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ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual CC BY-NC-SA https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/4.0/
iii Agradecimentos Um agradecimento ao Professor Leandro S. Almeida por ter aceite acompanhar-me e orientarme neste Trabalho. Agradeço a todos os professores e colegas com quem partilhei estes dois anos de frequência de Mestrado. Um obrigado ao João, meu marido, por todo o apoio que me deu na realização deste trabalho, por me motivar nos momentos de desânimo e por assumir a nossa família quando necessitei de tempo.
iv DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho.
v ÁLCOOL NO MUNDO ACADÉMICO. AS PERCEÇÕES DOS ESTUDANTES SOBRE OS EFEITOS DO CONSUMO RESUMO O álcool, a droga mais conhecida e aceite pela sociedade, é muito procurado devido a fortes crenças que focam o olhar no seu efeito estimulante, provocador de euforia e sensação de segurança. Tomando os relatos dos consumidores, a experimentação é estimulada sobretudo pela curiosidade e procura de diversão. É vivida pelos jovens como uma ocorrência natural correspondente às expectativas suas e dos outros, sendo, geralmente, uma experiência em grupo, iniciada em ambientes festivos. Nem todos os consumidores de álcool sofrem de problemas graves relacionados com o seu consumo. No entanto, é a substância psicoativa lícita de abuso mais consumida em Portugal e está ligada a grandes problemas de saúde pública. Torna-se, assim, urgente promover a literacia em saúde que inclua estes problemas. Nesta dissertação, procuramos conhecer os comportamentos de consumo de bebidas alcoólicas e as perceções relacionadas com os seus efeitos junto dos jovens em fase de adaptação ao mundo académico e relacionamos estes dados com as experiências vividas no período antecedente e com a forma como estes estudantes percecionam a sua integração. Observamos a presença de mais perceções positivas nos estudantes com menor idade e nos que iniciaram os seus consumos em idade mais precoce. Quanto mais tarde aconteceu o primeiro consumo, mais aumentam as perceções negativas. Os estudantes que experimentaram mais cedo tendem a beber mais vezes e maior número de bebidas por noite ou festa, seja ao longo do ensino secundário, seja na universidade. Este estudo não mostra a existência de relação entre consumo de álcool e os níveis de integração percecionados, mas revela que os estudantes com perceções positivas consomem mais, ou seja, menor consciência dos riscos associa-se a comportamentos de consumo. Identificámos, ainda, uma correlação muito forte entre os comportamentos de consumo ao longo do secundário com os comportamentos em fase de integração no ensino superior. As conclusões deste trabalho reforçam a importância da intervenção precoce que possibilite ao indivíduo o desenvolvimento de capacidades para aceder à informação, compreendê-la, processá-la e utilizá-la para avaliar situações, balanceando recompensas e riscos de cada decisão, favorecendo uma vida saudável para si e para quem o rodeia. Palavras chave: Perceções do consumo; Integração académica; Binge drinking; Prevenção; Alcoolismo.
vi ALCOHOL IN THE ACADEMIC CONTEXT. STUDENT´S PERCEPTIONS ON ALCOHOL EFFECTS ABSTRACT Alcohol, the most publicized and socially accepted drug, is highly demanded due to strong beliefs about its stimulating effect, cause of euphoria and safety sensation. First tastings of alcohol are stimulated especially by curiosity and by the search for fun. It is lived by the young as a natural occurrence, corresponding to their and other expectations, usually taking place in a group, in a festive atmosphere. Not all alcohol consumers suffer from serious problems related to the consumption. Nevertheless, alcohol is the most consumed psychoactive lawful abuse substance in Portugal and has a close relation with the major public health problems. Therefore, it becomes urgent to promote health literacy which includes these matters. We tried to understand behaviors linked to alcoholic beverages consumption and the perceptions related with its effects, amongst youngsters in adaptation phase to academic world, and we connected these data with the experiences of prior phases and with the way these students perceive their integration. We observed more positive perceptions in the younger students and in those who initiated their consumptions more prematurely. The later the first consumption occurred the more negative perceptions increase. Students who experienced alcoholic beverages sooner tend to drink more often and a larger number of drinks per night or party. This study doesn´t reveal the existence of connections between alcohol consumption and the perceived level of integration, disclosing, however, that students with positive perceptions drink more, meaning that lesser conscience of risks connects with consumption behaviors. We also identified a very strong correlation between consumption habits during secondary school and such habits throughout the integration period in University. The conclusions of this study reinforce the importance of early intervention, allowing the individual to develop capabilities to access, understand, process and use information, in order to assess risk. Educational actions are needed to enable the individual to evaluate rewards and risks of each decision, promoting a healthy life, both to the individual himself and to those around him. Keywords: Perceptions of consumption; Academic adjustment; Binge drinking; Prevention; Alcoholism
vii ÍNDICE: INTRODUÇÃO ......................................................................................................................... 1 CAPÍTULO 1. REVISÃO DA LITERATURA ......................................................................... 4 1.1. Enquadramento.................................................................................................................................... 4 1.2. O álcool ................................................................................................................................................. 9 1.2.1. Da experiência à dependência .................................................................................................... 10 1.3. O consumo de bebidas alcoólicas em Portugal .................................................................................. 11 1.4. Problemas ligados ao álcool ............................................................................................................... 26 1.4.1. Efeitos imediatos no consumo .................................................................................................... 29 1.4.2. Efeitos do Consumo excessivo .................................................................................................... 29 1.4.3. Efeitos do consumo continuado .................................................................................................. 30 1.4.4. Efeitos na aprendizagem ............................................................................................................. 31 1.5. Fatores de risco e fatores protetores ................................................................................................. 32 1.6. O papel do álcool no processo de transição para o mundo académico............................................. 50 CAPÍTULO 2. METODOLOGIA DO ESTUDO EMPÍRICO ................................................ 57 2.1. Definição do problema ....................................................................................................................... 57 2.2. Objetivos, questões e variáveis .......................................................................................................... 58 2.3. Instrumentos e Procedimentos .......................................................................................................... 60 2.4. Caracterização da amostra ................................................................................................................. 60 CAPÍTULO 3. APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS ................................ 69 3.1. Funcionamento dos itens da escala de perceções sobre o consumo de álcool em estudantes do Ensino Superior ......................................................................................................................................... 69 3.2. O consumo de álcool no mundo académico. Resultados dos inquéritos nas dimensões da escala .. 74 3.3. Correlação entre a existência de consumo no período de adaptação ao ensino superior e as perceções vividas ...................................................................................................................................... 77 3.4. Correlação entre idade do 1º consumo e os comportamentos de consumo atuais .......................... 78 3.5. Correlação entre as experiências de consumo no período de integração com o período antecedente a este ......................................................................................................................................................... 79 3.6. Correlação entre as experiências vividas ao longo do ensino secundário e as perceções vividas no período de adaptação ............................................................................................................................... 80 3.7. Correlação entre as perceções em relação aos efeitos do consumo de álcool e a prática de atividade desportiva ou lúdica .................................................................................................................. 81 3.8. Correlação entre o consumo de bebidas alcoólicas no período de integração e a saída de casa ..... 84 CONCLUSÃO ......................................................................................................................... 85
viii BIBLIOGRAFIA ...................................................................................................................... 89 ANEXOS – Inquérito aos estudantes ..................................................................................... 102
4 CAPÍTULO 1. REVISÃO DA LITERATURA 1.1. Enquadramento O uso de álcool, assim como o de outras drogas, é um fenómeno bastante antigo na história da Humanidade e esteve sempre associado à procura de prazer, ao anestesiar de feridas e dores, sejam físicas ou psicológicas, e às relações de grupo, às interações com os outros e com o meio. Hoje, sob o olhar atento de diferentes perspetivas e entidades, o consumo destas bebidas representa um problema de saúde pública com consequências pessoais e sociais nefastas relevantes. Segundo Mello, Barrias e Breda (2001), já em 1940 a escola americana de Jellinek se mostrou preocupada com os problemas associados ao consumo de bebidas com teor alcoólico, com a complexidade dos efeitos e consequências do seu consumo, motivo pelo qual reuniu pessoas de diferentes áreas de investigação: médicos, sociólogos, psicólogos, juristas e economistas. Surge, assim, o conceito de Alcoolismo (Mello, Barrias, & Breda, 2001). Este movimento sobre Alcoolismo estende-se à Europa e, em 1945, em França surge o CNDCA (Comité National de Défense Contre l’Alcoolisme) e na Suíça o ICAA (International Council on Alcohol and Addictions) (Mello et al., 2001). Mais tarde, a Organização Mundial de Saúde desafia-nos a abandonar este conceito de alcoolismo e dependência e convida-nos a refletir sobre todos os problemas associados ao uso de álcool, mesmo que seja um consumo esporádico (OMS, 2005). Na sua perspetiva, o uso de bebidas alcoólicas vem lesar a garantia de saúde de acordo com a definição apresentada pela Organização Mundial de Saúde, como um “estado de completo bem-estar, físico, mental e social e não apenas a ausência de doença ou de enfermidades” (Constituição da Organização Mundial da Saúde OMS, 1946, p. 1). Quando falamos de saúde, falamos de três áreas que se interligam e se afetam, positiva ou negativamente, entre si: a área biológica, ou seja, a saúde e bom funcionamento dos órgãos que compõem o nosso corpo; a área psicológica, que representa aquilo que somos, o que nos identifica, nos personaliza, o nosso estado mental e emocional, que se traduz pelas nossas ações, a forma como percebemos e interpretamos o que nos rodeia e a nós mesmos; e, por último, a área social, as relações interpessoais, a relação com o meio, desde a relação com a família
5 nuclear, família mais alargada, a escola, o grupo de pares, colegas de trabalho, grupos desportivos e de lazer e a comunidade em geral. Por tudo isto, não podemos falar em saúde de uma pessoa, se não falarmos de um ser biopsicossocial. Estas três áreas estão interrelacionadas, não podendo ser separadas, pois o que acontece numa delas afeta as outras. Torna-se, assim, pertinente uma aposta na educação para a saúde com procedimentos destinados a promover a aquisição e potencialização de competências comportamentais, emocionais e sociais indispensáveis a uma vida saudável. Pode ser interessante tomar como referência o modelo ecológico desenvolvido por Urie Bronfenbrenner, uma abordagem que nos ajuda a estabelecer uma melhor compreensão do desenvolvimento do ser humano como resultado da interação entre o individual e o ambiente onde ele está inserido. Para melhor compreender o desenvolvimento é de fundamental importância estudar o indivíduo nos seus vários contextos e ambientes (Martins & Szymansky, 2004). Segundo Martins e Szymansky (2004), Urie Bronfenbrenner identifica cinco sistemas de influência ambiental: microssistema, mesossistema, exossistema, macrossistema e cronossistema. Por microssistema entende-se o primeiro sistema da pessoa, onde recebe cuidados básicos. É o ambiente formado pela família, escola, vizinhos, envolvendo relações próximas e diretas com pessoas que fazem parte desses grupos: pais, irmãos, colegas, professores, outros. O mesossistema diz respeito a relações entre dois ou mais dos referidos microssistemas, por exemplo, as relações entre casa e escola, família e vizinho. Já o exossistema refere-se à existência de relação entre dois ou mais ambientes, sendo que, a pessoa poderá não estar presente, mas indiretamente vai sofrer algumas influências, comprometendo assim o seu desenvolvimento e, consequentemente, os seus comportamentos. Quanto ao macrossistema, apreendido ao longo do desenvolvimento, abrange os valores, ideologias, crenças, padrões culturais, sistemas políticos etc., ou seja, a cultura em que a pessoa se desenvolve juntamente com os outros numa sociedade. Por último, o cronossistema relaciona a dimensão temporal no contexto de uma vida. Esta dimensão inclui mudanças, mais ou menos graduais ou abruptas, que acontecem no ambiente ou na pessoa em desenvolvimento. Esta teoria chama-nos a atenção para o facto de que o ambiente em que a pessoa cresce influencia direta ou indiretamente o seu desenvolvimento, as suas aprendizagens, crenças e perceções, tomada de decisões e comportamentos. Em cada um desses sistemas em que a pessoas se desenvolve, existe um conjunto de fatores de risco e fatores de proteção que, de forma dinâmica, interagem e
6 influenciam todo o desenvolvimento de um indivíduo ou de um grupo (Martins & Szymansky, 2004). Pensando no consumo de álcool e problemas a ele associados, podemos falar num ciclo em que os pensamentos e comportamentos do indivíduo face ao álcool influenciam estes sistemas, assim como a presença de bebidas alcoólicas e o predomínio de ideias favoráveis ao consumo existentes nos sistemas onde a pessoa se desenvolve influenciam as escolhas pessoais. No meio académico, questiona-se até que ponto a condição de estudante universitário é um fator protetor, ou seja, é um garante de proteção? Ou um fator de risco? Até que ponto as perceções sobre o consumo de álcool existentes à entrada no mundo académico estão relacionadas com o comportamento/decisão de beber? Como se relacionam as experiências com álcool anteriores à entrada na universidade e os comportamentos de consumo à entrada? A entrada na universidade está relacionada com mudanças nos comportamentos de consumo? Em Portugal, como em vários outros países, as drogas ilícitas encontram-se, desde há muitos anos, sob um olhar atento de todos e o seu uso é protegido pela lei, assim como a sua produção, comercialização e transporte. O álcool é assumido como droga lícita. É uma droga acessível, cujos efeitos negativos foram desvalorizados face a outros considerados positivos, designadamente, a utilidade para a economia e para o lazer. Associados ao seu consumo, nascem algumas crenças, mitos, nos quais se acreditou e ainda se acredita como se de certezas se trate. Entre as crenças sobre os seus efeitos que convidam ao seu consumo, encontram-se as seguintes: o álcool ajuda a digestão, dá força, mata a sede, é um alimento, não engorda, dá calor e combate o frio, ajuda a aliviar os momentos tristes, simboliza alegria, festa, convívio, partilha, diversão, o seu consumo esporádico não faz mal, facilita as relações sexuais, quem aguenta mais quantidade de álcool é mais forte, as raparigas têm uma tolerância ao álcool igual aos rapazes, é usado no culto religioso, como simbolo em rituais de passagem a adulto, Em finais do século XIX, quando se começa a considerar álcool como um problema de saúde pública no mundo e em Portugal, os olhares, as preocupações e as medidas interventivas foram focados em grupos considerados vulneráveis como os menores de idade, em fase de crescimento, os grupos socialmente desfavorecidos e, em particular, o alcoólico, aquele que apresenta elevados sinais de dependência, com quem pouco mais se conseguia fazer em termos de intervenção do que ações de minimização de danos e redução de riscos para a saúde
7 (considerando minimização de danos um conjunto de atividades para prevenir o aparecimento de malefícios provocados pelo consumo (Patrício, 2002)). Desde então, vários são os estudos realizados com o objetivo de identificar os problemas associados ao consumo de bebidas com álcool; o centro da atenção já não é apenas o alcoólico ou o adolescente desmotivado para a aprendizagem ou que abandona prematuramente a escola e inicia abusos de consumo precocemente. A população foco de preocupação vai mudando no mundo, na Europa e em Portugal. O Plano Nacional de Redução dos Problemas de Álcool, 2010-2012, indicava uma redução no consumo médio de álcool na UE, mas “…a proporção de jovens e jovens adultos com padrões de consumo nocivos cresceu na última década em muitos dos Estados-Membros” (PNRPLA 2010-2012, IDT, 2011, p. 16), e quando falamos de jovens adultos, falamos da idade não protegida pela lei no que respeita à compra e consumo destas bebidas. Presentemente observamos um conjunto de preocupações que nos forçam a olhar com mais atenção para um novo grupo, os estudantes do Ensino Superior. São jovens adultos, que lutaram para concretizar o ensino secundário e entrar no mundo académico, onde chegam cheios de sonhos e expetativas que se perdem associadas ao uso e/ou abuso de bebidas alcoólicas e a todas as consequências associadas a esta prática. Sabemos que este jovem é convidado a beber em algumas festas e rituais académicos à entrada na universidade. Estas festas são muitas vezes patrocinadas por empresas produtoras de bebidas alcoólicas que, estrategicamente, o expõem a publicidade onde apresentam a bebida como potenciador de diversão, facilitador de integração no grupo de pares, impulsionador de experiências de vida significativas, auxílio para aliviar o stress ou as tensões. Sabemos que, também neste contexto, na decisão de beber ou não beber e na forma como decidem consumir bebidas com álcool, interfere um conjunto alargado de fatores protetores e fatores de risco (Matos, 2008). Desta forma, quando chega à universidade, um jovem traz consigo um conjunto crenças e perceções associados ao consumo, assim como um conjunto de automatismos, atitudes e intenções desenvolvidas a partir de experiências passadas que vão influenciar as suas decisões. Tendo presente a importância dos domínios individual, familiar e social (IOM, 1994/2009, citado por SICAD), e da forma como estes influenciam os comportamentos do indivíduo proporcionando-lhe fatores de proteção ou de risco, importa atender à multidimensionalidade e complexidade do comportamento de consumo. Neste trabalho, usando como instrumento o
8 Questionário sobre perceções sobre o consumo de álcool em estudantes do ensino superior, de Leandro Almeida & Joana Casanova, 2017, procuramos entender melhor os comportamentos de consumo e as perceções sobre os efeitos de tal consumo em estudantes à entrada no Ensino Superior. Numa altura em que tantas descobertas já se fizeram e se divulgaram sobre os riscos associados ao consumo de álcool, em que já houve o cuidado de introduzir esta informação nos manuais escolares desde o 1º ciclo, em que muitas são as turmas do ensino preparatório ou secundário onde foi realizada alguma ação sobre esta temática, com este trabalho pretende-se averiguar se esta população jovem adulta que entra na universidade está preparada para definir os seus próprios limites, para “saber beber” e se estará capacitada para se afirmar perante a pressão de pares e de certos contextos. Segundo alguns estudos, ser estudante universitário não garante um nível de desenvolvimento maduro e proteção face aos consumos abusivos (Morueta, Gómeze, & Gutiérrez, 2009). Citando Salazar (2003), cada estudante “tem as suas próprias singularidades que derivam de outros fatores de risco de índole pessoal identificados com a estabilidade emocional, o rendimento académico e a imagem de si mesmo” (Morueta, Gómeze, & Gutiérrez, 2009, p. 179). Desta forma, pretende-se, neste trabalho, refletir sobre o conjunto de fatores a ter presente no momento de definir medidas preventivas, que permitam responder à necessidade de desenvolvimento de competências para lidar com a situação de transição e adaptação ao ensino superior (Ferraz & Pereira, 2002), propondo medidas profiláticas ao nível do ensino precedente ao universitário, que previnam o aparecimento dos quadros de insucesso, abandono e problemas pessoais e de estruturação da personalidade (Ferreira, Almeida, & Soares, 2001). Sobretudo, interessa compreender as motivações destes jovens adultos, entender o que os leva a usar o álcool e fundamentar o desenvolvimento de estratégias promotoras de competências sociais colmatando as necessidades destes jovens, reduzir a ansiedade de transição atendendo às necessidades de conexões sociais, mas também proteger os alunos que não bebem do risco de exclusão social devido à não participação em atividades tradicionais de consumo de álcool (Brown & Murphy, 2018). Em conclusão, interessa-nos contribuir para a identificação de necessidades para melhor desenhar as estratégias de prevenção específicas para esta população. O Plano Nacional para a Redução dos Comportamentos Aditivos e das Dependências 2013-2020 refere que a
9 intervenção preventiva deve ocorrer antes do início de uma doença diagnosticável, tendo como objetivo a diminuição do risco de essa doença surgir. Em síntese, uma boa delineação de necessidades permite-nos adequar as estratégias de intervenção à medida dos problemas e dos intervenientes (PNRCAD, 2013-2020). 1.2. O álcool O álcool é uma substância alteradora, uma droga. Segundo a OMS (1969), uma droga é qualquer substância que, se introduzida num organismo vivo, pode modificar as suas funções, é capaz de gerar dependência, impulso para a consumir de forma continuada na procura de sentir os seus efeitos ou diminuir o desconforto da sua ausência. Além dos efeitos farmacológicos, os efeitos produzidos por cada droga vão depender da condição da pessoa que a usa, do momento e da forma como a usa, dos seus objetivos ou expetativas. Os efeitos do seu consumo vão estar sempre dependentes das características particulares de cada droga, das características individuais de cada consumidor e do meio ambiente em que o consumo acontece (Gálligo, 2006). No que diz respeito ao álcool, os seus efeitos vão depender da idade, peso, sexo, massa corporal, quantidade e velocidade da ingestão, dos alimentos que acompanham a bebida, da combinação com outras bebidas carbonatadas como a Coca-Cola e a água tónica e da sua combinação com outras drogas, sejam legais ou ilegais. O álcool é uma droga traiçoeira ou enganadora pois promete desinibir e contribuir para a euforia e festa, confundindo-se com uma substância estimulante; no entanto é uma substância depressora do Sistema Nervoso Central que, despercebidamente, inibe as funções cerebrais, afetando a capacidade de autocontrolo. O principal componente das bebidas alcoólicas é o etanol ou álcool etílico, a sua concentração varia nas diferentes bebidas, dependendo do seu processo de produção. “O etanol (C2H5OH, alcohol etílico) é um dos compostos … o principal componente psicoativo das bebidas alcoólicas” (OMS, 1994, citado por Ahumada-Cortez, Gámez-Medina, & Valdez-Montero, 2017, p. 14). O Etanol é um líquido sem cor e inflamável e facilmente solúvel em água e misturável em clorofórmio e éter (Ahumada-Cortez et al., 2017). Estas bebidas podem ser produzidas de duas formas: fermentação e destilação. As primeiras são de origem natural, como por exemplo sidra, vinho e cerveja, produzidas através da fermentação de alguns alimentos (frutas e cereais). A sua graduação alcoólica pode variar entre 1, 2 e 14 graus. As segundas são produzidas por um processo de destilação “…operação que
10 consiste em vaporizar parcialmente um líquido e em condensar os vapores formados para os separar” (Ahumada-Cortez et al., 2017, p. 14). Apresentam-se sob a forma de licores com maior conteúdo alcoólico. Estes podem resultar em produtos fermentados através da maceração em álcool etílico ou pela adição de aromas, açúcares ou outros produtos adoçantes ao álcool etílico ou destilados, ou ainda, misturas entre si ou com outras bebidas, para obter maiores concentrações de álcool A graduação alcoólica neste tipo de bebidas é superior a 15 graus, podendo ir até 45 graus ou mais. É o caso por exemplo da aguardente, vodka, whisky, rum, gim ou tequila. A graduação de uma bebida indica, aproximadamente, o volume de álcool etílico que esta contém. “Destinados a bebidas alcoólicas de diversas graduações, os copos habitualmente usados para as diferentes bebidas têm idêntica quantidade de álcool, isto é, 12 a 16 gramas de álcool puro, aproximadamente” (Mello et al., 2001, p. 19). Contrariamente ao mito de que “o álcool alimenta”, 1 grama de álcool oferece ao nosso organismo 7,1 calorias sem valor nutritivo (Álvarez, 2001, citado por Ahumada-Cortez et al., 2017, p.14). Ao entrar no organismo, é rapidamente absorvido pelo estômago e pelo intestino delgado, entrando na corrente sanguínea e aí pode manter-se 18 horas, sendo depois suprimido pelo fígado, podendo a sua presença provocar consequências físicas prejudicando o funcionamento do fígado e do cérebro severamente (site SICAD, 2019). 1.2.1. Da experiência à dependência Segundo Mello, Barrias e Breda (2001), em Portugal, tal como noutros países, as formas de beber tradicionais têm vindo a mudar: aumenta o consumo de cerveja; as mulheres e os jovens consomem mais bebidas com álcool, presenciamos mais vezes quadros de policonsumo, principalmente entre os jovens; cresceu o consumo de bebidas destiladas mais fortemente alcoolizadas como, por exemplo: aperitivos, whisky, licores e cocktails; os hábitos de beber internacionalizaram-se e uniformizaram-se; surgem os “alcopops”: junção de sumos com álcool, redbull com vodka, shots (Mello, Barrias, & Breda. 2001). Com esta realidade, os convites à experimentação são muitos, torna-se difícil escolher a abstinência e é fácil normalizar os consumos desta substância ou, pelo menos, a experiência. Como consumo experimental, consideramos as primeiras vezes que a pessoa consome bebidas alcoólicas. Este termo refere-se a consumos “extremamente infrequentes e inconstantes, a partir
11 daqui a pessoa toma a decisão de repetir ou não” (Ahumada-Cortez, Gámez-Medina, & ValdezMontero, 2017, p. 14). A outra opção é o consumo ocasional, em que a pessoa decide beber ocasionalmente, de forma não intensa e não regular. Numa escalada para o consumo de risco, temos outro modo de beber, é o consumo habitual ou frequente na procura de voltar a sentir os seus efeitos. Por último, o consumo compulsivo em que a pessoa começa a organizar a sua vida em torno da substância alteradora e continua a consumir apesar das consequências vividas. A pessoa passa a estar dependente. Becoña e Martín (2004) falam-nos de diferentes fases na relação da pessoa com uma substância psicoativa: fase pré-disposição, fase de conhecimento, fase experimental e início do consumo, fase de consolidação, fase em que abandona (ou mantém o consumo) e fase de recaída (Becoña & Martín, 2004). Em relação ao álcool, e nos últimos anos, presenciamos novas formas de consumo, o consumo de fim de semana, que acontece, principalmente, nos grupos mais jovens (Clafat, 2002, citado por Precioso, Dias, Correia, Sousa, & Samorinha, 2014) e o consumo esporádico excessivo, o chamado “binge drinking” (Precioso et al., 2014). Hoje, já não se fala de um problema de dependência de álcool nem de alcoolismo, mas sim de todos os problemas ligados ao álcool associados a estas diferentes formas de consumo, cada uma delas com as suas consequências. Existe, assim, uma preocupação com a redução dos problemas ligados ao álcool, e não apenas com o tratamento de alcoolismo tradicional, como podemos ver com a integração destes problemas na Estrutura de Coordenação criada pelo Decreto-Lei n.º 1/2003, de 6 de janeiro, e reformulada pelo Decreto-Lei n.º 40/2010, de 28 de abril que foi muito importante para a política de redução dos problemas ligados ao uso nocivo do álcool, e na criação de organismos com competências para avaliar e desenvolver estratégias para a diminuição dos problemas ligados ao consumo nocivo de álcool (PNRCAD 2013-2020, 2013). 1.3. O consumo de bebidas alcoólicas em Portugal De acordo com um estudo apresentado por Rui Nogueira, presidente da Associação Portuguesa de Médicos Clínica Geral, no no VII Congresso/XXVI Jornadas da Sociedade Portuguesa de
12 Alcoologia, 2018, citando World Health Organization Global Status Report on Alcohol and Health (2014), o consumo anual de álcool per capita em indivíduos com idade superior a 15 anos é, na Região Europeia, 10,9 litros de álcool puro, a média mundial é de 6,2 e a média em Portugal é de 12,9 (dados apontados por Rui Nogueira, , Segundo o Dossier temático “Padrões de Consumo e Problemas Ligados ao álcool, uma análise regional”, publicado pelo SICAD, os dados mais recentes (referentes aos anos 2016/2017, revelam que “em todas as regiões do país a percentagem de inquiridos que consumiram pelo menos uma bebida alcoólica ao longo da vida é bastante elevada” (Guerreiro, Calado, & Ferreira, 2018, p. 23). Destaca-se, neste documento, o Algarve como a região com a maior prevalência de experimentação de álcool (91%) e com maior prevalência de consumo recente (12 meses) de 73% e atual (30 dias) de 63%. Por seu turno, o Alentejo apresenta a menor prevalência de experimentação de álcool (78%). Ainda a referir que, na prevalência de consumo recente (12 meses) e atual (30 dias), a Área Metropolitana de Lisboa apresenta, respetivamente, 67% e 57% e a Região Autónoma dos Açores apresenta 63% e 55%. Pelo contrário, “a região Norte destaca‐se por um menor nível de consumo recente e atual de álcool (51% e 42%)”, com prevalências abaixo da média nacional (58% e 49%)” (Guerreiro et al., 2018, p. 23). O IV Inquérito Nacional ao Consumo de Substâncias Psicoativas na População Geral, Portugal, (Balsa, Vital, & Urbano, 2018) sublinha que o álcool é a substância com maior prevalência de consumo em Portugal. Entre 2012 e 2016/17 registou-se um aumento do consumo de bebidas alcoólicas ao longo da vida, atingindo os 85,2%. Destes, 31,6% consome ocasionalmente. A prevalência de consumo é mais elevada entre homens, principalmente no que se refere ao consumo diário nos últimos 30 dias. A frequência de consumo nos últimos 12 meses varia em função do tipo de bebida alcoólica. O vinho é a bebida alcoólica mais consumida, 27% consomem-no diariamente e 22% bebeu pelo menos uma vez por semana nos últimos 12 meses. A cerveja, considerada a segunda bebida alcoólica mais consumida, 12,4% bebem-na diariamente e 25,7% ingerem-a semanalmente. 3% dos consumidores dos últimos 12 meses consomem diariamente bebidas espirituosas e 5,9% bebe semanalmente. O consumo de bebidas misturadas acontece esporadicamente. A casa ou espaços de restauração e/ou diversão são os lugares mais escolhidos para beber. Os motivos que levam estes inquiridos a beber são o prazer provocado pelo sabor da bebida, sociabilidade, designadamente tornar as festas, comemorações e encontros sociais mais divertidos e o gosto pelo efeito produzido pela bebida alcoólica. Uma em cada dez pessoas da população geral indica ter praticado consumo binge nos últimos 12
13 meses. Se falarmos dos mais novos, com idades entre 15-24 e 25-34 anos, 20% ou mais dos consumidores indica ter praticado um consumo binge pelo menos uma vez nos últimos 12 meses (Balsa et al., 2018). Quando falamos do álcool, falamos de uma longa história. Presente em inúmeras civilizações, ele está ligado quer a rituais religiosos, quer a rituais de celebração de natureza secular (IDT, 2011). Foi sempre usado com base em crenças, em perceções que foram mudando ao longo dos anos. Era o alimento dado às crianças para melhorarem o rendimento escolar e à mulher que amamentava para produzir mais leite e alimentar o bebé; servia ainda para aquecer no inverno, tratar o coração, desinfetar ferimentos, melhorar o desempenho sexual e reprodutor, bem como para facilitar a digestão e gerar uma sensação de bem-estar após uma refeição exagerada. Acreditava-se também que dava a força necessária ao desempenho de trabalhos pesados. Em tempos, o consumo de vinho foi também um índice de masculinidade, funcionando como um ritual de passagem à idade adulta. Como nos refere o Plano Nacional para a Redução dos Problemas Ligados ao Álcool 20102012, os europeus consumiam bebidas como o vinho e a cerveja, produzido por fermentação, até à Idade Média. No entanto, estas bebidas apresentavam um teor alcoólico relativamente baixo. Mas os Árabes introduziram o processo de destilação, o que levou à produção de bebidas com maior teor alcoólico. A partir do século XVI, observamos um desenvolvimento das tecnologias de produção e conservação, tornando as bebidas alcoólicas um produto importante no comércio. Num ciclo vicioso, a oferta de bebidas cada vez mais aperfeiçoadas e variadas leva a um maior interesse e procura, este aumento da procura leva ao aumento da oferta, ao aperfeiçoamento das técnicas de produção e à publicidade. A partir do século XIX, o consumo é generalizado, acompanhando o aumento da oferta (IDT, 2011). Assim, o álcool, ao longo dos anos, vai adquirindo cada vez mais significado, associado a celebrações, rituais, momentos de prazer, momentos sociais, desinibição e festa. Por outro lado, tornou-se uma fonte de grande valor comercial. De acordo com Joel Cleto, Arqueólogo, Historiador e divulgador da História e Património, presente no VIII Congresso, XXVI Jornadas da SPA, Alcoologia, Quo Vadis?, organizado pela Sociedade Portuguesa de Alcoologia (2018), foram encontrados no Porto fragmentos de ânforas que levam a pensar na presença de bebidas alcoólicas em Portugal no tempo dos Brácaros. Além disso, descobriram-se propriedades com provas de cultivo de vinho na época romana. Também existem vários documentos da idade média que registam
20 Estes dados levam-nos a olhar atentamente para os jovens à medida que a idade aumenta, particularmente para a idade correspondente à saída da escola secundária (ensino obrigatório), momento em que, ou ingressam no mundo laboral ou no ensino Universitário, ao mesmo tempo que a lei deixa de os proteger. A prevalência de comportamentos de risco para a saúde, comportamentos que comprometem o desenho e luta por projeto de vida (consumo de substâncias alteradoras, acidentes rodoviários, uma gravidez não desejada e/ou uma interrupção voluntária da gravidez, contração de doenças sexualmente transmissíveis) tem vindo a aumentar principalmente nos jovens adultos, sendo hoje considerado um problema de Saúde Pública e, em consequência, foco privilegiado de investigação (UNAIDS, 2016; WHO, 2011, citado por Reis, Gaspar de Matos & Equipa Aventura Social, 2017, p. 26). Neste momento, a preocupação relacionada com o uso desta substância lícita, de fácil acesso, não está apenas focada nos grupos considerados vulneráveis. As origens socioculturais parecem já não ser os fatores mais inquietantes no momento de avaliar a necessidade de intervenção/prevenção, mas sim os diferentes momentos de vida e contextos em que o indivíduo se vai inserindo. Como refere Martín, Tamames, Fragüela, López e Pereiro (1999), os primeiros resultados da investigação associavam o tipo de substância consumida ao estatuto socioeconómico, mostrando que as classes sociais de baixas condições económicas usavam mais o álcool e as classes altas procuravam drogas ilegais de mais difícil acesso e aquisição (Luengo, Mirón, & Otero, 1991, citado por Martín, Tamames, Fragüela, López, & Pereiro, 1999). Estes primeiros estudos também mostravam diferença do tipo e padrão de consumo entre a população da área urbana e rural. Os mesmos autores acrescentam ainda que, nos últimos anos, estes fatores mostram pouca relação com os padrões de consumo (Bachman, Lloyd, & O’Malley, 1981; Friedman et al., 1998; citados por Martín et al., 1999). Quanto a Portugal, segundo o Dossier Temático: Padrões de Consumo e Problemas Ligados ao Álcool. Uma Análise Regional (Guerreiro, Calado, & Ferreira, 2018), verificam-se algumas diferenças entre as regiões quando falamos do uso de bebidas alcoólicas, consumos nocivos e identificação de problemas ligados ao álcool. Embora este documento revele grandes variações entre regiões quando estuda a população mais velha e “uma certa homogeneização nas prevalências de consumo de bebidas alcoólicas entre os jovens portugueses, independentemente da região onde vivem” (Guerreiro et al., 2018, p. 10), quando estudados os comportamentos nocivos como prevalência e frequência de binge e de embriaguez, já verificamos “variabilidade regional”. Assim como, as discrepâncias entre homens e mulheres também variam entre
21 regiões. No entanto, em todas as regiões estas diferenças são mais observadas na população mais velha do que junto dos mais jovens. Os fatores macrossociais que mais têm preocupado os decisores passam pela permissividade, aceitação social, acessibilidade, publicidade direta ou indireta, “independentemente da região onde vivem, de forma a que os efeitos de modelamento favoreçam o consumo nos adolescentes” (Martín et al., 1999, p. 17). Nos últimos anos, a atenção de quem se preocupa com esta problemática está, também, centrada nos fatores “microssociais”, tendo uma relação muito próxima com a formação do indivíduo, influenciando a sua socialização e desenvolvimento de competências de relação com o próprio e com o outro. Os contextos que frequenta e as formas de ocupação do tempo livre merecem destaque. Em particular, preocupam cada vez mais os diferentes momentos de transição de ciclo evolutivo e de ciclo escolar, momentos em que o indivíduo enfrenta grandes mudanças, em que se encontra a testar a capacidade de se autocontrolar, em que sente necessidade de se inserir no grupo, que procura ser apreciado e de viver o sentimento de pertença ao grupo dos iguais. Como escrevem Cordeiro, Baptista & Costa (2018), “…forças centrípetas que “puxam” os jovens para o interior do grupo, transformando-o num “porto de abrigo”, num “ancoradouro”, onde amarram as suas vidas… configurando um certo estilo de vida e uma certa visão do mundo, que servem de suporte emocional e cultural a uma identidade individual e coletiva que extravasa o próprio grupo” (Cordeiro, Baptista, & Costa, 2018, pp. 143-155). O uso de drogas e, em particular o álcool, pode representar um contributo para ajudar o jovem a sentir uma certa avaliação positiva, sentir-se reconhecido no seu círculo social, permitir-lhe mais diversão e contribuir para a sua integração no grupo de pessoas "ousadas" tantas vezes ambicionado. Ao usar o alterador está, também, a assumir uma cultura que lhe proporciona identidade: formas de vestir, lugares de encontro e diversão, música, linguagem, interesses, etc. Os olhares preocupados direcionam-se neste momento, também em Portugal, para o padrão de consumo já referido: o binge drinking. No seu estudo, a enfermeira Lídia Moutinho (2018) constatou uma percentagem de 61,2% de binge drinkers entre jovens. Segundo a autora, estes resultados são superiores a outras investigações realizadas em território nacional, conforme demonstra com alguns exemplos: o estudo de Alcântara da Silva (2015), com 39,30 % dos inquiridos com idades compreendidas entre os 20 e os 22 anos, com episódios de binge drinking nos últimos 30 dias; o III Inquérito Nacional de Saúde (Balsa, 2014), onde 30,10% da população
22 consumidora com idades compreendidas entre os 15 e os 24 anos refere episódios de binge drinking; a investigação realizada por Carapinha (2014) em Portugal, em estudantes com idades compreendidas entre os 10 e os 24 anos, em que se verifica que 69% dos participantes apresenta binge drinking (Moutinho, 2018). Com este trabalho surge perante uma nova preocupação: os estudantes universitários (Almeida, Pérez-Fuentes, Casanova, Linares, & Molero, 2018). Pretendemos um olhar junto dos jovens em fase de transição para o ensino superior, fase em que saem de casa dos pais pela primeira vez, em que se veem obrigados a tomar decisões, a assumir responsabilidades novas… e, ao mesmo tempo, sem leis que os impeçam de comprar ou beber. Enfim, são jovens com 18 anos ou mais, num momento em que, paralelamente, enfrentam dois processos de adaptação: a mudança de ciclo escolar, com o ingresso no Ensino Superior, bastente diferente do ciclo anterior, o secundário, e as transformações da passagem de jovem a adulto, como aponta Polydoro, 2000 (citado por Porto & Soares, 2017). Neste quadro, vários foram os estudos já realizados junto destes jovens e destacamos, de seguida, alguns centrados nos jovens universitários portugueses. O estudo dos comportamentos de saúde dos jovens Universitários Portugueses, com dados nacionais relativos a 2016, realizado pela equipa Aventura Social junto de 2991 jovens frequentadores do Ensino Superior, faz um levantamento dos diferentes comportamentos de risco para a saúde. No que se refere ao consumo de bebidas alcoólicas, 44,2% menciona já ter experimentado álcool, e 38,3% já ter experimentado a primeira embriaguez. Destes, 94,9% diz ter tido a primeira embriaguez com 14 anos ou mais, 4,1% entre os 12 e os 13 e 1% com 11 anos ou menos. Dos jovens que referem já ter experimentado bebidas alcoólicas, 76,9 experimentaram depois dos 14 anos, 17,5% entre os 12 e os 13 anos, e 5,7 com 11 ou menos anos. Dos jovens universitários inquiridos que mencionaram ter consumido álcool nos últimos 30 dias, 14,2% fizeram-no 10 ou mais vezes, 46,4% co Shots todos os dias 0,1%nsumiram entre 3 a 9 vezes e 39,4% 1 ou 2 vezes. Dos jovens que mencionaram ter-se embriagado nos últimos 30 dias, 2,6% viveram 10 ou mais episódios de embriaguez, 26% entre 3 e 9 vezes, 71,4% embriagaram-se 1 ou 2 vezes nos 30 dias. 55,8% dos jovens refere que nunca consome bebidas alcoólicas. 32,0% refere beber em ocasiões especiais. Quando questionados sobre o tipo de bebidas e com que frequência as consomem, podemos ver os seguintes resultados: vinho todos os dias: 0,7%, todas as semanas/meses: 18,2%, raramente ou nunca: 81,1%. Passando à cerveja, todos os dias 0,4%, todas as semanas/meses: 21,4%, raramente ou nunca: 78,2%. Quanto às
23 bebidas destiladas, todos os dias: 0,1%, todas as semanas/meses: 13,2%, raramente ou nunca: 86,7%. No que diz respeito aos Shots, todos os dias: 0,1%, todas as semanas/meses: 7,3%, raramente ou nunca: 92,6%. No domínio das bebidas energéticas com álcool, todos os dias 0%, todas as semanas/meses: 3,1%, raramente ou nunca: 96,9%. Em relação aos alcopop, todos os dias: 0%, todas as semanas/meses: 2,4%, raramente ou nunca: 97,6%. Sobre o uso de bebidas alcoólicas em festas académicas, 55,8% refere que nunca consome álcool. Nestas ocasiões, 24,7% menciona beber o mesmo que noutro tipo de festas, 12,6% diz que bebe mais nestas festas do que noutro tipo de festas e 6,9% diz que não vai a festas académicas. Dos 55,8%, jovens que referem consumir álcool nas festas académicas, 55,8% diz que bebe o mesmo que noutro tipo de festas, 28,5% diz que bebe mais do que noutro tipo de festas. Quanto ao número de bebidas com álcool ingeridas por dia, 55,8% refere que não tem consumo diário, 39,8% diz consumir 1 bebida ou menos por dia, 3,9% consome 2-4 bebidas e 0,5% bebe 5 vezes ao dia. Dos jovens que mencionam beber álcool diariamente, 90,1% diz consumir 1 bebida ou menos; 8,8% bebe 2-4 bebidas e 1,1% bebe 5 bebidas ou mais (Reis, Gaspar de Matos, & Equipa Aventura Social, 2017, p. 43). No estudo de Anabela Cunha Rocha sobre o Bullying e o consumo de bebidas alcoólicas entre estudantes da Universidade do Minho, envolvendo 452 inquiridos com idades entre os 21 e os 28 anos, realizado no contexto do marketing social, refere-se que os jovens universitários planeiam a quantidade de álcool que bebem principalmente em festas como o Enterro da Gata, Receção ao Caloiro e jantares de curso; os alunos sabem que, nesses jantares, a bebida alcoólica está incluída no preço do jantar e por essa razão bebem mais. Os alunos entrevistados neste estudo consideram que o “ato de beber é visto como normal e rotineiro entre os estudantes” (Rocha, 2014, p. 51). 25% afirmou não beber bebidas alcoólicas, sendo que a restante maioria de 75% já afirmou ter este hábito de consumo. Quanto às principais razões que levam ao consumo de álcool, sublinha-se o prazer e a diversão, com um grau de concordância de 72,7% e 77,7%, respetivamente. Alguns estudantes referem também o gosto pelo sabor das bebidas e o facto de elas ajudarem a perder a vergonha e a diminuir o stress. Comparando o consumo de bebidas alcoólicas antes e depois da entrada na universidade, verifica-se que 19% afirmaram nunca terem bebido antes de entrar na universidade. Quanto à regularidade do consumo, também vemos alterações entre o período em que frequentam a universidade e o período precedente: o padrão de consumo: 2 a 4 vezes por semana de 6,8% passa para 16%; os consumos de 4 ou mais vezes por semana, de 1,2% passa para 3,9%. A entrada na universidade
24 proporciona, assim, condições para um aumento do consumo de bebidas alcoolicas. Quanto aos motivos que levaram a aumentar o consumo depois da entrada na universidade, os jovens consideram como mais influentes o aumento do número de saídas, o ambiente da universidade, sendo as suas opiniões muito variadas em relação aos outros motivos apresentados no estudo e acrescentando que, nessa fase da sua vida, começaram a apreciar mais a bebida e o facto de não conduzirem durante o período de aulas facilita o consumo. Alguns estudantes inquiridos acrescentaram que a independência económica (gestão da mesada dos pais ou bolsa de estudo) e as praxes, (os doutores influenciam os caloiros a beber), são fortes contributos para o aumento de consumo à entrada na universidade. A autora do estudo, Anabela Rocha, reforça a ideia percebida que o aumento do consumo de álcool se verifica em maior escala nos dias das festas académicas, como Enterro da Gata e Receção ao Caloiro e jantares de curso, referindo que este facto pode estar relacionado com a imagem que os alunos têm das festas académicas, uma vez que, na afirmação "festas sem consumo de álcool não são tão divertidas", 48% dos alunos concordaram com a afirmação e 31% discordaram (20% não concordaram nem discordaram), concluindo a autora, que os alunos associam o álcool ao divertimento. Ao mesmo tempo, 30,6% dos inquiridos concordam com a afirmação: "ver os amigos/colegas a beber leva-me a beber também”; 43,3% concorda que "quando um amigo me oferece uma bebida alcoólica sinto-me influenciado a beber" contra 35% que não concorda; e 83,6% concorda que a disponibilidade de uma bebida alcoólica gratuita numa festa académica encoraja os alunos a beberem (Rocha, 2014). No Estudo “Álcool e substâncias psicoativas no estudante universitário”, realizado junto de estudantes da Universidade de Aveiro, a autora Alexandra Rocha, recorreu ao teste AUDIT para averiguar os consumos de álcool pelos estudantes universitários. Verificou que 84.0% dos estudantes universitários manifestam um consumo de álcool de baixo risco, 15.3% revelam um consumo nocivo de álcool e 0.8% apresentam uma dependência relativamente ao álcool. Observou que 89.1% dos casos de consumo de baixo risco são do sexo feminino e 23.7% do sexo masculino. No que se refere à dependência em relação ao álcool, a percentagem de casos é maior para o sexo masculino (1.1%). Quanto à residência, o estudo demonstrou que os estudantes que vivem na residência familiar apresentam uma maior percentagem de consumos de álcool de baixo risco (88.4%), enquanto os estudantes em residência não habitual apresentam consumos nocivos mais elevados (25.5%) (Rocha, 2011).
25 O Estudo sobre “Comportamentos de risco em jovens Universitários: consumo de substâncias Psicoativas”, realizado na Universidade de Coimbra, constatou que 56,5% dos estudantes consome bebidas alcoólicas. Os estudantes optam, mais frequentemente, por consumir “Só em ocasiões especiais” (31,6%), seguido de 22,1% que mais frequentemente optam pelo consumo aos fins de semana e 2,3% com consumo de forma habitual. A autora deste estudo procurou saber as quantidades consumidas de bebidas alcoólicas durante a semana, relativamente ao consumo de taças de vinho, de cerveja e de bebidas destiladas (Vodka, Gin, Whisky, entre outros). Destaca o consumo médio de cerveja numa semana, cuja média foi de 4,75%, seguida do consumo de bebidas destiladas, com uma média semanal de 2,38%, sendo que o vinho obteve a menor média de consumo por semana, isto é, 0,97 (Araújo, 2015). Por último, convidamos a olhar o estudo “Consumos e Estilos de Vida no Ensino Superior: o caso dos estudantes da ULisboa - 2012” (Borrego, Melo, Rowland, & Truninger, 2015). Segundo este estudo 97.5% dos inquiridos já consumiu pelo menos uma vez na vida e que 72.6% o fizeram-no nos últimos 30 dias. Quanto aos consumos de álcool nos últimos 30 dias, destaca-se a cerveja (47.8%), seguindo-se as espirituosas (45.9%) e o vinho (42.7%). O comportamento de consumo de tipo binge drinking surgiu com 37% e a prevalência de estados de embriaguez com 9.4%. Predominam os respondentes do sexo masculino no grupo de consumidores (80.9%), em comparação com o sexo feminino (68.6%). Observou-se que os estudantes que habitam com a família de origem representam o maior grupo de não consumidores (30.5%). 80.4% dos consumidores residem fora do núcleo familiar. Ir a bares/discotecas ou receber/visitar amigos aumenta a probabilidade de integrar o grupo dos consumidores. Quanto ao comportamento de binge drinking observou-se que 37% dos respondentes declaram este tipo de consumo nos últimos 30 dias. Quanto à distribuição por sexo, verifica-se que 48.5% dos respondentes são do sexo masculino e 31.5% do sexo feminino declararam o binge drinking nos últimos 30 dias. Encontra-se maior valor percentual de declaração de comportamentos de binge drinking no grupo de estudantes que vivem autónomos do núcleo familiar (53.1%). Quanto a situações de embriaguez, verifica-se uma relação significativa entre a situação de não estar deslocado e a ausência de estados de embriaguez dos estudantes que não se deslocaram. Concluiu-se, ainda, que um estudante terá mais possibilidades de experimentar um estado de embriaguez, quando pertence ao sexo masculino e frequenta determinadas atividades de convívio, nomeadamente ir a bares/discotecas,
26 receber/visitar amigos, ir a concertos de música ao vivo, ou assistir a espetáculos desportivos, diminuindo esta probabilidade se vive com a família (Alcântara da Silva et al., 2015). Podemos retirar destes estudos que a região onde o jovem vive parece não ser muito significativa quando observamos a prevalência de consumo nos jovens. Os diferentes momentos de transição de ciclo evolutivo e de ciclo escolar são hoje uma preocupação por serem momentos em que o indivíduo enfrenta grandes mudanças, em que se encontra a testar a capacidade de se autocontrolar. O momento de transição para o Ensino Superior torna-se central nestas preocupações pelas suas características especificas. Por outro lado, nos diferentes estudos observa-se um elevado número de jovens que consome bebidas alcoólicas em período de frequência universitária. No entanto, os diferentes estudos chamam-nos a atenção para um elevado numero de jovens cuja sua 1º experiencia acontece antes da entrada na universidade, sublinhando-se os 14 anos de idade como idade de inicio de consumo para um elevado numero de jovens. Quando observamos os jovens, é o padrão de consumo binge drinking que mais preocupa por ser muito frequente e por colocar o jovem numa situação de grande fragilidade. Quanto à residência onde o estudante universitário habita durante o período de aulas, os estudos demonstram que os estudantes que vivem na residência familiar apresentam uma maior percentagem de consumos de álcool de baixo risco, contrapondo-se aos estudantes que se mantêm na residência não habitual que apresentam consumos nocivos mais elevados. 1.4. Problemas ligados ao álcool A OMS designa como Problemas ligados ao álcool, “as consequências nocivas do consumo de álcool”. Estas consequências atingem não só o bebedor, mas também a família e a coletividade em geral. As perturbações causadas podem ser físicas, mentais ou sociais e resultam de episódios agudos, de um consumo excessivo ou inoportuno, ou de um consumo prolongado" (Mello, Barrias, & Breda. 2001, p. 16). O consumo de bebidas alcoólicas é um dos fatores que mais contribui para a mortalidade e para a morbilidade em todo o mundo (Rehm, 2009; Shield, 2013; OMS, 2014 citado por Compañó, Sordo, Bosque-Prous, Puigcorbé, Bárrio, Brugal, Belza, & Espel, 2019). Segundo a OMS, 2000, o álcool foi responsável por 4,0% das doenças, sendo por isso praticamente tão perigoso como o tabaco, responsável por 4,1 das enfermidades. Nos países desenvolvidos, 9,2% dos anos de vida alterados em função de incapacidade são atribuíveis ao
27 álcool. Falamos de incapacidades associadas a distúrbios neuropsiquiátricos: dependência, psicose ou depressão e acidentes diversos seja na estrada, em casa ou no trabalho. É o álcool o fator que mais contribui para a existência de doenças, lesões e invalidez prematura. Estima-se que, em todo o mundo, o consumo de álcool tenha provocado 1.8 milhões de mortes, ou seja, 3,2% das mortes que se registaram em 2000 (OMS, 2005). Considera-se consumo de risco quando o padrão de consumo leva a pessoa a sofrer danos ou a provocar danos em quem está à sua volta, quando o consumo persiste e “…aumenta a probabilidade de sofrer doenças, acidentes, lesões, transtornos mentais ou de comportamento” (PNRPLA 2010-2012, IDT, 2011, p. 10). Três são os elementos a ter em conta para avaliar o hábito de consumo: a quantidade de bebidas alcoólicas ao longo do ano, a quantidade consumida numa só ocasião e o contexto e circunstâncias em que bebe (OMS, 2005). Quando falamos de jovens, não podemos deixar de nos centrar no binge drinking, também considerado consumo de risco, aquele que acontece num curto espaço de tempo, esporadicamente, mas excessivo, “consumo que excede 5 a 6 bebidas no homem e 4 a 5 bebidas na mulher, numa só ocasião e num espaço de tempo limitado, estando associado a uma maior probabilidade de sofrer consequências adversas” (PNRPLA 2010-2012, IDT 2011, p. 11). Falamos em binge drinking quando, pelo menos numa ocasião nos últimos 30 dias, a pessoa consumiu 60 gramas ou mais de puro álcool (CNAPA, 2014, citado por Compañó, Sordo, Bosque-Prous, Puigcorbé, Barrio, Brugal, Belza, & Espel, 2019). O binge drinking está associado a vários comportamentos de risco, seja na condução, no uso de violência, práticas sexuais e em outros acidentes (CNAPA, 2014; Font-Ribera, 2013; Kuntsche, 2013 citado por Compañó et al., 2019). Importa também diferenciar dois conceitos: o consumo nocivo e a dependência, pois muitas vezes encontramos os jovens a minimizar os riscos dos seus consumos com o argumento de que não são nem ficarão dependentes. Assim, importa referir que não é só no estado de dependência que o álcool se torna nocivo, ou seja, danoso, prejudicial à saúde. Os problemas de saúde pública associados ao consumo de bebidas com álcool foram tomando dimensões preocupantes, tornando-se um dos mais importantes riscos sanitários em todo o mundo (OMS, 2005). O consumo nocivo acontece quando o indivíduo consome de forma a sofrer danos físicos e/ou mentais e não tem que ser, necessariamente, dependência.
28 Consideramos dependência quando o consumidor apresenta um conjunto de sintomas comportamentais, fisiológicos e cognitivos que mostram que tem dificuldades em controlar o consumo, continuando sem cessar, mesmo vivendo as consequências. Falamos de uma doença crónica progressiva caracterizada por uma “…dificuldade permanente ou temporária em controlar o consumo, independentemente das consequências adversas e pelas distorções cognitivas, com particular ênfase para a negação” (McQueen, 2004, citado em PNRPLA 20102012, IDT 2011, p. 11). Nos últimos anos, em Portugal, como em muitos outros países, vemos uma mudança no olhar sobre o consumo de bebidas com teor alcoólico: do olhar focado nos benefícios económicos e sociais, passamos a observar, cada vez com mais atenção, os problemas de saúde e sociais provocados, com prejuízos, também económicos, para a sociedade e para o país. Começamos a estar atentos e preocupados com o consumo nocivo e os seus efeitos adversos, “…consequências negativas deste tipo de consumo são elevadíssimas e têm conduzido a uma crescente preocupação, não só da Organização Mundial de Saúde, mas de vários organismos da União Europeia” (PNRPLA 2010-2012, IDT 2011). Hoje sabemos que o consumo abusivo desta substância não afeta apenas a saúde física do consumidor, mas também, a sua saúde mental, o meio com que se relaciona: a sua escola, o seu local de trabalho, o seu meio social, a sua família. Num ciclo que tem que ser parado, aumentam as famílias com modelos de consumo, por consequência, aumentam as famílias com práticas parentais incoerentes e pouco saudáveis, o que, por sua vez, pode levar a reproduzir os comportamentos. Com a identificação destes problemas ligados ao consumo de bebidas com álcool, vemos a preocupação tanto a nível nacional como europeu e não só. Esta preocupação reflete-se em várias medidas, entre as quais a criação, pela Comissão Europeia em 2006 de “uma estratégia para apoiar os Estados-Membros na minimização dos efeitos nocivos do álcool” (PNRPLA 2010-2012, IDT, 2011). Portugal institui o Plano de Ação Contra o Alcoolismo (Resolução do Conselho de Ministros n.º 166/2000 de 29 novembro, citado por PNRPLA 2010-2012, IDT, 2011, p. 7), criando estratégias adaptadas às particularidades da população portuguesa. Com o Plano Nacional para a Redução dos Problemas Ligados ao Álcool (PNRPLA 2010-2012, IDT, 2011) operacionaliza estas estratégias definidas. Estes são alguns dos instrumentos criados para combater os efeitos nefastos que o alcoolismo tem a vários níveis.
29 1.4.1. Efeitos imediatos no consumo Segundo o site do SICAD num momento inicial, o consumidor experiencia a sensação de euforia e de desinibição, seguido de um estado de sonolência, instabilidade no estado de humor, descoordenação motora, fadiga e redução da força muscular, diminuição da capacidade de atenção, escuta e compreensão, entorpecimento, dores de cabeça, visão turba, o que torna a reação lenta, colocando o indivíduo numa situação desprotegida perante vários perigos. No mesmo site (SICAD), lemos ainda que o álcool atua como bloqueador do funcionamento do sistema cerebral, que é o órgão responsável pelo controlo das inibições. Estas têm como função contribuir para o autocontrolo, para a avaliação e tomada de decisões. Ao serem diminuídas, levam a que o indivíduo se sinta eufórico, alegre e com uma falsa segurança em si mesmo, tornando-se menos capaz de tomar decisões e adotar comportamentos corretos e benéficos para si. Assim, surgem diversos comportamentos de risco que o colocam em perigo, como o caso dos acidentes rodoviários, acidentes de trabalho, acidentes no domicílio e outros. Associado a este estado surge também, o envolvimento em relações sexuais não protegidas, com exposição a doenças sexualmente transmissíveis, a gravidez não desejada e, por consequência, ao aborto (OMS, 2005). No jovem, este estado diminui-lhe a capacidade de tomada de decisões e, por outro lado, reduz as suas capacidades financeiras, o que pode levá-lo a cometer crimes mais ou menos graves. Como é possível observar em histórias de vida de utentes em tratamento com policonsumos, o estado de alteração provocado pelo consumo de álcool facilita, muitas vezes, a experimentação de outras drogas que, quando associadas ao uso de álcool, aumentam os seus riscos (SICAD, 2019). Com estas opções, muitas vezes contrárias aos seus princípios de educação promovidos no seu meio familiar e social anterior, o jovem (e também o adulto) pode vir a vivenciar sentimentos de culpa, medo e vergonha, sentimentos que os poderão levar a envolver-se em ciclos de mentiras, solidão e medos. 1.4.2. Efeitos do Consumo excessivo Devido ao excessivo consumo de álcool (elevada quantidade ingerida num só momento), como no caso de “binge drinking”, pode produzir-se acidez no estômago, vómito, diarreia, baixa da temperatura corporal, sede, dor de cabeça, desidratação, falta de coordenação, lentidão dos reflexos, vertigens e mesmo visão dupla e perda do equilíbrio. Com doses mais elevadas
36 precoces que correm mais riscos de sofrer consequências associadas ao consumo, também sabemos que é na adolescência, pelas características próprias desta fase de desenvolvimento, que existe maior propensão para se envolver em comportamentos de risco, procura de novas sensações e novas formas de diversão (entre os quais os consumos de alteradores). Outra variável valorizada na investigação tem a ver com o género dos consumidores. Segundo o SICAD, uma bebida padrão é o volume de bebida alcoólica contendo 10g de álcool puro. A densidade do álcool é de 0,79g/ml. No homem, entre os 18 e os 64 anos, a quantidade recomendada como máxima diária são duas bebidas padrão ou 20g de álcool puro. Após os 65 anos, o máximo diário recomendado diminui para uma bebida padrão ou 10g de álcool puro. Na mulher, a quantidade máxima diária recomendada é uma bebida padrão ou 10g de álcool puro em qualquer idade (site SICAD 2019). Os estudos referem fatores que podem deixar a mulher mais vulnerável ao consumo de álcool. São as diferenças nas experiências emocionais nas suas relações familiares e sociais e são as diferenças fisiológicas no que caracteriza a mulher e o homem que mostram que as mulheres estão, à partida, mais passíveis de viver os efeitos do álcool. Normalmente, a mulher tem menor peso corporal, menor quantidade de água no organismo e menores níveis das enzimas hepáticas responsáveis pelo metabolismo do álcool (Dantas Pereira, 2012). Nos últimos anos “temos assistido ao aumento deste consumo pelas mulheres” (César, 2006; Laranjeira, Dualibi, & Pinsky, 2005; Miranda, 2007; Novaes, 2000, citados por Dantas Pereira, 2012, p. 240). Este aumento de consumo pode estar associado a vários fatores, como a ampliação do papel social da mulher, a entrada da mulher em “mundos” que antes lhe eram mais ou menos barrados (no trabalho, na política), a diferentes papéis sociais, à necessidade de fortalecer e “galgar” espaços sociais que antes estavam apenas abertos ao homem, à necessidade de se afirmar (Matsumoto, 2013). Acresce que o estudo realizado por Dantas Pereira (2012) alerta para um subgrupo de mulheres onde se verifica um aumento ou predisposição para o consumo acentuado, ou seja, as mulheres com mais de 40 anos, com um passado de violência física/sexual, familiar e doméstica (Pereira, 2012). Vários estudos junto de adolescentes portugueses indicam-nos uma predominância do género masculino na experimentação e consumo de todo o tipo de substâncias, sublinhando que a diferença em relação ao consumo de tabaco é menor (Lopes Ferreira, 2013). No estudo de Moutinho (2018), os rapazes relataram beber com mais frequência, particular, quanto às bebidas
37 espirituosas. O consumo diário é, também, mais frequente entre os rapazes. Segundo este estudo, a variável pessoal género foi diferenciadora dos consumos de álcool. Revelou-se um predomínio do sexo feminino nos “consumidores sem riscos para a saúde” e do sexo masculino nos consumos nocivos e de dependência, o que indica uma tendência das mulheres na adoção de estilos de vida mais saudáveis e de comportamentos protetores de saúde, ideia já apontada por Visser e McDonnell, 2012 (citado por Moutinho, 2018). No mesmo estudo, Moutinho averiguou (através do AUDIT) a forma como as pessoas de cada género identificavam as consequências/riscos de consumo: os participantes do sexo masculino parecem viver mais sentimentos de culpa e remorso por terem bebido, sendo também este grupo que apresenta com mais frequência episódios em que não se consegue recordar de ocorrências devido ao consumo e que se expõe a “episódios de dano relacionados com o consumo”. Foram as pessoas do sexo masculino que receberam mais críticas e sugestões para pararem de beber, seja por parte de amigos ou de familiares. O mesmo estudo indica-nos que são os participantes masculinos que apontam mais consequências associadas ao consumo de bebidas com álcool. Além disso, o grupo de consumidores de risco é na sua maioria masculino. Quanto ao tipo de consumo Binge Drinking, já se verifica, neste estudo, um maior número de consumidores do sexo feminino, principalmente de raparigas que frequentam o ensino profissional (Moutinho, 2018). A Organização Mundial de Saúde também nos chama a atenção para as diferenças entre géneros neste domínio. Refere que, em todo o mundo, os homens consomem mais e consomem mais em excesso do que as mulheres. Mas chama-nos a atenção para o facto de os hábitos de consumo estarem a mudar, sobretudo nos países industrializados e em países em desenvolvimento. O hábito de beber ocasionalmente e grandes quantidades tem aumentado nos homens e nas mulheres. Por outro lado, se os homens têm mais problemas relacionados com o álcool, as mulheres sofrem as consequências do consumo masculino (OMS, 2005). Um estudo sobre os comportamentos de saúde em jovens universitários portugueses em 2016 (Reis, Gaspar de Matos, & Equipa Aventura Social, 2017) não encontra diferenças estatisticamente significativas entre os homens e as mulheres para a primeira embriaguez. Em relação à idade para a experimentação, os homens referem 12-13 anos nas mulheres é mais frequente a resposta que aponta os 14 anos como idade da primeira experiência. Quando questionados sobre a frequência do consumo de qualquer bebida alcoólica, as mulheres centram
38 a sua resposta no “raramente ou nunca”; já em relação ao consumo de bebidas alcoólicas em festas académicas, o estudo não encontra diferenças estatisticamente significativas. Também no que respeita ao número de bebidas com álcool por dia, os autores do estudo apontam que não se verificam diferenças estatisticamente significativas; os homens respondem mais frequentemente beber 2 a 4 bebidas por dia e as mulheres referem mais frequentemente beber uma (1) bebida ou menos. Não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas entre géneros e o ter carta de condução, entre géneros e o consumo de bebidas alcoólicas e condução, entre géneros e acidente de automóvel e entre géneros e motivo(s) de acidente automóvel (Reis, Gaspar de Matos, & Equipa Aventura Social, 2017). Em conclusão, podemos salientar que as mulheres apresentam maior vulnerabilidade aos efeitos neurotóxicos (e outros) das bebidas com álcool (Flórez et al., 2019), mas, por educação ou cultura, tendem a beber de forma menos nociva, embora se estejam a verificar mudanças nos últimos anos. As características da personalidade podem ser reunidas em dois grupos, “de exteriorização e de internalização” (Smith, Schwerin, Stubblefield, & Fogg, 1982, citado por Precioso, Dias, Correia, Sousa, & Samorinha, 2014). O grupo de exteriorização engloba a agressividade, a impulsividade, procura de pares e comportamentos não normativos, procura constante de novas sensações associada a fácil perda de interesse pelo que conquista e gosto pelo risco, perigo e proibido. No grupo de características de internalização, temos traços de personalidade como sintomatologia depressiva, tendências ansiógenas, baixa autoestima, baixa auto-confiança, passividade, dificuldade em alimentar uma converssa ou descontrair numa atividade (Precioso, Dias, Correia, Sousa, & Samorinha, 2014). Para o alcoolismo, consideram-se fatores psicológicos de risco os seguintes: “Baixa autoestima, ansiedade, depressão, problemas de comportamento, baixo autocontrolo, diminuição das habilidades sociais e emocionais, estilos de enfrentamento inefetivos, dependência emocional, insegurança, necessidade de autoafirmação, baixa satisfação ou capacidade de se divertir” (Chassin, 1984, citado por Martín et al., 1999, p. 24). Estas características ou fatores podem influenciar a decisão de beber ou colocar a pessoa numa situação de vulnerabilidade, de maior fragilidade e, consequentemente, procura de contextos de maior risco. A presença destas características leva, muitas vezes, o jovem a usar a bebida alcoólica e seus efeitos como estratégia de coping para lidar com estados que para ele são desagradáveis. O consumo do álcool pode ser usado como instrumento para “aliviar os sintomas negativos, sendo
39 que a sensação de bem-estar e os efeitos ansiolíticos produzidos pelo consumo de álcool podem conduzir à manutenção de comportamentos de consumo abusivo” (Melo, Barrias, & Breda, 2001, citado por Precioso et al., 2014). Há estudos que referem que o ato de beber álcool com o objetivo de obter um estado de alteração está relacionado com uma baixa competência nas relações sociais e baixa capacidade de se relacionar assertivamente, assim como a dificuldade em transmitir as suas opiniões de forma assertiva (Lindquist, Lindsay, & White, 1979; Scheier & Botvin,1998, citado por Martín et al., 1999). Verifica-se, em alguns estudos realizados, que os jovens com historial de dificuldades nas relações em criança, que manifestaram viver timidez acompanhada de atitudes agressivas, são mais vulneráveis face ao consumo de alteradores na adolescência (Kellam, Ensminger, & Simon, 1980, citado por Martín et al., 1999). As crenças e perceções vão sendo construídas ao longo da vida do sujeito, através das várias experiências vividas na sua interação com o meio (externo a si) e das suas consequências: benefícios e prejuízos sentidos. Estas crenças e perceções são resultado da forma como a pessoa compreende o meio e lhe dá significado usando os seus sentidos e sua inteligência. A forma como interpreta e organiza em si aquilo que recebe através das suas experiências de relação com o mundo exterior, é a função do cérebro, que dá significado a estímulos sensoriais a partir de vivências passadas. Outro termo que importa ter presente é “atitude”, uma vez que os estudos mostram que as crenças, perceções e atitudes perante os efeitos do consumo de substâncias alteradoras estão relacionadas com o consumo destas (Chassin, Presson, Sherman, Corty, & Olshavsky, 1984, citado por Martín et al., 1999). A teoria da ação racional refere que o consumo depende de uma intenção de consumir ou não. Esta intenção leva a uma decisão/comportamento. A intenção é determinada por dois elementos: as atitudes perante o consumo e as crenças normativas sobre ele (Martín et al., 1999). São indivíduos de maior risco de início de consumo de álcool ou de desenvolver uma relação de risco com esta ou outras substâncias alteradoras, aqueles que o subestimam e facilitam, procurando contextos favoráveis ao seu consumo, e mostram “Crenças normativas” (perceções sobre a “norma” no seu âmbito social) que lhes criam pressão face ao consumo” (Chassin et al., 1984, citado por Martín et al., 1999, p. 24). Os estudos têm comprovado que existe uma relação entre as crenças e as atitudes perante as substâncias alteradoras e o consumo efetivo. No estudo de Anabela Cunha Rocha: intitulado
40 “Bullying e o consumo de bebidas alcoólicas entre estudantes da Universidade do Minho: um estudo no contexto do marketing social”, fala-se da opinião de alguns estudantes sobre os motivos que os levam a beber. Para além da procura de “alterações de espírito”, ficar bemdisposto, descontração, ficar alegre, o preço (promoções de venda de bebidas com álcool em festas académicas ou bares dos arredores), referem o que acreditam que é esperado fazer e na crença de que o álcool contribui para a amizade: "É o esperado fazer muitas das vezes. Quando sais à noite o que vais fazer? Normalmente bebes. De certa forma até pode ser esquisito, mas apela à união com os brindes e isso tudo" (Ex-aluno licenciado em Gestão) (Rocha, 2014, p. 52). Rachel Brown & Simon Murphy, no estudo “Alcohol and social connectedness for new residential university students: implications for alcohol harm reduction” (2018), realizaram uma pesquisa que explorou as perceções dos alunos sobre o álcool como um meio de reduzir a ansiedade de transição e ajudando na conexão social. Exploraram, também, as perceções sobre o papel do álcool na formação de relacionamentos e o significado disso para a adaptação à universidade. Verificaram que, perante os receios vividos no período que antecede a entrada na universidade (numa universidade do Reino Unido), os alunos procuravam, através do Facebook, conhecer os futuros colegas e descobrir os locais frequentados por estes. Nestes contactos eram planeados eventos sociais em torno do álcool para ajudar a integração, contribuindo para uma visão do “álcool como normativo na universidade” (Brown & Murphy, 2018, p. 5). Este estudo mostra que as perceções sobre o álcool se tornam um contributo para acelerar o desenvolvimento de conexões, reduzindo, por sua vez, a ansiedade e apoiando uma transição bem-sucedida entre o ensino secundário e a universidade (Brown & Murphy, 2018). Revela-nos, ainda, que as experiências vividas no período que antecede à entrada na universidade e as perceções desenvolvidas ou reforçadas por estas vivências são significativas influências nas decisões tomadas perante as bebidas alcoólicas. Mostra-nos, além disso, que a maioria dos estudantes teve experiências prévias com bebidas alcoólicas, mas a maior parte aumentou o seu consumo com a entrada na universidade. Muitos estudantes revelam que as suas experiências anteriores, nas quais usaram o álcool como “lubrificante social”, contribuíram para a construção de expetativas em relação à sua utilidade como facilitador de integração no mundo académico. Acrescentam, ainda, como contributo para a formação destas expetativas, os relatos de experiências universitárias vividas como positivas com o uso de bebidas alcoólicas, feitos por amigos, irmãos mais velhos, pais e outros familiares que anteriormente
41 tenham frequentado a universidade. Estes relatos contribuem para fortalecer a “associação entre status de estudante e o álcool” (Brown & Murphy, 2018, p. 6) ao evidenciarem experiências em que o álcool foi o meio usado, com sucesso, para socializar ou relaxar, especificando “O álcool é declarado explicitamente como parte da atividade social” e, para os recém-chegados, “Beber é a principal atividade social” (Brown & Murphy, 2018, p. 6). Os estudantes entrevistados neste estudo consideram os jogos de beber e os consumos de risco como sendo comuns na atividade social, sendo vistos, muitas vezes, com “socialmente benéficos” (Workman, 2001, citado por Brown & Murphy, 2018, p. 6), por contribuírem como desinibidor e como forma de expressar confiança nos novos contactos, como facilitador da comunicação, um conetor social, o que é bastante importante para os recém-chegados, pois “A avaliação positiva dos grupos de pares é significativa na conexão social percebida” (Lee, Draper, & Lee, 2001, citados por Brown & Murphy, 2018, p. 9). O álcool é percebido como um promotor de autoconfiança e ponte para dar o primeiro passo nas relações, uma vez que “um aspeto significativo da conexão social envolve sentir-se aceite como um eu independente na relação com os outros (Lee, Draper, & Lee, 2001, citados por Brown & Murphy, 2018, p. 9). Isto torna-se compreensível quando pensamos na expressão portuguesa usada como reforço de um convite: “Anda daí beber um copo”. A abordagem motivacional referente ao consumo de bebidas alcoólicas (Reis, 2015) salienta que a decisão de beber ou não, depende dos objetivos e desejos da pessoa e dos efeitos em que ela acredita acontecerem com o consumo. No entanto, esta decisão pode ou não ser consciente e está relacionada com “combinação de diversos fatores” (Kuntsche, Knibbe, Gmel, & Engels, 2007, citados por Reis, 2015, p. 19). Os motivos de consumo podem estar relacionados com o efeito que se espera alcançar, o que pode, ou não, resultar num incentivo ao consumo de álcool (Reis, 2015). A este propósito, convém acrescentar que “As crenças sobre as consequências do consumo de álcool estão associadas a maiores níveis de consumo, especialmente entre estudantes universitários” (McCarthy, Wall, Brown, & Carr, 2000, citado por Reis, 2015, p. 19). Por norma, a pessoa tende a desvalorizar os riscos de consumo, assim como os momentos desagradáveis ou situações desconfortáveis provocadas por este consumo. Os aspetos positivos tendem a ser valorizados como facilitadores de sociabilidade (alta perceção dos riscos positivos). “Por causa do reforço imediato, os resultados positivos são mais fortemente
42 associados com o consumo e mais facilmente acessíveis na memória do que as consequências negativas” (Dunne, Freedlander, Coleman, & Katz, 201), citados por Reis, 2015, p. 19). Um estudo realizado junto de estudantes universitários em 2007 indica-nos que os que percecionam maiores resultados negativos (alta perceção do risco negativo) associados ao consumo de álcool, tendem a beber menos que aqueles que percecionam mais reforços positivos (Gaher & Simons, 2007, citados por Reis, 2015, p. 20). Os quatro aspetos referidos por Castilho, Castilho-Lopes, Dias, López-Sánchez, Pertusa, Irles, & Díez (2015) ajudam-nos a uma melhor compreensão. A “Suscetibilidade Percebida”, grau de vulnerabilidade percebida, ou seja, o que cada pessoa percebe, subjetivamente, em relação ao nível de risco que tem, neste caso, perante o álcool em relação à sua saúde (Castilho et al., 2015), é também um elemento importante na perceção de risco. O "mito da invulnerabilidade percebida" está presente em pessoas que consideram que a probabilidade de sofrer danos devido a uma situação de risco é menor que a probabilidade de outras pessoas, ou seja, estes consumidores acreditam que são invulneráveis. Essa crença torna-os mais vulneráveis, já que param de tomar precauções e/ou expõem-se mais a riscos. Outro elemento importante é a “Perigosidade Percebida”, plano subjetivo de uma pessoa perante a possibilidade de se ver privado de saúde, de ficar doente, incapacitado ou morrer (Castilho et al., 2015). Entre os jovens, ouvimos muitas vezes dizer: “Comigo não vai chegar a esse ponto…, eu posso conduzir porque em mim… aquela quantidade de bebida…”. Um terceiro elemento refere-se às “Perdas ou Ganhos Percebidos”, capacidade de fazer um balanço das perdas e ganhos obtidos em função das opções de ação, capacidade de avaliar as possíveis alternativas, de avaliar o que pode perder ou ganhar se escolher um comportamento saudável ou de risco para a sua saúde (Castilho et al., 2015). Como quarto elemento, temos as “Chaves para a ação”, estímulos que atuam como desencadeadores da suscetibilidade e da perigosidade percebida, levando a pessoa à ação. A intensidade dos estímulos é inversamente proporcional à suscetibilidade e perigosidade para que se desencadeiem comportamentos saudáveis (Castilho et al., 2015). Em conclusão, os efeitos positivos ou negativos que a pessoa espera do consumo de álcool, o valor afetivo que essas consequências têm para ela e o valor que atribui aos benefícios e aos riscos vai revelar-se nas atitudes (Martín, Tamames, Fragüela, López, & Pereiro, 1999).
43 Variáveis relacionadas com o contexto comunitário merecem também ser mencionadas. No que respeita à comunidade, temos que ter presentes fatores sócio económicos e culturais, como por exemplo, interesses das regiões vitivinícolas, fatores antropológicos e culturais, económicos, jurídicos e políticos. O que caracteriza a forma de beber varia entre culturas: as tradições, os hábitos, os mitos e conceitos existentes. As diferenças culturais e religiosas, as normas socioculturais mais ou menos rígidas influenciam os hábitos e o controlo da alcoolização em grupos étnicos. Normas socioculturais podem levar à proibição, à permissividade ou até mesmo ao incentivo e à inclusão do álcool em rituais de passagem à idade adulta e outros momentos marcantes no crescimento. O tipo de profissões predominantes e a valorização ou desvalorização do álcool como fonte de força podem também (des)incentivar o consumo de bebidas alcoólicas. Idênticoimpacto podem ter as regras publicitárias existentes ou as políticas de oferta e disponibilidade de álcool (Mello, Barrías, & Breda, 2001). Os fatores de risco ou fatores protetores presentes na comunidade estão ligados às tradições, à organização ou desorganização da comunidade, às condições do meio e vizinhança, à disponibilidade da substância, à acessibilidade a bebidas alcoólicas e às condições económicas (Larros & Arias, 2012). O consumo de álcool e o tipo de problemas relacionados com álcool existentes num meio podem explicar-se, também, pelas políticas públicas relacionadas, direta ou indiretamente, com o álcool: condições de acesso à bebida, impostos, políticas de segurança rodoviária ou regulamentação da publicidade sobre o álcool (Compañó, Sordo, Bosque-Prous, Puigcorbé, Barrio, Brugal, Belza, & Espel, 2019). Falando do binge drinking, também falamos de fatores protetores ou de risco socioeconómicos e demográficos, bem como da acessibilidade e da disponibilidade. Há autores que associam o crescimento de episódios deste tipo de consumo com a crise económica e o aumento do desemprego (Compañó et al., 2019). O grupo de pares pode representar um fator protetor ou um fator de risco para a iniciação e para a relação desenvolvida com o álcool. Lídia Moutinho, no seu estudo “Consumo de Álcool: da experimentação precoce ao consumo de risco”, verificou que são os familiares e o grupo de amigos quem proporciona as primeiras experiências de consumo de bebidas alcoólicas e que, muitas vezes, este acontecimento é considerado um fator de emancipação (Moutinho, 2018), o que pode ser impulsionador para a continuação dos consumos.
44 Diferentes estudos indicam-nos o grupo de amigos como o fator com mais peso nas experiências de consumo. Alguns autores consideram que o consumo de alteradores depende exclusivamente do grupo de amigos (Kandel, 1996, citado por Morueta, Gómeze, & Gutiérrez, 2009, p. 168). No entanto, podemos considerar que, não sendo o único fator, é aquele que influencia de modo mais direto (Martín et al., 1999). No grupo de amigos desenvolvem-se atitudes favoráveis ou não favoráveis ao consumo, no grupo de amigos disponibiliza-se, cria-se, ou não, um contexto social facilitador do consumo, assim como partilha de ideias e crenças favoráveis ou desfavoráveis ao consumo. Oetting e Beauvais (citado por Martín et al., 1999) referem que é importante identificar os subgrupos que se formam nos grupos de amigos, os “clusters” de amigos. Estes subgrupos partilham atitudes, valores, crenças e formas de ver o mundo; os membros destes grupos tendem a consumir juntos as mesmas substâncias e pelas mesmas razões. Podemos concluir que, pertencendo a um grupo de amigos que usam alteradores, a pessoa pode viver momentos de pressão para o seu uso. No caso particular do álcool, para além de conviver com os amigos que bebem, pertencer a um grupo de amigos consumidores implica participar em atividades muitas vezes promovidas à volta do álcool. “Vamos beber um copo” é a expressão repetidamente utilizadas. Como dizem os estudantes da Universidade do Minho entrevistados no estudo de Anabela Rocha, apesar de não existir uma pressão direta por parte dos pares no sentido de obrigar a beber, quando alguém não bebe é gozado no momento, é sujeito a “piadas”. Para além disso, se todos bebem, quem não quer sente-se pressionado por ser diferente (Rocha, 2014). As crenças normativas e as normas subjetivas, são influenciadas pelas perceções de outras pessoas significativas nas suas relações. Se a pessoa percebe que os seus grupos de referência, a quem deseja agradar, esperam que ela consuma, a sua decisão tende a inclinar-se para o consumo. Se acredita que, nesses grupos, o consumo de álcool é “norma” e aceite, isto poderá exercer pressão para consumir (Martín et al., 1999). Os jovens associam o consumo de bebidas alcoólicas, seja a prática de binge drinking ou o consumo esporádico e em menor quantidade, às festas, convívios sociais e saídas à noite. Este hábito, segundo o estudo de Monteiro (2018), não é considerado, para os jovens, como um comportamento de risco no que se refere ao consumo de bebidas alcoólicas. Tendo em conta que seria nesses momentos que a pessoa iria desenvolver competências pessoais e de interação social, se bebe para se sentir integrado no grupo, para ultrapassar a timidez, para se sentir mais desinibido e eufórico, mais capaz de expor as suas posições e opiniões, para se sentir mais à
45 vontade para seduzir parceiros (as) e se, aparentemente, tem sucesso, esta prática vai estimular o consumo da substância (Measham, 2006; Szmigin, 2008 citados por Monteiro, 2018). Morueta e colaboradores (2009), lembram-nos, ainda, que cada vez mais é a noite que os adolescentes e jovens reconhecem como o tempo de ócio e um momento onde podem praticar atividades diferentes, de participação livre (diferentes das praticadas durante o dia com rotinas) e programadas com a existências de bebidas alcoólicas, ou seja, existe uma relação forte entre as atividades noturnas e o consumo de bebidas alcoólicas (Morueta et al., 2009). Quanto à prática de outras atividades lúdicas extracurriculares, os estudos indicam-nas como um fator protetor relevante perante o consumo de álcool. Bechtel e Swisher (1992) encontraram correlações negativas entre a prática desportiva e atividades extracurriculares, prática de voluntariado, pertença a associações e o consumo de álcool (Bechtel & Swisher, 1992, citados por Morueta et al., 2009). Relevância da família A família, como modelo e como modelador de estilo de vida, pode representar um fator de risco facilitador ou até incentivador ao consumo, mas também pode constituir um fator protetor no contributo que pode dar como impedimento do consumo precoce e como fonte de ensinamento de condições para um consumo sem riscos para a saúde em adulto. Por estes motivos tem vindo a ser muito estudada. Dado ser o primeiro espaço social da pessoa, é o lugar onde se dão os primeiros passos de socialização, transmissão de regras, normas sociais, valores e visão do mundo (Martín et al.,1999). Acrescente-se ainda a sua importância primordial no desenvolvimento afetivo e na capacidade de criação de laços. Várias investigações mostraram que existe uma relação entre a prática de delinquência e consumos com a pertença a famílias com relações tensas e conflituosas (Wandekoken, Vicente, & Siqueira, 2011). Wandekoken e colaboradores (2011), no estudo “Alcoolismo parental e fatores de risco associados”, chamam-nos a atenção para a importância da família quando falamos de problemas associados ao álcool, assim como quando pensamos em ações de prevenção. Este artigo, apoiado em vários estudos, indica o alcoolismo parental como importante fator de risco para o desenvolvimento de problemas com álcool e pouco relevante na motivação para o não uso/ abuso ou recuperação destes problemas (um pouco diferente de
52 Reis, Gaspar de Matos & Equipa Aventura Social, (2017) sublinham, igualmente, a importância deste momento. Se a entrada na universidade representa um desafio antes planeado e ambicionado, o momento de ingresso pode provocar crise, instabilidade em relação aos diferentes novos papéis. No momento que antecede, são desenvolvidas expectativas partilhadas com orgulho por conseguirem o ingresso. Estas expetativas positivas podem tornar-se negativas, principalmente nos jovens que se veem obrigados a sair da residência habitual, “a euforia motivada pelo ingresso cede lugar à tristeza e à saudade da família, dos amigos, da casa e do local onde se vivia (Reis, 2012; Nogueira, 2016, citados por Reis et al., 2017). As diferentes exigências, sejam pessoais, sociais ou académicas, a adaptação a novos contextos, novas metodologias de ensino, novas rotinas, e a necessidade de gerir vários campos que não faziam parte da sua vida anterior podem estimular o consumo de álcool. Mudanças que exigem mobilidade e emancipação, autonomia e gestão e tomada de decisões para dar resposta às várias solicitações: “solicitações internas (dos desejos, aspirações e do desenvolvimento em geral dos jovens adultos) e externas (da sociedade e do mercado de trabalho) (Reis et al., 2017, p. 24). Reis (2015) reforça a exigência do processo de adaptação que obriga os estudantes a estratégias para minimizar o sofrimento físico e psicológico vivido. O problema é que as estratégias usadas nem sempre são as mais saudáveis, colocando-se em situações de risco (Reis, 2015). Para evitar o abandono, a formação de novas relações é muito importante durante este período e está correlacionada com uma adaptação bem-sucedida. Segundo o estudo de Brown e Murphy (2018), sobre o papel do álcool no processo de transição e no desenvolvimento de grupos de pares para novos alunos, apoiado na teoria da conectividade social, a preocupação existente no momento inicial do percurso universitário com o desenvolvimento de novas relações entre pares parece ser posteriormente reduzida ao beberem bebidas alcoólicas juntos. (Rachel & Simon, 2018). A bebida alcoólica, como “um importante lubrificante social”, pode ter um papel na facilitação da formação de grupos sociais em estudantes universitários do 1º ano, influenciando o processo de transição para a universidade. Com a entrada na universidade, o jovem obtém o “status de bebedor legal”, pelo que é colocado em contextos facilitadores do consumo e exposto aos problemas ligados ao álcool (Rachel & Simon, 2018). Aquele que não bebe é visto como “fora da norma”, e pode sofrer pressão para beber. O estudante que não bebe ou aquele que bebe de forma não doentia pode ver-se obrigado a escolher atividades diferentes, que normalmente acontecem em diferentes momentos. De facto, “o comportamento típico de bebedor constitui a opção fácil” (Hepworth, 2016, citado por
53 Rachel & Simon, 2018, p. 8). Segundo Rachel e Simon (2018), são os estudantes do primeiro ano que tendem a realizar mais “jogos de beber” e a viver mais episódios de perda de consciência provocada pelo consumo destas bebidas. Conclusão semelhante à dos alunos da UMinho evidenciada pelo estudo de Rocha já descrito. Se, à entrada na universidade, o estudante sente alguma pressão para beber, num momento em que, na maioria dos casos, já atingiu os 18 anos, a lei não o impede de beber. Pelo contrário, a lei sempre lhe transmitiu que depois dos 18 anos poderia consumir o que é interpretado por muitos como “já não faz mal…”. Segundo Pimentel, Mata e Anes (2017), a importância epidemiológica do álcool não acontece só porque é a droga mais usada pelos jovens adultos, mas também pelo valor e pela imagem que foi adquirindo na ocupação dos tempos livres, a sua importância nas relações sociais, a tolerância que a sociedade sempre manifestou e a pouca perceção do risco do consumo desta substância, juntamente com perceções positivas existentes e a “normalização” desta conduta encarada como “normal” e indispensável para a diversão. Os riscos desta conduta acentuam-se quando este uso e abuso acontece numa altura em que o jovem adulto frequenta o Ensino Superior e passa por uma autonomia parcial longe da sua família e do meio que até ao momento o protegiam (Pimentel et al., 2017). Esta normalização e aceitação, assim como o carácter social desta droga, levam muitas vezes o jovem a considerar como normais padrões de consumo exagerado, dificultando a avaliação dos riscos, a capacidade de medir, avaliar, pensar e decidir, assim como recusar ou ser capaz de interromper. O já referido estudo de Brown e Murphy (2018) chama-nos a atenção para os benefícios sociais percebidos sobre o consumo de bebidas com álcool, em particular durante o processo de transição. Beber juntos é percebido como importante no processo de vínculo social na universidade (Kairouz, 2002, citado por Rachel & Simon, 2018). Roberta Gomes Reis, no seu estudo sobre “Consumo de Álcool, Personalidade e Ajustamento Emocional em Estudantes Universitários”, revela que existe uma relação significativa entre o ajustamento emocional e o padrão de consumo, “o que sugere que quanto menor for o ajustamento emocional, maior será o consumo de álcool” (Reis, 2015, p. 3). Acrescenta ainda que “Os motivos de coping e os afetos positivos também apresentam correlação significativa com o padrão de consumo” (Reis, 2015, p. 3). Ferraz e Pereira (2002) também sublinham que a transição para a universidade acarreta níveis elevados de ansiedade e de stress. Se, por um lado, a literatura nos mostra que o sucesso
54 académico é, em grande medida, determinado pelas experiências dos estudantes no primeiro ano do curso (Noel, Levitz, & Saluri, 1985, citado por Ferreira, Almeida, & Soares, 2001), por outro lado, é grande a variedade de problemas que os estudantes enfrentam nesta fase da sua vida: os problemas pessoais como a saudade de casa, “homesikness”. Esta saudade é vivida mais intensamente nos estudantes que se veem obrigados a saírem da residência habitual quando entram na universidade, passando a viver sem a supervisão da família e, assim, necessitando, ainda mais, de construir novas relações, parecendo ser estes os que usam mais bebidas alcoólicas (Rachel & Simon, 2018). Segundo o estudo de Moutinho (2018), foram encontradas diferenças estatisticamente significativas entre o padrão de consumo binge drinking em participantes que residem com a sua família durante os períodos letivos (residentes em alojamento habitual) e os que estão afastados do ambiente familiar durante os períodos letivos (deslocados), sendo os segundos mais sujeitos a estes episódios de consumo: “Os dados analisados mostraram que os respondentes que estão afastados da convivência familiar apresentam maior percentagem de consumos de risco e de binge drinking” (Moutinho, 2018, p. 114). Moutinho (2018) também aponta as grandes mudanças que ocorrem com a entrada na universidade e sublinha a saída da habitação familiar e a exigência da “semi-autonomia” uma vez que os estudantes passam a viver fora de casa da família, mas continuam a depender desta em vários níveis. O estudo de Moutinho sublinha que o uso de álcool como estratégia para lidar com momentos de sofrimento, poderá impedir o desenvolvimento de competências que no futuro sejam utilizadas para lidar com situações adversas. Um estudo sobre padrões de consumo de álcool em estudantes da Universidade de Aveiro, também mostra que os estudantes universitários que saem de casa dos pais/da sua residência apresentam maiores consumos de álcool (Rodrigues, Salvador, Lourenço, & Santos, 2014). Este estudo associa o consumo de álcool à solidão, a timidez, limitações nas competências sociais e tomadas de decisão, questões ligadas à sexualidade, perturbações emocionais, problemas académicos que podem ir desde a relação com professores e pares, às competências de estudo, ao stress em situação de avaliação, ou, também, a problemas financeiros, de gestão de casa e de segurança. Como salienta o artigo de Almeida, Pérez-Fuentes, Casanova, Linares & Molero (2018), a transição para um novo contexto com mais liberdade e mais investimento interpessoal é especialmente significativo, porque pode aumentar a expetativa positiva sobre o consumo de álcool, e esta, por sua vez, contribuir para uma mudança nos padrões de consumo de álcool. Por
55 outro lado, a permanência do estudante na universidade parece depender, também, da integração nos subsistemas intelectual e social. O seu envolvimento inicial e motivação podem ir diminuindo se este se apercebe que a sua permanência não lhe trará benefícios para a entrada no mundo do trabalho e, mais ainda, se viver dificuldades na adaptação, juntamente com o ter que viver longe da família (Tinto, 1993, citado em Almeida, Vasconcelos, & Mendes, 2008). Hoje existe uma grande preocupação com o elevado número de abandono de alunos no ensino superior. Os resultados obtidos num estudo por Almeida e colaboradores (2008) sugerem uma taxa mais elevada de abandono em alunos dos dois primeiros anos de frequência universitária, e em particular do 1º ano. Os estudos relacionam o abandono, entendido por “rejeição do ambiente académico por parte de alguém que inicialmente o abraçou no quadro de um projeto de formação” (Almeida, Vasconcelos & Mendes, 2008, p.1), com um conjunto de fatores diversos como a relação com professores, relação com pares, atividades laborais, constrangimentos familiares, inflexibilidade de horários nas universidades. Será que, na tentativa de usar o álcool como estratégia, o estudante perde a oportunidade de desenvolver as competências necessárias de adaptação? Estará o consumo de bebidas alcoólicas relacionado com este abandono? Se por um lado, o consumo de álcool parece ser considerado pelos estudantes como uma ponte, um meio facilitador da integração, por outro lado pode contribuir para vários comportamentos de risco, incluindo a falta de assiduidade e de pontualidade nas aulas e todos os outros problemas ligados ao álcool já apontados. Todos estes dados convidam-nos a uma reflexão sobre o papel do álcoolna vida do estudante. Se inicialmente é usado como facilitador na integração e envolvimento no meio académico, acaba, por vezes, por levar à desintegração, solidão, desinteresse, incapacidade, insucesso e abandono. Algumas teorias, como a de Schulenberg (2002) e a sua equipa, sublinham que uma parte dos estudantes que consomem álcool na universidade, já o fazia antes de entrar para a universidade, mantendo ou agudizando o seu consumo com a entrada neste contexto, devido a um processo adaptativo às exigências da mudança e a crenças sobre o padrão comportamental que deles se espera. No entanto, sublinha que há uma tendência a diminuir o consumo quando os alunos se apercebem da incompatibilidade entre este consumo e os seus objetivos e entrada no mundo do trabalho (Alcântara da Silva, Borrego, Ferreira, Lavado, Melo, Rowland, & Truninger, 2015).
56 Sabemos que o jovem adulto é convidado a beber no meio académico. O consumo de bebidas alcoólicas faz parte da cultura onde impera o pensamento coletivo “tenho que beber como os outros para festejar” (Harford, Wechsler, & Seibring, 2002, citados por Rodrigues, Salvador, Lourenço, & Santos, 2014). Nestas ocasiões, as bebidas são acessíveis às condições económicas, e as festas são, muitas vezes, patrocinadas por marcas de bebidas alcoólicas. Compreender o papel do uso de álcool neste contexto torna-se essencial para estabelecer relações de suporte, em particular, para definir medidas preventivas eficazes. Assim, conhecer as experiências e perceções sobre o consumo de álcool nestes estudantes e a relação entre estas e os seus comportamentos de consumo, poderá ser um contributo na definição das medidas preventivas precoces.
57 CAPÍTULO 2. METODOLOGIA DO ESTUDO EMPÍRICO 2.1. Definição do problema Os problemas ligados ao álcool são, neste momento, uma das grandes preocupações da humanidade, constituindo objeto de análise e de intervenção de instituições espalhadas por todo o mundo. Três milhões de mortes foram, segundo a OMS, atribuídas ao álcool em 2016. O relatório global sobre álcool e saúde – 2018, divulgado pela OMS, indica-nos que cerca de 43% da população são bebedores atuais e a média de consumo per capita mundial é de 6,4L de álcool puro (OMS, 2018). Num momento em que cada vez mais se identificam consequências adversas do consumo excessivo de álcool sobre a saúde e o bem-estar de indivíduos e populações, refletir sobre este tema torna-se uma prioridade para a saúde pública (OMS, 2018, p. 159). Segundo a OMS, os danos provocados pelo consumo de álcool, “seja ao bebedor ou a familiares e outras pessoas ao redor do bebedor”, representam, para além de uma “ampla variedade de distúrbios de saúde”, uma “ampla gama de problemas” (OMS, 2018, p. 151). O conhecimento sobre saúde está a desenvolver-se rapidamente. A revolução tecnológica está a aumentar o potencial para melhorar a saúde e a “transformar a literacia em saúde numa sociedade global, bem-educada e modernista” (OMS, 2008, p. 156). A economia da saúde global está em grande crescimento (OMS, 2008, p. 156) e o investimento em saúde é cada vez maior, principalmente no tratamento de doenças. Temos assistido a uma aposta em diferentes alternativas de tratamentos para o alcoolismo, tanto para todos os problemas vividos diretamente pelo consumidor, como para os problemas vividos de modo indireto pelo não consumidor. As políticas públicas são sensibilizadas para abrangerem medidas e programas que procurem dar resposta aos problemas de saúde prioritários. Em Portugal, temos assistido também a estas mudanças, seja num maior investimento em tratamento de doenças ou em políticas protetoras (como é o caso do investimento em clínicas ou em parcerias que proporcionam o tratamento do alcoolismo e de políticas que limitam a venda de bebidas com álcool). Esta aposta representa um grande investimento do país, pois, tal como acontece a nível mundial, “A magnitude da doença atribuível ao álcool e sua carga social e a disponibilidade de uma gama de opções e intervenções eficazes e eficientes em termos de custos estão em forte contraste com
58 os recursos disponíveis em todos os níveis para reduzir o uso nocivo de álcool” (OMS, 2018, p. 21). Para a OMS, a prevenção e redução do uso nocivo do álcool devem ser tratadas como prioridade. A organização enfatiza a necessidade de os países concentrarem mais esforços nas áreas-alvo recomendadas na Estratégia Global para Redução do Uso Nocivo de Álcool, para que seja possível alcançar a meta previamente estipulada de redução relativa de 10% no consumo nocivo mundial em 2025. “A falta de recursos para financiar programas de prevenção…” (OMS, 2018, p. 21) é uma preocupação, principalmente quando sabemos que estes têm menor custo económico do que o tratamento de todos os problemas consequentes do uso nocivo. Este estudo pretende contribuir para a compreensão dos bebedores que frequentam o ensino superior. Responder a questões como: será que a experimentação acontece com a entrada no ensino superior ou no período que a antecede? O que pensam os estudantes sobre esta questão? Será que, à entrada na universidade, o estudante está preparado para beber sem riscos? Em suma, tendo a OMS (1998) definido a literacia em saúde como o conjunto de competências, cognitivas e sociais, que uma pessoa tem para compreender e usar a informação recebida para tomar decisões e praticar comportamentos que promovam a saúde, perguntamo-nos como está a literacia em saúde dos jovens que mostraram competências para entrar no ensino superior, particularmente no que respeita à relação entre saúde e consumos de álcool. 2.2. Objetivos, questões e variáveis São vários os objetivos centrais ao presente estudo: - Estudar as perceções sobre o consumo de álcool em estudantes do ensino superior. - Conhecer os hábitos de consumo de álcool em estudantes à entrada no Ensino Superior. - Identificar em que medida as perceções negativas e positivas sobre o consumo de álcool se relacionam com a prevalência de consumo de bebidas alcoólicas. - Analisar como os comportamentos ligados ao consumo de bebidas alcoólicas e as perceções presentes estão relacionados com a idade de início de consumo.
59 - Averiguar a relação entre os comportamentos de consumo à entrada no ensino superior e o consumo ao longo do ensino secundário. - Investigar a relação entre os comportamentos de consumo ao longo do secundário e as perceções sobre o consumo de álcool em estudantes do ensino superior. - Estudar a relação entre os comportamentos de consumo à entrada do ensino superior com a rede social e de ocupação de tempos livres antes da entrada no ensino superior. - Verificar em que medida o sair de casa dos pais/família, como consequência da entrada na universidade, influencia os padrões de consumo. Com base nestes objetivos, este estudo pretende responder às seguintes questões: - Existe uma relação entre as perceções sobre o consumo de álcool em estudantes do ensino superior e os seus comportamentos de consumo de álcool? - Existe uma relação entre as perceções relacionadas com o consumo de álcool à entrada no ensino superior e a idade em que se realizou o primeiro consumo de bebidas alcoólicas? - Existe diferença entre géneros quanto aos comportamentos de consumo de bebidas alcoólicas e quanto às perceções existentes? - Existe uma relação entre os comportamentos de consumo de álcool à entrada no ensino superior e a idade em que realizou o primeiro consumo de bebidas com álcool? - Existe relação entre o consumo de bebidas alcoólicas ao longo do ensino secundário e os comportamentos de consumo à entrada no ensino superior? - Existe relação entre os comportamentos de consumo ao longo do secundário e as perceções sobre o consumo de álcool em estudantes do ensino superior? - Existe relação entre os comportamentos de consumo à entrada do ensino superior com a rede social e de ocupação de tempos livres antes da entrada no ensino superior? - Existe relação entre os comportamentos de consumo na fase de integração na universidade e a mudança de residência como consequência da entrada na universidade?
60 Variáveis O presente estudo desenvolve-se considerando um conjunto de variáveis agrupadas nas seguintes categorias: (i) Sociodemográficas: sexo, idade; (ii) Académicas: ano de curso, grau de satisfação com o curso, grau de dificuldade no acompanhamento das matérias novas, contacto com os pais em período de aulas; (iii) Rede social no ensino secundário; (iv) Integração no meio académico; (v) Comportamentos de consumo de álcool: idade de início de consumos, frequência, contexto e quantidade de consumo; e (vi) Perceções sobre o efeito das bebidas alcoólicas: perceções positivas e negativas do consumo. 2.3. Instrumentos e Procedimentos Para efeito da avaliação destas variáveis, tomaremos os seguintes instrumentos: (i) Questionário sociodemográfico e académico (elaborado para o efeito); (ii) Ficha de caracterização do consumo de bebidas alcoólicas (criada para o efeito); e (iii) Escala de perceção dos efeitos positivos e negativos associados ao consumo (Almeida & Casanova, 2017). Os questionários foram aplicados em dezembro de 2018. Foram utilizadas diferentes formas de aplicação: em sala de aula e em espaços exteriores à sala de aula (bares e pátios da universidade ou junto à universidade. Alguns foram entregues a alunos do 1º ano com pedido para aplicarem junto dos colegas. Foram realizados procedimentos para garantir o anonimato dos dados recolhidos e o esclarecimento dos objetivos do estudo, bem como para assegurar a livre adesão dos estudantes, traduzida no seu consentimento informado por escrito à participação no estudo. Não foram pedidos dados como nome, morada ou qualquer outro elemento de identificação. Também não foi pedido o curso (a informação que temos sobre o curso surge pela associação às turmas onde pedimos o preenchimento). As análises estatísticas são realizadas com o programa IBM/SPSS, versão 24.0. As técnicas estatísticas usadas atendem à natureza das variáveis e às questões que se pretende responder. 2.4. Caracterização da amostra A amostra é constituída por 308 estudantes que frequentam o primeiro ano na Universidade do Minho (Campus de Gualtar e Campus de Azurém). Trata-se de uma universidade pública,
61 situada no norte de Portugal e frequentada por alunos vindos de todo o país e de outras nacionalidades. Das 308 pessoas que responderam, 299 indicaram o género, e destas, 208 são do sexo feminino e 91 são do sexo masculino. 299 respondentes indicaram a sua idade, a qual varia entre os 17 e os 40 anos, sendo que a maioria, 173 respondentes, têm 18 anos, 51 têm 19 anos, 17 alunos têm 17 anos, e 21 respondentes têm 20 anos. Com mais de 23 anos temos apenas 16 respondentes. Em média têm 19,14 anos (DP=3). Quanto aos cursos, 32,8% frequentam cursos de engenharia, 0,6% direito, 0,6% economia, 23,7% educação, 0,3% enfermagem, 0,3% ciências sociais, 7,8% medicina, 22% letras e ciências humanas, 5,2% ciências da visão. Em relação aos restantes, é desconhecido o curso que frequentam. Quanto à escolha do curso que frequentam, a maioria, 74,4% dos participantes, entraram no curso correspondente à sua 1ª escolha, 14,8% entraram no curso referente à sua 2ª escolha, 9,1% entraram na sua 3ª ou 4ª escolhas e apenas uma pessoa entrou na sua 7ª área preferida. No momento em que responderam ao questionário, 95,3% sentiam-se satisfeitos com o curso que frequentavam. Questionados sobre se se viram obrigados a sair de casa quando entraram na universidade, 37,7% diz que se viu obrigado a sair de casa, enquanto 62,3% continuam a viver na residência habitual. Dos estudantes que se viram obrigados a sair de casa, 60,2% vive em apartamento partilhado, 23% vive em residência académica, 7,1% reside em casa de familiares e 6,2% vive sozinho. Dos alunos que mudaram de residência, 13,2% referem que nunca vão visitar os pais na sua anterior residência e 10,6% vão entre 2 a 3 vezes por mês. A maioria, 75,3%, vai a casa dos seus pais/família 4 vezes por mês ou mais, o que parece corresponder a uma visita aos pais pelo menos aos fins de semana. Pedindo-lhes que classificassem de 1 a 5 a dificuldade sentida no acompanhamento das matérias, sendo 1 muito fácil, 2 alguma facilidade, 3 fácil, 4 um pouco difícil, 5 muito difícil, 46,1% consideram que foi um pouco ou muito difícil acompanhar as primeiras matérias dadas na universidade. 28,8% sentiu facilidade nas primeiras aprendizagens e 20,1% considera que sentiu alguma facilidade no acompanhamento das matérias. Quanto à rede social durante o ensino secundário, podemos observar na tabela 1 que a maioria, 97%, tinha amigos no período que antecedeu a Universidade e muitos, 89,3%, mantêm essas relações. Em relação às atividades praticadas até à entrada no ensino superior, muitas foram abandonadas nesse momento (65,5%).
68 cognitivas e sociais para compreenderem e usar a informação recebida e, consequentemente, para tomarem boas decisões e colocarem em prática comportamentos que promovam a saúde.
69 CAPÍTULO 3. APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS Neste capítulo, através de análises estatísticas realizadas com o programa IBM/SPSS, versão 24.0., vamos apresentar um estudo empírico que nos permite, depois de observar o funcionamento da Escala de Perceções sobre o Consumo de Álcool em Estudantes do Ensino Superior (Almeida & Casanova, 2017), responder a algumas questões colocadas no capítulo anterior. Desta forma, iremos analisar a relação entre as respostas dadas às várias dimensões da escala pelos estudantes em fase de adaptação e integração ao ensino superior com as suas características pessoais (idade e género), assim como a sua relação com o álcool neste período e no período antecedente, ou seja, ao longo do ensino secundário. Vamos analisar a conexão entre a forma de ocupar o tempo livre, assim como a pertença a um grupo de amigos e o consumo de bebidas alcoólicas. Por último, vamos refletir sobre a possível influência que a presença da família possa ter nos comportamentos ligados ao consumo de bebidas alcoólicas e a relação entre os hábitos de consumo existentes no período que antecede a entrada na universidade e o comportamento de consumo no período de adaptação ao mundo académico. 3.1. Funcionamento dos itens da escala de perceções sobre o consumo de álcool em estudantes do Ensino Superior Previamente à análise dos resultados propriamente ditos referentes às questões e aos objetivos do nosso estudo empírico, importa observar como funciona a Escala de Perceções sobre o Consumo de Álcool em Estudantes do Ensino Superior (Almeida & Casanova, 2017), pois é um instrumento de avaliação ainda recente e com pouco aplicada em estudos. Trata-se de uma escala, constituída por 18 itens que representam o grau de acordo com expressões que revelam vivências associadas ao consumo de álcool. Permite uma pontuação entre seis níveis, sendo que 1 representa estar totalmente em desacordo, 2 representa estar bastante em desacordo, 3 quando considera estar com algum desacordo, 4 com algum acordo, 5 quando mostra estar bastante de acordo e 6 quando está totalmente de acordo.
70 Na tabela 5, apresentamos a distribuição dos resultados da amostra aos 18 itens da escala, indicando a média e desvio-padrão das pontuações atribuídas pelos estudantes, bem como a percentagem de respostas para cada um dos seis níveis de resposta facultada por item (grau de desacordo ou de acordo). Tabela 5 – Distribuição dos resultados nos itens da escala Média Erro Desvio 1 Totalmente em desacordo (%) 2 Bastante em desacordo( %) 3 Algum desacordo( %) 4 Algum acordo (%) 5 Bastante acordo (%) 6 Totalmente em acordo (%) A1 3,78 1,61 11,8 11,4 16,3 26,5 15,4 18,6 A2 3,56 1,41 12,0 11,4 17,5 36,0 15,6 7,5 A3 3,06 1,56 23,5 15,6 18,2 23,8 12,7 6,2 A4 2,90 1,47 23,9 16,7 23,0 21,3 10,8 4,3 A5 3,50 1,45 13,4 11,1 17,3 32,7 19,0 6,5 A6 3,05 1,45 17,6 18,2 29,6 16,9 12,1 5,5 A7 4,38 1,50 5,6 7,9 12,1 21,0 23,6 29,8 A8 3,06 1,42 17,9 18,2 25,0 24,4 9,4 5,2 A9 4,40 1,29 2,0 8,1 12,7 24,1 30,6 22,5 A10 3,85 1,42 7,8 9,2 19,0 32,7 17,3 14,1 A11 4,13 1,36 4,6 8,5 13,0 33,9 21,5 18,6 A12 3,66 1,45 10,1 9,8 24,1 26,7 16,9 12,4 A13 3,01 1,33 18,8 14,3 28,2 28,6 7,1 2,9 A14 4,13 1,30 3,9 5,8 21,4 29,5 22,7 16,6 A15 3,49 1,43 10,1 13,3 28,2 24,0 13,6 10,7 A16 3,78 1,35 6,9 9,2 24,2 31,0 16,0 12,7 A17 3,48 1,51 12,1 14,7 24,4 22,8 14,0 12,1 A18 3,71 1,42 11,4 9,4 14,0 36,0 21,1 8,1 Avançando para a análise fatorial das respostas dos estudantes aos 18 itens, e tentando verificar se os mesmos se distribuem por dois fatores consoante a tonalidade positiva ou negativa das perceções dos efeitos do consumo de álcool, na tabela 6 apresentamos as saturações dos itens.
71 Para esta análise recorremos ao método das componentes principais e obtivemos os seguintes índices de factorização: KMO =.895 e teste de esfericidade de Bartlett: qui.quadrado = 2832.96, gl = 153, p < .001. Tomando o índice de Kaiser, apenas dois fatores apresentam valor-próprio igual ou superior à unidade, o que vai ao encontro do modelo teórico da escala que propõe dois fatores. Procedeu-se ainda a uma rotação varimax dos dois fatores identificados. Tabela 6 – Distribuição dos itens pelos dois fatores (rotação varimax) Componente 1 Perceções negativas 2 Perceções positivas h2 (Extração) A15 - Leva a comportamentos agressivos ou pouco sociáveis ,818 .71 A10 - Faz perturbar a ordem pública ou ter problemas com a polícia. ,798 .65 A16 - Provoca sequelas a nível físico ou psicológico. ,787 .63 A17 - Cria dependência e leva a consumir mais. ,770 .64 A11 - Provoca lapsos de memória, perde-se a consciência das coisas e o autocontrolo. ,763 .59 A12 - Conduz a consumos cada vez maiores por efeito da habituação. ,738 .55 A14 - Perturba a clareza das ideias e conversas ,706 .50 A9 - Permite perder objetos pessoais (telemóvel, carteira…). ,644 .42 A1 - Afetar negativamente a minha aprendizagem e rendimento académico. ,632 .43 A7Ficar embriagado coloca em perigo a vida dos outros ,607 .40 A13Permite passar melhor o tempo. ,816 .67 A18 - Aumenta a diversão. ,800 .70 A5 - Desinibe o contacto com novos colegas ,784 .62 A8 - Facilita ter experiências de vida significativas. ,777 .61 A2 - Ajuda a aliviar o stress ou as tensões. ,771 .62 A4 - Facilita a minha integração no grupo de pares. ,764 .58 A3 - Ajuda a esquecer os problemas. ,722 .53
72 A6 - Pode-se recuperar facilmente o funcionamento normal no dia seguinte - _ .28 Valor-Próprio 6.63 3,49 % de variância 36.82 19.36 Como podemos verificar, os itens distribuem-se pelos dois fatores, atingindo nos mesmos uma saturação mínima de 0.40. Este valor apenas não ocorre no item 6, “Pode-se recuperar facilmente o funcionamento normal no dia seguinte”, sugerindo um item com alguma ambiguidade de respostas por parte dos estudantes. A partir desta análise podemos assumir duas pontuações, ou seja, duas formas dos estudantes perceberem o consumo de bebidas alcoólicas: perceções positivas e perceções negativas. Em complemento da análise fatorial dos itens da escala, e prescindindo agora do item 6 pelas dificuldades atrás indicadas, avançamos para a análise da consistência interna dos itens para cada uma das duas dimensões. Para o efeito, calculámos o coeficiente alfa de Cronbach, e analisamos as correlações de cada item com o respetivo total de dimensão e ainda como ficaria o coeficiente alfa de cada dimensão se algum item fosse retirado. Na tabela 7, indicamos os valores da consistência interna dos itens para a dimensão das perceções negativas em relação ao consumo. Tabela 7 – Consistência interna dos itens da dimensão perceção negativa do consumo.
73 Observando o comportamento dos 10 itens desta dimensão, verificamos um valor elevado e muito positivo do coeficiente alfa para a subescala (.91), bem superior ao mínimo exigido de .75Também os valores de correlação entre cada item e o total da subescala são elevados, sempre superiores a .30. Da mesma forma, a atestar a qualidade dos itens e a sua homogeneidade interna, nenhum item, se for eliminado, faz subir o coeficiente alfa acima de .91. Na Tabela 8 apresentamos estes mesmos valores de análise para a subescala formada pelos itens de perceção positiva. Correlação de item total corrigida Alfa de Cronbach se item excluído A1 - Afetar negativamente a minha aprendizagem e rendimento académico. ,575 ,903 A7 - Ficar embriagado coloca em perigo a vida dos outros ,565 ,903 A9 - Permite perder objetos pessoais (telemóvel, carteira…). ,558 ,903 A10 - Faz perturbar a ordem pública ou ter problemas com a polícia ,735 ,892 A11 - Provoca lapsos de memória, perde-se a consciência das coisas e o autocontrolo. ,692 ,895 A12Conduz a consumos cada vez maiores por efeito da habituação. ,672 ,896 A14 - Perturba a clareza das ideias e conversas ,608 ,900 A15 - Leva a comportamentos agressivos ou pouco sociáveis ,787 ,889 A16 - Provoca sequelas a nível físico ou psicológico ,734 ,892 A17Cria dependência e leva a consumir mais. ,734 ,892
74 Tabela 8 – Análise da consistência interna dos itens da dimensão positiva dos efeitos do consumo Correlação de item total corrigida Alfa de Cronbach se item excluído A2 - Ajuda a aliviar o stress ou as tensões. ,700 ,874 A3 -Ajuda a esquecer os problemas. ,622 ,885 A4 - Facilita a minha integração no grupo de pares. ,666 ,879 A5 - Desinibe o contacto com novos colegas ,676 ,877 A8 - Facilita ter experiências de vida significativas. ,682 ,877 A13 - Permite passar melhor o tempo. ,741 ,870 A18 - Aumenta a diversão ,746 ,869 Como podemos verificar, os sete itens apresentam-se bastante correlacionados com o total da subescala formada pelos itens de perceções positivas em relação ao consumo (sempre com valores superiores a .60). O alfa para a subescala situa-se em .89 e nenhum item, se eliminado, faz este índice ultrapassar esse valor. 3.2. O consumo de álcool no mundo académico. Resultados dos inquéritos nas dimensões da escala Neste apartado do terceiro capítulo, apresentamos os resultados centrados na resposta às questões ou aos objetivos que prosseguimos com a realização da nossa dissertação. Em particular, pretendemos analisar eventuais diferenças nas perceções dos estudantes sobre os efeitos positivos ou negativos do consumo do álcool, tomando certas variáveis pessoais dos estudantes como, por exemplo, a variável género, assim como a relação entre tais perceções e comportamentos efetivos de consumo.
75 Assim, na Tabela 9 apresentamos os resultados dos inquéritos aos estudantes nas duas dimensões, tomando o total das pontuações dos itens integrados nas duas dimensões da escala. Aproveitamos para apresentar esta análise separando os estudantes em função do género. Tabela 9 – Resultados nas perceções segundo o género dos estudantes Género N Média Desvio Padrão Negativas Feminino 200 3,93 1,05 Masculino 88 3,89 1,05 Positivas Feminino 205 3,21 1,14 Masculino 89 3,37 1,08 Olhando os valores da média obtidos, verificamos ligeira superioridade da média nas alunas para as perceções negativas, e dos estudantes do sexo masculino para as perceções positivas. Mesmo assim, analisando as diferenças de médias entre os dois grupos de estudantes, não se observam diferenças estatisticamente significativas (teste t): perceções negativas (t = .268, gl = 286, p = .789) e perceções positivas (t = -1-115, gl = 292, p = .266). Estes dados vão ao encontro da fundamentação teórica que refere um aumento de consumo por parte das mulheres nos últimos anos, embora se observem algumas diferenças entre os homens e as mulheres, na forma de pensar as consequências do consumo de bebidas alcoólicas. De seguida, analisamos as correlações entre as perceções positivas e negativas dos estudantes com algumas variáveis pessoais e descritivas do seu consumo. Assim, correlacionamos perceções com a idade, com a idade do 1º consumo, com a qualidade da sua integração académica e com a quantidade de vezes que bebeu nos primeiros três meses na universidade. Quanto à sua perceção sobre a qualidade de integração no mundo académico, as opções de resposta eram as seguintes: 1: muito fácil, 3: fácil, 3: mais ou menos, 4: difícil, 5: muito difícil. Quanto à quantidade de vezes que bebeu, consideraram-se as seguintes opções de resposta: 1: nunca; 2: de 1 a 5 vezes; 3: entre 5 a 10 vezes; 4: entre 10 a 15 vezes; 5: entre 15 a 20 vezes; e 6: mais de 20 vezes. Esta análise recorreu ao coeficiente de correlação produto x momento de
76 Pearson. Na Tabela 10 apresentamos os coeficientes de correlação obtidos e a respetiva significância estatística. Tabela 10 – Correlações das perceções negativas e positivas com variáveis do estudante Idade Idade 1º consumo Integração académica Consumos últimos 3 meses Negativo ,148* ,184** ,085 -,179** Positiva -,049 -,117 -,122* ,220** Os valores dos coeficientes de correlação não são elevados, mesmo sendo significativos nalguns casos. Em relação às perceções negativas, ocorre uma correlação positiva com a idade dos sujeitos e também com a idade do 1º consumo. Por outras palavras, os estudantes mais velhos tendem a formar mais perceções negativas face ao consumo de bebidas alcoólicas. O mesmo acontece em relação à idade do primeiro consumo, ou seja, quanto mais tarde acontece o primeiro consumo de álcool, mais aumentam as perceções negativas face aos seus efeitos. Não existe relação com os níveis de integração percecionados; contudo, relativamente à taxa de consumos efetivos nos últimos 3 meses, verificamos uma correlação negativa, ou seja, mais consumo junto dos estudantes que têm menos perceções negativas. Estas conclusões reforçam a fundamentação teórica, segundo a qual os efeitos, positivos ou negativos, que a pessoa espera do consumo acabam por se revelar nos comportamentos. Assim, estes dados traduzem menor consciência dos riscos ou efeitos negativos associados ao consumo. Passando às perceções positivas, não existe correlação significativa com a idade dos estudantes, nem com a idade do 1º consumo (embora sendo negativa, traduzindo maiores perceções positivas por parte dos que iniciaram o consumo em idades mais precoces). Verifica-se uma correlação negativa com a perceção de integração. Existem mais perceções positivas por parte dos estudantes que avaliam menos qualidade na sua integração académica. Constata-se uma correlação positiva com as taxas de consumo nos últimos meses, ou seja, estudantes com perceções positivas consomem mais bebidas alcoólicas. Esta constatação leva-
77 nos à fundamentação teórica, que nos chamava a atenção para as expetativas, ou seja, as expetativas existentes junto dos jovens à entrada na universidade, expetativas que incluem, muitas vezes, o valor do álcool como facilitador de integração no mundo académico. 3.3. Correlação entre a existência de consumo no período de adaptação ao ensino superior e as perceções vividas Na tabela 11, apresentamos as diferenças consoante o estudante consumiu ou não álcool nos últimos 3 meses. Para análise das diferenças dos dois grupos de estudantes (consumiu e não consumiu), analisamos a comparação de médias através do teste t para amostras independentes. Tabela 11 – Diferenças nas perceções segundo consumo no período de adaptação ao ensino superior Perceções BEBEU NOS ÚLTIMOS 3 MESES N Média Desvio Padrão t gl Probab negativo Sim 229 3,74 ,96 -5.881 285 .000 Não 58 4,59 1,09 positiva Sim 233 3,46 1,03 5.845 290 .000 Não 59 2,56 1,17 Como podemos observar, os estudantes que consumiram nos últimos três meses, coincidentes com o seu tempo na universidade, apresentam médias mais baixas para as perceções dos efeitos negativos do consumo de álcool (estão menos de acordo com esses efeitos, ao contrário dos colegas que não consumiram). Em relação às suas perceções sobre os efeitos positivos do consumo de álcool, de novo se observa uma diferença com significado estatístico, sendo que aqui os estudantes que não consomem apresentam maior desacordo (ou mais reduzido acordo) acerca dos efeitos positivos do consumo. Estes dados vão de encontro à síntese bibliográgica segundo a qual a pessoa associa aos seus comportamentos o valor afetivo que atribui aos benefícios e aos riscos do consumo de bebidas alcoólicas.
84 Estes dados levam-nos às questões apontadas na fundamentação teórica que questionam o papel do álcool na integração no mundo académico, já que este é um momento de transição, um marco muito significativo na vida dos jovens e, ao mesmo tempo, provocador de grandes razões de stress induzido pelas diversas alterações na vida do estudante, um momento de grande preocupação com o desenvolvimento de novas relações. O álcool parece ter uma grande presença, sendo muito valorizado neste período como contributo para o desenvolvimento de novos grupos de pares. Desta forma, quem não bebe, indivíduos em quem predominem as perceções negativas em relação ao consumo de bebidas alcoólicas, tende a não participar nas praxes, a autoexcluírem-se de momentos que deveriam ter como principal objetivo a integração de novos alunos. 3.8. Correlação entre o consumo de bebidas alcoólicas no período de integração e a saída de casa A fundamentação teórica fala-nos da família como possível fator protetor ou de risco e do maior consumo de bebidas com álcool por parte dos estudantes que saíram de casa quando entraram na universidade. Neste estudo vamos analisar se a presença da família pode ou não proteger o uso ou abuso de bebidas alcoólicas. Para este efeito, perguntamos aos jovens se, ao entrarem na universidade, se viram obrigados a sair da casa onde viviam até esse momento e correlacionamos estas respostas com os comportamentos de consumo. Curiosamente, não encontramos, na nossa amostra, um aumento de consumo de bebidas alcoólicas na entrada no Ensino superior por parte dos estudantes que saíram de casa dos seus pais para frequentarem a universidade. No entanto, olhando as crenças/perceções sobre o consumo de bebidas alcoólicas, verificamos uma correlação baixa, mas significativa entre a existência de perceções mais positivas por parte dos estudantes que saíram de casa dos pais (da casa onde viviam antes) (r=.13; p<.05). Podemos concluir que, tal como nos indica a literatura, os fatores protetores devem ser trabalhados o mais precocemente possível. Nesta idade não é a presença dos pais que vai proteger estes jovens, mas sim a sua capacidade de se informarem e transportarem os seus conhecimentos para as suas decisões, ou seja, a sua literacia em saúde, tal como foi já descrito neste trabalho.
85 CONCLUSÃO Pelos vários motivos referidos ao longo deste trabalho, é cada vez mais importante, prolífera e urgente a investigação que permite identificar os fatores de risco e os fatores protetores face ao consumo de álcool pois, se por um lado este consumo é o responsável por graves problemas de saúde pública, por outro lado a sua produção tende a aumentar, tanto em quantidade como na variedade de ofertas, respondendo aos vários interesses também aqui referidos. Sabemos, pelos estudos que se têm realizado ao longo dos anos, que estes fatores podem atribuir-se quer ao nível individual, quer, também, aos níveis familiar, contextual, escolar e comunitário. No que diz respeito a esta investigação, centramo-nos num grupo e contexto específico: os estudantes da universidade na fase de integração na vida académica. Procuramos entender os comportamentos deste grupo face ao consumo de bebidas alcoólicas e as suas perceções, negativas ou positivas, face a estes consumos. Relacionamos estes dados com a perceção sobre a sua adaptação a esta fase e com os seus comportamentos ao longo do ensino secundário. Numa amostra constituída por 308 estudantes em fase de adaptação ao mundo académico (três primeiros meses) na Universidade do Minho, a maioria (88,2%) considera que a sua integração foi fácil ou mais ou menos fácil, sendo que 89,3% mantém as amizades já existentes ao longo do ensino secundário e 97,7% do total dos respondentes já construíram novas amizades após a entrada na universidade. 62,8% participaram nas atividades de praxe (rituais de integração no mundo académico, na maioria das vezes associados a consumo de bebidas alcoólicas). Em relação ao consumo de bebidas alcoólicas, 91,6% destes jovens ingeriu bebidas alcoólicas alguma vez ao longo da sua vida, sendo que 79,5%, bebeu pela primeira com 16 ou menos anos de idade. Ao longo do secundário, 58,1% já praticou padrão de consumo binge drinking no período que antecede a entrada na universidade. Em relação ao período de integração (3 primeiros meses), 79,8% diz já ter consumido alguma bebida com álcool e 58% já praticou binge drinking.
86 Como conclusões mais relevantes deste estudo, podemos ver algumas diferenças entre os homens e as mulheres na forma de pensar as consequências do consumo de bebidas alcoólicas. No entanto, não falamos de diferenças muito significativas, o que reforça as mudanças observadas nos últimos anos e que a literatura nos mostra. Este estudo permitiu-nos ver a importância da idade do primeiro consumo, ou seja, quanto mais tarde acontece o primeiro consumo de álcool, mais aumentam as perceções negativas face aos seus efeitos. Por outro lado, os estudantes que tiveram a sua primeira experiência de consumo mais cedo são aqueles que tendem a beber mais vezes e maior número de bebidas por noite ou festa. Isto acontece ao longo do ensino secundário, assim como no momento de integração na universidade. Perante estes dados, concluímos que retardar a idade do 1º consumo rsignifica promover um fator protetor. Verificámos uma correlação estatisticamente significativa entre o número de vezes que estes estudantes ingeriram bebidas alcoólicas ao longo do secundário e o número de vezes que o fizeram ao longo dos primeiros 3 meses de integração no ensino superior. Concluímos que os estudantes que bebem mais vezes no período de integração são os que já bebiam mais vezes álcool antes de entrar na universidade. Quanto às quantidades, quem bebe em maior quantidade (por noite ou festa) são os estudantes que já o faziam anteriormente. As experiências vividas no período que antecede tendem a reproduzir-se e a influenciar a tomada de decisões neste período. Estas conclusões remetem-nos para a necessidade de intervenção preventiva universal, de maneira a reduzir as probabilidades de consumo precoce. Ou seja, o nosso foco não serão os estudantes no ensino superior, mas sim o consumo anterior a este momento. Quando, em determinado momento, referíamos que a lei protege até aos 18 anos, a verdade é que estes dados mostram que os nossos jovens não estão protegidos, tendo em conta que grande parte bebeu antes de completar os 18 anos. Por outro lado, verificámos a presença de mais consumo por parte dos estudantes que têm menos perceções negativas, ou, em alternativa, apresentam mais perceções positivas. Estes dados reforçam a ideia de que os efeitos, positivos ou negativos, que a pessoa espera do consumo acaba por se revelar nos comportamentos. Assim, estes dados traduzem que menor consciência dos riscos ou efeitos negativos associados ao consumo levam a maior consumo. Concluímos que as ações de prevenção devem apostar em estratégias que promovam perceções
87 negativas e reduzam as condições para desenvolver perceções positivas face ao álcool. Devem promover a informação, a reflexão, a consciência dos riscos e a capacidade de tomar decisões. Se, por um lado, este estudo mostra que os estudantes com perceções positivas iniciaram o consumo em idade mais precoce, estes estudantes com perceções positivas consomem mais bebidas alcoólicas (mais vezes e mais quantidade por noite/festa), seja no ensino secundário, seja no ensino superior. Mais uma vez, as apostas preventivas devem garantir o adiamento das primeiras experiências pois, desta forma, reduzem a probabilidade de se desenvolverem perceções positivas. Além disso, quanto menos existirem perceções positivas sobre o álcool, menor é a probabilidade de o consumirem. Os jovens que não usam precocemente o álcool como “lubrificante social”, como facilitador de integração e de desenvolvimento de relações, veem-se obrigados a desenvolver outras estratégias para este fim e, consequentemente, não sentirão a mesma necessidade deste consumo no momento de estabelecer novas relações na adaptação à universidade. Não se verifica, neste estudo, que a prática de atividades lúdicas e/ou desportivas se possa considerar um fator protetor face ao consumo de álcool; pelo contrário, levanta-se a questão: será que o álcool é usado nas atividades de lazer e, por este motivo, esta forma de consumo está a contribuir para a construção de perceções positivas? Esta é uma limitação deste estudo que seria importante analisar. Quanto à participação nas praxes, parece que têm maior adesão por parte dos estudantes que mostram maior acordo com os efeitos positivos do consumo do álcool; os estudantes que mostram maior acordo em relação às perceções negativas participam menos nestas atividades de integração no mundo académico. Surge assim uma questão: poderão as atividades de receção a quem chega à universidade não estar adequadas a quem não bebe e, deste modo, levarem à promoção do consumo? Quanto aos estudantes que saem de casa dos pais para frequentar a universidade, este estudo não revela preocupações acrescentadas quanto ao consumo de bebidas alcoólicas. Mais uma vez se reforça a necessidade de prevenção precoce, centrada nas perceções dos indivíduos, pois não é a presença da família que os impede de beber. Como limitação deste estudo referimos dois aspetos: seria importante estudar as diferenças de consumo de bebidas alcoólicas nos estudantes do ensino superior que foram envolvidos em
88 programas de prevenção no período antecedente e os que não foram. Além disso, é de grande importância a realização de um estudo longitudinal que permita ver as consequências destes consumos ao longo do percurso académico dos estudantes, relacioná-lo de forma sistemática com o aproveitamento académico e com a permanência e conclusão dos seus cursos, assim como na transição para o mundo laboral destes jovens adultos. Perante os resultados obtidos, e tendo em conta o levantamento literário apresentado, é alicerçado persistir na necessidade de promover programas de intervenção preventiva a acontecer o mais precocemente possível, programas esses que envolvam não só o indivíduo, mas também a família e o grupo de pares. É muito importante que estas intervenções permitam evitar o desenvolvimento de perceções positivas sobre o consumo de álcool, retardar o mais possível o primeiro consumo, evitando o consumo de bebidas alcoólicas ao longo do ensino secundário. Estes programas devem incluir medidas que facilitem o desenvolvimento de competências psicossociais facilitadoras do desenvolvimento de relações e bem-estar pessoal. Os dados obtidos neste trabalho mostram que o trabalho realizado na infância e adolescência, em particular durante o ensino secundário, vai contribuir para reduzir o consumo excessivo de álcool no Ensino Superior. A alteração das atividades da praxe, atividades de integração no mundo académico, a colocação de regras bem definidas para estas atividades e a consequente proibição do consumo de bebidas alcoólicas nos festejos, seria um contributo muito grande para a redução destes consumos no período de integração.
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102 ANEXOS – Inquérito aos estudantes Caro(a) Estudante Gostaríamos de pedir a sua participação voluntária neste estudo conducente a uma tese de mestrado acerca das perceções sobre o consumo de álcool em estudantes do Ensino Superior e sua relação com os padrões de consumo. As suas respostas são anónimas e toda a confidencialidade será respeitada no tratamento dos dados. A sua participação é voluntária, e muito agradecemos a sua participação e as suas respostas com sinceridade. Obrigados 1.CARACTERIZAÇÃO SÓCIO-DEMOGRÁFICA E ESCOLAR Idade: 󠆲 Sexo: F☐ M☐ Ano do curso: Este curso foi a sua escolha (indique a ordem de escolha) Está satisfeito com o curso que frequenta? S☐ N☐ De 1 a 5, em que medida lhe está a ser fácil acompanhar as matérias? (1: muito fácil, 2: alguma facilidade, 3: fácil, 4: um pouco difícil, 5: muito difícil). Entrar na universidade obrigou a sair da casa onde vivia? S☐ N☐ Se sim, onde vive em tempo de aulas? ☐(1: residencial académica, 2: apartamento partilhado, 3: sozinho, 4: casa de familiar, 5: outro). Durante um mês, quantas vezes vai à casa dos pais ou família? 2. CARACTERIZAÇÃO DA REDE SOCIAL DURANTE O ENSINO SECUNDÁRIO Durante o ensino secundário tinha um grupo de amigos? S☐ N☐ Praticava atividades lúdicas ou desportivas? S☐ N☐ Após entrada na universidade, mantém-se em contacto com esses amigos? S☐ N☐ Após entrada na universidade, mantém as atividades lúdicas ou desportivas? S☐ N☐ 3. CARACTERIZAÇÃO DA INTEGRAÇÃO NO MEIO ACADÉMICO. Quando entrou na universidade, já conhecia alguém que a frequentasse? S☐ N☐ De 1 a 5, como considera que foi a sua integração no mundo académico ☐ (1: muito fácil, 3: fácil, 3: mais ou menos, 4: difícil, 5: muito difícil). Já construiu amizades? S☐ N☐ Se sim, considera que pode contar com esses amigos em momentos difíceis? S☐ N☐
103 Iniciou a prática de alguma atividade lúdica ou desportiva? S☐ N☐ Participou nas atividades/rituais da praxe? S☐ N☐ 4. CARACTERIZAÇÃO DOS PADRÕES DE CONSUMO DE ÁLCOOL Alguma vez, na sua vida, bebeu bebidas alcoólicas? S☐ N☐ Se sim, com que idade bebeu a 1º vez? Ao longo do ensino secundário ingeriu bebias alcoólicas? S☐ N☐ Quantas vezes bebeu? Nunca ☐ Entre 1 a 5 vezes ☐ Entre 5 e 10 vezes ☐ Entre 10 e 15 vezes ☐ Entre 15 a 20 vezes ☐ mais de 20 vezes ☐ Em que momentos costumava beber? Em festas pontuais ☐ Em bares ao fim de semana à noite ☐ Em bares, em qualquer dia da semana à noite ☐ Em casa ☐ Quando estou com amigos, em qualquer hora do dia ☐ Sozinho ☐ Qual foi o número máximo de bebidas numa noite ou numa festa? Nos últimos 3 meses ingeriu bebidas alcoólicas? S☐ N☐ Quantas vezes bebeu? Nunca ☐ Entre 1 a 5 vezes ☐ Entre 5 e 10 vezes ☐ Entre 10 e 15 vezes ☐ Entre 15 a 20 vezes ☐ mais de 20 vezes ☐ Em que momentos costuma beber? Em festas pontuais ☐ Em bares ao fim de semana à noite ☐ Em bares, em qualquer dia da semana à noite ☐ Em casa ☐ Quando estou com amigos, em qualquer hora do dia ☐ Sozinho ☐ Qual foi o número máximo de bebidas numa noite ou numa festa? O preenchimento do questionário terminou. Por favor confirme se respondeu a todas as questões. Muito obrigado pela sua preciosa colaboração.
104 PERCEPÇÕES SOBRE O CONSUMO DE ALCOOL EM ESTUDANTES DO ENSINO SUPERIOR L. S. Almeida & J. R. Casanova, 2017 Instruções Nas frases seguintes estão elencadas vivências associadas ao consumo de álcool. Por favor analise o conteúdo de cada frase e expresse o seu grau de acordo com a afirmação, pontuando de 1 até 6 consoante o seu nível de acordo (de 1 totalmente em desacordo a 6 totalmente de acordo). Totalmente em desacordo Bastante em desacordo Algum desacordo Algum acordo Bastante de acordo Totalmente de acordo 1.Afetar negativamente a minha aprendizagem e rendimento académico. 1 2 3 4 5 6 2.Ajuda a aliviar o stress ou as tensões. 1 2 3 4 5 6 3.Ajuda a esquecer os problemas. 1 2 3 4 5 6 4.Facilita a minha integração no grupo de pares. 1 2 3 4 5 6 5.Desinibe o contacto com novos colegas. 1 2 3 4 5 6 6.Pode-se recuperar facilmente o funcionamento normal no dia seguinte. 1 2 3 4 5 6 7.Ficar embriagado coloca em perigo a vida dos outros. 1 2 3 4 5 6 8.Facilita ter experiências de vida significativas. 1 2 3 4 5 6 9.Permite 󠆲perder 󠆲objetos 󠆲pessoais 󠆲(telemóvel, 󠆲carteira…). 1 2 3 4 5 6 10.Faz perturbar a ordem pública ou ter problemas com a polícia. 1 2 3 4 5 6 11.Provoca lapsos de memória, perde-se a consciência das coisas e o autocontrolo. 1 2 3 4 5 6 12.Conduz a consumos cada vez maiores por efeito da habituação. 1 2 3 4 5 6 13.Permite passar melhor o tempo. 1 2 3 4 5 6 14.Perturba a clareza das ideias e das conversas. 1 2 3 4 5 6 15.Leva a comportamentos agressivos ou pouco sociáveis. 1 2 3 4 5 6 16.Provoca sequelas a nível físico ou psicológico. 1 2 3 4 5 6 17.Cria dependência e leva a consumir mais. 1 2 3 4 5 6 18.Aumenta a diversão. 1 2 3 4 5 6