O risco hidrológico no município de Braga: contributo para a sua cartografia
Abstract
O risco hidrológico é um dos riscos vulgarmente classificado como natural e que apresenta uma elevada e difusa incidência no território nacional, não sendo, o município de Braga, uma exceção. Neste contexto, foi adaptada uma metodologia, para a elaboração de uma cartografia de risco hidrológico no município de Braga, que envolve três componentes de risco, sendo eles a perigosidade, a exposição e a vulnerabilidade social. Esta metodologia permitiu identificar as áreas com diferentes níveis de risco e, desta forma, foi possível estabelecer também as áreas prioritárias para a implementação de medidas de gestão do risco hidrológico, visando melhorar a segurança das populações.
Full text
Luciano Lourenço é doutorado em Geografia Física, pela Universidade de Coimbra, onde foi Professor Catedrático, encontrando-se atualmente na situação de jubilado. É Diretor do NICIF - Núcleo de Investigação Científica de Incêndios Florestais, da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e Presidente da Assembleia Geral da RISCOS - Associação Portuguesa de Riscos, Prevenção e Segurança. Exerceu funções de Diretor-Geral da Agência para a Prevenção de Incêndios Florestais, Presidente do Conselho Geral da Escola Nacional de Bombeiros e Presidente da Direção da Escola Nacional de Bombeiros. Consultor científico de vários organismos e de diversas revistas científicas, nacionais e estrangeiras, coordenou diversos projetos de investigação científica, nacionais e internacionais, e publicou mais de mais de três centenas de títulos, entre livros e capítulos de livro, artigos em revistas e atas de colóquios, nacionais e internacionais. CINDÍNICOS estudos CINDÍNICOS estudos CINDÍNICOS estudos CINDÍNICOS estudos CINDÍNICOS estudos CINDÍNICOS estudos 10 CINDÍNICOS estudos CINDÍNICOS estudos CINDÍNICOS estudos Volvida uma década, o Encontro Nacional de Riscos, na sua XIV edição, regressou à Universidade de Coimbra. Depois de vários Encontros terem decorrido de Norte a Sul do território continental e no arquipélago da Madeira, o XIV Encontro, sobre “Risco de Cheias e Risco de Inundações Fluviais - Aprender com o Passado”, voltou a Coimbra para revisitar as cheias e inundações de 2001, que imprimiram um rasto de destruição em várias bacias hidrográficas nacionais, com destaque para a do rio Mondego, onde o rebentamento de vários diques, a jusante de Coimbra, provocou mais de uma centena de desalojados. No decurso destas duas décadas, o risco de cheia e de inundação voltou a manifestar-se, com as inundações de janeiro e fevereiro de 2016 a causarem avultados prejuízos na área ribeirinha de Coimbra e, as de dezembro de 2019, a afetarem vastas áreas da planície aluvial do rio Mondego. Assim, diremos que o objetivo deste Encontro, à semelhança de outros anteriores, visou revisitar acontecimentos nefastos, para deles retirar os ensinamentos que podem transmitir e, assim, aprender com essa(s) experiência(s) do passado. Para tal, neste Encontro colocaram-se os agentes de proteção civil, o órgão de gestão das bacias hidrográficas, a empresa de gestão da produção de energia da barragem da Aguieira e o Programa Operacional Sustentabilidade e Eficiência no Uso de Recursos, a discutir com a comunidade científica as causas e as consequências destes acontecimentos e, sobretudo, a refletir sobre os desafios que se colocam à gestão integrada desta bacia hidrográfica, no intuito de evitar/reduzir o risco de cheias e o consequente risco de inundações no Baixo Mondego. A expectativa foi a de que, com o envolvimento e articulação de todos, se pudesse reduzir o risco de inundações no Baixo Mondego, através do aumento tanto da resiliência das comunidades, como das capacidades de antecipação e de resposta dos meios de prevenção e socorro em situação de crise. A publicação das intervenções proferidas durante este XIV ENR pretende contribuir para esse desiderato. Risco de Cheias e Risco de Inundações Fluviais. Aprender com o Passado RISCOS Associação Portuguesa de Riscos, Prevenção e Segurança Coimbra, 2022 Coordenadores: Luciano Lourenço Adélia Nunes Risco de Cheias e Risco de Inundações Fluviais Aprender com o Passado Adélia Nunes é Professora Associada, com Agregação em Geografia, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde exerce funções de docência e investigação. Diretora do Departamento de Geografia e Turismo, da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, membro integrado do Centro de Estudos de Geografia e Ordenamento do Território (CEGOT), da RISCOS (Associação Portuguesa de Riscos, Prevenção e Segurança) e do NICIF (Núcleo de Investigação Científica de Incêndios Florestais). Ingressou na carreira docente universitária em 1999. Em 2001 concluiu o Mestrado em Geografia Física e em 2007 o Doutoramento em Geografia. Dinâmica da paisagem, riscos naturais e mistos e gestão de recursos naturais são as principais áreas de investigação, tendo publicado várias dezenas de trabalhos, onde se incluem capítulos de livros e artigos em revistas de especialidade. Desde 2008 colabora no Mestrado em Ensino de Geografia e em 2017 assumiu a Coordenação do Mestrado em Geografia Física, Ambiente e Ordenamento do Território. XIV XIV
Luciano Lourenço é doutorado em Geografia Física, pela Universidade de Coimbra, onde foi Professor Catedrático, encontrando-se atualmente na situação de jubilado. É Diretor do NICIF - Núcleo de Investigação Científica de Incêndios Florestais, da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e Presidente da Assembleia Geral da RISCOS - Associação Portuguesa de Riscos, Prevenção e Segurança. Exerceu funções de Diretor-Geral da Agência para a Prevenção de Incêndios Florestais, Presidente do Conselho Geral da Escola Nacional de Bombeiros e Presidente da Direção da Escola Nacional de Bombeiros. Consultor científico de vários organismos e de diversas revistas científicas, nacionais e estrangeiras, coordenou diversos projetos de investigação científica, nacionais e internacionais, e publicou mais de mais de três centenas de títulos, entre livros e capítulos de livro, artigos em revistas e atas de colóquios, nacionais e internacionais. CINDÍNICOS estudos CINDÍNICOS estudos CINDÍNICOS estudos CINDÍNICOS estudos CINDÍNICOS estudos CINDÍNICOS estudos 10 CINDÍNICOS estudos CINDÍNICOS estudos CINDÍNICOS estudos Volvida uma década, o Encontro Nacional de Riscos, na sua XIV edição, regressou à Universidade de Coimbra. Depois de vários Encontros terem decorrido de Norte a Sul do território continental e no arquipélago da Madeira, o XIV Encontro, sobre “Risco de Cheias e Risco de Inundações Fluviais - Aprender com o Passado”, voltou a Coimbra para revisitar as cheias e inundações de 2001, que imprimiram um rasto de destruição em várias bacias hidrográficas nacionais, com destaque para a do rio Mondego, onde o rebentamento de vários diques, a jusante de Coimbra, provocou mais de uma centena de desalojados. No decurso destas duas décadas, o risco de cheia e de inundação voltou a manifestar-se, com as inundações de janeiro e fevereiro de 2016 a causarem avultados prejuízos na área ribeirinha de Coimbra e, as de dezembro de 2019, a afetarem vastas áreas da planície aluvial do rio Mondego. Assim, diremos que o objetivo deste Encontro, à semelhança de outros anteriores, visou revisitar acontecimentos nefastos, para deles retirar os ensinamentos que podem transmitir e, assim, aprender com essa(s) experiência(s) do passado. Para tal, neste Encontro colocaram-se os agentes de proteção civil, o órgão de gestão das bacias hidrográficas, a empresa de gestão da produção de energia da barragem da Aguieira e o Programa Operacional Sustentabilidade e Eficiência no Uso de Recursos, a discutir com a comunidade científica as causas e as consequências destes acontecimentos e, sobretudo, a refletir sobre os desafios que se colocam à gestão integrada desta bacia hidrográfica, no intuito de evitar/reduzir o risco de cheias e o consequente risco de inundações no Baixo Mondego. A expectativa foi a de que, com o envolvimento e articulação de todos, se pudesse reduzir o risco de inundações no Baixo Mondego, através do aumento tanto da resiliência das comunidades, como das capacidades de antecipação e de resposta dos meios de prevenção e socorro em situação de crise. A publicação das intervenções proferidas durante este XIV ENR pretende contribuir para esse desiderato. Risco de Cheias e Risco de Inundações Fluviais. Aprender com o Passado RISCOS Associação Portuguesa de Riscos, Prevenção e Segurança Coimbra, 2021 Coordenadores: Luciano Lourenço Adélia Nunes Risco de Cheias e Risco de Inundações Fluviais Aprender com o Passado Adélia Nunes é Professora Associada, com Agregação em Geografia, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde exerce funções de docência e investigação. Diretora do Departamento de Geografia e Turismo, da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, membro integrado do Centro de Estudos de Geografia e Ordenamento do Território (CEGOT), da RISCOS (Associação Portuguesa de Riscos, Prevenção e Segurança) e do NICIF (Núcleo de Investigação Científica de Incêndios Florestais). Ingressou na carreira docente universitária em 1999. Em 2001 concluiu o Mestrado em Geografia Física e em 2007 o Doutoramento em Geografia. Dinâmica da paisagem, riscos naturais e mistos e gestão de recursos naturais são as principais áreas de investigação, tendo publicado várias dezenas de trabalhos, onde se incluem capítulos de livros e artigos em revistas de especialidade. Desde 2008 colabora no Mestrado em Ensino de Geografia e em 2017 assumiu a Coordenação do Mestrado em Geografia Física, Ambiente e Ordenamento do Território. XIV XIV
Antenora Maria da Mata Siqueira Universidade Federal Fluminense, Brasil Carla Juscélia Oliveira Souza Universidade de São João del Rei, Brasil Esteban Castro Universidade de Newcastle, Reino Unido José António Vega Centro de Investigación Forestal de Lourizán, Espanha José Arnaez Vadillo Universidade de La Rioja, Espanha Lidia Esther Romero Martín Universidade Las Palmas de Gran Canaria, Espanha Miguel Castillo Soto Universidade do Chile Monserrat Díaz-Raviña Inst. Inv. Agrobiológicas de Galicia, Espanha Norma Valencio Universidade Federal de São Carlos, Brasil Ricardo Alvarez Univ. Atlântica, Florida, Estados Unidos da América Victor Quintanilla Universidade de Santiago de Chile, Chile Virginia Araceli García Acosta CIESAS, México Xavier Ubeda Cartañà Universidade de Barcelona, Espanha Yvette Veyret Universidade de Paris X, França Estruturas Editoriais | Editorial Structures Estudos Cindínicos Diretor Principal | Main Editor Luciano Lourenço RISCOS - Associação Portuguesa de Riscos, Prevenção e Segurança Diretores Adjuntos | Assistant Editors António Amaro, Adélia Nunes, António Vieira, Fátima Velez de Castro RISCOS - Associação Portuguesa de Riscos, Prevenção e Segurança Assistente Editorial | Editoral Assistant Fernando Félix RISCOS - Associação Portuguesa de Riscos, Prevenção e Segurança Comissão Científica | Editorial Board Adélia Nunes Universidade de Coimbra Ana Meira Castro Instituto Superior de Engenharia do Porto António Betâmio de Almeida Instituto Superior Técnico, Lisboa António Duarte Amaro Escola Superior de Saúde do Alcoitão António Vieira Universidade do Minho Cármen Ferreira Universidade do Porto Fátima Velez de Castro Universidade de Coimbra Helena Fernandez Universidade do Algarve Humberto Varum Universidade de Aveiro José Simão Antunes do Carmo Universidade de Coimbra Luciano Lourenço Universidade de Coimbra Romero Bandeira Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, Porto Tiago Ferreira Universidade do Minho Tomás de Figueiredo Instituto Politécnico de Bragança
Risco de cheiAs e Risco de inundAções FluViAis. ApRendeR com o pAssAdo luciAno louRenço AdéliA nunes (cooRds.)
©Março de 2022, RISCOS - Associação Portuguesa de Riscos, Prevenção e Segurança Edição RISCOS - Associação Portuguesa de Riscos, Prevenção e Segurança Email: [email protected] URL: https://www.riscos.pt/publicacoes/sec/ Coordenação Editorial Luciano Lourenço e Adélia Nunes Imagem da Capa Karine Nieman Pré-impressão Fernando Félix Execução Gráfica Simões & Linhares, Lda. ISSN 2184-5727 DOI (Série) https://doi.org/10.34037/978-989-54295-1-6 Depósito Legal 495408/22 ISBN 978-989-9053-11-3 ISBN Digital 978-989-9053-12-0 DOI https://doi.org/10.34037/978-989-9053-12-0_10 1.ª Edição
Este trabalho é Financiado por Fundos Nacionais através da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia no âmbito do projeto “UIDB/GEO/04084/2020” e “UIDP/GEO/04084/2020”. This work is Financed by National Funds through the FCT - Foundation for Science and Technology under the project “UIDB/GEO/04084/2020” and “UIDP/GEO/04084/2020”.
12 hidrométricos (antigos e atuais). Assim, no período de 1200 a 2021, identificaram 296 cheias, 32 classificadas de catastróficas e 60 de extraordinárias. Entre os impactos mais relevantes, salientam a perda de vidas humanas, o isolamento das populações, situações de insalubridade e doenças, perdas agrícolas e na pecuária, destruição de infraestruturas hidráulicas e vias de comunicação, habitações, igrejas, conventos e comércio. Concluiram que o Mondego poderá estar parcialmente “domado” pelas atuais estruturas hidráulicas, mas “não controlado”, por isso é necessário adaptar o atual sistema de gestão da Bacia Hidrográfica à realidade atual. Sobre a “Gestão do risco de inundação no Baixo Mondego”, Carlos Luís Tavares conclui, no capítulo que se segue, que as medidas estruturais de proteção são fundamentais na redução dos riscos de cheias e de inundações, acrescentando que, nos eventos de 2000, 2001, 2016 e, principalmente, no de 2019, ficou evidente a necessidade de serem complementadas com o desenvolvimento de atividades nãoestruturais. Destaca, neste âmbito, o ordenamento do território, a gestão da emergência e o envolvimento das comunidades locais em todo o processo de gestão do risco. O “Investimento do POSEUR na Redução de Riscos de Cheias e Inundações. O Exemplo do Baixo Mondego”, é o título do capítulo da autoria de José Marques Guedes, no qual se analisa o financiamento comunitário a projetos com o objetivo de Redução de Riscos de Cheias e Inundações, com especial destaque para os investimentos aprovados na Bacia Hidrográfica do Mondego. Assim, no que concerne ao Baixo Mondego foram 7 as operações financiadas, que representam um investimento total superior a 36 M€, destinados principalmente à limpeza de leitos e margens (vegetação e/ou materiais), e a ações para reduzir a impermeabilização dos solos, através da rearborização das margens em zonas críticas. No capítulo “Projetar o futuro revivendo acontecimentos passados. As cheias do rio Mondego e a queda da ponte Hintze Ribeiro”, José Antunes do Carmo analisa as cheias de 2000/2001 que afetaram a cidade de Coimbra e a planície do Baixo Mondego. Contudo, nesse mesmo ano hidrológico ocorreu a “tragédia de Entre-os-Rios”, com o colapso da ponte Hintze Ribeiro, provocando a morte de 59 pessoas. O Autor é perentório ao afirmar que o colapso da ponte Hintze Ribeiro é um exemplo concreto de resposta do leito aluvionar a alterações antrópicas, só possíveis por manifesta permissividade, gestão inadequada, negligência e fiscalização inexistente. Acrescenta que o fenómeno de erosão localizada, em pilares de pontes construídas em fundos
13 aluvionares, representa um risco acrescido à segurança da estrutura e dos seus utilizadores. Enfatiza, por fim, a necessidade de estudar e acompanhar as alterações do leito junto aos pilares, mas também ao longo de extensões significativas do rio para montante e para jusante do trecho onde a infraestrutura se encontra implantada. A segunda parte deste livro, congrega vários capítulos sobre os “Riscos de inundação noutras bacias hidrográficas de Portugal e do Brasil”. No trabalho apresentado por Isabel Machado Ferreira, António Bento-Gonçalves e António Vieira, sobre “O risco hidrológico no município de Braga: contributo para a sua cartografia”, constatou-se que apesar do risco hidrológico estar inserido no grande grupo dos riscos naturais, uma vez que a sua manifestação se encontra associada às características do meio natural, também apresenta várias condicionantes antrópicas, sobretudo relacionadas com a evolução da urbanização, sendo de destacar, neste município, as construções nas proximidades dos cursos de água, o aumento das taxas de impermeabilização e as obstruções nos cursos de água e nos sistemas de drenagem. Os dois capítulos seguintes, versam sobre a resposta hidrológica de cursos de água, localizados Nordeste de Português; o primeiro, da autoria de Tamires Bertocco, Tomás de Figueiredo e Felícia Fonseca, trata “Estimativas de caudal de ponta no Parque Natural de Montesinho aplicando o método SCS” e avalia a influência que os lameiros exercem na regulação do ciclo hidrológico em pequenas bacias de drenagem em zonas de montanha; o segundo, da autoria de Vinícius Kenzo Okada, Tomás de Figueiredo Felícia Fonseca e Maurício Morerira dos Santos, analisa as “Tendências de evolução temporal dos caudais médios diários em bacias de montanha do NE de Portugal”. Os resultados obtidos, no primeiro destes estudos, mostra a influência da área ocupada por lameiros nas respostas hidrológicas, apontando para um aumento, em cenários de mudanças climáticas, mais expressivo nos caudais de ponta, quando os lameiros estão em condição de abandono. No segundo estudo ficou evidente um decréscimo tanto dos caudais como dos coeficientes de escoamento (valores médios), com a redução da precipitação a significar caudais abaixo do expectável, quando se considera apenas a variação espacial das precipitações na região. No capítulo seguinte, com o título “A vala de Alpiarça e o risco de inundação em Almeirim”, Samuel Rodrigues Tomé e Luciano Lourenço analisam as inundações fluviais ocorridas durante mais de um século, na cidade de Almeirim, com o intuito de perceber se a construção de barragens, no rio Tejo, teve um impacte significativo
14 na sua redução, tanto em termos de periodicidade como de altura hidrométrica. Os resultados mostram que o risco de inundação diminuiu, contudo o seu controlo só será efetivo quando se promover uma gestão adequada de água descarregada pelas barragens, em plena concertação entre Portugal e Espanha. Os capítulos que se seguem, de Antônio Carlos Ribeiro Araújo Júnior e de Jacques Manz, Raul Reis Amorim e Carmen Ferreira, versam, respetivamente, sobre as “Inundações urbanas na Amazônia Setentrional, Boa Vista-RR-Brasil” e sobre a “Interface entre diferentes políticas públicas na gestão do risco de inundações em Petrópolis, RJ – Brasil”. No primeiro, analisam-se, de forma integrada, fatores biofísicos e socioeconómicos, essenciais no enquadramento geoespacial do risco de inundação na cidade de Boa Vista, com o intuito de identificar as áreas potencialmente perigosas e socialmente vulneráveis a eventos desta natureza, enquanto no segundo, se analisa a interface entre Políticas Nacionais, seja de Recursos Hídricos ou de Proteção e Defesa Civil, e Sistemas Nacionais, neste caso, o de Unidades de Conservação, na gestão do risco de inundações em Petrópolis. A fechar este livro, Mário Talaia e Pedro Talaia apresentam o capítulo intitulado “Contribuição da educação na resolução do risco de inundação: caso através da observação de imagens”, onde exploram a combinação de fundamentos teóricos, que permitem a interpretação do risco de inundações e a utilização de imagens de diferentes locais, para mostrar as consequências da manifestação deste risco, considerando-a como uma valiosa estratégia na prevenção de eventos futuros. Trata-se, sem dúvida, de um livro de elevada utilidade para investigadores, decisores públicos, professores e estudantes, com interesse nesta matéria ou com responsabilidade na análise e gestão dos riscos de cheias e de inundações fluviais. A expectativa é a de que, com o envolvimento e articulação de todos, se possa reduzir o risco de inundações no Baixo Mondego, assim como noutras bacias nacionais e internacionais, através do aumento, tanto da capacidade de antecipação, tornando as comunidades mais resilientes, como da capacidade de resposta dos meios de socorro em situação de crise, para mitigar os danos. Coimbra, 14 de novembro de 2021. Adélia Nunes
Riscos de Inundação noutras Bacias Hidrográficas de Portugal e do Brasil
o rISCo HIdroLÓgICo No mUNICÍpIo de Braga: CoNTrIBUTo para a SUa CarTografIa HYdroLogICaL rISK IN THe CITY of Braga: CoNTrIBUTIoN To ITS mappINg isabel Ferreira Universidade do Minho, Departamento de Geografia (Portugal) ORCID: 0000-0002-4286-315X [email protected] António Bento-Gonçalves Universidade do Minho, Departamento de Geografia (Portugal) ORCID: 0000-0002-9646-156X [email protected] António Vieira Universidade do Minho, Departamento de Geografia (Portugal) ORCID: 0000-0001-6807-1153 [email protected] Resumo: O risco hidrológico é um dos riscos vulgarmente classificado como natural e que apresenta uma elevada e difusa incidência no território nacional, não sendo, o município de Braga, uma exceção. Neste contexto, foi adaptada uma metodologia, para a elaboração de uma cartografia de risco hidrológico no município de Braga, que envolve três componentes de risco, sendo eles a perigosidade, a exposição e a vulnerabilidade social. Esta metodologia permitiu identificar as áreas com diferentes níveis de risco e, desta forma, foi possível estabelecer também as áreas prioritárias para a implementação de medidas de gestão do risco hidrológico, visando melhorar a segurança das populações. palavras -chave: Braga, risco hidrológico, perigosidade, exposição, vulnerabilidade social. DOI: https://doi.org/10.34037/978-989-9053-12-0_10_8
170 introdução - enquadramento do risco hidrológico no município de Braga Rebelo (1996) afirma que o ser humano, ao se consciencializar da sua existência, ficou também ciente dos riscos a que estava exposto, sendo por isso, o risco, inerente à própria vida (Smith, 1992). Na nossa sociedade, o risco está em toda a parte (Veyret, 2007), podendo mesmo falar-se de uma “sociedade de risco” (Beck, 1992, pp: 183), sendo, portanto, diante deste paradigma, indispensável gerir o risco (Veyret, 2007). Risco natural é a denominação para fazer referência aos riscos que não podem ser facilmente atribuídos ou relacionados com a ação humana (Dagnino e Junior, 2007). No entanto, essa é uma tarefa cada vez mais difícil nos dias de hoje (Rebelo, 2003). Os riscos naturais, por vezes, não podem ser estudados isoladamente (Rebelo, 2003), pois resultam da conjugação de dois aspetos: da dinâmica do meio físico e da exposição de uma comunidade (Fernandes, 2009). Desta forma, pode afirmar-se que o risco natural aparece relacionado com o ambiente físico como elemento ativo e relacionado com a presença do homem como elemento passivo (Fernandes, 2009). O risco hidrológico é um dos riscos classificado como natural e decorre do excesso de água à superfície terrestre, comportando três subtipos que assumem uma aparência semelhante, sendo, por isso, muitas vezes confundidos e tratados como Abstract: The hydrological risk is a risk that is commonly classified as natural, and one which has a high and widespread incidence in the national territory; the municipality of Braga is no exception. A methodology was therefore adapted for drafting a map of the hydrological risk in the municipality of Braga. Three risk components are involved, namely, hazard, exposure, and social vulnerability. This methodology allowed the identification of areas with different levels of risk, and it was also possible to establish priority areas where hydrological risk management measures should be implemented, aimed at improving people’s safety. Keywords: Hydrological risk, Braga, probability of the hazard, exposure, social vulnerability.
171 um só. No entanto são tecnicamente distintos, podendo assim diferenciar-se o risco de cheia, o risco de inundação e o risco de alagamento (Lourenço, 2018). O risco de cheia decorre de um aumento brusco do caudal, ou da altura da água num leito fluvial ou num outro canal com capacidade para transportar água (Lourenço, 2018), normalmente em resultado de precipitações intensas (Costa, 2020). O risco de inundação é a consequência de duas componentes (Costa, 2020): por um lado, do processo associado ao transbordo da água para fora dos elementos que normalmente a contêm, sejam eles do leito normal dos rios, da linha de costa dos lagos, dos mares e dos oceanos, e dos canais subterrâneos naturais e artificiais (Lourenço, 2018); por outro, das vulnerabilidades que resultam do homem se instalar no espaço aluvial para implantar todos os tipos de construções, equipamentos e atividades (Costa, 2020). O risco de alagamento ainda é pouco mencionado por produzir um efeito semelhante e coincidir com o risco de inundação do ponto de vista hidrológico. Contudo apresenta uma gênese diferente e, por essa razão, deve ser tratado em separado (Lourenço, 2018). Este corresponde a uma acumulação de água em áreas aplanadas da superfície terrestre, resultando exclusivamente da precipitação e de dificuldades de infiltração e de escoamento superficial por saturação do solo e das rochas, pelo que não deve ser confundido com inundações pois não resulta de nenhum transbordo (Lourenço, 2018). O risco hidrológico é um dos riscos com bastante incidência no território nacional e, a cada ano que passa, são ainda muitos os municípios do país que continuam a ter problemas a ele associado (Costa, 2013). Naturalmente, o município de Braga não é exceção. A Agência Portuguesa do Ambiente (APA), no relatório da “Avaliação Preliminar do Risco de Inundações em Portugal Continental” identificou 71 Áreas de Risco Potencial Significativo de Inundação (ARPSI) em Portugal Continental, sendo em Braga identificadas duas áreas de risco potencial significativo de inundação, Braga Padim da Graça e Braga Este. Com uma área correspondente a 183,4 km2 (INE, 2018), o município de Braga localiza-se em Portugal Continental (NUT I), na Região do Norte (NUT II) e na Sub-região do Cávado (NUT III) e é limitada a norte pelos municípios de Vila Verde e Amares, a oeste por Barcelos, a este pela Póvoa de Lanhoso e a sul e sudeste
172 faz fronteira com os municípios de Vila Nova de Famalicão e Guimarães. Com a reorganização administrativa das freguesias estabelecida no Regime Jurídico das Autarquias Locais, Lei 75/2013 de 12 de setembro, na sua redação atual, as 62 freguesias que possuía encontram-se atualmente agregadas em 37 freguesias/uniões de freguesias (INE, 2018). Possui como principais rios o Rio Cávado, que comanda a hidrografia no setor norte, constituindo uma fronteira natural do município, e o Rio Este, que é um dos principais afluentes do Rio Ave e que percorre o centro urbano do município (fig. 1). Fig. 1 - Enquadramento geográfico do município de Braga (Fonte: CMB, 2020; DGT, 2019; SNIRH, 2020). Fig. 1 - Geographical setting of the municipality of Braga (Source: CMB, 2020; DGT, 2019; SNIRH, 2020). Neste território os fenómenos hidrológicos são frequentes, causando consequências negativas para o ambiente, sociedade e economia. Cabe assim ao
173 Homem atuar com o intuito de prevenir estes fenómenos e de minimizar os seus impactes. O direito a uma maior segurança e a uma melhor qualidade do ambiente é uma espectativa crescente da sociedade, pelo que é essencial identificar e delimitar as áreas de risco para que estas sejam passíveis de uma aplicação de medidas, que visem prevenir os cidadãos e minimizar prejuízos, imprescindíveis numa gestão do território eficiente (Zêzere et al., 2006). Assim, o objetivo principal deste trabalho passou por adaptar e desenvolver uma metodologia para a elaboração de uma cartografia de risco hidrológico, o que resultou na delimitação do município de Braga em cinco áreas de risco diferentes que vão desde o risco “muito baixo”, “baixo”, “médio”, “elevado”, a “muito elevado”, permitindo identificar as áreas a dar uma atenção reforçada. metodologia para a adaptação e elaboração de uma cartografia de risco hidrológico Esta metodologia teve como base estudos realizados anteriormente no âmbito do projeto FORLAND, que versam sobre o risco hidrológico, sendo posteriormente adaptada face ao território do município de Braga. Foi assim estabelecido um modelo de risco tendo como base três componentes de risco: a perigosidade, a exposição e a vulnerabilidade social (fig. 2). Risco •Perigosidade X Exposição X Vulnerabilidade social •Perigosidade = Probabilidade + Suscetibilidade •Vulnerabilidade social = Criticidade + Capacidade de suporte Fig. 2 - Modelo de risco. Fig. 2 - Risk model. De forma a dar corpo às componentes de risco foram selecionados e agrupados doze indicadores relevantes no território, em função das suas especificidades naturais, humanas e mistas, que determinam e influenciam o risco hidrológico (fig. 3).
180 exposição • Alojamentos Os fenómenos hidrológicos causam diversas consequências negativas, afetando a qualidade de vida das populações, que residem no município, podendo causar destruições, que comprometam o alojamento dos indivíduos levando mesmo a casos de desalojamento. A freguesia que regista um maior número de alojamentos é São Vítor (16619 alojamentos), seguindo-se a união de freguesias de Maximinos, Sé e Cividade (7522 alojamentos) e São José de São Lázaro e São João do Souto (7388 alojamentos) (fig. 10). • Densidade da rede rodoviária A ocorrência de fenómenos hidrológicos pode condicionar a circulação de viaturas no município. De facto, Braga é um município com um caracter Fig. 9 - Densidade da rede hidrográfica no município de Braga (Fonte: APA, 2020; DGT, 2019; SNIRH, 2020). Fig. 9 - Density of the hydrographic network in the municipality of Braga (Source: APA, 2020; DGT, 2019; SNIRH, 2020).
181 essencialmente urbano demonstrado pela cartografia da rede viária, que demosntra a sua elevada densidade (CMB, 2020), onde o excesso de água pode ocasionar dificuldades nos acessos ou até mesmo provocar o corte das vias (fig. 11). Fig. 10 - Total de alojamentos no município de Braga (Fonte: DGT, 2019; INE, 2021). Fig. 10 - Total dwellings in the municipality of Braga (Source: DGT, 2019; INE, 2021). Fig. 11 - Rede rodoviária no município de Braga (Fonte: CMB. 2017; DGT, 2018). Fig. 11 - Road network in the municipality of Braga (Source: CMB. 2017; DGT, 2018).
182 Vulnerabilidade social Criticidade • Densidade populacional A densidade populacional é um indicador importante na medida em que demonstra a relação entre a população e a superfície do território (INE, 2020), indicando os locais onde se encontram as maiores e as menores concentrações de população. Assim, é possível identificar os locais onde a criticidade pode ser maior e consequentemente os locais que necessitam de mais operacionais e meios para dar resposta em situações de manifestação de risco. A freguesia com maior densidade populacional é a de São Vítor, com 7258,46 hab/km2, seguindo-se a união de freguesias de São José de São Lázaro e São João do Souto, com 5881,10 hab/km2 e a união de freguesias de Maximinos, Sé e Cividade, com 5676,88 hab/km2 (INE, 2020). A freguesia de menor densidade populacional é a de Pedralva, com apenas 137,58 hab/km2, segue-se a união de freguesias de Crespos e Pousada, com 183,56 hab/km2, e a freguesia de Sobreposta, com 217,55 hab/km2 (INE, 2020). Como seria de esperar, é notório que as subsecções estatísticas das freguesias centrais são as áreas que detêm maior densidade, enquanto que as subsecções periféricas são as que registam menor densidade populacional existindo mesmo locais com o registo de 0 hab/km2 (fig. 12). Capacidade de suporte • Distância euclidiana aos hospitais Como referido anteriormente, as ocorrências de fenómenos hidrológicos podem causar consequências entre as quais ferimentos e até mesmo perdas de vidas humanas. Pelo que os hospitais são um equipamento de saúde a ser incuído nas componentes que determinam e influenciam o risco.
183 No município de Braga existem 5 unidades hospitalares, que se encontram localizados, sobretudo, na área urbana do município (fig. 13). Fig. 12 - Densidade populacional no município de Braga (Fonte: DGT, 2019, INE, 2021). Fig. 12 - Population density in the municipality of Braga (Source: DGT, 2019, INE, 2021). Fig. 13 - Distância euclidiana aos hospitais no município de Braga (Fonte: DGT, 2019 Googlemaps, 2020). Fig. 13 - Euclidean distance to hospitals in the municipality of Braga (Source: DGT, 2019 Googlemaps, 2020).
184 • Distância euclidiana às farmácias As farmácias são estabelecimentos com uma grande proximidade das populações, e nos dias de hoje a sua função vai muito além da simples dispensa de medicamentos aos utentes (Leal, 2014). No município de Braga, existem 38 farmácias (Infarmed, 2020), as quais se encontram distribuídas por todo o município, com predominância nas freguesias centrais (fig. 14). Fig. 14 - Distância euclidiana às farmácias no município de Braga (Fonte: DGT, 2019 Googlemaps, 2020). Fig. 14 - Euclidean distance to pharmacies in the city of Braga (Source: DGT, 2019 Googlemaps, 2020). • Distância euclidiana aos agentes de proteção civil Os agentes de proteção civil são entidades fundamentais em caso de ocorrências de fenómenos hidrológicos pois são aqueles que, sob a direção de chefias próprias, exercem funções de aviso, alerta, apoio e socorro, de acordo com as suas jurisdições próprias. Na generalidade os agentes de proteção civil estão sobretudo localizados na área urbana (fig. 15).
185 implementação da metodologia de cartografia do risco Tendo em vista a elaboração de uma cartografia de risco hidrológico, a metodologia utilizada baseou-se numa análise espacial em ambiente SIG. Primeiramente foi definida uma escala de risco, dispondo esta de cinco níveis de risco: “muito baixo”, “baixo”, “médio”, “elevado” e “muito elevado”, sendo dessa forma possível atribuir a cada classe dos indicadores, o nível de risco correspondente (fig. 16). Fig. 15 – Distância euclidiana aos agentes de proteção civil no município de Braga (Fonte: DGT, 2019 Googlemaps, 2020). Fig. 15 – Euclidean distance to civil protection agents in the municipality of Braga (Source: DGT, 2019 Googlemaps, 2020). Fig. 16 – Níveis de risco. Fig. 16 – Risk levels.
186 Seguidamente foi elaborada a respetiva cartografia com apoio do software ArcGis versão 10.6.1. da ESRI e foi utilizada a ferramenta raster calculator, disponível no software SIG para a gerar, uma vez que esta é uma ferramenta de geoprocessamento que permite criar e executar expressões de álgebra de mapas (ESRI, 2020). Com a finalidade de obter uma cartografia de risco hidrológico válida foi o seguinte o processo de atribuição de ponderações. Para a perigosidade pretendeu-se harmonizar os seus subcomponentes de forma a atribuir a ambos, probabilidade e suscetibilidade, a importância de 50%. Deste modo, o indicador incidência de fenómenos hidrológicos, possui 50% da percentagem total da perigosidade. Perigosidade No que concerne à suscetibilidade, foi atribuída maior ponderação à densidade da rede hidrográfica, 20%, uma vez que nesta está implícita a génese das cheias e inundações e indiretamente a ocorrência de alagamentos em momentos de precipitação. Depois seguem-se dois indicadores que se completam por estarem relacionados com a permeabilidade do território. A ocupação do solo detém uma ponderação de 15%, uma vez que a maior parte dos fenómenos hidrológicos ocorrem nas áreas urbanas que se traduzem por solos impermeáveis. Segundo Teixeira (2005), os fenómenos hidrológicos são sobretudo um problema urbano. Nestas áreas as águas têm dificuldades na infiltração e, portanto, o escoamento superficial é promovido. Segue-se a litologia, uma vez que está relacionada com a permeabilidade das rochas que compõem o território, sendo por isso atribuída a ponderação de 5%. O relevo, no seu conjunto, segue-se com 10% de ponderação. Este encontra-se subdividido em hipsometria e declives, ambos com 5% de ponderação, uma vez que estes se completam, pois, as cheias, inundações e alagamentos ocorrem simultaneamente em áreas de menor altitude, mas também com menor declive (aplanadas).
187 Exposição A componente exposição, é composta por apenas dois indicadores, nomeadamente os alojamentos e a densidade da rede rodoviária. Ao número de alojamentos por subsecção estatística foi atribuída a ponderação de 60%. Isto porque para além de representarem uma realidade numérica, também se destinam à habitação dos indivíduos, estando expostos de tal forma que, em caso de ocorrências de fenómenos hidrológicos graves, o lar dos residentes pode ser comprometido, existindo mesmo possibilidade de situações de desalojamento. No que concerne à densidade da rede rodoviária, optou-se por atribuir 40%. Uma vez que esta foi representada através da utilização de uma ferramenta de geoprocessamento aplicada às linhas da rede rodoviária, não se revela uma realidade absoluta. Por esse motivo atribuiu-se maior ponderação aos alojamentos. Contudo, este indicador também está exposto a fenómenos hidrológicos de tal modo que podem ocorrer situações que condicionem uma circulação fluída e segura. Sendo que, por isso, estas ponderações não foram muito díspares, visando o equilíbrio. Vulrnerabilidade social Relativamente à vulnerabilidade social, também se pretendeu uniformizar os seus subcomponentes de forma a atribuir a ambos, criticidade e vulnerabilidade social, a importância de 50%. Assim, o indicador correspondente à densidade populacional, possui 50% do total da criticidade. As ponderações dos indicadores que compõem a capacidade de suporte, foram atribuídas de forma a que os hospitais e os agentes de proteção civil tivessem a mesma importância (20%), uma vez que os hospitais são essenciais para tratar os casos mais graves que comprometam a saúde da população, e os restantes agentes de proteção civil são os responsáveis por prestarem o devido socorro às populações em casos de ocorrência de fenómenos hidrológicos. Já as farmácias dispõem de 10% de ponderação uma vez que complementam, como um apoio, os hospitais, pois para além da dispensa de medicamentos (Leal, 2014), disponibilizam um
188 conjunto de serviços de saúde, permitindo evitar algumas deslocações aos hospitais, possibilitando um melhor funcionamento das urgências (Lisbonph, 2020). Nesta perspetiva, deve-se dar destaque ao quadro que se segue (Tabela I). componente subcomponentes indicadores ponderações (%) perigosidade probabilidade Incidência espacial de fenómenos hidrológicos 50 suscetibilidade Ocupação do solo 15 Litologia 5 Relevo Hipsometria 5 Declive 5 Densidade da rede hidrográfica 20 exposição Alojamentos 60 Densidade da rede rodoviária 40 Vulnerabilidade social criticidade Densidade populacional 50 capacidade de suporte Distância euclidiana aos hospitais 20 Distância euclidiana às farmácias 10 Distância euclidiana aos agentes de proteção civil 20 TaBeLa I - Ponderações para a cartografia de risco hidrológico no município de Braga. Table I - Weightings for hydrological risk mapping in the municipality of Braga. Depois de realizados todos os ajustes e estabelecidos todos estes parâmetros, os dados foram inseridos na ferramenta raster calculator, do software ArcGis versão 10.6.1. da ESRI, procedendo-se ao cálculo da perigosidade, da exposição e da vulnerabilidade através das seguintes equações (equações 1, 2 e 3). Equação 1: Perigosidade Perigosidade = (incidência espacial X 0.5) + (ocupação do solo X 0.15) + (litologia X 0.05) + (hipsometria X 0.05) + (declive X 0.05) + (densidade da rede hidrográfica X 0.2) Equação 2: Exposição Exposição = (alojamentos X 0.6) + (densidade da rede rodoviária X 0.4) Equação 3: Vulnerabilidade social Vulnerabilidade social = (densidade populacional X 0.5) + (distância euclidiana aos hospitais X 0.2) + (distância euclidiana às farmácias X 0.1) + (distância euclidiana aos agentes de proteção civil X 0.2)
189 Para os mapas da perigosidade, da exposição e da vulnerabilidade social, o método de classificação de dados adotado foi o natural breaks em 5 classes. Posteriormente, para se obter a cartografia de risco hidrológico, foi implementada a seguinte equação no raster calculator (equação 4). Equação 4: Risco hidrológico Risco hidrológico = Perigosidade X Exposição X Vulnerabilidade social De forma a finalizar a cartografia de risco hidrológico, método de classificação de dados utilizado foi o quantile, estabelecido em 5 classes: “muito baixo”, “baixo”, “médio”, “elevado” e “muito elevado”. Neste método cada classe contém um número igual de recursos, não existindo níveis de risco vazios ou níveis de risco com poucos ou muitos valores (ESRI, 2020). Resultados da cartografia de risco hidrológico no município de Braga Após a implementação dos procedimentos para cálculos dos diversos indicadores, através da álgebra de mapas, obtivemos a carta de perigosidade, de exposição e vulnerabilidade social, bem como a carta de risco hidrológico. Assim constata-se que a distribuição da perigosidade é bastante irregular no conjunto do território analisado. A perigosidade “muito baixa” verifica-se sobretudo na periferia norte. A perigosidade “baixa” predomina no território e envolve todo centro do município. A perigosidade “média” localiza-se um pouco por todo o município, das periferias em direção ao centro, embora com menor expressão. Já a perigosidade “elevada” detém a menor área e observa-se principalmente circundando núcleo urbano, enquanto que a perigosidade “muito elevada” destaca-se pelo facto de abranger o troço do rio Este correspondendo ao centro urbano (fig. 17). Relativamente à exposição, a classe “muito baixa” encontra-se essencialmente nas periferias do município, enquanto que a “baixa” é a que detém maior área envolvendo o centro. A exposição “média” observa-se ao longo de manchas que ligam a periferia do município ao seu centro, as “elevadas” rodeiam o centro urbano e as “muito elevadas” concentram-se no centro urbano do território (fig. 18).
196 Tavares, O. A., Barros, J. L., Mendes, J. M., Santos, P. P., Pereira, S. (2018). Decennial comparison of changes in social vulnerability: A municipal analysis in support of risk management. International Journal of Disaster Risk Reduction. Elservier Veyret, Y. (2007). Os riscos: o homem como agressor e vítima do meio ambiente. Em Os riscos: o homem como agressor e vítima do meio ambiente, 23-79. Zêzere, J. L., Pereira, A. R., Morgado, P. (2006). Perigos naturais e tecnológicos no território de Portugal Continental. Apontamentos de Geografia - Série Investigação. Webgrafia http://apambiente.pt/index.php?ref=16&subref=7&sub2ref=9&sub3ref=848 (acedido 2020) http://www.dgterritorio.pt/ (acedido 2020) http://www.dgterritorio.pt/dados_abertos/cos/ (acedido 2020) https://apambiente.pt/ (acedido 2020) https://apambiente.pt/index.php?ref=16&subref=7&sub2ref=9 (acedido 2020) https://lisbonph.pt/ (acedido 2020) https://rea.apambiente.pt/ (acedido 2020) https://rea.apambiente.pt/content/risco-associado-%C3%A0s-zonasinund%C3%A1veis (acedido 2019) https://sniamb.apambiente.pt/ (acedido 2020) https://sniamb.apambiente.pt/tema/1309 (acedido 2020) https://snirh.apambiente.pt/ (acedido 2019) https://www.apambiente.pt/index.php?ref=16&subref=7&sub2ref=9&sub3ref=1250 (acedido 2020) https://www.esri-portugal.pt/pt-pt/o-que-sao-os-sig/overview (acedido 2019) https://www.facebook.com/municipiodebraga/posts/926289504068904/ (acedido 2020) https://www.sns.gov.pt/ (acedido 2020)
Sé r I e eS T U d o S CINdÍNICoS Títulos Publicados: 1 Incêndios em Estruturas. Aprender com o Passado; 2 Educação para a Redução dos Riscos; 3 Metodologia de Análise de Riscos através de Estudos de Casos; 4 Riscos Hidrometeorológicos; 5 Pluralidade na Diversidade de Riscos; 6 Risco Sísmico - Aprender com o Passado; 7 Territórios em Risco; 8 Resiliência ao Risco; 9 Madeira Região Resiliente - Aprender com o Passado; 10 Risco de Cheias e Risco de Inundações Fluviais - Aprender com o Passado. Tomos em preparação: 11 Ciência e Redução do Risco; 12 Geografia dos Incêndios Florestais. 50 anos de Incêndios a queimar Portugal; 13 Efeitos dos Incêndios Florestais nos Solos de Portugal. 14 Floresta, Incêndios e Educação; 15 Redução do Risco e Educação.
Luciano Lourenço é doutorado em Geografia Física, pela Universidade de Coimbra, onde foi Professor Catedrático, encontrando-se atualmente na situação de jubilado. É Diretor do NICIF - Núcleo de Investigação Científica de Incêndios Florestais, da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e Presidente da Assembleia Geral da RISCOS - Associação Portuguesa de Riscos, Prevenção e Segurança. Exerceu funções de Diretor-Geral da Agência para a Prevenção de Incêndios Florestais, Presidente do Conselho Geral da Escola Nacional de Bombeiros e Presidente da Direção da Escola Nacional de Bombeiros. Consultor científico de vários organismos e de diversas revistas científicas, nacionais e estrangeiras, coordenou diversos projetos de investigação científica, nacionais e internacionais, e publicou mais de mais de três centenas de títulos, entre livros e capítulos de livro, artigos em revistas e atas de colóquios, nacionais e internacionais. CINDÍNICOS estudos CINDÍNICOS estudos CINDÍNICOS estudos CINDÍNICOS estudos CINDÍNICOS estudos CINDÍNICOS estudos 10 CINDÍNICOS estudos CINDÍNICOS estudos CINDÍNICOS estudos Volvida uma década, o Encontro Nacional de Riscos, na sua XIV edição, regressou à Universidade de Coimbra. Depois de vários Encontros terem decorrido de Norte a Sul do território continental e no arquipélago da Madeira, o XIV Encontro, sobre “Risco de Cheias e Risco de Inundações Fluviais - Aprender com o Passado”, voltou a Coimbra para revisitar as cheias e inundações de 2001, que imprimiram um rasto de destruição em várias bacias hidrográficas nacionais, com destaque para a do rio Mondego, onde o rebentamento de vários diques, a jusante de Coimbra, provocou mais de uma centena de desalojados. No decurso destas duas décadas, o risco de cheia e de inundação voltou a manifestar-se, com as inundações de janeiro e fevereiro de 2016 a causarem avultados prejuízos na área ribeirinha de Coimbra e, as de dezembro de 2019, a afetarem vastas áreas da planície aluvial do rio Mondego. Assim, diremos que o objetivo deste Encontro, à semelhança de outros anteriores, visou revisitar acontecimentos nefastos, para deles retirar os ensinamentos que podem transmitir e, assim, aprender com essa(s) experiência(s) do passado. Para tal, neste Encontro colocaram-se os agentes de proteção civil, o órgão de gestão das bacias hidrográficas, a empresa de gestão da produção de energia da barragem da Aguieira e o Programa Operacional Sustentabilidade e Eficiência no Uso de Recursos, a discutir com a comunidade científica as causas e as consequências destes acontecimentos e, sobretudo, a refletir sobre os desafios que se colocam à gestão integrada desta bacia hidrográfica, no intuito de evitar/reduzir o risco de cheias e o consequente risco de inundações no Baixo Mondego. A expectativa foi a de que, com o envolvimento e articulação de todos, se pudesse reduzir o risco de inundações no Baixo Mondego, através do aumento tanto da resiliência das comunidades, como das capacidades de antecipação e de resposta dos meios de prevenção e socorro em situação de crise. A publicação das intervenções proferidas durante este XIV ENR pretende contribuir para esse desiderato. Risco de Cheias e Risco de Inundações Fluviais. Aprender com o Passado RISCOS Associação Portuguesa de Riscos, Prevenção e Segurança Coimbra, 2022 Coordenadores: Luciano Lourenço Adélia Nunes Risco de Cheias e Risco de Inundações Fluviais Aprender com o Passado Adélia Nunes é Professora Associada, com Agregação em Geografia, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde exerce funções de docência e investigação. Diretora do Departamento de Geografia e Turismo, da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, membro integrado do Centro de Estudos de Geografia e Ordenamento do Território (CEGOT), da RISCOS (Associação Portuguesa de Riscos, Prevenção e Segurança) e do NICIF (Núcleo de Investigação Científica de Incêndios Florestais). Ingressou na carreira docente universitária em 1999. Em 2001 concluiu o Mestrado em Geografia Física e em 2007 o Doutoramento em Geografia. Dinâmica da paisagem, riscos naturais e mistos e gestão de recursos naturais são as principais áreas de investigação, tendo publicado várias dezenas de trabalhos, onde se incluem capítulos de livros e artigos em revistas de especialidade. Desde 2008 colabora no Mestrado em Ensino de Geografia e em 2017 assumiu a Coordenação do Mestrado em Geografia Física, Ambiente e Ordenamento do Território. XIV XIV
Luciano Lourenço é doutorado em Geografia Física, pela Universidade de Coimbra, onde foi Professor Catedrático, encontrando-se atualmente na situação de jubilado. É Diretor do NICIF - Núcleo de Investigação Científica de Incêndios Florestais, da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e Presidente da Assembleia Geral da RISCOS - Associação Portuguesa de Riscos, Prevenção e Segurança. Exerceu funções de Diretor-Geral da Agência para a Prevenção de Incêndios Florestais, Presidente do Conselho Geral da Escola Nacional de Bombeiros e Presidente da Direção da Escola Nacional de Bombeiros. Consultor científico de vários organismos e de diversas revistas científicas, nacionais e estrangeiras, coordenou diversos projetos de investigação científica, nacionais e internacionais, e publicou mais de mais de três centenas de títulos, entre livros e capítulos de livro, artigos em revistas e atas de colóquios, nacionais e internacionais. CINDÍNICOS estudos CINDÍNICOS estudos CINDÍNICOS estudos CINDÍNICOS estudos CINDÍNICOS estudos CINDÍNICOS estudos 10 CINDÍNICOS estudos CINDÍNICOS estudos CINDÍNICOS estudos Volvida uma década, o Encontro Nacional de Riscos, na sua XIV edição, regressou à Universidade de Coimbra. Depois de vários Encontros terem decorrido de Norte a Sul do território continental e no arquipélago da Madeira, o XIV Encontro, sobre “Risco de Cheias e Risco de Inundações Fluviais - Aprender com o Passado”, voltou a Coimbra para revisitar as cheias e inundações de 2001, que imprimiram um rasto de destruição em várias bacias hidrográficas nacionais, com destaque para a do rio Mondego, onde o rebentamento de vários diques, a jusante de Coimbra, provocou mais de uma centena de desalojados. No decurso destas duas décadas, o risco de cheia e de inundação voltou a manifestar-se, com as inundações de janeiro e fevereiro de 2016 a causarem avultados prejuízos na área ribeirinha de Coimbra e, as de dezembro de 2019, a afetarem vastas áreas da planície aluvial do rio Mondego. Assim, diremos que o objetivo deste Encontro, à semelhança de outros anteriores, visou revisitar acontecimentos nefastos, para deles retirar os ensinamentos que podem transmitir e, assim, aprender com essa(s) experiência(s) do passado. Para tal, neste Encontro colocaram-se os agentes de proteção civil, o órgão de gestão das bacias hidrográficas, a empresa de gestão da produção de energia da barragem da Aguieira e o Programa Operacional Sustentabilidade e Eficiência no Uso de Recursos, a discutir com a comunidade científica as causas e as consequências destes acontecimentos e, sobretudo, a refletir sobre os desafios que se colocam à gestão integrada desta bacia hidrográfica, no intuito de evitar/reduzir o risco de cheias e o consequente risco de inundações no Baixo Mondego. A expectativa foi a de que, com o envolvimento e articulação de todos, se pudesse reduzir o risco de inundações no Baixo Mondego, através do aumento tanto da resiliência das comunidades, como das capacidades de antecipação e de resposta dos meios de prevenção e socorro em situação de crise. A publicação das intervenções proferidas durante este XIV ENR pretende contribuir para esse desiderato. Risco de Cheias e Risco de Inundações Fluviais. Aprender com o Passado RISCOS Associação Portuguesa de Riscos, Prevenção e Segurança Coimbra, 2022 Coordenadores: Luciano Lourenço Adélia Nunes Risco de Cheias e Risco de Inundações Fluviais Aprender com o Passado Adélia Nunes é Professora Associada, com Agregação em Geografia, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde exerce funções de docência e investigação. Diretora do Departamento de Geografia e Turismo, da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, membro integrado do Centro de Estudos de Geografia e Ordenamento do Território (CEGOT), da RISCOS (Associação Portuguesa de Riscos, Prevenção e Segurança) e do NICIF (Núcleo de Investigação Científica de Incêndios Florestais). Ingressou na carreira docente universitária em 1999. Em 2001 concluiu o Mestrado em Geografia Física e em 2007 o Doutoramento em Geografia. Dinâmica da paisagem, riscos naturais e mistos e gestão de recursos naturais são as principais áreas de investigação, tendo publicado várias dezenas de trabalhos, onde se incluem capítulos de livros e artigos em revistas de especialidade. Desde 2008 colabora no Mestrado em Ensino de Geografia e em 2017 assumiu a Coordenação do Mestrado em Geografia Física, Ambiente e Ordenamento do Território. XIV XIV