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Universidade do Minho Escola de Psicologia Francisco Luís de Carvalho Pereira Transfobia dentro da comunidade LGBTQ+ e o crescimento do movimento LGB Alliance Outubro de 2022 Transfobia dentro da comunidade LGBTQ+ e o crescimento do movimento LGB Alliance Francisco Luís de Carvalho Pereira Uminho |2022
Francisco Luís de Carvalho Pereira Transfobia dentro da comunidade LGBTQ+ e o crescimento do movimento LGB Alliance Dissertação de Mestrado Mestrado Integrado em Psicologia Trabalho efetuado sob a orientação do Professora Doutora Luísa Saavedra Outubro 2022
ii Agradecimentos Os meus agradecimentos vão: Para o meu namorado que me acompanhou e sempre me deu forças para continuar. Para a minha família, nomeadamente a minha mãe que me proporcionou esta oportunidade e que sempre me apoiou. Para os meus amigos que me ajudaram ao longo do curso, e que me acompanharam ao longo de noites tardias e momentos de cansaço. Por fim, para a minha queria orientadora, Luísa Saavedra, que muito me ensinou e ajudou-me a realizar o meu objetivo de ajudar a comunidade LGBTQ+. Direitos de autor e condições de utilização do trabalho por
iii terceiros Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição-NãoComercialSemDerivações CC BY-NCND https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/ (Francisco Luís de Carvalho Pereira) Universidade do Minho, 17 de Outubro 2022 Declaração de integridade
iv Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. Universidade do Minho, 17 de Outubro de 2022 (Francisco Luís de Carvalho Pereira)
v Transfobia dentro da comunidade LGBTQ+ e o crescimento do movimento LGB Alliance Resumo A recente fundação e legitimação do movimento LGB Alliance, um movimento que tem como objetivo excluir a comunidade trans da comunidade LGBTQ+, provocou interesse em investigar a possível existência de discriminação contra este grupo dentro da comunidade LGBTQ+, em Portugal. A partir de um estudo qualitativo foi analisada a existência de transfobia dentro da comunidade LGBTQ+ e o crescimento do, recentemente formado, movimento trans excludente LGB Alliance. Para realizar esta análise foram feitas entrevistas semiestruturadas a pessoas trans da comunidade LGBTQ+ com o intuito de abordar as suas experiências e pontos de vistas sobre este tema. Participaram 14 pessoas trans (transgéneras e não-binárias) todas com mais de 18 anos. Este estudo utilizou a experiência pessoal com transfobia de pessoas trans para entender melhor não só a existência de transfobia dentro da comunidade LGBTQ+ como também o que a motiva. Foi possível concluir que a discriminação presente na comunidade LGBTQ+ não só providencia de falta de informação sobre questões trans como também da pressão da discriminação sofrida pelas outras partes da comunidade. Também foi possível concluir que existe a possibilidade de expansão do grupo LGB Alliance e que esta expansão poderá estar associada ao crescimento da extrema-direita em Portugal. Palavras-chave: LGBTQ+; trans; discriminação
vi Transphobia within the LGBTQ+ community and the growth of the movement LGB Alliance Abstract The recent creation and legitimation of the movement LGB Alliance, a movement which intends to exclude the trans community from the LGBTQ+ community, has raised interest in investigating a possible existence of transphobia within the LGBTQ+ community, in Portugal. Using a qualitative study, the growth of this movement and the possible presence of transphobia within the LGBTQ+ community was analyzed. To do this analysis, semi structured interviews were conducted to trans people with the objective to analyze their experiences and viewpoints on this subject. There were 14 participants (transgender and nonbinary) all over 18 years old. This study used the personal experience with transphobia to better understand not only the existence of transphobia within the LGBTQ+ community but also what motivates it. With the results it was possible to conclude that the transphobia present within the LGBTQ+ community not only originates from a lack of knowledge about the trans experience but also from the pressure originated from the discrimination suffered by the LGBTQ+ community in general. It was also possible to conclude that that there is a possibility for expansion of the LGB Alliance and that it might be associated with the recent growth of the far-right movement in Portugal. Key words: LGBTQ+; trans; discrimination
vii Índice Introdução ........................................................................................................................... 1 Metodologia ......................................................................................................................... 4 Instrumentos ...................................................................................................................... 4 Participantes ...................................................................................................................... 5 Procedimentos ................................................................................................................... 6 Resultados............................................................................................................................ 6 Dificuldades da comunidade trans na sociedade atual ........................................................ 6 Transfobia dentro e fora da comunidade LGBTQ+ ............................................................ 8 Motivações para transfobia dentro e fora da comunidade LGBTQ+ ................................... 9 LGB Alliance .................................................................................................................. 11 Discussão ........................................................................................................................... 12 Conclusão .......................................................................................................................... 14 Referências ........................................................................................................................ 16 Anexos ............................................................................................................................... 18 Índice de tabelas Tabela 1 ................................................................................................................................ 5
7 com outros membros da comunidade LGBTQ+ devido a ser mais difícil serem aceites mesmo dentro da própria comunidade Como referiu G “pessoas trans tem muita mais dificuldade em dar come out do que pessoas LGB, porque dentro da própria comunidade é mais difícil serem aceites”. A expressão de género é complexa durante as fases iniciais da transição devido a não alinhar com a identidade de género e poder criar alguma confusão em círculos sociais, esta ideia foi mencionada por W, quando questionado acerca das dificuldades enfrentadas pela comunidade trans, “principalmente nas fases iniciais de transição (…) quando ainda não está tão assim, talvez meio andrógeno, não está bem alinhado a identidade de género, pode ser um pouco confuso para as pessoas”. Também foram mencionadas dificuldades no local de trabalho e em atividades diárias como compras no supermercado tal como foi mencionado por L “problemas em termos de trabalho (podemos ser despedidos, há violência e crimes cometidos contra pessoas trans há todo um, pronto…principalmente, na falta de um melhor termo, pessoas que são obviamente trans são alvo de muita violência”. Dificuldade no uso de aplicações de encontros também foi mencionada por S, e por L “duas pessoas gays não vão andar com um homem trans porque pensam que ele ainda é uma mulher”. Para além disto também foram mencionadas possíveis perguntas intrusivas relativas ao processo de transição como a nome morto entre outras, “(…) como perguntar qual é o nome morto da pessoa acontece tanto na comunidade como fora da comunidade” para além disto também foram mencionados certos comentários incomodativos feitos por pessoas cisgéneras devido ao carácter invalidador da identidade de género “porque acaba por ser uma coisa muito pessoal e nem toda a gente se sente muito confortável para dizer o que se esta a passar e depois quando tu acabas por dizer, ouves “eu não entendo…não acredito que isso exista “ é ….ou o “entendo mas não respeito”… e isso ainda é pior o “ entendo mas não respeito” algo que foi mencionado por D. Também relativamente ao conceito de não binário, P afirmou haver bastante complicação no que toca a explicar esse conceito devido a provocar bastante confusão, “(…) o conceito de não binário, é um conceito muito estranho para eles e para explicar não sei se ia ter a energia suficiente (…)”, este mesmo participante também mencionou que dentro da comunidade Não-Binária existe uma dificuldade acrescida no que diz respeito ao uso apropriado dos pronomes escolhidos, devido a não saberem como aplicar os mesmos “Seja os pronomes que forem eu vou come-los porque não vale a pena , por muito que eu tente a maioria
8 das pessoas não vai saber como aplicar os pronomes neutros em português sequer, isso acho que é mais uma das dificuldades que nós passamos na comunidade não binária (..)”.Para além disto, F mencionou que por questões de segurança alguns amigos não-binários optam por utilizar pronomes mais de acordo com a sua aparência para evitar conflitos “muitos dos meus amigos são não binários, por isso vejo muitas situações em que eles dizem 'pronto vou usar estes pronomes que vão de acordo com o meu aspeto para estar segura, para saber que nada me vai acontecer, para saber que não me vou magoar’”. Por fim D, também mencionou uma dificuldade relativamente a mulheres trans e a discriminação intersecional por serem trans e mulheres “No meu caso, enquanto mulher trans, também sofro um duplo preconceito que é o facto de ser mulher e o facto de ser trans”. Transfobia dentro e fora da comunidade LGBTQ+ Passando agora aos temas de transfobia na sua generalidade e transfobia dentro da comunidade LGBTQ+, existe um geral consenso entre os participantes que a transfobia proveniente da sociedade geral é mais intensa e também por norma mais física em comparação à da comunidade LGBTQ+. Segundo os participantes, os atos transfóbicos dentro da comunidade LGBTQ+ consistem principalmente em questionar e desacreditar a experiência trans nos seus vários parâmetros, de dizer que não é real ou que é algo de inventado como refere G no seguinte excerto: “As pessoas não veêm pessoas trans como seres reais, mas mais como 'oh esta pessoa está a tentar mudar e depois vai acabar por querer ser o que era antes, é tudo uma fantochada' 'a tentar brincar' 'se querem ser outra pessoa, porque é que não são só cross-dressers? Porquê por esses rótulos?'. Esta transfobia é demonstrada em variados atos como através de perguntas intrusivas acerca da transição, ou se alguma vez essa mesma transição vai ser revertida como é referido por N “(…) pode ocorrer ao mesmo nível porque se uma pessoa for confrontada com termos de pensar como responder à questão de “qual era o teu nome antes” ou “já transacionaste” ou qualquer coisa relacionada com a genitália ou com o corpo da pessoa ou com as hormonas ou com aquilo que for”. Três entrevistados também referiram ocasiões em que foram confrontados com comentários relativos à forma como se deveriam apresentar. Ddois referiram que por vezes lhes é dito que devem tentar passar por cisgéneros para serem aceites, “viver uma vida ‘normal’ e ser ‘normal’ e isso no que toca à comunidade trans é mais a nível de 'não tu és trans ok eu aceito, mas tens que passar enquanto pessoa cis e tens que ser lowkey e tens que ser uma pessoa discreta para depois não te vires queixar que sofres disto ou daquilo'” M, refere aqui uma
9 comparação entre a homofobia internalizada que por vezes se vocaliza num discurso acerca de como pessoas homossexuais devem tentar ser como pessoas heterossexuais, e a transfobia que por vezes ocorre tanto dentro como fora da comunidade LGBTQ+. S referiu que já lhe foi dito que deveria se apresentar como homem e não como mulher trans em contexto médico, o que provoca bastante desconforto numa pessoa trans por ser uma clara oposição à identidade de género da mesma. Esta mesma entrevistada também reporta ter-se sentido bastante rejeitada por pessoas LGBTQ+ e também refere observar situações nas quais pessoas que afirmam apoiar a comunidade LGBTQ+, acabam por na prática cometer vários atos transfóbicos “(..) vês coisas loucas ditas por pessoas que afirmam ser esquerdistas e que afirmam fazer parte da comunidade LGBT, mas claramente tem um problema com pessoas trans estarem nos mesmos espaços que eles.” Alguns dos participantes também referiram já ter sofrido um certo nível de Gatekeeping na forma de tentar diferenciar o que é trans suficiente para estar dentro ou fora da comunidade. Esta diferenciação ocorre por norma em relação às operações de redesignação sexual e segundo a décima segunda participante pode ocorrer até dentro da comunidade trans, “Até por parte de pessoas transgéneras sinceramente. Uma coisa que acontece muito infelizmente, é a distinção entre os ditos verdadeiros trans e os que não fizeram as cirurgias ou que não fazem tratamento hormonal. Esses tipos de situações ainda acontecem dentro da comunidade LGBT mesmo dentro da comunidade trans.” Outra das formas como transfobia ocorre é, tal como já foi referenciado acima, a recusa ou mau uso de pronomes relativos a uma pessoa trans com uma maior incidência em pessoas não binárias devido ao desconhecimento geral sobre opções neutras na língua portuguesa. Motivações para transfobia dentro e fora da comunidade LGBTQ+ No que diz respeito às motivações para a transfobia em geral os participantes apontaram dois principais temas, o primeiro a falta de conhecimento sobre questões trans sendo esta a principal fonte e alguns apontaram que essa falta de conhecimento na sua maioria não é maliciosa. S quando questionada sobre o que motiva a transfobia dentro da comunidade LGBTQ+ referiu que considera que a mesma na sua maioria não é maliciosa “aquilo que me parece é que não é malicioso ou propositadamente danificante, pode ser, mas grande parte das vezes não é”. Começando pela falta de conhecimento, a maioria dos entrevistados aponta que a mesma alimenta estigmas relativamente a comunidade trans, nomeadamente no que toca às relações amorosas, às operações de transição, a uma visão rígida sobre o género e o não uso
10 dos pronomes adequados. Esta ignorância sobre questões trans, segundo alguns entrevistados, deve-se a quatro principais razões: a falta de contacto com pessoas transgéneras, baixa empatia com a comunidade trans, a falta de recursos informativos e por fim não estarem abertas a informação. Este último ponto foi referido por D quando questionada acerca das motivações para a transfobia “Acima de tudo, creio que é falta de informação. Muitas pessoas estão pouco informadas sobre o que é que é ser transgénero e algumas simplesmente não estão dispostas a querer informar-se sobre o assunto. Acho que esse é o principal motivo, é a falta de informação, e a ignorância mesmo.” A falta de empatia pela comunidade trans pode estar associada à falta de contacto das pessoas transfóbicas com pessoas trans, algo que é referenciado por V quando questionada acerca das justificações do movimento LGB Alliance “O facto de pessoas não binárias existirem e em si o conceito de sexo e de género, ambos conseguem ser muito ambíguos e tem ambos um espetro que não pode ser bem definido e então é mesmo a falta de conhecimento que para mim é a base de casos assim e às vezes as pessoas não conseguem pôrse nos sapatos umas das outras e isso complica a empatia entre elas por isso acho que é um problema grave obviamente”. Por fim no que toca à falta de recursos, esta escassez de conteúdo informativo sobre a comunidade trans serve apenas para alimentar a desinformação e assim também a transfobia, algo que é mencionado por L “Há uma falta de educação para o publico em geral e não temos exatamente literatura à qual nos agarrarmos tanto como comunidade LGBT como publico em geral, não temos nada que nos informe a não ser os mídia em geral, que não são o melhor exemplo de informação sobre nada e penso que é muito difícil encontrarmos a informação correta para sabermos como é que as pessoas são.”. Passando agora à parte das dinâmicas de poder dentro da comunidade LGBTQ+ duas ideias foram apresentadas, a da necessidade de alguns membros LGB de atacar pessoas trans devido à discriminação sofrida pelos membros cisgéneros e a visão de que a luta trans afeta a luta LGBTQ+. J refere que sente que principalmente os homens gays repetem a discriminação que sofrem na comunidade trans numa tentativa de se poderem sentir mais empoderados na sociedade, esta ideia também é acompanhada de uma possível justificação dada pelo entrevistado acerca deste fenómeno. Esta justificação seria a visibilidade de homens gays, pois apesar de estarem mais avançados na luta pela igualdade de direitos também os colocou durante bastante tempo na linha da frente dos ataques da sociedade em geral contra a comunidade LGBTQ+, “(…) acho que os homens cisgéneros homossexuais como são uma comunidade muito visível dentro da nossa comunidade, são a linha da frente para o público geral, acabam por levar um excerto de porrada da sociedade e acabam por pensar 'isto é uma grande porcaria
11 vocês vão levar por tabela' isto é feito muitas vezes de forma inconsciente, mas forma inconsciente como mecanismo de defesa.”. No que toca ideia da possibilidade de a comunidade LGBTQ+ ser afetada pela luta da comunidade trans P toca neste assunto e refere que alguns membros cisgéneros tentam se afastar da comunidade trans para se poderem aproximar da visão cisgénera e heterossexual. “eu acho que isso trás uma nova ameaça por sermos todos parte da mesma comunidade parece que é só mais uma luta que as pessoas que não são trans tem que lutar como se tivessem que lutar connosco, eu acho que é o querer fazer parte e ser aceite das pessoas não trans e por essa razão ao excluir-nos, a luta deles depois torna-se mais fácil ou seja ‘nós somos não heterossexuais, mas nós não nos damos com aqueles que alem disso tem identidade de género’ e é este distanciamento eu acho.” LGB Alliance Quando questionados acerca da LGB Alliance a maioria dos participantes, não tinha informação prévia sobre este grupo e após o mesmo ter sido explicado considerou o movimento como sendo intrinsecamente transfóbico e imoral devido à sua tentativa de se separar da comunidade LGBTQ+ e às ideias e focos transfóbicos. Também foi considerado que existe uma grande possibilidade de um grupo destes encontrar apoiantes em Portugal. As justificações deste grupo são vistas pelos participantes como conservadoras e provenientes de desinformação sobre questões trans o que acaba por se relacionar com a ideia de que a desinformação é a principal causa da transfobia. Alguns participantes apontam também que ignora por completamente a interseccionalidade entre as várias lutas, “(…) há pessoas trans que são gays, bis e que são lésbicas portanto não temos como separar as duas identidades não temos como separar as duas comunidades.”. Também existe uma grande sensação de frustração por parte dos participantes devido às origens da comunidade LGBTQ+ nomeadamente os eventos de Stonewall e o peso que pessoa trans tiveram nesses eventos. J também apontou que uma das razões para ver a separação como incorreta deve-se ao impacto que a luta pelos direitos trans tem nos papeis de género “(…) o movimento feminista, o movimento pelos direitos de casamentos do mesmo género ganham muito quando os direitos trans ganham devido à questão da questão da ideologia de género, pois desafia os papéis de género o que acaba por beneficiar as relações cisgéneras, pois primeiro destrói a frase de quem é o homem e quem é a mulher da relação.”. No que toca a uma possível expansão deste grupo para Portugal existe uma associação entre essa possibilidade e o crescimento da extrema-direita que se demonstra na maioria dos
12 participantes. P, quando questionado acerca da possibilidade de expansão para Portugal refere não só o crescimento recente da extrema-direita em Portugal como também o geral desconhecimento da sociedade em relação à comunidade trans “Sim ,acho que sim, acho que especialmente com o crescimento, agora, da extrema direita em Portugal não tenho duvidas que a LGB Alliance se possa expandir para aqui até porque a comunidade trans é vista como uma anormalidade, uma percentagem muito pequena das pessoas é transgénero no mundo inteiro, (…)”. Apesar disto, alguns participantes referem que apesar de reconhecer a possibilidade deste movimento se expandir para Portugal, também acham que em Portugal não existe a organização necessária para formar um grupo como este. Esta ideia é mencionada por J quando questionada sobre a possibilidade do grupo se estabelecer em Portugal “Sinto que há pessoas para isso e há revolta sobre isso especialmente com o crescimento da extrema-direita que pode levar a isso. Pergunto-me se há organização logística para tal pois parece-me que em Portugal as pessoas que tem esta posição têm um discurso muito nas redes sociais e na rua mandam boca, mas acho que não tem a capacidade de juntar num grupo e fazer um trabalho conciso.” Discussão Numa primeira análise dos resultados podemos denotar uma clara semelhança entre os pontos levantados pelos entrevistados e a literatura disponível sobre este tema. Também podemos observar que na sua maioria a transfobia dentro da comunidade LGBTQ+ tem origem em causas exteriores à comunidade e que existe o risco do grupo LGB Alliance se formar em Portugal devido à associação de transfobia com o crescimento da extrema-direita. No que toca à transfobia geral vários participantes referiram um certo nível de hostilidade e isolamento social. Esta hostilidade toma várias formas tanto físicas como verbais algo que vai de encontro ao referido por Bettcher (2013) quando aborda o significado de transfobia: “Eu uso o termo transfobia não exatamente no medo de pessoas trans, mas simplesmente em quaisquer atitudes negativas (ódio, repulsa, raiva ou indignação moral) utilizadas contra pessoas trans com base na sua transgeneridade”. Estes pontos referidos pelos participantes expõem um claro problema de transfobia presente em Portugal que, apesar de tomar um grau mais suave, infelizmente também está presente na comunidade LGBTQ+ e que afeta o dia-a-dia da comunidade trans portuguesa. Enquanto que muitos gays e lésbicas sentem que ‘bissexual’ e ‘transgénero’ são simplesmente nomes para partes dentro da sua comunidade, outros ativamente
13 rejeitam a ideia que bissexuais ou transgéneros são parte da sua comunidade, vendo-os como inteiramente separados e distintos. Heterossexismo contra bissexuais e transgéneros existe não só na comunidade heterossexual, como também na comunidade gay e lésbica. (Weiss, 2003, p.29) Seguindo o discurso dos participantes também foi denotada uma sensação que apesar da transfobia dentro da comunidade LGBTQ+ ser mais suave, as motivações são bastante semelhantes dentro e fora da comunidade e podem ter origem na pressão social causada pela discriminação com base na orientação sexual. Uma possível explicação para isto pode estar presente na história da luta pelos direitos homossexuais e o esforço de utilizar uma narrativa focada no argumento “somos iguais a vocês”. Outra possível explicação está presente na ideia entre algumas pessoas LG de que a existência de pessoas transgénero elimina a existência de identidades gays e lésbicas ao tornarem-se no sexo oposto. (Weiss, 2003) Estas posições criam a existência de duas formas de contrariar a comunidade trans, a primeira seria que pessoas trans são ‘demasiado’ queer pois afastam-se mais da cultura cisheteronormativa e dessa forma não encaixam na defesa utilizada pela comunidade LG “somos iguais a vocês”, a segunda forma está presente na ideia que devido a algumas pessoas transgénero se tornarem heterossexuais, estas estariam a tentar escapar à discriminação e a rejeitar a sua identidade gay ou lésbica e que ao tornarem-se heterossexuais deixam de ser queer o suficiente. (Weiss, 2003) Neste último ponto podemos também denotar outra conexão com os resultados devida à menção de alguns participantes relativamente à sensação de existir um certo nível de Gatekeeping dentro da comunidade LGBTQ+. Outro ponto que foi imensamente referido pelos participantes relativamente às motivações da transfobia é a falta de conhecimento sobre a vivência trans. Esta falta de conhecimento é por vezes não maliciosa, mas também alimentada por uma falta de motivação de pessoas cisgéneras em aprender sobre questões trans. A ideia de que o desconhecimento sobre questões trans influencia a forma como esta comunidade experiencia discriminação e interações sociais é apoiada pela literatura. Participantes descreveram a influência do #ProjectPresence em três principais formas: (1) aumentar a visibilidade, empoderamento, e aceitamento de comunidades LGBTQ+; (2) inspiração para crescimento pessoal e autoaceitação e diminuição de estigma internalizado entre os participantes; e (3) diminuição de marginalização social ao fornecer oportunidades para criação de novas
14 conexões e laços entre subpopulações da comunidade LGBTQ+. (Fields et al., 2022, p.7) O Project Presence é um projeto originado na cidade de Baltimore nos Estados Unidos da América. O seu objetivo foi aumentar a visibilidade e diminuir o estigma direcionado a pessoas LGBTQ+ e de minorias raciais ao colocar fotos profissionais de membros desta comunidade em espaços públicos. Os resultados deste projeto foram estudados através de questionários e entrevistas semiestruturadas a membros da comunidade. Os resultados apontaram para um claro aumento na qualidade de vida de pessoas LGBTQ+ de cor na comunidade através do aumento da visibilidade e diminuição do estigma. (Fields et al., 2022) Desta forma podemos concluir que através da visibilidade, o conhecimento sobre questões trans aumenta devido à expansão de conexões interpessoais entre pessoas trans e pessoas cisgéneras assim permitindo uma diminuição na transfobia presente tanto fora como dentro da comunidade LGBTQ+. Passando agora à LGB Alliance existe um claro sentimento de discordância dos participantes com as ideologias deste grupo, existe também uma sensação de que o grupo LGB Alliance partilha várias ideias com pessoas abertamente transfóbicas. Esta ideia é acompanhada de um aspeto apontado por alguns participantes no que toca ao foco deste grupo, pois foi referido que este grupo possui um maior foco em contrariar os direitos trans do que propriamente lutar pelos direitos LGB Alliance. Devido a alguns dos argumentos deste grupo podemos denotar uma conexão com a literatura mencionada acima, nomeadamente no que toca às motivações para a transfobia dentro da comunidade LGBTQ+ especificamente no que toca à tentativa de praticar gatekeeping e assim excluir a comunidade trans da comunidade LGBTQ+. No que toca à expansão deste grupo, existe um claro risco de isto acontecer em Portugal devido ao recente crescimento da extrema-direita no nosso país, pois esta ideologia está associada a políticas discriminatórias com base na orientação sexual e identidade de género. (Akker et al., 2012) Esta ideia está de acordo com os resultados das entrevistas, pois houve uma clara concordância entre os participantes em relação à possibilidade deste movimento se expandir para Portugal devido ao crescimento da extrema-direita neste País. Conclusão Este estudo permitiu-nos concluir que existe um claro problema com transfobia em Portugal, que afeta o dia-a-dia da comunidade dentro e fora da comunidade LGBTQ+. Esta
15 transfobia juntamente com o crescimento da extrema-direita apresenta uma clara oportunidade para a expansão de movimentos trans excludentes como é o caso do movimento LGB Alliance. É importante denotar que devido às motivações para esta transfobia (a falta de informação e a pressão externa/social), que a transfobia dentro da comunidade LGBTQ+ se origina na sociedade geral e da discriminação com base na orientação sexual e identidade de género. Com isto podemos concluir que existe uma clara necessidade de aumentar a informação disponível relativamente a pessoas trans, através de estudos, de campanhas de sensibilização, dos media etc. para podermos efetivamente combater a discriminação com base na identidade de género nos seus vários aspetos. Para além disto existe uma necessidade de combater a discriminação contra a comunidade LGBTQ+ para poder aliviar a pressão de todos os grupos da comunidade, incluindo a comunidade cisgénera, para não desenvolverem mecanismos de defesa como o de gatekeeping que acabam por afetar a comunidade trans que teve várias contribuições para o movimento desde os Stonewall Riots de 1969. Em termos da LGB Alliance existe também a necessidade de combater movimentos trans excludentes como este não só devido às suas ideias sobre a comunidade trans como também devido ao risco que apresentam ao tentar dividir a comunidade LGBTQ+. Esta potencial divisão não só apresenta riscos para a comunidade trans devido à potencial exclusão social de espaços seguros à comunidade LGBTQ+ como também desrespeita a história da comunidade LGBTQ+ e todos os ativistas trans que lutaram desde o início pela comunidade como um todo. É importante realçar também o peso que o crescimento da extrema-direita tem neste assunto e o quão importante é combater a mesma não só pela discriminação com base na orientação sexual e na identidade de género como também para poder combater a discriminação na sua generalidade. No que toca a futuras investigações considera-se pertinente continuar a aprofundar o nosso conhecimento sobre a temática da discriminação nas suas várias facetas. Uma potencial futura investigação poderia também se debruçar acerca da potencial existência de bifobia ou outros tipos de discriminação dentro da comunidade LGBTQ+.
16 Referências Bettcher, T. M. (2013). Trans women and the meaning of ‘woman’. Em A. Soble, N. Power, & R. Halwani (Eds.), Philosophy of Sex: Contemporary Readings, Sixth Edition (pp. 233–250). Braun, V., & Clarke, V. (2012). Thematic analysis. Em H. Cooper, P. M. Camic, D. L. Long, A. T. Panter, D. Rindskopf, & K. J. Sher (Eds.), APA handbook of research methods in psychology, Vol 2: Research designs: Quantitative, qualitative, neuropsychological, and biological. (pp. 57–71). American Psychological Association. https://doi.org/10.1037/13620004 European Parliament. Directorate General for External Policies of the Union. (2021). Disinformation campaigns about LGBTI+ people in the EU and foreign influence. Publications Office. https://data.europa.eu/doi/10.2861/980572 Fields, E. L., Long, A., Silvestri, F., Bademosi, K., Benton-Denny, J., Granderson, R., Schumacher, C., Chandran, A., Greenbaum, A., & Jennings, J. (2022). #ProjectPresence: