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Universidade do Minho Escola de Psicologia Dalila Teresa Ferrão Brito Tomada de Decisão em Transgressões Morais do Dia-a-Dia e Influência dos Traços de Personalidade de Psicopatia junho de 2022 UMinho | 2022 Dalila Brito Tomada de Decisão em Transgressões Morais do Dia-a-Dia e Influência dos Traços de Personalidade de Psicopatia
ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho
iii Agradecimentos Quase no fim desta jornada tão enriquecedora, não posso deixar de agradecer aos que me têm acompanhado. À Doutora Ana Seara-Cardoso e ao Doutor Pedro Silva Moreira, pela orientação nesta fase importante do meu percurso académico. Pela disponibilidade, apoio e rigor com que me orientaram e por me desafiaram a ir mais além. Agradeço a vossa generosidade em me guiarem e acompanharem neste percurso. Aos meus pais, por terem priorizado sempre a nossa educação e por me darem as ferramentas para construir o futuro e aos meus irmãosLuís, Miguel e Jacintapor serem os meus companheiros de todos os momentos. A vocês, obrigada pelo apoio incondicional, pela confiança que depositam em mim e por me encorajarem sempre nos momentos de incerteza. Aos avós que, sem estarem, estiveram sempre. A todos os meus amigos, em especial aqueles que me acompanharam nestes últimos 5 anos em Braga. Aos que celebraram as minhas conquistas como se fossem deles e aos que foram o trampolim nos momentos de dúvida. Aos que me encorajaram a arriscar e aos que sempre me disseram “Confia!”. A 200 km de distância dos meus, Braga tornou-se casa e vocês família, obrigada! A todos aqueles com que me tenho cruzado durante estes anos. Estou certa de que, direta ou indiretamente, marcaram este meu percurso com aprendizagens essenciais. A todos os que gentilmente participaram neste estudo e contribuíram para a minha Dissertação de Mestrado. Por fim, a todos os docentes da Escola de Psicologia da Universidade do Minho com que me cruzei e que cumprem a generosa missão de formar o futuro. O meu muito obrigada por contribuírem para a minha formação profissional e pessoal e por me inspirarem e me fazerem sonhar com a Psicóloga que desejo ser.
iv Declaração de Integridade Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer outra forma de utilização indevida ou falsificação de informação ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua realização. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. Universidade do Minho, 06/06/2022 (Dalila Teresa Ferrão Brito)
v Tomada de Decisão em Transgressões Morais do Dia-a-Dia e Influência dos Traços de Personalidade de Psicopatia Resumo A tomada de decisão moral refere-se a uma decisão acerca da realização de um comportamento num contexto que envolve regras e princípios morais e está dependente de múltiplos fatores, entre eles, avaliação emocional e julgamento moral. A psicopatia caracteriza-se por alterações no processamento emocional, no entanto, a capacidade de julgamento moral parece permanecer inalterada. Este estudo pretende 1) analisar de que forma as variáveis julgamento moral e a avaliação emocional de antecipação de benefício para o próprio e de prejuízo do outro se relacionam com os traços de psicopatia e fatores, 2) analisar de que forma essas variáveis influenciam a intenção de transgredir e 3) como estas influências são moderados pelos traços de psicopatia e fatores. Os resultados sugerem que 1) traços de psicopatia mais elevados estão associados ao julgamento de cenários de prejuízo do outro como menos incorretos e a um sentimento menos negativo perante estes cenários, bem como uma maior intenção de transgredir; 2) as quatro variáveis parecem ser preditoras da transgressão moral; 3) os traços de psicopatia moderam a relação entre avaliação emocional de prejuízo do outro e intenção de transgressão; os dois fatores da psicopatia moderam a relação entre as variáveis e transgressão moral. Palavras-chave : avaliação emocional, julgamento moral, psicopatia, transgressão moral
vi Decision Making in Everyday Moral Transgressions and the Influence of Psychopathic Personality Traits Abstract Moral decision making refers to a decision about performing a behavior in a context that involves rules and moral principles and is dependent on multiple factors, including emotional appraisal and moral judgment. Psychopathy is characterized by changes in emotional processing, however, the capacity of moral judgment seems to remain unchanged. This study intends to 1) analyze how the variables moral judgment and emotional appraisal of anticipation of gain to self and injury to another are related to psychopathic traits and factors, 2) to analyze how these variables influence the intention of moral transgression and 3) in what way these influences are moderated by psychopathic traits and factors. The results suggest that 1) higher psychopathic traits are associated with the moral judgment of another’s injury as less incorrect and with a less negative feeling towards these scenarios, as well as a greater intention to transgress; 2) the four variables seem to be predictors of moral transgression; 3) psychopathic traits moderate the relationship between emotional appraisal of injury to another and transgression; both factors of psychopathy moderate the relationship between variables and moral transgression. Keywords: emotional appraisal, moral judgment, psychopathy, moral transgression
vii Índice de Conteúdo Introdução .................................................................................................................................. 11 Métodos ...................................................................................................................................... 16 Participantes .......................................................................................................................... 16 Instrumentos .......................................................................................................................... 16 Questionário sociodemográfico............................................................................................... 16 Self-Report Psychopathy Scale - Short Form ........................................................................... 16 Tarefa de transgressão moral do dia-a-dia .............................................................................. 17 Procedimento ......................................................................................................................... 19 Análise de dados .................................................................................................................... 20 Resultados .................................................................................................................................. 21 Discussão .................................................................................................................................... 29 Referências bibliográficas ........................................................................................................ 34
DECISÃO MORAL E INFLUÊNCIA DOS TRAÇOS DE PERSONALIDADE DE PSICOPATIA 14 O défice ao nível da experiência e processamento emocional (De Brito et al., 2021; Hare & Neumann, 2008) traduz-se numa menor capacidade em experienciar e processar emoções e manifestase no processamento de imagens com conteúdo emocional (Snowden et al., 2022) e numa menor capacidade para sentir emoções morais (Seara-Cardoso et al., 2012). Indivíduos com elevados traços de psicopatia apresentam, ainda, uma menor resposta neural a expressões faciais de medo, tristeza, felicidade e sofrimento (Decety et al., 2014; Marsh et al., 2008). Elevados traços de personalidade de psicopatia estão associados a disfunções ao nível do processamento neural tanto no processamento de recompensa como no processamento da perda (Murray et al., 2018). Os traços de psicopatia impulsivo-antissocial, avaliado pelo fator 2 do modelo Hare e Neumann (2008), têm sido associados a uma alteração dos mecanismos neurais de recompensa e perda, nomeadamente, a uma maior reatividade à antecipação de recompensas, mas não à recompensa em si mesma (Murray et al., 2018) e a uma maior reatividade neuroquímica e neurofisiológica do circuito dopaminérgico da recompensa (Buckholtz et al., 2010; Hosking et al., 2017). Assim, indivíduos com elevados traços de psicopatia parecem realizar decisões mais impulsivas, baseadas na recompensa imediata para próprio (Viding et al., 2014). Por outro lado, elevados traços de psicopatia parecem estar associados a uma reduzida resposta emocional perante o dano do outro (Pletti et al., 2017; Volz et al., 2017) e transgressões morais (Harenski et al., 2010). Elevados traços de psicopatia parecem, ainda, correlacionar-se negativamente com a aversão ao dano, quer para o próprio quer para os outros (Crockett et al., 2014). Apesar das evidências de défices no processamento e experiência emocional em indivíduos com traços de psicopatia mais elevados, a investigação tem sugerido que estes são capazes de compreender o pensamento dos outros e fazer julgamentos morais de forma idêntica aos indivíduos com menores traços de psicopatia (Cima et al., 2010; Harenski et al., 2010; Pletti et al., 2017; Tassy, Deruelle, et al., 2013). Assim, não parecem existir diferenças entre indivíduos com maiores e menores traços de psicopatia quanto ao julgamento de uma situação como correta ou incorreta do ponto de vista moral. No entanto, apesar destes indivíduos considerarem uma situação moralmente incorreta, o seu envolvimento emocional é menor, impedindo assim, que se traduza num comportamento congruente com o julgamento que faz da situação (Cima et al., 2010; Glenn et al., 2009). Por outro lado, alguns estudos têm vindo a sugerir que indivíduos com elevados traços de psicopatia apresentam alterações no julgamento moral, falhando na distinção do certo e errado. Numa amostra forense, Fede e colaboradores (2016) pediram aos participantes para classificarem estímulos como “errados” e “não errados”. Foram apresentados estímulos considerados não-controversos, que se dividiam em estímulos considerados
DECISÃO MORAL E INFLUÊNCIA DOS TRAÇOS DE PERSONALIDADE DE PSICOPATIA 15 moralmente errados (e.g. mentir) e estímulos não-errados (e.g. ações de caridade); e estímulos controversos do ponto de vista moral (e.g. testes em animais). O estudo demonstrou que indivíduos com elevados traços de psicopatia julgaram os estímulos considerados moralmente errados como menos errados do que indivíduos com menores traços de psicopatia. Num outro estudo (Young et al., 2012), também em amostra forense, indivíduos com traços de psicopatia mais elevados julgaram situações de dano acidental, isto é, quando um individuo causa dano a outro sem saber, como mais permissíveis do que indivíduos com menores traços de psicopatia. Os traços de psicopatia parecem influenciar o julgamento moral não só em amostras forenses como também em amostras comunitárias. No estudo de Ye e colaboradores (2021), com uma amostra comunitária, os participantes julgaram um conjunto de cenários morais do quotidiano que se inserem nos diferentes tipos de fundações morais. Indivíduos com traços de psicopatia mais elevados classificaram mais cenários do quotidiano considerados moralmente incorretos como corretos em todas as dimensões morais, através de escalas contínuas. Alguns estudos (Blair, 2017; Blair et al., 1995) propõem que as diferenças ao nível do julgamento moral resultam de uma alteração no processo de aprendizagem emocional, nomeadamente, na ausência de emoções aversivas perante a transgressão, que parecem ser essenciais para o desenvolvimento da moralidade. Numa meta-análise recente (Marshall et al., 2018) verificou-se uma relação significativa entre elevados traços de psicopatia e défices no julgamento moral, no entanto, não apresentou uma associação forte. Elevados traços de psicopatia têm sido associados a uma maior propensão para tomar decisões com prejuízo do outro, tanto em transgressões morais do quotidiano como em dilemas morais, quando comparado com indivíduos com menores traços de psicopatia (Harenski et al., 2010; Pletti et al., 2017; Ritchie & Forth, 2016), sendo que demonstram uma menor emoção de desagrado perante essa decisão, contrariamente aos indivíduos com menores traços de psicopatia (Pletti et al., 2017). Este estudo tem três objetivos: 1) avaliar de que forma o julgamento moral e a avaliação emocional de antecipação de benefício para o próprio e de prejuízo do outro, bem como a intenção de transgredir em situações morais do quotidiano estão associadas a traços de personalidade de psicopatia e fatores; 2) compreender de que forma o julgamento moral e a avaliação emocional de antecipação de benefício para o próprio e de prejuízo do outro influenciam a intenção de transgredir; e 3) avaliar de que forma estas influências são moderadas pelos traços de personalidade de psicopatia e pelos seus fatores. Relativamente ao primeiro objetivo, levantam-se algumas hipóteses. Espera-se que os traços de psicopatia se correlacionem positivamente com a avaliação emocional de prejuízo do outro (H1) e com a avaliação emocional de benefício para o próprio (H2). Espera-se, ainda, que os traços de psicopatia se
DECISÃO MORAL E INFLUÊNCIA DOS TRAÇOS DE PERSONALIDADE DE PSICOPATIA 16 correlacionem positivamente com a intenção de transgredir moralmente (H3). Quanto ao segundo objetivo, prevê-se que as quatro variáveis da tarefa de transgressão moral influenciem positivamente a intenção de transgressão (H4). Apesar de a literatura sugerir que os traços de psicopatia estão associados a alterações ao nível do processamento emocional, incluindo uma menor capacidade de experienciar emoções negativas perante o prejuízo do outro e uma maior sensibilidade ao benefício para o próprio, a complexidade da interação entre estas variáveis na predição da tomada de decisão moral encontra-se pouco explorada. Assim, torna-se relevante clarificar o papel moderador da psicopatia na relação entre as variáveis de processamento emocional e de julgamento moral na intenção de transgressão. Métodos Participantes Foram recrutados 97 participantes, através da plataforma de créditos da Escola de Psicologia da Universidade do Minho, que receberam, assim, uma recompensa não monetária pela sua participação. Os participantes deveriam apresentar idade igual ou superior a 18 anos, ausência de diagnóstico de perturbação clínica, neurológica ou psiquiátrica, ausência de história de abuso de substância e ter como língua materna o português europeu. Foram excluídos da análise nove participantes, por não cumprirem os critérios de inclusão mencionados. A amostra final do estudo é constituída por 88 estudantes (78 do sexo feminino; 88.64%) do curso de Psicologia da Universidade do Minho, com idades compreendidas entre os 18 e os 47 anos ( M = 21.46; DP = 5.19). O estudo foi aprovado pela Comissão de Ética para a Investigação em Ciências da Vida e da Saúde (SECVS 131/2016) e todos os participantes preencheram o consentimento informado antes da sua participação. Instrumentos Questionário sociodemográfico Incluiu questões relativas à idade, sexo, nível de escolaridade, história de perturbações psiquiátricas, neurológicas e clínicas, história de abuso de substância e língua materna. Self-Report Psychopathy Scale - Short Form (SRP-SF) validado para a população portuguesa (Paulhus et al., 2016; Seara-Cardoso et al., 2020) Escala de autorrelato que permite mensurar os traços de personalidade de psicopatia, através de 29 itens avaliados numa escala Likert de 5 pontos (“discordo fortemente” a “concordo fortemente”).
DECISÃO MORAL E INFLUÊNCIA DOS TRAÇOS DE PERSONALIDADE DE PSICOPATIA 17 O SRP-SF acede às quatro facetas do Psychopathy Checklist–Revised (PCL-R ; Hare & Neumann, 2008) e apresenta-se como um instrumento viável para a avaliação de traços de personalidade de psicopatia em amostras comunitárias (Gordts et al., 2017; Mahmut et al., 2011). Cada uma das facetas (interpessoal, afetiva, estilo de vida impulsivo e antissocial) é formada por sete itens, à exceção da faceta antissocial, que é constituída por 8 questões. No entanto, a questão 2 deve ser omitida quando aplicada a amostras comunitárias, que é o caso do presente estudo, pelo que a faceta aplicada apresenta, também, sete itens. A faceta interpessoal avalia questões como a mentira patológica, manipulação e aproveitamento dos outros (e.g. “Já fingi ser outra pessoa para conseguir alguma coisa”); a faceta afetiva cobre questões afetivas como a ausência de remorsos, culpa e empatia (e.g. “Gosto de ver pessoas a andar ao soco”); a faceta estilo de vida impulsivo avalia comportamento irresponsáveis e impulsivos (e.g. “Raramente sigo regras”); a faceta antissocial avalia comportamentos antissociais (e.g. “Já enganei alguém para me dar dinheiro”). As facetas podem ser agrupadas em dois fatores: fator 1, constituído pelas facetas afetiva e interpessoal e fator 2, constituído pelas facetas estilo de vida impulsivo e antissocial. A escala validada para a população portuguesa demonstrou boa validade (α = .87; SearaCardoso et al., 2020). Neste estudo, para o cálculo da validade interna da escala foram excluídos os itens 6 (“Já agredi um agente da autoridade ou um assistente social”) e 29 (“Já tentei bater em alguém propositadamente com o veículo que estava a conduzir”) por falta de variabilidade (100% dos participantes respondeu “discordo fortemente”). A escala demonstrou boa validade interna global (α = .87) e nos fatores (fator 1: α = .85; fator 2: α = .64). Tarefa de transgressão moral do dia-a-dia Esta tarefa (Seara-Cardoso e colaboradores, artigo não publicado) pretende avaliar a influência das quatro variáveis na tomada de decisão moral do dia-a-dia e consiste na apresentação de cenários escritos de transgressões morais do quotidiano com diferentes níveis emocionais e severidade moral. Vinte e três cenários integraram-se na condição de benefício para o próprio e 23 cenários na condição prejuízo do outro. Todos os cenários foram apresentados na segunda pessoa do singular e numa frase curta, para permitir uma leitura confortável (considerou-se a velocidade de leitura de 150 palavras por minuto, que corresponde à velocidade de leitura normal no fim do segundo ciclo de escolaridade, segundo as orientações do Ministério da Educação (Buescu et al., sem data)). Na transição entre tarefas, os participantes podem realizar uma pausa. Numa primeira fase, os participantes realizaram duas tarefas separadas e contrabalanceadas (Figura 1). Numa das tarefas, foram apresentados 46 ensaios aleatorizados (23 ensaios do contexto
DECISÃO MORAL E INFLUÊNCIA DOS TRAÇOS DE PERSONALIDADE DE PSICOPATIA 18 benefício para o próprio e 23 ensaios do contexto prejuízo do outro), em que o participante teve de avaliar como se sentiu em cada cenário, respondendo à questão “quão bem ou mal te sentirias nesta situação?”, numa escala Likert de 9 pontos (“muito mal” a “muito bem”). Numa outra tarefa, foram apresentados os mesmos cenários, de forma aleatória, e os participantes realizaram um julgamento moral dos cenários apresentados, respondendo à questão “quão correto ou errado é esta situação?”. Para tal, os participantes utilizaram uma escala Likert de 9 pontos para avaliar os cenários apresentados (“muito errado” a “muito correto”). Figura 1 Tarefa 1 e 2 da Tarefa de Transgressão Moral do Dia-a-Dia Em cada ensaio, o cenário foi apresentado durante 3 segundos. Ao fim dos 3 segundos, surgia a escala Likert durante um máximo de 6 segundos, seguida da cruz de fixação com duração de 0.5 segundos. A duração máxima de cada ensaio foi, portanto, de 9.5 segundos, perfazendo um total, aproximado, de 3.5 minutos por cada tarefa. Desta forma, as duas tarefas de julgamento moral e as duas de avaliação emocional tiveram uma duração máxima, aproximadamente, 14.5 minutos. Posteriormente, foi apresentada a tarefa de decisão moral (Figura 2), em que os participantes leram um ensaio que combina um cenário de benefício para o próprio e um cenário prejuízo do outro e realizaram uma avaliação da probabilidade de realizar a ação de prejuízo do outro para obter um benefício
DECISÃO MORAL E INFLUÊNCIA DOS TRAÇOS DE PERSONALIDADE DE PSICOPATIA 19 para si. Cenários de benefício para o próprio e de prejuízo do outro podem ser conjugados e formar dois cenários de transgressão moral diferentes. Nesta tarefa, os participantes deveriam responder à questão “Farias isto?”, numa escala Likert de 9 pontos (“de forma alguma” a “absolutamente”). Uma pontuação mais elevada nesta tarefa corresponde a uma maior intenção de transgredir moralmente. Nesta tarefa existiram 25 ensaios. Cada ensaio foi apresentado durante 5 segundos. Posteriormente, foi apresentada a escala Likert durante um máximo de 6 segundos, seguida da cruz de fixação, com a duração de 0.5 segundos. Cada ensaio teve a duração de 11.5 segundos, pelo que esta tarefa teve a duração máxima de 5 minutos. Figura 2 Tarefa de Decisão Moral da Tarefa de Transgressão Moral do Dia-a-Dia No total, a tarefa de transgressão moral teve uma duração máxima de 19 minutos, excluindo o tempo de pausa/descanso. Os estímulos foram apresentados no centro do ecrã e após o período mencionado anteriormente, a questão e escala Likert correspondente apareciam no ecrã, abaixo do estímulo, e permaneciam até o participante responder ou até passar o tempo definido. Os participantes utilizaram o rato do computador para selecionar a opção pretendida na escala Likert. Procedimento Primeiramente, os participantes preencheram uma secção com questões sociodemográficas que permitem caracterizar a amostra e verificar os critérios de inclusão. Posteriormente, os participantes preencheram a escala SRP-SF (Paulhus et al., 2016; Seara-Cardoso et al., 2020). Os questionários foram
DECISÃO MORAL E INFLUÊNCIA DOS TRAÇOS DE PERSONALIDADE DE PSICOPATIA 20 preenchidos através da plataforma Google Forms. Após a realização dos questionários, os participantes realizaram a tarefa experimental de transgressão moral do dia-a-dia descrita anteriormente, através da plataforma PsychoPy (v3.1.5; Peirce et al., 2019). A recolha de dados decorreu presencialmente, nas cabines insonorizadas da Escola de Psicologia, onde os participantes puderam realizar as tarefas de forma isolada e livres de distrações. Análise de dados Primeiramente, foi realizada análise estatística descritiva para caraterização sociodemográfica da amostra e dos instrumentos utilizados. Para analisar o pressuposto da normalidade, foi realizado o teste de Shapiro-Wilk, não se tendo verificado a normalidade dos dados (p < .001), pelo que foi aplicado um teste não paramétrico. De modo a verificar se os dois tipos de cenários elicitam respostas significativamente diferentes quanto ao julgamento moral e à avaliação emocional, foi realizado o teste Wilcoxon. Foram calculadas as correlações de Spearman para analisar as associações entre o nível de psicopatia e transgressão moral. Nesta análise foram, também, incluídos os fatores do SRP-SF e as quatro variáveis da tarefa de transgressão moral (avaliação emocional de antecipação de benefício para o próprio e de prejuízo do outro, julgamento moral de benefício para o próprio e de prejuízo do outro). Foram realizados vários Modelos Lineares Mistos (MLM), onde as variáveis preditoras foram centradas com base na média e nos quais os participantes e cenários de transgressão moral foram introduzidos como variáveis aleatórias. Para analisar de que forma as quatro variáveis da tarefa predizem a intenção de transgressão moral, independentemente dos traços de psicopatia, foi realizado um MLM em que foram incluídas as interações simples entre as variáveis. Foram calculados modelos adicionais onde se removeram os dados de dois participantes com taxa de resposta omissa de cerca de 10%, no entanto, não se verificaram alterações ao nível das variáveis significativas, pelo que todos os participantes foram incluídos na análise de dados. Para analisar de que forma a relação encontrada no modelo anterior é moderada pelos traços de psicopatia, foi realizado um novo MLM onde, para além das quatro variáveis da tarefa de transgressão moral, se incluiu os traços de psicopatia como variável de efeito fixo. Participantes e cenários de transgressão moral foram tratados como efeitos aleatórios. Para chegar ao modelo final, foram realizados dois MLMs: (1) MLM onde foram consideradas todas as interações simples entre as variáveis incluídas (traços de psicopatia e variáveis da tarefa) e (2) MLM onde foram incluídas todas as interações simples entre traços de psicopatia e as variáveis da tarefa e, apenas, as interações simples entre as variáveis da tarefa que se revelaram significativas no MLM que não incluiu traços de
DECISÃO MORAL E INFLUÊNCIA DOS TRAÇOS DE PERSONALIDADE DE PSICOPATIA 21 psicopatia. Uma vez que em ambos os modelos as variáveis significativas revelaram-se as mesmas, serão apresentados os resultados do MLM mais simples (2), sem todas as interações simples entre variáveis da tarefa. Adicionalmente, calcularam-se dois MLMs isolados, de modo a analisar de que forma cada um dos fatores da psicopatia modera a relação entre as variáveis da tarefa e transgressão moral. As quatro variáveis da tarefa e cada um dos fatores da psicopatia foram consideradas variáveis de efeito fixo. As interações simples consideradas seguiram o mesmo raciocínio aplicado no MLM descrito anteriormente. Participantes e cenários foram considerados variáveis aleatórias. Os valores omissos foram excluídos da análise de dados. A análise estatística foi realizada no software JASP Team (versão 0.16; JASP Team (2022)), com um nível de significância p < .05. Para a elaboração dos gráficos recorreu-se ao software RStudio (versão 2022.02.1; RStudio Team, 2022), com recurso às bibliotecas nlme e ggplot 2. Resultados A estatística descritiva (média, desvio-padrão, mínimo e máximo) da tarefa de transgressão moral é apresentada na Tabela 1. Tabela 1 Estatística Descritiva da Tarefa de Transgressão Moral Variável Média Desvio-Padrão Mínimo Máximo Cenários BP Julgamento moral 49.89 28.07 -24.00 92.00 Avaliação emocional 67.08 18.49 -7.00 91.00 Cenários PO Julgamento moral -72.35 14.47 -92.00 -23.00 Avaliação emocional -66.81 19.19 -92.00 4.00 Transgressão moral -74.36 21.81 -100.00 -1.00 Nota. BP: cenários de “Benefício para o Próprio”; PO: cenários de “Prejuízo do outro” Como esperado, os dois tipos de cenários utilizados na tarefa - cenários de benefício para o próprio e de prejuízo do outro - evocaram respostas significativamente diferentes tanto ao nível do julgamento moral como da avaliação emocional. Nas tarefas de julgamento moral e de avaliação
DECISÃO MORAL E INFLUÊNCIA DOS TRAÇOS DE PERSONALIDADE DE PSICOPATIA 22 emocional, as classificações dos cenários de benefício para o próprio são superiores aos cenários de prejuízo do outro (z = 8.13; p < .001; julgamento moral em cenários prejuízo do outro: M = -72.35; DP = 14.47; julgamento moral em cenários de benefício para o próprio: M = 49.89; DP = 2.99; Avaliação emocional em cenários de prejuízo do outro: M = -66.81; DP = 9.17; Avaliação emocional em cenários de benefício para o próprio: M = 67.08; DP = 18.49), o que significa que em cenários de benefício para o próprio os participantes reportaram sentir--se menos mal e consideraram estes cenários menos incorretos. A estatística descritiva (média, Desvio Padrão e intervalo) da escala SRP-SF (fatores e pontuação total) consta na Tabela 2. Tabela 2 Estatística Descritiva da Escala SRP-SF A pontuação total na escala SRP-SF neste estudo variou entre 28 e 76, sendo que 2.27% dos participantes obtiveram pontuação igual ou superior 70 o que, de acordo com Paulhus e colaboradores (2016), é o valor que marca a presença de tendências de psicopatia. A amostra do presente estudo apresenta uma percentagem inferior de participantes com elevados traços de psicopatia face ao estudo de validação do instrumento na população portuguesa (Seara-Cardoso et al., 2020), onde 4.3% dos participantes obtiveram uma pontuação superior a 70 pontos. Neste estudo participaram apenas 11.36% homens contra os 26% de homens da amostra do estudo de validação. As correlações entre a tarefa de transgressão moral e os traços de psicopatia (pontuação total e fatores) são apresentados na Tabela 3. A pontuação total de psicopatia correlacionou-se positivamente com o julgamento moral de prejuízo do outro (r = .40; p < .001), a avaliação emocional de prejuízo do outro (r = .40; p < .001) e com a transgressão moral (r = .56; p < .001). Também os fatores 1 e 2 se correlacionaram positivamente com o julgamento moral de prejuízo do outro (fator 1: r = .40; p < .001; fator 2: r = .29; p = 6.81e-3), a avaliação emocional de prejuízo do outro (fator 1: r = .41; p < .001; fator 2: r = .29; p = 6.45e-3) e com a transgressão moral (fator 1: r = .54; p < .001; fator 2: r = .45; p < .001). Isto significa que quanto mais elevados foram os traços de psicopatia e a pontuação dos fatores, menos Variável Média Desvio-Padrão Intervalo Fator 1 22.44 7.03 14 – 43 Fator 2 20.36 3.76 14 – 33 Total 42.81 10.01 28 – 76
DECISÃO MORAL E INFLUÊNCIA DOS TRAÇOS DE PERSONALIDADE DE PSICOPATIA 23 incorretos foram considerados os cenários de prejuízo do outro, os indivíduos sentiram-se menos mal perante esses cenários e demonstraram maiores intenções de transgredir moralmente. Por outro lado, os traços de psicopatia e as suas dimensões não se correlacionaram significativamente com a avaliação emocional e julgamento moral de antecipação de benefício para o próprio. Tabela 3 Correlações Entre Traços de Psicopatia Total e Fatores com as Variáveis da Tarefa de Transgressão Moral Cenário BP Cenário PO Variável Julgamento moral Avaliação emocional Julgamento moral Avaliação emocional Transgressão moral Fator 1 -.13 -.17 .40*** .41*** .54*** Fator 2 -.10 -.11 .29** .29** .45*** Total -.11 -.14 .40*** .40*** .56*** Nota. BP: cenário de “Benefício para o Próprio”; PO: cenário de “Prejuízo do outro” * p <.05. ** p <.01. *** p < .001. De modo a analisar a influência das quatro variáveis da tarefa na intenção de transgressão moral foi realizado um MLM (Tabela 4). Para a amostra utilizada, as quatro variáveis influenciaram positivamente a intenção de transgressão moral (.001< p <.031), sendo que a avaliação emocional (β = .24; p < .001) e julgamento moral (β = .22; p < .001) em cenários de prejuízo do outro parecem ser os preditores mais significativos. Adicionalmente, verificaram-se duas interações relevantes na predição da intenção de transgressão moral. Quanto menos mal os indivíduos se sentiram com o prejuízo causado maior foi a intenção de transgredir, sendo que esta relação foi mais forte à medida que os indivíduos consideraram as situações menos incorretas (β = .04; p = .022; Figura 3A). Por outro lado, a relação positiva entre avaliação emocional em cenários de prejuízo do outro e transgressão moral foi moderada pela avaliação emocional em cenários benefício para o próprio, sendo a interação mais forte à medida que o benefício para o próprio foi mais relevante para o indivíduo (β= .02; p =.013; Figura 3B).
DECISÃO MORAL E INFLUÊNCIA DOS TRAÇOS DE PERSONALIDADE DE PSICOPATIA 30 Vários estudos (Cima et al., 2010; Pletti et al., 2017; Seara-Cardoso et al., 2012, 2013, 2016; Tassy, Deruelle, et al., 2013), tanto em amostras forenses como comunitárias, têm sugerido que indivíduos com elevados traços de psicopatia apresentam igual capacidade na realização de julgamento moral que indivíduos com menores traços de psicopatia, no entanto, os resultados deste estudo, demonstram o contrário. Elevados traços de psicopatia parecem estar associados ao julgamento moral de cenários de prejuízo do outro como menos incorretos. Esta alteração ao nível do julgamento moral só se verificou em cenários de prejuízo do outro, não se tendo verificado uma associação significativa entre traços de psicopatia e julgamento moral em cenários de benefício para o próprio. Mais, o julgamento moral em cenários de prejuízo do outro parece estar, também, positivamente correlacionado com ambos os fatores da psicopatia. As diferenças encontradas não eram expectáveis, no entanto, são congruentes com outros estudos que têm sugerido alterações ao nível do julgamento moral em indivíduos com traços de psicopatia elevados, em amostras forenses e comunitárias (Fede et al., 2016; Marshall et al., 2018; Ye et al., 2021). Por outro lado, parece relevante analisar que Greene e colaboradores (2001) verificaram que distintos dilemas morais promoviam um envolvimento emocional diferente e, consequentemente, geravam julgamentos morais diferentes. Assim, a diferença encontrada relativamente ao julgamento moral nos vários estudos, poderá centrar-se na carga emocional dos estímulos utilizados. Para além disso, o julgamento moral tem sido estudado utilizando diferentes questões colocadas aos participantes (Garrigan et al., 2018; Malle, 2021), pelo que os resultados divergentes podem resultar de estudos que investigaram, na realidade, diferentes classes de julgamento moral. Como era esperado (H3), os traços de psicopatia parecem estar associados a uma maior intenção de realizar transgressões morais, sendo mais provável que indivíduos com elevados traços de psicopatia realizem uma ação que prejudique o outro para obter um benefício para si, sendo que estes resultados têm sido, também, encontrados em estudos anteriores, com amostras comunitárias e forenses (Harenski et al., 2010; Pletti et al., 2017; Ritchie & Forth, 2016). Para a amostra em estudo, quer a avaliação emocional quer o julgamento moral de antecipação de benefício para o próprio e de prejuízo do outro parecem predizer a intenção de transgredir moralmente, independentemente dos traços de psicopatia, confirmando a hipótese esperada (H4). Apesar de todas estas variáveis serem relevantes e significativas, as variáveis avaliação emocional de prejuízo do outro e julgamento moral de prejuízo do outro parecem ter maior impacto na intenção de transgredir. Os resultados demonstram, ainda, que quanto menos mal os indivíduos se sentem com o prejuízo causado ao outro, maior é a intenção de realizarem transgressões morais, sendo que esta intenção é tanto maior quanto menos incorreta for considera a situação pelos indivíduos. Mais, quanto
DECISÃO MORAL E INFLUÊNCIA DOS TRAÇOS DE PERSONALIDADE DE PSICOPATIA 31 mais os indivíduos valorizam o benefício próprio, mais forte é a relação entre avaliação emocional de prejuízo do outro e intenção de transgredir. Assim, e de acordo com aquilo que a literatura tem referido (Garrigan et al., 2018; Van Bavel et al., 2015), o processo de decisão moral no quotidiano, para além de depender de variáveis isoladas, parece depender da interação destas. Os traços de psicopatia parecem influenciar positivamente a relação entre avaliação emocional de prejuízo do outro e intenção de transgressão. Mais especificamente, verifica-se que em situações em que os indivíduos se sentem pior perante a antecipação de prejuízo do outro, a intenção de transgressão não parece diferir entre níveis de psicopatia. No entanto, nas situações em que os indivíduos se sentem menos mal perante a antecipação de prejuízo do outro, os indivíduos com maiores traços de psicopatia demonstram uma maior intenção de transgressão. Estes dados realçam a importância das emoções de valência negativa na diminuição da intenção de transgredir moralmente (Tangney et al., 2007) e podem explicar porque para indivíduos com traços de psicopatia mais elevados parece ser mais fácil transgredir. Os resultados demonstram não existir uma correlação significativa entre a avaliação emocional de benefício para o próprio e os traços de psicopatia e os seus fatores, pelo que não se rejeita a hipótese nula (H2). Apesar desta evidência de ausência de relação entre as variáveis, o fator 2 (traços impulsivoantissociais) está associado a uma maior intenção de transgressão e parece moderar positivamente a influência da avaliação emocional de benefício para o próprio na intenção de transgredir. Isto significa que quanto mais elevadas forem as características do fator 2, maior a influência da avaliação emocional de benefício para o próprio na intenção de transgredir. Mais, perante baixos níveis de fator 2, a forma como os indivíduos se sentem face ao benefício próprio parece pouco relevante para a decisão moral. Estes dados, parecem sugerir que indivíduos com traços de psicopatia mais elevados valorizam as recompensas de igual modo que os com menores traços de psicopatia, no entanto, é mais provável de transgredirem independente do valor da recompensa. Adicionalmente, a pontuação total de psicopatia parece não moderar a relação entre avaliação emocional de antecipação de benefício para o próprio e transgressão moral. A literatura tem sugerido que os traços do fator 2 são responsáveis por uma hipersensibilidade à antecipação de recompensas, ao invés dos traços de psicopatia globais (Murray et al., 2018), sendo que em amostras clínicas e forenses, estes traços tendem a ser elevados e responsáveis por problemas comportamentais e adesão ao crime (Hare & Neumann, 2008; Walters, 2003). A relação entre avaliação emocional de prejuízo do outro e transgressão moral parece ser moderada pelas características dos fatores 1 e 2, pelo que não parece existir um fator mais relevante nesta moderação, tal como acontece com a avaliação emocional de benefício para o próprio.
DECISÃO MORAL E INFLUÊNCIA DOS TRAÇOS DE PERSONALIDADE DE PSICOPATIA 32 Algumas limitações do estudo serão discutidas. Primeiramente, o estudo utilizou uma amostra de conveniência de estudantes universitários bastante homogénea, dado que todos os participantes eram estudantes do curso de Psicologia. Para além disso, a amostra era constituída, maioritariamente, por participantes do sexo feminino (88.64%) que, tendem a apresentar traços de psicopatia mais reduzidos em comparação com o sexo masculino (Jonason & Davis, 2018; Kowalski, Vernon, et al., 2018). Desta forma, a amostra utilizada pode não ser representativa da população, limitando, assim, a possibilidade de generalizar os resultados encontrados. Assim, seria relevante analisar se os resultados seriam replicados numa amostra mais diversificada e representativa da população. Outra limitação prende-se com o facto dos traços de psicopatia e a tarefa de transgressão moral terem sido avaliados com base no autorrelato. Os traços de psicopatia parecem estar correlacionados negativamente com a desejabilidade social, sendo que as mulheres apresentam maiores níveis de desejabilidade social (Kowalski, Rogoza, et al., 2018), podendo ser relevante introduzir um instrumento de mensuração de desejabilidade social ou incluir medidas fisiológicas, de modo a obter dados mais robustos dos processos emocionais. Ao nível da tarefa de transgressão moral, uma limitação foi o tempo fornecido ao participante para que este respondesse, tendo-se obtido algumas respostas omissas. Numa aplicação futura deste instrumento, talvez seja importante aumentar o tempo de resposta disponível. Em resumo, apesar das limitações apresentadas, o estudo introduz novos dados acerca da associação entre traços de psicopatia e julgamento moral e avaliação emocional de antecipação de benefício para o próprio e prejuízo do outro. Permitiu, ainda, expandir os conhecimentos acerca da influência destas variáveis na intenção de transgredir moralmente e compreender como os traços de psicopatia moderam estas relações, acrescentando à literatura dados de um contexto mais ecológico e menos hipotético. Investigações futuras seguindo esta linha de investigação poderão ser fundamentais para compreender cada vez mais de que forma os traços de psicopatia influenciam decisões do quotidiano, na população comunitária, mas também, forense. Adicionalmente, a avaliação em amostras mais diversificadas e representativas da população, bem como introdução de medidas fisiológicas serão fatores que merecem exploração futura. Para além disso, seria relevante analisar se as conclusões se estendem a amostras forenses e desenvolvimentais (Vasconcelos et al., 2021). Dado que parecem existir diferenças entre sexos no que diz respeito à manifestação dos traços de psicopatia, bem como no processamento emocional e processamento moral da violação de normas morais (Efferson & Glenn, 2018; Falkenbach et al., 2017; Ritchie & Forth, 2016; Rogstad & Rogers, 2008), seria relevante introduzir esta variável no estudo. O presente estudo associa-se aos estudos (Marshall et al., 2018; Ritchie & Forth,
DECISÃO MORAL E INFLUÊNCIA DOS TRAÇOS DE PERSONALIDADE DE PSICOPATIA 33 2016) que têm demonstrado que determinadas características da psicopatia moderam diferentes interações, pelo que seria interessante analisar de forma mais detalhada de que forma as características especificas da psicopatia moderam as interações encontradas na predição da intenção moral.
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