguição. Mais tarde, já no século XX, na Alemanha nazi, o discurso sanitário responsabiliza os judeus e os ciganos pela propagação do tifo e, consequentemente, são vistos como um mal que era necessário eliminar. Esta politização do discurso sanitário tem raízes antigas e acontece em contextos variados para a satisfação de interesses de toda a ordem. A doença e, em particular, as epidemias evidenciam as fragilidades inerentes à condição humana. Em várias circunstâncias históricas, foi necessário lidar com inimigos desconhecidos, sem que fossem encontradas respostas adequadas ou suficientes para os controlar e vencer. No entanto, aquando da ocorrência da peste negra e da consequente crise sanitária, foram tomadas medidas que se repetiram ao longo dos séculos e que não se limitaram aos tempos medievos: quarentenas, reforço da higiene, isolamento de infetados… Com o avanço dos séculos, os desenvolvimentos alcançados em diversas áreas não foram acompanhados por progressos sanitários. Com a aproximação e o incremento das relações entre os diferentes, o mundo globaliza-se e as doenças também! Os europeus transportam para o Novo Mundo doenças que fragilizam as populações autóctones e acabam por facilitar a sua dominação. Todavia, a sua presença em territórios asiáticos, africanos ou americanos também os expôs a novos perigos. Esta realidade tornar-se-á mais evidente a partir do século XIX com a universalização do comércio, a revolução dos transportes e uma certa “europeização” do mundo. A intensificação dos contactos entre as diferentes regiões do globo propiciará crises sanitárias nunca antes vistas desde a peste negra, o que pode parecer paradoxal, atendendo às conquistas e aos progressos entretanto conseguidos. Contudo, serão essas mesmas conquistas e progressos a contribuir para a deflagração desses flagelos. Com o crescimento da sociedade industrializada e urbanizada, “velhas” doenças, como a tuberculose, assumem tais proporções que passam a ser encaradas como problemas de saúde pública. Outras, como a cólera ou a peste bubónica, abandonam os nichos territoriais, onde eram endémicas, e atingem, sob a forma de pandemia, o Ocidente, provocando um elevado número de óbitos e a revisitação de medos. No século XIX, a dimensão das perdas humanas e materiais obrigou os países, entre eles Portugal, a investirem mais em estruturas sanitárias. Portugal sofreu os efeitos da cólera nos séculos XIX e XX e, graças sobretudo à intervenção de Ricardo Jorge, conseguiu evitar o alastramento da peste bubónica, que atingiu a cidade do Porto em 1899. No entanto, algumas das medidas então tomadas foram amplamente criticadas. Aliás, há muito que quarentenas e cordões sanitários eram contestados por serem considerados inúteis e por causarem graves prejuízos económicos. Já no século XIX, a gripe é encarada como um sério problema de saúde. Há muito conhecida, era considerada um mal que atingia os mais frágeis, particularmente os 17Sociedade e crise(s) idosos. A gripe russa, que aconteceu em 1889-1890, despertou um crescente interesse pela doença e colocou de sobreaviso a comunidade médica. Todavia, o mundo não estava preparado para aquela que é considerada a maior pandemia da contemporaneidade: a gripe espanhola. Representou, desde logo, um duro golpe num mundo assolado pela guerra, que já desconfiava da força do progresso e que não sabia como lidar com uma ameaça que alastrava rapidamente, que atacava sobretudo jovens adultos e saudáveis e para a qual a medicina não tinha solução eficaz. Apesar de se tratar de uma das pandemias mais estudadas sob diferentes perspetivas, são muitas as incertezas que ainda persistem sobre a gripe espanhola, designadamente no que concerne à sua origem. Contudo, não há dúvidas acerca do seu caráter global. Estima-se que terá provocado entre 50 a 100 milhões de óbitos e infetado 500 milhões de indivíduos. A crise sanitária vivida entre 1918 e 1920 obrigou à tomada de um conjunto de medidas, que variaram de país para país, que ditaram o encerramento de escolas, teatros, cinemas e salas de espetáculos, a imposição de quarentenas e o uso de máscara, a proibição de ajuntamentos, o isolamento e a sensibilização das pessoas para o cumprimento de regras sanitárias, mas que não impediram a propagação da enfermidade e os milhões de mortos. Afinal, as medidas de hoje não são novidade! Ultrapassada a pandemia, o mundo teve de enfrentar as suas consequências: inúmeros órfãos e viúvas; perturbações mentais dos infetados; restrição das liberdades individuais; contração e crise das economias... Sobre este último aspeto, importa evitar generalizações precipitadas, dada a multiplicidade de cenários que se seguiram. Para além das consequências políticas, económicas e sociais, os impactos na cultura e nas mentalidades não devem ser desconsiderados. Também os intelectuais foram tocados pela pandemia e pelo espectro de morte, que refletiram nas suas obras. Instalou- -se o pessimismo, a descrença na humanidade e o corpo tornou-se comunicador de sentimentos e emoções. Alterou-se, ainda, a relação do ser humano com a natureza, da qual se aproxima e utiliza como espaço para lazer. O mundo acabou por remeter a pandemia de pneumónica para o rol do esquecimento. Em 1957 e 1968, surgiram novas epidemias de gripe, provocando mais de um milhão de óbitos. Outras epidemias apareceram e marcaram o fim do século passado e os inícios do século XXI, provocando crises sanitárias mais ou menos concentradas no espaço e no tempo. Entretanto, perante a ocorrência de ameaças globais e para articular a resposta, foi criada, em 1948, a Organização Mundial de Saúde (OMS). No entanto, já existia alguma coordenação desde 1851, data da primeira Conferência Sanitária Internacional, seguida por outras, na procura de soluções concertadas para fazer face à cólera (Sobral, 2020, p. 268). As diferentes crises sanitárias que a humanidade enfrentou mostram que, para além dos momentos críticos, que podem demorar décadas ou apenas algumas semanas, as suas consequências podem ser duradouras e manifestar-se em diversas áreas. Num passado não muito longínquo, levaram os estados a aplicarem medidas repressivas e totalitárias; determinaram o fim de modelos económicos, ou contribuíram, pelo menos, para a sua antecipação; favoreceram o surgimento de comportamentos xenófobos e racistas e até a exclusão social. Mas também importa reconhecer que, em 18 contrapartida, estimularam o reforço de laços, o desenvolvimento do voluntarismo, o fortalecimento e o aparecimento de novas organizações e de novas formas de solidariedade. Por outro lado, hoje, recorre-se às respostas clássicas para as combater: montam-se hospitais provisórios ou de campanha, impõem-se cordões sanitários, encerram-se fronteiras, promove-se o reforço dos cuidados da higiene e recomenda- -se uma etiqueta sanitária. Há crises sanitárias, menos visíveis, que persistem em várias regiões do globo e que, além de serem simplesmente ignoradas, são o reflexo de um mundo marcado por profundas desigualdades e que se move a diferentes velocidades. Entretanto, no tempo presente, a humanidade foi surpreendida com uma nova pandemia (SARS- -coV-2), que não poupou os países mais desenvolvidos. Desde a gripe espanhola, nenhuma outra doença tinha provocado um abalo de tão grandes proporções à escala global. As suas consequências, em toda a sua extensão, ainda não estão contabilizadas, mas algumas já são previsíveis, como sejam o empobrecimento de largas faixas da população, o agravamento das desigualdades sociais, o aumento do desemprego, sem esquecer as suas repercussões nos planos político e ideológico. Referências Lorenz, K. (2001). A agressão. Uma história do mal. Lisboa: Relógio de Água. Quammen, D. (2020). Contágio. Uma história dos vírus que estão a mudar o mundo. Lisboa: Objetiva. Sobral, J. M. (2020). Duas pandemias: um esboço comparativo entre a “Pneumónica” 1918-19 e a Covid-19. Revista de Medicina Interna, 27(3), 264-271. https://www.spmi.pt/revista/vol27/vol27_n3_2020_264_271. pdf O contributo da Demografia para o conhecimento e políticas de mitigação da pandemia Alice Delerue Matos1 e Ana Maria Nogales Vasconcelos2 1 Professora Auxiliar do Departamento de Sociologia (Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho). ORCID: 0000-0002-2394-4077 2 Professora na Universidade de Brasília (Brasil). ORCID: 0000-0001-7589-107X 20 Os movimentos de população estiveram sempre na origem da propagação de doenças infeciosas. A peste negra, que se estima ter dizimado aproximadamente um terço da população europeia em meados do século XIV, foi disseminada por exércitos, mercadores e viajantes. Também a gripe espanhola, que se calcula ter atingido um quarto da população mundial em 1918, terá tido origem nos Estados Unidos e sido propagada em consequência das movimentações das tropas envolvidas na Primeira Guerra Mundial. A história da humanidade é rica em acontecimentos como os que acabámos de relatar e que evidenciam a relação estreita entre pandemias e população. Não surpreende, pois, que a Demografia, enquanto ciência que estuda a estrutura e dinâmica da população, se tenha interessado pelas doenças infeciosas, sua propagação e consequências. Entre 1940 e 1960 foram publicados diversos estudos de Demografia histórica que discutem o papel das epidemias na explicação da evolução da mortalidade. A partir de 1960, a atenção dos demógrafos passa a abranger também as manifestações e consequências demográficas, socioeconómicas, políticas e culturais deste tipo de flagelos (Bourdelais, 1997). Com a COVID-19, ganha acuidade a relação entre a propagação, em grande escala, de doenças infeciosas e a Demografia. Este ensaio visa precisamente debater esta relação, explicitando o contributo desta ciência para o conhecimento e definição de políticas de mitigação da pandemia. O contributo da Demografia para o conhecimento científico da pandemia A atenção dedicada pelos demógrafos à produção de informação e à avaliação da cobertura e qualidade dos dados permitiu dispor de importantes bases de dados sobre fenómenos demográficos e sociais, por um lado, e de um conhecimento aprofundado das potencialidades e limites dessa informação, por outro lado. Estas bases de dados podem alimentar numerosos estudos sobre a atual pandemia, uma vez que abrangem fenómenos relacionados com a dinâmica sociodemográfica, tais como mortalidade, morbilidade, migrações, formação das famílias e relações intergeracionais. Também as competências desenvolvidas pelos demógrafos, no que diz respeito à avaliação da qualidade da informação, constitui uma mais-valia não despiciente, no atual contexto. Com efeito, a tomada de decisão alicerçada no conhecimento científico exige informação de qualidade. A Demografia pode contribuir para a sua produção e para a adequada utilização dos dados disponíveis. Os demógrafos têm chamado a atenção, por exemplo, para a importância da adoção de critérios claros e uniformes de classificação das mortes por COVID-19. Perante a inexistência destes critérios, como comparar países que consideram apenas os óbitos por COVID-19 registados em estabelecimentos de saúde com aqueles que contabilizam também os ocorridos no domicílio? Ou, como comparar países que verificam a eventual presença do vírus SARS-CoV-2 em todos os indivíduos falecidos, com países que realizam um número restrito de testes? Tendo em conta a grande diversidade de critérios na atribuição da causa de morte por COVID-19, os demógrafos têm recomendado a utilização de outros indicadores, como o do 21Sociedade e crise(s) excesso de mortalidade face a período homólogo anterior (Marinho et al., 2020) que tem ainda a vantagem de contabilizar, para além da mortalidade direta (óbitos de indivíduos com testes positivos à COVID-19), também a mortalidade indireta da pandemia (óbitos com outras causas de morte, ocorridos devido à sobrecarga dos sistemas de saúde ou à procura tardia de cuidados médicos, por receio de infeção). A Demografia tem contribuído também para a reflexão crítica sobre o tipo de indicadores utilizados na descrição da situação sanitária dos diversos países. Neste sentido, os demógrafos têm apontado os limites das comparações com base em números absolutos e taxas brutas e proposto medidas que permitem comparações válidas. Têm denunciado, por exemplo, comparações com base no número de infetados, uma vez que este valor está intrinsecamente associado à dimensão da população e ao número de testes realizados. Têm-se demarcado também de análises comparativas que recorrem a taxas brutas, tais como o número de óbitos por mil habitantes, uma vez que estas ignoram a composição da população, ou seja, a sua distribuição por sexos, idades, estatuto socioeconómico e outras caraterísticas dos indivíduos, associadas ao risco de infeção ou de mortalidade por COVID-19. Para ultrapassar as limitações dos indicadores mencionados e comparar, de forma rigorosa, populações com composições distintas, os demógrafos desenvolveram medidas que podem ser de grande utilidade nos estudos comparativos, tais como taxas de mortalidade padronizadas. Por sua vez, as estratégias metodológicas da Demografia podem ser importantes para o conhecimento científico da pandemia permitindo, nomeadamente, realizar estimativas e projeções da população ou de grupos específicos da população, a partir de dados incompletos. Efetivamente, a Demografia desenvolveu e aplicou técnicas de estimação, em países com dados estatísticos de reduzida qualidade e insuficiente cobertura dos fenómenos demográficos, que podem ser agora utilizadas na avaliação do impacto da COVID-19 em países com sistemas estatísticos menos robustos. Os métodos e técnicas acionados pela Demografia permitem ainda distinguir os efeitos de idade, período e geração. Os efeitos da idade (relacionados com o percurso de vida) podem ser considerados de nível individual, enquanto que os efeitos de período (ou seja, de momento) e de geração (experiências coletivas ao longo da vida) podem ser considerados como efeitos de contexto (Bell & Jones, 2015). Considerar os diferentes efeitos nos riscos de morbilidade e mortalidade por COVID-19 permite compreender o facto de o vírus afetar sobremaneira as pessoas mais idosas e em situação de maior vulnerabilidade socioeconómica (efeitos de idade e período). Por outro lado, as consequências da pandemia para diferentes gerações que viveram os riscos de infeção e morte em 2020, os impactos da crise económica e as medidas de distanciamento físico impostas poderão ser alvo de estudo a partir de análises longitudinais, muito frequentes nas pesquisas demográficas. Finalmente, sem pretendermos esgotar o papel da Demografia no esforço científico de conhecimento da COVID-19, não poderíamos deixar de referir o seu contributo para 22 uma análise interdisciplinar da pandemia. Ao trabalharem na fronteira com outras disciplinas, tais como a Sociologia, a Epidemiologia, a Economia e a Geografia, os demógrafos adquiriram competências de diálogo com outras disciplinas, importantes para uma análise holística das manifestações e consequências da pandemia que afeta a morbilidade e a mortalidade, mas também o mercado de trabalho, os modelos familiares e as desigualdades socioeconómicas e de género, entre outras dimensões. O papel da Demografia na definição de políticas de mitigação da pandemia Procurámos demonstrar que os demógrafos possuem instrumentos de análise e competências que permitem um conhecimento aprofundado da pandemia. Neste tópico, apresentamos alguns dos contributos da Demografia para a definição de políticas de controle da propagação do vírus e dos seus efeitos. A identificação de grupos de risco de morbilidade e mortalidade por SARS-CoV-2 é indispensável à adoção de medidas que, para além de eficazes, sejam também eficientes. O confinamento de toda a população foi uma medida eficaz, mas com custos elevados. Atualmente, é desejável que, perante um novo aumento do número de infetados, sejam tomadas medidas que reduzam a propagação do vírus e assegurem os cuidados médicos adequados a todos quantos deles carecem, ao mesmo tempo que permitem otimizar os recursos e minimizar os custos. Este tipo de medidas exige, nomeadamente, a identificação dos grupos mais vulneráveis ao vírus e/ou que favorecem a sua propagação. Os demógrafos possuem expertise nesta matéria, tendo contribuído para identificar os indivíduos de idades mais avançadas e/ou com comorbilidades, por exemplo, como grupos mais vulneráveis à mortalidade por SARS-CoV-2. Por sua vez, a rápida propagação da doença e o risco elevado de morbilidade têm sido explicados por um grande número de contactos sociais, maior mobilidade espacial, vulnerabilidade socioeconómica e/ou residência em áreas densamente povoadas. A composição demográfica da população e as suas diferentes características socioeconómicas explicam que os países, e as regiões que os integram, não sofram os mesmos riscos face ao vírus, nem estejam sujeitos à mesma pressão em termos de assistência na doença. O conhecimento dos grupos de risco e, subsequentemente, das regiões mais vulneráveis à pandemia permite que os demógrafos estabeleçam previsões das necessidades de recursos humanos e de infraestruturas de saúde que podem fazer face à COVID-19. O conhecimento destas necessidades é indispensável à eficaz e eficiente gestão da crise sanitária, minimizando o número de mortes e os custos económicos e sociais da pandemia. O conhecimento das dinâmicas demográficas e sociais permite ainda que os demógrafos apoiem a definição de estratégias de mitigação da doença, ajustadas à realidade. Com efeito, é importante conhecer, por exemplo, os movimentos migratórios ou pendulares da população para se avaliar o impacto de medidas, tais 23Sociedade e crise(s) como a imposição do teletrabalho, para dar apenas um exemplo. Se o teletrabalho, em muitos países e regiões, permitiu minimizar os contactos sociais e a propagação da pandemia, noutros teve um efeito não desejável. Na Índia, por exemplo, ajudou a disseminar a doença, ao gerar movimentos migratórios das zonas urbanas para zonas rurais não atingidas pela COVID-19. Se os fluxos migratórios da população empregada tivessem sido considerados, a propagação do vírus poderia ter sido mais bem controlada. Conclusões Neste texto, procurámos mostrar que os fundamentos dos estudos demográficos, com destaque para a produção da informação e avaliação da qualidade dos dados, rigor na medição dos fenómenos e utilização adequada de estratégias metodológicas, por um lado, e o diálogo interdisciplinar tão familiar à Demografia, por outro, assumem grande relevância para o conhecimento científico das manifestações da pandemia. Ilustrámos ainda o contributo da Demografia e dos demógrafos para a definição de políticas públicas, eficazes e eficientes, de mitigação do vírus. A avaliação futura das consequências da pandemia exige informação detalhada que é necessário acautelar hoje. Neste sentido, recomenda-se que a observação dos indivíduos infetados e falecidos durante a pandemia, discrimine as suas características demográficas e socioeconómicas. É importante assegurar ainda a recolha, ao longo do tempo, de informação relativa às respostas adaptativas dos indivíduos, em múltiplos domínios (relações familiares, interações sociais, relações de género, situação face à atividade económica, condição de saúde, etc.) e às reações estruturais/coletivas à pandemia. Referências Bell, A. & Jones, K. (2015). Age, period and cohort processes in longitudinal and life course analysis: a multilevel perspective. In C. Burton-Jeangros, S. Cullati, A. Sacker & D. Blane (Eds.), A life course perspective on health trajectories and transitions (pp. 197-213). Cham: Springer. https://doi.org/10.1007/978-3-31920484-0_10 Bourdelais, P. (1997). Épidémies et population: bilan et perspectives de recherches. Annales de démographie historique, 9-26. https://doi.org/10.3406/adh.1998.2145 Marinho, F., Torrens, A., Teixeira, R., França, E., Nogales, A. M., Xavier, D. & Fujiwara, T. (2020). Aumento das mortes no Brasil, regiões, estados e capitais em tempo de COVID-19: excesso de óbitos por causas naturais que não deveria ter acontecido [Vital Strategies: Excesso de Óbitos no Brasil]. https://www.vitalstrategies.org/ wp-content/uploads/RMS_ExcessMortality_BR_Report-Portuguese.pdf Crise, migrações e desumanização Rosa Cabecinhas Professora Associada com Agregação do Departamento de Ciências da Comunicação (Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho). ORCID: 0000-0002-1491-3420 32 A atual pandemia provocada pela COVID-19 constitui uma crise global sem precedentes dada a imprevisibilidade da sua trajetória de evolução e consequências sanitárias, económicas, sociais, políticas e ambientais. Sabe-se, no entanto, que os mais recentes estudos apontam para que o impacto da COVID-19 nos diversos domínios da esfera pública e privada tenderá a ampliar as desigualdades existentes e aprofundará as clivagens inscritas, quer em divisões sociais historicamente “datadas” quer em “novas” morfologias de contextos e interação social. A mercadorização do valor do trabalho pela financeirização da economia, nas últimas décadas, associada à crise de 2008 e consequente período de austeridade enfrentado por Portugal entre 2011 e 2015, tem hegemonizado uma lógica de institucionalização crescente de desregulação, privatização, flexibilização e precarização das condições de produção e reprodução dos atores sociais. Focando-nos no mundo do trabalho, importa dar conta da urgência da reflexão sobre o (des)valor do trabalho nos interstícios da “pandemia do capital” (Antunes, 2020) ou “no novo normal que é a pandemia intermitente” (Santos, 2020) e sua tendência de alastramento para um trabalho decente no futuro. Para tal, convocam-se, três interrogações que estruturaram as seguintes secções da nossa reflexão. Das múltiplas faces da crise do trabalho de hoje, o que resiste como denominar comum na economia global? Como assegurar que as gerações mais jovens não se transformem em “infoproletariado” ou “cibertariado”, sujeitos a lógicas de intensificação do capital e desumanização do trabalho vivo? E, finalmente, que compromisso intersubjetivo se pode potenciar dos atores sociais que vivem do trabalho para a renovação de condições dignas e projeção de futuros possíveis? Sopa Wuhan1 e as faces da crise dos que vivem do trabalho Nas vésperas da pandemia provocada pela COVID-19, e em articulação com os impactos da REV 4.02, as “novas” morfologias de trabalho têm sido reveladoras de desigualdades e vulnerabilidades dos atores sociais na sua relação com o trabalho (Marques, 2020; 2019). Esta quarta revolução industrial é marcada pela convergência de tecnologias físicas, digitais e biológicas e transformará, na perspetiva de Schwab (2018), a forma como vivemos, nos relacionamos e trabalhamos. Projetam-se “fábricas inteligentes” ou sistemas globais de produção geridos virtualmente através de plataformas colaborativas. Nada e ninguém se encontrará totalmente imune às alterações dos ciclos de vida cada vez mais curtos de inovação constante nos processos e produtos. Do outro lado destas transformações estruturais na natureza do capital e na produção, está em curso uma reconversão ideológica (Marques, 2010), com impacto nas estruturas escolares e profissionais, nas lógicas de organização do trabalho e do emprego e seus derivados (fenómenos de precariedade, subemprego, 1 Sopa de Wuhan constituiu um dos primeiros esforços de reflexão em torno da pandemia da COVID-19, com o contributo de filósofos contemporâneos (nomes como Giorgio Agamben, Slavoj Zizek, Judith Butler, Alain Badiou, entre outros). 2 Schwab (2018) designa de quarta revolução industrial, ouIndústria 4.0 para destacar a transição em direção a novos sistemas que foram construídos sobre a infraestrutura da revolução digital, marcada pela convergência de tecnologias digitais, físicas e biológicas. 33Sociedade e crise(s) desemprego e exclusão do mercado de trabalho), bem como na intensificação de fenómenos, entre outros, de marginalização étnica e género, destruição ambiental, mercadorização da vida e incentivo ao conflito e à guerra, contribuindo para uma crescente fragmentação e exclusão social. Tendo como pano de fundo este contexto, são várias as dimensões de (in)visibilidade objetiva, mas também subjetiva, de desigualdades socioeconómicas dos que vivem do trabalho e seu denominador comum. A esse propósito, refiram-se exemplos que incluem trabalhadores temporários, digitalizados, informais, uberizados, ou seja, todos os que integram a categoria que mede a “subutilização do trabalho”3. Estes, por serem obrigados a ficar em isolamento social ou alvo de lay-off (total ou parcial) ou de não renovação dos contratos de trabalho ou prestação do serviço, veem os seus salários reduzidos ou não têm direito a ele, incluindo direitos de proteção social em contexto laboral. Incluem-se também todos os que se transformaram em “empresários nómadas”, próximo de registos de autoemprego, trabalhador independente e freelancer, com usos desiguais face às plataformas online e recursos digitais. Se apresentam como fator atrativo a independência contratual e subordinação hierárquica, com a liberdade de gestão do “tempo” e “espaço” de trabalho, encontram-se, igualmente, sujeitos à logica de mercado, seus riscos e externalização dos custos de produção e, no limite, expostos à informalidade económica (Williams & Kayaoglu, 2020) e aos perigos da sua integridade em termos de saúde pública (Marà & Pulignano, 2020)4. Por fim, a modalidade de teletrabalho5, potenciada pela urgência de confinamento social e a manutenção da atividade profissional de serviços e setores económicos em tempos de pandemia, permite-nos renovar divisões sociais historicamente “datadas”, como trabalho intelectual versus manual, colarinhos brancos versus azuis e atividades femininas versus masculinas. Esta flexibilidade temporal e espacial, com um desenvolvimento residual partir dos anos 80 do século XX, apresenta uma expansão inusitada na história recente do trabalho6, sobretudo para os que trabalham com a informação, os designados “analistas simbólicos” (Reich, 2004). Ainda que os trabalhadores envolvidos no teletrabalho contribuam para notoriedade desta realidade por todo mundo (ex. small office/home office, off-shore, call-centers, trabalho informal), importa referir que nem todas as atividades são transferíveis para 3 A taxa de “subutilização do trabalho”, criada pelo INE, agrega a população desempregada, o subemprego de trabalhadores a tempo parcial, os inativos à procura de emprego mas não disponíveis para trabalhar e os inativos disponíveis mas que não procuram emprego. Através deste indicador, fica mais percetível a abrangência do impacto da COVID-19 na dinâmica do mercado de trabalho. Em agosto de 2020, registou- -se uma taxa de 14,9%, valor bem superior à taxa de desemprego (8,1%). Ver https://www.ine.pt/xportal/ xmain?xpgid=ine_main&xpid=INE 4 As autoras relembram o perigo, por exemplo, dos trabalhadores do comércio de entrega ao domicílio através de plataformas online (e.g. UberEats, Foodora, Glovo), de serem contagiados pela doença e de se tornarem um veículo para sua propagação e que, em regra, não têm um seguro de saúde. 5 O termo teletrabalho (telecommuting ou telework, em Inglês) coloca em convergência as noções de “trabalho à distância” e “trabalho em casa”, e apresenta designações equivalentes, como home office ou trabalho remoto. 6 Segundo estimativas mais recentes, esta medida terá condicionado um terço da população global (Kaplan, Fraias & Johnsen, 2020). 34 essa modalidade, sobretudo atividades de proximidade e interação social (Dingel & Neiman, 2020). Muitas assentam em formas de subordinação e controlo, por via de triangulação e/ ou externalização produtiva, e de vulnerabilidade acrescida, por via da opacidade da natureza do vínculo contratual (de trabalho ou de serviços). Acresce, igualmente, a fragilidade (ou inexistência) de proteção social, capacidade de negociação ou defesa sindical e de erosão das fronteiras público e privado. Por conseguinte, os riscos laborais e sociais a que se encontram sujeitos são o seu denominador comum, tal como para os que ilustram as “novas” faces do trabalho atrás enunciadas. Lockdown generation? Jovens entre crises Inúmeros estudos empíricos têm destacado o trabalho como experiência social central da contemporaneidade, profundamente heterogénea, variável e ambivalente. Dando particular destaque aos jovens e sua relação com o trabalho, importa refletir sobre as consequências do universo maquino-informacional-digital em curso, que contribui para profundas metamorfoses dos empregos/profissões no futuro, e os impactos da crise sanitária, económica e social decorrente da pandemia da COVID-19. Para a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a situação atual é particularmente severa para os jovens ao: i) potenciar disrupções na educação, na formação e na aprendizagem baseada no trabalho; ii) intensificar as dificuldades de acesso ao mercado de trabalho que já se vinham manifestando; e iii) agravar a qualidade de emprego quanto à remuneração, estabilidade e direitos sociais. O diagnóstico traçado nos mais recentes relatórios sobre os jovens (ILO, 2020a, 2020b) revela que se está perante o que se tem vindo a designar por lockdown generation (ILO, 2020b), caso não se acionem políticas públicas específicas de suporte por parte dos governos. A sustentar este cenário, refira-se a tendência de agravamento das condições de transição para o mercado de trabalho e oportunidades de carreiras, acentuando as divisões digitais por parte dos jovens detentores de capital (educativo e simbólico) que permita o retorno dos seus investimentos, face a jovens com poucos qualificações; a maior vulnerabilidade ao desemprego, não renovação de contratos de trabalho, subemprego; a probabilidade de deterioração do bem-estar mental, pela incidência de fenómenos de ansiedade e depressão, fruto das dificuldades acrescidas na sua relação com o trabalho; e o questionamento e/ou reivindicação de direitos laborais seja por não se lhes aplicarem, seja por lhes serem retirados, de cidadania e participação na sociedade civil e comunitária. É importante perceber que estes impactos são visíveis não apenas numa perspetiva intrageracional, como sobretudo na relação entre diferentes gerações e capacidade de assegurar o contrato social de solidariedade recíproca que constitui a base do que se convencionou designar no ocidente de Welfare State. Por isso, urge questionar: como assegurar que as gerações mais jovens não se transformem em “infoproletariado” ou “cibertariado”, sujeitos a lógicas de intensificação do capital e desumanização do trabalho vivo? Ou seja, nos “futuros” de trabalho mais acelerados, conectados, mas também mais competitivos, incertos e vulneráveis, somos desafiados a repensar os modelos de reorganização do trabalho e sua articulação com a vida familiar/privada, preservando culturas e identidades de 35Sociedade e crise(s) trabalho, redes de sociabilidades e procura de sentidos de autorrealização no e fora do trabalho. Pandemia do capital, (des)valor do trabalho e compromisso intersubjetivo No contexto da literatura ocidental, assinale-se a tese da crise do trabalho, enunciada desde os anos 70 do século passado, perante a inevitabilidade da superação tecnológica e a perda da centralidade do trabalho. A (re)atualização daquela tese afigura-se premente não apenas no quadro de pré-pandemia face à REV 4.0, como nas fases durante e pós o confinamento e distanciamento físico. Igualmente, quando se antecipam os “futuros” do trabalho, não está em causa apenas a extensão da realidade ainda herdeira de um quadro normativo que tem oposto o “fim do trabalho” ao “fim do trabalho estável” ou ao “emprego para a vida”. Para lá das polémicas sobre as causas que têm sustentado a tese do “fim do trabalho”, tal como o temos vindo a conhecer, é consensual admitir-se as suas profundas metamorfoses. Estas decorrem das exigências de polivalência e flexibilidade dos sistemas produtivos e tecnológicos, por um lado, e das práticas de desregulação, instabilidade dos mercados de trabalho, por outro. Estamos também a vaticinar, nesta era do conhecimento, a “insustentável leveza do trabalho” dada a sua crescente (des/i)materialização e, por conseguinte, a discutir a possibilidade de descentramento do trabalho enquanto espaço-tempo de estruturação, socialização e distinção social. Face às imposições da pandemia da COVID-19, como isolamento e distanciamento físico, a expansão da modalidade de teletrabalho em setores económicos que até então receávamos, mas também a solidariedade e interajuda na esfera pública, mostra que é possível – e desejável – mudar a lógica mercantilista da economia e criar novas formas de viver mais racionais e proveitosas para o mundo contemporâneo. Esta é visão de Domenico De Mati, conhecido pela sua obra O ócio criativo (2000), mas também de outras publicações sobre o futuro do trabalho. Otimista, este autor sustenta a tese de que a digitalização e a automação permitirão libertar tempo de trabalho orientado para a vida pessoal, familiar, cultural e comunitária. Com a reorganização dos tempos de trabalho e extratrabalho as empresas e os trabalhadores podem ser mais criativos e produtivos. Em contraponto, Danièle Linhart (2014), com investigação relevante sobre o sofrimento no trabalho, em especial a “precariedade subjetiva”, alerta para o agravamento do caráter penoso do atual padrão produtivo, ancorado na precarização das relações de trabalho e no gerencialismo, que afeta a saúde dos trabalhadores, a sua produtividade e as relações sociais dentro e fora do contexto de trabalho. Para ela, o atual contexto pandémico tenderá a agravar desigualdades e vulnerabilidades ao se aceitar a desconexão do trabalho da sua finalidade social, isto é, do seu sentido e propósito principais. Numa entrevista concedida ao Libération, Linhart (Mouillard, 2020) enuncia uma das contradições dos tempos atuais quanto às exigências de se “ser feliz” no trabalho (ex. chief happiness officers, massagens) e os mecanismos de controlo exercidos sobre os trabalhadores (ex. normas, protocolos, indicadores). Com 36 a pandemia da COVID-19, essa tensão tenderá a agravar-se, já que, por exemplo, se impõe o regime de teletrabalho para a proteção da saúde do trabalhador, mas, ao mesmo tempo, a informática permite a rastreabilidade para monitorizar quando as pessoas se conectam e por quanto tempo trabalham, para que continuem a cumprir os seus objetivos personalizados. Com efeito, as reconfigurações das políticas de gestão e organização do trabalho, dos saberes e práticas, em especial a difusão (in) visível do teletrabalho, não se encontram isentas de ambivalências ao instituir processos de agravamento de formas subtis de dominação e invisibilidade do laço de subordinação, podendo culminar em sofrimento pessoal e social. No ideário justificativo da “pandemia do capital” (Antunes, 2020), fica patente a tendência para se exacerbar a técnica, subjugando a dimensão humana, e a compulsão para a extração, a uma escala planetária, do sobre-trabalho numa lógica de híper- -competitividade de cada um e coletivamente. A evidência ontológica da centralidade do valor do trabalho, enquanto expressão profundamente humana, pressupõe reflexividade e reivindicação permanentes na renovação de condições dignas e projeção de futuros possíveis. Significa que se torna urgente desenvolver uma consciência das condições objetivas e subjetivas da praxis laboral para um compromisso intersubjetivo de vinculação a uma profissão/ocupação, a uma comunidade ou coletivo, a uma solidariedade local e planetária. Referências Agamben, G., Zizek, S., Berardi, F. B., López Petit, S., Butler, J., Badiou, A., Harvey, D., Han, B. C., Zibechi, R., Galindo, M., Gabriel, M., Yanéz González, G., Manrique, P. & Preciado, P. B. (2020). Sopa de Wuhan - Pensamiento contemporáneo en tiempos de pandemias. Buenos Aires: Editorial ASPO. http://tiempodecrisis. org/wp-content/uploads/2020/03/Sopa-de-Wuhan-ASPO.pdf?fbclid=IwAR386959-_q7FG9ZCeGsEFSxGBOerZNNMf3s1hmLn8nYjcieT4QA-yyx6zE Antunes, R. (2020). Coronovírus. O trabalho sob fogo cruzado [Ebook]. São Paulo: Boitempo. De Masi, D. (1999). O futuro do trabalho. São Paulo: Editora Jose Olympio. De Masi, D. (2000). O ócio criativo. Rio de Janeiro: Editora Sextante. Dingel, J. I. & Neiman, B. (2020). How many jobs can be done at home? National Bureau of Economic Research, Working Paper 26948. http://www.nber.org/papers/w26948 International Labour Organization (ILO). (2020a, 27 de maio). ILO Monitor: COVID-19 and the world of work. Fourth edition. Updated estimates and analysis. https://www.ilo.org/wcmsp5/groups/public/--- dgreports/---dcomm/documents/briefingnote/wcms_745963.pdf International Labour Organization (ILO). (2020b). Youth & COVID-19: Impacts on jobs, education, rights and mental well-being (Relatório). https://www.ilo.org/wcmsp5/groups/public/---ed_emp/documents/publication/wcms_753026.pdf Kaplan, J., Frias, L. & Johnsen, M. M. (2020). A third of the global population is on coronavirus lockdown – here’s our constantly updated list of countries and restrictions. Business Insider. https://www.businessinsider.com/countries-on-lockdown-coronavirus-italy-2020-3 Linhart, D. (2014). Modernização e precarização da vida no trabalho. In R. Antunes (Ed.), Riqueza e miséria do trabalho no Brasil III (pp. 45-54). São Paulo: Boitempo. 37Sociedade e crise(s) Marà, C. & Pulignano, V. (2020). Working – Work disruption in a context of pandemics: social bonds and the ‘crisis society’ (RN17). European Sociologist, 45(1). https://www.europeansociologist.org/issue-45-pandemic-impossibilities-vol-1/working-–-work-disruption-context-pandemics-social-bonds-and Marques, A. P. (2010). ‘Sacralização’ do mercado de trabalho. Jovens diplomados sob o signo da precariedade. Configurações, 7, 65-89. https://doi.org/10.4000/configuracoes.183 Marques, A. P. (2019). Revolução 4.0. e competências. De que “futuros” de trabalho falamos? Dirigir & Formar, 22, 32-35. http://opac.iefp.pt/Images/winlibimg.aspx?skey=&doc=90316&img=3153 Marques, A. P. (2020). Na fronteira do mercado de emprego: jovens, trabalho e cidadania. Revista Trabalho, Educação e Saúde,18(s1). https://doi.org/10.1590/1981-7746-sol00249 Mouillard, S. (2020, 29 de abril). Télétravail: “L’activité se retrouve déconnectée de sa finalité sociale” [Entrevista a Danièle Linhart]. Libération. https://www.liberation.fr/france/2020/04/29/l-activite-se-retrouve-deconnectee-de-sa-finalite-sociale_1786888 Reich, R. B. (2004). O futuro do sucesso: viver e trabalhar na nova economia. Lisboa: Terramar. Santos, B. S. (2020). A cruel pedagogia do vírus. Coimbra: Almedina. Schwab, K. (2018). A quarta Revolução Industrial. Lisboa: Editora Levoir. Williams, C. C. & Kayaoglu, A. (2020). COVID-19 and undeclared work: impacts and policy responses in Europe. The Service Industries Journal, 40, 914-931. https://doi.ogr/10.1080/02642069.2020.1757073 Tempo e crise: algumas reflexões em torno da sociologia do futuro Emília Araújo Professora Auxiliar com Agregação do Departamento de Sociologia (Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho). ORCID: 0000-0003-3600-3310 40 Como se ajustarão as sociedades às arritmias que se vislumbram no tempo de crises sobrepostas que se avizinham? Por que é importante ler e estudar, tanto as mudanças como as persistências, em tempo de crise? Que desafios enfrenta hoje a ciência, face à necessidade de antecipação e prevenção das crises do futuro? Estas são algumas das interrogações insertas neste texto que tem um fundamento reflexivo, embora pontuado de algumas ilustrações que, para os efeitos, considerámos reunirem as caraterísticas de tipicidade ou de singularidade com algum potencial demonstrativo das ideias apresentadas. A relação entre tempo e crise sugere vários temas de reflexão e investigação, a começar pelo modo como a crise altera o ritmo social, provoca arritmias diversas e reconfigura os ritmos. O olhar dos e das cientistas sobre estas metamorfoses nos ritmos sociais é de crucial importância, mas é igualmente importante olhar para as permanências e as persistências, assim como para o modo como estas se reproduzem nos ritmos e tempos reconfigurados. O motivo principal para esta declaração reside no pressuposto de que não podemos apreendê-las como meras consequências de um fenómeno aleatório e perante o qual a ação política possa ser meramente reativa: ora aplaudida, ora negativamente criticada na sua boa ou má adequação, boa ou má comunicação, bom ou mau enquadramento legal e/ou constitucional. Precisamos de perspetiválas, também, à luz da (in)capacidade de antecipação e de prevenção das sociedades e, nomeadamente, dos governos, no sentido de responder a desafios societais que são, em grande parte, desconhecidos, embora possíveis. Dos tempos sociais O tempo de pandemia é marcado por uma série de arritmias no funcionamento das instituições e no tempo de resposta aos cidadãos e às cidadãs, dependendo dos grupos sociais a que pertencem, o território em que habitam, a idade, o género, ou a etnia. A crise justifica e legitima a arritmia (no sentido de Lefebvre, 2003) do calendário escolar e do tempo de trabalho, dois dos tempos sociais mais estruturadores da experiência quotidiana na sociedade atual. No coração da arritmia social está a redução e o controlo dos tempos relacionais que, perante a crise pandémica, ficam totalmente reversos e confusos, incertos, inseguros e comprimidos ao máximo. Estão também a arritmia dos tempos mediáticos e a escalada de acelerações, variações e de desajustes que denunciam e também alimentam e criam. Num tempo de crise, o que mais custa aos sujeitos sociais é viverem de forma contínua o tempo extraordinário, por mais experiências positivas e diferentes que este tempo diferente lhes proporcione. Por isso, o tempo de crise suscita várias formas de simulação. Faz aumentar a necessidade de manter e (des)fazer tempo. O quotidiano individual, coletivo e institucional submerge num espaço de simulação (quase) perfeita marcado pela celebração do oposto da normalidade, à procura do sentido do tempo – acidente: celebram-se as não-festas; dão-se as não-aulas; 41Sociedade e crise(s) gozam-se os não-recreios; marcam-se as não-consultas ou não-cirurgias; fazem-se os não-aniversários; celebra-se a não-presença; marca-se a não-diferença; fala-se da não-viagem, estabelecem-se as regras do não-trabalho; ou do tempo não-pago. Afirma-se continuamente que as soluções encontradas são de “crise”, que valem para o tempo presente e que a espera é inevitável. O terreno das justificações é denso, confuso e, por vezes, não só incerto, como injusto. De qualquer modo, todas estas criações (mesmo a simulação e a procura de sentido) representam a capacidade individual e humana para criar o tempo, mesmo que a partir de nada porque a vida social assenta no quotidiano e este exige determinados ritmos, rotinas e rituais. Isto é, está pontuada de momentos significativos, mesmo que estes sejam objeto de des-significação. Interessa, no entanto, pensar nelas como espaços de reprodução de poder interpessoal, mas sobretudo institucional e enquadrá-las no plano da (in)capacidade da política para avaliar as consequências da aceleração na tomada de decisões e a relevância do longo prazo através da afirmação dos programas e dos debates políticos em democracia. Com efeito, a paisagem dos ritmos sociais na crise é confusa e desorganizada, diferencial e desigual: entre quem para e fica à espera; quem é atirado para as margens e sujeito a isolamento; quem é chamado a entregar o seu tempo às instituições e organizações de trabalho, quem fica dentro e fora do espaço-tempo da crise; quem dá e recebe tempo a troco de nada; quem aproveita o tempo da oportunidade para ganhar tempo e a partir do tempo; quem perde tempo e procura matar tempo que tem em abundância e a quem acaba tempo e morre ressurgindo na forma de algarismos e percentagens objetivamente descritas nos ecrãs que criam parte do tempo que passa dia a dia. A mudança de ritmos ajusta-se à diversidade e esta à desigualdade de ritmos, deixando entender que, se a crise pode destruir estruturas de tempo, também pode revelar a continuidade ou o reforço de outras estruturas sustentadas pelo desígnio do crescendo controlo do tempo por parte de determinados atores. Assim, ainda que os ritmos que surgem de novo devam ocupar os e as cientistas, importa procurar os ritmos sociais e institucionais que persistem, embora se reconfigurem, mantendo as suas caraterísticas principais: o tempo como mercadoria e bem essencial. Um exemplo, talvez dos mais significativos hoje em dia, prende-se com a rutura dos serviços públicos de saúde, o aumento exponencial dos tempos de espera e o concomitante crescimento e normalização do recurso aos serviços privados que, justamente, vencem pela comercialização do tempo: o tempo de vida e o tempo de cuidado. Outro exemplo é, sem dúvida, o tempo escolar e o calendário letivo, onde se tenta conter, para além do imaginável, os tempos normalizados e regulamentares, os tempos da sociabilidade, assim como os tempos de trabalho de uma sociedade que tem no tempo-espaço da escola o reverso do tempo de trabalho pago. Mas, em geral, a comercialização do tempo e a tentativa de aumentar ao máximo o tempo diretamente rentável, muito especialmente por via do investimento em tecnologia, continuam a ser duas lógicas que permanecem. 48 industrial em 1913, de acordo com estimativas contemporâneas” (Lains, 1995, pp. 155-156). A própria implantação do regime republicano apoiava-se na questão do desenvolvimento como uma das prioridades nacionais. Por outro lado, os atores políticos envolvidos na derrubada da Monarquia não vislumbravam ações concretas para solucionar as questões económico-financeiras do país. Traziam proposições e ideias concretas para uma transformação social. Havia, de facto, a promessa de uma educação pública gratuita e universal, mas com as demais propostas gerais “muito simples e abstratas” no que diziam respeito à necessidade de uma evolução económica sólida e duradoura (Magalhães, 2009, pp. 325-326). Era primordial um aumento no comércio externo e uma maior inserção na economia internacional, combinados. E, para que tal ocorresse, questões como a restrição de recursos naturais e a baixa competitividade dos produtos portugueses, quando em competição com a forte concorrência exterior, eram obstáculos a serem superados na busca de um processo transformador (Reis, 1984, pp. 24-26). Os anos 20 do século XX viram ruir a I República em Portugal ao mesmo tempo em que se viu também outros regimes democráticos colapsarem, todos desgastados economicamente pelos efeitos da Grande Guerra. No caso de Portugal, a ascensão do Estado Novo tem as suas origens na condução de Salazar como Ministro das Finanças e condutor de uma nova política, que tinha como objetivo de fundo o resgate da situação económico-financeira ruinosa, apoiada por uma elite industrial que via com bons olhos a oportunidade de crescer no período entre guerras (Rosas, 1984, pp. 872-873). A Segunda Grande Guerra e o pós-guerra trouxeram uma nova realidade política e económica para Portugal e para o mundo. O período de “crescimento ininterrupto” da economia portuguesa entre os anos 40 e 70 do século XX contrastava com os “novos ventos” da mudança, materializados na descolonização afro-asiática e, por consequência, na guerra colonial. A retomada do desenvolvimento económico português contava, naturalmente, com a força das ex-colónias, transformadas em províncias do ultramar pela reforma constitucional de 1951 (Mata & Valério, 2011, pp. 298-301). Contudo, os movimentos separatistas em África e a guerra, para além das consequências sociais, tiveram efeitos terríveis na estrutura económica portuguesa. O aumento da despesa militar e a perda de rendimentos criaram uma situação de deficit na balança de pagamentos e nas contas públicas. Novamente, a economia teria o seu contributo a dar para a queda de outro regime. A Revolução do 25 de Abril teria, entre uma de suas causas, a questão da fragilidade económica de Portugal. Uma debilidade exposta pelo cenário de crise internacional, com a implosão do sistema internacional de Bretton Woods, em 1971, acabando com a conversão direta do dólar americano em ouro, e o choque do petróleo de 1973, com a decisão da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) de reduzir os volumes de exportação para o ocidente (Amaral, 2019, pp. 226-228). O Portugal pós-25 de Abril, envolto em grave convulsão social e divisões políticas entre defensores dos regimes democráticos ocidentais e os apoiantes das soluções 49Sociedade e crise(s) socialistas/comunistas, precisou de passar pelo acompanhamento de instituições internacionais e por intervenções de fundo entre os fins da década de 1970 e meados de 1980. O Fundo Monetário Internacional (FMI) foi chamado a intervir e apoiar a reestruturação económica do país, que sofria com altas taxas de inflação, elevados níveis de desemprego e baixa capacidade do sistema bancário e dos tecidos produtivos (Amaral, Silva & Simpson, 2020, pp. 4-9), ainda que com a intervenção, Portugal tenha sido capaz de se juntar à CEE em 1986, compondo o grupo que estaria na génese da Comunidade Europeia e, posteriormente, da União Europeia, e que nos levaria à adesão a moeda única em 1999. Mesmo o escudo europeu não foi suficiente para proteger Portugal das crises do novo mundo globalizado. Assim vimos com a crise dos subprimes de 2007-2008, que causou grande impacto nas instituições bancárias portuguesas (Amaral, 2015; Paula, 2009), e a crise da dívida pública da Zona Euro de 2009-2010, as quais ainda nos fazem sentir as consequências nos tempos atuais, evidentemente agravados por uma situação pandémica que restringe sobremaneira a atividade económica em escala global. Passada toda esta trajetória histórica, fica claro que a globalização, com os seus avanços e recuos económico-sociais das últimas décadas, se por um lado, ofereceu o agravamento das desigualdades, por outro lado, também nos trouxe, do ponto de vista científico, no campo da História Económica, um contributo significativo. Uma maneira de se construir o conhecimento histórico “menos comprometida com os debates sistémicos em função do próprio esgotamento da Guerra Fria, do Socialismo e de modelos alternativos vis a vis o coroamento de um capitalismo triunfante e uníssono” (Faleiros, 2010, p. 257) e mais empenhada em observar os efeitos “totais” ou “globais” dos eventos locais, tentando ampliar cada vez mais a sua dimensão comparativa e ficando assim mais próxima de quem a lê. Por outro lado, a “nova era imperialista” (Fiori, Medeiros & Serrano, 2008) partilhada entre os Estados Unidos, China e Rússia certamente oferecerá novos desafios a quem se propuser investigar, escrever e construir a História Económica e responder aos reptos do futuro. Referências Amaral, L. (2019). The modern Portuguese Economy in the twentieth and twenty-first centuries. Basingstoke- -London: Palgrave Macmillan. https://doi.org/10.1007/978-3-030-24548-1 Amaral, L. (2015). Em nome do pai e do filho… O grupo Espírito Santo, da privatização à queda. Alfragide: Dom Quixote. Amaral, L., Silva, A. F. & Simpson, D. (2020). A long International Monetary Fund intervention: Portugal 1975-1979. Nova SBE Working Paper Series, Working Paper #635, 1-67. https://run.unl.pt/bitstream/10362/99746/1/WP635.pdf Cordeiro, J. M. (2020). 1820 Revolução Liberal do Porto. Porto: CMP. Faleiros, R. N. (2010). História Económica. História em construção. Dimensões – Revista de História da UFES, 24, 242-261. https://periodicos.ufes.br/index.php/dimensoes/article/view/2532 Fiori, J. L., Medeiros, C. & Serrano, F. (2008). O mito do colapso do poder americano. Rio de Janeiro: Record. 50 Lains, P. (1995). A economia portuguesa no século XIX: Crescimento económico e comércio externo (18511913). Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda. Magalhães, J. R. (2009). Vem aí a República! 1906-1910. Coimbra: Almedina. Mata, M. E. & Valério, N. (2011). The concise economic History of Portugal: a comprehensive guide. Coimbra: Almedina. Paula, M. R. S. M. (2009). Impacto da crise subprime no sector bancário português. Tese de Mestrado. ISCTE Business School, Lisboa, Portugal. http://hdl.handle.net/10071/1699 Reis, J. (1984). O atraso económico português em perspectiva histórica (1860-1913). Análise Social, XX(80), 7-28. http://analisesocial.ics.ul.pt/documentos/1223472983X6iYR2re6Rj50YV5.pdf Rosas, F. (1994). Estado Novo e desenvolvimento económico (anos 30 e 40): uma industrialização sem reforma agrária. Análise Social, XXIX(128), 871-887. http://analisesocial.ics.ul.pt/documentos/12233778 62S2yDZ6ad3Zv90JB8.pdf Vírus, robôs e o mundo em mudança: um comentário sobre crise e dinâmicas sociais Fernando Bessa Ribeiro Professor Associado com Agregação do departamento de Sociologia Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho). ORCID: 0000-0001-7431-8562 52 Situar a mudança social O "3º Congresso da Associação Portuguesa de Sociologia", realizado em 1996, contou com a presença de Immanuel Wallerstein na conferência de abertura. Tendo o evento como tema a mudança social, o sociólogo norte-americano, desaparecido em agosto de 2019, ofereceu-nos uma análise vibrante sobre o funcionamento do sistema mundial moderno, dissertando em torno de “a mudança é eterna. Nada muda, nunca” (Wallerstein 1995, p. 3). Hoje parece que o mundo se agita intensamente, com as forças da mudança a ganhar às forças da estabilidade. Se há muito nos confrontamos com as reformas permanentes promovidas por cada novo ciclo de governação, hoje dominam as inovações técnicas, as alterações nos campos do trabalho, dos modos de vida e das mobilidades, todas elas conectando-se com as novas formas de comunicação, a digitalização e a aceleração e arritmia dos diversos tempos nos quais a vida de cada um se consome. Será que as transformações em curso liquidificaram o mundo (Bauman 2001), fazendo mesmo desaparecer as estruturas que organizam e dão solidez a um sistema social? Ou, pelo contrário, estas transformações, algumas de amplitude mundial, apenas nos revelam, uma vez mais, a flexibilidade das estruturas do sistema mundial, suficientemente dúcteis para acomodar o que muda, manter a diversidade de modos de vida e de práticas culturais, sem que tal coloque em causa os processos intensivos de acumulação de capital? Neste sentido, será que a crise pandémica, em lugar de dar origem a um mundo novo, como repetidamente tem sido anunciado pelos média e pela publicidade, acentuará determinadas dinâmicas já em curso, nomeadamente no domínio da automatização, da robotização e da chamada inteligência artificial, cujos impactos no campo do trabalho já começamos a sentir? Tudo isto ocorrendo num quadro de uma mudança decisiva, a da passagem do poder do Ocidente para o Oriente? Não cabendo aqui analisar a posição controversa de Wallerstein (Vindt, 1999), quando sugere que as crises com que nos confrontámos têm de ser compreendidas no contexto mais amplo da crise sistémica do capitalismo, há que reconhecer que, não obliterando que as estruturas fundamentais que organizam o sistema mundial continuam relativamente estáveis, está em curso uma mudança de amplitude global. Marcada por tensões, diante dos nossos olhos desenrola-se a mudança de hegemonia no sistema mundial. Sendo raro, é um processo conturbado, cheio de riscos, incluindo conflitos militares, como aconteceu com a última mudança hegemónica, na primeira metade do século XX, que elevou os Estados Unidos da América (EUA) à condição de potência hegemónica. Como detetaram Arrighi (1996) e Todd (2002), na viragem do século XX para o XXI, este processo, caracterizado por uma transferência de riqueza, conhecimento e poder do Ocidente para o Oriente, irá certamente colocar a China como potência hegemónica na próxima década, sem que os EUA se vejam totalmente arredados de continuarem a ter um papel relevante no comando do mundo. 53Sociedade e crise(s) A pandemia como acelerador da crise e da mudança Uma década depois da última grande crise do capitalismo, temos agora a pandemia provocada pela COVID-19. Este evento volta a lembrar-nos que a história humana também é preenchida por pandemias, algumas das quais mataram em número apreciavelmente superior ao que a atual parece capaz de fazer. A gripe espanhola de 1918 a 1920 ceifou a vida de 20 a 50 milhões de pessoas; a outra grande pandemia, a peste negra do século XIV, terá provocado entre 75 e 200 milhões de mortos na Europa e na Ásia, dizimando seguramente mais de um terço da população então existente. Ainda não sabemos como acabará a atual pandemia, embora seja certo que estamos face a uma crise sanitária global, tendo já superado largamente o primeiro milhão de mortos, cujas repercussões, nomeadamente económicas, ninguém consegue com razoável certeza antever, embora existam já sinais, sobretudo nos países mais pobres e entre os trabalhadores pobres e precarizados de todo o mundo. Fatores distintos combinados entre si rapidamente fizeram a Europa disputar com os EUA e o Brasil o epicentro da crise. Com a “segunda vaga” em curso, a resposta a esta infeção exprime o fracasso dos estados europeus, sobretudo os assistidos,1 e, num sentido mais amplo, do Ocidente2. Apesar dos surtos epidémicos ocorridos no presente século, os governos ocidentais atuaram como se estivéssemos face a mais um sobressalto gripal que o tempo se encarregaria de resolver. Podendo interpretar-se esta abordagem como expressão de uma certa disposição mental, já presente noutras pandemias ocorridas entre os séculos XIV e XVIII – “quando surge o perigo de contágio começa-se por tentar não o ver” (Delumeau citado em Lambert & Rimbert 2020, p. 26) –, a compreensão desta atias dustude obriga a convocar a velha mas persistente soberba eurocêntrica, com raízes fundas na dominação colonial. Desprezando as respostas dadas pelos países asiáticos, experientes em surtos pandémicos (por ex. SARS)3, os governos europeus desvalorizaram a gravidade da Covid19, optando por medidas insuficientes. Tal permite o vírus “andar por aí”, fazendo com que ele atue como um cutelo que lesa a economia, tornando evidente que não há estabilização económica desligada da supressão da pandemia. Tomando como medida o curto prazo, a opção pela mitigação (e em alguns casos nem isso) revela uma escolha política, a de “governar para o mercado, em vez de governar por causa do mercado” (Foucault 1979/2008, p. 165). Neste cenário, a pandemia parece assumir-se como o acelerador da crise e de uma das principais mudanças em curso, a referida transferência de riqueza e poder para o Oriente. Os dados atualmente disponíveis apontam para assinaláveis diferenças no desempenho económico dos países do sudeste asiático e da Oceânia face aos europeus. Quer isto dizer que o combate exitoso à COVID-19 não se coloca em 1 Trata-se de um argumento desenvolvido por Baptista (1994), classificando os países europeus em dois tipos: produtivos e assistidos, sendo que Portugal pertence a este segundo tipo. Se dúvidas existissem sobre a atualidade desta tipologia, já com mais de um quarto de século, a pandemia aí está para a confirmar. 2 De acordo com Davis (2020) para o caso dos EUA. 3 SARS é a sigla, em língua inglesa, para Severe Acute respiratory Syndrome. 54 contramão à defesa da economia. Esta opção é também uma escolha moral que se reflete na defesa da vida de milhões de seres humanos, sobretudo idosos e doentes, isto é, pessoas frágeis que exigem especiais cuidados de saúde. Voltando a pandemia a acelerar, o fracasso do Ocidente não impede que, como justamente sublinha Žižek (2020), tudo nos pareça possível, o melhor e o pior, pelo que esta é a hora da política, confrontando-nos com escolhas radicais distintas para o nosso futuro. Tudo parece possível, sugere Žižek (2020). Talvez nem tudo… rejeitando, é claro, qualquer tipo de leitura fatalista das dinâmicas sociais, existem hoje forças sistémicas imparáveis. São elas que produzem o movimento da referida mudança de riqueza, conhecimento e poder para o Oriente, no qual se digladiam estados e grandes interesses para controlar e tirar proveito das dinâmicas tecnocientíficas em curso. Sob o já bem conhecido conceito de “indústria 4.0”, temos a internet das coisas, os sistemas ciberfísicos e as fábricas inteligentes, mobilizando robôs e algoritmos cada vez mais potentes. Esta revolução tecnocientífica e industrial implica uma automatização radical da produção, ampliando as possibilidades de redução da utilização de trabalho humano. Dirão os mais atentos que o mesmo assim ocorreu nas anteriores revoluções industriais. Sim, é incontestável, mas esta comporta uma dimensão nova, ao mesmo tempo fascinante e inquietante: promete substituir trabalho inteligente, incluindo aquele que implica a mobilização de emoções e de aprendizagem face a situações inesperadas, em lugar de apenas alargar a extinção de trabalho humano ligado a tarefas repetitivas. Não sendo as inovações científicas e tecnológicas sempre expressões de progresso (Beck 1992), elas confrontam os cidadãos. Ocorrendo num contexto marcado pelas desigualdades sociais que, como demonstrou Piketty (2013), só têm paralelo com as existentes em meados da segunda metade do século XIX, estas inovações poderão acentuar os fenómenos de dualização no mercado de trabalho, identificados há mais de duas décadas por Castells (1999). Isto é, uma segmentação do mercado de trabalho entre um núcleo de trabalhadores essenciais às empresas e ao funcionamento do Estado e uma multidão de trabalhadores, num vai-e-vem permanente entre o emprego precário, em regra mal pago, e o desemprego. Uns e outros mergulhados naquilo que Francisco (2015) designa por rapidáccion, expressão dos impactos que a aceleração económica tem na vida pessoal, nas sociedades e nos ecossistemas. Encerrando o comentário: a mudança interpela a ação coletiva e as dinâmicas sociais Sendo o caminho do Oriente guiado por dinâmicas a bem dizer inelutáveis, muito permanece em aberto. Se, “mais do que nunca, e mais do que na época de Marx ou de Weber, somos submetidos ao poder total de forças impessoais – o mercado, as finanças, a dívida, a crise, o desemprego – que se impõem aos indivíduos como um destino implacável” (Löwy 2014, pp. 137-138), a ação coletiva continua a ser possível para influenciar, senão mesmo determinar, o sentido das dinâmicas sociais. Se há algo que a crise pandémica permitiu recuperar, estilhaçando parcialmente 55Sociedade e crise(s) uma outra cegueira, também ela pandémica, convocando ao debate Saramago (1995) e o seu Ensaio sobre a cegueira, é que, contra todas evidências que nos diziam ser evidências mais seguras do que a certeza da morte, afinal existem caminhos distintos, alternativas com as quais os estados e os cidadãos, desde que coletivamente organizados, podem mudar o sentido da história. No velho confronto entre otimismo e pessimismo, a atual crise pandémica, cujo curso e fim ninguém consegue traçar e prever com razoável certeza, mostra-nos que são muitas as razões para optarmos pelo segundo. Vivendo a humanidade dentro de um “habitáculo duro como o aço”, lembra Löwy (2014), convocando Max Weber, nem por isso a ação coletiva viu desaparecer as suas possibilidades de ação. Voltando a Wallerstein, “o futuro não está escrito em parte alguma (...) ninguém sabe o que sairá das próximas décadas” (Vindt, 1999, p. 153). Quer isto dizer que os desafios colocados pelas mudanças em curso podem ser convertidos em oportunidades se formos capazes de nos organizarmos coletivamente. Embora as possibilidades de sermos bem-sucedidos sejam exíguas, considerando a dimensão dos problemas que enfrentamos, temos de tentar, de modo a inverter e não apenas abrandar a “locomotiva” da história que nos leva para a catástrofe ambiental (Löwy 2013). Apesar do cansaço coletivo geral e da intensidade com que as referidas forças impessoais nos obrigam a competir nos mais diversos espaços da nossa vida, com destaque para o profissional, confiscando-nos tempo e energia para refletirmos sobre o nosso mundo e as mudanças em curso, a ação coletiva é necessária para que no horizonte não se anteveja um futuro ainda mais distópico do que o presente. Referências Arrighi, G. (1996). O longo século XX: dinheiro, poder e as origens do nosso tempo. São Paulo: UNESP. Beck, U. (1992). Risk society: towards a new modernity. Londres: Sage. Baptista, F. O. (1994). A agricultura e a questão da terra: do Estado Novo à Comunidade Europeia. Análise Social, 128(XXIX), 907-921. http://analisesocial.ics.ul.pt/documentos/1223377943B0oKY7ll2Yf98UQ6. pdf Bauman, Z. (2001). Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Castells, M. (1999). O poder da identidade (Vol. 2: A era da informação: economia, sociedade e cultura). São Paulo: Paz e Terra. Davis, M. (2020, 14 de maio). COVID-19 e nós: chega o monstro. A terra é redonda. https://aterraeredonda. com.br/covid-19-e-nos-chega-o-monstro/ Foucault, M. (1979/2008). Nascimento da biopolítica. São Paulo: Martins Fontes. Lambert, R. & Rimbert, P. (2020, 31 de março). “Até ao próximo fim do mundo…”. Le Monde Diplomatique (edição portuguesa), 162, 26-28. Löwy, M. (2014). A jaula de aço: Max Weber e o marxismo weberiano. São Paulo: Boitempo Papa Francisco (2015). Carta encíclica Laudato si Sobre o cuidado da casa comum. Vaticano: Libreria Editrice Vaticana. Piketty, T. (2013). Le capital au XXIe siècle. Paris: Seuil. 56 Saramago, J. (1995). Ensaio sobre a cegueira. Lisboa: Caminho. Todd, E. (2002). Após o império: ensaio sobre a decomposição do sistema americano. Lisboa: Edições 70. Vindt, G. (1999). Um sistema desmorona-se hoje sob os nossos olhos [Entrevista com Immanuel Wallenstein]. In G. Vindt, 500 anos de capitalismo: a mundialização de Vasco da Gama a Bill Gates (pp. 148-153). Lisboa: Temas e Debates. Wallerstein, I. (1995). Mudança social? “A mudança é eterna. Nada muda, nunca”. Revista Crítica de Ciências Sociais, 44, 3-24. https://ces.uc.pt/rccs/index.php?id=578 Žižek, S. (2020). Pandemic! Covid-19 shakes the world. Nova Iorque e Londres: OR Books. 2. CRISE E TERRITÓRIOS 64 sofisticados e reflexivos de explicar e compreender a relação entre realidades sociais e simbólicas, por um lado, e realidades materiais, por outro (Schwarze, 2017), evidenciando as funções dos significados que são construídos, reforçados ou contestados pela linguagem. Tais significados têm uma função constitutiva crucial relativamente ao mundo social e ao mundo natural. Por exemplo, o valor afetivo, cultural e até financeiro de uma planta, animal ou espaço natural resultam de processos discursivos, que são, portanto, determinantes para as ações “materiais” que são desenvolvidas. As práticas de comunicação têm efeitos imensamente importantes. De uma forma genérica, podemos considerar que muitas esferas discursivas, como a do jornalismo, têm tido predominantemente um efeito de naturalização das sociedades (e, de particular relevo para esta análise, também da forma como se relacionam com os seus entornos biofísicos), ou seja, não questionam ou desafiam, no que é fundamental, as relações de poder que estruturam essas sociedades e que subjazem a diversas formas de degradação ambiental; a distribuição de custos e benefícios no uso de recursos naturais; ou a lógica de procura de crescimento económico constante. Estes são alguns dos traços do nosso mundo social com forte impacto ambiental que parecem inquestionáveis, inalteráveis ou sem alternativa na maior parte do jornalismo dominante. Repolitizar o mundo político e, mais globalmente, o mundo social, como construções discricionárias que são, é vital para democratizar o futuro e mitigar a destruição do sistema planetário de suporte à vida. “Embora não seja visível, a verdade última do mundo é que este é algo que fazemos e que poderíamos igualmente fazer diferente” (Graeber, 2015, p. 89). Referências Cox, R. (2007). Nature’s “crisis disciplines”: does Environmental Communication have an ethical duty? Environmental Communication: A Journal of Nature and Culture, 1(1), 5-20. https://doi. org/10.1080/17524030701333948 Crutzen, P. J. & Stoermer, E. F. (2000). The “anthropocene”. Global Change Newsletter, 41, 17-18. De Rycker, A. & Don, Z.M. (Eds.) (2013). Discourse and crisis. Critical perspectives. Amesterdão: John Benjamins. European Cardiology Society (2019, 12 de março). Air pollution causes 800,000 extra deaths a year in Europe and 8.8 million worldwide [Press relase]. EurekAlert! https://www.eurekalert.org/pub_releases/2019-03/esoc-apc030819.php Girardi, I. M. T., Moraes, C. H. & Loose, E. B. (2012). Bases do jornalismo ambiental e os desafios para a cobertura da Rio+20. Razón y Palabra, 79. http://www.razonypalabra.org.mx/N/N79/M79/01_TourinhoHerteBeling_M79.pdf Graeber, D. (2015). The utopia of rules: on technology, stupidity, and the secret joys of bureaucracy. Brooklyn/ Londres: Melville House. Schneidewind, U. & Augenstein, K. (2016). Three schools of transformation thinking: the impact of ideas, institutions, and technological innovation on transformation processes. Gaia, 25(2), 88-93. https://doi. org/10.14512/gaia.25.2.7 65Sociedade e crise(s) Schwarze, S. (2007). Environmental Communication as a discipline of crisis. Environmental Communication: A Journal of Nature and Culture, 1(1), 87-98. https://doi.org/10.1080/17524030701334326 Swyngedouw, E. (2018). Depoliticised environments and the promises of the Anthropocene. In R. L. 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Tal ocorre mesmo quando os fatores que estão na génese dessas crises não se relacionam apenas com dinâmicas que derivam diretamente de mutações ocorridas no funcionamento do sistema polis, mas inclusivamente de alterações, mais ou menos abruptas e complexas, que se processam no funcionamento de outros sistemas mais vastos e integrados, como seja o geofísico, o técnico-informacional, o político, o biológico, ou o económico-financeiro, entre outros. Embora uma visão histórica da sociedade esteja abundantemente ilustrada por eventos e acontecimentos indesejados que condicionaram reformulações na estrutura e funcionamento das cidades, é possível, apenas recorrendo à observação das dinâmicas da contemporaneidade, encontrar abundantes exemplos que evidenciam a forte manifestação urbana das repercussões que decorrem de crises de natureza muito diversa. Pode destacar-se, por exemplo, as múltiplas crises ambientais associadas aos processos mais ou menos naturais que promovem o aquecimento global, colocando sob risco de emergência climática uma parte muito considerável da população urbana. Tal é especialmente preocupante quando se constata a subida do nível médio das águas do mar e os expressivos quantitativos demográficos que residem nas formações urbano-metropolitanas que se espraiam pelas áreas costeiras. Refira-se também os exemplos de conflitos de soberania sobre determinados territórios, associados a opções políticas de reposicionamento geoestratégico. Estes são frequentemente indutores de expressivos fluxos migratórios, a que muitos indivíduos se sujeitam para procurar escapar a crises de segurança, alimentares ou do próprio funcionamento dos serviços públicos. É conhecida a preferência desta população refugiada em procurar acolhimento em cidades de países vizinhos, por ser maior a probabilidade de nesses contextos territoriais poderem beneficiar de redes de solidariedade que possam ajudar a satisfazer as suas necessidades mais prementes. Pode ainda enunciar-se os efeitos perversos das crises financeiras, muitas vezes de alcance global, como aquela que ocorreu na sequência do crash de 2008 e que desencadeou inúmeros problemas económicos e sociais (Fujita, 2013; Konvitz, 2016). Muitas vezes a severidade destes problemas atinge nas cidades uma magnitude mais elevada que nas áreas rurais, onde, para muitos, o cultivo da terra (mesmo que praticado num contexto apenas de complementaridade) ajuda a amortecer alguns constrangimentos provocados pela desregulação dos mercados financeiros nas economias familiares. Quer constrangimentos promovidos pelo desemprego, quer limitações mais vastas e transversais decorrentes de finanças públicas débeis e de medidas de maior controlo e austeridade que estas acabam por justificar. Todavia, se é a população urbana que sofre de forma mais intensa os efeitos das múltiplas crises com que as sociedades contemporâneas se defrontam, não pode deixar também de se referir que muitas vezes são as cidades que mais reagem e combatem as consequências indesejadas dessas crises. As cidades encerram em 69Sociedade e crise(s) si um potencial de investimento, talento, criatividade e inovação que as dotam de especiais recursos para enfrentar e contornar as consequências mais hostis destas crises. Assistindo-se inclusivamente nestes contextos às tentativas mais estruturadas para debelar os fatores promotores dessas crises, quando estes não se restringem a causas exclusivamente naturais, ou quando estes podem ser de algum modo influenciados pela ação humana. A espessura institucional mais densa que caracteriza a realidade urbana, dota as cidades de um leque diversificado de agentes de desenvolvimento, cujas missões muitas vezes se complementam na perseguição do interesse coletivo geral, o qual muitas vezes exige a atenuação local dos efeitos adversos das mais variadas crises. Tal desafio, por mais ambicioso que seja, é sempre mais eficazmente enfrentado quando para ele concorre a ação conjunta de organismos públicos diversos, mas também de múltiplas entidades do setor privado, assim como da ação das instituições derivadas da capacidade organizativa da sociedade civil (Santos, 2010). Vários exemplos podem ser mencionados da forte resiliência urbana a perturbações extremas que por vezes ocorrem, mesmo que de modo mais ou menos inesperado e imprevisível. Refira-se os casos em que as crises humanitárias resultantes de conflitos armados dão origem a profundas carências das populações afetadas, sendo estas muitas vezes forçadas a procurar refúgio nos países vizinhos e, como já referido, procurando instalar-se quase sempre nas suas principais cidades. Essa preferência locativa decorre em parte da maior probabilidade de nessas cidades esses indivíduos poderem beneficiar de redes de apoio e solidariedade que possam ajudar a satisfazer as suas necessidades mais prementes, quer ao nível da sua segurança, mas também dos cuidados de saúde, alojamento ou alimentação. Mas também por ser nas cidades que mais facilmente podem concretizar outros desejos e vontades, como os associados às intenções de ingresso no mercado de trabalho, na tentativa de o mais rapidamente possível restabelecerem o controlo sobre os seus projetos de vida. A um outro nível, pode referir-se o caso das crises ambientais associadas à voracidade do consumo dos recursos energéticos não renováveis. Se é verdade que são as cidades os principais sorvedouros destes recursos, também é em contexto urbano que se assiste aos maiores esforços de conceção, aplicação e difusão de novas soluções tecnológicas que visam aumentar a eficiência energética dos modos de transporte, dos processos produtivos, das soluções construtivas, dos modelos de gestão de redes infraestruturais, entre muitos outros campos de inovação no domínio energético. As cidades estão assim sob a influência do efeito tenaz resultante da aplicação destas duas forças de sentidos opostos. Se por um lado são o palco onde se manifestam os principais efeitos e repercussões das mais relevantes crises com que as sociedades atuais se confrontam. Por outro lado, são igualmente os contextos onde estão reunidos os recursos mais eficazes para lidar com as consequências dessas crises, conseguindo estes mobilizar-se para muitas vezes atenuar ou mesmo esbater algumas das influências mais hostis dessas crises. É especialmente relevante constatar que, curiosamente é por via da acção simultânea destas duas forças que se impulsiona muita da dinâmica de evolução das cidades, a qual, abundantes 70 vezes, acaba por favorecer a adaptação da sua população às novas oportunidades e também aos novos desafios e exigências que constantemente vão emergindo nas nossas sociedades. São múltiplos os casos de como as crises e a reação que estas promovem, se revelam motores indutores de processos de transformação urbana, processos esses que muitas vezes se articulam e contribuem para mudanças societais mais amplas e até estruturais. Como quando um episódio de destruição do edificado na sequência de um conflito bélico ou um desastre natural desencadeado por um terramoto ou tsunami, constituem o motivo e o pretexto para projetos inovadores de renovação urbana com a aplicação de novos princípios e diretrizes de planeamento, com a concretização dos quais se prepara e adequa a cidade às exigências emanadas pelos novos desafios das sociedades pós-industriais e hedonistas. Ou o caso de crises sanitárias e de saúde pública como a que a humanidade presentemente enfrenta associada à pandemia da COVID-19, e a oportunidade que a mesma está a revelar para a adequação das cidades à massificação do teletrabalho, apesar de este ser uma prática já conhecida e aplicada desde a década de 70 do século XX e decorrente da transição para a era digital em que vivemos (Nunes, 2008). De facto, a difusão do teletrabalho como uma das respostas a esta crise é uma tendência em curso que está a promover processos variados de transformação urbana, os quais no seu conjunto vão contribuindo para uma mais intensa e progressiva generalização de um diferente modo de organização do trabalho. Este é sucintamente caracterizado por uma elevada flexibilidade geográfica no desempenho da atividade profissional, flexibilidade essa proporcionada pelas potencialidades inerentes às redes digitais de telecomunicação e às aplicações telemáticas de trabalho à distância. Entre esses processos de transformação urbana que estão associados a esta tendência de maior vulgarização do teletrabalho, encontram-se os que decorrem do modo como esta crise está a afetar o mercado imobiliário, nomeadamente com a crescente valorização das habitações que conseguem garantir uma melhor conciliação em ambiente doméstico das responsabilidades profissionais com a vida familiar. Pode também referir-se o modo como o teletrabalho está a afetar o funcionamento dos sistemas de transporte que vão progressivamente se adaptando a horários de trabalho mais diversos e dessincronizados. Ou ainda o modo como nas cidades se intensifica e vulgariza o aparecimento de espaços de coworking, pela sua especial adaptação às exigências de um número crescente de nómadas digitais, que podendo tirar partido do teletrabalho optam por variar continuamente o seu local de residência, descobrindo e explorando destinos diferentes enquanto continuam a assumir as suas responsabilidades profissionais. Para concluir, importa referir que o modo como as cidades são afetadas pelas crises e a forma como reagem a elas não é de modo algum uniforme. Grosso modo é possível categorizar quatro tipos de cidades, embora com a debilidade inerente a qualquer tipologia e ao esforço de generalização e simplificação da realidade. Por um lado, temos as cidades que são afetadas pelas crises e que simplesmente aguardam que os efeitos nefastos destas deixem de se fazer sentir. Por outro lado, as cidades que replicam estratégias de reação às crises, sem grande esforço de reflexão acerca da 71Sociedade e crise(s) pertinência dessas respostas face às especificidades do seu contexto. Destacam-se ainda aquelas cidades que enfrentam as crises procurando identificar as melhores respostas locais face à sua realidade própria (a sua história, a sua demografia, a sua economia, o seu tecido institucional, a sua estrutura governativa, etc.). E, por fim, as cidades cujo planeamento das suas estratégias de desenvolvimento beneficia do contributo de urbanistas visionários, capazes de antecipar crises que ainda não se manifestam, mas para as quais existem já sinais que fazem vislumbrar a sua ocorrência e repercussões. Na primeira categoria encontram-se as cidades que ignoram ou desvalorizam o potencial regenerador que algumas crises encerram para os seus processos de transformação urbana. A título exemplificativo refiram-se aquelas que não promovem qualquer esforço ao nível da criação de planos estratégicos de mitigação e adaptação às alterações climáticas em curso, parecendo acreditar que estão imunes às inúmeras consequências do aquecimento global ou parecendo ignorar o efeito da ação local na manifestação de forças globais. Na segunda categoria podem agregar-se as cidades que simplesmente mimetizam soluções, replicando reações desenhadas e testadas noutros locais como resposta às crises em curso, procurando assim as suas estruturas de administração, sobretudo, demonstrar que estão sintonizadas com os grandes desafios da contemporaneidade e com as preocupações que estes encerram. Por exemplo, na sequência da crise ambiental e da premência de políticas promotoras de uma mobilidade urbana mais sustentável, difundem-se os exemplos de introdução de frotas de transportes púbicos movidas a energias renováveis ou a aposta na criação de ciclovias, sem uma prévia reflexão sobre se no seu contexto não se justificaria equacionar e priorizar outro tipo de respostas mais adequadas às especificidades locais. Na terceira categoria desta tipologia encontramos as cidades que na definição das suas estratégias de desenvolvimento e das iniciativas de reação às crises em curso, reconhecem os inúmeros problemas inerentes à transferibilidade das políticas urbanas. Embora possam ser muito eficazes numa qualquer outra cidade, tal não significa que na singularidade de um outro contexto essas mesmas políticas consigam alcançar resultados semelhantes ou sejam até as mais adequadas. Estas cidades enfrentam muitas vezes as crises com respostas criativas e inovadoras, mas sobretudo ajustadas à sua realidade e às suas características, mobilizando para tal o potencial único dos seus recursos próprios (população, instituições, património, redes, …). Por fim, na última categoria desta sistematização encontram-se as cidades em que, num dado momento da sua história, foi possível não só detetar profundos processos de transformação urbana que derivaram das crises que então se fizeram sentir e/ou das respostas aplicadas no combate a essas crises, mas também da antecipação de crises futuras cujos prejuízos para a cidade ainda não se manifestavam. O caráter visionário de alguns urbanistas esforça-se por preparar o planeamento destas cidades para os desafios do longo prazo. Por exemplo aquelas que mais precocemente identificaram 72 os constrangimentos da crise energética e da excessiva dependência do automóvel privado, foram aquelas que mais apostaram na estruturação de sistemas e transportes públicos eficientes, ou, por exemplo, no ensaio de novas políticas de miscigenação dos usos do solo em contraponto às mais tradicionais práticas de gestão urbanística favorecedoras do zonamento funcional do espaço urbano. Referências Fujita, K (2013). Cities and crisis. New critical urban theory. Londres: SAGE Publishing. http://dx.doi. org/10.4135/9781446288436 Konvitz, J. (2016). Cities and crisis. Manchester: Manchester University Press. Nunes, F. (2008). Using telework and e-work as flexible working alternatives. In G. Putnik & M. M. Cunha (Eds.), Encyclopedia of networked and virtual organizations (vol. III, pp. 1730-1734). Hershey: Idea Group Reference. Santos, R. (2010). As cidades e a urbanização na contemporaneidade. Crise nas cidades ou crise das cidades. Revista Terra Livre, 1(34), 69-78. https://www.agb.org.br/publicacoes/index.php/terralivre/article/ view/311 Crise societal e turismo – o (re)caminho do global para o local Paula Remoaldo Professora Catedrática do Departamento de Geografia (Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho). ORCID: 0000-0002-9445-5465 Crise e território Virgínia Teles Professora Auxiliar do Departamento de Geografia (Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho). ORCID: 0000-0002-3088-4930 82 Sim, foi essa A primeira miséria, a deserção Dos deuses. A segunda, a sua morte, Já na morte de Pã anunciada Pelo lamento dos bosques, o clamor Lutuoso das ilhas do Egeu. Esse grito o escutou o outro Friedrich, Dionysos de seu nome, o europeu, O anunciador, o que caminha Sobre águas estagnadas e parece, Ao afundar-se, desenhar no lodo Um mapa para o qual não há leitura. (Correia, 2012, p. 24) Entender a crise na sua relação com o território convoca-nos à compreensão das múltiplas relações que se podem estabelecer entre estes dois conceitos. Não obstante, falar de crise é por si só abrir um leque de possibilidades às suas múltiplas conexões. Usa-se e abusa-se da utilização do termo crise, nem sempre em contextos e significados coincidentes, o que dificulta a sua definição. A crise de valores, a crise económica, a crise da democracia, a crise energética, a crise climática e, atualmente, a crise pandémica assumem-se, entre outras, como partes compósitas do mosaico deste conceito. Contudo, é consensual que a crise é uma disrupção com a situação anterior, um bloqueio ou obstáculo, que se materializa numa nova realidade. As ameaças económicas, as tecnologias da informação, os conflitos bélicos e os desastres naturais são exemplos disso. Os desastres ou as catástrofes naturais representam uma verdadeira ameaça ao desenvolvimento dos países, pois ao afetarem o território e a própria população terão, a médio e a longo prazo, consequências sociais, económicas e mesmo políticas, de intensidade variável. Os governantes verão limitada a capacidade de gestão dos recursos enquanto as populações verão aumentada a sua vulnerabilidade, podendo instalar-se no seu seio estados de alguma insegurança. É neste sentir de insegurança e medo que as questões da segurança devem ser contempladas, mesmo que seja no seu sentido mais clássico: o de ameaça ao Estado. A segurança dos países foi, até aos anos 70, entendida exclusivamente em termos de ameaças militares, todavia é-nos agora fácil perceber que a segurança de um determinado território pode ser comprometida por ameaças de outra ordem: a) a globalização, com as suas interdependências económicas; b) as disparidades regionais, com os movimentos migratórios que origina a nível mundial; c) a desintegração de determinados regimes políticos e a multiplicidade de Estados, com delimitação ainda incerta no sistema político internacional; d) a propagação de doenças como o VIH/SIDA, Ébola (EVD), Dengue, COVID-19 (SARS-Cov-2); e) organismos geneticamente modificados; f) destruição da camada de ozono; g) desflorestação; h) desaparecimento de espécies animais e vegetais raras, são algumas delas. 83Sociedade e crise(s) A incerteza e a insegurança são geradas por novos riscos, o que justifica que as sociedades atuais, ditas pós-modernas, se preocupem, cada vez mais, com os riscos naturais, os riscos tecnológicos, os riscos biológicos e os riscos económicos e sociais. A contemporaneidade caracteriza-se por um período de mudanças, incertezas, transição histórica a que Boaventura Sousa Santos (2008) chama de desregulação, de crise. É a pensar nos conceitos de risco e crise que recordo os ensinamentos de Fernando Rebelo (1999) sobre a “teoria do risco” (Faugères, 1990), organizada em torno da sequência de três conceitos risco – perigo – crise. Para o autor existe uma continuidade temporal entre eles, o primeiro corresponde à probabilidade de ocorrência de um processo perigoso, o segundo marca, através de diferentes sinais, a iminência da manifestação do risco e, o terceiro, o da manifestação efetiva do risco através de um acidente, de um desastre ou de uma catástrofe. Quando a crise se manifesta podemos dizer que o risco se materializou, passou do domínio do provável para o domínio do real, momento em que é necessário desencadear os processos de gestão da emergência, acionar os meios de socorro e nos casos mais graves, porque mais intensos ou de maior abrangência espacial, criar as condições de recuperação económica e social. O estudo do risco analisa a probabilidade de ocorrência de um processo perigoso (perigosidade ou hazard) num determinado tempo (probabilidade) e num determinado espaço (suscetibilidade) e as consequências previsíveis sobre a sociedade, o ambiente e o território (vulnerabilidade) expressa na exposição da população, no valor dos bens potencialmente afetados ou o grau de perda dos elementos expostos mas, também, no modo como a sociedade reage e recupera de uma situação de crise, ou seja, qual o grau de resiliência e capacidade de adaptação que apresenta. Interessa aqui dar destaque à vulnerabilidade, importarmo-nos, como diz José Gomes Canotilho (2008), com os “contornos sociais do risco, onde se incluem as pegadas dos dinossauros humanos, umas vezes assentes em réguas e esquadros dos modernos planificadores das ‘mediapolis’, outras vezes incrustados em vivências trágicas de pobreza”. Sem a investigação da dimensão social do risco pouco mais conseguimos que uma “semântica de risco”. É essencial conhecer a vulnerabilidade dos indivíduos, das comunidades e dos territórios e, sobretudo, perceber o modo como as características económicas, sociais e culturais ajudam a enfrentar, resistir e recuperar de uma crise. Embora se saiba que o caráter completamente reversivo é pouco frequente no domínio dos riscos, quanto mais rapidamente se possam restabelecer as condições iniciais, menos vulnerável é uma sociedade. E, sem dúvida, que a capacidade das sociedades em escapar, em resistir, ou em reparar os efeitos dos fenómenos naturais, passa pela ação dinâmica e ativa do ordenamento do território, do planeamento e da gestão da crise. Existem, na opinião de J. Ferrão (2015), “ao mesmo tempo, regiões, grupos sociais e indivíduos que estão desigualmente expostos e revelam diferentes sensibilidades aos impactos de uma crise, ou seja, o seu grau de vulnerabilidade, e também a 84 sua capacidade de adaptação, são desiguais, tornando ainda mais complexa a compreensão dos seus impactos”. Se pensarmos no território nacional, podemos constatar, a diferentes escalas, que tem aumentado a assimetria entre territórios e os grupos sociais que os apropriam. O exemplo da dicotomia urbano-rural permite perceber que nos territórios rurais de baixa densidade, os lugares mais remotos, o despovoamento, o envelhecimento, a perda de equipamentos, são fatores determinantes que fazem baixar a exposição de pessoas e bens, não obstante, fazem aumentar a vulnerabilidade dos que ficam (Cunha, 2013). O território é uma construção, não é algo predefinido ou estável. A ideia de território vai-se construindo pelo conjunto de leituras, representações, discursos e debates colectivamente produzidos em torno daquilo que se (re)conhece como qualquer coisa de comum e que confere sentido à realidade (Domingues & Travassos, 2015). É, também, o espaço apropriado por uma determinada relação social que o produz e o mantêm a partir de uma forma de poder, e pelo facto de possuir limites e fronteiras, trona-se num espaço de conflitualidades (Marques, 2010). Há uma multiplicidade de territórios, na medida em que as relações sociais produzem, de modo contínuo, novos espaços e novos territórios de contornos contraditórios, interdependentes e conflituosos. Que se construam territórios de resistência para vender a crise. Referências Canotilho, J. G. (2008) . Prefácio: A procura da segurança perdida. Revista do Centro de Estudos de Direito do Ordenamento, do Urbanismo e do Ambiente. 22, 5. Correia, H. (2012). A terceira miséria. Lisboa: Relógio D’Água. Cunha, L. (2013). Vulnerabilidade: a face menos visível do estudo dos riscos naturais. In L. Lourenço & M. Mateus (Eds.), Riscos naturais, antrópicos e mistos. Homenagem ao Professor Fernando Rebelo (pp. 153-165). Coimbra: Universidade de Coimbra. https://doi.org/10.13140/RG.2.1.4735.8802 Domingues, A. & Travasso, N. (Eds.) (2015). Território: Casa comum. Morfologias e dinâmicas do território. Porto: Circo de Ideias/FAUP. Faugères, L. (1990). Les risques naturelles. Bulletin de l’Association Géographie Française, 89-98. Ferrão, J. (2015). Prefácio: Condicionantes locais e económicas da saúde mental em contexto de crise: um roteiro para uma questão complexa. In P. Santos (Ed.), Território e saúde mental em tempos de crise (pp. 4-9). Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra. https://www.uc.pt/fluc/gigs/Publicacoes/Territorio_Saude_Mental_Tempos_Crise.pdf Marques, A. (2010). Da construção do espaço à construção do território. Fluxos & Riscos, 1, 75-88. http:// revistas.ulusofona.pt/index.php/fluxoseriscos/article/view/2496 Rebelo, F. (1999). A teoria do risco analisada segundo uma perspectiva geográfica. Cadernos de Geografia, 18, 3-13. http://dx.doi.org/10.14195/0871-1623_18_1 Santos, B. S. (1994). Pela mão de Alice: o social e o político na pós-modernidade. Porto: Edições Afrontamento. Crises e proteção civil António Bento Gonçalves1, António Vieira2 e Francisco Costa3 1 Professor Auxiliar do Departamento de Geografia (Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho). ORCID: 0000-0002-9646-156X 2 Professor Auxiliar do Departamento de Geografia (Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho). ORCID: 0000-0001-6807-1153 3 Professor Auxiliar do Departamento de Geografia (Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho). ORCID: 0000-0001-7041-7811 86 A Proteção Civil é uma das temáticas mais presentes nos debates da atualidade nacional e internacional em diferentes escalas. Com efeito, sobretudo a partir do final do último quartel do século passado, a gestão das crises tem assumido uma importância crescente, quer como consequência da ocorrência de eventos extremos, cada vez mais recorrentes e destruidores, quer em consequência de uma muito maior divulgação mediática e de um nível muito superior de exigência, por parte da sociedade. A Proteção Civil em Portugal Em Portugal, segundo a Lei nº 27/2006, de 3 de julho (Lei de bases da Proteção Civil - alterada pela Lei Orgânica nº 1/2011, de 30 de novembro e pela Lei nº 80/2015, de 3 de agosto, que republica o diploma), proteção civil é a atividade desenvolvida pelo Estado, regiões autónomas, autarquias locais, cidadãos e por todas as entidades públicas ou privadas com a finalidade de prevenir riscos coletivos inerentes a situações de acidentes graves ou catástrofes, de atenuar os seus efeitos e de proteger as pessoas e bens em perigo quando aquelas situações ocorram. De acordo com o mesmo diploma, “o organismo responsável por planear, coordenar e executar a política portuguesa de proteção civil é a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil” (ANEPC), que, a partir de 1 de abril de 2019 (DecretoLei nº 45/2019 de 1 de abril), veio substituir a Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC), fruto de a uma reorganização/restruturação. A ANEPC prossegue atribuições no âmbito do planeamento civil de emergência, da previsão e gestão de riscos e planeamento de emergência de proteção civil, da atividade de proteção e socorro, dos recursos de proteção civil e no âmbito da atuação dos bombeiros. São vários os domínios de atuação da proteção civil: 1) levantamento, previsão, avaliação e prevenção dos riscos coletivos; 2) análise permanente das vulnerabilidades perante situações de risco; 3) informação e formação das populações, visando a sua sensibilização em matéria de autoproteção e de colaboração com as autoridades; 4) planeamento de soluções de emergência, visando a busca, o salvamento, a prestação de socorro e de assistência, bem como a evacuação, alojamento e abastecimento das populações; 4) inventariação dos recursos e meios disponíveis e dos mais facilmente mobilizáveis, ao nível local, regional e nacional; 5) estudo e divulgação de formas adequadas de proteção dos edifícios em geral, de monumentos e de outros bens culturais, de infraestruturas, do património arquivístico, de instalações de serviços essenciais, bem como do ambiente e dos recursos naturais; 6) previsão e planeamento de ações atinentes à eventualidade de isolamento de áreas afetadas por riscos. Alterações climáticas, território e riscos naturais em Portugal O The Global Risks Report 2017 (WEF, 2017) identifica os eventos climáticos extremos, a falta de água, os grandes desastres naturais e as falhas na mitigação e adaptação 87Sociedade e crise(s) às mudanças climáticas entre os principais riscos globais em termos de impacte sobre a vida e a atividade humana. Em Portugal, “as mudanças climáticas agravarão vulnerabilidades já existentes hoje, nomeadamente a pressão e perda de territórios litorais, a severidade de secas e de incêndios rurais associados a eventos extremos e condições climáticas mais adversas, bem como a suscetibilidade à desertificação” (Lei n.º 99/2019 de 5 de setembro). O aumento da temperatura, conjuntamente com a alteração dos padrões da precipitação e a subida do nível médio do mar são as principais manifestações das alterações climáticas em Portugal. Agravados pelo aumento de eventos meteorológicos extremos, os efeitos das alterações climáticas vão ter expressões territoriais muito diferenciadas, sendo também um fator de injustiça social, com consequências sobre as desigualdades intra e intergeracionais. A esta realidade soma-se o facto de, nas últimas décadas, as mudanças sociais (na família, na estrutura etária e na mobilidade residencial) terem tido uma forte expressão territorial, exibindo vulnerabilidades socio espaciais. Neste contexto, o recente Programa Nacional da Política do Ordenamento do Território (PNPOT) (Lei nº 99/2019 de 5 de setembro) reconhece que, atualmente, em Portugal, a mitigação não é suficiente para lidar com as mudanças do clima, sendo por isso fundamental reforçar a adoção de medidas de adaptação. Incorporação do conhecimento e cooperação entre instituições Na sequência dos graves incêndios de 2017, foram vários os documentos (por exemplo, a Resolução do Conselho de Ministros n.º 45-A/2020 de 16 de junho, que aprova o Plano Nacional de Gestão Integrada de Fogos Rurais ou a Resolução do Conselho de Ministros n.º 176/2018 de 18 de dezembro, que estabelece o modelo de formação na área de proteção civil) a reconhecer a carência de incorporação do conhecimento científico e técnico nas decisões operacionais. A referida Resolução do Conselho de Ministros apresenta uma reforma, assente em três princípios, o da “aproximação entre prevenção e combate”, o da “profissionalização e capacitação do sistema de gestão integrada de fogos rurais” e o da “especialização”, sendo que o terceiro exige o envolvimento das instituições académicas e científicas, com a intervenção de especialistas nas áreas relevantes, de modo a incorporar conhecimento nas ações de planeamento, prevenção e gestão de ocorrências, bem como a qualificação técnica de todos os intervenientes. Com efeito, esta Resolução define ser necessário, no âmbito dos desafios que se colocam às autoridades de proteção civil, reponderar o modelo de formação atualmente existente, fazendo-o evoluir no sentido de promover uma maior articulação entre as entidades que atuam nesta área, designadamente através da criação de um consórcio de instituições de ensino superior que desenvolvam atividade de formação ou 88 investigação nas áreas relevantes para a proteção civil, especialmente nas seguintes áreas disciplinares: Proteção Civil, Geografia e Planeamento Territorial, Engenharias e Ciências Florestais ou Naturais, Meteorologia, Oceanografia e Geofísica, Sistemas de Informação Geográfica, Ordenamento e Gestão do Território. As crises São muitas e variadas as crises que assolaram, e assolam, o nosso país ao longo dos séculos, com a ocorrência de acidentes graves (ferroviários, aéreos, industriais, …), epidemias, incêndios urbanos e florestais, inundações, secas, sismos… Com efeito, o nosso país, pela sua história, pela sua localização geográfica, pelo seu clima, pela sua orografia ou pela sua dinâmica demográfica, entre outras causas, configura-se como um território propenso à plena manifestação de múltiplos e variados riscos, especialmente no atual contexto de mudanças globais. Podemos, a título de exemplo, lembrar que muito recentemente assistimos aos mais dramáticos incêndios da história de Portugal (2017), onde perderam a vida, diretamente encurraladas pelo fogo, 116 pessoas, e que, 2020 nos trouxe uma situação igualmente dramática, a COVID-19, tendo, até outubro, falecido mais de 2100 pessoas e registando-se uma necessidade de reorganização da sociedade, tal como a conhecíamos. Ambas as crises são recorrentes, mas com um período de retorno muito diferente, pois, sem sermos exaustivos, relembramos que, Portugal, entre 1961 e 2019, sem contabilizar os bombeiros mortos em acidentes rodoviários (a caminho ou no regresso de incêndios florestais) viu perder-se a vida de 257 pessoas, sendo os anos mais dramáticos os de 1966, 1985, 1986, 2003, 2005, 2006, 2012, 2013 e 2017. Relativamente às pandemias, igualmente a título meramente exemplificativo, podemos referir a Gripe A (H1N1) ocorrida em 2009, causadora de 124 mortes (1.436 internados) e, principalmente, a Gripe Espanhola, que em Portugal ficou conhecida como a “pneumónica”, de 1918-1920, que terá sido responsável por mais de 60 mil mortos no nosso país. Com efeito, atualmente, debatemo-nos com crises que, não sendo novas na sua essência, assumem, por vezes, uma grande dimensão, porque, em parte, os riscos aumentaram em funções dos novos modos de vida, da globalização e das mudanças globais, tudo isto a par de uma nova perceção da realidade por parte da sociedade e dos cidadãos, muitas vezes condicionada pelo imediatismo das redes sociais e pela espetacularização dos dramas, promovida por muitos meios de comunicação, em particular, pelas televisões. Crises e proteção civil A proteção civil é uma responsabilidade de todos, o que se torna particularmente evidente em caso de uma qualquer ocorrência, independentemente da sua natureza, 89Sociedade e crise(s) pois, num primeiro momento, a segurança de cada um depende de cada um de nós e dos que nos estão mais próximos. A criação e assimilação de uma cultura de responsabilidade, individual e coletiva, que passa, por exemplo, por evitar comportamentos de risco, é um primeiro passo, mas essencial para que as atividades de proteção civil não se esgotem em ações de socorro e se possam focar no planeamento e na preparação e apresentem um elevado grau de prontidão. Nesse sentido, há que apostar numa sensibilização/ formação/educação contínua, orientada e adequada aos diversos “públicos-alvo”, tendo em conta fatores tão diversos como a idade, a escolaridade, o ambiente e os riscos com que podem ser confrontados. Mas, se a alteração de atitudes e comportamentos individuais e coletivos é uma área que carece de muito investimento, a estrutura institucional da proteção civil, precisa, igualmente, de ser profundamente melhorada. Com efeito, os dois exemplos de crises apresentados anteriormente, vieram mostrar profundas debilidades no âmbito da cultura de autoproteção da população e de toda a estrutura da proteção civil, demonstrando claramente que o atual sistema não está preparado para enfrentar estas novas situações, as quais, se poderão tornar mais recorrentes, ou mesmo crónicas, num futuro muito próximo. Assim, urge incorporar mais conhecimento científico e técnico nas estruturas operacionais, apostando na educação, na formação, na cooperação e na comunicação, tendo as universidades que ter um papel pró-ativo em todo este processo. Nesse sentido, a Universidade do Minho, por iniciativa do Instituto de Ciências Sociais (ICS), em parceria coma Escola de Engenharia, criou e implementou, com início em 2018/2019, a Licenciatura em Proteção Civil e Gestão do Território. Trata-se de um curso universitário alavancado no Departamento de Geografia, mas que conta com a colaboração dos restantes departamentos do ICS, diversos departamentos da Escola de Engenharia, Escola de Ciências, Escola de Direito, Escola de Enfermagem, Escola de Educação e Escola de Psicologia. O seu plano de estudos, multi e interdisciplinar, reflete uma visão da proteção civil onde a dimensão preventiva constitui a via para reduzir os efeitos das manifestações de riscos, seja pela adoção de medidas prévias, que permitam tornar os territórios mais resilientes, seja pelo reforço da implementação de medidas de adaptação, seja ainda, por uma melhor preparação de todos os envolvidos. A Universidade do Minho, com esta oferta formativa, pioneira no âmbito das instituições públicas de ensino superior, em Portugal continental, deu um primeiro passo no sentido de, no âmbito da proteção civil, contribuir para alterar o perfil dos operacionais que, sendo especialistas no “saber fazer”, poderem incorporar o “saber como” e o “saber porquê”, competências fundamentais num mundo em rápida e profunda mudança e num país profundamente fragmentado, com um importante desequilíbrio entre o litoral e o interior. 96 um papel fundamental na redução da incerteza (Verčič, Verčič & Commbs, 2019; Charoensukmongkol & Phungsoonthorn, 2020). Uma comunicação da crise eficaz permite melhorar as perceções dos colaboradores sobre as inseguranças causadas pela crise e sobre os seus impactos, pois proporciona um entendimento mais claro da situação, ajuda a lidar com as circunstâncias e aumenta potencialmente a confiança na atuação dos líderes. Na verdade, uma comunicação clara, completa e atempada ajuda os indivíduos a interpretarem um conjunto de dados e informações complexas e inusitadas. Mas uma mensagem meramente informativa não parece ser suficiente para acalmar a ansiedade individual e envolver os públicos na resolução dos problemas. Integrar os valores organizacionais e sociais no centro da comunicação de crise é, então, fundamental para desencadear respostas individualmente satisfatórias, mas também preocupadas com o bem-estar dos outros (McGuire, Cunningham, Reynolds & Matthews-Smith, 2020). Trata-se de incluir nas mensagens de crise um reconhecimento das situações pessoais e das necessidades coletivas, mesmo que a resposta à situação de emergência implique algum sacrifício individual ou organizacional. E esta abordagem, que os autores designam de “perspetiva ética” (Armitage, 2018), pode incluir uma comunicação de crise mais emocional. Emoção, emoção, emoção “O ato comunicativo de partilhar sentimentos pessoais é habitualmente contraditório às expectativas convencionais dos líderes” (McGuire et al. 2020, p. 365). Talvez por isso, a comunicação de crise nas organizações tenda a ser essencialmente informativa e normativa. Contudo, sabe-se que a expressão de emoções no contexto de mensagens de gestão de crise ajuda a superar as dificuldades (e até a reduzir os danos reputacionais). Estudos recentes sobre o uso de mensagens emocionais na relação com os públicos (internos e externos), por oposição ao uso de conteúdos neutros, mostram, por exemplo, que são benéficas na perceção que se estabelece sobre a organização antes, durante e depois da crise (De Waele, Schoofs & Claeys, 2020). As opiniões e comportamentos dos públicos em tempos de crise não são apenas moldados por factos objetivos, mas são também amplamente marcados pelo enquadramento da situação que é feito pelos média e pela própria organização, num processo que alguns autores designam de “contágio emocional” (Lu & Huang, 2018; De Waele el al., 2020). De resto, vários estudos mostraram que, quando a resposta à crise organizacional contém apelos emocionais, o público apresenta intenções comportamentais mais positivas em relação à organização em crise, quando comparadas com respostas sem apelos emocionais (Kim & Cameron, 2011). E mais, outras investigações revelam que mesmo as expressões de tristeza, vergonha ou raiva (aparentemente negativas) na comunicação de crise levam a uma reputação pós-crise mais positiva do que uma resposta racional e ausente de emoção (De Waele et al., 2020). 97Sociedade e crise(s) As emoções na comunicação de crise podem ser expressas de formas variadas. São conhecidos os exemplos frequentes de manifestações verbais de tristeza e responsabilização, que procuram criar sentimentos de empatia junto dos públicos e, desse modo, buscam conseguir o seu apoio no momento crítico; mas é igualmente importante a consideração das manifestações de comunicação não-verbal. Referimonos às expressões faciais, à postura ou ao tom de voz na comunicação face a face (mesmo que disseminada através dos média), mas também às imagens e ícones que dão vida às mensagens nos websites e nas redes sociais. Neste último caso, lembramos os conhecimentos adquiridos no campo do “design emocional”, que mostra como a criação de um design gráfico que evoque emoções pode levar a experiências de utilização muito positivas (Norman, 2004). Os estudos indicam que as expressões não-verbais de emoção parecem ter um efeito até mais forte do que as declarações verbais, porque os públicos tendem a considerar que estas são mais sinceras (Jacob et al., 2012). Neste contexto, muito se tem vindo a refletir sobre o efeito da comunicação não-verbal na construção de emoções positivas, como a empatia, junto do público-alvo. Jin e Pang (2010) consideraram até que esta abordagem empática seria “a última fronteira” a explorar na pesquisa sobre a comunicação de crise. A empatia é a capacidade ou propensão para experimentar os sentimentos de outras pessoas em sofrimento emocional e reviver esses sentimentos em si próprio. E no contexto das crises organizacionais, que estimulam emoções fortes, como ansiedade, pânico ou angústia, considera-se que os líderes e/ou mensagens com maior empatia permitem envolver mais eficazmente aqueles que vivenciam essas emoções ou aqueles que são espectadores (König, Graf-Vlachy, Bundy & Little 2020). Este é aliás um entendimento reforçado em pesquisas recentes, como um estudo realizado sobre a liderança e comunicação da Primeira-Ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, na gestão da pandemia de COVID-19 (McGuire et al. 2020). De acordo com os resultados do estudo, a abordagem empática utilizada incentivou a solidariedade entre a comunidade, a partilha de um entendimento comum sobre a situação e a convicção da necessidade de atuação coletiva na sua resolução. O tom da comunicação de Jacinda Ardern evoluiu, passando de uma fase de evocação de uma experiência partilhada da crise, para um momento de apelo à necessidade de apoio às decisões do governo, para, em última análise, procurar exprimir um posicionamento da Primeira-Ministra como cidadã comum próxima do público. Estas etapas fizeram parte de uma estratégia de comunicação assente nos eixos motivacionais da autenticidade e da acessibilidade, levada a cabo através de mensagens nos média e nas redes sociais, que retrataram a “humanidade informal da líder” (McGuire et al., 2020, p. 374)1. 1 Enquanto escrevemos este artigo, chegam notícias da reeleição de Jacinda Ardern como PrimeiraMinistra da Nova Zelândia, com maioria absoluta (17/10/2020): https://www.bbc.com/news/worldasia-54519628. Na análise destes resultados, os média avançam com referências à popularidade e liderança carismática de Ardern, que enfrentou várias situações de crise no primeiro mandato – um ataque terrorista, um desastre natural e uma pandemia global –, que geriu com “bondade e compaixão” (nas palavras da jornalista da BBC). 98 Ardern introduziu restrições sociais fortes logo no início da pandemia e, desde então, implementou medidas eficazes para testar, rastrear e isolar aqueles que apresentam sinais de contaminação. Mas o que realmente se destaca é a forma como comunica com seu país – principalmente usando a emoção para criar relação com as pessoas. Como resposta a esta política, Ardern apresenta 80% de aprovação pública, de acordo com uma pesquisa realizada pela agência neozelandesa Colmar Brunton2, o que mostra o alto nível de confiança que o país tem na sua líder. A mesma pesquisa, também indica que nove em cada dez neozelandeses estão a cumprir as medidas propostas pelo governo para desacelerar a disseminação do vírus.3 Estudos como este têm vindo a mudar a orientação das teorias de gestão de crise, que vêm acrescentando às abordagens mais técnicas outras perspetivas centradas na pertinência de promover a construção de sentido coletivo. A pandemia de COVID-19 veio, de resto, testar a liderança e as competências comunicativas dos líderes mundiais, mostrando que as melhores performances se associam a mensagens positivas e consistentes, na medida em que são capazes de inspirar a confiança e a solidariedade das populações. No enquadramento das “novas” realidades geradas pela crise, revelam-se importantes os aparelhos discursivos, as imagens de solidariedade e a informação de responsabilização e de esperança no processo de cocriação de experiências emocionais positivas. Comunicação, emoção e organização A verdade é que a Comunicação Organizacional recorre com frequência à emoção para conseguir o efeito de persuadir, ainda que as organizações tendam a ignorar os eventos emocionais que acontecem no seu seio na medida em que interferem com a lógica racional dominante. Sabe-se, contudo, que emoção constitui um estímulo crítico no comportamento organizacional, tratando-se de configurações cognitivas, motivacionais e relacionais organizadas, cujo status muda quando há transformações na relação com o ambiente. Face ao exposto, percebe-se que as organizações são, na verdade, entidades altamente emocionais (Claeys, Cauberghe & Leysen, 2013). Neste quadro, a comunicação constituiu, muitas vezes, o estímulo que gera a emoção, positiva ou negativa, dentro e fora da empresa/instituição. Por isso, cabe aos responsáveis pela comunicação atender aos efeitos emocionais das mensagens organizacionais, que levam, em alguns casos como as situações de crise, a consequências nefastas na comunidade interna, como a exaustão emocional, a desmotivação, o absentismo ou a redução de produtividade. Os efeitos emocionais da comunicação deveriam inclusive ser tidos em conta na definição das políticas de comunicação das empresas, nomeadamente as relativas à comunicação de más notícias. Nessas circunstâncias, a informação é muito relevante, mas a introdução de argumentos emocionais ou o reconhecimento dos efeitos emocionais das situações nas pessoas é essencial. Procurar evitar as emoções não parece ser realista e as organizações têm de aceitar essa realidade. Mas atuar e comunicar com transparência, 2 Ver https://static.colmarbrunton.co.nz/wp-content/uploads/2019/05/CB-COVID-Times_8-April-2020.pdf 3 Ver https://www.ekoapp.com/blog/crisis-communication-3-things-business-leaders-can-learn- -from-new-zealands-prime-minister-jacinda-ardern 99Sociedade e crise(s) integridade e confiança parece ser o caminho para tranquilizar as pessoas e a envolvê-las na solução de uma crise ou na vida organizacional regular. Nesta medida, cabe também à comunicação a gestão das emoções no seio da comunidade organizacional (Zagelmeyer, Sinkovics, Sinkovics & Kusstatscher, 2018). Mas a Comunicação de Crise só recentemente começou a estudar o papel das emoções na gestão da relação com os públicos (Coombs & Holladay, 2005). Numa crise, consoante o conflito que surge entre os públicos e a organização, as emoções são uma âncora na interpretação que os stakeholders fazem sobre os eventos. E o seu uso na comunicação tem em vista a introdução da persuasão na mensagem organizacional, com o propósito de moderar o impacto da crise nas atitudes dos públicos (Jin, Pang & Cameron, 2007). Os profissionais de comunicação demoraram a reconhecer a importância dos apelos emocionais como opções tão válidas quanto os argumentos racionais nas estratégias de resposta às crises. Mas hoje advogam que ao comunicar emoções, uma organização mostra a sua face humana e empática. Já a falta de emoções parece ser interpretada pelo público como um sinal negativo. Uma resposta distanciada e sem emoção implica a ausência de envolvimento organizacional, de sinceridade e pode ser percebida como fria. Enquanto a emoção pode desencadear uma reação cognitiva empática (van der Meer & Verhoeven, 2014; De Waele et al., 2020). Conclusões Em 1994, o neurocientista português António Damásio alertou para o papel central das emoções na vida humana e afirmou: “é este o erro de Descartes: … a separação das operações mais refinadas da mente, para um lado, e da estrutura e funcionamento do organismo biológico, para outro” (Damásio, 1994, p. 255). No seguimento de outros estudos, Damásio argumentou e demonstrou que a memória emocional é central à tomada de decisão dos seres humanos e com isso revolucionou o modo de pensar o papel da razão e da emoção nas sociedades. E, também, as estratégias de comunicação conseguiram incorporar este novo conhecimento. Os profissionais e estudiosos da Comunicação Organizacional, admitindo que as campanhas podem ser informativas e/ou persuasivas, perceberam ainda que estas têm de ser sempre “emocionalmente competentes” para promover a compra de produtos/serviços, conduzir a mudanças comportamentais ou cocriar interpretações partilhadas da realidade. Portanto, encerrando a reflexão deste texto, sobre a presença da emoção na comunicação de crise a partir dos estudos sobre a COVID-19, diríamos que esta constitui o elemento-chave para que as organizações consigam influenciar a tomada de decisão dos públicos. Como nos mostra a literatura que percorremos e o caso de comunicação política analisado, a comunicação de crise para ser eficaz – no sentido de ajudar os cidadãos a lidar com situações dramáticas e as organizações a gerirem o imprevisto – precisa de incluir informações claras sobre as circunstâncias que conduziram à crise e sobre as condições da sua superação, mas necessita igualmente de integrar elementos de empatia que projetem os sentimentos de todos e ajudem a 100 lidar com a incerteza. Ou seja, razão e emoção são elementos a considerar sempre na composição da mensagem de crise, enquanto fatores fundamentais na compreensão da realidade, na construção de um sentido coletivo para os acontecimentos e na cocriação de experiências positivas em situações de crise. O papel da comunicação emocional na resposta às crises organizacionais é, portanto, o de promover uma partilha ampla das circunstâncias que preocupam indivíduos e empresas/instituições, num processo de envolvimento coletivo. E a pandemia de COVID-19, que vivemos hoje, é um exemplo claro deste desafio racional-emocional que enfrentamos. Neste ano de celebração do 44º aniversário do Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho, lembraria (e citando o título do artigo de Fowler, 2020) que “curar o coronavírus não é uma tarefa dos Cientistas Sociais”, mas o trabalho que têm vindo a fazer nos últimos meses, como o que fazem regular e sustentadamente há décadas, permite criar sociedades mais conscientes e preparar populações mais resilientes para enfrentar inevitáveis crises. Referências Armitage, A. (2018). Is HRD in need of an ethics of care? Human Resource Development International, 21(3), 212-231. https://doi.org/10.1080/13678868.2017.1366176 Charoensukmongkol, P. & Phungsoonthorn, T. (2020). The interaction effect of crisis communication and social support on the emotional exhaustion of university employees during the COVID-19 crisis. International Journal of Business Communication, 1-18. https://doi.org/10.1177/2329488420953188 Claeys, A. S., Cauberghe, V., & Leysen, J. (2013). Implications of stealing thunder for the impact of expressing emotions in organizational crisis communication. Journal of Applied Communication Research, 41(3), 293-308. https://doi.org/10.1080/00909882.2013.806991 Coombs, W. T. (2014). Ongoing crisis communication: planning, managing, and responding. EUA: Sage Publications. Coombs, W. T. & Holladay, S. J. (2005). An exploratory study of stakeholder emotions: Affect and crises. Research on Emotion in Organizations, 1(5), 263-280. https://doi.org/10.1016/S1746-9791(05)01111-9 Damásio, A. R. (1994). O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. Lisboa: Publicações Europa- -América. De Waele, A., Schoofs, L. & Claeys, A. S. (2020). The power of empathy: the dual impacts of an emotional voice in organizational crisis communication. Journal of Applied Communication Research, 48(3), 350-371. https://doi.org/10.1080/00909882.2020.1750669 El Mohadab, M., Bouikhalene, B. & Safi, S. (2020). Bibliometric method for mapping the state of the art of scientific production in Covid-19. Chaos, Solitons & Fractals, 139, 1-16. https://doi.org/10.1016/j. chaos.2020.110052 Fowler, A. (2020, 3 de maio). Curing coronavirus isn’t a job for social scientists. Bloomberg. https://www. bloombergquint.com/gadfly/crises-like-coronavirus-are-bad-for-social-sciences Galea, S. (2020, 7 de maio). Social scientists can play a key role in stopping the coronavirus. Times Higher Education. https://www.timeshighereducation.com/opinion/social-scientists-can-play-key-role-stopping-coronavirus Jacob, H., Kreifelts, B., Brück, C., Erb, M., Hösl, F. & Wildgruber, D. (2012). Cerebral integration of verbal and nonverbal emotional cues: Impact of individual nonverbal dominance. NeuroImage, 61(3), 738–747. https://doi.org/10.1016/j.neuroimage.2012.03.085 101Sociedade e crise(s) Jin, Y. & Pang, A. (2010). Future directions of crisis communication research: emotions in crisis – The next frontier. In W. T. Coombs & S. J. Holladay (Eds.), Handbook of crisis communication (pp. 677-682), USA: John Wiley & Sons. https://doi.org/10.1002/9781444314885.ch33 Jin, Y., Pang, A. & Cameron, G. T. (2007). Integrated crisis mapping: toward a publics-based, emotion-driven conceptualization in crisis communication. Sphera Publica, 7, 81-96. https://ink.library.smu.edu.sg/cgi/ viewcontent.cgi?article=7033&context=lkcsb_research Kim, H. J., & Cameron, G. T. (2011). Emotions matter in crisis: The role of anger and sadness in the publics’ response to crisis news framing and corporate crisis response. Communication Research, 38(6), 826-855. https://doi.org/10.1177/0093650210385813 Knight, M. (2020). Pandemic communication: a new challenge for higher education. 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Tkalac Verčič, A., Verčič, D. & Coombs, W. T. (2019). Convergence of crisis response strategy and source credibility: who can you trust? Journal of Contingencies and Crisis Management, 27(1), 28-37. https://doi. org/10.1111/1468-5973.12229 van der Meer, T. G. & Verhoeven, J. W. (2014). Emotional crisis communication. Public Relations Review, 40(3), 526-536. https://doi.org/10.1016/j.pubrev.2014.03.004 Zagelmeyer, S., Sinkovics, R. R., Sinkovics, N. & Kusstatscher, V. (2018). Exploring the link between management communication and emotions in mergers and acquisitions. Canadian Journal of Administrative Sciences/Revue Canadienne des Sciences de l’Administration, 35(1), 93-106. https://doi.org/10.1002/ cjas.1382 Crise e transformação – um ensaio sobre os catalisadores da mudança Sara Balonas Professora Auxiliar do Departamento de Ciências da Comunicação (Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho). ORCID: 0000-0003-0885-1718 104 A ser possível encontrar um lado positivo numa crise, será o facto de esta poder trazer novas soluções com potencial de transformação dos diversos modos de ver e de viver em sociedade. Deste modo, uma crise como a que o mundo atravessa em 2020, absolutamente inédita, pode ser um agente catalisador de mudanças societais. Como escreveu em tempos Diogo Vasconcelos, uma crise deve ser um momento de criatividade social (2010, p. 33). Com a pandemia a irromper abruptamente em Portugal, viveram-se os primeiros meses entre a perplexidade, o medo perante o desconhecido e o improviso, reações plasmadas nas medidas, nas ações e nos comportamentos. No que diz respeito aos cidadãos, desde a rutura de stocks em supermercados à corrida às farmácias, o instinto de sobrevivência ecoou, no país e um pouco por todo o mundo. As grandes instituições, entre as quais o Governo, passaram a viver em permanente estado de crise, numa sucessão de medidas em modo “penso rápido”, por diversas vezes marcadas pela tentativa e erro. O setor privado, de um modo geral, terá sido ágil na adaptação, encerrando instalações (ou restringindo o seu acesso) e recorrendo ao teletrabalho. Hospitais, escolas e lares, entre tantas instituições vitais ao ecossistema social, debateram-se (e debatem-se) com as fragilidades há muito percebidas e agora expostas pelo minúsculo vírus. À vertigem galopante dos números, cidadãos e instituições reagiram, ora ficando perfeitamente perplexos e petrificados, ora inovando. E é sobre estes últimos que trata este texto. Sobre a capacidade daqueles que, perante a adversidade, procuram soluções, superam preconceitos e ideias feitas, testam limites, arriscando e ousando soluções. Reagir, improvisando já é, em si, um ato criativo. Comecemos, então, por procurar compreender o que é a criatividade. No período da Renascença, o indivíduo era reconhecido como capaz de criar, porém, tal era tido como capacidade apenas reservada a “grandes homens” (Albert & Runco, 1999). Wallas (1962) dá um importante contributo para a dessacralização do conceito de criatividade: considerava-a parte do processo evolutivo, permitindo aos humanos adaptarem-se rapidamente a alterações de ambientes. Por conseguinte, a criatividade pode ser uma propriedade da qual todos podemos ser detentores, e não apanágio de uma elite de iluminados. Hoje facilmente reconhecemos que a criatividade está não apenas nas artes e na literatura, mas também nas áreas científicas, nos meios de comunicação, no mundo empresarial, nas indústrias e até nos governos. Richard Florida (2002) dá outro tipo de contributo ao distinguir três tipos de criatividade: a criatividade tecnológica (invenção), a criatividade económica (empreendedorismo) e a criatividade cultural/ artística. Estamos, deste modo, perante um conceito multidimensional. Mas, o que é, a sua essência, a criatividade? Certos autores convergem na ideia de que a criatividade ou a invenção é ver o que todos viram e pensar o que ninguém pensou, como Einstein e Feynman. Mas será também o processo de trazer algo de novo, que estaria escondido e que aponta para novas vias, como anota May (1975). Afinal, no fio do tempo e da evolução da sociedade, criatividade é isso: partir em busca de soluções. Que podem, por sua vez, trazer novos problemas. A diferença é que são novos, como dizia Steve Jobs. Por conseguinte, a criatividade é um recurso inestimável, contínuo, na roda da transformação. 105Sociedade e crise(s) Daniel Pink (2005) defende mesmo que estamos a entrar numa era em que a criatividade está a ganhar importância, numa era em que precisamos de alimentar e encorajar o lado direito do cérebro (da criatividade e da emoção) mais do que o lado esquerdo (do pensamento lógico e analítico). E isso é um sinal de esperança. Relacionando este poder inventivo com o atual contexto de crise pandémica, o que está em causa é valorizar soluções, provavelmente nunca antes testadas (porque os problemas são novos), como parte da resposta à encruzilhada da contemporaneidade. E aqui se colocam algumas questões: quem são os geradores de soluções, os catalisadores da mudança? Será um papel reservado ao Estado, aos cientistas, aos “iluminados”? Na verdade, assistimos a movimentos em diferentes escalas. Observando a crise de 2020, quem está neste turbilhão de transformação? Por um lado, os cidadãos. Os novos cidadãos, mais informados, mais sofisticados, mas também mais desconfiados em relação às instituições (Edelman Trust Barometer, 2019). Mas, por outro lado, mais participativos no sentido da cooperação (Innerarity, 2006, p. 241), disponíveis para participar em novos modelos de agir em sociedade. E a reagir a apelos de caráter humanitário ou social. No primeiro semestre do ano, assistimos a iniciativas dispersas mas muito significativas: redes de anónimos juntaram verbas por crowfunding , ou via redes sociais, para aquisição de equipamentos para hospitais públicos; vizinhos criaram sistemas de compras comunitárias rotativas para evitar idas ao supermercado e minimizar riscos de contágio; empresários transformaram tecidos de vela de barcos em material de proteção; produtores de vinho produziram álcool a partir dos processos dedicados ao vinho. Um pouco por todo o lado, surgiram novas ideias, como a instalação de ultravioleta para desinfeção de espaços e superfícies ou algo tão simples como o recurso a ipads nos lares para combater o isolamento dos idosos, pondo-os em contacto com os familiares em direto. Ou, ainda, uma empresa laboratorial a lançar um centro de rastreio de testes COVID em modo drive-in, entre tantos outros exemplos de inovação e resiliência. A capacidade de gerar respostas também se fez notar ao nível do poder local. E, neste aspeto, autarquias e juntas de freguesias inscrevem-se no que podemos rotular de inovadores sociais, demonstrando o quão relevantes são por conhecerem o tecido social local. A título meramente exemplificativo, em poucos dias, uma autarquia montou um hospital de recurso, como retaguarda aos hospitais públicos que servem a região e face à sobrelotação esperada, dinamizando contactos com os mais diversos atores – de empresas a instituições públicas ou recorrendo ao voluntariado cidadão. Freguesias criaram redes de apoio a idosos, através da captação de voluntários para prestação de cuidados ao domicílio, entrega de medicamentos ou, simplesmente, para reduzir a solidão provocada pelo isolamento. Estas formas de ação, em pequena ou em maior escala, são respostas que indiciam a erosão do Estado Social, nomeadamente a falência da sua capacidade em corresponder aos desafios societais, algo que Innerarity identifica como a “ingovernabilidade” do Estado a partir dos anos 60, fazendo com que as tarefas que “já não podia executar satisfatoriamente fossem delegadas noutras instâncias, como na economia privada ou nas organizações da sociedade civil” (Innerarity, 2006, p.233). Sugere ainda o autor que a tarefa fundamental da política e do Estado na 112 valorizada uma comunicação integrada, para que a presença e legitimidade da organização apareça em diferentes média. A divisão entre gestão operacional de crise e gestão de comunicação de crise é relevante, tendo os comunicadores de estar muito atentos a essas definições. Na perturbação que estamos a viver atualmente, com a COVID-19, esta poderia ser classificada como uma crise natural, pelas dimensões tecnológicas que tem englobado; poderia também compreender outras tipologias de crise, de acordo com as instituições e as tecnologias, sejam elas relacionadas com aspetos tecnológicos, como o de confronto, ou de malevolência. A comunicação pode responder às crises nos média sociais. Para se implementar o procedimento de comunicação, uma crise não pode ser entendida como um evento, mas como um processo, que tem começo, meio e fim. Neste sentido, devem ser pensados cenários, para gerir uma crise e preparar a organização. Atualmente, as instituições utilizam novos modelos de pedidos de desculpas, assumindo a responsabilidade, tal como algumas organizações fizeram (por exemplo, a Volkswagen internacional ou a Vale do Rio Doce no Brasil). O comunicador será uma das figuras mais importantes em todos os processos, será ele que fará a distribuição de informações para os seus públicos preferenciais. Assim, o que deve fazer o comunicador na gestão de crise nos média sociais? Reunir informação, evitar a ausência de conhecimento quando for questionado, não se apressar em comunicar, determinar formatos, reuniões, monitorizar os média sociais, conhecer bem as políticas da empresa, propor, por exemplo, planos de ação para que a imagem da organização seja relançada. Por outro lado, o comunicador não deve informar sem o aviso prévio do comité de gestão de crise, não pode permitir que os membros do comité comecem a falar para os diversos canais dos meios sociais, não pode comunicar apenas aos meios amigáveis, tem de comunicar a todos os meios, nunca fazer reserva sobre dados fundamentais para minimizar o acontecimento, deve ser sensível aos momentos que estamos a viver e a assistir, bem como ter cuidado com o off the record. Então as crises podem serem apresentadas como oportunidades, funcionando como um relançamento da imagem. Portanto, neste caso, o comunicador deve ter os dados de todos os membros da gestão, os contactos de todos os eventuais envolvidos numa crise e planos de ação com todos os cenários que possam ocorrer, relatórios de outras crises e documentos prontos, fotos, posts, comunicados de imprensa, no modelo tradicional e no digital. Assim, entre as ações preventivas para as crises no espaço digital, propomos, um site de standby, pronto a usar num momento de crise. Durante o período de turbulência vai ser mais difícil ter tempo para criar o site. Portanto, esse site de standby deve estar preparado com antecedência. Um outro aspeto a ter em conta é a monitorização das redes, que é complementar ao serviço de clipping, no entanto, essa supervisão deve ser constante na gestão de crises. 113Sociedade e crise(s) Um modelo de gestão de crise no espaço dos média sociais é um modelo piramidal. A Pirâmide das Relações Públicas é uma tentativa de resposta às crises (Dias & Andrade, 2015). Toda a manutenção de gestão de um meio social, pode ser gerida pelo marketing, e, em momentos de crise, pelas Relações Públicas, em situações de informação com a comunidade. Esse é o diálogo que a comunicação mais simétrica propõe. Em resposta às crises nos média sociais, assistimos ao fenómeno de “Cancelamento na Web”. Cancelar uma empresa ou uma personalidade tornou-se uma prática nos média sociais. A “cultura do cancelamento” foi eleita como o termo do ano 2019 no Dicionário Macquarie. Assim, são “excluídos da sociedade” determinados grupos ou utilizadores, deixando de existir no espaço digital, não permitindo que sigam a comunicação sem punição, sem novas crises. Este novo modelo para a gestão de crise nos média sociais em paralelo com a evolução tecnológica muda com as exigências e transformações sociais. A comunicação estratégica passa a ser pensada, não somente para responder às necessidades de um público interno e externo, ou públicos preferenciais e secundários, mas para um público misto onde são pensados os novos desafios da comunicação organizacional. É nos diálogos que o público misto vivencia, partilha e interage com essa proposta. Vivemos um período em que as câmaras estão espalhadas por todo o lado, a denominada “sociedade do ecrã”, um este conceito que vai ao encontro da ideia do ator Will Smith que em 2016 defendeu que “o racismo não está a piorar, está a ser filmado”. As tecnologias de informação e comunicação, o crescimento populacional e as novas ideias de gestão provocam impacto na maneira como as pessoas comunicam dentro e fora das organizações e instituições. Atualmente, a comunicação abrange muitos níveis organizacionais, envolvendo os públicos internos, externos e mistos. Assim, a comunicação das organizações e instituições nos média sociais deve constituir-se como um setor estratégico, agregando valores e facilitando os processos interativos, da comunicação organizacional com os seus diferentes públicos. Referências Castells, M. (2005). A sociedade em rede. Volume 1: A era da informação: economia, sociedade e cultura. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. Castells, M. (2009). Communication power. Oxford: Oxford University Press. Dias, P. & Andrade, J. G. (2015). Desafios das RP na era dos média sociais. In G. Gonçalves & F. Lisboa Filho (Eds.), Novos media e novos públicos (pp. 83-108). Covilhã: LabCom. Jenkins, H. (2006). The convergence culture – Where Ood and new media collide. Nova Iorque: New York University Press. McLuhan, M. (1995). Understanding media. Massachusets: MIT Press. As metáforas guerreiras na crise da COVID-19 Jean-Martin Rabot Professor Auxiliar do Departamento de Sociologia (Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho). ORCID: 0000-0001-7688-3186 116 As metáforas guerreiras insinuaram-se nos discursos sobre a crise da Covid logo após o anúncio, embora tardio, do surgimento de um vírus desconhecido na cidade de Wuhan, na China. Fazendo apelo à heroicização de figuras sacrificiais, o léxico de combate contra o vírus retoma as fórmulas consagradas que soam como um eterno refrão. Assim, a própria medicina tornou-se uma medicina de guerra com a construção precipitada de hospitais de campanha. O Presidente chinês, Xi Jinping, anunciou, em finais de janeiro de 2020, “a mobilização de todas as forças” contra o vírus, dizendo também que a China é capaz de “vencer a batalha” contra o vírus, indicando até o caminho a seguir: “face à situação grave de uma epidemia que está em fase de aceleração (…), é necessário reforçar a direção centralizada e unificada do Comité central do Partido” (citado no Paris Match, Coronavirus: Xi Jinping affirme que l’épidémie “s’accélère” en Chine, 2020). Em inícios de fevereiro, Xi Jinping falou ainda de “guerra contra o demónio” e de “guerra do povo” contra o coronavírus. Pudemos ler num tweet do canal China Global Television que Liang Wudong, o médico que acabou por falecer após ter contraído o vírus, estava “na primeira linha” quando a epidemia despoletou em Wuhan. Pudemos ler, também, que milhares de médicos e enfermeiros foram enviados para a “frente”, em Wuhan. Na edição francesa do órgão de comunicação chinês People’s Daily, pode-se ler uma reflexão que condiz com a dramaturgia ambiente: “trata-se não apenas de uma luta para prevenir a epidemia, mas também de uma batalha especial para proteger o espírito da civilização humana” (Yin, 2020). Nem mais! Donald Trump, por sua vez, anunciou ser “um presidente em tempos de guerra”. Emmanuel Macron deixou-nos entender que “estamos em guerra”. Marcelo Rebelo de Sousa, o Presidente português, não ficou aquém, ao afirmar, adotando a forma tautológica que a situação excecional em que nos encontramos exige: “Esta é uma guerra! Porque é de uma guerra que se trata” (Sá, 2020). Poderíamos multiplicar os exemplos até ao infinito e assinalar ainda que Macron se referiu explicitamente à noção de “união sagrada” utilizada por Raymond Poincaré, o então Presidente francês, nos inícios da Primeira Guerra Mundial. Podemos interrogar-nos sobre o significado da utilização de uma linguagem referente à guerra na atual situação de pandemia e tentar compreender por que razão “os dois conflitos que devastaram o planeta em pleno coração do século precedente ressurgem nos espíritos e nos corações” (Jeanneney, 2020, p. 6). Tanto mais que, mesmo que os números de vítimas mortais sejam amplamente subestimados (oficialmente 4.746 mortos na China, em 6 de outubro de 2020, e 1.156.438 mortos, em 25 de outubro de 2020, a nível mundial), esta pandemia, que começou sensivelmente há um ano, é relativamente pouco mortífera, se a compararmos com as epidemias do passado. As epidemias passadas atingiram precisamente populações já exangues por longas guerras e por longos períodos de fome. Para dar exemplos concretos, a chamada peste de Atenas, provavelmente uma febre tifoide, relatada pelo historiador Tucídides na sua obra História da guerra do Peloponeso, dizimou dezenas de milhares de atenienses, mais ou menos um terço da sua população, dos quais Péricles, entre os anos 430 e 426 (a. C.), em plena guerra que opôs os espartanos aos atenienses, guerra essa que durou de 431 a 404, com 117Sociedade e crise(s) alguns anos de tréguas pelo meio. Basta referir um excerto da obra de Tucídides para dar conta da violência destrutiva da doença: ninguém, em parte alguma, se lembrava de um flagelo semelhante e de vítimas tão numerosas. Os médicos estavam impotentes, pois, no início, ignoravam tudo da doença; para além disto, estando em estreito contacto com os doentes, ficaram mais particularmente atingidos. Toda a ciência humana era ineficaz; em vão, multiplicavam-se as suplicações nos templos; em vão, recorriam aos oráculos ou a práticas semelhantes; tudo era inútil; finalmente desistiram, vencidos pelo flagelo. (…) A doença, impossível de descrever, assolava com uma violência que desorientava a natureza. (Tucídides, 1982, I, pp. 140-142) A peste de Justiniano alastrou-se em toda a bacia mediterrânica, do ano 541 ao ano 767, conhecendo um pico em 592 e tendo matado aproximadamente entre um terço e a metade da população. Apareceu num momento conturbado de guerras expansionistas, por meio das quais Justiniano pretendia reunificar o império romano. Grégoire de Tours, na sua Histoire des Francs, refere-se às cidades de Arles, em 549, “cruelmente despovoada”, e de Clermont, em 567, como tendo num “certo domingo, 300 cadáveres na catedral” (citado em Brossolet, 1991, p. 546). A peste negra, que se abateu sobre a Europa entre 1347 e 1352, fez entre 25 e 40 milhões de mortos, dizimando entre um terço e a metade da população deste continente. Pela sua importância e pela aura de que goza ainda hoje em dia no imaginário popular, esta peste revestiu vários nomes: grande pestilência, grande mortandade, doença dos inchaços, doença das virilhas, peste universal ou ainda morte negra. A peste ocorreu em plena Guerra dos Cem Anos, que se estendeu de 1337 a 1453, guerra essa que opôs o reino de França ao de Inglaterra e que coincidiu também com a grande fome de 1347, que assolou o continente europeu na sua quase totalidade. Boccace, o célebre escritor florentino, relatou-nos os dados sem rodeios: quantos homens valentes, quantas belas damas, quantos graciosos jovens, que qualquer um e mesmo Galiano, Hipócrates, Esculápio teriam julgado em boa saúde, almoçavam de manhã com os seus país, companheiros e amigos e, à noite, jantavam no outro mundo com os seus antepassados. (Boccace, 2006, p. 47) Podemos ainda referir a epidemia de gripe espanhola que assolou o mundo de 2018 a 2020, ceifando à volta de cinquenta milhões de vidas e prolongando a carnificina da Primeira Guerra Mundial. À luz destes dados, podemos interrogar-nos sobre o significado do recurso a uma linguagem que se refere explicitamente à guerra, na luta contra o coronavírus, numa altura em que não estamos em guerra, em que não conhecemos fomes, em que os Estados-providência colmatam as perdas suscitadas pelas situações de doença e de desemprego. E podemos interrogar-nos sobre o significado de uma guerra nestas circunstâncias: concordemos, porém, que se trata de uma guerra estranha, em que o comandante-chefe tem como palavra de ordem: “escondam-se”; em que uma mobilização nos manda parar; em que nos apelam a não mais formar uma sociedade para formar uma nação, a isolar-nos para ficarmos juntos e a separar os corpos uns dos outros para nos aproximarmos deles em espírito. (Debray, 2020) 118 De um ponto de vista sociológico, esta interrogação não nos parece infundada. Talvez possamos invocar a situação de medo continuado que se deve à ausência de males reais, em sociedades enraizadas no liberalismo económico e no pluralismo político, governadas pelo processo da “securização” da vida. O mal, quer se chame doença ou terrorismo, é essa tendência residual que, nas nossas sociedades, não encontra mais nenhuma possibilidade de expressão. Recalcado, poderá ressurgir de forma paroxística e explosiva em qualquer altura e, enquanto não explodir, entorpecer o indivíduo no medo. Sintomático desse medo é o pânico gerado na população parisiense pela simples detonação de um avião supersónico a sobrevoar a cidade, em 30 de agosto de 2020. E é verdade que o 11 de setembro, bem como a COVID-19, nos apanharam de surpresa e soam como uma negação contundente das mais loucas esperanças que colocamos na proteção de Estados superpoderosos e nos progressos ilimitados em matéria de medicina. Tornamo-nos muito fracos em matéria de energia satânica, irónica, polémica e antagónica, tornamo-nos sociedades fanaticamente moles ou molemente fanáticas. Ao perseguir a parte maldita dentro de nós e ao deixar brilhar apenas os valores positivos, tornamo-nos dramaticamente vulneráveis ao menor ataque viral... (Baudrillard, 1990, p. 89) Podemos analisar e desmistificar as metáforas da guerra na presente pandemia, como o fez a ensaísta Susan Sontag acerca das metáforas da doença, no livro La maladie comme métaphore (1979). À metáfora patológica sucede, nos nossos dias, a metáfora guerreira. Em ambos os casos, uma figura retórica serve para designar o mal de que sofre a sociedade, para nomear e diabolizar um inimigo cuja perigosidade é proporcional à sua invisibilidade, para sublimar os medos adormecidos no fundo das nossas mentes, adaptando-se às necessidades ideológicas da época e às veleidades de poder que animam os políticos de todos os tempos e de todos os horizontes. A doença fica submetida a uma alteração de significado quando se lhe enxerta uma dimensão simbólica de que não dispõe à partida, quando se lhe conferem atributos que traduzem os disfuncionamentos societais, a partir de considerações morais ou ideológicas. As expressões de uma guerra contra inimigos invisíveis sempre serviram para mobilizar os espíritos contra os perigos virtuais ou reais, potenciais ou atuais. Em tempos de COVId-19, estas expressões são objeto de uma requisição massiva por parte dos poderes políticos para legitimar a imposição de medidas drásticas de contingência e de emergência. O recurso à metáfora guerreira acaba por desencadear uma guerra contra si próprio, exigindo do indivíduo que domine e reprima as suas pulsões gregárias: o desejo de beber um copo entre amigos, o desejo de prestar uma última homenagem a um ente desaparecido, o desejo de visitar um familiar num lar, o desejo de manifestar publicamente a sua alegria num estádio de futebol ou ainda o desejo de entrar em comunhão com os outros numa sala de concerto, num restaurante ou num bar. Sintomática dessa mania de enquadrilhamento social e espacial foram as palavras do prefeito de Paris, Didier Lallement, desejoso de controlar a ordem social e espacial, ao referir-se a uma guerra “cuja frente está em cada um de nós” (citado em Demoulin, 2020). É esta ideia de uma guerra contra nós próprios que subjaz ao sábio conselho que o Reitor da Universidade deu à comunidade académica da 119Sociedade e crise(s) Universidade do Minho, numa “Nota Informativa/COVID-19/Ponto de Situação”, num mail enviado em 16 de outubro de 2020: “todos somos agentes da saúde pública!”. Os apelos à responsabilidade individual, tal como as críticas à inconsciência de comportamentos desrespeitadores das medidas do Estado de Emergência, remetem para uma caça ao animal gregário que está em todos nós, para uma generalização da noção de inimigo, que tanto diz respeito ao indivíduos como à sociedade em geral, e ainda para uma culpabilização e uma criminalização do inimigo: “todos aqueles que nos lindos bairros como nos subúrbios violam as regras sanitárias insultam a ciência e traem a República” (Perri, 2020). É ao endeusar a ciência e a República “una e indivisível” que os apologistas da ditadura político-sanitária procuram legitimar-se. Do nosso ponto de vista, são os valores da pós-modernidade, cuja figura mítica é a de Dioniso, um deus com múltiplos rostos, incarnando as efervescências coletivas e os prazeres da vida, que estão a ser reprimidos. Ilustrativo desse facto são os discursos políticos que enaltecem de forma antecipada as virtudes profiláticas e curativas do recolher obrigatório, numa altura em que as medidas de confinamento, de distanciamento social e de generalização do uso das máscaras falharam os objetivos fixados. A guerra é dual, dividindo o campo em amigos e inimigos, como no-lo dizia Carl von Clausewitz, que morreu com a epidemia de cólera, em 1831. E mais, Clausewitz acrescenta que a guerra é o meio pelo qual se realizam os fins políticos: “a guerra não é apenas um ato político, mas um verdadeiro instrumento político, uma continuação das relações políticas, uma realização destas por outros meios” (1980, p. 67). O que o eminente pensador alemão diz da guerra podemos dizê-lo dos discursos de guerra: são duais e um instrumento político para a justificação e a realização de determinados fins. Desse jeito, a metáfora guerreira na luta contra a COVID-19 está em sintonia com a visão apocalíptica cristã que era vivida nos termos dualistas de uma irremediável luta do bem contra o mal, sendo que pertencia a cada um nomear o seu inimigo, a sua “besta... com dez chifres e sete cabeças e nos seus chifres dez tiaras e nas suas cabeças nomes blasfematórios”, como nos é dito na Bíblia, no Apocalipse de João (Ap. 13: 1). Na atual crise, a doença reveste a figura do caos ou do pecado, que encontramos respetivamente na mitologia grega e na religião cristã, ou ainda a da “patologia técnica”, para referir uma expressão do filósofo francês Jean-Claude Beaune (1998, p. 23). Na luta contra um inimigo invisível, são as reuniões em família, as socializações entre jovens, os agrupamentos entre amigos, à semelhança dos ajuntamentos desportivos, musicais e outros que estão em linha de mira, como se o vírus não se transmitisse em contexto laboral ou nos transportes públicos que os trabalhadores utilizam, como se o vírus fosse apenas contagioso de noite. Sintomáticas desta visão são as medidas adotadas em Portugal, com a proibição das deslocações entre concelhos, entre 30 de outubro e 3 de novembro, por causa do feriado do Dia de Todos os Santos e do Dia de Finados. Sintomáticas desta visão são também as últimas medidas adotadas em França, que submeteram 46 milhões de franceses 120 ao recolher obrigatório entre as 21 horas da noite e as seis horas da manhã e que sujeitaram toda a população a um novo confinamento geral, com exceção para os trabalhadores. Vemos que a mobilização total contra o vírus não é mais do que a encenação de uma “mobilização do mundo por meio da Figura do Trabalhador” (Jünger, 1989, p. 197). Com efeito, estas medidas significam um retorno ao prometeísmo da modernidade. Ora, o atual prometeísmo, cego pela luz do dia e das suas promessas de libertação de redenção, não leva em consideração o simbolismo noturno, as imagens que são associadas ao regime noturno, sobre as quais se debruçou o antropólogo francês do imaginário, Gilbert Durand. Este lembra-nos que “a noite se torna, pelo contrário, o lugar privilegiado da incompreensível comunhão, [que] ela é jubilação dionisíaca” (Durand, 1979, p. 249). O atual prometeísmo esqueceu-se da profunda reflexão de Jorge Luis Borges (2016, p. 514): “ao longo das gerações, os homens erigiram a noite”. Por outras palavras, estas propostas, que pretendem liquidar a noite, deixam antever uma série de desobediências civis e de resistências contra a ditadura sanitária do Estado, contra “uma oligarquia político-mediática [que] se empenha, ao pretexto de uma crise sanitária, em manter a todo custo um individualismo exacerbado, que de forma alguma corresponde ao desejo profundo das tribos pós-modernas” (Maffesoli, 2020). Depois da intervenção do Presidente Macron que instaurava o recolher obrigatório, numa sondagem realizada para o canal informativo francês LCI, 6 % dos inquiridos declaravam que não iriam respeitá-lo, enquanto 16 % dos inquiridos afirmavam que o respeitariam, “outorgando-se algumas exceções” (Lenoir, 2020). É bem sabido que não há regras sem exceções. É sabido também que as exceções de hoje serão as regras de amanhã. Referências Baudrillard, J. (1990). La transparence du mal. Essai sur les phénomènes extrêmes. Paris: Galilée. Beaune, J. C. (1998). Philosophie des milieux techniques. La matière, l’instrument, l’automate. Seyssel: Éditions Champ Vallon. Boccace (2006). Le Décaméron. Paris: Gallimard/Folio. Borges, J. L. (2016). Poesía completa. Madrid: Editora Debolsillo. Brosselet, J. (1991). Épidémies dans l’Antiquité. In J. L. Miège, J. Brosselet & G. Duby (Eds.), Épidémies. Encyclopædia Universalis, Tomo 8 (pp. 544-553). Paris: Encyclopædia Universalis Éditeur. Clausewitz, C. V. (1980). De la guerre. Paris: Les Éditions de Minuit. Coronavirus: Xi Jinping affirme que l’épidémie “s’accélère” en Chine (2020, 25 de janeiro). Paris Match. https://www.parismatch.com/Actu/International/Xi-Jinping-affirme-que-l-epidemie-s-accelere-en-Chine-1670631 Debray, R. (2020, 19 de março). Quitte ou double. Marianne. https://www.marianne.net/agora/humeurs/ quitte-ou-double-par-regis-debray Demoulin, C. (2020, 19 de março). Drôle de déclaration de guerre... Libération. https://www.liberation.fr/ debats/2020/03/19/drole-de-declaration-de-guerre_1782230 Durand, G. (1979). Les structures anthropologiques de l’imaginaire. Paris: Bordas. 121Sociedade e crise(s) Jeanneney, J. N- (2020). Virus ennemi. Discours de crise, histoire de guerres. Paris: Gallimard. Jünger, E. (1989). Le travailleur. Paris: Christian Bourgois Éditeur. Lenoir, L. (2020, 15 de outubro). Ces Français qui ne respecteront pas le couvre-feu et dénoncent “une intrusion intolérable”. Le Figaro. https://www.lefigaro.fr/actualite-france/ces-francais-qui-ne-respecteront- -pas-le-couvre-feu-et-denoncent-une-intrusion-intolerable-20201015 Maffesoli, M. (2020, 16 de outubro). Le port obligatoire de la muselière dans les rues suffit-il à nous faire obéir? Le Courrier des stratèges. https://lecourrierdesstrateges.fr/2020/10/16/maffesoli-le-port-obligatoire-de-la-museliere-dans-les-rues-suffit-il-a-nous-faire-obeir/ Perri, P. (2020, 19 de março). Violer le confinement, c’est insulter la science et trahir la République! Les Echos. https://www.lesechos.fr/idees-debats/cercle/opinion-violer-le-confinement-cest-insulter-la- -science-et-trahir-la-republique-1186825 Sá, P. (2020, 18 de março). Marcelo. “Esta é uma guerra! Quanto mais depressa formos mais depressa salvamos vidas”. Diário de Notícias. https://www.dn.pt/poder/marcelo-esta-e-uma-guerra-quanto-mais- -depressa-formos-mais-depressa-salvamos-vidas-11951098.html Sontag, S. (1979). La maladie comme métaphore. Paris: Christian Bourgois Éditeur. Tucídides (1982). Histoire de la guerre du Péloponnèse, I-II. Paris: Garnier-Flammarion. Yin, H. (2020, 21 de fevereiro). Une bataille spéciale pour sauvegarder l’esprit de la civilisation. People’s Daily. http://french.peopledaily.com.cn/Horizon/n3/2020/0221/c31362-9660496.html 128 entre telemóveis para sinalizar riscos de contaminação; o insucesso é explicável por desadequada conceptualização da agência humana na qual se baseou o desenho da aplicação; a alteração formal e técnica do protocolo de descarga e uso implica discussão pública que envolve comunidade de redes existentes, cujas agências produzem conhecimento limitador da agência política do governo; a conceptualização da responsabilidade pessoal no desenho de inovações tecnológicas é fundamental, pois a agência humana pode ser mais importante do que a agência não humana; a deficiente conceptualização da agência não humana pode reduzir a eficiência social da inovação tecnológica; a inovação tecnológica também é inovação social. Referências Domingues, I. (2016). Organizational change success as a communicational agency effect: Structuration, textualizing, and networking. In C. Machado & P. Darwin (Eds.), Technological challenges and management: Matching human and business needs (pp. 51-79). Londres: Taylor & Francis. Gomart, E. & Hennion, A. (1999). A sociology of attachment: music amateurs, drug users. The Sociological Review, 47(1_suppl), 220-247. https://doi.org/10.1111/j.1467-954X.1999.tb03490.x Johnson, J. (1988). Mixing humans and nonhumans together: The sociology of a door-closer. Social Problems, 35(3), 298-310. https://doi.org/10.2307/800624 Korsgaard, S. (2011). Entrepreneurship as translation: Understanding entrepreneurial opportunities through actor-network theory. Entrepreneurship & Regional Development, 23(7-8), 661-680. https://doi.or g/10.1080/08985626.2010.546432 Latour, B. (1987). Science in action. Cambridge, MA: Harvard University Pres. Latour, B. (1994). On technical mediation: Philosophy, sociology, genealogy. Common knowledge, 3(2), 2964. Latour, B. (1996). On ator-network theory: A few clarifications. 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(2011). Doing good with technologies: Taking responsibility for the social role of emerging technologies (Philosophy of Engineering and Technology). Londres: Spring. 4. CRISE E INSTITUIÇÕES 130Sociedade e crise(s) Crise de confiança Helena Machado Professora Catedrática do Departamento de Sociologia (Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho). ORCID: 0000-0001-8554-7619 132 A dimensão sociológica da confiança A confiança tem uma vertente emocional e cognitiva, mas também uma dimensão coletiva que permite sustentar em termos sistémicos a ordem social. Uma das funções principais da confiança é assegurar dispositivos de controlo de incerteza face à imprevisibilidade do futuro, sem criar disrupção social. Mais do que uma função psicológica e individual, em termos sociológicos torna-se crucial abordar a confiança como um fenómeno social que é moldado por trajetórias históricas, políticas e culturais que irão condicionar a forma como as sociedades lidam com futuros incertos. Autores como Luhmann (1979), Barber (1983) e Lewis e Weigert (1985) propuseram abordagens que colocaram o tema da confiança no centro da compreensão das dinâmicas sociais, económicas e políticas das sociedades contemporâneas. Entre outras funções, a confiança representaria, para estes autores, um papel fundamental em todos os sistemas sociais por permitir que os membros de uma dada sociedade pudessem agir de acordo com futuros expectáveis, por sua vez tornados possíveis pela segurança veiculada pela previsibilidade da presença e ação dos outros ou pelas suas representações simbólicas (Lewis & Weigert, 1985, p. 968). Em suma, sem a segurança da previsibilidade dos fluxos das interações sociais e da contenção de riscos – ou seja, sem confiança – as sociedades entregar-se-iam ao que Luhmann descreveu como cenário de “caos e medo paralisante” que, em última instância, tornaria inviável a continuidade de um determinado sistema social (Luhmann, 1979, p. 4). Ao contrário do que alguns pensadores que se debruçaram sobre o tema da confiança tendem a veicular, a confiança não é algo monolítico ou um simples dado adquirido. Exige antes uma contínua revalidação e legitimação. Ou seja, a confiança tem uma importante dimensão performativa. Neste pequeno texto, proponho-me refletir sobre a “crise de confiança” instalada na sociedade portuguesa, numa perspetiva de performatividade. Ou seja, coloco interrogações sobre a volatilidade da confiança em Portugal, à luz de acontecimentos recentes relacionados com a gestão da pandemia da COVID-19. A análise que realizarei inspira-se em estudos sociológicos sobre a “sociedade do risco” – termo cunhado por Ulrich Beck (1992) e Anthony Giddens (1999) – para abordarem as complexidades criadas pela ação da ciência e tecnologia em sociedades de modernidade tardia. A confiança e a desconfiança dos cidadãos parecem depender cada vez mais de dois fatores interrelacionados: por um lado, a legitimação do papel de comités de cientistas e peritos em processos de tomada de decisão e de políticas públicas; por outro, a forma como os governos promovem ou apelam à participação dos cidadãos no combate à crise sanitária. O que é que a pandemia de COVID-19 nos diz sobre a perpetuação da sistémica debilidade de confiança pública na classe política e nas instituições do Estado em Portugal? O que é que nos transmite sobre as relações entre a ciência, os decisores de políticas públicas e os cidadãos? De que modo a forma como o governo comunica o risco e apela à participação dos cidadãos contribuem para a construção social da confiança, ou do seu reverso, a desconfiança? Em suma, como é que a multiplicidade de relações intersubjectivas e sistémicas que causam uma crise de confiança em contexto de pandemia podem significar, em última instância, uma crise simbólica da democracia representativa? 133Sociedade e crise(s) Ciência e (des)confiança pública A pandemia de COVID-19 veio relembrar, em contornos dramáticos, a importância da comunicação de ciência junto de públicos diversificados. Decisores políticos e cientistas, assim como profissionais de comunicação e os próprios cidadãos, terão tomado consciência da importância que tem uma comunicação credível para a eficácia da adoção de medidas e comportamentos que ajudem na contenção da propagação do vírus. Na fase de confinamento, a comunicação dos decisores políticos em Portugal parece ter colhido ampla aceitação pública. Estima-se que os meios de comunicação social tenham ajudado substancialmente a transmitir para os cidadãos a aceitação das restrições de várias liberdades civis. Contudo, quando se passou para a fase de implementação de uma estratégia de regresso progressivo a uma normalidade condicionada, as práticas de comunicação da classe política foram perdendo legitimidade junto dos diferentes públicos. Os desafios inerentes a comunicar tensões problemáticas sem gerar desconfiança relativamente à proteção do bem público tornaram-se avassaladores. Como acautelar interesses económicos e a sustentabilidade produtiva e material e, simultaneamente, proteger a saúde pública? Como conciliar medidas de segurança com potenciais ameaças à privacidade? Como explicar aos cidadãos a aparente volatilidade de políticas públicas de saúde (por exemplo, em relação ao uso de máscara) e a alegada contradição de resultados de estudos científicos? Estes são alguns exemplos de questões urgentes e prementes que criaram dúvidas, conflitos e disrupções, não só em Portugal mais em muitos outros países. Portugal é um país com limitada tradição histórica e cultural de envolvimento de cientistas nas decisões políticas e na comunicação pública de fenómenos relacionados com ciência (Pinto, 2016). A pandemia COVID-19 veio tornar claras as debilidades de estratégias de comunicação pública de assuntos de ciência e as sistémicas dificuldades da classe política em incorporar, nas suas decisões, as orientações e recomendações de peritos e especialistas. Por iniciativa do governo português, desde a fase inicial da pandemia em Portugal que ocorreram reuniões regulares, sobre a evolução da COVID-19 em território nacional, que juntaram peritos, políticos e parceiros sociais. O modelo de funcionamento das reuniões – sobretudo expositivo e de pendor técnico – foi amplamente criticado por diferentes quadrantes políticos. Não só se questionava publicamente a utilidade destas reuniões em termos de efeitos práticos, como se apelava para a construção de uma estratégia de comunicação alternativa, aberta aos cidadãos e com orientação mais pragmática. Depois de dois meses de interrupção, as reuniões conjuntas de peritos, políticos e sindicatos, foram retomadas em setembro de 2020, com transmissão aberta das intervenções iniciais dos técnicos. Contudo, comunicar informação técnica de saúde pública, em contexto de elevada incerteza como é o caso da pandemia de COVID-19, não se resolve com uma simples transmissão televisiva aberta para todos os cidadãos. O que é realmente necessário é construir um repertório comunicacional que, de facto, envolva todos os intervenientes: uma comunicação engajadora e com significado impactante para audiências diversas. 134 Comentadores de diferentes partes do mundo, interessados no modo como líderes políticos de diferentes países têm lidado com a pandemia de COVID-19, têm vindo a destacar os “casos de sucesso” da Islândia e outros países Nórdicos ao Taiwan, à Alemanha e Nova Zelândia. Estes países são recorrentemente comparados com lideranças políticas que se revelaram aparentemente desastrosas, como caso do Brasil e dos Estados Unidos da América. Se há quem encontre na variável género – ou seja, um estilo “feminino” de liderança – a explicação para o “sucesso” na gestão da pandemia, uma análise mais detalhada permite mapear outros elementos: em primeiro lugar, a estreita associação entre decisores políticos e peritos. Esta articulação e simbiose entre cientistas e políticos configurou-se na criação de uma nova figura, indutora de confiança: o político que explica, em linguagem acessível a toda a população, conceitos científicos complexos relacionados com a pandemia. As explicações simples, em linguagem leiga, de Angela Merkel, Chanceler da Alemanha, sobre a curva epidémica e parâmetros de transmissibilidade fizeram furor, por todo o mundo, nas redes sociais. Comunicar com sentido impactante junto de diversas audiências significou, também, abandonar o estilo retórico que caracteriza o discurso político convencional. Estas líderes políticas orientaram a sua comunicação para uma semântica destinada a denotar preocupação, cuidado e empatia: desde conferências de imprensa especialmente dedicadas a crianças (Noruega e Dinamarca), a comunicações ao país em cenários informais ou no aconchego das suas casas de família. Contudo, a estratégia de comunicação destas líderes políticas não se fez apenas por via de elementos emocionais e empáticos (porventura, os mais condizentes com estereótipos de “liderança feminina”). Outras ações foram decisivas para a gestão bem- -sucedida da pandemia na sua fase inicial: desde o fechar muito cedo de fronteiras (Nova Zelândia), à distribuição massiva de máscaras (Taiwan) ou disponibilização de testes grátis à COVID-19 a toda a comunidade (Islândia). Ficou ainda emblemática a ação de Sanna Marin, primeira-ministra da Finlândia, que convocou influenciadores de redes sociais para desempenharem o papel de agentes de informação no combate à pandemia. A construção de confiança, fez-se, assim, pela mobilização de informação científica e sua comunicação de um modo flexível, inovador e adaptado a diferentes audiências. O estilo tecnicista das reuniões de peritos, políticos e parceiros sociais em Portugal peca por falta de eficácia e impacto comunicacional. Aparentemente aberto a “todos” desde a decisão do governo em realizar transmissões televisivas das intervenções dos peritos, este tipo de comunicação de ciência veicula a ilusão da participação, permanecendo circunscrito às elites. Da responsabilidade individual aos problemas coletivos Estudos históricos e sociológicos recordam-nos que as pandemias, epidemias e surtos constituem momentos particularmente evidentes de cristalização das redes complexas de relações sociais e de poder, convertendo-as em problemas sociais ora identificáveis ora subsumidos, como desigualdades e vulnerabilidades, violência, estigmatização e marginalização. 135Sociedade e crise(s) Slogans como “somos todos agentes de saúde pública” têm como referencial normativo e moral o cidadão “responsável” e altruísta. A este tipo-ideal de cidadão, construído pelo poder político, contrapõe-se o cidadão que não entra nesta categorização social (e moral): seja porque resiste ou porque não dispõe de recursos para o fazer. Ao cidadão que aceita ser um agente individual de promoção de saúde pública e segurança tende a corresponder um determinado estatuto social, que entra em profundo contraste com outros indivíduos e populações excluídos desta corresponsabilização (French & Monahan, 2020) – dos “idosos” e “grupos de risco” aos “imigrantes” e “refugiados”. Em suma, os apelos à participação de todos os cidadãos no combate à pandemia COVID-19 por via do enfoque na responsabilidade individual neutralizam a responsabilidade do Estado no acesso coletivo e universal a cuidados de saúde e na função de velar pela segurança e bem-estar de todos. Conclusão Depois de uma fase da história recente de profundo abalo da confiança pública no Governo, sentido em Portugal no período de 2012 a 2014 (Torcal, 2014), durante a maior recessão económica das quatro últimas décadas, ter-se-á sentido uma recuperação de níveis de confiança dos cidadãos que se viu agora novamente ameaçada perante a gestão errática da pandemia de COVID-19. Para “vencer” o vírus, necessitaríamos de uma revolução cultural assente na solidariedade e preocupação com o coletivo. Esta revolução está ainda por fazer e parece, por ora, condenada ao fracasso: em vez de fortalecer laços sociais e confiança, a gestão política da pandemia isola e individualiza os cidadãos. Não gera nenhum sentimento coletivo forte. A sociedade necessita de reforçar mecanismos democráticos de transparência e prestação de contas aos cidadãos que tornem claro que o cuidado é o bem comum a prevalecer, norteado pela redução do sofrimento, justiça e respeito mútuo. São estes os pilares que sustentam a confiança, a participação e a solidariedade da população. Por outras palavras, a confiança não é um dado adquirido: constrói-se, conquista-se e “performa-se”. Referências Barber, B. (1983). The logics and the limits of trust. New Brunswick: Rutgers University Press. Beck, U. (1992). Risk society: towards a new modernity. Londres: Sage. French, M. & Monahan, T. (2020). Disease surveillance: how might Surveillance Studies address COVID-19? Surveillance & Society, 18(1), 1-11. https://doi.org/10.24908/ss.v18i1.13985 Giddens, A. (1999). Risk and responsibility. The Modern Law Review, 62(1), 1-10. https://doi. org/10.1111/1468-2230.00188 Lewis, D. J. & Weigert, A. (1985). Trust as a social reality. Social Forces, 63(4). 967-985. http://dx.doi. org/10.1093/sf/63.4.967 136 Luhmann, N. (1979). Trust and power. New Jersey: Wiley. Pinto, H. (2016). Science, technology and innovation and public policy in Portugal: Trajectories towards 2020. Public Policy Portuguese Journal, 1(1). 94-106. Torcal, M. (2014). The decline of political trust in Spain and Portugal: Economic performance and political responsiveness. American Behavioral Scientists, 58(12), 1542-1567. https://doi. org/10.1177/0002764214534662 Crise e conspiração Joel Felizes Professor Auxiliar do Departamento de Sociologia (Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho). ORCID: 0000-0001-7096-9114 144 Não é fácil falar de cultura e de crise, sendo que falar de cultura e de crise quando estamos em plena pandemia, torna a tarefa ainda mais complexa. Estamos constantemente a ser surpreendidos pelos acontecimentos e pelos impactos que a COVID-19 está a provocar em todos os setores da sociedade e corremos o risco de, muito rapidamente, a reflexão se tornar obsoleta. Quando, em janeiro de 2020, a Organização Mundial de Saúde divulgou a informação de que a 31 de dezembro de 2019 tinha sido informada pelo seu escritório na China da existência de casos de pneumonia de causa desconhecida em Wuhan (Organização Mundial de Saúde, 2020), estávamos muito longe de imaginar que, menos de três meses depois, era decretado o estado de emergência em Portugal (Resolução da Assembleia da República n.º 15-A/2020) e que, a 31 de outubro de 2020, se anunciava a adoção de mais um conjunto de medidas especiais, abrangendo 121 municípios portugueses e mais de 70% da população (Presidência do Conselho de Ministros, 2020). Cientes do risco da produção de uma reflexão desta natureza em tempos de crise, considera-se inquestionável que, independentemente da evolução que a pandemia possa sofre e da escala de impactos futuros, no último trimestre de 2020 pode afirmar-se, sem qualquer tipo de margem de erro, que estamos a ser protagonistas de um processo de transformação singular, com implicações substantivas em todas as dimensões na nossa vida individual e coletiva. Se encararmos a cultura como o conjunto dos traços distintivos espirituais e materiais, intelectuais e afetivos que caracterizam uma sociedade ou um grupo social (Unesco, 1982) e se fizéssemos uma análise a cada uma das três dimensões da cultura propostas por Ferin (2002) – ontológica, estética e ética –, rapidamente chegaríamos à conclusão de que a cultura também não ficou imune à pandemia e que pode haver pontos de não retorno. Lançando um brevíssimo olhar sobre algumas instituições internacionais, conseguimos identificar iniciativas dignas de registo e que visaram sublinhar ou mitigar os impactos negativos da COVID-19 no setor cultural: 1) Sabine Verheye, presidente da Comissão para a Cultura e a Educação do Parlamento Europeu, alertou, no final de março, que os setores culturais e criativos estavam a ser devastados pelo impacto de medidas rigorosas de saúde pública (Parlamento Europeu, 2020); 2) na reunião de Ministros da Cultura promovida pela Unesco em abril, assinalou-se, por um lado, a importância fundamental da cultura para fazer face à crise e, por outro lado, o efeito cascata que a crise no setor cultural estava a provocar em outros setores da atividade económica (Unesco, 2020a); 3) em maio, o movimento Culture 2030 Goal (2020) apresentou publicamente um manifesto onde se sublinha a importância da cultura no processo de reconstrução das sociedades no período pós-pandemia; 4) tendo como ponto de partida as iniciativas tomadas a nível mundial por um conjunto alargado de países, a Unesco (2020b) disponibilizou, no mês de outubro, um guia prático com um conjunto de medidas de que foram implementadas em diferentes contextos e em diferentes domínios culturais, e que podem servir como fonte de inspiração nos processos de resolução de problemas imediatos provocados pela pandemia, mas também nos processos de mudanças estruturais que se revelam tão necessários em tantos contextos. 145Sociedade e crise(s) Neste olhar internacional sobre a crise provocada pela COVID-19 no setor cultural, assinala-se ainda, por um lado, a mobilização rápida de organizações representativas do setor, alertando para os problemas que se avizinhavam (por ex. European Cultural Foudation1, IETM2, PEARLE3, The People’s Cultural Plan4); e, por outro lado, a multiplicidade de análises que se iniciaram muito rapidamente: à escala regional (e.g. Secretaria da Cultura do Estado do Ceará5), à escala nacional (por ex. Ministério da Cultura do Perú6) e à escala internacional (por ex. European Creative Business Network7), centrados em distintos domínios culturais (por ex. Network of European Museum Organisations8) e desenvolvidas por entidades representativas de setores culturais específicos (por ex. La Red Española de Teatros, Auditorios, Circuitos y Festivales de Titularidad Pública9) ou da academia (por ex. Observatório da Economia Criativa da Bahia da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia10). No que concerne ao contexto português, à medida que a COVID-19 se foi aproximando de Portugal e do setor cultural – o que pode ser simbolicamente assinalado, pela notícia do teste positivo ao escritor chileno Luís Sepúlveda à COVID-19 depois de participar no Correntes de Escrita (Correia, 2020) e pela confirmação do primeiro caso positivo diagnosticado em Portugal (Maia, 2020) –, tornou nítido que o setor cultural nacional também não estava imune à pandemia. A contaminação do setor cultural português pela COVID-19 revelou-se dramática, sendo que aos constrangimentos provocados pelo inesperado da situação, se acrescentaram as debilidades estruturais que se têm traduzido de múltiplas e variadas formas ao longo dos anos (por ex. desarticulação intersectorial, desarticulação entre os diversos níveis da administração pública, excesso de protagonistas políticos, precarização, subfinanciamento). Profissionais e organizações representativas do setor cultural português, tal como as suas congéneres internacionais, viram nos manifestos (por ex. Presente com Futuro11), cartas (por ex. Sociedade Portuguesa de Autores, Fundação Gestão dos 1 Ver mais informações em https://www.culturalfoundation.eu/library/uphold-culture-in-the-eubudget?fbclid=IwAR0R7WLgm-HuAgjENeuneQkdImmxWZv2dEXHMpMIqUNN_jaSFl-9d1TPfc0 2 Ver mais informações em https://www.ietm.org/en/rescue-the-arts-plea-to-national-governments 3 Ver mais informações em https://www.pearle.eu/positionpaper/european-social-partners-of-the-liveperformance-sector-call-for-a-coordinated-action-plan-to-secure-the-recovery-and-sustainability-ofthe-european-cultural-sector 4 Ver mais informações em https://hyperallergic.com/548145/nyc-state-of-emergency-covid-19/ 5 Ver mais informações em https://www.secult.ce.gov.br/2020/04/01/secult-lanca-estudo-sobre-oimpacto-da-pandemia-da-covid-19-na-economia-da-cultura/?fbclid=IwAR2vkuvEMoiifBqhqu3sQO_oE mWQrGa1tthpTk4HgV6lZBOmf4WjWHE5xLs 6 Ver mais informações em https://www.gob.pe/institucion/cultura/campañas/919-encuesta-sobreimpactos-y-potenciales-medidas-de-amortiguamiento-en-el-sector-de-las-artes-industrias-culturalesy-creativas-y-museos-en-el-peru 7 Ver mais informações em http://ecbnetwork.eu/urgent-survey-effects-of-covid-19-coronavirus-on-theeuropean-culture-and-creative-industries/ 8 Ver mais informações https://www.ne-mo.org/news/article/nemo/mapping-short-and-long-termeffect-of-covid-19-on-museums.html 9 Ver mais informações em https://www.redescena.net/redaccion/2020/04/52MedidasCovidArtesEscen icasMusica.pdf 10 Ver mais informações em https://ufrb.edu.br/proext/economiacriativa-covid19/ 11 Ver mais informações em https://www.publico.pt/2020/03/26/culturaipsilon/opiniao/manifestodefesa-presente-futuro-1909427 146 Direitos dos Artistas & Audiogest – Associação Para A Gestão e Distribuição de Direitos12), tomadas de posição (por ex. Associação Profissional de ConservadoresRestauradores de Portugal13) e comunicados, instrumentos importantes para, de forma concertada, manifestar as suas preocupações para a forma como a crise se estava a alastrar muito rápida e descontroladamente para os diferentes domínios culturais. A análise deste conjunto de documentos revela que as preocupações para a mitigação dos múltiplos e variados impactos negativos da COVID-19 foram transversais aos vários domínios do setor cultural e, em alguns casos, não se resumiram a problemas provocados unicamente pela pandemia. Por ter sido uma das primeiras organizações a tomar uma atitude proactiva para alertar para a crise que a COVID-19 poderia provocar no setor cultural português, convocam-se alguns dos contributos do Sindicato dos Trabalhadores de Espectáculos, do Audiovisual e dos Músicos (CENA-STE) neste âmbito: 1) no seu comunicado de 12 de março14, o CENA-STE alerta para os problemas que se avizinhavam na sequência das medidas definidas a 10 de março pela Direção-Geral de Saúde para fazer face à COVID-19 e que iriam agudizar a precariedade e frágil proteção social que afeta os trabalhadores do sector; 2) depois de um conjunto de iniciativas que foi desenvolvendo de forma continuada, no final do mês de abril o CENA-SET tornou público um conjunto de 22 de medidas para serem implementadas a curto, a médio e a longo prazo durante os próximos dois anos para responder às necessidades específicas e concretas do setor. Das medidas elencadas pelo CENA-SET para fazer face à crise na cultura provocada pela COVID-19, destacamos aqui a proposta de criação de um fundo de emergência social para resolver problemas imediatos dos profissionais desprotegidos devido à precaridade laboral – que não foi implementada pelo Ministério da Cultura, mas sim fruto da parceria entre a quatro entidades (Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, Fundação GDA, Audiogest e Associação para a Gestão Coletiva de Direitos de Autor e de Produtores Cinematográficos e Audiovisuais)15 – e o mapeamento exaustivo do tecido cultural português com o objetivo de diagnosticar necessidades específicas (setoriais e territoriais) – cujo estudo foi encomendado ao Observatório Português de Atividades Culturais16. Também em Portugal, a produção de estudos sobre os impactos da COVID-19 foi prolixa, sendo que aqui vamos destacar, por razões óbvias, o estudo em curso coordenado pelo Observatório de Políticas de Ciência, Comunicação e Cultura. Os resultados preliminares do estudo “Impactos da COVID-19 no setor cultural português”17 revelam que: 1) não obstante a considerável cobertura mediática das consequências da COVID-19 no setor cultural português, ficou nítido que a 12 Ver mais informações em https://www.fundacaogda.pt/mais-de-1600-autores-e-artistas-assinamcarta-ao-governo-com-apoio-da-spa-gda-e-audiogest/ 13 Ver mais informações http://www.arp.org.pt/noticias/comunicado-medidas-de-apoio-covid-19.html 14 Ver mais informações em http://www.cena-ste.org/noticias/arquivo/2020-03 15 Ver mais informações em https://www.solidariedadecultura.pt/index.php 16 Ver mais informações em https://ciencia.iscte-iul.pt/projects/estudo-sector-artistico-e-cultural-emportugal/1399 17 Ver mais informações em http://polobs.pt/wp-content/uploads/2019/09/WR-1-POLOBSAgenda-20301-1.pdf 147Sociedade e crise(s) cultura não constituiu uma prioridade editorial, nomeadamente no que concerne às chamadas de primeira página, tendo sido predominantes notícias referentes aos impactos negativos e dado pouco destaque às iniciativas do Ministério da Cultura para apoiar o setor; 2) o fluxo de notícias nos websites dos municípios e das entidades intermunicipais está em linha com o pouco peso estratégico que a cultura tem em muitas das dinâmicas das políticas municipais, tendo sido possível identificar um número residual de medidas das autarquias locais para a mitigação, a curto e médio prazo, dos impactos negativos nas organizações e profissionais do setor cultural; 3) a atividade parlamentar e as iniciativas do Governo para fazer face aos constrangimentos provocados pela COVID-19, foram também reveladores do protagonismo da cultura na escala de prioridades dos atores políticos, tendo o setor cultural sido remetido, não raras vezes, para as medidas transversais adotadas pelo Governo; e 4) as organizações e os profissionais do setor cultural, auscultados através de um inquérito por questionário, não deixaram margem para dúvidas revelando que, se não forem tomadas medidas urgentes, substantivas e estruturantes, o setor cultural português poderá sofrer danos irreparáveis fruto da pandemia. Com este pano de fundo, torna-se óbvio que não terá sido a falta de alertas e de iniciativas, nacionais e internacionais, provenientes do setor público e privado, sobre a contaminação da cultura pela COVID-19, que provocaram a crise no setor cultural no ano de 2020. A verdade é que se observavam problemas estruturais que, com os constrangimentos provocados pela pandemia, se tornaram determinantes para o agudizar toda uma situação que, em muitos contextos, já era muito frágil. De salientar ainda que se considera que, mesmo que as debilidades do setor não fossem tão veementes, a crise no setor cultural, tal como em todos os outros setores, era inevitável. Regressamos por isso ao início desta breve reflexão: falar de cultura e de crise quando estamos em plena pandemia, não se revela uma tarefa fácil, sendo que nos resta a esperança que se aproveite a oportunidade para operar um conjunto significativo de transformações profundas e necessárias nas políticas culturais locais, regionais, nacionais e internacionais, pois, como afirmou recentemente Bruno Latour, no futuro, “a última coisa a fazer seria voltar a fazer tudo o que fizemos antes” (2020). Referências Correia, A. (2020, 29 de fevereiro). Escritor Luís Sepúlveda infetado com coronavírus após visitar Portugal. Jornal de Notícias. https://www.jn.pt/mundo/escritor-luis-sepulveda-infetado-com-coronavirus-apos- -visitar-portugal-11873738.html Culture 2030 Goal (2020). Garantir que a cultura cumpra seu potencial em resposta à pandemia de COVID-19. http://culture2030goal.net/wp-content/uploads/2020/07/PT_culture2030goal_declaration- -Culture-and-covid19-jul2020.pdf Ferin, I. (2002). Comunicação e culturas do quotidiano. Lisboa: Quimera. Latour, B. (2020). Imaginar gestos que barrem o retorno da produção pré-crise. http://www.bruno-latour. fr/sites/default/files/downloads/P-202-AOC-03-20-PORTUGAIS.pdf 148 Maia, A. (2020, 2 de março). Coronavírus: há dois casos confirmados em Portugal. Público. https://www. publico.pt/2020/03/02/sociedade/noticia/coronavirus-ha-dois-infectados-portugal-1905823 Organização Mundial de Saúde (2020). Pneumonia of unknown cause – China. https://www.who.int/csr/ don/05-january-2020-pneumonia-of-unkown-cause-china/en/ Parlamento Europeu. (2020). COVID-19 impact on culture: new funds must reach creative sectors immediately. https://www.europarl.europa.eu/news/en/press-room/20200326IPR75912/covid-19-impact-on- -culture-new-funds-must-reach-creative-sectors-immediately Presidência do Conselho de Ministros (2020). Comunicado do Conselho de Ministros extraordinário de 31 de outubro de 2020. https://www.portugal.gov.pt/pt/gc22/governo/comunicado-de-conselho-de- -ministros?i=378 Resolução da Assembleia da República n.º 15-A/2020, de 18 de março, República Portuguesa. https://dre. pt/application/conteudo/130399863 Unesco (1982). World Conference on Cultural Policies: final report. Paris: Unesco. https://unesdoc.unesco. org/ark:/48223/pf0000052505?posInSet=21&queryId=df5090c1-d9f4-4549-b375-77f9f7e4888a Unesco (2020a, 23 de abril). More than 130 Ministers call for support to culture sector in COVID-19 crisis response. https://en.unesco.org/news/more-130-ministers-call-support-culture-sector-covid-19-crisis- -response Unesco (2020b). La cultura en crisis: Guía de políticas para un sector creativo resiliente. Paris: Unesco. https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000374633 Em defesa da universidade e em defesa da ciência Moisés de Lemos Martins Professor Catedrático do Departamento de Ciências da Comunicação (Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho). ORCID: 0000-0003-3072-2904 150 A cultura da competição e da “qualidade” na Universidade1 Em 1948, Norbert Wiener publicou Cibernética: ou controle e comunicação no animal e na máquina. Ao fazê-lo, sinalizou aquela que viria a ser a nossa atual trágica condição. Os sistemas de informação davam-nos a possibilidade de estendermos até confins a servidão humana, porque, com a imersão total da techne na vida e nos corpos, estabeleciam-se as condições de possibilidade do controle, “total” (Jünger, 1930/1990) e “infinito” (Sloterdijk, 2000), tanto dos animais como das máquinas (Martins, 2011/12). Os séculos XIX e XX, que inauguram “a era das massas e das máquinas”, como se lhes referiu Ernst Jünger (1930/1990, p. 108), imprimiram velocidade e aceleração ao nosso tempo. E hoje, as tecnologias da informação mobilizam-nos em permanência para um qualquer mercado, uma qualquer competição, estatística, ranking, empreendedorismo, websummit (Martins, 2019a). As bolsas financeiras foram colocadas em conexão, tendo sido criado, deste modo, o mercado global. Mas o próprio mercado acabou por se converter na metáfora a que ficou sujeita a vida humana por inteiro. O neoliberalismo não é, pois, uma teoria que se cinge a ordenar, com mão de ferro, as políticas económicas e financeiras. Mais do que isso, o neoliberalismo é um modo de vida, que captura toda a existência humana. Com esta roda-viva desenfreada, que assinala, através das tecnologias, a passagem do regime da palavra e do pensamento ao regime dos números e da medida, assim como a passagem do regime das ideias ao regime das emoções, desabou no Ocidente o edifício da cultura, erguido ao longo de milhares de anos. Já Nietzsche (1872/1992/) havia falado de uma “tragédia” na cultura. E Georg Simmel (1911/1988), assim como Hannah Arendt (1958/1993), não pensaram em coisa diferente. Mas na era da técnica é a própria ideia de humano que entra em crise. A época passou a ser de “meios sem fim” (Agamben, 1995), com a tecnologia a assumir-se como um messianismo sem telos. E o humano deixou de ter fundamento seguro, território conhecido e identidade estável. Por sua vez, o trágico passou a ser a figura por excelência do imaginário dos média (Martins, 2002). Mas se há lugar em que a crise da cultura se manifesta hoje mais clamorosamente é na universidade. Já em 1993 me inquietava com o facto de “numa escala superior a qualquer outra instituição”, a universidade fazer seu “o mito fundador da nossa sociedade liberal”, sociedade de livre circulação de pessoas e de saberes, “em que se promete a uma multidão de indivíduos, inapelavelmente condenada ao esquecimento e ao anonimato, a redenção pelo talento e pelo mérito”; prometendo uma redenção mirífica, “exacerbamos sim o individualismo, e não deixamos de condenar multidões à impotência mais radical” (Martins, 1993, p. 345). Mas o caminho para o colapso veio a acentuar-se muito, de então para cá, sobretudo depois da viragem do século. Com a entronização de procedimentos de matriz 1 Neste primeiro ponto faço a refundição do artigo de imprensa, que publiquei no Correio do Minho, com o título “A minha universidade” (16.12.2019) (Martins, 2019c). 151Sociedade e crise(s) tecnológica, que certificam no ensino, na investigação e nos serviços, meros automatismos de rotinas e conformidades, agora expandidos pelas novíssimas conformidades ditadas pelos não menos novíssimos “comités de ética”, a universidade deixou de contar com o pensamento (Martins, 2003, 2008, 2013, 2015, 2017). O procedimento de matriz tecnológica destina-nos a um único caminho, e sempre o mesmo caminho, de eficiências e utilidades, destruindo deste modo o relacional, o que quer dizer, esmagando a vida humana, que é fluxo, cadência, ritmo, sonoridade, ressonância, singularidade, criação, imaginação, diferença e diversidade. E enquanto na ordem do humano, vemos, pensamos e desenhamos com o coração, na ordem do procedimento, vemos, pensamos e desenhamos sem espírito. A 4 de novembro de 2019, a Universidade do Minho realizou a primeira edição do “Evento Anual da Qualidade – EAQ’2019”, querendo, deste modo, em cerimónia pública, chamar a atenção da academia para “a relevância” da existência dos sistemas da qualidade nas Instituições de Ensino Superior. Na Universidade do Minho, há anos que funciona, aliás, no ensino o Sistema Interno de Garantia da Qualidade (SIGAQ – UM). E do que se trata, agora, é de estender este sistema à investigação. Mas da universidade ao país, à Europa e ao mundo vai o passo de um anão; o pensamento não passa de um reino que já ninguém quer; o ranking está ao alcance de um tiro de canhão; e o trono é dos procedimentos e das conformidades, como é possível dizer numa glosa, inspirada numa célebre canção de José Mário Branco (1971). Entretanto, aquilo que passou a constituir a natureza da universidade é a ideologia comercial: as universidades são empresas; a educação são serviços; o ensino e a investigação são oportunidades de negócios; os professores são profissionais de serviços ou consultores; os alunos são clientes. E com o mercado financeiro e o mercado de trabalho a ribombar fantasticamente por cima da sua cabeça, a universidade faz manchete da ‘excelência’ dos seus cursos e professores, ou seja, faz manchete da sua ‘qualidade’ (Martins, 2003, 2013, 2015). E a mesma coisa acontece também com a investigação. A “excelência” e a “qualidade” académicas são medidas por regras análogas àquelas que são aplicadas ao mercado de capitais em todos os países. No capitalismo financeiro as economias dos países dependem dos valores em bolsa, medidos (ou fixados) pelas agências de rating, Standard and Poor’s, Moody’s, Fitch, DBRS... E no capitalismo académico, os valores são estabelecidos, fundamentalmente, por duas agências de indexação científica, a Scopus e a ISI Web of Science, através das citações que são feitas a artigos, publicados em “revistas de fator de impacto” (ou seja, revistas que estas agências reconhecem como de “excelência” e de “qualidade”). E para “ajudarem as universidades a compreender o seu desempenho global”, temos os rankings. O ranking do Times Higher Education (THE), por exemplo, que é “uma das três classificações internacionais de universidades mais influentes, juntamente com o Qs World University Rankings e o Ranking de Xangai”2, apresenta-se como “um recurso 2 Ver https://pt.wikipedia.org/wiki/Times_Higher_Education_World_University_Rankings 152 vital que faculta a lista definitiva das melhores universidades no mundo”3. Em 2011, foi premiada com os títulos de “Revista Semanal de Negócios do Ano” e “Marca de Média de Negócios do Ano”, pela Professional Publishers Association4. No fundamental, a universidade é hoje uma realidade apenas com números. Gerida como uma empresa e um negócio, por um lado está por conta do controle tecnológico; por outro obedece a procedimentos. Até parece que não existe mais mundo na universidade que não sejam necessidades de mercado, injunções financeiras, rankings e citações dos investigadores na bolsa académica de valores. Sobre os rankings das universidades, assentes em citações, Alberto Amaral, Presidente da Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior (A3ES), publicou dois artigos de imprensa em 2019, um no jornal Público, outro no semanário Expresso. Refletindo especificamente sobre o ranking da Times Higher Education de 2019, Alberto Amaral escreveu “Rankings, esse território de basbaques e pavões” (Amaral, 2019a); e “O milagre dos rankings explicado aos leigos” (Amaral, 2019b). Em ambos fustigou o embuste em que consiste a classificação das universidades feita pela THE. Como compreender o mistério de Universidades como a de Aswan no Egito, a Universidade Jordana de Ciência e Tecnologia e a Universidade de Peradenya no Sri Lanka terem conseguido um redondo 100,0 no indicador “citações”, à frente de Harvard (99.1), Oxford (98.4), Yale (97.3), Cambridge (95.8)? (Amaral, 2019a). Na Universidade Católica Portuguesa, que passou, num ano, no indicador “citações”, de 64.3 para 94.6 pontos, um valor quase igual ao Kings’s College, em Londres, e acima da Universidade de Toronto, subindo na classificação, como um meteoro, do intervalo 601-800 para uma posição entre 351-400, Alberto Amaral esclareceu o mistério. Um pequeno número de artigos, publicados em revistas de Medicina, tinham a particularidade de terem um número exorbitante de citações, por terem uma multidão de autores e corresponderem a estudos à escala mundial, da incidência, prevalência e sobrevivência de doença (Amaral, 2019b). Alienada da sua natureza própria e equivocada sobre os interesses que acima de tudo deve servir, a universidade tem-se tornado, entretanto, mais opaca, o que quer dizer, menos participativa e menos democrática, menos livre, e muito mais dependente de lógicas que lhe são alheias – lógicas que, se por um lado são empresariais e comerciais, por outro são burocráticas. Neste sentido, Teresa Ruão (2008, p. 15) assinala que na universidade os modelos “gerencialistas e economicistas” levam hoje a melhor sobre os “modelos colegiais clássicos”. E que a ideia de identidade universitária adquiriu um formato meramente instrumental, com as estratégias de comunicação a terem agora uma preocupação, cada vez mais acentuada, com a produção de efeitos estratégicos (Ruão, 2008, p. V). E, todavia, a universidade nasceu, entre o século XI e o século XIII, como a casa do pensamento (Martins, 2017). Nos termos formulados por Derrida (2001), a universidade deve ser encarada como um lugar de liberdade irrestrita. A sua missão 3 Ver https://www.timeshighereducation.com/world-university-rankings 4 Ver https://pt.wikipedia.org/wiki/Times_Higher_Education 153Sociedade e crise(s) é a da salvaguarda das possibilidades da (a)ventura do pensamento. Cabe-lhe fazer do ensino e da ciência uma ideia, que encarne um princípio de resistência crítica e uma força de dissidência, ambos comandados por “uma justiça do pensamento” (Derrida, 2001, p. 21). É este, a meu ver, o grande desafio com que é confrontada a universidade, no curto, médio e longo prazo: sob pena de não poder apresentar-se como garantia de salvaguarda das possibilidades do pensamento, a universidade precisa de se sobrepor à cultura da competição e da “qualidade”. Uma ideia de ciência sem pensamento, sem história e sem memória “A filosofia não é ciência e está fadada a desaparecer”. “Porque os cientistas têm um bom método, e os filósofos não têm”. “A filosofia não progride, enquanto que a ciência nos faz andar para diante”. Ou seja, a filosofia, e com ela as Ciências Sociais e Humanas, é uma espécie de paralítico do Evangelho: pode ver; mas não anda. É assim que António Coutinho sintetiza o seu ponto de vista, na entrevista que concedeu em junho de 2018 à Folha de São Paulo (Coutinho, 2018). António Coutinho é médico imunologista. E dirigiu o Instituto Gulbenkian de Ciência, em Oeiras. Coordenou, durante o Governo de Passos Coelho, o Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia, um órgão consultivo, de cientistas, que teve como missão aconselhar o Governo em matérias transversais de ciência e tecnologia. Na altura, era preocupação do Primeiro-Ministro estabelecer um plano de ajustamento para a Ciência. E explicou-o à Agência Lusa (09.11.2011), nos seguintes termos: iria fazer alterações ao modelo de financiamento das unidades de investigação, concentrando os apoios financeiros “onde são cientificamente mais rentáveis” (Martins, 2012, pp. 343-344). A consequência imediata foi a de que as Ciências Sociais e Humanas passaram a ser financiadas a 15% do total do financiamento público para a Ciência, e não a 22%, como até então. Refletindo especificamente sobre o método científico, António Coutinho diz o seguinte à Folha de São Paulo: “a singularidade está totalmente baseada na racionalidade (…). Em geral, a humanidade tentou de forma predominante perceber as coisas, ou pela mágica, ou pela religião” (Coutinho, 2018). E embora o objetivo da filosofia seja o mesmo que o da ciência, “explicar o mundo e a nós próprios”, a filosofia “nunca progride”, porque “nós temos um bom processo e eles não têm” (Coutinho, 2018). Em conclusão, “O que é o objetivo da filosofia vai ser resolvido pela ciência, e a filosofia vai passar à história” (Coutinho, 2018). Vasto programa! Embora, deva acrescentar que fazer da ciência uma crença absoluta e do positivismo uma religião, não constitui, passe o paradoxo, pequena metafísica. A origem desta metafísica não está, todavia, em António Coutinho. Data, antes, das primeiras décadas do século XIX. Foi em 1830 que Augusto Comte estabeleceu, no