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Uma contemplação da Maquinação, concebida por Heidegger, enquanto o destinamento de uma transfiguração historicamente consumada do Ser do ente na figura do Niilismo

Rutigliano, Francisca

Abstract

Eis aqui uma interpretação da explanação de Heidegger dos fundamentos e desdobramentos do fenômeno do Niilismo, procedida pelo viés da fixação do sentido do Ser enquanto Maquinação. Esta interpretação implica a apresentação dos passos preparatórios do Filósofo para uma Escrita acerca do sentido do Ser orientada por um outro Princípio que o instituído pela Metafísica, e se faz a partir da contemplação de dois textos exemplares de Heidegger, em que ele investiga a determinação metafísica do Ser em dois períodos capitais da história do Pensamento: o período clássico da Metafísica grega, notadamente em Aristóteles, e o período consumado da Metafísica moderna, visado através da Filosofia de Nietzsche.

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Differenz Revista internacional de estudios heideggerianos y sus derivas contemporáneas 81 AÑO 8, NÚMERO 7: JULIO DE 2021. ISSN 2695-9011 - e-ISSN 2386-4877 - Doi: 10.12795/Differenz.2021.i07.05 [pp. 81-117] Recibido: 05/07/2020 Aceptado: 21/03/2021 Uma contemplação da Maquinação, concebida por Heidegger, enquanto o destinamento de uma transfiguração historicamente consumada do Ser do ente na figura do Niilismo. A contemplation of Machination, conceived by Heidegger, as the destiny of a historically consummated transfiguration of the being's Being in the figure of Nihilism. Francisca Soares Rutigliano Universidade Federal do Rio de Janeiro Resumo: Eis aqui uma interpretação da explanação de Heidegger dos fundamentos e desdobramentos do fenômeno do Niilismo, procedida pelo viés da fixação do sentido do Ser enquanto Maquinação. Esta interpretação implica a apresentação dos passos preparatórios do Filósofo para uma Escrita acerca do sentido do Ser orientada por um outro Princípio que o instituído pela Metafísica, e se faz a partir da contemplação de dois textos exemplares de Heidegger, em que ele investiga a determinação metafísica do Ser em dois períodos capitais da história do Pensamento: o período clássico da Metafísica grega, notadamente em Aristóteles, e o período consumado da Metafísica moderna, visado através da Filosofia de Nietzsche. 82 FRANCISCA SOARES RUTIGLIANO UMA CONTEMPLAÇÃO DA MAQUINAÇÃO, CONCEBIDA POR HEIDEGGER, ENQUANTO O DESTINAMENTO... Palavras-chave: Entidade; Maquinação; Armadura; Vontade; Poder. Abstract: Here is an interpretation of Heidegger's explanation of the fundamentals and developments of the phenomenon of Nihilism, proceeded by the fixation of the meaning of Being as Machination. This interpretation implies the presentation of the Philosopher's preparatory steps for a writing about the meaning of Being guided by another Principle than that instituted by Metaphysics, and it is made from the contemplation of two exemplary texts by Heidegger, in which he investigates the metaphysical determination of Being in two capital periods of the history of Thought: the classical period of Greek Metaphysics, notably in Aristotle, and the consummate period of modern Metaphysics, aimed at through Nietzsche's Philosophy. Keywords: Entity; Machination; Armor; Will; Power. 1. Introducción A Maquinação (Macheschaft)1 na figura da qual se determina o Pensamento metafísico do Ser implica um posicionamento particular deste Pensamento por respeito às questões acerca da diferença ontológica, do caráter próprio da transcendência e da intencionalidade. Nosso propósito aqui não é discutir em termos diretos as configurações que ganharam estas questões no curso da história da Metafísica. Antes, considerando que, a partir do abandono do Seyn2, a Metafísica se instaura enquanto a pergunta pelo ente enquanto tal, 1 Todas as palavras extraídas do aparelho conceitual de Heidegger se encontram seguidas do termo alemão correspondente posto entre colchetes em sua primeira aparição no texto. Já as palavras gregas foram transcritas no alfabeto latino e marcadas em itálico, para evitar possíveis erros na impressão do texto. Observamos que a autora procedeu à tradução de todas as citações de Heidegger neste Ensaio, a partir das Obras publicadas no idioma do autor, exceto as citações do "Seminários do Thor", o qual a autora só dispõe de um exemplar da Editora da Gallimard, redigida por Jean Beaufret. 2 Seguiremos o procedimento de Heidegger de grafar a palavra "Ser" com a forma Seyn, que assim o fez para fixar nela um sinal indicativo de que, assim grafada, ela designa o Ser concebido por respeito à questão acerca do seu sentido ele mesmo. E ainda de acordo com o Filósofo manteremos a grafia original para indicar a palavra enquanto designação metafísica do Ser em termos de simples entidade do ente. Optamos por não apresentar um termo traduzido, porque mesmo verificando uma forma arcaica da escrita da palavra Ser em idioma português, qual seja seer (até ao século XIII, segundo Antenor Nascentes), mesmo assim, não poderíamos extrair da palavra, sem uma observação expressa, uma indicação da diferenciação na apreensão e na forma de abordagem do Ser. E uma vez que a palavra alemã Seyn se deixa ler sem maior dificuldade como Ser, preferimos deixá-la como marca. 83 DIFFERENZ. AÑO 8, NÚMERO 7: JULIO DE 2021 ISSN 2695-9011 - E-ISSN 2386-4877 - DOI: 10.12795/DIFFERENZ.2021.I07.05 pp. 81-117 isto é, por respeito à sua entidade e, entendendo que tal modo de instauração destinou uma transfiguração historicamente consumada do Ser do ente em Poder, transfiguração esta que fornece a figura própria do Niilismo, pretendemos abordar o fundamento, os modos de consolidação e dos desdobramentos da Maquinação no curso de uma tal destinação. Consumaremos este propósito pelo viés de uma apreciação da explanação de Heidegger em dois Ensaios seus sobre Aristóteles e Nietzsche, a saber, "Da essência e do conceito da Physis. Aristóteles, Física B, 1", de 1939, e "A Metafísica de Nietzsche", de 1940. Tomamos o Ensaio sobre a Física de Aristóteles como referência, porque através dele se torna possível compreender como a presentificação (Anwesung)3 da physis vem a se constituir enquanto o paradigma do Ser, a partir do fato dessa presentificação ser visada em termos de presentidade (Anwesenheit) enquanto disponibilidade -o que se deixa configurar bem na tentativa de Aristóteles de distinguir o caráter próprio da poíesis nos âmbitos de presentificação da téchné e da physis. E tomamos o Ensaio "A Metafísica de Nietzsche", porque nele Heidegger procede ao esclarecimento da figura do Poder em seu modo mesmo de se outorgar, se conservar e se elevar, através de sua ancoragem no pressuposto da incondicionalidade da Vontade. Concebemos, portanto, que a apreciação destas duas Obras nos permite abordar com toda propriedade o ponto nodal do Niilismo, o qual concentra disponibilidade e incondicionalidade. 3 Traduzimos as palavras alemãs Anwesen, Anwesend, Awesenheit e Anwesung respectivamente por presença, presente, presentidade e presentificação. Presença é a tradução que os dicionários oferecem para o termo Anwesenheit e que Heidegger corrobora em vários textos quando procura explicar a palavra Anwesen com o termo latino präsenz (Cf. por exemplo, HeiDegger, M. Platon: Sophistes. GA 19. Klostermann, Frankfurt Am Main, 1992, p. 524/525, e também Zollikoner Seminare. GA 89. Klostermann, Frankfurt Am Main, 1984, p. 223). Em Tempo e Ser, ele toma o exemplo "na presentidade de vários convidados a festa foi celebrada" para distinguir, embora sem dissociar, o sentido de presença do ente daquele que concerne à unidade do tempo a qual ele nomeia Gegenwart, e que as línguas latina traduzem com o termo "presente". Presente, presentidade e presentificação são portanto traduções literais dos termos alemães Anwesend, Anwesenheit e Anwesung derivados de Anwesen: o primeiro indicando o próprio Ente enquanto o que é, na medida em que dura na presença, ou seja, no Ser; o segundo indicando no conceito o caráter de estado; e o terceiro indicando o caráter propriamente fenomenal (dinâmico) da presença ela mesma -tal é o modo como Heidegger distingue o sentido dos três termos. Mais adiante se faz referência no corpo do texto a discussão de Heidegger acerca da compreensão que Aristóteles tem da physis em termos de presentidade e não antes de presentificação. Sua questão é que na palavra Anwesenheit, precisamente porque ela guarda um sentido de estado, não se indica o caráter de fenomenalidade da presença (Anwesen), onde se denotaria o movimento ele mesmo e nisto a ocorrência de uma des-presentificação concomitante à presentificação. Nas línguas latinas não temos os meios de abordar esse contexto terminológico sem emprego de neologismos. 84 FRANCISCA SOARES RUTIGLIANO UMA CONTEMPLAÇÃO DA MAQUINAÇÃO, CONCEBIDA POR HEIDEGGER, ENQUANTO O DESTINAMENTO... 2. A indicação do motivo que orienta a investigação de Heidegger desde Ser e tempo e a justificação da tomada de perspectiva na Maquinação para a apreciação da explanação da história da Metafísica Toda a Obra de Heidegger orientada a partir da investigação de Ser e tempo4 se inscreve no âmbito da problemática do abandono da questão do sentido do Seyn por respeito a si mesmo. Podemos dizer que a sua Escrita, a partir de Ser e tempo, constitui explicitamente um passo de volta na direção dos fundamentos e dos diversos modos do asseguramento e desdobramento da proeminência alcançada pelo ente, no que concerne à questão do sentido do seu Ser o qual se tornou normativo para o estabelecimento da Verdade e do verdadeiro. Sem perder de vista em momento algum que a Metafísica se instaura sob a estampa da Maquinação única e exclusivamente em função do abandono do Seyn, podemos dizer sem o risco de incorrer em nenhum juízo antropomórfico que, enquanto propósito previamente estabelecido de disponibilização irrestrita para a abordagem do ente e indagação acerca de sua verdade, a Maquinação constituiu a determinação primeira do pôr5, isto é, da armação (Gestellung), enquanto o panorama através do qual o ente pôde vir à luz numa aparência6 (eídos). Esta perspectiva deve iluminar todo nosso exercício de 4 É sempre importante manter presente que se Ser e tempo inaugura um novo discurso da investigação filosófica, esta Obra não surge com o seu aparelho conceitual e seu contexto problemático de um fiat, muito antes ela foi rigorosamente preparada através dos estudos de Heidegger das Obras de Platão e de Aristóteles. A interpretações fenomenológicas de Aristóteles (1921/22), Os conceitos fundamentais da Filosofia aristotélica (1924), Platão: o Sofista (1924/25), sobretudo as duas últimas, são Obras colossais, nas quais Heidegger procedeu a uma explanação de caráter fenomenológico das Obras dos dois Filósofos gregos inteiramente distinta daquele da Fenomenologia de Husserl, exceto pelo prescrição rigorosa desta de ir à matéria (Sache) ela mesma. Em sua explanação de Aristóteles, Heidegger já projeta a sua noção de ser-no-mundo, muito possivelmente cunhada durante seus estudos de iniciação na Ética a Nicômaco e na Retórica, com o foco na contemplação da existência na pólis. Essas Obras que abordam o Pensamento dos dois Filósofos gregos já se movem no caminho investigativo do Dasein grego (ser-no-mundo na compreensão do Ser) e não naquele do homem (subsistente) grego. A analítica existencial já estava preanunciada nessas Obras. 5 No Ensaio de Heidegger sobre Aristóteles, do qual nos ocuparemos aqui, Da essência e do conceito da Physis. Aristóteles, Física B, 1, o termo Gestellung, o qual traduzimos por "Armação", é largamente empregado com o intuito de designar o pôr (Stellen) pelo qual o Filósofo caracteriza a morphé e é ali explicado enquanto tal (cf. HeiDegger, M.. "Vom Wesen und Begriff der Physis. Aristoteles, Physik B, 1", in Wegmarken. GA 9. Klostermann, Frankfurt Am Main, 1976, p. 290). Vemos, assim, que a posterior Gestell apresentada no Ensaio de 1953, a "Pergunta pela Técnica", a despeito do caráter inteiramente diferente da armação grega, têm a sua raiz naquele pôr, mais rigorosamente, naquela ponência originária. 6 Traduzimos o termo alemão Aussehen com o termo português "aparência" em obediência a orientação que Heidegger indica em seu Ensaio "A Doutrina de Platão da Verdade". Aqui ele determina que o termo Aussehen não deve ser compreendido enquanto aspecto: "(...) Aussehen 85 DIFFERENZ. AÑO 8, NÚMERO 7: JULIO DE 2021 ISSN 2695-9011 - E-ISSN 2386-4877 - DOI: 10.12795/DIFFERENZ.2021.I07.05 pp. 81-117 compreensão dos esclarecimentos concedidos por Heidegger no curso de sua extensa investigação da história da Metafísica. Se decidimos direcionar a nossa contemplação do movimento de instauração da Metafísica pelo viés do esclarecimento da Maquinação é porque nos importa apontar, no curso da exposição do seu caráter e do seu desenvolvimento, o que, em nosso entender, constituem os marcos que foram estabelecidos por Heidegger em sua apresentação e problematização do movimento da Metafísica, no contexto de sua investigação da história do abandono do Seyn. O intuito aqui é acompanhar o esclarecimento de Heidegger acerca de tal movimento, que se estende até ao momento de sua consumação em Técnica da informação, quando esta emerge na fase de consumação da Modernidade, onde então o Sujeito do conhecimento e o seu objeto já se encontram pulverizados pela forma pura da Reserva (Bestand)7. (aparência) Platão não nomeia enquanto mero Aspekt. 'Aparência' tem para ele ainda algo de um sobressair, através do qual algo se 'apresenta' (präsentiert) O Ente ele mesmo se mostra estando em sua 'aparência'". A aparência é suposta aqui, portanto, com o sentido de aparecer e não com o sentido corrente de um mero assemelhar-se. (Cf. HeiDegger, M.. "Platons Lehre von der Wahrheit" (1930/31), in Wegmarken. GA 9, Op. cit., p. 214). 7 Reserva (Bestand) é a expressão que Heidegger adota para qualificar o caráter que o Ser do Ente adquire na Era da Técnica moderna, quando o Ente desaparece enquanto objeto de conhecimento para um Sujeito e se descerra unicamente na perspectiva do recurso produtivo. Nessa Era, homem é desafiado pelo Ser ele mesmo a tomar o Ente, (a Natureza) e a si mesmo, com o intuito único de possibilitar o incremento da Economia, a qual rapidamente ganha o status de finalidade última do comportamento humano no todo, sob a forma de um modelo planetário de orientação. É sob a regência de tal finalidade que a Técnica moderna se engendra enquanto modo próprio do Saber acerca não mais do Ente ele mesmo, mas das possibilidades do planejamento e planificação em vista de sua exploração. Esclarecendo o caráter próprio do pôr desafiador característico da Armadura (Gestell) moderna, Heidegger observa: "Por toda parte é requerido ao pôr estar a postos e, na verdade, estar para ser ele mesmo requerível por um outro requerer. Isto, assim requerido, tem o seu próprio posto (Stand). Nós o nomeamos Reserva. A palavra significa aqui mais e essencialmente mais que apenas "provisão" (Vorrat). A palavra reserva passa agora ao status de uma epígrafe. Ela não distingue nada menos que o modo como tudo foi atingido por aquilo que o descerrar desafiador presentifica (anwest). O que está (steht) no sentido da reserva, não nos está diante enquanto objeto". Vemos com isto que já nos encontramos muito longe do antigo pôr característico da Armação, isto é, da morphé grega, a qual contudo permanece sendo a raiz da Armadura característica da Técnica moderna. (Cf. HeiDegger, M. "Die Frage nach der Tecknik", in Vorträge und Aufsätze. GA 7. Klostermann, Frankfurt Am Main, 2000, p. 17). Voltaremos a isto em momento oportuno para esclarecer porque propomos para a tradução de Gestell o termo Armadura. 86 FRANCISCA SOARES RUTIGLIANO UMA CONTEMPLAÇÃO DA MAQUINAÇÃO, CONCEBIDA POR HEIDEGGER, ENQUANTO O DESTINAMENTO... 2.1. O fio condutor e os passos da Escrita de Heidegger para a fundamentação de seu discurso acerca do abandono do Seyn Heidegger afirmou reiteradamente que a orientação de sua investigação filosófica, recebeu seu fio condutor da Proposição de Aristóteles, "O ente é notório (com efeito, respectivamente a seu Ser) de várias maneiras"8, da qual tomou conhecimento através da Dissertação de Franz Brentano, de 1862, Da múltipla significação do ente em Aristóteles. Acatamos inteiramente este marco estabelecido pelo Filósofo9, e entendemos que foi a partir da apreciação da formulação de Aristóteles dos modos do Ser, que Heidegger chegou à compreensão da redução sumária do Ser ao ente, como forma mesmo da instauração do Pensamento metafísico, já nos Pré-socráticos10. A partir daí o seu intuito foi, por um lado, o de verificar tal ocorrência e o modo peculiar do dar-se de tal redução no percurso histórico do Pensamento e, por outro, o de procurar preparar o caminho para uma retomada da questão do Seyn em termos distintos daquele da Metafísica, ou seja, uma retomada da questão adotando como matéria de investigação o Seyn ele mesmo por respeito ao seu próprio sentido -tal verificação e tal preparação tendo a feição de uma abordagem histórica do Seyn. Desde Ser e tempo Heidegger procura um novo Princípio norteador do Pensamento, distinto daquele em que se tem determinado a Metafísica até aqui. Tal Principio, ainda vigente (não é possível prever até quando), não é outro que aquele desde o qual a presença (Anwesen), apreendida unilateralmente, através do caráter de emergência e constância configurador da presentificação (desocultação (Unverborgenheit)) da physis, 8 HeiDegger, M. "Brief an Richardson", in RicharDson, W. J, SJ. Heidegger-Through Phenomenology to Thought. Fordham University Press, New York, 2003, Vorwort, p. XI. 9 Conhecemos as controvérsias dos comentadores de Heidegger, mais recentemente a de Jean Greisch, acerca do esclarecimento do Filósofo sobre a motivação originária de sua investigação filosófica, e os propósitos, sobretudo o de Greisch, de negar a veracidade de tal esclarecimento (Greisch pretende mostrar que Heidegger procura encobrir a importância de Husserl na orientação inicial de sua Obra) (Cf. Greisch, J. Ontologie et temporalité, Presses Universitaires de France, París, 1994, p. 5 ss). Discordamos inteiramente das conclusões que a chegam tais comentadores, precisamente no que eles desconsideram que a diversidade dos caminhos percorridos por Heidegger de modo algum prova que ele não tivesse um fito estabelecido. Por outro lado um fito estabelecido não significa um curso pré-estabelecido e conhecido por respeito ao seu percurso. Os seu caminhos foram múltiplos, mas a sua estrela foi sempre a mesma, como ele mesmo afirma: "Seguir para uma estrela, só isto" (Cf. HeiDegger, M. Aus der Erfahrung des Denkens, Neske, Pfullingen, 1977, p. 7). 10 A discussão que Aristóteles entabula em sua Física com o sofista Antifonte, seu predecessor, sobre o caráter essencial da physis, dá a ver que a redução do Ser ao ente já está estabelecida no Pensamento filosófico, como fica evidente na concepção de Antifonte acerca da constituição primordial da physis enquanto hylé (matéria) em vez de morphé, tal como Aristóteles o indica e refuta. (Cf. Aristóteles. Física. Tarducción y notas G. R. de Echandía. Gredos, Madrid, 1995, B 1, a partir de 193a ss.). 87 DIFFERENZ. AÑO 8, NÚMERO 7: JULIO DE 2021 ISSN 2695-9011 - E-ISSN 2386-4877 - DOI: 10.12795/DIFFERENZ.2021.I07.05 pp. 81-117 é visada enquanto concretude11 (Wirklichkeit) (subsistência) e, nestes termos, concede o sentido do Ser ele mesmo. O que está em questão nesta perspectiva é precisamente a requisição tácita de disponibilidade do ente, originada no comportamento preparador do Dasein (veremos mais adiante detalhadamente). Esta requisição de disponibilidade é tão normativa para a abordagem do ente que obliterou inteiramente o sentido do fundamento dinâmico do Ser, ao projetar sobre o movimento um sentido de privação. A prontidão foi tomada como a palavra mestre para exprimir a presença e nisto reside o privilégio da subsistência na contemplação do Ser -Ser é, enquanto presença, a concretude concretizante (wirkende Wirklichkeit), a qual constitui a entidade (ousía), a constância, do ente em termos de sua verdade (presentificação - alétheia). Daí que toda a abordagem da causação suposta na gênese seja visada desde a perspectiva do concreto ele mesmo -é aceito como uma evidência indiscutível que nada surge do nada (É de suma importância que se mantenha em vista que o termo "concreto" está sendo contemplado aqui em seus dois sentidos fenomenológicos, enquanto a coisa corpórea que subjaz no contexto factício da existência, ou seja, o concreto contingente manifesto na dimensão presente do tempo, e no sentido mais fundamental do puro e simples permanente posto para a 11 A discussão e o esclarecimento que Heidegger procede em seu Ensaio "Ciência e Meditação", de 1953, acerca da semântica dos termos wirken, Wirklich e Wirklichkeit nos proíbe de adotar as opções tradicionais apresentas para sua significação na língua alemã e para sua tradução nas línguas latinas, as quais nos reportam aos verbos realizar, agir, atual, efetuar. Procuramos manter o sentido fenomenal que Heidegger privilegia nos termos alemães, através das palavras portuguesas, concretizar, concreto, e do neologismo concretude. Os termos tomados para a tradução pretendida guardam o sentido etimológico análogo aos termos alemães. O Dicionário etimológico da língua portuguesa de Antenor Nascentes apenas indica para a palavra concreto sua forma no latim, concretu, sem ousar fornecer sua semântica. Mas procurando pelo radical "cret", encontramos a palavra "creta", homônima em latim, a qual o Filólogo concede a significação de sinal de giz que marca o princípio da carreira. A partir desta indicação semântica do radical "cret", podemos concluir que o termo concretude se determina enquanto uma co-adução e, assim, concerne ao âmbito de significação do verbo "aviar" (preparar e dispor algo com um fim, pôr em via), "a-duzir" (expedir e expor) que se esclarece enquanto o presentificar, a presentificação de todo. Apoiamo-nos a seguir na instrução que o Dicionário da língua alemã Wahrig proporciona sobre a formação etimológica latina do substantivo alemão Konkretum: a palavra se constitui do particípio perfeito neutro do verbo concrescere: crescer junto (Zusammenwachen) (muito apropriado para a significação da physis grega). É com sentido análogo ao Koncretum que Heidegger pretende que se compreenda também a palavra Tun (traduzimo-la com a palavra portuguesa "executar", precisamente porque o sentido etimológico do termo latino executare (exsequi) é o de seguir para fora: ex (fora) sequi (seguir). No texto em questão, Heidegger faz todo um esforço para dissociar o verbo tun do sentido corrente de fazer, compreendido no sentido da actio latina, a partir da qual foi fixado o sentido do ergón grego em termos de uma operatio, a qual enquanto actio é suposta sob as formas de efficere e de um effectus. Uma significação concedida no Dicionário Wahrig, auxilia na compreensão do que Heidegger pretende para o verbo tun, no sentido do co-aduzir à presença, aviar: "sein Tun un Lassen seine Lebensweise": "executar e deixar ser seu modo de vida" (Cf. HeiDegger, M. "Wissenschaft und Besinnung" (1953), Vorträge und Aufsätze. GA 7. Op. cit., p. 42ss). 88 FRANCISCA SOARES RUTIGLIANO UMA CONTEMPLAÇÃO DA MAQUINAÇÃO, CONCEBIDA POR HEIDEGGER, ENQUANTO O DESTINAMENTO... desocultação, isto é, para a verdade; assim o eídos é um concreto, a posterior consciência moderna também o é). Os trabalhos de Platão e de Aristóteles partem e assumem o pressuposto da presença em termos de subsistência e se impõem como tarefa determinar as formas de configuração de sua presentidade no lógos, com o propósito de estabelecer a possibilidade da abordagem do ente material sob tal fundamento (veremos adiante que Platão e Aristóteles buscam configurar o caráter fundamental da presença enquanto presentidade e não enquanto presentificação, o que testemunha uma perda do sentido essencial da alétheia). Partindo da concretude enquanto entidade do ente (seu Ser) no sentido essencial de presença, Platão elabora a teoria das ideias (eíde), enquanto modo de explicar a comunhão do propriamente verdadeiro (o eídos) com o ente material (o eídolov), o qual ele considera em termos de um menos ente, menos verdadeiro (mé ón) por considerar que este não detém em sim mesmo o fundamento de seu ser enquanto o tal que ele é. Através da idéa, o filosofo procura explicar o Um enquanto o desde onde e o comum (kοinón) a muitos, aos que se encontram confundidos numa multiplicidade. E Aristóteles elabora as kategoríes enquanto modos predeterminados pela categoria suprema, a ousía, para determinar o próprio caráter plural desta em termos de quantidade, qualidade, reporto, lugar, ocasião, estado, etc. Tanto a ideia quanto as categorias, em seus propósitos de estabelecer as formas prévias da desocultação (verdade) do Ente para a abordagem do seu Ser, já partem do pressuposto da presença, concebida muito precisamente em termos de visibilidade e constância enquanto estrutura preliminar do Ser (a ousía pretende mesmo caracterizar tal constância). Daí que tanto Platão quanto Aristóteles concebam a presença visada no Ente em reporto imediato ao lógos. Vejamos como Heidegger resume a significação do eídos no Pensamento de Platão: Eídos é um conceito de doação do Ser do ente. (...) O eídos não diz no fundo nada sobre o Ser do ente, além do fato que nesse conceito de doação, o eídos, vem à expressão que o ente deve ser apreendido em sua aparência (Aussehen), isto é, em sua presença (Präsenz) e, na verdade, em uma presença (Präsenz) para um simples ver considerativo (Hinsehen darauf) (...) também em Aristóteles é ainda definido eídos = lógos12. Numa nota, referente ao mesmo trecho, Heidegger corrobora este sentido essencial do eídos: "Eídos: aparência, presentidade "13. 12 HeiDegger, M. Platon: Sophistes. cit., p. 524/25. 13 Ib. p. 524. 89 DIFFERENZ. AÑO 8, NÚMERO 7: JULIO DE 2021 ISSN 2695-9011 - E-ISSN 2386-4877 - DOI: 10.12795/DIFFERENZ.2021.I07.05 pp. 81-117 Na visibilidade da presença repousa justamente a pretensão da prontidão requerida previamente em vista da disponibilidade do ente. Isto fica muito explícito na concepção que Aristóteles detém da ousía, vista pela ótica de sua caracterização do sentido essencial do Ser, na forma estrita de subsistência14, para configurar a constância na presença, isto como modo de determinar o aí visado no Dasein (subsistência) de todo. Contemple-se a explanação de Heidegger acerca desta concepção de Aristóteles: Οusía significa Dasein, e não tem um sentido indiferente do Ser, como se não houvesse tal coisa. Ousía é a abreviação de parousía, "ser-presente" (Gegenwärtigsein). Normalmente o oposto é a apousía, a "ausência", não simplesmente nada, mas algo aí, mesmo que seja em privação. (...) Apousía é o fundamento ontológico para a categoria fundamental da stéresis15. Ousía significa Dasein, existência, na medida em que, para o Pensamento grego, ele tem o seu aí, o seu presente, determinado pela constância, isto é, pela subsistência (importante observar na citação acima que Heidegger, ao caracterizar o sentido da ousía em Aristóteles enquanto ser-presente, já aponta para à stéresis distintiva da despresentificação implicada na presença). E corroborando o sentido atribuído ao Dasein grego em termos de subsistência visada em termos de disponibilidade, Heidegger ressalta: Dasein significa, em resumo: 1. Primeiramente presença, presente, 2. Serpronto, aprontamento (Fertigsein; Fertigkeit) -as duas características do aí para os Gregos. Nestas duas características, todo ente por respeito ao seu Ser é interpretado16. Concebendo o sentido da presença seja do ponto de vista do eídos (o visto na visibilidade) seja da perspectiva da ousía, (o constante da presença), e compreendendo que tal presença já é sempre suposta por respeito a própria disponibilidade, cujo o requerimento orientou desde o princípio os modos de estabelecimento da verdade do ente, compreendemos porque os dois Filósofos gregos cunharam as suas definições do Ser diretamente por reporto ao lógos: "Lógos (...) é um tal 'falar', 'abordar' do mundo, 14 Traduzimos o termo alemão Vorhandensein por "subsistência", por entender que este termo guarda o sentido próprio da constância suposta na concretude e constitui o fundamento mesmo do ser-presente, o qual não significa nunca a mera presença espacial de algo aí adiante da vista, mas antes a presença prévia de seu sentido. 15 HeiDegger, M. Grundbegriffe der aristotelischen Philosophie (1924). GA 18. Klostermann, Frankfurt Am Main, 2002, p. 32 s. 16 Ib. p. 35. 96 FRANCISCA SOARES RUTIGLIANO UMA CONTEMPLAÇÃO DA MAQUINAÇÃO, CONCEBIDA POR HEIDEGGER, ENQUANTO O DESTINAMENTO... Tal é o sentido do pró-a-duzir (poíesis) da physis: o seu levar-se a si mesma à presença de si mesma, isto é, emergir na aparência33). Isto significa: a morphé (o pôr do múltiplo no singular) reside na physis ela mesma enquanto eídos autóctone e, assim, prescinde de qualquer paradigma. Vê-se aqui que Aristóteles não concebe o eídos enquanto o paradigma ele mesmo, senão como podendo assumir a função de paradigma para uma presentificação em um âmbito no qual ele não seja nativo. Heidegger observa que, para Aristóteles, na téchné, o éidos tem apenas a função de encaminhar (enquanto um mostrar puro e simples) o versar-se da poíesis, mas ele não assume o pôr justamente porque não é domiciliado nela. E Heidegger compreende com isto, controvertidamente, como já apontamos em nota (notas 32 e 33), que o preparo da téchné em um tal contexto tem o caráter de um fazer. Vejamos: Onde a aparência se dá por satisfeita no mostrar-se, e só se mostrando, e com isto encaminha um versar-se (Sichauskennen) em sua preparação, onde esta joga acompanhando, mas não consuma, aí o preparar é um fazer (Machen)34. O fundamental na apreensão deste trecho é compreender que a verdadeira distinção não reside entre o preparar e o fazer (como Heidegger momentaneamente pretendeu), mas sim entre um modo de manifestar o Ser do ente, através de um versar-se orientado por um modelo e por uma medida externos, modo tal que resulta que a poíesis tenha o caráter de uma figuração35, e um modo de manifestar o Ser livre da condição do versar- 33 Heidegger resume caráter autoconstituinte da physis: "physeos hódos eís (physis a caminho para a physis), a physis é uma forma da entélekheia, isto é, ousía, e na verdade o preparar a si -desde si, para si. No a-caminho essencial, contudo, se torna um preparado (não algo feito (Gemachtes))". (Cf. HeiDegger, M. "Vom Wesen und Begriff...". cit. p.297) 34 HeiDegger, M. "Vom Wesen und Begriff...". cit, p. 290 (O termo alemão Sichauskennen é tomado por Heidegger para significar caráter próprio do Saber inerente à téchné. Traduzimo-lo aqui por "versar-se"). 35 Vimos deste o início desta discussão que foi projetado o princípio da prontidão, requerida em vista da disponibilidade pelo comportamento preparador imanente à téchné, sobre o modo de presentificação da physis. É importante compreender que o caráter próprio do preparo da téchné em termos de mostração do ente sob a forma de figuração acabou por se afirmar no curso da história da Entidade e, na Era técnica assumiu a plena proeminência sobre o sentido do Ser. Adiantandose o que será discutido mais adiante acerca da Técnica moderna, apontamos já que se a figuração correspondente à téchné grega tinha ainda o eídos (em sua apreensão ôntica em termos de modelo e medida para o preparo) como paradigma para a sua prática figuradora do Ente, por sua vez a Técnica moderna, consumada na forma de Técnica da informação, já prescinde completamente do eídos originário, porque a sua figuração do ente não se orienta mais pelo saber do Ser, mas antes pelo saber puro e simples da manobra das estruturas articuladas do ente, apreendidas no sentido da relação de fatores formais verificáveis e tratáveis matematicamente. O que a Técnica moderna figura são as formas de controle, organização e domínio do Ente. A téchné presentificava 97 DIFFERENZ. AÑO 8, NÚMERO 7: JULIO DE 2021 ISSN 2695-9011 - E-ISSN 2386-4877 - DOI: 10.12795/DIFFERENZ.2021.I07.05 pp. 81-117 se de todo, o que determina a poíesis em termos distintos de uma simples prática de figuração e, na verdade, a determina enquanto mostração do próprio pôr característico de um eidos que tem em si o caráter auto-ponente enquanto physis mesmo: A aparência, o eídos pode também se mostrar imediatamente, pôr-se enquanto isto o que assume o pôr (Stellen) nele mesmo; a aparência se põe ela mesmo; aqui a armação é uma aparência; e assim se pondo, põe-se nela mesmo, isto é, põe aqui mesmo um assim-aparente (So-Aussehendes) -morphé enquanto physis36. Na citação abaixo podemos observar a síntese da questão exposta nas duas citações acima: (...) nós vemos facilmente que um zoón (animal) não se "faz" a ele mesmo e ao seu igual, porque sua aparência não é nunca mera medida e modelo, a medida do qual algo é preparado a partir de um disponível, antes a aparência é o pre-sente (prœ-sens: An-wesende) ele mesmo, a aparência se pondo, a qual requer para si pela primeira vez o disponível e se põe enquanto o apropriado na aptidão. Na gênese enquanto armação o preparar é de ponta a ponta presentificação da aparência ela mesmo sem o ensino ou auxílio adventícios, o que caracteriza justamente todo "fazer". O preparando-a-si- mesmo no sentido da armação, não requer uma figuração; exigisse-o, então isto significaria que um animal não seria capaz de se propagar sem dominar sua própria zoologia37. o Ente por respeito à sua utensilidade num todo de conformidade. A Técnica presentifica o Ente por respeito ao seu empenho e às suas funções na promoção da exploração e do acúmulo de recurso em escala planetária. Um exemplo da destituição do paradigma do eídos no versar-se da Técnica e da consequente renúncia da investigação do Ser do ente, é a pretensão da Biofísica contemporânea de se versar meramente sobre o modo possível de intervir diretamente na produção genética deste e dominá-lo através da manipulação do DNA. É preciso que se ressalte aqui que nessa direção a Ciência tem conduzido o homem para um desastre, quem sabe irreversível. Primeiro, porque a Física concebe as suas representações matemáticas das estruturas do Ser vivo como sendo a verdade essencial destes, e não pode fazê-lo diferente, porque o seu propósito é justamente tomar suas representações no sentido de verdades universalmente válidas (contudo, a despeito de sua pretensão de objetividade, o DNA não está se confirmando como o único fator regente da estrutura do ser-vivo -a aprova é que, mesmo no interior da representação matemática da Biofísica, há seres simples que têm revelado um DNA mais complexo que, por exemplo, o do homem). E segundo, porque a Ciência segue na escalada desenfreada de busca de controle e domínio do ente na plena desconsideração das consequências de seu procedimento. 36 HeiDegger, M. "Vom Wesen und Begriff... ". cit., p. 290. 37 Id. 98 FRANCISCA SOARES RUTIGLIANO UMA CONTEMPLAÇÃO DA MAQUINAÇÃO, CONCEBIDA POR HEIDEGGER, ENQUANTO O DESTINAMENTO... 3.2. O que Aristóteles deixou de considerar no caráter essencial da physis, que o levou a contemplar a emergência e constância como o único fator positivo de seu movimento. O que podemos apreender do procedimento de Aristóteles? Simplesmente que sua distinção entre os caracteres da poíesis nos âmbitos da téchné e da physis, orientada pela perspectiva do fator adventício e nativo do eídos em cada âmbito, não poderia levar à fixação pretendida do caráter essencial do Ser da physis e da téchné. Mais do que ser um modelo adventício ou interno para a poíesis, o eídos é o paradigma enquanto norma da presentidade posta para o Ente desde o imperativo da concretude produtiva, a qual condiciona tal presentidade em termos de partida e de causa. Não importa se a physis tem em si a partida para o movimento, a virada, se tem a morphé, o eídos, e a téchné não os tenha, o que importa é que o preparo de uma e o "fazer", ou dito rigorosamente, a execução da outra têm o mesmo fim, qual seja a presença enquanto disponibilidade a qual o Ser ele mesmo enquanto eídos, ao se referir ao lógos, requer para a poíesis de ambas. Assim, o que teria sido necessário que Aristóteles granjeasse era destituir da presença atribuída ao Ser da physis o imperativo da disponibilidade, o que lhe permitiria contemplála para além da perspectiva unilateral da presentidade. E porque isto não lhe foi possível uma vez que, na esteira de Platão (cf. nota 25) e já regido por tal imperativo, ele só pôde conceber na presentidade a despresentidade -e esta como uma espécie de privaçãoficou fechado para ele o caráter próprio de presentificação da physis. Por esse motivo não lhe foi possível conceber a "despresentificação" (o sentido próprio que Heidegger atribui à stéresis) enquanto a constante partida da physis, desde seu próprio eídos, e como a única forma possível de sua génesis. Daí que Aristóteles não tenha podido oferecer, também, uma determinação positiva da ausência (indisponibilidade) residente no eídos da physis. A título de ilustração, contemplamos esta perda do sentido originário da stéresis grega, observando como Heidegger interpreta o modo pelo qual Aristóteles explana o fenômeno da stéresis enquanto uma afirmação de caráter denegador. Heidegger observa: quando se diz, por exemplo "a água é fria", no ver de Aristóteles, se diz ao mesmo tempo, que é negada a ela o calor. O frio entra no eidos da água, mas em termos de uma denegação. Este é um exemplo pelo qual Heidegger corrobora que, porque o Ser foi suposto em termos de presentidade ao invés de presentificação, a ausência não foi concebida de modo positivo enquanto co-constitutiva da presença e o Ser da physis foi perspectivado unilateralmente em termos de uma presença constante -dito mais rigorosamente, enquanto constância do presente (subsistente). No exemplo acima, o calor é concebido enquanto a constância (a ousía) para a aparência (eídos) da água e o frio, inerente ao seu eídos, se limita a aparecer nele como uma denegação possível, em termos de uma privação na constância ela mesma. 99 DIFFERENZ. AÑO 8, NÚMERO 7: JULIO DE 2021 ISSN 2695-9011 - E-ISSN 2386-4877 - DOI: 10.12795/DIFFERENZ.2021.I07.05 pp. 81-117 3.3. O caráter positivo da stéresis na essência do Ser Como Heidegger recompõe a abordagem (lógos)38 que a seu ver seria devida à stéresis? Em sua explanação da Física, ele procura mostrar que a stéresis constitui a essência velada da physis ("na stéresis se vela a essência da physis"39), porquanto aquela guarda em si o caráter necessário da despresentificação enquanto o determinante do modo mesmo de ser da presentificação desta. Este parecer Heidegger procura corroborar tomando duas definições exemplares de Aristóteles sobre o caráter do movimento presentificante da physis. Primeira definição: "A armação na aparência é kínesis, isto é, virada de algo para algo, virada a qual é em si um 'partir'"40; segunda definição. "A morphé enquanto genésis é hódos, o a-caminho de um 'ainda-não para um 'não-mais'"41. O que está em questão em cada uma destas definições do pôr? Na primeira, que o de algo para algo da virada (metabolé), que caracteriza o movimento poiético da physis, é presentificação (partida) permanente porque partida desde si mesmo para si mesmo enquanto um insuperável a caminho, mas enquanto virada é necessariamente despresentificação constante. Daí a segunda definição da morphé, apontar para o sentido deste a caminho enquanto um advento no entre de um ainda-não e de um não-mais. O exemplo que Heidegger propõe para demonstrá-lo é o seguinte: A armação na aparência deixa sempre assim presentificar, de modo que, ao mesmo tempo presentifica na presentificação uma despresentificação. Na medida em que a florada "irrompe" (physei) a borbulha das folhas caem, o fruto faz aparição enquanto a florada desaparece. A armação na aparência, a morphé, tem o caráter da stéresis, isto significa agora dizer: a morphé é dikhós, em si dupla, presentificação da despresentificação42. 38 Para que se compreenda o sentido próprio da abordagem de uma matéria como a forma ela mesma do lógos, para que se veja aí o sentido da vinculação de lógos e eídos e se perceba nisso a medida própria em que ambos se dão como paradigma e, nesses termos, enquanto arché (partida e orientação) na estrutura da presentificação do Ser do ente, observe-se esta exposição de Heidegger: "Lógos no sentido do acesso: mostrar uma matéria assim e assim, invocá-la assim e assim. No abordar, a matéria, assim invocada, aborda; no mostrar, ela se mostra como ela é. Resulta do modo como uma matéria é invocada, abordá-la no modo correto cá desde ela mesma. Lógos, tomado nesta segunda significação é a pretensão do teor material que uma matéria concede à invocação. Assim, muito frequentemente o λόγος será idêntico ao eídos. Lógos significa pretensão, aquilo que uma matéria concede, e ela concede cá à abordagem correta isto como ela aparenta, o que ela é." (Cf. HeiDegger, M. Grundbegriffe der aristotelischen... cit., p. 255.). 39 HeiDegger, M. "Vom Wesen und Begriff der Physis. Aristoteles, Physik B, 1". cit., p. 297. 40 Id. 41 Id. 42 Id. 100 FRANCISCA SOARES RUTIGLIANO UMA CONTEMPLAÇÃO DA MAQUINAÇÃO, CONCEBIDA POR HEIDEGGER, ENQUANTO O DESTINAMENTO... Agora veremos com mais clareza que a distinção pretendida por Aristóteles entre a poíesis da téchné e a da physis Heidegger, orientado por Aristóteles ele mesmo, a consuma assumindo precisamente o caráter positivo da stéresis da physis. Na téchné, a stéresis se mantém como uma forma de despresentidade porque o movimento da poíesis aí é apenas o de presentificar sob a forma da figuração (não há virada permanente de algo para algo desde a partida). E porque o movimento da poíesis na téchné cessa precisamente ao consumar a presença -a téchné tem que renunciar a si mesma ao instalar o seu Ente na aparência- o expedido (pronto) mantém seu movimento, a respeito de suas possibilidades, fora dela. A physis, em contrapartida, permanece na instalação do Ente que procede dela mesma para ela mesma, e permanece aí em termos de uma virada permanente -portanto, de uma presentificação depresentificante. Enquanto tal permanente, a physis é uma forma de entelécheia, um permanente expedido. Daí que nela o ente seja, de algum modo, sempre preparado em seu movimento no interior dela. Aristóteles concebeu a physis enquanto entelécheia, mas apenas porquanto concebeu que ela se mantinha junto ao seu ente levado à presença, isto é, ele considerou que o ter-se-no-telos (en-tel-écheia) da physis era na verdade o ter-se em si mesma. Heidegger, por sua vez, compreendeu o caráter de entelécheia da physis já em função do sentido próprio de sua permanência: um permanente presentificar despresentificante. Vejamos como Heidegger o esclarece: A physis é uma forma da entelécheia, isto é, ousía, e na verdade o preparar a si -desde si, para si. No a-caminho essencial, contudo, se torna um preparado (não um feito), por exemplo, a florada se furta através do fruto. Mas neste furtar-se, a instalação na aparência, a physis, não renuncia a si; ao contrário: enquanto fruto a planta retorna à sua semente, que em sua essência não é nada de outro que o emergir na aparência43. Com a citação acima, procuramos dar acabamento à demonstração de Heidegger do sentido essencial da despresentificação, isto é, da stéresis, na estrutura de presentificação do Ser por respeito à sua gênese e à sua verdade. Mas o nosso intuito foi também o de propor um ponto de partida desde o qual Heidegger pôde pretender buscar um outro Princípio para a abordagem do Seyn fora dos parâmetros da entidade. Assumindo a despresentificação (desde o início, ainda suposta apenas por respeito ao Ente, vimos o exemplo da gênese da flora) enquanto o fundamento da presença, Heidegger tomou nela o ponto de partida para o novo Princípio de abordagem do Seyn enquanto 43 Id. 101 DIFFERENZ. AÑO 8, NÚMERO 7: JULIO DE 2021 ISSN 2695-9011 - E-ISSN 2386-4877 - DOI: 10.12795/DIFFERENZ.2021.I07.05 pp. 81-117 Acontecimento44 -neste aqui o Seyn tem finalmente o seu fundamento possibilitado em termos de um a-fundamento45, o que significa, em síntese, sobre Ente nenhum. Não vamos, contudo, discutir este novo Princípio no corpo deste Ensaio. Antes, considerando o contexto de instauração da Metafísica suficientemente apresentado, seguiremos daqui para contemplar a Maquinação, esperando poder apreciá-la com clareza acerca de seu desdobramento e, sobretudo, de seu modo de configurar o Niilismo no Pensamento moderno. Vejamos agora, portanto, como Heidegger explana o modo próprio do desdobramento da Maquinação no contexto metafísico moderno do Ser. 4. As consequências da redução do Ser à entidade do ente para a sua apreciação em termos de Maquinação. Partida para a compreensão da transmutação histórica do Ser em Poder A partir do que foi posto em discussão até aqui, fica claro que a apreensão do caráter emergente da physis em termos de concretude produtiva deixou a Metafísica impedida de conceber o fundo da proveniência de tal emergência. Antes sua investigação do Ser precisou se orientar de partida pela perspectiva da pura e simples presentificação, a qual ela, determinada pela requisição de disponibilidade do ente, concebe em termos de presentidade, isto é, prontidão. Portanto, o que ficou por considerar no Pensamento do Seyn, caso se pretenda ter ainda a physis em consideração? Precisamente a imergência (a despresentificação) atinente ao seu caráter emergente, o fundo, o princípio, desde o qual ela é enquanto emergente e para onde volta continuamente enquanto emerge e permanece emergida. Contemplada desde a imergência, a physis perde o direito, por assim dizer, de se oferecer enquanto fundamento para o ente ou paradigma para o seu fundamento. Uma vez que ela não pode mais valer enquanto entidade ou paradigma para tal, impõe-se então a questão acerca do fundamento de sua presentificação ela mesma. 44 Para o esclarecimento da tradução da palavra alemã Ereignis por "Acontecimento", tanto por respeito às etimologias dos termos nos dois idiomas, tanto ainda no tocante ao caráter temporal atribuído por Heidegger ao conceito por respeito à estrutura da compreensão e da verdade (clareira), cf. Rutigliano, F. "Heidegger e o Diálogo: O Percurso de uma discussão fenomenológica na qual o fenômeno da serenidade é apresentado enquanto o constitutivo da essência o pensamento", in Revista Portuguesa da Filosofia 73, 2017, notas 30 e 52. 45 Entendemos que quando Heidegger apresenta o termo Abgrund (abismo) separando o prefixo do radical ele pretende justamente denotar o sentido de um a-fundamento, ou seja, de uma ausênciade-fundamento no ente para o Seyn ele mesmo. 102 FRANCISCA SOARES RUTIGLIANO UMA CONTEMPLAÇÃO DA MAQUINAÇÃO, CONCEBIDA POR HEIDEGGER, ENQUANTO O DESTINAMENTO... Já se o indicou acima que o contexto problemático em questão, no estabelecimento da concretude enquanto princípio para a abordagem do Ser, é precisamente aquele da transcendência do Ser e do comportamento intencional do Dasein. Por respeito à transcendência, o Ser ficou atido ao ente, na medida em que a diferença se colocou apenas em termos de entidade, ou seja, a diferença não foi pensada por respeito a diferenciação do Ser em Tempo (clareira e ocultação), mas apenas reportada à distinção de Todo e singular, ambos apreendidos pela perspectiva da concretude. Por correspondência, o comportamento intencional do Dasein enquanto preparador teve que se configurar em termos de articulação do Todo e do singular, no ente ele mesmo enquanto aprontamento e ordenação pura e simples. Aqui reside o princípio o mais originário da Maquinação do Ser, qual seja, o aprontamento requerido enquanto disponibilização, que constitui o caráter próprio da poíesis da techné: "o Ser enquanto concretude do concreto se determina aqui a partir do produto (Werk)"46 (cf. nota 29). Com isto, ele concedeu o fundamento metafísico da transcendência e da intencionalidade aí implicadas. Nesta perspectiva, portanto, se ancora o comportamento preparador, para o qual cada ente tem já que se manifestar de modo unilateral a partir do que nele se presentifica enquanto pronto, disponível para o emprego ou passível de se tornar disponível. E é sob esta orientação, ou melhor, desorientação originária, que o Ser do Ente será apreendido, na interpretação posterior da Obra de Aristóteles, em termos de ato e potência (aquele, correspondendo unicamente ao Ser e esta, ao Devir) -ver-se-á no curso da questão do Ser, na Modernidade, que o Devir, o ainda-não e o já-não constitutivo do movimento de presentificação da concretude, ganhará proeminência sobre o Ser, configurando, assim, a fase plena da Maquinação. Isto justamente pelo lugar que ocupará o projeto da disponibilização do Ente no propósito do Pensamento metafísico ao se consumar enquanto Técnica. A Maquinação descobre o "concreto" (Ser) no Devir (desprentificação potente), mas somente na medida em que ela se orienta sob a meta do planejamento e planificação pretendidos enquanto a concretude ela mesma -o que será explicado adiante. 5. O princípio da incondicionalidade no fundamento da Maquinação estabelecida em definitivo no despontar da Era moderna Do que foi exposto acima, foi possível concluir que o fenômeno da Maquinação se instaura na história enquanto forma determinante do Saber e de suas praxes a partir da contemplação do Ente no horizonte da presença e constância da physis, apreendidas unilateralmente por motivo da disponibilidade -a Maquinação instala-se, portanto, 46 HeiDegger, M. "Die Metaphysik als Geschichte des Seins". cit., p. 400. 103 DIFFERENZ. AÑO 8, NÚMERO 7: JULIO DE 2021 ISSN 2695-9011 - E-ISSN 2386-4877 - DOI: 10.12795/DIFFERENZ.2021.I07.05 pp. 81-117 enquanto determinante da forma do trato com o ente e, por extensão, enquanto instituinte da função mesmo de sua verdade. A desconsideração da despresentificação na presentificação da physis, ocultou o fundamento agônico de sua emergência. Isto deu margem a conceber o caráter emergente de sua disponibilidade enquanto espontaneidade. No curso do Pensamento metafísico na Modernidade, a espontaneidade veio a caracterizar a essência da Vontade, a qual obteve sua determinação enquanto Liberdade. Em que termos se deu tal caracterização? Precisamente em termos de incondicionalidade. Aqui reside o fundamento do sentido da determinação negativa da Liberdade, qual seja, o não constrangimento a nada por nada. É na via desta interpretação da physis, orientada por sua determinação unilateral enquanto presença, que uma vontade incondicional de disponibilização vem a se consumar historicamente na configuração própria da entidade do Ente -a recém nascida Ciência matemática da natureza (Física) emerge neste contexto perspectivo, concedendo a possibilidade de antecipar de modo calculado a experiência com a Natureza; instalase a partir de então o Matemático enquanto forma privilegiada do Saber. O que é, portanto, nessa via de contemplação que é atribuído ao caráter essencial do Ser do ente? Nada menos que o Poder. É sob esta estampa que devemos compreender o fenômeno denominado como Vontade para o Poder. Vejamos isto. 5.1. O imperativo da concretude no movimento de fundamentação do fundamento inaugurado com a Modernidade Sob o pressuposto da espontaneidade da emergência da physis, a concretude visada na presença e constância do Ser, veio a ser apreendida em termos de incondicionalidade para a disponibilidade. Disto resulta que a concretude, a qual já era apreendida em termos de concretização do concreto, para além de paradigma, se torna então um imperativo. E deve projetar desde si o seu imperativo enquanto o asseguramento de sua possibilidade ela mesma. O asseguramento da possibilidade da concretude iniciado pela Física, ganha sua determinação metafísica no contexto, inaugurado por Descartes, do novo pensamento do Ser, o qual se determina enquanto exigência de fundamentação do fundamento. A partir do advento do ego cogito, nenhum fundamento pode mais se validar por convenção e se apoiar na Traição. O fundamento verdadeiro é o que pode apresentar a sua fundamentação, ainda que extraída de deduções lógicas, como é o caso da fundamentação de Deus. Portanto, a concretude, o Ser, deve projetar o seu imperativo enquanto auto-asseguramento e auto-fundamentação de si mesmo. Isto deve ser mantido 104 FRANCISCA SOARES RUTIGLIANO UMA CONTEMPLAÇÃO DA MAQUINAÇÃO, CONCEBIDA POR HEIDEGGER, ENQUANTO O DESTINAMENTO... em vista para a compreensão da explanação que Heidegger propõe da Vontade para o Poder de Nietzsche. A explanação que Heidegger faz da concepção de Nietzsche do Poder dá a medida precisa da instalação deste no Ser. Em sua perspectiva, Poder é, para Nietzsche, o comando auto-atribuído à forma essencial da concretude, enquanto imperativo de disponibilidade, como condição mesmo de seu asseguramento, permanência e ascendência -o comando incondicional é o caráter próprio do autocondicionamento do Poder que se pretende incondicional. Vejamos como Heidegger o expõe: Comandar é o ser Senhor do dispor sobre as possibilidades, os caminhos, os modos e meios do concretizar empreendedor (handelnden Wirkens). O que no comando é comandado é a consumação do dispor. No comando, o comandante obedece a este dispor e, assim, obedece a si mesmo. Desta forma o comandante é superior a si mesmo, na medida em que abalança-se a si mesmo47. Portanto a incondicionalidade atribuída à concretude se revela o meio mesmo da autohabilitação do Poder enquanto comando, isto é, assenhoreamento da disponibilidade requerida por a ele mesmo. Nesta perspectiva, a Vontade constitui o caráter incondicional do Poder em termos de auto-outorga da concretude ela mesma para comandar o seu dispor de modo irrestrito. Podemos dizer, então: a Vontade é a incondicionalidade do próprio Poder requerida pelo Poder ele mesmo em vista de sua conservação e elevação enquanto Senhor inconteste da disponibilidade. E nestes termos Vontade para o Poder é auto reiteração da incondicionalidade (vontade) e do Senhorio (Poder) enquanto comando e auto-assenhoreamento da disponibilidade. É com este sentido em vista que Heidegger aponta para o significado transitivo da preposição zu na composição do conceito: Wille zur Macht por Nietzsche. Seu intuito é levar o estudioso a compreender que a Vontade não se deixa definir nem em termos de aspiração e desejo de Poder nem é ela mesmo o Poder. Enquanto incondicionalidade, ela se unifica na mesma essência do Poder porquanto este mesmo, enquanto concretude, a exige para consumar o seu comando de disponibilidade incondicional. A Vontade segue para o Poder, mas precisamente desde o imperativo do Poder ele mesmo. Em termos mais claros: a incondicionalidade segue para a concretude, contudo, desde a concretude ela mesma enquanto condição incondicionada do seu elevar-se e conservar-se enquanto tal48. 47 HeiDegger, M. "Nietzsches Metaphysik" (1940), en Nietzsche. GA 6.2. cit., p. 265. 48 Observamos aqui que na estrutura do Poder, a incondicionalidade é já uma contradição: uma incondicionalidade que é ao mesmo tempo condição para si mesma. Tal contradição tem eco nos 105 DIFFERENZ. AÑO 8, NÚMERO 7: JULIO DE 2021 ISSN 2695-9011 - E-ISSN 2386-4877 - DOI: 10.12795/DIFFERENZ.2021.I07.05 pp. 81-117 A conservação e a elevação (sustentadas na incondicionalidade) do Poder configuram a essência unitária da Vontade e do Poder. 5.2. A Maquinação e o requerimento da calculabilidade enquanto um dos meios de mascaramento da violência impressa na auto-outorga do Poder: o surgimento da Técnica moderna O imperativo da incondicionalidade para a elevação e conservação do Poder é uma condição posta pela Vontade para o Poder ela mesma, enquanto a auto-outorga do Poder para dispor e autodispor do Todo incondicionalmente e, só assim, manter-se enquanto Poder. Tal imperativo é, assim, uma imposição residente na essencia unitária da Vontade para o Poder. Heidegger o esclarece nestes termos: O Poder só pode, na medida em que ele se torna Senhor por sobre os níveis do Poder sempre alcançados. Só então é Poder, e pelo tempo que permaneça aumentando o Poder e se ordene imperativamente o mais no Poder, ele é Poder. Já a mera pausa no aumento do Poder, o permanecer parado sobre um nível do Poder põe o começo da impotência. À essência do Poder pertence a sobrepujança (Übermächtigung) dele mesmo. Esta corresponde ao Poder ele mesmo, na medida em que é comando e enquanto comando se outorga (ermächtigt) a si mesmo a sobrepujança dos respectivos níveis do Poder. Assim, o Poder está constantemente a caminho "para" ele mesmo, não apenas para um nível do Poder mais avançado, mas para o apoderamento (Bemächtigung) de sua pura essência49. Heidegger segue esclarecendo que para se conservar e se elevar, o Poder precisa antes assegurar o próprio nível a sobrepujar, enquanto meio para tal. Só assim a elevação do Poder pode se configurar, ao mesmo tempo, como o meio de sua manutenção. A exigência de se elevar e se conservar reside, como foi dito, no Poder ele mesmo enquanto condição posta à sua auto-outorga de sobrepujança, o que significa sempre a reiteração de sua incondicionalidade, isto é, Vontade -condição esta que concerne justamente à possibilidade de fundamentação de sua verdade50. Como ocorre esse asseguramento dos Sistemas de determinação do Concreto de Hegel e de Marx, como eles mesmos apontam, aquele com respeito à Razão especulativa, este com respeito à Razão político-econômica. 49 HeiDegger, M. "Nietzsches Metaphysik". cit. p. 266. 50 Vemos aqui que o projeto moderno de fundamentação do fundamento não logra jamais seu êxito. O Sujeito se fundamentou na mera evidência ôntica do eu penso, o qual ele próprio restou sem fundamento, e o Poder se pretende fundamentar no mero exercício de poder. O que se perde a partir da Modernidade com o advento da estrutura Sujeito-Objeto e a sua posterior substituição 112 FRANCISCA SOARES RUTIGLIANO UMA CONTEMPLAÇÃO DA MAQUINAÇÃO, CONCEBIDA POR HEIDEGGER, ENQUANTO O DESTINAMENTO... enquanto Sujeito-agente, isto é, assumindo o caráter prioritário da substância, qual seja, o fundamento, ele se torna o primeiro requerido para tal desafio por parte do Ser ele mesmo. Assim o recém-nascido homem faz entrada na história moderna simultaneamente enquanto o explorado e o explorador. Com a Física, pela primeira vez, se apresentou a possibilidade de uma previsão garantida do comportamento fenomenal da Natureza; tornou-se possível o que até então não era concebível: a determinação a priori dos efeitos de cada causa natural e de cada intervenção humana na todo da Natureza. Esta previsibilidade calculada, abriu a perspectiva de um controle e dominação absolutos do Ente. Foi nesta perspectiva que surgiu a Técnica moderna enquanto o modo hegemônico da manobra do concreto. Desde então, a disponibilidade não é mais apenas requerida ela se tornou exigida (tornou-se imperativa como o dissemos acima) -o desfio dá a feição dessa exigência. Consuma-se no desafio o assenhoreamento do Poder sobre si mesmo. Está claro, portanto, que a Técnica não é um meio ou um instrumento da execução de tal desafio, ela é antes um modo do Ser, isto é, do Poder se arranjar enquanto o desafiante que ele é. Heidegger aponta a configuração própria do projeto da Maquinação de controle e dominação absolutos do Ente: (...) Maquinação - Poder - sobrepujança (...) Arranjando-se sobre a sujeição incondicional a todo Poder para ela (...) A sujeição ao Poder de tal modo que ela essencia a sobrepujança enquanto devastação incondicional63. No início da Modernidade, com respeito ao conhecimento, a Maquinação guarda ainda o sentido de determinação do koinón (o comum a muitos) característico da articulação inicial da morfé e do eídos, (estamos aqui ainda no plano da estrutura do conhecimento do Ente nele mesmo); ainda aí o koinón sustenta sua referência histórica enquanto expansão e afirmação da outorga do Poder, já na figura do conhecimento sob o pressuposto da reportação Sujeito-Objeto. Mas com a afirmação da Técnica moderna em termos de Técnica da informação muda a ideia do Saber e do conhecimento e a problemática do koinón fica em certo sentido obsoleta. Em seu Ensaio A História do Seyn, Heidegger indica a necessidade de pensar a Maquinação para além do koinón: O saber da Maquinação em sua pura essência, não apenas o discernir a essência histórica do κοινόν enquanto expansão e afirmação da outorga (Ermächtigung), mas a Maquinação para além ainda do κοινόν64. 63 HeiDegger, M. "Nietzsches Metaphysik". cit., p. 278-279. 64 HeiDegger, M. Die Geschichte des Seyns. cit., p. 47. 113 DIFFERENZ. AÑO 8, NÚMERO 7: JULIO DE 2021 ISSN 2695-9011 - E-ISSN 2386-4877 - DOI: 10.12795/DIFFERENZ.2021.I07.05 pp. 81-117 Por que para além do koinón? Porque, se não está mais em questão o conhecimento do Ente em seu Ser, e nem a fundamentação do fundamento da verdade (quando então se inaugurou o pressuposto do Sujeito do conhecimento), só resta então ao Pensamento a questão do como da obtenção das formas do dispor, controlar e organizar o concreto e do domínio das massas produtivas, tudo isto circunscrevendo o sentido do Ser enquanto Reserva. A questão da adequação suposta para a verdade fica reduzida ao tratamento dos dados obtidos desde a própria produção do Ente ele mesmo, como modo da articulação prática de tais dados. Assim, no curso da história moderna do Ser, a Armadura dá a dimensão derradeira da Maquinação em sua forma de essenciar a sobrepujança do Poder em sua consequente sujeição incondicional do Ente e, por extensão, de sua devastação inexorável. 7.1. O procedimento da Técnica A partir da Técnica, quando a requisição de disponibilidade se transmuta em desafio de recurso e reserva, a Armadura se torna a forma hegemônica da auto-sobrepujança do Poder; agora o desafio de armazenamento e recurso projetado sobre o todo, visa a possibilidade de planificação calculada de arranjo e controle do Ente no todo. Tudo deve vir à presença enquanto recurso e reserva em vista do fomento do Poder, que toma a figura da Economia. "Tudo deve vir à presença", significa aqui, tudo deve ser sabido enquanto recurso e reserva de recurso. A Técnica se confirma portanto enquanto a nova forma do Saber do Ente enquanto tal. Visada enquanto recurso e armazenamento, a Natureza, se torna campo de mineração, de agropecuária, de extração de madeira, de energia, de implementação do turismo, etc. O que o homem moderno é capaz de ver ainda enquanto Natureza é já apenas um mero recorte de um tal campo de recurso empregado para o seu recreio e repouso. Como já se o apontou, o homem, ele mesmo inserido no projeto desafiante da Natureza, ocupa o lugar simultâneo de desafiado, desafiante, instrumento e recurso para o desafio. Enquanto o desafiado, ele é condicionado a compreender e, assim, abordar o Todo em termos capacidade produtiva, isto é, em termos de medida de desempenho puro e simples; ao mesmo tempo enquanto recurso, ele é organizado e controlado enquanto Massa produtiva e consumidora. Enquanto instrumento da Técnica, o homem fomenta o projeto do Poder, construindo e gerenciando as grandes instalações necessárias para o abrigo, transmissão e circulação dos recursos exigidos para o arranjo e controle das Massas organizadas, enquanto desafiante, ele produz as Massas produtivas -é preciso que se diga 114 FRANCISCA SOARES RUTIGLIANO UMA CONTEMPLAÇÃO DA MAQUINAÇÃO, CONCEBIDA POR HEIDEGGER, ENQUANTO O DESTINAMENTO... que as Massas são elas mesmas um produto da Maquinação posto em disponibilidade enquanto Reserva e Recurso a serem empregados. Na contemplação da Técnica, em seus Ensaios A Pergunta pela Técnica e Ciência e Meditação, ambos de 1953, Heidegger não emprega mais o termo Maquinação, muito possivelmente porque o termo Armadura ofereça o sentido acabado da transmutação histórica da Armação grega. Todavia a Armadura mantém sua linhagem oculta em uma requisição primeira de disponibilidade baseada na concretização pura e simples. 8. A consumação do projeto técnico do Ser em Técnica da informação. O passo derradeiro da nova Armadura do Ser, o pôr enquanto desafio de recurso e armazenamento, a Técnica o executa expandindo-se em Técnica da informação -aqui a Cibernética cumpre um papel capital. Através dela a velha Lógica se torna uma Logística. Um saber dos meios de articulação para o planejamento e planificação absoluta do ente. Hoje a Logística é a última palavra nas Ciências e na Mídia. Através dela os dados estatísticos podem ser tratados em vista da produção do conhecimento total do ente por respeito aos seus recursos disponibilizáveis. É toda uma manobra de açambarcamento que implica dissecação, classificação dos hábitos, dos gostos, das pretensões, das disponibilidades financeiras, para trazer o homem enquanto instrumento e fomentador da Técnica à luz de holofotes, para aplicá-lo como recurso dominado, isto é, conhecido, e organizado. O que se deu de fato nessa projeção do Ser enquanto concretude por motivo da disponibilidade? Deu-se a transmutação consumada do Pensamento ele mesmo em Técnica. Isto significa que o Pensamento assumiu a forma da Técnica para se representar o Ser e a si mesmo. O Pensamento sofreu portanto um amplo sequestro de todos os seus modos de determinação de si e do Ente. Assim é que cada uma das formações complexas aludidas por Nietzsche: Ciência, Arte, Religião, Política realizam agora o projeto de planejamento e planificação do Dasein humano visado enquanto Massa dirigível. Estas formas pro-spectivas e trans-spectivas da conservação e elevação do Poder consumam em cada qual a padronização do modo de ser da verdade e do verdadeiro. É assim que "critérios técnicos" são reivindicados como o modo mais rigoroso do Saber e da ação. Nesse contexto, a Universidade perde em velocidade vertiginosa o seu lugar de centro de produção do Saber e se reduz mais e mais ao papel subalterno de vigilante dos tais critérios técnicos; toda a produção acadêmica está quase praticamente reduzida a divulgação deles -quando se pensa em Política, por exemplo, se pensa no estabelecimento e descoberta dos meios técnicos da organização socioeconômica, sempre com o foco na 115 DIFFERENZ. AÑO 8, NÚMERO 7: JULIO DE 2021 ISSN 2695-9011 - E-ISSN 2386-4877 - DOI: 10.12795/DIFFERENZ.2021.I07.05 pp. 81-117 demanda do momento, em geral informada pela Mídia, seja ela segurança pública, saúde, abastecimento, ecologia, etc. Tomando uma destas formas complexas, aludidas por Nietzsche, a Arte, como referência para avaliar nela à sua alienação a nova Armadura do Ser, Heidegger aponta justamente como esta procede em vista da fomentação do projeto técnico da existência. Daí ele ver na Arte metafísica o seu fim enquanto Arte, na medida em que ela se transforma em empresa da Cultura para fomento desta mesma. E os meios da Arte proceder tal fomento é precisamente se instalando nas grandes instalações técnicas sobrepostas à Natureza e reproduzindo-as como se fossem elas a Natureza propriamente dita. Vê-se por todo lado o comportamento planificador da Arte com a pretensão de substituir as tradições, se impondo enquanto padrão de comportamento, gosto, moral e, consequentemente, de verdade. Com isto em vista, Heidegger afirma que a Arte não tem nenhum poder de decisão sobre a projeção do Ser, antes ela é arrastada em tal projeção, contudo tem ainda o poder encobrir inteiramente o sentido e a direção desta. O mesmo vale para a Ciência, Religião, a Política: Vê-se, age-se, aspira-se e "decide-se" tecnicamente. 9. Conclusão O que podemos dizer disto tudo? O projeto de planificação absoluta da existência no seu todo, em seu curso avassalador mas ainda inconcluso, deu ensejo a um ver claro e amplo de seu propósito devastador. Nietzsche, embora tenha sido tragado em sua correnteza, deixou um verdadeiro grito de alerta, cujo eco foi ouvido quase um século depois. Heidegger acatou o seu alerta e, precisamente porque "onde mora o perigo, aí mesmo se encontra o que salva", produziu o legado, sem precedentes na história, de ensino acerca da formação e do percurso do Pensamento ocidental. Sua Filosofia é o primeiro golpe verdadeiramente de nocaute que a Armadura moderna recebeu. Contudo, pouco ouvida, pouco compreendida ela permanece por encontrar os preservadores de seu legado (aqueles dos quais ele aponta a necessidade para a sustentação da Obra enquanto Obra de arte), aqueles que, compreendendo o Saber que ele traz à clareira, possam propagá-lo e mesmo ampliá-lo. A Armadura segue seu curso veloz, furioso e voraz, mas o Seyn fez soar uma nova requisição: o abandono da concretude em nome do verdade do Seyn ele mesmo enquanto Acontecimento. Todo um caminho de volta a percorrer em meio mesmo a enxurrada planificadora, todo um novo aprendizado a consentir e assumir. 116 FRANCISCA SOARES RUTIGLIANO UMA CONTEMPLAÇÃO DA MAQUINAÇÃO, CONCEBIDA POR HEIDEGGER, ENQUANTO O DESTINAMENTO... Bibliografía. Aristóteles. Fisica. Tr. y notas G. R. de Echandía. Gredos, Madrid, 1995. Giacóia, J. O. Heidegger urgente - Introdução a um novo pensar. Três Estrelas, São Paulo, 2013. Greisch, J. Ontologie et temporalité. Presses Universitaires de France, París, 1994. HeiDegger, M. Aus der Erfahrung des Denkens. Neske, Pfullingen, 1977. HeiDegger, M. Beiträge zur Philosophie (Vom Ereignis). GA 65. Klostermann, Frankfurt Am Main, 1989. HeiDegger, M. Besinnung. GA 66. Klostermann, Frankfurt Am Main, 1997. HeiDegger, M. "Brief an Richardson" in RicharDson, W. J. 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