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Da habitabilidade na domesticidade: manual do usuário da CASA—CORPO

Cordeiro, Ana Isabel Rebelo

Abstract

Esta dissertação não é, propriamente, um “manual da arquitetura doméstica”, nem pretende dar instruções sobre o que é, ou não, uma casa. Trata-se da leitura atenta dos nossos movimentos nos espaços da domesticidade. Despido de alma, antes de mais, reduz-se o utilizador à sua resolução antropométrica. Focamo-nos, simplesmente, na defesa de uma lógica arquitetónica associada ao desenho das nossas medidas funcionais, que ocupam o espaço, através de um olhar centrado nas ações traduzidas numa solução espacial. Aqui, o CORPO é a casa e o espaço é a função. Não pretendemos que a metodologia utilizada conduza à obtenção de respostas exatas de todas as questões que se levantarão neste trabalho. Ambicionamos, antes, o despertar da mente para questões inesperadas, de quem a escreve e de quem a lê, mas que no fundo estão presentes desde o início da “escala abstrata” da casa.

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Ana Isabel Rebelo Cordeiro Da habitabilidade na domesticidade: manual do usuário da CASA—CORPO Junho de 2023 UMinho | 2023 Da habitabilidade na domesticidade: manual do usuário da CASA—CORPO Ana Isabel Rebelo Cordeiro Ana Isabel Rebelo Cordeiro Da habitabilidade na domesticidade: manual do usuário da CASA—CORPO Dissertação de Mestrado Ciclo de Estudos Integrados Conducentes ao Grau de Mestre em Arquitetura Área de Cultura Arquitetónica Trabalho efetuado sob a orientação da Professora Doutora Ana Luísa Rodrigues Junho de 2023 Nome: Ana Isabel Rebelo Cordeiro Endereço eletrónico: anaircord[email protected] Título dissertação: Da habitabilidade na domesticidade: manual do usuário da CASA—CORPO Orientadora: Prof. Doutora Ana Luísa Rodrigues Data de conclusão: 2023 Ramo de Conhecimento de Mestrado: Cultura Arquitetónica Universidade do Minho, ___/___/___ Assinatura: https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/4.0/ Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual CC BY-NC-SA Notas prévias: A presente dissertação encontra-se ao abrigo do novo acordo ortográfico. O corpo do texto da dissertação é apresentado em português em toda a sua extensão. As citações, originalmente em outras línguas, foram traduzidas livremente pela autora. "Mergulho no poço do meu corpo e acabo num outro mundo, tudo que eu preciso já existe em mim, não há necessidade de procurar outro lar” Rupi Kaur Aos pais, ao irmão, às avós e à professora Ana Luísa. Obrigada! 15 Estudar o quê? A amplitude temática que envolve a casa relacionando-a intrinsecamente com o corpo que a habita. Quais os objetivos? Celebrar a diversidade da casa. Qual o ponto de vista? O olhar dual, casa vs habitante, através de um “manual do usuário”. Qual a problemática? Questionar o problema da identidade na habitação. Corpo ————- Casa Células ——— Espaços da casa Artérias ———- Canalização ADN —————-- Enunciado de projeto PREFÁCIO Nota Preliminar Glossário do Trabalho 16 17 Antes de mais, com este exercício procuramos desconstruir “o olhar” daquele que o (re)interpreta. Ambicionamos um fim, como conclusão, certamente. Mas o que nos atrai nesta proposta de tese é ter a consciência de que o nosso tema pode induzir a conclusões não conclusivas. A vontade é a de estudar a casa , algo que nos é tão próprio, como o próprio CORPO em que habitamos e experienciamos o mundo. Não desenharemos um manual da arquitetura doméstica, com certeza. O nosso propósito não é dar instruções sobre como é correto habitar. Nem, tão pouco, desenhar a casa correta. O objetivo é o de “despir a casa”, para perceber o porquê das suas formas e o que está por detrás do seu caráter físico. A vontade incessante por respostas eficazes que nos tornam mais conscientes de como habitamos, leva-nos ao desenho do percurso arquitetónico nos espaços da casa. INTRODUÇÃO Instruções do manual 18 O privilégio de saber estar nos dois papeis (o do habitante e o do arquiteto) permite-nos ter um outro ponto de vista. Em regra, o arquiteto desenha a casa para o cliente. Idealiza-a, planeia-a e concretiza-a. Aqui, pretende-se conceber um “manual” acessível a todos, a todos os que habitam. A verdade é que se trata de algo que não se ensina, estando inerente à existência humana. Logo, o nosso objetivo é “ alertar e contribuir para uma maior consciência dos vínculos que existem entre a forma de pensar, de ver o mundo, dos modos de vida e das técnicas projetuais (…)” 2 Ambicionamos saber mais sobre a casa. Conhecer todo o processo que a leva a transformar-se, e aquilo que compõe as suas fases de maturação. Pretendemos chegar à identidade da habitação. Todos os temas com que procuramos aqui focar, levam-nos ao lado mais subjetivo da casa, logo restringimo-nos unicamente ao que nos equaliza, às ações da domesticidade vitais à existência humana. Independentemente de gostos, culturas, lembranças, sonhos, focamo-nos na leitura atenta do espaço do CORPO. Usamos a analogia do corpo humano, como modo de melhor entender o funcionamento da casa, uma vez que está presente em todas as fases de pensamento do habitante. Embora possam ser temas aparentemente diferentes, têm semelhanças que nos permitem compará-los e entender como ambos evoluíram ao logo do tempo, em resposta a necessidades que se fizeram sentir. 2. ÁBALOS, Iñaki. La buena vida– Visita guiada a las casas de la modernidade , Gustavo Gil, 2019. 3. DALLEGRET, François. Cosmic Opera Suite , Art in America, 1966. 19 Ilustração 1 Apropriamo-nos da imagem “Cosmic Opera Suite”3, de François Dallegret e utilizámo-la como imagem gráfica de introdução de cada capítulo do trabalho. Aqui, em paralelo com a tabela de cores complementares, construímos o glossário do nosso trabalho. 20 O CORPO, a ESTRUTURA, o MOVIMENTO e a APROPRIAÇÃO são aspetos que fazem parte da sua essência, tanto do corpo, como da casa. O processo é simples. A casa será como um CORPO, sem alma, personalidade ou caráter. Aqui, colocamos questões relacionadas com a complexidade da habitabilidade e as implicações que gera – no espaço, no tempo, nas emoções, na memória, nos gostos, nas culturas – na casa e no habitante. Estudamos as suas formas, que olhamos sem as ver, e traduzimo-las numa experiência que começa no vazio e termina no cheio. Uma vez mais, procuramos forma, características palpáveis, sem dar asas à objetividade. O único propósito é o do entendimento. É possível colocar inúmeras questões sobre a casa, do ponto de vista arquitetónico. E muitas conclusões a que chegamos são claramente subjetivas e, até talvez, também temporárias. É certo que se trata de um tema em constante desenvolvimento, fruto da evolução tecnológica e industrial que nos vai acompanhando ao longo dos tempos, e que resulta do perfeito descontentamento inerente à condição humana. Pretendemos, assim, ao focarmo-nos neste CORPO, por um lado, condicionar a dispersão temática, e por outro, que nos desperte para um outro nível de perguntas relacionadas com a habitabilidade na domesticidade. 21 Como tentativa de aclarar o processo de conceção da casa, optamos por viajar ao passado e apontar o momento da origem da habitação, enquanto necessidade de proteção e de abrigo de um exterior incontrolável. Muito sumariamente, comparamos o processo de mutação que tem vindo a ser alvo, com aquele que nós, humanos, também fomos sujeitos. Entender o limite e o que se passa do lado de fora e do lado de dentro, do universo arquitetónico, torna-se essencial para começar o desenho do pensamento de uma casa. Pretende-se, assim, compreender a posição da memória e perceber os processos inerentes às nossas ideias. Pretende-se perceber a capacidade de resposta do indivíduo perante as realidades envolventes. A identidade exposta em ações, em modos de habitar, “refletindo sobre o modo como a casa é projetada, em função da maneira como mais tarde será habitada”. 4 Não se pretende que a metodologia utilizada conduza à obtenção de respostas exatas e indubitáveis de todas as questões que se levantam no trabalho, como já foi referido. O que se ambiciona é o despertar da mente, de quem escreve e de quem lê, para questões inesperadas, talvez menos refletidas, mas que no fundo estão presentes desde o início da escala abstrata da casa. É a partir dos seus valores inerentes, no dissecar dos “porquês” e das necessidades humanas que se baseia este manual, por assim dizer. Deste modo, despido de personalidade, pensamos no CORPO da casa apenas na sua resolução antropométrica. Na relação objetiva entre forma e espaço que resulta no desenho da medida do utilizador que ocupa o espaço. 4. RODRIGUES, Ana Luísa. A habitabilidade do espaço doméstico: O cliente, o arquiteto, o habitante e a casa , 2008. 22 Agora, aqui, o CORPO é a casa, o espaço é a função. Enquanto arquiteta cabe-nos desenhar as ações da domesticidade traduzindo-as numa solução espacial. Para isso decidimos subdividir o manual em quatro partes– Guia de iniciação, (de) Composição, Funções úteis e Personalização. Juntos compõe a narrativa de uma experiência nos espaços da casa. O primeiro capítulo, “Guia de iniciação”, aborda o CORPO de uma maneira ampliada, analisando aquilo que o compõe. Tanto o corpo humano, quanto a casa, têm uma estrutura que os sustenta e permite que cumpram as suas funções. Embora esta analogia seja útil para entender aquilo que os aproxima, é importante relembrar que, estas últimas, são estruturas inanimadas e que, em rigor, não possuem uma constituição tão complexa como a de um corpo humano. Partimos do geral para o particular. É ainda um CORPO que não reage, apenas permanece. Queremos saber de onde surgiu e o porquê. Acima de tudo, queremos percebê-lo. Queremos que reaja, que aja por opção própria, que deixe de ser apenas mais um e que ganhe personalidade. Para isso precisamos de o analisar devidamente. Olhamos para o corpo humano como ponto de partida para a conceção de espaços habitáveis. Acreditamos que a arquitetura deve ser pensada como movimento, interações e vivências. Para melhorar a experiência deste CORPO consideramos o “conhecimento” como ponto chave, necessário para aprender a percebê-lo. 23 Entender o CORPO em que habitamos, o que há por de trás da camada que nos protege, é o fundamental para potencializar novos pontos de vista, suscitar vontades, desejos e outros objetivos. O segundo capítulo, “(de) Composição” narra a continuação desta análise. Neste ponto do ensaio, o objetivo é, fundamentalmente, o de compor o essencial ao CORPO. Passamos para o momento da montagem sequencial das camadas que o limitam fisicamente. O que estrutura o seu CORPO é aquilo que o faz funcionar devidamente. É aquilo que o torna capaz de alcançar a “vida”, o que o alimenta. Está pronto para ser posto à prova e ser testado pelo movimento de um utilizador. No terceiro capítulo abordamos as “Funções úteis”, tanto o corpo humano quanto a casa têm funções específicas que devem cumprir. Olhamos para o CORPO da casa, ainda, apenas na sua resolução antropométrica, despido de personalidade. No entanto, é o momento de o colocar à prova, utilizando uma personagem. Estudamos o movimento no interior. Distribuímo-la nos espaços essenciais à vida humana e representamos o seu movimento vital. Queremos entender como funciona o espaço do CORPO ainda antes mesmo de lhe atribuir personalidade. Por fim, neste único momento do ensaio onde o CORPO da casa ganha personalidade, já não se trata apenas de um CORPO, mas de uma forma. Neste seguimento, o último capítulo é o da “Personalização”. 30 Com a imagem ao lado, procuramos refletir acerca da evolução humana, lado-a-lado com a evolução da habitação. Claro que ambas estão intrinsecamente ligadas e que sofreram, por um processo contínuo de evolução, adaptando-se e transformando-se para atender às necessidades que se foram sentindo. É o primeiro ponto deste trabalho onde a relação arquitetura e biologia é refletida. Trata-se de um vínculo profundo e complexo que só poderá ser estudado, voltando atrás no tempo. As imagens escolhidas, são meramente ilustrativas. No entanto aquilo que se procura demonstrar, é uma evolução arquitetónica impulsionada por uma primeira evolução humana. O desenvolvimento humano permitiu-o combater necessidades sentidas, tal como o frio ou a insegurança de um exterior incontrolável. Paralelamente, desenvolviam-se técnicas construtivas e de proteção que outorgaram uma evolução na habitação. Atualmente a habitação já é planeada tendo em vista, igualmente, as necessidades humanas, bem como a ergonomia e o bem estar de quem a habita. 31 Ilustração 3 A evolução do CORPO 32 Aquilo que nos chamou mais atenção foi o cheiro. Fez-nos lembrar algo guardado, sem uso. Por isso o interesse em estudá-lo. As vibrações que sentimos diante dele são quase nulas. Não sabemos ainda o motivo. Debruçamo-nos em saber mais sobre a sua história. Descobrir como surgiu e como chegou ao seu estado atual. Limar certos pontos, que se podem ter tornado “elementos-chave” na sua evolução. O importante neste trabalho, é tentar não deixar peças para trás. Um corpo com este aspeto só poderá ter sido esculpido outrora. Se recuarmos no tempo, voltando aos primórdios da humanidade, onde foram pela primeira vez documentados, somos confrontadas com uma imagem diferente do CORPO, daquela a que estamos habituados. Aparentemente, a sua evolução, apesar de significativa, resultou de um processo gradual ao longo de muitos anos, levando a mudanças graduais na sua forma física e na sua morfologia geral. É, provavelmente, a base da escala estratificada que é o CORPO, uma vez que é um campo de estudo em constante desenvolvimento, onde há descobertas e novas interpretações que surgem à medida que a própria humanidade também evolui. Isto como uma necessidade, a de pertencer e acompanhar a humanidade, porque “(…) o sentimento do espaço está ligado ao sentimento do Eu (…)”7 e se o Homem evolui o CORPO, que ocupa, acompanha-o. 7-PALLASMAA, Juhani. Habitar , Editorial Gustavo Gil, 2016. História 33 De uma maneira geral, conscientes do que somos e da força que a tecnologia tem na atualidade, podemos assumir que o ser humano “ (…) está agora em condições de construir por inteiro a totalidade do mundo em que vive (…)”8. O que nos permite considerar o CORPO como um “organismo que criou os seus prolongamentos e os levou a um nível de especialização (…) com grande rapidez.”9. Olhando mais detalhadamente, para cada fase de mutação, cujo CORPO foi alvo, aquilo que nos capta mais atenção é a diferença morfológica, quer seja esta exterior ou interior. Para uma abordagem mais precisa, decidimos destacar três, de sete etapas consideradas, por julgá-las basilares na mudança gradual do CORPO. Apresentavam, no início, uma dimensão pequena e, formalmente, elementar (figura.1). A pele que o cobria, parecia pedra, de tão dura e fria que era. O movimento, que permitia, estava reduzido ao seu espaço corporal. Limitava-se a garantir sobrevivência. Pareceu-nos despreparado, como se tivesse acabado de “(…) abandonar o ventre materno (…) necessitando de uma proteção mais vasta (…)” 10 . O curioso, neste primeiro CORPO, é que, apesar de formalmente parecer incapaz, por apresentar um tamanho menor e ainda muito indefinido, permitia facilmente satisfazer as necessidades básicas, bem como, abrigar e segurar a sua existência. 8. HALL, Edward. A dimensão oculta, Relógio d’água editores. 9.HALL, Edward. A dimensão oculta, Relógio d’água editores. 10.RODRIGUES, Ana Luísa. A Habitabilidade Do Espaço Doméstico: O Cliente, O Arquiteto, O Habitante E A Casa , 2008. Fig.1 A evolução do CORPO 34 Era um CORPO, cuja principal função, era a de proteger. Não era imprescindível que fora mais frio, menos frio, mais ou menos tosco, maior ou menor. Se numa primeira estância parecia frio ao toque e apresentava um aspeto grutesco e animal, a sua substituição passou a ser algo, aparentemente, menos primitivo. Se lhe tocássemos, desta vez não sentíamos o frio, nem a “agressividade” do corpo anterior. Passou a ser um corpo em madeira, barro ou pedra, materiais locais. Ao contrário do CORPO anterior, e ainda que os seus movimentos continuassem presos, cingiam-se, agora, aos conceitos básicos da sobrevivência. A utilidade, se antes era abrigar de um exterior incontrolável, aqui, já procura servir necessidades mais precisas. Nomeadamente as armazenar, do dormir e as do cozinhar. O que implicaria um espaço interior, mais tangido e limitado, dependendo de cada funcionalidade (fig.2) Acreditamos, que esta alteração, se deve precisamente a um vínculo. Isto é, a partir do momento em que foi criada a relação intrínseca entre o CORPO e o lugar, este último acabou por se domesticar, personalizar e individualizar, consoante vontades e necessidades que se foram fazendo sentir. Foi nesta fase, que se criou um maior contacto com a natureza, com a luz do sol e com a ventilação natural. Começou, aparentemente, a ser um CORPO mais aprimorado, fruto de uma constante tentativa de adaptação por parte de quem o ocupa. Fig.2 A evolução do CORPO 35 “Parece-nos claro que habitar equivale a uma realidade de primeiro plano entre as necessidades humanas, ou seja, habitar é uma condição humana elementar (…)”11 . Como, anteriormente referido, o CORPO que procuramos estudar, passou por fases que o fizeram estar mais próximo da sua morfologia atual. O seu progresso, acompanhou várias vertentes. Com a chegada da revolução industrial, no século XVIII, a descoberta de novos materiais, permitiu-o tornar-se mais composto. A “pele” que o cobria, passou a funcionar por camadas, permitindoo aquecer, num ambiente frio, e refrescar, num ambiente quente. No entanto, mais tarde, a meados do século XX, com o forte desenvolvimento e o crescente avanço de tecnologias e materiais mais resistentes e duráveis, o CORPO acabou por se tornar cada vez mais adaptável à vida contemporânea. Isto é, revelou-se cada vez mais apto a corresponder às necessidades vitais. Posto isto, e mediante todo o processo de mutação que impulsionou, o desenvolvimento que já viemos a abordar, o CORPO passou a funcionar de maneira diferente. As fissuras que anteriormente funcionavam pontualmente, também pelo seu curto espaço corporal, passaram a ser mais e maiores permitindo iluminar o interior do CORPO e ventilá-lo. Os confortos consolidavam-se. Passou a funcionar bem, como uma máquina. 11.RODRIGUES, Ana Luísa. A Habitabilidade Do Espaço Doméstico: O Cliente, O Arquitecto, O Habitante E A Casa , 2008. Revolução Industrial 36 "Uma casa é uma máquina de habitar, um instrumento do homem para alcançar um ambiente adequado para sua vida e suas atividades." 12 Em 1923, Le Corbusier , explora este mesmo conceito considerando-o como um organismo eficiente e funcional, capaz de corresponder às necessidades mais elementares e não só. O corpo passou a encontrar a adequada solução técnica dos problemas da domesticidade de um modo abrangente, pois tomos necessitamos das “mesmas coisas”. Representa a ideia de que todas os CORPOS deveriam ser pensados como máquinas: eficientes, funcionais e adaptáveis. Ou seja, capazes de atender ao conforto e a qualquer necessidade humana. Para isso propôs espaços funcionais, eficientes e adaptáveis, para o permitir ser mais flexível possível e adequar-se a qualquer exigência (fig.3) O que nos permite pensá-lo de uma forma “mais pragmática”, uma vez, que aquilo que se procura é que fosse capaz de servir qualquer um. Isto leva-nos então a refletir sob O que há em comum com o CORPO que estudamos e todos aqueles que nos encontrámos os dias de hoje? Parece-nos claro que o CORPO é um conjunto de experiências, que o permitem, no presente, preparar-se para o futuro. É um espelho da atualidade. Resulta da necessidade vital humana e por isso evolui á medida que esta amplia o seu conhecimento. 12.Le CORBUSIER. Machine à habiter, 1923. Máquina de Habitar 37 Numa primeira abordagem ao primeiro CORPO que estudamos, constatamos que era composto por uma única célula, cujo propósito era o de garantir a proteção, contra intempéries climáticas e perdedores. Necessidades básicas do momento. Funcionavam como uma barreira natural, contra os elementos externos garantindo um ambiente relativamente estável e seguro para os que nele habitavam. Posteriormente, evoluíram e passaram a servir para que outras necessidades quotidianas fossem satisfeitas, como o descanso humano e preparação e armazenamento de alimentos. Atualmente, o CORPO, continua a definir-se mediante necessidades. É capaz de se tornar numa extensão de quem o ocupa. Um refúgio, onde são impostas escalas, ações, perceções e pensamentos. Agora, que já relacionamos a história às suas respetivas transformações, é importante referir, mais uma vez, que este “ensaio” e respetiva análise são trabalhados de um ponto de vista dual, arquiteta Vs habitante, com base na relação objetiva de cada parte. Considera-se o CORPO como um sistema de hierarquias espaciais e dinâmicas de todos os elementos que o estruturam. Aqui, quando se fala no CORPO, relacionamos de imediato todos as partes, que num ponto de vista, interno e externo, julgamos essenciais. No entanto, quando abordamos o espaço interior, somos levamos a uma outra dimensão que interpreta o que dele resulta. O próximo passo a seguir era, então, o de perceber. Para isso, aproximamo-nos de forma táctil e sensorial, controlando todas as relações que os diferentes espaços estabelecem entre si. Fig.3 A evolução do CORPO 38 Na ilustração do lado, representamos, metaforicamente as células vitais do espaço do CORPO. As células são as unidades básicas de estrutura e função do corpo e, apesar de poder ser composto por mais células, decidimos destacar o cozinhar, estar, dormir e higienizar. São estas as que estão encarregues de manter o adequado funcionamento do CORPO. Na ilustração, fazemos referência à escultura de Salvador Dali “The city of Drawers. Study for the Inthropomorphic Cabinet”.13 Esta pintura sugere uma fusão entre o mundo dos objetos e o mundo humano, criando uma realidade ilusória e onírica. Pareceunos justo trazê-la para este trabalho por também ela atribuir características humanas a coisas inanimadas como, no nosso caso, na casa. 13.DALI, Salvador. The city of Drawers. Study for the Inthropomorphic Cabinet, 1936. 39 Célula do espaço de cozinhar Célula do espaço de estar Célula do espaço de dormir Célula do espaço de higienizar Ilustração 4 As células vitais do CORPO 46 O que é importante ressaltar, aqui, é que existem vários canais diferentes onde circula o alimento até cada célula vital. Estes, podem servir para transportar água, eletricidade e ar no CORPO. Estão cuidadosamente posicionados, permitindo-nos uma leitura clara dos mesmos. São parte do sustento do CORPO, tornando-se importantes para que o mesmo possa ser confortável. Tal como qualquer outro CORPO que conhecemos, este também precisa de cuidados de manutenção, para que cada célula vital possa funcionar devidamente. Na imagem do lado representamos as artérias do CORPO da casa. Diferenciámo-las por cores, para distinguir o caminho que cada alimento faz até ao seu espaço de destino, a célula. Para um melhor entendimento daquilo que propomos, usamos Banham16 que explora e analisa os elementos fundamentais que compõem o CORPO de uma CASA, examinando a sua anatomia e a sua respetiva função, bem como os sistemas e componentes que a compõem. O desenho do lado explora questões relacionadas à estrutura, sistemas de canalização, eletricidade, iluminação, ventilação e aquecimento, entre outros aspetos técnicos e funcionais do CORPO. É importante referir que, este desenho não limita o espaço que compõe o CORPO, apenas o estrutura. Com isto, queremos dizer que não se trata de uma instalação rigorosa e completamente inalterável, antes aludimos, apenas, à importância de conhecer aquilo que acontece no interior do CORPO em que habitamos. Um interior escondido, que se reduz a uma imensa rede de tubos e cabos. 16. BANHAM, Reyner. A home is not a house . Art in Amertica, Vol. 2 (1965). 47 Antena de TV Antena de rádio Tanque de água Extrator de fumo Ar condicionado Ar condicionado Termostato Pontos de energia Termostato Cárter Dreno Quadro de distribuição principal Fossa séptica Ilustração 6 As artérias do CORPO 48 A primeira artéria que decidimos estudar foi a do espaço de cozinhar. O sistema circulatório desta artéria, que liga as células à zona do comer, divide-se em três canais: o energético, o da água e o de ar. Estes três, em funcionamento, estão encarregues de garantir estabilidade à zona do CORPO associada à preparação de nutrientes. O sistema de ar de uma cozinha tem a importante função de renovar o ar e remover o excesso de calor e humidade no interior da célula. Para garantir a eficiência do sistema e a qualidade do ar interior, são necessários alguns elementos de controle de ventilação natural ou artificial que deverão ser resistentes à exposição a altas temperaturas. O sistema de Água desta célula é um dos elementos fundamentais para um funcionamento adequado. Este sistema pode exigir fazer-se acompanhar por uma série de componentes, resistentes à corrosão, que auxiliam na sua boa preformasse. O sistema energético deverá ser adequado e dimensionado corretamente. É composto por elementos elétricos, que auxiliam na confeção de nutrientes para a célula, e por elementos de iluminação, que garantem um ambiente seguro e iluminado. A manutenção desta célula requer alguns cuidados que mantêm o seu bom aproveitamento. Há materiais que auxiliam na sua boa performance, como demonstramos na ilustração do lado. 49 Ilustração 7 As artérias do espaço de Água Eletricidade Ar Sistema de Ar -Aço galvanizado - PVC - Alumínio Sistema de Água -Cobre - PVC Sistema Energético -Fios de Cobre - Tomadas -Interruptores 50 A próxima artéria a estudar é a do espaço de dormir. O sistema circulatório desta artéria que se liga à célula do descanso, dividese em dois canais: o energético e o de ar. Estes dois, estão encarregues de garantir estabilidade à zona do CORPO associada ao conforto e descanso. O sistema de ventilação de um quarto é importante para garantir um ambiente saudável e confortável para dormir. Ele deve permitir a renovação do ar, removendo impurezas e mantendo a temperatura adequada. Pode ser feita de forma natural e estratégica ou então através de um sistema de ventilação mecânica. O sistema energético de um quarto, geralmente é composto por dispositivos elétricos, como iluminação, equipamentos eletrônicos e tomadas. Esses dispositivos devem ser instalados e operados de forma eficiente para garantir a segurança de quem o CORPO ocupa e a eficiência energética do próprio espaço. A manutenção desta célula requer alguns cuidados que mantêm o seu bom aproveitamento. Há materiais que auxiliam na sua boa performance, como demonstramos na ilustração do lado. 51 Ilustração 8 As artérias do espaço de dormir Eletricidade Ar Sistema Energético -Fios de cobre - Tomadas - Interruptores Sistema de Ventilação - PVC - Alumínio 52 A segunda artéria que analisamos é a do espaço de higienizar. O sistema circulatório desta artéria, que liga as células à zona da higiene divide-se, igualmente, em três canais: energético de água e de ar. Estes, estão encarregues de garantir estabilidade à zona do CORPO associada à higiene. O sistema de ventilação desta célula geralmente é composto por um principal componente responsável por sugar o ar húmido e eventuais odores, transportando-os para fora do CORPO. O sistema energético de uma casa de banho inclui a iluminação e os aparelhos elétricos utilizados na célula. Estes elementos deverão estar bem planeados e localizados no espaço em que atuam para mantê-lo seguro e confortável. O último sistema de circulação é o da água. Este é também imprescindível. Tal como os anteriores, necessita de uma série de componentes que o impulsionam e possibilitam o seu bom funcionamento. É importante que este sistema, seja projetado e instalado de forma correta, para que possa garantir um fornecimento adequado de água limpa e quente, além de um sistema de drenagem eficiente. A manutenção desta célula requer alguns cuidados que mantêm o seu bom aproveitamento. Há materiais que auxiliam na sua boa performance., como demonstramos na ilustração do lado. 53 Ilustração 9 As artérias do espaço de higienizar Água Eletricidade Ar Sistema de Ventilação - PVC - Alumínio Sistema Energético -Fios de cobre - Tomadas - Interruptores Sistema de Água -Cobre - PVC 54 A última artéria que passamos a estudar é a do espaço de estar. O sistema circulatório desta artéria que liga as células à zona do estar divide-se em dois canais: o energético e de ar. Estes, estão encarregues de garantir estabilidade à zona do CORPO associada ao conforto, convívio e descanso. Por sua vez, esta artéria divide-se em dois sistemas, na medida em que conciliam funções precisas que garantam estabilidade à célula. O primeiro sistema, está encarregue da componente eletricidade. Essencial para o bom funcionamento dos sistemas elétricos deste espaço, que podem servir para iluminar, aquecer ou arrefecer a célula, assim como satisfazerem necessidades precisas no momento. O segundo, está encarregue da componente ar. Que pode ser um sistema natural de ventilação da célula. Ou então de uma maneira mais complexa com o auxílio do sistema energético, já mencionado anteriormente. Deve ser capaz de permitir a renovação do ar, removendo impurezas e mantendo a temperatura adequada no espaço. Pode ser feito de forma natural e estratégica ou então através de um sistema de ventilação mecânica. Como qualquer outra parte do CORPO, este espaço também necessita de alguns cuidados de manutenção e materiais específicos que o mantêm apto a ser utilizado, mantendo a célula confortável e saudável, como demonstramos na ilustração do lado. 55 Ilustração 10 As artérias do espaço de Eletricidade Ar Sistema Energético -Fios de cobre - Tomadas - Interruptores Sistema de Ventilação - PVC - Alumínio 62 63 64 Ilustração 13 O CORPO Cosmic Opera Suite 65 A terceira parte deste “ensaio” começa com a procura de uma personagem capaz de fazer com que o CORPO se torne identificável. Os momentos anteriores mostram-nos em que é consiste um CORPO. A sua história, as células vitais, as artérias que o estruturam, bem como, o ADN que o compõe e que o permite agir. Neste momento, já identificamos o CORPO que temos. Já nos é algo percetível. Temos um volume complexo que se estrutura através de vontades e concretizações que envolvem as células vitais. Sem lhe tocarmos, já conhecemos os seus cantos e o frio que se sente, está mais perto de estar morno. No entanto, agora cheira a novo, como algo que abrimos pela primeira vez e está pronto a ser experimentado. A atenção, neste momento focase nisso mesmo, na procura de uma personalidade que o experimente, que o faça existir. Numa primeira estância, aquilo que nos suscita inquietação é como vai ocupar o CORPO e movimentar-se. Mesmo sabendo que o que precisa é a atribuição de carácter, torna-se difícil pensar, no imediato, numa personagem que se enquadra melhor nele. Qual será a sua escala? E como o podemos descobrir? Para que sejamos capazes de identificar quais os critérios fundamentais na habitabilidade, necessitamos, antes de mais, saber em que é que consiste a qualidade de habitável. Isto é, aquilo que garanta condições para que haja possibilidade de desenvolvimento humano. Um espaço construído que deverá proteger e apresentar uma qualidade desejável para poder assegurar um máximo desempenho físico e psicológico de quem o usufrui. Personagem 66 No caso de um CORPO, a habitabilidade, entendida com a capacidade de abrigar a personalidade e garantir conforto (térmico e acústico, de higiene e segurança, fontes de energia e de água, entre outros…) necessário para que uma ou mais personalidades o possam habitar. “(...) é sobretudo na habitação que o homem deve encontrar o “seu” espaço, o ambiente criado á escala das suas necessidades e possibilidades (…)“ 21 Para definir a escala de uma personagem é preciso considerar as medidas antropométricas médias, como altura, largura, profundidade e comprimento. Além disso, também deve ser utilizada para definir a proporção e a disposição dos elementos no espaço, criando um ambiente equilibrado e harmonioso. Essas medidas são importantes para determinar as dimensões de espaços e uso de cada célula como a escolha de materiais, as aberturas e uma disposição adequada dos elementos que a compõem, para que sejam confortáveis e permitam uma vivência fácil e segura. No estudo do CORPO, é necessário fazer o levantamento e incorporar a escala humana, as necessidades, funções, crenças e emoções, no seu processo de conceção. Segundo Le Corbusier22 para que o CORPO, possa corresponder e moldar-se ao mundo novo, o único suporte é a geometria. 21.TAVORA, Fernando. Da organização do espaço , FAUP, 2006. 22. Le Corbusier. El Espíritu Nuevo en Arquitectura , Colegio Aparejadores Murcia, 2003. Ergonomia 67 “A ordem é uma modalidade da geometria e o homem manifestase pela ordem: a primeira coisa que faz um homem é estabelecer a ortogonal frente a si, fixar, colocar em ordem, ver claro; (...) encontrou o modo de medir o espaço por meio das coordenadas sobre três eixos perpendiculares.” 23 Acabando então, por criar um conceito que vai de encontro ao pensamento estabelecido: Arquiteturar24 . Em poucas palavras procura estabelecer a ordem nos equipamentos, nas funções, no movimento e do modo como todas as partes acabam-se por se relacionar no interior do CORPO. Com isto, o primeiro passo a ter em conta no momento de o pensar , é ter por base as medidas da personagem que o ocupará. Se recuarmos no tempo, podemos observar que, desde os Egípcios, as medidas de uma personagem são usadas em Arquitetura. Projetando-a tanto física como psicologicamente nas suas construções. A valorização da escala de uma personagem hipotética, evidenciou-se novamente, há mais de 2500 anos, com Protágoras, filosofo grego, a afirmar que “ O homem é a medida de todas as coisas” .25 Verificou-se que as primeiras unidades de medidas de comprimento usadas pelo Homem, o palmo e o pé, eram antropométricas. A perspetiva de Protágoras enfatiza a importância da participação ativa do usuário no momento de pensar o CORPO. 23.Le CorbuSier. El Espíritu Nuevo en Arquitectura , Colegio Aparejadores Murcia, 2003. 24 CORBUSIER, Le. Précisions. Park Books, 2015. 25.PROTÁGORAS (481-405 a.C) “ O homem é a medida de todas as coisas”. Medidas 68 A imagem do lado alude, neste caso, à medida de uma personagem. Consideramos este, um dos paços importantes neste trabalho, uma vez que julgamos que o CORPO, que temos vindo a estudar, para que seja capaz de ganhar autonomia é importante que seja capaz de acolher uma personagem. Antes de mais questionam-se as suas dimensões e fazemos referência ao “Homem Vitruviano ”26 ilustrado por Leonardo da Vinci . Esta composição, com um homem em duas posições sobrepostas, uma com os braços e as pernas abertos, formando uma estrela de quatro pontas, e outra com os membros estendidos e contidos dentro de um círculo, destaca a procura pela harmonia ideal entre o corpo humano e a geometria, exatamente aquilo que também nós procuramos nesta parte do nosso trabalho. Assim, referenciamos também a instalação “Measuring the Universse ”27 criada pelo artista Roman Ondak, onde explora a ideia de medição e comparação, bem como a relação indivíduo e o todo. 26. VINCI, Leonardo, Homem Vitruviano, 1490. 27. ONDAK, Roman, Measuring the Universe. 2007. 69 Ilustração 14 As medidas da personagem no CORPO 70 Os usuários não são meros espectadores passivos, mas sim, participantes ativos na criação e vivência dos espaços arquitetónicos. Novamente, no século I a. C. com Vitrúvio28, no seu tratado baseado num sistema de medidas “ideais”, onde a estrutura humana era composta por diversas proporções, defendia que a arquitetura deveria estabelecer uma relação de harmonia entre a proporção e o corpo das personagens. Qualquer CORPO bem projetado deveria, então, seguir as proporções ideais, em particular do “homem bem proporcionado". Uma vez que são universais. Mais tarde, em 1487, Leonardo Da Vinci, desenhou os dados antropométricos defendidos por Vitrúvio, o “Homem de Vítrúvio”29.A ilustração retrata um homem nu, em duas posições sobrepostas: com os braços e pernas estendidos, em forma de estrela e dentro de um círculo, e com os braços e pernas estendidos, em posição reta, dentro de um quadrado. Essas posições demonstram a relação entre as proporções do corpo humano e as formas geométricas básicas. Traduzem a importância de um espaço arquitetónico bem equilibrado, confortável e esteticamente agradável. No entanto, a relação entre o espaço do CORPO e uma personagem que o ocupa, só foi desenvolvido em 1936 por Ernst Neufert, considerando diferentes posições de uma personagem, parada e em movimento. 28. VINCI, Leonardo, Homem Vitruviano, 1490. 29.VINCI, Leonardo, Homem Vitruviano , 1490. Proporção 71 No seu livro, “ Arte de Projetar em Arquitetura” 30 , aborda o dimensionamento do corpo humano, adicionando as ações humanas ao conjunto de medidas a serem consideradas na criação de objetos e de espaços. Explora informações como dimensões médias de uma personagem, em diferentes posições e atividades, como o objetivo de auxiliar na criação de espaços funcionais e confortáveis. O Homem aparecia ao longo do livro como uma representação de uma norma métrica aplicada a diversas situações do quotidiano. Adiciona as ações humanas ao conjunto de medidas a serem consideradas na criação de objetos e espaços. "Todos os que projetam devem conhecer a razão por que se adotam certas medidas, que parecem escolhidas ao acaso. Devem saber as relações entre os membros de um homem normal e qual é o espaço que necessita para se deslocar, para trabalhar e para descansar em várias posições",31 escreveu. Posteriormente, entre 1943 e 1950, Le Corbusier, elaborou um sistema de medidas designado por “Modulor” 32 que propõe uma aplicação métrica universal na Arquitetura e nos equipamentos que compõem todo o espaço do CORPO. Este sistema, assente nas dimensões humanas e na matemática, baseia-se na série de Fibonacci e no retângulo de ouro. Foi concebida uma fórmula a partir da qual era possível gerar duas medidas, a vermelha e a azul. Dois sistemas métricos relacionados, o anglo-saxónico e o mé-trico decimal. (CARDOSO, Eduarda 2016) 30.NEUFERT, Ernest. Arte de projetar Arquitetura, Editorial Gustavo Gil, 1998. 31. NEUFERT, Ernest. Arte de projetar Arquitetura, Editorial Gustavo Gil, 1998. 32 CORBUSIER, Le. Modulor, Orfeu Negro,2010. Métrica 78 A movimentação da personalidade no espaço do CORPO envolve diversos outros fatores, como a disposição dos móveis, a largura e a altura das passagens, a iluminação, a ventilação e a organização dos objetos. É importante que haja um equilíbrio entre a funcionalidade e a estética, de forma que o espaço seja confortável, seguro e agradável para acolher as diversas atividades diárias. Julgamos que, algumas das características que podem contribuir para uma boa movimentação do corpo no espaço da casa incluem: -Espaços amplos e bem iluminados, que proporcionem conforto; -Ambientes organizados e livres de obstáculos, que permitam uma circulação livre e fácil; -Móveis funcionais e ergonômicos, que se adaptem às necessidades e características físicas dos moradores; -Altura adequada das mesas, por exemplo, e outras superfícies, de forma que possam ser usadas com conforto e sem esforço excessivo; -Boa ventilação e iluminação natural, que proporcionem uma sensação de bem-estar e conforto aos habitantes; -Portas e janelas de fácil manuseio, que possam ser abertas e fechadas com facilidade dependendo apenas da vontade de quem as utiliza; Necessidades espaciais 79 Esses são apenas alguns exemplos de fatores que podem contribuir para uma boa movimentação da personagem no espaço CORPO. Cada caso deve ser avaliado de acordo com as necessidades e características da personalidade, procurando sempre a sua funcionalidade, o conforto e a segurança. Agora, que conseguimos prever e contribuir para um bom funcionamento dos espaços do CORPO, está na altura de testar o movimento da personagem no mesmo. Para isso, medimo-la, tendo em conta as dimensões exploradas por Neufert 37, referido anteriormente, e narramos o percurso vital que fez em cada célula do CORPO– a do estar, a do dormir, a do cozinhar e a do higienizar. Considerámos, este passo no “ ensaio”, uma chave importantíssima para prosseguir no trabalho, uma vez que, o objetivo seguinte será o da apropriação do CORPO por parte desta mesma personagem. “A obtenção da harmonia do espaço organizado, resultante afinal da harmonia do homem consigo próprio, com o seu semelhante e com a natureza (…)” 38 37.NEUFERT, Ernest. Arte de projetar Arquitetura, Editorial Gustavo Gil, 1998. 38 . TÁVORA, Fernando. Da organização do espaço , FAUP, 2008. Espaços vitais 84 85 Ilustração 17 O CORPO Cosmic Opera Suite 86 O último capítulo permite-nos criar uma imagem total daquilo que acontece no CORPO e o que se passa no seu interior. Se até agora temos vindo a trabalhar com a objetividade de algo que está estagnado, como o CORPO adormecido, agora trabalhamos com a subjetividade de uma personalidade acordada. Depois de conseguirmos estudar o seu movimento no espaço das células vitais ao CORPO, decidimos, agora, colocá-lo à prova, testando o seu comportamento e de que forma o espaço do CORPO está pronto a receber qualquer tipo de personagem. Temos vindo a acompanhar o processo gradual de descoberta e reencontro com este CORPO. Começou por ser algo estranho num primeiro olhar. Depois fomonos apercebendo que não era nada mais, nada menos, do que algo que já lidamos todos os dias, ao longo da nossa vida, como habitantes. Motivados pela procura de respostas para as perguntas e curiosidades que iam surgindo, fomos levados num processo de desenvolvimento mental de descoberta. Agora que nos é mais próximo, sentimo-lo de maneira diferente. Nesta parte do trabalho debruçamo-nos sobre o estudo do interior do CORPO, percebendo de que forma este último se vai adaptando à personalidade, e vice-versa, e como é que num todo olhamos e percecionamos as diferenças no espaço. Apropriação 87 Quando estamos perante um espaço experimentado, planeado, equaciona-se a vida de um CORPO. “No decurso da experimentação e da vivência, a habitação transforma-se em casa, deformando-se, quer física quer simbolicamente pela apropriação dos habitantes. Na casa, os habitantes vão iterativa e interactivamente adequando as formas e as áreas, apreendendo-as, preenchendo-as e manipulando-as segundas as lógicas de ação distintas e compostas”39 Neste sentido, um dos momentos mais importantes no processo de apropriação do CORPO é a identificação. Resulta das referências culturais, da personagem, bem como, da sua história pessoal e está relacionada na forma como ocupa e (re)organiza o espaço do seu CORPO. Igualmente importante, é aquilo que acontece num segundo momento, o da “personalização” que se evidência pela forma como decora o espaço. Depois deste segundo momento acontecer, o CORPO passa a ser representativo dos indivíduos que nele habitam. Como já mencionado, é, em grande parte, a cultura e a sociedade em que vivemos que determinam as nossas práticas do dia a dia e, consequentemente, as nossas formas de apropriação da CORPO. Quando os indivíduos podem decidir à cerca do seu CORPO, do seu próprio espaço, isto é, quando têm possibilidade de controlo, decidem com frequência adaptá-lo ou alterá -lo de alguma maneira. 39. BATISTA, Luís e COSTA, António. Etnografias Urbanas, Graça Índias Cordeiro , Lisboa, 2003. Identificação 88 Chegar a um equilibrado desenho do CORPO, não requer que todas as partes envolvidas participem de modo igual. Antes, que tenham uma opinião. Neste seguimento, mencionamos José Carvalho Araújo “ quando eu digo a um cliente que a casa não está definitivamente acabada, não quer dizer que não esteja pronta a ser usada, mas pressupõe essa continuidade de intervenção que coincide com a apropriação por parte do utilizador e que deve ser rica e gerar prazer a quem a habita.” 40 . Posto isto, deverá o projeto de um CORPO, proporcionar, na personagem que o habita, o desejo contínuo de o transformar e adaptar à medida das suas necessidades pois, “o indivíduo tem, por vezes, controlo sobre a distribuição ou até sobre a completa construção da sua própria casa ou unidade de habitação.”41 “(…) se esperamos que a experiência estética seja uma reação única e universal, como o piscar das pálpebras sob luz forte ou a sensação de doçura do açúcar, então não há experiência estética. Mas muito poucas experiências humanas são tão simples. A maioria dos eventos na consciência é construída a partir de conteúdos culturalmente definidos, bem como de significados pessoais desenvolvidos ao longo da vida de um indivíduo. Assim, nunca se pode esperar que duas pessoas tenham a mesma experiência, e quanto mais distantes no tempo e no lugar estiverem, mais os detalhes das duas experiências serão diferentes.” 42 40.ARAUJO, José. A casa que nós somos. Cardume editores,2016. 41. HABRAKEN, N. John. fonte secundária: DURÃES, Maria. Habitação para todos - Processo (d) e desenho, repetição e identidade, FAUP, 2015. 42.Csikszentmihalyi, Robinson, 1990. fonte secundária: ESTRELA, Bruna. A Arquitetura e os sentidos, FAUL,2020. Adaptação 89 A ilustração do lado, procura desconstruir o espaço do CORPO já habitado e experimentado, subdivido-o por camadas, cores e utensílios. Para isso utilizamos o complexo habitacional, planeado por Alejandro Aravena43, no México, pois acreditamos que é aquele que melhor define aquilo que procuramos defender neste trabalho. A diversidade da casa. Alejandro desenhou e projetou casa iguais, em sequência, libertando um pequeno módulo que as separa cada habitação, com o objetivo de dar liberdade de, no futuro o próprio habitante se apoderar e a alterar como quiser, atribuindo-lhe, por conseguinte, personalidade própria. Com este exercício conseguimos retirar que o carácter de cada habitação se expressa através da cor das paredes, dos materiais utilizados, dos utensílios (porta e janela) que variam consoante o desejado. 43. ARAVENA, Alejandro, Complexo habitacional, México, 2010. 90 Ilustração 18 O CORPO refletido através de objetos Componentes espaciais da domesticidade 97 O CORPO refletido através de objetos Ilustração 20 O CORPO “Farnsworth” refletido através de objetos 98 99 100 Decidimos terminar este capítulo com a certeza de que um verdadeiro CORPO estará sempre em constante “lapidação”. Só será verdadeiro se manifestar em nós (personagens) um constante desejo de apropriação dos espaços. Porque assim se constroem experiências, porque assim é que se vive num CORPO. “Desde que haja condições que permitam estas transformações...o prazer está em pensar na casa como forma de viver.” 54 54.ARAÚJO, José. A casa que nós somos, Cardume editores,2016. 101 102 CONCLUSÃO Advertências e considerações Com esta dissertação, acima de tudo, pretendeu-se uma abordagem criativa, eventualmente menos convencional, mas que julgamos ser válida no âmbito de um trabalho académico desta natureza, aproveitando o facto de ser tratar do nosso último trabalho, enquanto estudante de arquitetura. Dado o seu carácter experimental, tratámos este estudo como um “ensaio”, na procura da identificação do tema, de um modo mais personalizado e talvez até um tanto abstrato. Ou seja, o método de trabalho utilizado na sua elaboração obrigou-nos a refletir de um modo distinto do habitual. A nossa principal intensão, de facto, era chegar à casa “identitária”, que funcionaria como um dispositivo individual, onde cada um se revia na sua identidade. Pensávamos, apenas, naquilo que nos distinguia enquanto seres humanos: gostos, culturas, sonhos, memórias, ou tantas outras coisas que só nos levariam a conclusões incertas, tal como o próprio tema que procurávamos trabalhar. 103 A vontade em estudar um CORPO, surgiu quando pensámos no processo de trabalho, colocando as seguintes questões: E se refletirmos sobre aquilo que nos é comum a que conclusão chegaremos? Se redefinirmos as regras básicas da sobrevivência humana e construirmos um pensamento arquitetónico, mantendo-as como base, o que obtemos? Certo é que todos temos um suporte humano idêntico, na sua generalidade, tais como são idênticas todas as ações da domesticidade, vitais à nossa existência independentemente do “como”. Com isto, surgiu a ideia, sem nos afastarmos do tema propriamente dito de olharmos para a temática de forma inversa do que é usual fazer-se. Pensávamos, apenas, em cada fase do “ensaio”, questionando cada inquietação à medida que ia surgindo. Quisemos construir uma história em torno de um CORPO. A história “ de um corpo” que se transforma, que permanece inanimado até ser habitado. Esse CORPO é uma CASA. E essa “casa”, a que aqui quisemos refletir, é a que se sustenta simplesmente nas regras básicas da sobrevivência humana e nas ações vitais da domesticidade. E como qualquer outra história imaginada, esta também nasceu de forma talvez um tanto ingénua, mas genuína, procurando “(...) uma oportunidade para experimentar algo novo, na tentativa de descobrir soluções inovadoras?” 55 Ou seja, o nosso principal objetivo passou por demonstrar as funcionalidades desse CORPO e por que processos passa até alcançar a tal “identidade” desejada. 55 . LIBESKIND, Daniel. 104 Se descrevêssemos, apenas, numa palavra o que pretendemos em cada capítulo do trabalho, seria: entendê-lo, compô-lo, testálo e apropriá-lo. Há medida em que nos fomos debruçando na história da transformação do CORPO, formal ou vital, observámos que se foi desenvolvendo, desde sempre, resultando num CORPO formalmente pouco evoluído, cujo interior era composto por uma única célula que o definia, e cuja única função era a de abrigar de um exterior incontrolável. Todas as funções essenciais à vida eram exercidas no mesmo espaço da célula. Com o passar dos tempos e com o evoluir paralelo ao da humanidade, o CORPO, de hoje, tornou-se mais exigente. A sua composição (exterior/interior) passou a basear-se na combinação de, pelo menos, quatro células: a do estar, a do dormir, a do cozinhar e a do higienizar. Espaços vitais. Estes, que o permitem ser CORPO e que lhe atribuem o seu caráter doméstico. Com isto, não consideramos que um CORPO, para o ser, atualmente, não poderá ter mais células. Antes, afirmamos que só o poderá ser, se for constituído por elas. De seguida, e porque todos os passos deste “manual” seguiram um pensamento um tanto abstrato, constatámos que tal morfologia implicaria uma infraestrutura que fosse capaz de garantir a eficiência de cada célula. (De)compusemos os quatro espaços e, curiosamente, acabámos por perceber que existem, no interior do CORPO, um conjunto de diferentes artérias: a do ar, a da eletricidade e a da água. 105 Formalmente, estas são compostas por materiais distintos, dependendo da eficiência e tarefa das mesmas. No entanto, concluímos que aquilo que “alimenta” a essência dos espaços, passa, igualmente, por uma componente estruturante. Isto é, uma outra estrutura que estimula as células de forma particular, atribuindo-lhe caráter. Contudo, quando já conhecíamos minimamente o espaço do CORPO, julgámos que estava na altura de o testar, de o colocar em funcionamento e perceber qual o movimento de uma personagem nesse espaço. Portanto, o momento que se seguiu, serviu para testar a personagem (ainda sem caráter) num CORPO “inanimado”. Assim, chegámos à conclusão que fazê-lo numa “célula” sem qualquer definição, sem função atribuída, causaria confusão na personagem, uma vez que necessita de certos estímulos sensoriais, sejam eles: visuais, olfativas, táteis, auditivos e gustativas. Medimo-la, usando as bases de referências de Neufert56 e dispusemo-la em cada célula do CORPO. Considerámos o seu movimento, que nasce da necessidade de ações vitais, uma chave importantíssima para prosseguir no trabalho, uma vez que, o objetivo seguinte seria o de apropriação, do CORPO. Na verdade, julgamos que esta constatação só realça, mais uma vez, a importância de pensar o CORPO, colocando-nos dentro. Imaginar a experiência de cada espaço, usando as ações como o impulsionador de um bom projeto. 56. NEUFERT, Ernest. Arte de projetar Arquitetura, Editorial Gustavo Gil, 1998. 106 Mas se ao longo do trabalho, nos parecia evidente, enquanto arquitetos, que quando nos focamos na experiência do espaço, conseguimos contribuir com uma maior objetividade nos propósitos do CORPO; agora, julgamos que esta constatação só é possível, quando é ocupado/apropriado. Aliás, “ ficamos convencidas de que o CORPO, só existe verdadeiramente quando passa a ser habitado.” 57 . Na verdade, refletimos também sobre o modo como se adaptou à personagem, e não o contrário. Concluímos, que muito para além da sua estrutura anatómica, da sua materialização, o CORPO apresenta caráter e se modifica, consoante a sua apropriação. À medida que é apropriado passa a pertencer à própria personagem que o habita, fundindo-se no seu “ADN”, composto por desejos, sonhos, cultura, memórias, referências e tantas outras coisas que o distinguem de qualquer outro CORPO, aparentemente igual. A apropriação que é feita, muitas vezes passa pela alteração de elementos decorativos; pela disposição dos equipamentos no interior das células; pela pintura dos espaços, com vista a ajustar o CORPO à “alma” que o habita e que também ela se transforma consoante as suas necessidades. De uma forma resumida, podemos concluir que este trabalho permitiu-nos especular sobre um CORPO, que é uma CASA, reduzindo-o a necessidades, ações, métricas e identidades. 57.RODRIGUES Ana. A habitabilidade do espaço doméstico: o cliente, o arquiteto, o habitante e a casa , 2008. 113 Ilustração 3imagem manipulada pela autora com recurso a: h t t p s : / / c o m m o n s . w i k i m e d i a . o r g / w i k i / File:Shelter_below_the_Thief's_Cave_-_geograph.org.uk__170687.jpg https://andamento.pt/workshop-de-sobrevivencia/ https://www.istockphoto.com/pt/foto/reed-cabana-lago-titicacano-peru-gm182426233-11832081 https://pinoy-culture.tumblr.com/post/30340009471/house-ofdakay-oldest-stone-house-in-batanes https://plantasdecasas.com/42-modelos-de-fachadas-de-casas/ https://3d1.com.br/forum/imagens-e-animacoes/imagensfinalizadas-de-maquete-eletronica/96215 https://casavogue.globo.com/Arquitetura/Edificios/ noticia/2018/07/arranha-ceu-mais-alto-da-europa-esta-pronto-veja -imagens.html https://www.sutori.com/en/item/1-5-million-years-ago-there-is-the -earliest-form-of-humans-called-homorectis Ilustração 4imagem manipulada pela autora com recurso a: https://www.sothebys.com/en/buy/auction/2021/impressionistmodern-art-london/le-cabinet-anthropomorphique-2 Ilustração 5imagem manipulada pela autora com recurso a: https://www.domusweb.it/en/art/2011/11/04/francoisdallegret.html 114 Ilustração 6imagem manipulada pela autora com recurso a: https://www.atlasofplaces.com/architecture/anatomy-of-adwelling/ Ilustração 7imagem manipulada pela autora com recurso a: https://www.atlasofplaces.com/architecture/anatomy-of-adwelling/ Ilustração 8imagem manipulada pela autora com recurso a: https://www.atlasofplaces.com/architecture/anatomy-of-adwelling/ Ilustração 9imagem manipulada pela autora com recurso a: https://www.atlasofplaces.com/architecture/anatomy-of-adwelling/ Ilustração 10imagem manipulada pela autora com recurso a: https://www.atlasofplaces.com/architecture/anatomy-of-adwelling/ Ilustração 11imagem manipulada pela autora com recurso a: https://www.researchgate.net/figure/Figura-05-A-Criacao-de-Adao -c1511-1512-afresco-de-Michelangelo-BuonarrotiCapela_fig8_322090745 Ilustração 12imagem manipulada pela autora com recurso a: https://i.pinimg.com/originals/3c/ a9/03/3ca9038303c752f8d3f7aeac0a98829e.png 115 https://arch-rivals.tumblr.com/post/60432294449 https://www.archdaily.com.br/br/tag/keep-it-modern https://ofhouses.com/post/105445473630/129-alison-petersmithson-solar-pavilion https://hotcore.info/babki/gerrit-rietveld.htm https://www.vivadecora.com.br/pro/arquitetura-modernabrasileira/? 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