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As Marcas do Tempo na Procissão do Senhor dos Passos de Real, em Braga https://doi.org/10.21814/uminho.ed.73.10 Márcia Silva Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade, Instituto de Ciências Sociais, Universidade do Minho, Braga, Portugal https://orcid.org/0000-0003-3464-2194 [email protected]om Emília Araújo Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade, Instituto de Ciências Sociais, Universidade do Minho, Braga, Portugal https://orcid.org/0000-0003-3600-3310 [email protected] Resumo O texto versa sobre a procissão do Senhor dos Passos, uma manifestação religiosa secular que se realiza no quarto domingo da Quaresma na freguesia de Real, Braga. A procissão reconstitui o itinerário dos Passos da Paixão de Cristo (calvários) ao longo da Via Sacra e envolve uma forte dimensão simbólica, social, religiosa e cultural de afirmação identitária da comunidade. Trata-se de uma manifestação religiosa que reúne a comunidade pela fé e devoção ao Senhor dos Passos refletidas na intensa participação da comunidade no figurado, nas celebrações religiosas e na preparação da procissão — aquela que consideram ser um dos principais elementos identitários da freguesia. Partindo de uma metodologia de cunho etnográfico e com base numa pesquisa documental no jornal da freguesia, O Realense, procura-se apresentar de forma sucinta alguns elementos que marcam o tempo e espaço da procissão e as alterações que o próprio tempo impõe na procissão, ainda que de forma pouco explícita. O texto é exploratório e adota uma orientação bastante descritiva das marcas que o tempo produziu na celebração da procissão, procurando ser também um meio para revelar alguns dos traços da cultura da freguesia, muito ligada a eventos religiosos, que assumem grande relevância na comunidade.
122 AS MARCAS DO TEMPO NA PROCISSÃO DO SENHOR DOS PASSOS DE REAL, EM BRAGA Palavras-Chave procissão do Senhor dos Passos, Real, território, tempo Considerações Prévias A Quaresma (período que antecede a Páscoa, na religião católica) é um período temporal marcado por inúmeras celebrações religiosas, entre as quais a Procissão dos Passos, celebrada em várias cidades do país. Em Braga, são várias as freguesias onde se realiza esta procissão, nomeadamente Cabreiros (terceiro domingo da Quaresma), Figueiredo (quarto domingo da Quaresma), Real (quarto domingo da Quaresma), Celeirós (quinto domingo da Quaresma), assim como na Semana Santa de Braga (Domingo de Ramos). De forma sucinta, a procissão dos Passos centra-se na reconstituição do caminho (os passos) de Jesus Cristo desde o pretório até ao calvário (Ferreira, 2018), cumprindo o itinerário dos Passos (calvários). A procissão dos Passos de Real constitui uma manifestação de âmbito religioso que se desdobra em múltiplas dimensões — cultural, estética, comunitária e ritual, considerado por muitos como o dia mais bonito do ano. Esta ideia aparece plasmada no jornal da freguesia O Realense num artigo escrito em 1963: “até o tempo se apresentou de grande gala, para ver a procissão dos Passos em Real, dia magnífico considerado por muitos, como o dia mais lindo do ano” (Pároco de Real, 1963, p. 2). Existem registos sobre a enorme afluência de pessoas para assistir a esta procissão. Em 1994, O Realense informava que “todos os anos, na nossa terra, os festejos em honra do Senhor dos Passos, tem uma dimensão ímpar. De todos os lados acorre um elevado número de pessoas, para assistir ao grandioso ato” (Pároco de Real, 1994, p. 1). Ano após ano afirmava-se que a freguesia era “invadida por muitos milhares de pessoas vindas dos arredores, e é curioso notar a presença de turistas estrangeiros que muito admiram a procissão”(Pároco de Real, 1963, p. 2). E, por isso, a sua grandiosidade é reflexo do “grande brilho e afluência” que reveste a “Festa dos Passos em São Jerónimo de Real” (Pároco de Real, 1978, p. 4). Esta é uma celebração religiosa secular; apesar de as suas origens não serem conhecidas encontramos um registo da Illustração Catholica que data 1914. Apenas interrompida entre 2020 e 2021 pela pandemia COVID-19, a manutenção da tradição tem sido o marco que orienta a preparação da festa. Por isso, os discursos convocam sempre a ligação entre o presente e o passado: “tal como nos anos anteriores, mais uma vez terá lugar nesta freguesia de São Jerónimo de Real a FESTA DOS PASSOS, que no ano passado, foi tão relevante. Neste ano de 1979 será realizada semelhante ao tradicional” (Pároco de Real, 1979, p. 1). Mas, também num presente-futuro, ou seja, todos os anos a comunidade é convidada a envolver-se na sua organização e no apoio à realização da procissão. Como se afirmava em 1980, “espera-se a colaboração de todos para que seja esplendorosa como nos anos anteriores” (Pároco de Real,
123FESTIVIDADES, CULTURAS E COMUNIDADES 1980, p. 3). Trata-se de um discurso que, valorizando a permanência, aponta sempre para o futuro, procurando envolver e suscitar a participação da comunidade. Tal como outras festividades, a Procissão dos Passos também se confronta com o risco associado ao seu esmorecimento ou extinção, face às mudanças nos modos de vida (Festivity, 2022) e à convivência com outras formas experienciar e vivenciar a festa (Araújo, et al., 2019). Por isso, atentam-se os discursos em torno da própria ressignificação da procissão e da continua confrontação com a dimensão estético-emocional (Lipovetsky & Serroy, 2013/2016). Em 1978 aparecem, aliás, no jornal os primeiros excertos a refletir em torno do significado da festa e que nos demonstram uma certa reclamação pela posse da procissão, no sentido que “a Festa dos Passos não é só um aparato externo de bandeiras, figuras alegóricas, bandas de música, etc. É sobretudo a renovação espiritual e a incarnação do verdadeiro sentido do Passos: a nossa adesão profunda a Cristo” (Pároco de Real, 1980, p. 3). Por isso afirma-se que “nós, Realenses, que levamos para a frente esta iniciativa há tantos anos, somos interpelados para o significado, sempre mais profundo, desta Festa da nossa terra” (Pároco de Real, 1978, p. 3). E, se por um lado, seria possível pensar que a festa, na pós-modernidade, estaria condenada a diluir-se ou a desaparecer, devorada pela lógica da produtividade ou pela “normalização” do consumo e do lazer (Ribeiro et al., 2019), esta festa religiosa/ evento celebrativo, permanece e manifesta capacidade de adaptação. A Procissão do Senhor dos Passos de Real: As Marcas do Tempo Apesar da procissão se realizar no quarto domingo da Quaresma, a sua preparação começa no dia de Carnaval. É necessário preparar a capela para acolher a primeira procissão que irá decorrer no sábado seguinte. Na terça-feira de Carnaval, as mulheres que fazem parte da Comissão de Passos, deslocam-se, logo pela manhã, para a capela do Senhor do Bom Sucesso para proceder à sua limpeza. É aqui que tudo começa. Enquanto as mulheres tratam da sua limpeza, os homens começam por engalanar a entrada da capela com panos roxos e as bandeiras alusivas à procissão. E se, outrora, as mulheres tinham de ser solteiras e os homens casados, atualmente estes limites estão esbatidos. No primeiro sábado da Quaresma, ao início da noite, ocorre a primeira procissão. A procissão tem afluência das pessoas da freguesia, mas também das freguesias limítrofes. Os andores, do Senhor dos Passos e da Senhora das Dores, são transportados em ombros pelos homens que, no dia da procissão, terão a mesma tarefa. A Senhora das Dores, transportada por homens solteiros, e o Senhor dos Passos por casados, os andores saem em procissão em direção à Igreja de S. Francisco (igreja paroquial). Não existem figurados. Apenas o silêncio de quem acompanha atrás destes andores o seu caminho até à igreja. Na chegada à igreja, é celebrada a eucaristia com a Pregação do primeiro Sermão de preparação para a festa dos Passos. Todos os outros sermões acontecem ao domingo à tarde, até ao domingo de Passos. Trata-se de
124 AS MARCAS DO TEMPO NA PROCISSÃO DO SENHOR DOS PASSOS DE REAL, EM BRAGA uma prática que visa preparar a comunidade para a celebração da festa dos Passos e que ainda hoje se mantém. Realiza-se, como de costume, no 4º Domingo da Quaresma, este ano no dia 2 de Março. É precedida de pregações preparatórias. Estas terão lugar no Sábado à noite a seguir às Cinzas e nos Domingos seguintes ( … ). Desde já vamo-nos preparando para realizar com piedade e esplendor a nossa Festa dos Passos. Ela deve ser, sobretudo, como uma jornada de valor espiritual e não apenas de exibição folclórica. Por isso, vamos tomá-la a sério e encarnar o verdadeiro sentido do mistério a celebrar. (Pároco de Real, 1982, p. 3) Nessa altura, a comunidade começa a preparar-se para a festa. Particularmente nas ruas em que passa a procissão, os seus habitantes começam a decorar as suas janelas e varandas com tecidos roxos e bandeiras alusivas à procissão (Figura 1). No entanto, é no sábado antes da procissão, logo pela manhã, que começa a azáfama quando os homens que compõem a comissão começam por distribuir pela freguesia os quadros que representam os calvários. Estes calvários encontram-se organizados e espalhados pela freguesia e marcam o itinerário dos Passos de Cristo, da procissão. Há registos que indicam que, antes de 1990, a via-sacra incluía figurantes. Todavia, devido a dificuldade em conseguir pessoas para as 14 estações da Via Sacra, os pintores de arte sacra de Real mobilizaram-se e decidiram realizar os quadros de cada estação (Faria, s.d.). Destacam-se nomes como Abel Braga, Francisco Porto Maia, entre outros. Atualmente, os quadros que compõem os calvários são réplicas dos originais que podem serem apreciados na Casa da Memória da freguesia. Após a colocação do quadro, o(s) responsável(eis) de cada calvário incumbem-se de proceder à sua decoração e ornamentação (Figura 2). Em alguns casos, trata-se de uma responsabilidade que assumem há muitos anos e que passou de geração em geração. Consta que, em tempos longínquos, eram alvo de conflitos (“barulhos”) e, até, de alguns desacatos entre os próprios residentes que procuravam apresentar o melhor, o mais bonito Calvário. No domingo da procissão, o dia começa muito cedo com a Via Sacra, atualmente pelas 6 horas da manhã. Em tempos passados seria pelas 5h30 da manhã. Pessoas da freguesia e também das freguesias limítrofes, acorrem a Real para participar na Via Sacra (Figura 3), considerada por muitos como um momento especial que concentra uma grande multidão de realenses, antes de mais, mas também de outras localidades (Faria, s.d). Logo ao romper do dia, a via-sacra recolhe à igreja paroquial para a celebração da Eucaristia. Na parte da tarde, chega o momento da procissão. A abrir a procissão, vê-se uma guarda de honra composta por vários cavaleiros, seguindo-se a fanfarra. Ainda na frente da procissão, segue o Farricoco — figura que encarna os “penitentes anónimos que executavam as ‘penas’ atribuídas pelo confessor” (Ferreira, 2018, p. 86), carregando um trompete (Figura 4).
125FESTIVIDADES, CULTURAS E COMUNIDADES "A comunidade começa a preparar-se para a festa" Márcia Silva e Emília Araújo Figura 1 Ornamentação das varandas para a festa (2016). Créditos. Márcia Silva. Figura 2 Um dos calvários da Procissão dos Passos (2016). Créditos. Márcia Silva.
126 AS MARCAS DO TEMPO NA PROCISSÃO DO SENHOR DOS PASSOS DE REAL, EM BRAGA Figura 3 Via-sacra (2016). Créditos. Márcia Silva. Figura 4 Farricoco (2016). Créditos. Márcia Silva.
127FESTIVIDADES, CULTURAS E COMUNIDADES Figura 5 A saída do guião (2016). Créditos. Márcia Silva. Figura 6 Figurados descalços (2022). Créditos. Márcia Silva.
128 AS MARCAS DO TEMPO NA PROCISSÃO DO SENHOR DOS PASSOS DE REAL, EM BRAGA Outros elementos incontornáveis da procissão são os estandartes e o guião. O guião é o símbolo das freguesias que celebram a festa dos Passos e, como os estandartes, está regido por um código de utilização que envolve vários rituais: o pegador sai, desce as escadas de costas até ao centro do adro da igreja, dá meia-volta ao guião/ estandarte e levanta-o (Figura 5). Outrora, escolhiam-se sempre os “mais fortes” da freguesia para o transporte, tal é o peso e o varejo que comporta. Em tempos, a tarefa era mais difícil, pois residentes da freguesia embebiam a vara em água e enchiam com areia as pontas metálicas da bandeira, aumentando o seu peso. Além destes elementos, chegam a ser centenas os figurantes que compõe a procissão, crianças e adultos, muitas vezes percorrendo as ruas descalços, em sinal de pagamento das suas promessas (Figura 6). Estamos no momento da saída do andor do Senhor dos Passos da Igreja de São Francisco, criado por um artesão da freguesia em 1953: o andor, carregado por oito homens casados aos quais é exigida uma apresentação cuidada e zelo na pega da imagem, surge imponente na procissão. O toque da vara que auxilia o transporte deve ouvir-se em uníssono e, à passagem, vergam-se as pessoas diante da imagem. Na sua frente, vai Verónica, figura incontornável da Procissão dos Passos. Em cada calvário os andores param e a Verónica canta: “ó vós todos que passais ao longo deste caminho, atendei e vede se há dor igual à minha, se há dor igual à minha, igual à minha dor. Ó vós, dor”. Até ao local onde decorre o ponto alto da procissão, o sermão de encontro do Senhor dos Passos com sua mãe, Verónica mantém o seu pano fechado. Atualmente, o sermão de encontro decorre junto das escolas. Porém, nem sempre foi assim. Como podemos observar na Figura 7, em 1914, Verónica saía do interior da igreja com o pano que limpa o rosto do Senhor dos Passos aberto, o que significa que o sermão já teria decorrido. Mais tarde, o jornal O Realense dava conta da existência da recitação do Terço e de um breve sermão, antes da saída da procissão, que atualmente não se realiza. Realizou-se com grande brilho e afluência a Festa dos Passos nesta freguesia de São Jerónimo de Real, no passado dia 5 de março ( … ). De tarde, às 15 horas, houve a reza do Santo Terço, seguido de breve Sermão; depois, seguiu-se a Soleníssima Procissão com o Sermão de Encontro. (Pároco de Real, 1978, p. 4) Do lado oposto da freguesia, da capela do Senhor do Bom Sucesso, sai a Senhora das Dores ao encontro da imagem do Senhor dos Passos, carregada por seis homens, jovens e solteiros. É-lhes exigido o mesmo: seriedade, apresentação cuidada e zelo na pega da imagem. Após o encontro de ambos os andores, enquanto decorre o sermão de encontro, que invoca o sofrimento da mãe perante o seu filho, aproximam-se e inclinam-se, em forma de saudação. Trata-se de um momento emotivo e de elevada importância para a comunidade (Figura 8).
129FESTIVIDADES, CULTURAS E COMUNIDADES Figura 7 A saída da procissão em 1914. Fonte. De “Braga - A Procissão dos Passos em S. Jeronymo de Real”, 1914, Illustração Catholica, p. 667 (https://archive.org/ details/illustracaocatholica-1914/ page/666/mode/2up). Em domínio público. Após esse momento, Verónica sobe para junto do andor do Senhor dos Passos e limpa o seu rosto (Figura 9). De seguida, a procissão retoma o seu percurso e, mais tarde, após percorrer as principais ruas da freguesia, recolhe na capela do Senhor do Bom Sucesso.