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Coparentalidade e autorregulação do bebé durante os primeiros três meses de vida

Abreu, Jorge Manuel da Rocha de

Abstract

A qualidade da coparentalidade foi identificada como um preditor robusto da trajetória de desenvolvimento da criança. Contudo, ainda pouco se sabe sobre os efeitos da coparentalidade no desenvolvimento da autorregulação do bebé. O presente estudo tem como objetivos analisar o efeito da qualidade da coparentalidade (1) reportada pela mãe, (2) reportada pelo pai e (3) de interação entre a qualidade da coparentalidade reportada pela mãe e pelo pai, no desenvolvimento autorregulação do bebé das duas semanas até aos três meses de vida. Uma amostra de 103 mães e pais (N = 206) foi recrutada no 1º trimestre de gravidez, e preencheu um questionário sociodemográfico. As mães e os pais preencheram medidas para avaliar a coparentalidade e a autorregulação do bebé às 2 semanas e 3 meses após o parto. Os resultados revelaram efeitos da interação entre o tempo e a aprovação parental reportada pela mãe e pelo pai na autorregulação do bebé das duas semanas até aos três meses de vida. Os bebés de mães ou pais com elevada aprovação parental apresentaram maior aumento da autorregulação das duas semanas até aos três meses de vida, face aos bebés de mães ou pais com baixa aprovação parental. Foram também encontrados efeitos da interação entre o tempo, a aprovação parental reportada pela mãe, e a aprovação parental reportada pelo pai na autorregulação do bebé das duas semanas até aos três meses de vida. Os bebés de mães e pais com baixa aprovação parental apresentaram menor aumento da autorregulação das duas semanas até aos três meses de vida, face aos restantes grupos de bebés. Os bebés de mães com baixa aprovação parental e pais com elevada aprovação parental apresentaram maior aumento da autorregulação das duas semanas até aos três meses de vida, face a qualquer um dos grupos de bebés, apesar de apresentarem menor autorregulação às duas semanas de vida do que os bebés de mães com elevada aprovação parental e pais com baixa aprovação parental. O presente estudo poderá representar um importante contributo para a literatura na área da psicologia e psicopatologia da família e do desenvolvimento, pelo facto de analisar o efeito da coparentalidade no desenvolvimento da autorregulação do bebé, durante os primeiros três meses de vida.

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Jorge Manuel da Rocha de Abreu Coparentalidade e autorregulação do bebé durante os primeiros três meses de vida Dissertação de Mestrado Mestrado em Psicologia Aplicada Trabalho efetuado sob a orientação da Professora Doutora Bárbara Figueiredo junho de 2020 ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros, desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado, nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho, em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição-Não Comerciais-Sem Derivações CC BY-NC-ND https://creativecommons.org/licenses/by-nd/4.0/ iii Agradecimentos Ao concluir esta importante tarefa da minha vida, quero agradecer a todas as pessoas que direta ou indiretamente contribuíram para a obtenção deste tão ambicionado desiderato: À Professora Doutora Bárbara Figueiredo pela competência e profissionalismo, pela excelência da sua orientação, pela partilha de conhecimento e rigor científico, pela confiança, disponibilidade, boa disposição e apoio prestado. Ao Doutor Tiago pelo seu profissionalismo, positivismo, humanismo, amizade, altruísmo e competência do seu contributo na realização deste estudo. A todas as colegas da unidade de investigação pelo espírito de equipa. Ao Doutor João Lima pela demonstração de carinho e amizade. A todos os meus professores pela competência e profissionalismo. À Xana pelo amor, solidariedade, companheirismo, tolerância e por acreditar sempre em mim. À Flávia e ao Bruno pelo amor e solidariedade. Aos meus pais pelos valores transmitidos. São inúmeras as aprendizagens que tenho absorvido, das mais diversas origens, mas aquela que tem regulado a minha vida, nestes últimos anos, indubitavelmente, é a de Oliver Wendell Holmes: O mais importante da vida não é a situação em que estamos, mas a direção para a qual nos movemos. Essa mesma aprendizagem permite-me afirmar com convicção que: Sou o mestre do meu destino, o capitão da minha alma. iv DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade, na elaboração do presente trabalho académico, e confirmo que não recorri à prática de plágio, nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados, em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. v Coparentalidade e autorregulação do bebé durante os primeiros três meses de vida Resumo A qualidade da coparentalidade foi identificada como um preditor robusto da trajetória de desenvolvimento da criança. Contudo, ainda pouco se sabe sobre os efeitos da coparentalidade no desenvolvimento da autorregulação do bebé. O presente estudo tem como objetivos analisar o efeito da qualidade da coparentalidade (1) reportada pela mãe, (2) reportada pelo pai e (3) de interação entre a qualidade da coparentalidade reportada pela mãe e pelo pai, no desenvolvimento autorregulação do bebé das duas semanas até aos três meses de vida. Uma amostra de 103 mães e pais ( N = 206) foi recrutada no 1º trimestre de gravidez, e preencheu um questionário sociodemográfico. As mães e os pais preencheram medidas para avaliar a coparentalidade e a autorregulação do bebé às 2 semanas e 3 meses após o parto. Os resultados revelaram efeitos da interação entre o tempo e a aprovação parental reportada pela mãe e pelo pai na autorregulação do bebé das duas semanas até aos três meses de vida. Os bebés de mães ou pais com elevada aprovação parental apresentaram maior aumento da autorregulação das duas semanas até aos três meses de vida, face aos bebés de mães ou pais com baixa aprovação parental. Foram também encontrados efeitos da interação entre o tempo, a aprovação parental reportada pela mãe, e a aprovação parental reportada pelo pai na autorregulação do bebé das duas semanas até aos três meses de vida. Os bebés de mães e pais com baixa aprovação parental apresentaram menor aumento da autorregulação das duas semanas até aos três meses de vida, face aos restantes grupos de bebés. Os bebés de mães com baixa aprovação parental e pais com elevada aprovação parental apresentaram maior aumento da autorregulação das duas semanas até aos três meses de vida, face a qualquer um dos grupos de bebés, apesar de apresentarem menor autorregulação às duas semanas de vida do que os bebés de mães com elevada aprovação parental e pais com baixa aprovação parental. O presente estudo poderá representar um importante contributo para a literatura na área da psicologia e psicopatologia da família e do desenvolvimento, pelo facto de analisar o efeito da coparentalidade no desenvolvimento da autorregulação do bebé, durante os primeiros três meses de vida. Palavras-chave: coparentalidade; autorregulação, desenvolvimento, bebé. vi Coparenting and infant self-regulation during the first three months of life Abstract Coparenting quality was identified as the stronger predictor of child development. However, little is known about the effects of coparenting on the development of infant self-regulation. This study aimed to analyze the effect of coparenting quality (1) reported by the mother, (2) reported by the father, and (3) the interaction between coparenting quality reported by the mother and the father, on infant self-regulation from two weeks to three months of life. A sample of 103 mothers and fathers ( N = 206) was recruited during the first trimester of pregnancy and completed a sociodemographic questionnaire. Mothers and fathers completed measures to assess coparenting and infant self-regulation at two weeks and at three months postpartum. Results revealed significant effects of the interaction between time and mother's or father's parenting endorsement on infant self-regulation from two weeks to three months of life. Infants of mothers or fathers with high parenting endorsement presented a higher increase of self-regulation from two weeks to three months of life, compared to infants of mothers or fathers with low parenting endorsement. Effects of the interaction between time, mother’s, and father's parenting endorsement were also found on infant self-regulation from two weeks to three months of life. Infants of mothers and fathers with low parenting endorsement presented a lower increase of self-regulation from two weeks to three months of life, compared to the remaining groups of infants. On the other hand, infants of mothers with low parenting endorsement and fathers with high parenting endorsement presented a higher increase of self-regulation from two weeks to three months of life, compared to any of the groups of infants; although presenting lower self-regulation at two weeks than the infants of mothers with high parenting endorsement and fathers with low parenting endorsement. This study could represent a major contribute to the literature in the field of developmental and family psychopathology by analyzing the effect of coparenting on the development of the infant self-regulation during the first three months of life. Keywords: coparenting, self-regulation, development, infant. vii Índice Introdução ................................................................................................................................... 8 Método ...................................................................................................................................... 11 Participantes ........................................................................................................................... 11 Procedimentos ........................................................................................................................ 13 Medidas ..................................................................................................................................14 Análise de dados ..................................................................................................................... 17 Resultados ........................................................................................................................................... 17 Discussão ............................................................................................................................................ 26 Pontos fortes e limitações .......................................................................................................27 Implicações para a prática clínica e pesquisa ..........................................................................28 Conclusão ............................................................................................................................................ 29 Referências Bibliográficas .................................................................................................................... 30 Anexo I ................................................................................................................................................. 36 Anexo II ................................................................................................................................................ 37 Índice de Tabelas Tabela 1. Características sociodemográficas dos participantes ............................................................12 Tabela 2. Características sociodemográficas e biométricas dos bebés ................................................. 13 Tabela 3. Estatística descritiva das variáveis do estudo nos dois momentos de avaliação ....................18 Tabela 4. Correlação entre as variáveis do estudo na linha de base (duas semanas após o parto) ......20 Tabela 5. Efeitos da qualidade da coparentalidade reportada pela mãe e pelo pai na autorregulação do bebé das duas semanas até aos três meses de vida ........................................................................... 22 Índice de Figuras Figura 1. Efeito da aprovação parental reportada pela mãe na autorregulação do bebé das duas semanas até aos três meses de vida ................................................................................................................... 23 Figura 2. Efeito da aprovação parental reportada pelo pai na autorregulação do bebé das duas semanas até aos três meses de vida ................................................................................................................... 24 Figura 3. Efeito de interação entre a qualidade da coparentalidade reportada pela mãe e pelo pai, no desenvolvimento autorregulação do bebé das duas semanas até aos três meses de vida ................... 25 COPARENTALIDADE E AUTORREGULAÇÃO DO BEBÉ 8 Coparentalidade e autorregulação do bebé durante os primeiros três meses de vida A psicopatologia do desenvolvimento é uma abordagem concetual que envolve um conjunto de procedimentos de pesquisa que congrega as variações psicopatológicas do desenvolvimento sobre mecanismos e processos em relação a alterações ambientais com consequências de risco (Rutter, 2008). Continuidades e descontinuidades ao longo do desenvolvimento estão relacionadas com várias perturbações mentais ao longo da vida, bem como com vários fatores e mecanismos que influenciam positiva ou negativamente diferentes trajetórias de vida (Rutter & Sroufe, 2000; Rutter, 2008; 2013; American Psychiatric Association, 2013). O desenvolvimento da autorregulação é uma tarefa desenvolvimental major durante a infância. A autorregulação, na infância, é definida como um processo que serve para modular a reatividade (Rothbart, Ellis, & Posner, 2011). Os processos de autorregulação incluem orientação, inibição, raiva, extroversão e controlo do comportamento com base no sistema de atenção executiva (Rothbart, et al, 2011). De acordo com a teoria da autorregulação, os bebés têm a capacidade de se envolver em atividades e, voluntariamente, manter contacto ocular com outras pessoas, e essa capacidade desempenha um papel importante no desenvolvimento do autocontrolo, durante todo o ciclo de vida (Rothbart et al., 2011). Embora a literatura não seja consensual, relativamente à idade em que os bebés são capazes de se autorregular, estudos sugerem que comportamentos manifestados na primeira infância, como autoapaziguadores e orientadores, desempenham funções de autorregulação (Rothbart, Ellis, & Posner, 2011). Um desenvolvimento bem-sucedido durante o primeiro ano de vida depende da capacidade da criança regular os seus estados fisiológicos e comportamentais (Bell & Deater-Deckard, 2007; Calkins, 2009). Durante o desenvolvimento inicial, os bebés começam a regular os seus estados fisiológicos, que promovem a sua regulação comportamental (Calkins, 2009; Porges, 2007). Durante a infância, maior inibição vagal em resposta ao stress e maior ativação durante a recuperação do stress, foi associada a comportamentos de autorregulação mais adaptados (Bazhenova, Plonskaia, & Porges, 2001; Ham & Tronick, 2006; Stifter & Corey, 2001). Por outro lado, os bebés com dificuldades em regular o tónus vagal durante tarefas stressoras apresentaram maiores dificuldades de autorregulação, regulação emocional, de funcionamento adaptativo em contextos sociais e escolares, em idades posteriores (ElSheikh, Kouros, Erath, Cummings, Keller, & Staton, 2009; Graziano & Derefinko, 2013). A autorregulação tem sido associada a um desenvolvimento bem-sucedido, enquanto dificuldades com a autorregulação têm sido associadas a problemas de externalização e internalização nas crianças (Bridgett, Burt, Edwards & Deater-Deckard, 2015; Eisenberg, Spinrad & Eggum, 2010). COPARENTALIDADE E AUTORREGULAÇÃO DO BEBÉ 15 de mães e pais, durante a gravidez. É uma escala de autorrelato composta por 30 itens respondidos numa escala tipo Likert de 7 pontos. Possui quatro subescalas: (1) a subescala suporte coparental, que avalia a perceção de suporte que o membro do casal transmite ao outro membro ( e.g ., Penso que a minha companheira vai apreciar os meus esforços para ser um bom pai ); (2) a subescala conflito coparental, que avalia a perceção da díade sobre a exposição do bebé a futuros conflitos parentais ( e.g Eu e a minha companheira vamos discutir sobre o nosso filho à frente dele) ; (3) a subescala do desacordo coparental, que avalia em que grau cada membro do casal discordará sobre questões relacionadas com o bebé ( e.g., A minha companheira e eu vamos ter ideias diferentes sobre como criar o nosso filho ) e a (4) a subescala de sabotagem coparental, que avalia a perceção dos pais sobre a competição e criticismo entre eles ( e.g., Penso que, por vezes, a minha companheira fará piadas ou comentários sarcásticos sobre minha forma de ser pai ). Por sua vez, a ERC-PP (Feinberg et al., 2012) é uma escala de autorrelato composta por 35 itens respondidos numa escala tipo Likert de 7 pontos. Possui sete subescalas que avaliam as quatro dimensões da coparentalidade propostas pelo modelo ecológico de Feinberg (2003): acordo nas práticas parentais (e.g., Eu e o meu companheiro temos os mesmos objetivos para o nosso filho ), 4 itens; proximidade coparental (e.g., Estamos a amadurecer e crescer juntos devido às nossas experiências enquanto pais ), 5 itens; divisão de tarefas (e.g., O meu companheiro não se preocupa em dividir de forma justa o cuidado do nosso filho ), 2 itens; suporte coparental (e.g., O meu companheiro diz-me que estou a fazer um bom trabalho ou faz-me saber de outra maneira que estou a ser uma boa mãe ), 6 itens; aprovação parental (e.g., O meu companheiro aprecia os meus esforços para ser uma boa mãe ), 7 itens; exposição ao conflito (e.g., Por vezes, o meu companheiro faz piadas ou comentários sarcásticos sobre a minha forma de ser mãe ), 5 itens; e sabotagem coparental (e.g., O meu companheiro mina o meu trabalho enquanto mãe ), 6 itens. Tanto a ERC-PN como a versão Portuguesa da ERC-PP, que não incluem a subescala da divisão de tarefas, como na versão original, apresentaram uma boa consistência interna (Pinto, Figueiredo, & Feinberg, 2018; Lamela, Morais & Jongenelen, 2018). No presente estudo, a ERC-PN e a ERC-PP apresentaram boa consistência interna nas mães e nos pais: acordo parental (variação dos αs = .71.- 82), proximidade coparental (variação dos αs = .71 - .78), suporte coparental (variação dos αs = .90 - .95), aprovação parental (variação dos αs = .71 - .89), exposição ao conflito (variação dos αs = .72 - .90), e sabotagem coparental (variação dos αs = .71 - .80). Autorregulação do bebé. Foi utilizada a subescala regulação/orientação da versão reduzida do Infant Behaviour Questionnaire – Revised (IBQ-R), para avaliar a autorregulação do bebé. Este COPARENTALIDADE E AUTORREGULAÇÃO DO BEBÉ 16 questionário (Gartstein & Rothbart, 2003; Costa & Figueiredo, 2018) é uma versão revista do IBQ (Rothbart, 1981) e foi desenvolvido, para avaliar o temperamento em bebés com idades compreendidas entre os 3 e 12 meses. A versão reduzida do IBQ-R é composta por 91 itens respondidos, numa escala tipo Likert de sete pontos, e avalia as seguintes 14 dimensões do temperamento (Putnam, Helbig, Gartstein, Rothbart & Leerkes, 2014). Embora este seja um instrumento originalmente desenvolvido, para avaliar o temperamento do bebé, uma revisão sistemática recente (Pinto & Figueiredo, 2019) sugeriu que o IBQ-R é das medidas de autorrelato mais adequada para avaliar a autorregulação do bebé no primeiro ano de vida, nomeadamente com a utilização do fator orientação/regulação. A subescala orientação/ regulação é composta pelas escalas de baixa intensidade de prazer, carinho, duração da orientação e capacidade para aclamar: (1) nível da atividade: movimento dos braços e das pernas, contorção e atividade locomotora; (2) angústia face às limitações: agitação do bebé, choro, ou demonstração de aflição; (3) aproximação: aproximação rápida, excitação e antecipação positiva de atividades agradáveis; (4) medo: o susto ou aflição do bebé perante mudanças repentinas nos estímulos, objetos físicos novos ou estímulos sociais; inibição da aproximação à novidade; (5) duração da orientação: a atenção do bebé e/ou interação com um único objeto por longos períodos de tempo; (6) sorriso e riso: o sorriso ou riso da criança em situações de cuidado e de brincadeira; (7) reação vocal: quantidade de vocalizações manifestadas pelo bebé em atividades diárias; (8) tristeza: humor em baixo no geral; redução no humor e na atividade relacionada especificamente com o sofrimento pessoal, estado físico, perda de um objeto, ou incapacidade para executar uma ação desejada; (9) sensibilidade percetiva: quantidade da deteção de estímulos de fraca ou baixa intensidade por parto do ambiente externo; (10) prazer de alta intensidade: quantidade de prazer ou satisfação relacionados com situações que envolvem um estímulo de intensidade, proporção, complexidade, novidade e incongruência; (11) prazer de baixa intensidade: quantidade de prazer ou satisfação relacionados com situações que envolvem um estímulo de intensidade, proporção, complexidade, novidade e incongruência baixos; (12) carinho: expressão de satisfação do bebé e moldagem do corpo, quando segurado por um cuidador; (13) capacidade de apaziguamento: redução da agitação, choro ou aflição do bebé, quando o cuidador usa técnicas de apaziguamento. A subescala orientação/regulação da versão portuguesa do IBQ-R apresentou boa consistência interna (variação dos αs = .60 - .80). No presente estudo, a subescala orientação/regulação do IBQ-R apresentou boa consistência interna (variação dos αs =.74 - .81). COPARENTALIDADE E AUTORREGULAÇÃO DO BEBÉ 17 Estratégia de análise de dados Foram realizados modelos de curvas de crescimento, através de modelação multinível (MLM; Duncan, Duncan, & Strycker, 2006; Kenny, Kashy, & Cook, 2006; Kurdek, 2003), para analisar o efeito da qualidade da coparentalidade (1) reportada pela mãe, (2) reportada pelo pai e (3) de interação entre a qualidade da coparentalidade reportada pela mãe e pelo pai, no desenvolvimento autorregulação do bebé das duas semanas até aos três meses de vida. O tempo 0 foi definido, na data da primeira avaliação da autorregulação do bebé às duas semanas após o parto (linha de base), e a variável tempo foi codificada, em semanas desde a linha de base até três meses após o parto. Os valores das dimensões da coparentalidade reportada pela mãe e pelo pai (valores das subescalas da ERC-PP: acordo, proximidade, suporte, aprovação, exposição ao conflito, e sabotagem) e da autorregulação do bebé (valores da subescala orientação/regulação do IBQR reportados pelo cuidador primário; ver Tabela 1) foram analisados, nos dois momentos de avaliação. As dimensões da coparentalidade reportada pela mãe e pelo pai (efeitos com variação ao longo do tempo centrados na média global) foram incluídas, no modelo, como efeitos fixos. O modelo foi ajustado para as dimensões da coparentalidade reportadas pela mãe e pelo pai, durante a gravidez (primeiro e terceiro trimestre de gravidez). As interações significativas do tempo com os preditores foram interpretadas e apresentadas, em gráficos, usando um desvio-padrão acima e abaixo da média global das variáveis preditoras (elevado/baixo). Foram realizados testes de diferença de desvio entre o modelo incondicional (tempo) e o modelo com os preditores, para analisar a melhoria na adequação do modelo com os preditores. As análises estatísticas foram realizadas, numa base de dados person-period, com recurso ao IBM SPSS Statistics para Windows (versão 24.0). Cada participante teve um valor para cada momento de avaliação, resultando em 412 potenciais observações (206 participantes em dois momentos de avaliação). O tamanho do efeito r (Rosenthal, Rosnow, & Rubin 2000) foi estimado para todos os efeitos significativos encontrados e interpretados, de acordo com as recomendações de Cohen (1988). Resultados Análise dos pressupostos estatísticos para a realização das curvas de crescimento Na Tabela 3 são apresentadas as estatísticas descritivas para todas as variáveis do estudo (dimensões da coparentalidade reportada pela mãe e pelo pai, e autorregulação do bebé), nos dois momentos de avaliação. COPARENTALIDADE E AUTORREGULAÇÃO DO BEBÉ 18 O primeiro pressuposto estatístico para a realização dos modelos de curvas de crescimento refere-se à presença de correlações significativas entre as variáveis do estudo. Na Tabela 4 são apresentadas as correlações entre as variáveis do estudo na linha de base (duas semanas após o parto). Os resultados revelaram correlações significativas entre as dimensões da coparentalidade reportadas pela mãe e as dimensões da coparentalidade reportadas pelo pai às duas semanas após o parto, variação de rs = .26 - .88, ps < .05. Da mesma forma, os resultados revelaram correlações significativas entre as dimensões da coparentalidade reportadas pela mãe e pelo pais às duas semanas após o parto, variação de rs = .26 - .53, ps < .05. Tabela 3 Estatística descritiva das variáveis do estudo nos dois momentos de avaliação Período após o parto 2 semanas 3 meses Variáveis M DP M DP Coparentalidade mãe Acordo 20.88 4.47 21.30 4.00 Proximidade 25.21 5.37 25.35 5.03 Suporte 31.59 7.21 31.55 6.86 Aprovação parental 38.44 6.46 39.12 5.69 Exposição ao conflito 2.07 4.31 2.73 4.54 Sabotagem 2.48 4.47 3.23 5.46 Coparentalidade pai Acordo 20.93 3.97 21.52 3.67 Proximidade 26.02 4.38 25.66 5.22 Suporte 31.85 4.94 31.95 5.54 Aprovação parental 39.65 3.55 40.18 3.76 Exposição ao conflito 2.37 4.16 2.61 3.49 Sabotagem 2.83 4.09 3.07 4.57 Autorregulação do bebé 5.10 0.94 5.30 0.70 Notas. M = média; DP = Desvio-padrão. COPARENTALIDADE E AUTORREGULAÇÃO DO BEBÉ 19 Foram, também, encontradas correlações significativas entre as dimensões da coparentalidade reportada pela mãe e pelo pai, e a autorregulação do bebé às duas semanas após o parto, variação de rs = .24 - .43, ps < .05. Não foram encontradas correlações significativas entre o acordo coparental reportado pela mãe e pelo pai e a autorregulação do bebé às duas semanas após o parto, variação de rs = .22 - .23, ps > .10. O segundo pressuposto estatístico para a realização dos modelos de curvas de crescimento refere-se à realização dos testes de diferença do desvio, para analisar se o modelo incluindo a variável tempo e os preditores (dimensões da coparentalidade reportadas pela mãe e pelo pai) explicam significativamente mais variância da autorregulação do bebé do que o modelo incluindo apenas a variável tempo. Os testes de diferença de desvio revelaram que o modelo apresenta boa adequação aos dados, 𝜒2(30) = 81.06, p < .001. Por último, foi explorado o efeito do tempo na variável outcome (autorregulação do bebé). Os resultados revelaram efeitos significativos do tempo na autorregulação do bebé, b = 0.32, p = .006, r = .36. Das duas semanas até três meses após o parto, a autorregulação do bebé aumentou, em média, 0.32 unidades por semana. COPARENTALIDADE E AUTORREGULAÇÃO DO BEBÉ 20 Tabela 4 Correlações entre as variáveis do estudo na linha de base (duas semanas após o parto) 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 1. Acordo mãe 1.00 2. Proximidade mãe .46*** 1.00 3. Suporte mãe .63*** .77*** 1.00 4. Aprovação parental mãe .63*** .71*** .88*** 1.00 5. Exposição ao conflito mãe -.64*** -.54*** -.69*** -.62*** 1.00 6. Sabotagem mãe -.66*** -.49*** -.68*** -.58*** .75*** 1.00 7. Acordo pai .26* .27* .36* .37* -.46** -.47** 1.00 8. Proximidade pai .29* .50*** .47** .53*** -.52*** -.40** .58*** 1.00 9. Suporte pai .33* .36* .43** .44** -.36* -.33* .61*** .69*** 1.00 10. Aprovação parental pai .37* .31* .34* .39** -.32* -.35* .41** .37** .66*** 1.00 11. Exposição ao conflito pai -.35* -.38* -.41** -.37* .53*** .38* -.72*** -.49*** -.39** -.26* 1.00 12. Sabotagem pai -.33* -.28* -.33* -.43** .43** .35* -.65*** -.39** -.58*** -.50*** .48*** 1.00 13. Autorregulação do bebé .22 .43*** .38** .41*** -.32* -.24* .23 .31* .34** .36** -.29* -.28* 1.00 * p < .05; ** p < .01; *** p < .001 COPARENTALIDADE E AUTORREGULAÇÃO DO BEBÉ 21 Efeitos da qualidade da coparentalidade reportada pela mãe na autorregulação do bebé das duas semanas até aos três meses de vida Os resultados revelaram efeitos significativos da aprovação parental reportada pela mãe na autorregulação do bebé às 2 semanas de vida, b = 0.13, p = .004, r = .32 (ver Tabela 5). Os bebés de mães com elevada aprovação parental apresentaram mais autorregulação às duas semanas de vida do que os bebés de mães com baixa aprovação parental. Foram também encontrados efeitos significativos da interação entre o tempo e a aprovação parental reportada pela mãe na autorregulação do bebé das duas semanas até aos três meses de vida, b = 0.09, p = .041, r = .35 (ver Tabela 5). Os bebés de mães com elevada aprovação parental apresentaram maior aumento da autorregulação das duas semanas até aos três meses de vida, face aos bebés de mães com baixa aprovação parental (ver Figura 1). Não foram encontrados efeitos significativos do acordo, proximidade, suporte, conflito, e da sabotagem coparental reportada pela mãe na autorregulação do bebé às duas semanas de vida. Da mesma forma, não foram encontrados efeitos significativos da interação entre o tempo e o acordo, proximidade, suporte, conflito, ou da sabotagem coparental reportada pela mãe na autorregulação do bebé das duas semanas até aos três meses de vida (ver Tabela 5). COPARENTALIDADE E AUTORREGULAÇÃO DO BEBÉ 22 Tabela 5 Efeitos de interação entre a qualidade da coparentalidade reportada pela mãe e pelo pai, no desenvolvimento autorregulação do bebé das duas semanas até aos três meses de vida Autorregulação do bebé Efeitos fixos b EP 95% IC Interceção 2.15 0.72 [0.73,3.56]*** Tempo 0.32 0.09 [0.02,0.38]** Acordo mãe 0.03 0.03 [-0.04,0.10] Acordo pai 0.06 0.04 [-0.03,0.15] Proximidade mãe 0.08 0.04 [-0.00, 0.16] Proximidade pai 0.01 0.04 [-0.06,0.08] Suporte mãe 0.01 0.04 [-0.10,0.07] Suporte pai 0.11 0.04 [0.03,0.19]** Aprovação parental mãe 0.13 0.04 [0.05,0.22]** Aprovação parental pai 0.10 0.06 [0.02,0.21]* Conflito mãe -0.01 0.05 [-0.06,0.11] Conflito pai -0.01 0.04 [-0.08,0.06] Sabotagem mãe -0.05 0.05 [-0.05,0.15] Sabotagem pai -0.02 0.03 [-0.09,0.05] Tempo x acordo mãe -0.09 0.06 [-0.21, 0.03] Tempo x acordo pai -0.00 0.02 [-0.04,0.04] Tempo x proximidade mãe -0.00 0.02 [-0.04,0.04] Tempo x proximidade pai 0.00 0.02 [-0.04,0.04] Tempo x suporte mãe -0.01 0.02 [-0.05,0.03] Tempo x suporte pai -0.01 0.02 [-0.05,0.03] Tempo x aprovação parental mãe 0.09 0.05 [0.00,0.18]* Tempo x aprovação parental pai 0.10 0.05 [0.00,0.19]* Tempo x conflito mãe 0.01 0.01 [-0.01,0.03] Tempo x conflito pai 0.00 0.01 [-0.01,0.02] Tempo x sabotagem mãe -0.01 0.01 [-0.02,0.01] Tempo x sabotagem pai -0.00 0.01 [-0.01,0.01] Tempo x acordo mãe x acordo pai 0.00 0.00 [-0.00,0.01] COPARENTALIDADE E AUTORREGULAÇÃO DO BEBÉ 23 Efeitos da qualidade da coparentalidade reportada pelo pai na autorregulação do bebé das duas semanas até aos três meses de vida Os resultados revelaram efeitos significativos do suporte coparental, b = 0.11, p = .005, r = .30, e da aprovação parental, b = 0.10, p = .023, r = 30, reportados pelo pai na autorregulação do bebé às duas semanas de vida (ver Tabela 4). Os bebés de pais com elevado suporte coparental apresentaram mais autorregulação às duas semanas de vida do que os bebés de pais com baixo suporte coparental. Tempo x proximidade mãe x proximidade pai -0.00 0.00 [-0.00,0.01] Tempo x suporte mãe x suporte pai 0.00 0.00 [-0.00,0.00] Tempo x aprovação parental mãe x aprovação parental pai -0.02 0.01 [-0.04,-0.01]* Tempo x conflito mãe x conflito pai -0.00 0.00 [-0.01,0.00] Tempo x sabotagem mãe x sabotagem pai -0.00 0.00 [-0.00,0.00] Efeitos aleatórios Interceção + Tempo 0.02 0.01 [0.01,0.05]* Residuais 0.35 0.06 [0.26,0.48]*** Notas. EP = Erro Padrão; IC = Intervalo Confiança; o modelo foi ajustado para a coparentalidade pré-natal. * p < .05; ** p < .01; *** p < .001 Figura 1 . Efeito da aprovação parental reportada pela mãe na autorregulação do bebé das duas semanas até aos três meses de vida. COPARENTALIDADE E AUTORREGULAÇÃO DO BEBÉ 24 Da mesma forma, os bebés de pais com elevada aprovação parental apresentaram mais autorregulação às 2 semanas de vida do que os bebés de pais com baixa aprovação parental. Foram também encontrados efeitos significativos da interação entre o tempo e a aprovação parental reportada pelo pai na autorregulação do bebé das duas semanas até aos três meses de vida, b = 0.10, p = .049, r = .35 (ver Tabela 4). Os bebés de pais com elevada aprovação parental apresentaram maior aumento da autorregulação das duas semanas até aos três meses de vida, face aos bebés de pais com baixa aprovação parental (ver Figura 2). Não foram encontrados efeitos significativos do acordo, proximidade, conflito, e da sabotagem coparental reportada pelo pai na autorregulação do bebé às duas semanas de vida. Da mesma forma, não foram encontrados efeitos significativos da interação entre o tempo e o acordo, proximidade, suporte, conflito, ou da sabotagem coparental reportados pelo pai na autorregulação do bebé das duas semanas até aos três meses de vida (ver Tabela 4). Efeitos da interação entre a qualidade da coparentalidade reportada pela mãe e pelo pai na autorregulação do bebé das duas semanas até aos três meses de vida Os resultados revelaram efeitos significativos da interação entre o tempo, a aprovação parental reportada pela mãe, e a aprovação parental reportada pelo pai na autorregulação do bebé das duas semanas até aos três meses de vida, b = -0.02, p = .043, r = .36 (ver Tabela 4). Os bebés de mães e pais com baixa aprovação parental apresentaram menor aumento da autorregulação das duas semanas Figura 2. Efeito da aprovação parental reportada pelo pai na autorregulação do bebé das duas semanas até aos três meses de vida. COPARENTALIDADE E AUTORREGULAÇÃO DO BEBÉ 31 Cohen, J. 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Assumo que tenho condições tecnológicas para usar o serviço de videoconferência Colibri disponibilizado pela FCCN (https://www.fccn.pt/colaboracao/colibri). Declaro ainda ter conhecimento do teor do Despacho RT-34/2020 E O VRT-RJM-14/2020 que me foram atempadamente enviados. Informo ainda que esta declaração será enviada pelo meu email institucional.