Jorge de Sena e João Cabral: metamorfose e museu
Abstract
Os livros Metamorfoses (1963), de Jorge de Sena, e Museu de tudo (1975), de João Cabral de Melo Neto, exploram – cada um à sua maneira – sua estreita relação entre a poesia e outras artes, especialmente as artes visuais. Entre contrastes e afinidades, este trabalho propõe uma aproximação entre os universos seniano e cabralino, considerando ambos os poetas curadores de seus próprios livros-museu.
Full text
JORGE DE SENA E JOÃO CABRAL. METAMORFOSE E MUSEU Rafaela Cardeal* Passeava num grande museu quando de súbito compreendi: sala a sala andar a andar tudo eram enormes folhas dum enorme livro tão grande que era preciso caminhar por ele fora. Foi então que compreendi que o leitor realiza a aventura de contribuir para que se invente diariamente a responsabilidade da desordem. Ana Hatherly 1. Introdução Antes de viver no Brasil, o escritor português Jorge de Sena estabeleceu um importante diálogo cultural e afetivo com a literatura brasileira, que se ampliou certamente durante o período de 1959 a 1965, quando se exilou no país. Nas edições publicadas postumamente, em especial Quarenta anos de servidão ( 1979), Sequências ( 1980), Estudos de cultura e literatura brasileira (1988a) e Visão perpétua (1989), encontram-se escritos dispersos e inéditos do autor: poemas e leituras críticas que falam sobre o Brasil e seus poetas e escritores. No texto, inacabado, que serve de prefácio à coletânea dedicada aos estudos críticos brasileiros referida anteriormente, Sena afirmava que a literatura brasileira moderna, especialmente a poesia, ocupava uma posição de * Centro de Estudos Humanísticos, Instituto de Letras e Ciências Humanas, Universidade do Minho, Braga, Portugal. ORCID: https://orcid.org/0000-0001- -6952-621 X. [email protected]
190 JORGE DE SENA destaque no Portugal das décadas de 1930 e 1940. Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles e Murilo Mendes foram, para os poetas portugueses, "um exemplo de libertação poética, na nossa própria língua, de um valor inestimável" (Sena, 1988a, p. 9). O intercâmbio literário, e consequentemente o conhecimento dessa poesia, diz-nos o autor, era possibilitado sobretudo através dos livros que recebia e do convívio pessoal com os intelectuais brasileiros que iam a Portugal. E também pelo escritor José Osório de Oliveira, quem desempenhou um papel fundamental na divulgação dessa literatura no âmbito das relações luso-brasileiras. Tais poetas, acima citados por Sena, aparecem com maior ou menor frequência, quer na sua ensaística, quer na sua poesia. Mas, diante desses nomes, figuras canônicas da poesia brasileira, notamos a grande ausência de um contemporâneo tanto daqueles brasileiros quanto do português: o poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto. Este nome aparece pouquíssimas vezes na obra de Jorge de Sena, assim como não existem, do ponto de vista biográfico, evidências que unam os dois poetas. Não temos conhecimento de nenhum texto ou recensão crítica exclusivamente dedicada ao autor de A educação pela pedra, nem mesmo de qualquer convívio, nem sequer de alguma carta. De modo igual, não podemos afirmar se chegaram a conhecer-se pessoalmente ou não. Lembremos que é bem possível que um encontro não tenha sido favorecido por diversas circunstâncias, sendo uma delas, talvez a mais determinante, a geográfica: no período brasileiro de Sena, Cabral exercia funções diplomáticas na Espanha, a serviço do Itamaraty; e, quando o brasileiro esteve em Portugal, nos anos 1960, o português já não vivia em seu país. Apesar de existir um evidente desencontro e uma irredutível diferença entre a poesia desses dois autores, seria possível imaginar um encontro num espaço comum às suas obras. Se o museu, como numa das "tisanas" de Ana Hatherly (2006, p. 70), fosse como um livro, e assim suas salas como enormes folhas desse enorme livro, por onde o leitor se aventura, poderíamos então caminhar, a partir dessa leitura, nos museus imaginados desde Metamorfoses (1963) e Museu de tudo (1975). Livros-museus de onde podemos observar uma exposição das obras de Jorge de Sena e João Cabral, duas vozes centrais no panorama da poesia portuguesa e brasileira e, de maneira mais ampla, no quadro da literatura de língua portuguesa.
JORGE DE SENA E JOÃO CABRAL. METAMORFOSE E MUSEU 191 2. Uma sequência incomum Em Sequências, volume que reúne seis conjuntos de poemas organizados postumamente por Mécia de Sena em 1980, encontra-se o único testemunho de um possível diálogo textual explícito entre as obras de Jorge de Sena e João Cabral. Os poemas da primeira seção do livro, "Invenções «au goOt du journ", são diálogos literários, alguns deles datados de 18 janeiro de 1970 e outros, sem data, que supostamente foram escritos no mesmo dia, segundo a organizadora da edição. Oferecendo-nos uma releitura de um fragmento - um verso, uma estrofe ou um poema - das obras de vários autores, as composições se apresentam como exercícios gráficos, próximos à estética da poesia experimental e concreta. Nesta sequência, numa plêiade essencialmente portuguesa - de Camões e Sá de Miranda a Sophia de Mello Breyner Andresen, Ruy Cinatti, Eugénio de Andrade e Gastão Cruz, para citar alguns - estão presentes os poetas brasileiros João Cabral, Manuel Bandeira e Carlos Drumrnond de Andrade. Surpreende-nos que o primeiro esteja entre os dois últimos, mestres de Sena, com quem ele estabeleceu uma estreita relação fraternal e literária, testemunhada por meio da correspondência trocada entre os escritores.1 "Poema sobre o começo do poema de J. C. de Melo Neto, chamado poema" (Sena, 1980, p. 19), como nos indica o próprio título, é um jogo intertextual e metapoético que tem como ponto de partida um poema publicado em O engenheiro (1945), um livro emblemático na obra cabralina. Confirma-se, assim, uma hipótese, a de que Sena tinha algum conhecimento dessa poesia e que, portanto, foi um leitor de João Cabral, desse livro ou ao menos desse poema. Reproduzimos abaixo uma imagem da composição (Figura 1), a fim de que se mantenha a diagramação original: 1 A correspondência com Manuel Bandeira foi publicada na revista Metamorfoses (n. 4, 2003) e a com Carlos Drummond de Andrade na Granta (n. 2, 2013).
192 JORGE DE SENA A tinta e a lápis escrevem-se todos os versos do mundo A tinta e « lápis são escritos todos os versos do mundo A tinta e a lápis escrevem-se quase todos os versos do mundo A tinta e a lápis são escritos quase todos os versos do mundo A máquina escrevem-se alguns dos versos do mundo À máquina são escritos alguns dos versos do mundo Com sangue (diz-se) escrevem-se uns pouquíssimos. Com sangue (diz-se) são escritos uns pouquíssimos. E a,nsta que já outros furam escritos com outros materiais c:xaeros. Figura 1. "Poema sobre o começo do poema de J. C. de Melo Neto, chamado poema" (Sena, 1980, p. 19). O poema acima não dialoga inteiramente com o poema de que parte: a premissa, como nos alerta o autor, é composta pelo "começo", isto é, pelos versos iniciais, que se estruturam, no texto matriz, num terceto. Essa disposição parecer ser aqui aproveitada, mas com a orientação oposta, a horizontal, de maneira a organizar os versos em colunas, expandindo, assim, a mancha gráfica. Enquanto o poema de Cabral se dirige para uma reflexão que se desenvolverá amplamente em sua obra, cujo objetivo central é dissecar o funcionamento da escrita e de seus recursos, o poema de Sena faz, num tom crítico e irônico, uma apreciação sarcástica daqueles que escrevem versos. Em contraponto ou contracanto, instaura-se uma espécie de exercício prazeroso, ou puro divertimento, elaborado a partir do hipotexto cabralino, compondo assim, no sentido genettiano, uma paródia. Do ponto de vista sintático e semântico, o jogo proposto atua numa estrutura de repetição e variação, segundo a qual, a cada dístico, altera-se alguma informação, quer os instrumentos da escrita - de uma escrita manual à escrita visceral, passando pela automatizada-, quer o significado absoluto da proposição inicial - num processo de redução adverbial. A metamorfose seniana, assim como nas outras composições, dá-se nesse sentido: absorvendo outros textos e outras escritas, inclusive a própria escrita do autor, as 'invenções' criam uma relação de comentário através do ato da leitura e da escrita, ou melhor, da reescrita crítica. A escolha desse texto, bem como dos outros textos reunidos em "Invenções «au gout du journ", não parece ser aleatória. À maneira das "canções de seguir" medievais, Sena, ao seguir o modelo de cantigas anteriores, da tradição e de seus contemporâneos, demonstra ao leitor o timbre de sua voz poética.
JORGE DE SENA E JOÃO CABRAL.METAMORFOSE E MUSEU 193 Para além desse testemunho poético, na biblioteca do escritor português, que foi recentemente integrada na Biblioteca Nacional, constam alguns livros de João Cabral. São cinco exemplares: Pedra do Sono (1942), Morte e vida severina (1965), Poesias completas (1968), Poesia completa (1986), editada pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda, e uma tradução italiana de Museu de tudo (1990) - note-se que esses dois últimos volumes foram publicados após 1978, portanto, integrados após a morte do autor. Neles, não há qualquer indício relevante, apontamento ou sublinhado, exceto um, o primeiro exemplar que contém autógrafos, diríamos, incomuns, e algumas marcas a lápis. Lemos na folha de rosto duas dedicatórias, uma a José Osório de Oliveira, escrita pelo autor do livro, datada de Recife, julho de 1942; e outra escrita pelo primeiro dedicatário a Jorge de Sena, "que talvez perceba", datada de Lisboa, janeiro de 1943. Trata-se de uma dupla oferta: João Cabral, num gesto comum a um estreante poeta, enviou o seu primeiro livro a uma figura de destaque das letras portuguesas e, como vimos anteriormente, um grande divulgador da literatura brasileira em Portugal, mas Osório de Oliveira ofereceu-o a alguém que, ao contrário dele, pudesse percebê-lo. Tais dedicatórias, assim como os sublinhados no livro, não são muito reveladoras. Demonstram tal vez um desinteresse de Osório de Oliveira e de Sena em tentar 'perceber' o livro, já que ambos, críticos e entusiastas da poesia brasileira, não escreveram nenhuma linha sobre ele.2 Por outro lado, confirmam uma intenção de João Cabral: a de ser lido em Portugal. No espólio do brasileiro, encontra-se uma listagem com nomes de possíveis destinatários de Pedra do sono, entre eles, o de Osório de Oliveira e de João Gaspar Simões, Adolfo Casais Monteiro, António Ferro, Miguel Torga, Vitorino Nemésio e Alberto de Serpa. Numa carta a Serpa, com quem João Cabral teve um grande diálogo epistolar - considerando-se sua qualidade 'anti-epistolar' -, o brasileiro lhe pede nomes e endereços de poetas e críticos portugueses que poderiam se interessar pelo seu livro, provavelmente se referindo a 2 No levantamento bibliográfico e documental realizado para a minha tese de doutoramento acerca da recepção crítica do brasileiro em Portugal bem como a produção de portugueses publicada fora de seu país, sobretudo no Brasil, não foram encontrados textos com autoria de Jorge de Sena nem de José Osório de Oliveira, o que não quer dizer não existam, mas é uma hipótese pouco provável.
194 JORGE DE SENA O cão sem plumas (1950), lançado no mesmo ano da missiva, justificando que os que tinha, provavelmente desatualizados e desinteressantes, foram dados a ele, ainda no Recife, por Manuel Anselmo. 3. Jorge e João entre outros Tentando compreender o diálogo entre Jorge de Sena e João Cabral, ou a sua ausência, constata-se que, para além dessa tentativa de aproximação, eles estiveram em grande parte ligados por terceiros, sem estarem necessariamente entre si. Sophia de Mello Breyner Andresen foi certamente a interlocutora mais privilegiada dos dois poetas, com quem manteve uma estreita e profunda relação literária e afetiva. De modo que Sophia foi de certa maneira responsável por uma leitura mais atenta de Sena em relação à obra cabralina com o seu livro O Cristo cigano (1961), escrito a partir das conversas que ela teve com o brasileiro numa viagem a Sevilha, em 1958. A única referência da crítica seniana a João CabraJ3 encontra-se no verbete sobre Sophia, escrito para o Grande Dicionário de Literatura Portuguesa e de Teoria Literária, volume I, saído em 1977, e coligido posteriormente em Estudos de Literatura Portuguesa, volume III: ( ... ) O Cristo Cigano, em 1961, representou uma curiosa experimentação profunda: por um làdo, a superação da religiosidade cristã, e, por outro, certa quebra com uma rítmica musical e uma imagética evocativa, em favor de ritmos mais abruptos, e de uma concisão que mais nomeia e define do que evoca. A esta transformação originalmente conduzida não terá sido alheio o exemplo do poeta brasileiro João Cabral de Melo Neto. (Sena, 1988b, p. 174) É certo que Sena conhecia a obra de João Cabral, como vimos anteriormente, o suficiente para apontar a pertinência do exemplo cabralino dentro do percurso da poesia andresiana. Do ponto de vista privado, oferecido a partir da correspondência, podemos compreender de algu3 Em Estudos de cultura e literatura brasileira (1988a), no texto "Uma antologia de poesia moderna, ou da técnica associativa da celebridade", há uma referência pontual a João Cabral, acerca de sua presença na recolha de poemas organizada pelo Clube de Poesia de São Paulo.
JORGE DE SENA E JOÃO CABRAL. METAMORFOSE E MUSEU 195 ma forma como se constitui a conexão entre eles. De fato, Sophia reúne-os, promovendo o encontro dos dois em alguns momentos, motivada sem dúvida pela admiração. Numa carta de 22 de setembro de 1961, Sophia, falando do Algarve, especificamente de Lagos, escrevia a Sena: "É também extraordinário aqui o contraste da terra (seca e desflorada como um poema de João Cabral de Melo) e da arquitectura cubista, clássica e branca, com o mar barroco e cheio de todas as cores" (Andresen e Sena, 2006, p. 39). Numa outra carta, de 2 de fevereiro de 19654, dirigida a João Cabral, a poeta portuguesa pedia-lhe que escrevesse uma introdução para a edição de seus poemas escolhidos, supostamente a Antologia 1944-1967, que sairia em 1968 pela Portugália. O pedido tinha um motivo específico: o brasileiro era o único, segundo ela, a ver que a sua poesia era "feita com substantivos concretos", assim, seria o mais indicado a 'desfazer' os enganos da crítica portuguesa. Comentando que poderia pedir tal favor a Sena, quem considerava muito bom crítico, mas que já havia escrito algumas vezes sobre sua poesia, afirmava que tinha mais afinidade, no plano da linguagem, com o poeta brasileiro. Não sabemos se ele atendeu ou não à encomenda da amiga, sabemos que nenhuma introdução foi especialmente escrita para a ocasião, bem como não nos chegou até hoje algum texto de autoria de João Cabral sobre a poesia de Sophia. Mas se apresentam na referida antologia, à maneira de prefácio, "Elogio da usina e de Sophia de Mello Breyner Andresen", publicado alguns anos antes em A educação pela pedra (1966) e "A Sophia de Mello Breyner enviando-lhe um exemplar da «Pedra filosofal»", poemas-homenagem de autoria de Cabral e Sena, respectivamente. Outro interlocutor, menos evidente, foi Adolfo Casais Monteiro, quem, assim como Sena, se exilou no Brasil, em 1954, por motivos políticos. Casais Monteiro mantinha, semanalmente, uma rubrica intitulada "Figuras e problemas do nosso tempo" no jornal O Estado de São Paulo, onde publicou, a 2 de março de 1955, o artigo "Um poema em vinte e um sonetos", dedicado à recente publicação de As evidências. Falando das tendências mais recentes da poesia portuguesa e como elas se revelavam na poesia seniana, o crítico português faz uma 4 A carta se encontra no arquivo de João Cabral de Melo Neto, sob a guarda do Arquivo-Museu de Literatura Brasileira (AMLB), da Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro.
196 JORGE DE SENA aproximação inusitada. Transcrevo aqui integralmente a passagem por ser um texto pouco conhecido: Jorge de Sena é um poeta tão pouco conhecido no Brasil como em Portugal João Cabral de Melo Neto; e não é por acaso que cito o nome deste último: homens da mesma idade (nasceram, respectivamente, em 1919 e 1920), não deixa de ser significativo que wn e outro sejam conduzidos por uma necessidade de fundo idêntico: a de suprimirem da expressão poética qualquer complacência lírica. Os "riscos" corridos são exatamente da mesma ordem: o de se negar poesia aos seus versos. (Casais Monteiro, 1955,p. 5) Casais Monteiro, fazendo uma apreciação do mais novo livro de Sena, cita o nome de Cabral para demonstrar que os dois poetas eram contemporâneos, e pouco conhecidos, um no país de origem do outro. E não só. Importa também ressaltar que dias após a publicação desse texto, a 6 de março, o crítico escrevia um artigo a respeito do volume Poemas reunidos, de Cabral, que veio a lume no ano anterior. Mas, para além de qualquer coincidência ou de circunstâncias editoriais e recepcionais, o perfil de Sena e de sua poética composto pelo crítico português é curiosamente parecido com o do poeta brasileiro: Jorge de Sena é, sem dúvida, um poeta difícil, quer dizer, um poeta que não se deixa penetrar senão a uma leitura atenta. Com estes sonetos, a sua expressão abeira-se muitas vezes perigosamente do prosaísmo, porque o seu "discurso" não é musical, mas arquitetônico, se me permitem a impropriedade de expressão; ou digamos então que os valores plásticos dominam os musicais, ou, ainda, talvez com mais precisão: que a música dos seus versos só é perceptível através da rigorosa construção a que obedecem. (Casais Monteiro, 1955, p. 5) Se substituirmos o nome de Jorge de Sena por João Cabral e, é claro, se retirarmos a referência aos sonetos, não haveria quase nenhuma imprecisão quanto ao retrato do autor e de sua obra. Conforme considera a crítica, são poetas difíceis porque exigem um leitor atento que seja capaz de ultrapassar a hostilidade inicial que impõem; e prosaicos, uma vez que se utilizam, cada um à sua maneira, de uma linguagem direta e comum, para estabelecer de modos distintos uma relação de
JORGE DE SENA E JOÃO CABRAL. METAMORFOSE E MUSEU 197 objetividade com a realidade e com aquilo que os rodeia. Nas suas obras, de igual modo, observa-se uma predominância de valores arquitetônicos e plásticos em relação aos musicais, ainda que a obra seniana apresente mais diálogos com a música e seja mais experimental do ponto de vista rítmico, no uso diversificado de versos longo ou curtos, formas fixas ou versos livres. Mas é esse rigor construtivo e formal que produz um ritmo sintático e, consequentemente, a música dos versos de Sena e também dos de Cabral, embora a musicalidade extraída dos versos cabralinos busque a antimusicalidade, ou melhor, a antimelodia, com suas rimas toantes. 4. Jorge de Sena e João Cabral encontram-se num museu No posfácio que acompanha Metamorfoses, o autor diz-nos que o livro inicialmente se chamaria museu, uma palavra, etimologicamente, "esplêndida de sugestão, se, para a maioria das pessoas alheias a estes requintes, não cheirasse sobretudo a pó e a animal empalhado" (Sena, 1963, p. 131). Em razão de uma noção mais comum, entre outras, o título foi substituído porque não se tratava de uma mera reprodução verbal de objetos artísticos, o que poderia restringir a percepção do leitor, mas sim de "metamorfoses", meditações aplicadas. A palavra museu, entretanto, não deixou de ser usada por João Cabral de Melo Neto num de seus títulos, o Museu de tudo (1975). Aliás, a sua escolha parece ser justificada já no poema de abertura, e que leva o mesmo nome do volume, oferecendo ao leitor uma espécie de explicação: Este museu de tudo é museu, Como qualquer outro reunido; Como museu, tanto pode ser Caixão de lixo ou arquivo. Assim, não chega ao vertebrado Que deve entranhar qualquer livro: É depósito do que aí está, Se fez sem risca ou risco. (Melo Neto, 2014, p. 485) À maneira de prefácio, num tom de autocrítica, o autor expõe o sentido da metáfora do título do livro, dando a ver o seu projeto. Como num museu, ali se reúnem objetos que podem ter ou não valor de