Jornal - If it walks like a duck and it talks like a duck it’s a duck
Abstract
Jornal, If it walks like a duck and it talks like a duck it’s a duck é uma publicação periódica (semestral) dedicada aos livros de artista e à edição de autor. Visa reunir e divulgar a produção científica, já realizada na ESAD.CR, acerca das chamadas edição independente e edição de artista, fomentando a colaboração com outros investigadores que se debrucem sobre este tema e assuntos afins.
Full text
1 If it walks like a duck and it talks like a duck it’s a duck* Jornal, if it walks like a duck and it talks like a duck, its a duck, é um projecto editorial que se inicia pela mão de Ana João Romana, Catarina Leitão, Isabel Baraona e Susana Gaudêncio e deriva de uma multidão de encontros dentro e fora do espaço da ESAD.CR, na afinidade de práticas artísticas e de investigação relacionadas com edição. Sendo artistas visuais, em diferentes momentos e conforme os mais variados contextos e projectos pessoais, cada uma de nós já assumiu o papel de fazedora, editora e publicadora (palavra inventada que deriva do inglês to publish, verbo que designa algo muito diverso de to edit). Com o apoio do Lida – Laboratório de Investigação em Design e Arte e da Fundação para a Ciência e Tecnologia (UIDB/05468/2020) prevemos publicar dois números por ano, celebrando a primavera e o início das aulas no outono. Se o título é auto-explicativo, esperamos que o subtítulo sublinhe a (ainda) difícil tarefa de circunscrever ou definir o que é um livro de artista. A frase é retirada de um manifesto de Lawrence Weiner sobre o que é um livro de artista1, sendo que Weiner cita uma declaração do célebre senador Joseph MacCarthy, que por sua vez fez referência ao poeta Whitcomb Riley. Confuso? Ainda bem, pois, para que fique claro, procuramos abraçar e estudar os mais variados formatos de edição de autor e a heterogénea contextualização na prática artística, queremos debater sobre a dimensão poética e política intrínseca ao gesto de editar e publicar, queremos questionar os sinuosos meandros da circulação destas obras, e inquirir sobre muitos outros assuntos afins. Abreviando, cada número do Jornal debruçar-se-á criticamente sobre um dos vários aspectos que circunscrevem estes peculiares objectos que, como afirma Lawrence Weiner no texto supracitado, allow artists to get out at that moment what they had to say in relation to the art context, in relation to the brutality of our society, or in relation to the ecology of our society.2 1 Lawrence Weiner, Books do furnish a room: Lawrence Weiner on artists’ books, 1989. In, Umbrella, volume 13, n. 1, 1990. 2 Idem. EDITORIAL Caldas da Rainha, 2021 Distribuição Gratuita Edição #0 Convidámos dois amantes de livros para colaborar neste número zero, o Rodrigo Silva enumera Apotegmas secretos sobre a biblioteca perfeita, em It’s a duck... Don’t collect ducks, or you’ll end up breeding rabbits, o Pedro Moura discorre com humor sobre a paixão obsessiva do colecionador. Também a comunidade escolar foi convidada, por via de uma chamada de trabalhos, a participar no Jornal. Para as páginas centrais deste número zero seleccionámos uma imagem de autoria da Sofia Maciel, aluna finalista do curso de Licenciatura em Artes Plásticas. Jornal, if it walks like a duck and it talks like a duck, its a duck #1 será lançado no outono... até muito breve, quack! IT’S A DUCK... Don’t collect ducks, or you’ll end up breeding rabbits. A Começaste por coleccionar patos. Pequenos patos, esculpidos em madeira. Nem sequer te lembras por que razão começaste a fazê-lo. Talvez já tivesses um par deles, ou compraste-os numa feira. Depois, alguém na tua família ofereceu-te outro par, por ocasião de um Natal. Isso pegou, e outras pessoas passaram a oferecer-te o mesmo. Ou se calhar tinhas mesmo um interesse genuíno no seu fabrico. Passaste a tomar atenção em pequenas feiras, lojas especializadas, encontros dos praticantes. Rapidamente tinhas um conjunto significativo, coerente, ordenado. Reservaste uma prateleira ou um canto especial em casa para os colocar todos juntos. Ao mesmo tempo, essa prática ia agregando conhecimentos específicos. Percebias a diferenças entre aqueles feitos à navalha e os que empregavam um torno. Em dias bons, distinguirias o toque da nogueira do do pinho. Havia uma bela coerência e sentido de ordem, colocados lado a lado, em fileiras ordenadas, já que tinham tamanhos similares entre si. E as cores, ora mais garridas ora mais suaves, com mais enfeites ou abordagens mais toscas, permitiam sempiternas recombinações nos arranjos, conforme as necessidades de rearrumações. Além disso, conhecias as suas origens, as diferenças entre criadores e fabricantes, sabias mesmo a história, as datas, as circunstâncias de cada fabricação. Sabias que havia quem achasse alguns deles “falsos” ou variações menores de outros modelos, mas a ti interessava-te a forma, não essa espécie de pureza, que achavas não ajudar à compreensão da prática. Mas voltemos às cores. Foram sobretudo as cores, os padrões mais vivos, que te levariam a juntares a estes patos primeiros outros tantos patos, desta vez feitos de cerâmica. Na verdade, para ser preciso: porcelana, faiança e até grés. Como tinham a mesma escala, não destoavam. Um ou três de borracha, mas foi mais por brincadeira do que por necessidade. E um par deles de metal, que te chamaram a atenção. Estes já eram numa escala ligeiramente diferente, mas havia algo neles que fazia sentido para completar a grande ordem da colecção de patos. Destoavam, mas o destaque como que sublinhava a coerência dos restantes. Eram como batentes ou colunas de um espaço liminar que circundava a colecção principal. É possível que tenha sido essa nova, diferente e apenas gradual escala que te fez começar a procurar outros tamanhos, começando com modelos de origens estrangeiras. Não havia nenhum tipo de procura activa por estes modelos. Mas abriu-se assim um novo capítulo, um outro interesse. Afinal descobrias que havia tradições paralelas noutros locais. Vias os prismas e matizes que revelavam continuidades entre todos os objectos, e as facetas que os distinguiam, numa espécie de espectro, o qual, em si mesmo, também tinha alguma beleza. Sonhavas em cartografar no futuro próximo as graduais distinções entre todos eles, cruzando-as com distribuições geográficas, históricas, processuais ou outras que ainda nem sequer havias aventado. E assim, mais uma nova procura se iniciou. Agora aprendias linhas de desenvolvimento, histórias distintas, pontos de contacto e de divergência, influências mútuas e mistérios
2 3 retorna eternamente à biblioteca onde nunca acabou de chegar. Se um viajante numa noite de inverno chegar, ele será - talvez - o leitor perfeito. O leitor eleito, o leitor esperado, o judeu errante. O único leitor, o leitor do único. 7. Na porta da biblioteca perfeita estarão escritos, à entrada e de forma bem visível, os direitos e obrigações do leitor. Estes apotegmas3 serão mudados a cada dois dias e cada leitor poderá criar os seus, sem que tenha para isso de incorrer em despesas. Lá se estatuirá, sob a forma escrita, exortações místicas, máximas axiomáticas e oráculos gnómicos, cujas mais célebres dirão: “Lê o que quiseres”, “É permitido adormecer em cima de um livro e nele deixar as suas lágrimas”, “São autorizadas migalhas de pão e gotas de café ou chá desde que não sejam mais de 37”; “ Os livros podem ser lidos na íntegra, parcialmente, na diagonal, de forma oblíqua, apenas no seu início ou no seu fim, ou abandonados sem razão porque se descobriu outro mais urgente e mais importante”; “O leitor pode saltar páginas mas não pode arrancar páginas, a não ser que contenham poemas de amor, sendo que nesse caso deve arrancar, mas avisar o bibliotecário, que no mais escrupuloso zelo da sua insigne função, lhe indicará um melhor para ser entregue às múltiplas pessoas amadas”, “Pode ler todos os livros desde que sejam bons; no caso de encontrar um livro mau deverá escrever ao seu autor uma detalhada missiva apontando todas passagens que devem ser reescritas, mesmo que isso resulte num livro inteiramente novo do qual o indignado leitor se achará por infortúnio fatídico o involuntário autor, com improváveis destinatários, ou então pode voltar a colocá-lo na estante”; “ Pode roubar o livro desde que seja mesmo para o ler e não para lhe ocupar o escasso espaço que já não tem nas estantes”; “Pode ler em voz em alta desde que tenha uma voz bonita e boa dicção, ninguém o ouça ou se aqueles o ouvirem não compreenderem a sua língua, 3 Apotgemas: do grego αποφθεγμα, transliterado no alfabeto latino apóphthegma, seria um “preceito” ou “ máxima” (derivado do verbo apophthéggomai: “declarar alto, enunciar uma sentença, em forma definitiva, proferir um oráculo”) é uma frase breve, de caráter aforístico. Aparece quase sempre me linguagem figurativa e muitas vezes formulado como um exercício espiritual. Tem como objetivo enunciar um conteúdo de natureza sapiencial de maneira concisa, sintética e eficaz. O apotegma teria traços comuns com a anedota e com o provérbio, embora não sendo completamente redutível a essas formas por ter um objectivo prático mas também reflexivo. Assim como o aforismo (do grego ἀφορισμός, translit. aphorismós “delimitação, distinção, definição”, derivado de apphorízó: “separar, definir”), o apotegma é, geralmente, de autoria conhecida, atribuída a um personagem célebre, mas pode também ser de autoria desconhecida, como uma coletânea de ditos e escritos sapienciais, como os koan ou como os célebres ditos dos Padres do Deserto. A todas acontecerá um destino inumano: todas as bibliotecas existentes são as centelhas póstumas da Biblioteca de Alexandria (aquela biblioteca que arde todas as noites nos sonhos assombrados dos bibliómanos). 3. A biblioteca perfeita é feita exclusivamente e de forma total e definitiva (pelo menos até que decisão em contrário) para os leitores ideais, eleitos pelo colégio transcendental dos guardiões da leitura infinita: aqueles que acham que nos livros se escondem os segredos cifrados e misteriosos do grande alfabeto da vida e da eternidade. Aqueles que acham que “o paraíso será uma espécie de biblioteca” (também chamados de borgesianos, descendentes de um escritor cego) e aqueles para quem “deus, se existisse, seria uma biblioteca” (também chamados de ecoístas, descendentes de um professor que fumava cachimbo) são os seus principais habitantes. 4. Na biblioteca perfeita, claro, não existem leitores ideais. Nela só entraram, permanecem e comparecerão (são esperados ainda) leitores preguiçosos, omnívoros, distraídos, indolentes, apressados, contemplativos, desconcentrados, misantropos, oníricos, entusiasmados, melancólicos, curiosos, borboleteantes, diletantes, inconstantes, incessantes, moribundos, insones, impreparados. E alguns que “vistos de longe parecem moscas”(- sic). 5. A biblioteca perfeita tem em si tantas bibliotecas possíveis quantos os leitores hipotéticos que existiram ou possam vir a existir. Cada leitor é um leitor perfeito (possível). Cada leitor perfeito não é o leitor perfeito (impossível). Cada leitor perfeito possível impossível deve secretamente aspirar a sê- -lo. Cada leitor vive sempre mortificado pela angústia incessante do infinito das leituras, aflito com a extrema incompletude e persistente inacabamento das leituras realizadas, incomensuravelmente atrasadas perante as leituras ainda por realizar, para cada um dos temas reconhecidos e interesses intermináveis, afins e interligados. Em cada acto de leitura, o jogo dos possíveis reabre-se e com ele a vastidão movente das relações de cada um com cada outro, ars combinatoria da cadeia de afinidades e analogias que o incurável espírito do melancólico encontra no mundo. Livros interpolando livros, livros declinando-se noutros. Alguns leitores ideais fazem listas ideais dos livros ideais. As listas são pura literatura, i.e., pura ficção. Como o catálogo da biblioteca, resíduo de títulos sem outra narrativa que não a de uma enumeração classificatória. O demónio da exaustividade, loucura do “mau infinito”. Peter Kien, terminado na mais bela mortalha. 6. A biblioteca perfeita tem a apenas um leitor perfeito, mas ele ainda está por vir, é esperado há muito mas não tem dado notícias ultimamente e existem fortes suspeitas, por parte dos mais obscuros cabalistas, de que chegará atrasado ao futuro. O leitor perfeito Dedicado a todos os que se perderam na Biblioteca de Babel. de transmissão. Criavas genealogias, menos históricas do que lógicas, ou tecias associações que te surgiam como pertinentes no momento de discursares sobre as tuas impressões, agregações, e novos, sempre novos, e excitantes, arranjos. Não é que procurasses todos os patos. Há sempre um mecanismo interno, uma agulha de marear, uma pedra de toque, um sexto sentido, que te ajuda e declara na voz mais cristalina que se possa imaginar, que este pato deve pertencer à tua colecção e aquele outro não. A “tensão dialéctica entre os pólos da ordem e da desordem”, de Walter Benjamin, iluminavam-se clarissimamente nestas decisões. As quais, confessa, nem sequer eram fruto, na maior parte dos exemplos, de tortuosas e complexas considerações. Eram relâmpagos que te levavam à sua aquisição ou negação. Poucos arrependimentos te surgiriam, e estes incidiram mais sobre patos adquiridos do que aqueles que deixaste escapar à tua colecção. E sobre os primeiros, seja como for, haveria sempre a hipótese de lhes dar estratégias de saída. Há, num ritmo constante, manobras de negociação, surgindo um pato que até poderá tombar para o interior da colecção, por um pormenor qualquer, ou um interesse marginal, ou até a mera imaginação de que, dado um hipotético quadro de necessidade, ser-te- -á, ele mesmo, útil. Outros são negados logo, nem haverá espaço para a sua consideração. E pouco importa que haja quem brade que esses é que são os mais genuínos, ou procurados, ou que neles se coligem as características mais consideradas pelos seus amadores. Nenhum desses argumentos colhe, jamais colherá. Afinal de contas, sabes o que um coleccionador diz quando considera a colecção de outro? “Tenho, tenho, não me interessa, tenho, não me interessa...” A posse e o controlo do sentido criado de maneira estreita não só pelo acto da posse mas pelo campo desenhado por essa posse particular é o único âmbito que importa, a única tabela, medida, filtro. Tudo o resto nem excessivo é, é apenas inconsequente. A ordem, pensa-la e para ela contribuis. A desordem, ou o desastre (Blanchot), elimina a própria questão. A procura – a central, a original – também se intensificava. Dedicavas agora uma maior percentagem do teu tempo à aprendizagem e à caça, às leituras e aos instrumentos de procura. Se antes te bastavam os passeios presenciais e os contactos cara a cara, agora usavas motores de busca, sites de venda, de troca, leilões e velharias, e anúncios pessoais. A leitura cuidada de um rótulo, a compulsão dos pequenos detalhes das notícias, uma breve referência, transformava-se numa pista para mais um caminho dendrítico, que criava novas procuras, novos encontros e uma compreensão expansiva do campo. Uma nota de rodapé jamais é uma excêntrica e desnecessária adenda: é a chave da demanda recompensadora. Havia aqui um perigo, reconhecias, de metástases sem fim, infleccionando para uma direcção (ou demasiadas) antes insuspeitada, mas o prazer de inflectir era contagioso. Trazia agora uma breve agonia, mas logo se lhe seguiam os frenicoques da expectativa de que regressasse, o furor da procura e eis mais uma senda descida. Todas estas considerações sobre a historicização do objecto, a compreensão das suas circunstâncias de produção, e até mesmo os modos interpretativos como eram sujeitos ao longo de todo um espectro de experiências diferentes, em termos culturais, sociais e mesmo políticos, não apenas induzia a toda uma metamorfose na consideração deste objecto, como uma reavaliação daquelas primeiras peças que haviam nutrido os passos de uma colecção incipiente. Aquilo que te havia atraído era, talvez, apenas algo superficial, epidérmico e passageiro, mas agora ganhava contornos diversos, mais matizados, subtis, intensos. Não era apenas aquela arrogância, algo juvenil, de poder dizer “eu tenho” face aos mais raros exemplos, e esse sentido de segurança cada vez maior por haver uma circunferência muito nítida da existência da criação humana cujos pontos, interiores, estavam quase todos preenchidos pela sua posse material, mas começava a haver um debate sobre essas mesmas fronteiras e dimensões. Deixava de ser importante apontar números, pois sabias que toda e qualquer quantidade pode ser inflaccionada através da mediocridade, pela repetição, por uma adição de um mero acidente. Que importava, na verdade, contar todos e quaisquer objectos na sua individualidade, se identificavas, na tua colecção, aspectos mais importantes, como a preservação de uma memória e prática particulares, que apreciavas como ninguém, e sabias que seria algo a descobrir mais tarde pelos demais, quer pelos pares quer pelos assistentes comuns. Que importava dizer ter “muitos”, “tudo” ou “esta massa”, se parte dela conspurcava as demais pela sua insignificância na história? Cobrias tendências, grandes inflexões, capítulos. Era nessa classificação mais arguta que residia a fortuna e elegância do teu trabalho de selecção. Na verdade, os primeiros objectos começavam a perder o seu encanto, sinal de que eram agora vistos como fruto tão-somente de uma atitude automática e pouco desenvolta, talvez mesmo mal informada. A razão da sua posse dissipava-se, face à luz dos novos entendimentos. Além disso, agora já não se tratava somente de colocar um objecto ao lado de outro, e pensar nas suas fileiras ou que características te moviam, que interesses se reforçavam mutuamente e que contornos se ocultavam para jamais regressar. Qualquer nova adição aumentava exponencialmente o peso do conjunto, deslocava-o para outros entrosamentos globais. Dialogavam com outras colecções, moviam constelações. E a tua experiência tinha agora colocado a tua presença nos contornos das novas produções: vias novos produtores no momento do seu fabrico, adquirias os objectos ainda frescos da apanha ou quentes da fornada. Num ou outro caso, aconselhavas a mão que os talhava, insuflavas a direcção da pintura. Não sonharas jamais presidir ao seu fabrico, mas eis-te nesse privilégio. Tinhas passado uma linha ténue e perigosa, para o interior da colecção expandindo-se. E essa atenção molecular tinha um preço, sempre que outras áreas pulsavam sem que te apercebesses disso até data tardia. Mas no momento nada te distraía desse caminho. Continuavas. E não falámos ainda do seu transporte. Questões pragmáticas. Arrumar, limpar, reordenar todos estes patos. Do teu escritório em casa, que perdeste transformando-o em novo quarto pelo aumento da família, passaste a um outro local, muito passageiro, e depois a outro. O pesadelo da arrumação, de obter caixotes, de proteger as peças, de decidir afinal colocá-las de um modo diferente do anterior, ou do habitual. Antes sabias onde estava cada peça, uma intuição física, célere, quase instinto natural. Uma memória associada a um objecto correspondia a um gesto, elegante, e tinha-lo na mão. Agora não, fazes um esforço, instala-se a dúvida, já não há capacidade de arrumar como deve ser, escapam-se todos e quaisquer sistemas de organização. O teu olhar salta de estante em estante, sucedem-se erros de localização, escapa-te a razão pela qual colocaste este ao lado deste. Fundou-se, sem que te tivesses apercebido, a ideia do “a molhe”, sempre que chegava uma nova peça: era apenas colocada, já não há tempo para ponderação e movimentos holísticos. E de uma sala no novo espaço, há uma oportunidade para ir para outra sala. Mas mesmo essas deslocações, por mínimas e convenientes que sejam, são consideradas aventuras pouco bem-vindas. Somente se reveste da ideia de todo o esforço, da desarrumação, até mesmo a irritação em rearrumar todos eles. As fantasias de violência, de quebrar, de fogo, têm aqui origem. São fantasias, sabe-lo, mas existem. Porém, são fagulhas a preocupações maiores, que por mais distantes que sejam não são menos reais. São estas colecções alguma espécie de legado? Interessará àqueles teus próximos que ela se constitua como tal? Quem se importará com a sua dissipação, quando da tua dissipação, única certeza da vida? Haverá alguém que herde o que é teu, que nutra a mesma paixão, paciência, tempo para considerá-la? Para compreender cada gesto de procura e de associação? Não será apenas um fardo, digno de uma pilha sem nome e de uma raiva em não compreender a sua origem e razão? Talvez seja o momento certo de te desfazeres deles, um a um? E um dia... Numa pequena feira, que já não frequentavas nem com a regularidade nem o vigor e alegria dos primeiros momentos, páras à frente de um expositor. Estendes a mão e agarras em algo que te chamou a atenção. Não, algo que apenas interrompeu o fluxo da tua distração por um outro foco, mas ele próprio de distração, ou de uma atenção quase difusa. Encontras um pato que seguras na mão, e sopesa-lo. Roda-lo e é curioso. Tem muitas das características que te atraem sempre, mas há outras que emergem, totalmente alienígenas aos teus interesses nutridos e burilados ao longo de anos. Este pato é parecido com um coelho. Ora te parece um pato, ora te parece um coelho. Não há nenhuma ilusão de facetas ocultas ou truque de formas. Trata-se de uma decisão que é apenas mental, tua. Não precisas de o rodar sequer, e é algo que pode nascer da tua vontade, como aqueles objectos tolok e molak do conto de António Pocinho... Pato, coelho, pato, coelho. Se começares a coleccionar coelhos... Pedro Moura APOTEGMAS SECRETOS SOBRE A BIBLIOTECA PERFEITA “O que quer que nós façamos, estamos todos escritos.” Pascal Quignard, Les Petits Traités “Uma biblioteca é o labirinto de todos os sonhos da humanidade. E, nos livros certos, dos pesadelos futuros.” Julien Green, Journal II “Um livro esconde-se numa biblioteca, como uma árvore secreta e mágica no meio de uma floresta.” Lucien Polastron, Livres en feu A 1. A biblioteca perfeita é o lugar terrestre onde todo o conhecimento humano, vertido em forma escrita, em todas as línguas e formatos possíveis, se pode encontrar guardado e posto a salvo, de forma perene e imperecível, cuidado, organizado e classificado, livremente disponível para todos e para qualquer um, sem distinção de credo, raça, nacionalidade, religião, língua, género, estado civil, nível académico ou cultural, incluindo pessoas possuidoras de bigodes (sejam eles extremamente finos ou de pilosidade abundante). 2. A biblioteca perfeita não existe e não é possível, provável ou plausível que alguma vez possa ter existido ou sequer que venha a existir. Só existem bibliotecas finitas, contingentes e concretas, perecíveis e transitórias, incompletas e inacabadas, frágeis, ameaçadas, com falta de espaço, de fundos, de recursos, pessoas, de livros (e com pó, muito pó). Só existem bibliotecas humanas, em busca de aspirações supra-humanas.
6 7 ou se fizer parte de uma seita de escutadores de desconhecidos”; “É estritamente proibido falar do que se leu, excepto se for um amigo, íntimo ou em vias de o ser, ou a estranhos que se revelem particularmente atentos, mesmo quando não estão a perceber aquilo que lhe está a contar”, “Só pode ler livros com capas magníficas ou, no caso, da capa ser extremamente feia e mal concebida, deve possuir sempre consigo um cobre-capas que o proteja da incúria criminosa do editor”; “Todo o leitor tem a obrigação de subverter a ordem estabelecida dos livros e declará-la obsoleta e imprestável, face à nova ordem das ideias”; “Nada é literal, tudo é literatura”; “É possível que possa esquecer tudo o que leu, aconselha-se a tomada de notas nas margens, mas assegure-se que serão ilegíveis e que tenham de ser decifradas apenas na hora certa, no lugar certo, pela pessoa certa”; “A única forma de cópia autorizada é a memorização, sendo permitida, estritamente aos que sofram ocasionalmente de acessos de porosidade mnemónica, a cópia integral através da aquisição de volumes idênticos”; “É autorizada a interpretação livre, desde que o intérprete se responsabilize por todas as ideias novas que daí surgirem”; “Tenha especial cuidado com as associações, as analogias, pois podem ser danosas para a compreensão”; “ Informa-se ao leitor impetrante que o uso do dicionário não magoa”; “Não julgue os livros pela sua capa, nem pelo seu conteúdo, nem pelas leituras que fazem deles pois nenhum livro é inocente até prova em contrário”; “ A identificação amorosa com personagens literários pode ser gravemente prejudicial para a saúde”; “Pode reler mas aconselha-se que não o faça sempre com o mesmo livro”; “São falsos os rumores que afirmam que a leitura pode conduzir à imortalidade”; “Heraclito dizia: nunca podemos entrar duas vezes no mesmo livro”; “É autorizada a suspensão da incredulidade, desde que tal não constitua um incitamento à desobediência civil”; “Não há leitores inocentes e (quase) não há livros culpados”; “O saber deve ser saboreado”; “Tem a certeza que leu bem?”; “Os géneros não foram outrora anti- -fascistas”; “O tempo é provavelmente uma ilusão de óptica, mas lembre-se que é certo que não terá tempo para ler todos os livros que gostaria”; “O fim de um livro é apenas uma interrupção temporária”; “Caro leitor: aquilo que tu és nós já o fomos, aquilo que nós somos tu o serás”; “Agora repita.”, “Tem perguntas?” entre várias outras já apagadas pelo tempo ou subtraídas do uso por algum infame bibliotecário que as quis guardar só para si. 8. A biblioteca perfeita é material e imaterial, mas deve ter sempre um odor persistente a papel e à transpiração acre das tintas. Ela acolhe todas as técnicas e tecnologias, suportes e formatos da escrita, assim como todos os fantasmas e presenças que manifestam, de alguma forma subtil e vibrátil, a escrita do mundo por si mesmo, através da incarnação terrestre do espírito humano. Tem também boas cadeiras, daquelas mesmo boas. 9. A biblioteca perfeita deve ter a tecnologia estritamente imprescindível para o prazer e felicidade inconfessável dos actos de leitura dos múltiplos legentes e dos seus diferentes corpos estranhos. Existem múltiplas técnicas de leitura e diferentes formas de ler mas a essa biblioteca apenas se cuida de uma arte de ler: recortada sob o silêncio, na intimidade com a palavra (escrita). Mesmo quando à nossa volta abundam as vozes, os sussurros, os pássaros, o som dos risos e das fontes. 10. A biblioteca perfeita deve ter um acesso à rede internet, permanente e instantâneo, que permita aceder ao imenso oceano de informação digital que existe nos milhares de servidores espalhados pelo globo, extremamente útil, extremamente proveitosa e extremamente vantajosa para uma vida de sucesso e desvantajosa para as vidas de fracasso (nas variantes felizes ou infelizes e graus intermédios e misturados). 11. Na biblioteca perfeita, deve poder desligar-se o acesso à internet ou, se os bibliotecários severos o decretarem, não deverá haver qualquer forma de acesso à internet, nem às comunicações electrónicas que de qualquer forma proporcionem acesso às chamadas “redes sociais”. Elas constituem a mais insidiosa fonte de distração organizada de que se suspeita ser a (mais) directa responsável pela destruição de milhares de potenciais leitores, que ficam irremediavelmente reféns de uma incurável dispersão pelo interminável e incessante falatório, com que a mortífera economia da partilha digital inunda diariamente as nossas consciências cansadas e as nossas mentes atónitas, deixando consideráveis e crescentes sectores da população desorientada, sem conseguir compreender o que se está verdadeiramente passar e qual o curso e destino do mundo. 12. Na biblioteca perfeita só há livros (e algumas revistas selecionadas porque as boas revistas são melhores que os maus livros). O livro, no formato fascinante do codex em folios - que foi a mais maravilhosa invenção da humanidade, a seguir ao papel - é o melhor, o mais cómodo, o mais versátil objeto para consumar o acto ímpar e insubstituível da escuta escrita do espírito. Podem haver escadas rolantes (extremamente lentas ou assustadoramente rápidas), ladeadas por estantes de livros apenas consultáveis. Caminhos que não levam a lugar nenhum, mas vão todos dar às salas onde as personagens literárias esperam por um abraço enfim. 13. A biblioteca perfeita deve ser o centro visível, manifesto e inteligível da Cidade (grande ou pequena). Ou de toda e qualquer aldeia (todas as aldeias deviam começar com a fundação de uma biblioteca e de um jardim, nada mais). Deve ser de acesso fácil a partir de todos os lados vindos de todos os percursos e caminhos. Todas as vias celestes e terrestres devem conduzir a ela (mesmo as que vão para as cidades invisíveis do Ítalo Calvino ou as que veem dos lugares imaginários listados pelo Alberto Manguel). 14. A biblioteca perfeita deve localizar-se num sítio secreto e confidencial, apenas acessível aos últimos iniciados e aos que na mais obstinada persistência e perseverança quiserem aceder às múltiplas e infinitas formas arcaicas da sabedoria, quer aquelas que continham as panaceias há muito conhecidas para todos os males, quer aquelas que podem enfim gerar as mortes renascentes para enfim curar a humanidade da sua rota de colisão consigo mesma. Não haverá escadas senão rolantes porque todos ficam com um ar patético quando andam em passadeiras rolantes e porque as crianças adoram passadeiras rolantes, e assim distraem-se da leitura. Haverá portas escondidas, muitas e passagens secretas atrás das estantes activáveis pela inclinação certa do livro certo, às quais se acede por galerias semi-obscuras com teias de aranha, como nos filmes. 15. A biblioteca perfeita terá o grau certo de obscuridade, de sombra e de luz, proporcionada pela iluminação intimista dos mais belos candeeiros de opalina verde, todos diferentes, especialmente desenhados pelos mais imaginantes designers do mundo para as incontáveis salas de leitura da biblioteca, cada um com variáveis temperaturas e intensidades de luz reguláveis aos olhos de cada de leitor, nas proporções ideais para que a experiência da leitura seja a mais intensa e absorvente possível. Ou então: na biblioteca só há luz natural, porque o horário de abertura da biblioteca é o da aurora e de fecho o do crepúsculo. Em certos países do hemisfério Norte, a biblioteca tem períodos em que está aberta durante quase 24 horas e noutros dias apenas num curto horário. As noites fizeram-se para o amor, para a música e para as conversas sem fim. (Em dias selecionados, em que se busque a intimidade do silêncio e da vida interior, pode-se então levar um livro para a cama, mas deve-se entregá-lo intacto no dia seguinte.) 16. A biblioteca perfeita terá incríveis janelas para as mais imensas e deslumbrantes paisagens porque dela deve poder ver-se o mundo todo, seja para nos distrair e descansar os olhos da exigência da leitura, seja para nos lembrar que a verdadeira vida viva está lá fora, ao Sol, fora dos livros, na viagem e na conversa inacabada que vamos tendo com aqueles que encontramos e com aqueles que amamos. 17. A biblioteca perfeita tem no seu interior e em solarengas esplanadas no exterior fantásticas cadeiras, confortáveis sofás, chaises longues e eventualmente camas em salas reservadas para um encontro tórrido com um livro amante. Essas cadeiras devem ser confortáveis, com repouso para os braços e excelente apoio lombar, de tal modo que nos apetece levar uma dessas cadeiras para casa e quando tentamos fazê-lo o segurança de serviço ajuda-nos a colocar a cadeira no porta-bagagens, ameaçando-nos simultaneamente, em tom grave, que se tal cadeira não for utilizada exclusivamente para variados actos de leitura ela será recuperada pelos serviços da biblioteca que colocaram nela um dispositivo de localização invisível. 18. A biblioteca perfeita tem amplas mesas apenas em madeira, de florestas renováveis em que as árvores pediram para viver imortalmente na biblioteca, apenas com óleos balsâmicos naturais, forradas em certas secções com o mais delicado tecido e não com polímeros artificiais que tornam a leitura fria e incómoda. É tão difícil encontrar boas mesas como boas cadeiras e bons candeeiros. Excepto na biblioteca perfeita, onde tudo isso se encontra em obscena profusão, fazendo-nos languidamente querer ficar lá para sempre. 19. A biblioteca perfeita está sempre nem muito quente, nem muito fria, com a temperatura perfeita para que nos sintamos mais confortáveis ainda que na nossa casa, com uma imprescindível oxigenação e ventilação que permita suportar o enorme ecossistema de ácaros e pó, que qualquer biblioteca terá sempre, por mais que a limpemos, novamente e mais uma vez. Vês, já está outra vez com pó. 20. A biblioteca perfeita tem paredes de pedra e de madeira com acústica minuciosamente programada e calibrada para se ouvir apenas as vozes dos livros. 21. Na biblioteca perfeita há livros, apenas. E boas revistas. Mas podem haver também músicas. E filmes que só foram vistos uma vez. E fotografias desvanecidas. E mapas estranhos. E alguns objectos enigmáticos, talvez de arte, talvez sem porquê nem como. Tudo o que celebrar os espantosos e misteriosos caminhos da criatividade humana deve poder ser de algum modo cuidadosamente conservado e acedido na biblioteca, porque tudo o que é humano pode ser lido como uma linguagem significante, mesmo que para algumas delas não conheçamos os elementos e combinatórias que formam os seus indecifráveis códigos. A Biblioteca de Alexandria, segundo conta Plotino (Marguerite Yourcenar lembra-nos nas Memórias de Adriano) terá tido uma inscrição, mandada colocar pelo último dos faraós da dinastia dos Ptolomeus, que dizia “Clínica da Alma”, para que todos soubessem a sua função. E albergava dentro dela (talvez ao lado, não sabemos) o Museion, a Casa das Musas inspiradoras. Não sabemos o que lá se guardava mas há relatos (órficos?) de tais lugares, como em alguns templos dedicados a Apolo (associados aos Mistérios de Elêusis), onde se podia pernoitar para ter sonhos iniciáticos, epifanias nas encruzilhadas, às quais os sacerdotes intérpretes atribuíam, pela manhã, o significado transcendente desses sinais colhidos em sonho. Ou então não. A verdade é que não sabemos nada ou quase nada sobre a mais mítica de todos os tempos e arcano perene da ideia de biblioteca (o pequeno livro de Luciano Canfora sobre a biblioteca de Alexandria é apenas uma longa compilação de fragmentos mnemónicos e especulativos que nem um impreciso retrato traçam). A biblioteca de Alexandria, um dos mais grandiosos mitos do mundo antigo, do qual não há vestígios materiais pode ter sido só uma grande sala de livros que ardeu (quantos arderam nestes séculos todos?). Afinal bibliothekai, não quer dizer, senão “estantes”: o lugar onde se guardava os rolos (biblia) anteriores à invenção do codex. 22. Na biblioteca perfeita todos os bibliotecários se chamarão “Sr.Borges de tal” ou “Sr.Eco de tal”. E os gatos que nela morarão (tantos, de perder a conta), como criaturas sagradas e hierofânticas, terão o nome de “sr. Manguel de tal”. Quem quiser merecer ser nome de gato terá de ser capaz de ronronar enquanto lê um livro. 23. A biblioteca perfeita está sempre aberta, excepto no dia mundial do livro e das bibliotecas em que os livros estarão ocupados numa cimeira a planear uma revolução que irá tomar as rédeas do mundo, através do imenso exército de leitores que, munidos de múltiplas armas talhadas nos mais acutilantes espíritos críticos, usando as insígnias e os talismãs da liberdade pura, afrontarão a imensa ignomínia consentida que flagela a humanidade e que faz com que ela eleja líderes políticos que detestam os livros e os leitores, que são filhos da ignorância, da bestialidade e da violência, que se ergue sobre o preconceito e o ódio ao outro e ao diferente, que apenas quer promover o mundo onde todos lutam contra todos, numa competição infernal e imparável e onde apenas sobrevivem os mais fortes, mesmo se no fim os mais fortes acabem sozinhos e deprimidos. 24. Na biblioteca perfeita qualquer um deve poder mexer, tocar e folhear e até, em caso extremo, tentar ler, qualquer livro, sem restrições de acesso, proporcionando ao leitor errante as mais improváveis descobertas, os mais insólitos encontros, as mais estranhas associações, conexões e vizinhanças, sem sequer ser preciso ter cartão de leitor. 25. Na biblioteca perfeita deve haver um dificultado acesso restrito e reservado para um vasto conjunto de livros secretos, mágicos e esotéricos, pois sem eles nenhuma biblioteca pode ser cenário de romances empolgantes que envolvam descobertas secretas em incunábulos antigos com magníficas ilustrações, onde apesar das grandes conspirações que tramam a humanidade, os heróis - e até os anti-hérois – acabam em exuberantes e aventurosos enamoramentos. 26. Na biblioteca perfeita tudo deve ser secreto ou em vias de o ser, a começar pela identidade de quem a frequenta. Os livros são lidos apenas por uma confraria de leitores desconhecidos, uma irmandade do fim dos tempos, que procura incansavelmente as respostas para as perguntas perenes que ainda não abandonaram, apenas porque ainda não descobriram perguntas melhores e mais belas. 27. Na biblioteca perfeita manda o catálogo que reúne a mais complexa ordem das coisas simples e essenciais, impecavelmente classificadas com o mais conciso léxico e a mais sapiente semântica, sem erros, omissões ou etiquetagens preconceituosas, e contendo todas as remissões, ecos e reenvios comunicantes de cada livro com os que com ele se relacionam, incluindo aqueles que ainda não foram escritos e aqueles que estão há muitos esquecidos numa prateleira e que há séculos já ninguém lê. E que nenhum leitor nunca requisitou, excepto aquele que um dia o fará, para depois descobrir por engano ou por um encontro imprevisto que descobriu o livro que não sabia que andava à procura. 28. Na biblioteca perfeita subsiste uma multiplicidade de classificações imaginárias, onde nenhuma secção é absoluta ou irrevogável e a ordem dos livros reconstitui-se a cada vez em função da curiosidade e das investigações da grande busca infatigável de cada leitor, segundo a lei da analogia e da correspondência que forma a ordem da “boa vizinhança” entre livros, na fórmula cunhada por Aby Warburg. 29. Na biblioteca perfeita há sempre, em doses generosas e inesgotáveis, o mais cremoso e denso aromático café e tisanas balsâmicas de ervas feiticeiras nos pátios interiores da biblioteca (cultivadas pelas bibliotecárias Hipátias), prontas a servir no topo de qualquer terraço, acompanhadas das mais delicadas iguarias de frutas e legumes das hortas da biblioteca, cuidadosamente escolhidas para a mais apurada nutrição feita para as intermináveis horas de leitura do leitor ideal. 30. Na biblioteca perfeita, cada sala de leitura tem estantes únicas que só existem de forma irrepetível nessa sala. Mas são todas em madeiras raras, inebriando o ar com o seu perfume. Cada sala tem sempre uma estante vazia, promessa dos livros possíveis que em breve vão chegar. 31. Na biblioteca perfeita, a intimidade do silêncio e as zonas de meditação são invioláveis e inalienáveis, mas ela deverá obrigatoriamente conter nos seus espaços um largo número de espaços públicos abertos sobre o rio calmo que atravessa a biblioteca e junto do bosque sagrado, que permita o encontro, o diálogo, o debate, o trabalho conjunto e os ajuntamentos suspeitos. 32. Na biblioteca perfeita mora o demónio do mau infinito, o da abundância excessiva e inabarcável, a antologia infinita dos nossos medos e aspirações, pelo que é conveniente não passar demasiadas horas nela. Quatro, no máximo de cada vez. Mas não mais de três vezes por dia, em regra.
8 FICHA TÉCNICA Editoras: Ana Romana, Catarina Leitão, Isabel Baraona e Susana Gaudêncio. Imagem Central: Sofia Maciel ISSN: 2184-884X Designer: Nayara Siler a.k.a. Animal Sentimental Tiragem: 250 exemplares Contacto: [email protected] Este trabalho é financiado por fundos nacionais através da FCT - Fundação para Ciência e a Tecnologia, I.P., no âmbito do projeto <<UIBD/05468/2020>> *Lawrence Weiner, Books do furnish a room: Lawrence Weiner on artists’ books, 1989. In, Umbrella, volume 13, n. 1, 1990. 33. A biblioteca perfeita deve conter a possibilidade de todos os livros possíveis, mas se tal acervo se revelar improvável e inencontrável, deve conter a véspera e o anúncio de um lugar para tudo o que está ainda por escrever e todas as histórias por vir. Na biblioteca ideal todos dias nasce uma sala nova desconhecida, uma para cada novo leitor nascido, porque cada vida humana é a promessa de um livro e da renovação da antiga ordem dos livros 34. Na biblioteca perfeita da utopia digital haverá apenas um terminal de computador. Com acesso instantâneo e inexaurível aos arquivos infinitos do conhecimento humano, até que alguém desligue a ficha e se perca tudo, mesmo o que foi gravado. Restarão então apenas os livros e eles lembrar-se-ão de novo que havia uma sala com livros interditos que já ninguém sabe onde fica. Encontrarão felizmente velhos mapas com instruções secretas dissimuladas. E tudo começará de novo. 35. Na biblioteca perfeita podemos sublinhar e anotar os livros, mas no caso dessa imprescindível eventualidade ocorrer, somos obrigados a ficar com ele e repor um novo em estado intacto para a núpcia inantecipável do seu próximo leitor, como se fosse a primeira vez que se entra nessa densa floresta. A leitura é sempre virgem, mesmo quando repetida (roubada ao René Char). 36. Na biblioteca perfeita, Mnemosyne, a musa grega da memória é a deusa mais amada e a torre de Babel não é considerada uma maldição, mas uma bênção, pois ela é a mãe de todas as bibliotecas e dos seus infindáveis idiomas e dialectos. Essa deusa distraída é vista por vezes a ler, furtiva, quase inaparente. 37. Na biblioteca perfeita poderá haver um restrito conjunto de livros interditos, mas apenas até que o leitor interditado prove, em iniciações interpretantes cuidadosamente formuladas em rituais nocturnos que já é capaz de ler sem se magor e sem magoar os outros, tal como poderá haver livros recomendados, mas tantos quantos as listas de leitura de cada leitor, as quais podem ser públicas e eventualmente afixadas nas paredes disponíveis que ainda não tenham sido ocupadas por estantes. A biblioteca perfeita é possivelmente uma bela impossibilidade. 38. Na biblioteca perfeita é possível fazer refeições ligeiras pensadas pelos melhores chefes, namorar, planear revoluções e utopias diversas e ter aulas de natação sincronizada, naquela piscina envidraçada que acompanha uma das salas de leitura principais. Para aqueles que não gostam de sincronia, sobretudo dentro de água, poderão frequentar aulas de ioga no anexo da sala de leitura de sânscrito, mas terão de levar a sua própria toalha e tapete. Há também aulas a decorrer na secção egípcia, mas têm tido pouca aderência devido à falta de movimento das posturas. Para os que gostam de correr podem requisitar um leitor de corrida que lhe lerá o livro ao ouvido enquanto corre ou simplesmente colocar uns auscultadores com o áudio-livro (sim, também existem na biblioteca, cada vez mais, lidos pelas vozes mais hipnóticas e encantatórias). 39. Na biblioteca perfeita há uma máquina de dimensões consideráveis, e praticamente silenciosa dizem, que permite que qualquer um possa, mediante o pagamento de uma quantia fixa de 100 euros, imprimir, no espaço de apenas 2 horas, 100 exemplares de qualquer texto no formato livro, desde que tenha mais de 48 páginas e menos 128 páginas e desde que não contenha erros de ortografia, gramática ou sintaxe. Para oferecer aos amigos, dizem. Um negócio ruinoso para os editores. 40. A biblioteca perfeita não foi feita para uma sociedade perfeita. Acredita-se que na sociedade perfeita todos já sabem tudo de cor e, portanto, a biblioteca perfeita entraria em processo de insolvência e como já ninguém compraria nem leria livros é provável que ficasse uma magnífica ruína (como naquela fotografia magnífica e trágica da biblioteca de Londres, esventrada após um bombardeamento, com uns quantos leitores perdidos a consultar as estantes que ficaram de pé). 41. A biblioteca perfeita existe no tempo e no espaço, prometeram-nos. Mas ainda não se sabe quando nem onde. Sabe-se apenas que já está parcialmente reconstruída na imaginação de alguns leitores, depois de ter sido sucessivamente destruída. 42. A biblioteca perfeita tem um número inabarcável de secções que são impossíveis listar, actualizadas diariamente por quietos bibliotecários inquietos mas entre elas contam-se as secções para todos os livros inclassificáveis, as quais adoptam designações internacionalmente convencionadas como: “Livros encontrados num banco de jardim”; “Livros órfãos”; “Livros urgentes, a ler este ano”; “Livros particularmente difíceis, com equações escritas com letras indecifráveis”; “Livros perigosos e que podem causar problemas de nervos”; “Livros a ler com vento favorável”; Livros ilegíveis em dias de sol”; “Livros totalmente inúteis, mas extremamente interessantes para pelo menos 2 pessoas”; “Assuntos sem solução”; “Respostas sem perguntas”; “Livros de profundidade média”; “Livros aeriformes, vaporíferos e diáfanos”; “Livros auto-combustíveis e de ignição espontânea”; “Livros com conteúdo duvidoso, com mapas de tesouro”, “Livros de conteúdo duvidoso mas sem mapa de tesouro”; “Livros estranhamente cansativos”, “Livros profundos que não vale a pena aprofundar”, “Livros tímidos reservados”, “Livros que não são propriamente livros”; “Livros para ler apenas com óculos de sol”, “Livros de hetero-ajuda e de desenvolvimento impessoal”; “Livros positivos para pessoas negativas”; “Livros negativos para pessoas positivas”; “Livros que agradecemos que roube porque só estão ocupar espaço”, “Livros oferecidos ou que são embaraçosamente feios”; “Livros que parecem ser sobre a vida afectiva de animais invertebrados”, “Livros sobre plantas onanistas românticas (sub- -tropicais, para-tropicais e tropistas)”, “Livros escritos à mão: secção dextra e secção canhota”; “Livros que provocam estrabismo”, “Livros que curam o estrabismo (não confirmados)”; “Livros perdidos, achados e novamente perdidos”; “Livros falsamente falsos”; “Livros com conteúdo adúltero adulterado”, “Livros incompletos, inacabados e/ou nunca escritos”, “Livros que começam a meio ou que acabam antes do fim”; “ Livros para vadios e procastinadores”; “Livros impossíveis e meramente possíveis”; “Livros impermanentes inconstantes”; “ Livros especialmente concebidos para empregados bancários ou contabilistas”; “Livros que não cabem em nenhuma estante concebível”, “Livros contendo as listas das secções completas da biblioteca, incluindo as que foram abandonadas após o protesto de leitores e dos temas que estão ainda em estudo”, entre inúmeras outras secções. 43. Na biblioteca perfeita só se encontram aqueles que se perdem nela. Rodrigo Silva