scieee AI-readable full text Open interactive document viewer

O sítio arqueológico de Qubbet el-Hawa (Assuão): contribuição para um estudo

Bailarim, Susana Maria Fernandes Mendonça

Abstract

O sítio arqueológico Qubbet el-Hawa, localizado na margem Oeste da cidade de Assuão, também conhecido como “colina ventosa” e “o Túmulo dos Nobres” foi alvo de interesse por vários exploradores, eruditos e arqueólogos durante os séculos XIX e XX. Das múltiplas intervenções, resultaram ruínas e um amplo e disperso acervo documental que se encontra por estudar. O trabalho agora apresentado pretende sistematizar essa informação para conhecer melhor a história das investigações, os resultados obtidos, resumindo, conhecer a história desconhecida de Qubbet el-Hawa. Apresentamos algumas propostas para o futuro, com o intuito de dignificar um local que apresenta uma linha contínua de ocupação histórica, que vai desde o Império Antigo (VI dinastia) até à actualidade, mas que permanece numa quase obscuridade.

Full text

Susana Maria Fernandes Mendonça Bailarim Susana Maria Fernandes Mendonça Bailarim Instituto de Ciências Sociais O sítio arqueológico de Qubbet el-Hawa (Assuão). Contribuição para um estudo O sítio arqueológico de Qubbet el-Hawa (Assuão). C o n t r i b u i ç ã o p a r a u m e s t u d o . Setembro de 2020 Uminho | 2020 Universidade do Minho Setembro de 2020 Dissertação de Mestrado Arqueologia Trabalho efetuado sob a orientação do Professor Doutor Rogério Sousa Susana Maria Fernandes Mendonça Bailarim Universidade do Minho Instituto de Ciências Sociais O sítio arqueológico de Qubbet el-Hawa (Assuão). C o n t r i b u i ç ã o p a r a u m e s t u d o . e da Professora Doutora Maria Manuela dos Reis Martins ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição CC BY iii AGRADECIMENTOS À minha orientadora, Professora Doutora Manuela Martins, pelo exemplo e dedicação e por não ter desistido nunca de nada. Ao meu coorientador, Prof. Doutor Rogério Sousa, por prontamente ter acedido a fazer parte deste projecto. Aos meus professores de Mestrado pela dedicação e ensinamentos proporcionados. Aos funcionários da Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho por todo o apoio prestado sempre que necessário. À Prof. Doutora Ana Bettencourt por todo o apoio incondicional. À Directora do Museu Egípcio de Florença, Doutora Maria Cristina Guidotti, pelas informações fornecidas sobre o trabalho de Ernesto Schiaparelli em Qubbet el-Hawa e no esclarecimento da dúvida em torno dos registos de campo e espólio arqueológico proveniente das escavações. Ao Egiptólogo e Arquivista Tommaso Montonati, do Museu Egípcio de Turim, pelas informações e fotografias gentilmente cedidas que tornaram este trabalho mais rico. À Arab Academy for Science and Maritme Technology (Assuão), na pessoa da Prof. Doutora Monica Hanna, pela troca de ideias, conversas e cumplicidades, ao longo destes últimos três anos de convivência. Por fim, um agradecimento muito especial à Doutora Fernanda Magalhães pela presença constante, incentivo, desdobramento para a resolução de questões burocráticas que pareciam nunca mais acabar. iv DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. v À minha avó Maria José… vi ‘’GREAT GOD in the West, whose forms are mysterious, toward their hours. They do what they have to do, [they] pass by and enter the earth, into the Cavern of He who hides his Hours, while their shadows carry their rays and their rays are in the flesh of him who hides them. The god has passed the bank. Those who follow [him], the souls, the guides of their bodies, enter into the darkness after the passage of Re’’ . - The Tomb of Ramses VI vii Titulo: O sítio arqueológico de Qubbet el-Hawa (Assuão). Contribuição para um estudo Resumo O sítio arqueológico Qubbet el-Hawa, localizado na margem Oeste da cidade de Assuão, também conhecido como “colina ventosa” e “o Túmulo dos Nobres” foi alvo de interesse por vários exploradores, eruditos e arqueólogos durante os séculos XIX e XX. Das múltiplas intervenções, resultaram ruínas e um amplo e disperso acervo documental que se encontra por estudar. O trabalho agora apresentado pretende sistematizar essa informação para conhecer melhor a história das investigações, os resultados obtidos, resumindo, conhecer a história desconhecida de Qubbet el-Hawa. Apresentamos algumas propostas para o futuro, com o intuito de dignificar um local que apresenta uma linha contínua de ocupação histórica, que vai desde o Império Antigo (VI dinastia) até à actualidade, mas que permanece numa quase obscuridade. Palavras-chave: Qubbet el-Hawa; Historiografia; Trabalho arqueológico; Valorização patrimonial xiv Figura 63 e 64. Nichos com estátuas Osiríacas representando o falecido. Pormenor de estátua. Figura 65. Pormenor das inscrições nos pilares. Figura 66 a 68. Pormenor das pinturas na capela. Figura 69. Planta do Túmulo de Herkhuf. Figura 70 e 71 - Pormenor da fachada do Túmulo de Herkhuf. Figura 72 a 74. Pormenor da porta falsa e túnel descendente. Figura 75. Planta do Túmulo de Sarenput I. Figura 76 a 78. Fotos de pormenor do átrio, fachada e inscrição de Sarenput I. Figura 79 e 80. Pormenor de cena de pesca com rede e preparação da rede. Figura 81 e 82. Representação de Sarenput sentado. Pilar localizado no átrio. Figura 83. Representação em corte de mastaba. Figura 84 a 86. Escadaria de Mekhu e Sabni. Pormenor da escadaria de Sarenput I Khunes. Figura 87. Problemas estruturais. Figura 88 e 89. Exemplos de diversos tipos de fendas e da erosão da rocha. Figura 90. Exemplo do mau estado de conservação do arenito e pintura mural. Figura 91 e 92. Alguns exemplos de perda de pigmentos. Figura 93 e 94. Alguns exemplos de destacamento da pintura do seu suporte original. Figura 95. Destacamento da pintura e preenchimento das lacunas. Figura 96. Pormenor das fracturas e fuligem no teto do túmulo. Figura 97. Vista geral de Qubbet el-Hawa, numa sexta-feira. Figura 98. O painel informativo junto ao Túmulo de Mekhu e Sabni. Figura 99. Parque de estacionamento dos camelos (um vale com túmulos tipo mastaba). xv Lista de apêndices Apêndice 1. Listagem dos túmulos identificados em Qubbet el-Hawa e respetivas datações. Apêndice 2. Tabela dos túmulos, proprietários, respectivos achados e local de depósito. Introdução O sítio arqueológico de Qubbet el-Hawa (Assuão). Contribuição para um estudo 2 O estudo que aqui apresentamos incide no sítio arqueológico de Qubbet el-Hawa, localizado na margem oeste da cidade de Assuão (Egipto), nas imediações da Ilha de Elefantina. Qubbet el-Hawa é uma vasta necrópole, em que a maior parte dos túmulos foram escavados na colina de arenito, estendendo-se essencialmente ao longo de três plataformas horizontais, orientada norte/sul, sobre o vale, portanto paralelas ao leito do rio Nilo. Das nossas diversas conversas com os habitantes locais apercebemo-nos que muitos deles não têm a real noção da importância histórica e cultural de Qubbet el-Hawa. Em geral, sabem apenas, que a montanha foi escolhida por alguns nobres que residiram em tempos muito recuados, na Ilha de Elefantina e que elegeram a colina como a sua última morada. Da interação com os guardas/guias locais apercebemo-nos que muitos deles pouco ou quase nada sabem sobre Qubbet el-Hawa, e que as informações que adiantam aos visitantes, são escassas. Atualmente, apenas quatro túmulos estão abertos ao público, porém, sabe-se que existem mais de 100 túmulos. Qubbet el-Hawa foi, portanto, uma importante necrópole. Uma das razões para a sua importância, e em verdade a mais significativa, é a sua localização geográfica: ela situa-se perto da fronteira meridional do Egipto. Desde tempos imemoriais que, a Primeira Catarata do Nilo constituía a fronteira natural do Egipto. Por isso, a Ilha de Elefantina, situada nas imediações da Catarata, desempenhou, desde cedo, um importante papel administrativo no estabelecimento de um corredor africano e Qubbet el-Hawa terá sido a principal necrópole onde foram sepultados funcionários e altos responsáveis locais. Apesar de ter sido mencionado por diversas vezes em apontamentos de viagens efetuadas por curiosos, orientalistas, antiquários e escritores desde o século XVIII, só por volta de 1885 é que este local, também conhecido como Montanha ou Cúpula do Vento, Vale dos Príncipes ou Túmulo dos Nobres, despertou o interesse dos arqueólogos. Entre os pioneiros da arqueologia egípcia que se interessaram por Qubbet el-Hawa, contam-se Francis Grenfell e Edward Budge (1885-65), Francis De Morgan (1890) e Ernesto Schiaparelli (1892). Nos anos 1901 a 1904, trinta e dois túmulos foram identificados e escavados por Lady William Cecil e Howard Carter. Entre 1946 e 1951, Lalib Habachi iniciou a escavação de túmulos localizados perto do hipogeu de Hekaib. Na altura, foi publicado um único relatório das diversas escavações. Mais tarde, Seyfried e Vieler publicam as notas de campo de Habachi. Introdução 3 De 1959 até 1984, Elmar Edel da Universidade de Bona trabalhou na necrópole de Qubbet elHawa. Apesar da pesquisa inicial ter sido dedicada ao estudo das inscrições, acabou por, também, fazer algumas escavações. O Qubbet el-Hawa Research Project, liderado por Martin Bommas da Universidade de Birmingham desenrolou-se de 1999 a 2018, com apenas algumas escavações pontuais realizadas na base da encosta oriental. A Missão Arqueológica Italiana (2003), dirigida pela arqueóloga Maysoun Al-Khouri e G. Infranca (ISAD, Roma), em colaboração com o arqueólogo da Universidade de Jaén, Jiménez Serrano, desenvolveu trabalhos centrados na análise dos diversos pigmentos do túmulo QH 90. Uma prospeção geofísica realizada pela equipa, recorrendo ao geo-radar, confirmou a existência de 12 novos túmulos, três dos quais totalmente desconhecidos até então. O Proyecto Qubbet el-Hawa (Universidade de Jaén) está activo desde 2007. Desde então, o Proyecto Qubbet el-Hawa desenvolve anualmente uma missão no local. Todos os túmulos identificados na necrópole de Qubbet el-Hawa pertencem a uma elite local, residente na Ilha de Elefantina. Segundo Vischak 1 , devido à proximidade da Ilha de Elefantina com a fronteira núbia, esta torna-se no mais importante entreposto comercial do Egipto durante a VI dinastia. Aqui era efetuado o controlo das mercadorias e a maior parte dos habitantes estariam largamente envolvidos nesta atividade em favor do rei. As autoridades locais, representavam em todos os aspetos, o poder real e seus interesses. Neste período, a Baixa Núbia encontrava-se repovoada por diversos grupos indígenas e a importância da Ilha de Elefantina crescia, não só pela sua localização estratégica, mas também pelas diversas expedições, tanto militares como para adquirir produtos para o faraó, tais como o marfim, ouro 2 . A VI dinastia foi caracterizada por diferentes mudanças na organização de expedições à Nubia e outros locais, mas, também pela alteração da estrutura administrativa provincial. Alguns dos nobres e governadores tinham o poder exclusivo para usar o selo do rei, para assinar documentos, dar autorizações, como foi o exemplo do governador Sarenput II. Herkhuf por exemplo, organizou três expedições até às terras núbias, a fim de negociar mercadorias. Mas não terá sido fácil. Na carta que Pepi II escreveu a Herkhuf e que este reproduziu na fachada do seu túmulo, o rei dá-lhe instruções dizendo que “ ordena ao chefe das novas cidades, para 1 Vischak, 2006: 19. 2 Vischak, 2006: 22. O sítio arqueológico de Qubbet el-Hawa (Assuão). Contribuição para um estudo 4 certificar e documentar as mercadorias que são levadas dos armazéns do reino e de cada templo. E que não haja excepções”. Hekarib I foi enviado às terras núbias, a fim de tentar apaziguar as relações entre os egípcios e os núbios. Mekhu também o terá feito, mas foi brutalmente assassinado. Seu filho, Sabni I, descreve na sua autobiografia, os esforços incansáveis que terá feito para conseguir resgatar o corpo de seu pai, a fim de lhe proporcionar um funeral condigno. Refere também, o sucesso da construção de várias barcas na zona de Wawat. Após um longo reinado, Pepi II vai gradualmente perdendo o controlo das províncias localizadas no Alto Egipto, o que resulta na descentralização do poder real, passando os nobres a assumir o controlo do poder local nesta área. Com a morte desse governante, inicia-se um período de regressão pautado pela desagregação, ao qual se juntam as diversas transformações climáticas, afectando fortemente a agricultura com as subidas repentinas do caudal do rio Nilo. É nesta altura que as relações comerciais entre o Egipto e a Núbia são interrompidas. Só com a subida ao poder do faraó Mentuhotep II, e com o início do Império Médio, se vai tentar retomar a economia e o restabelecimento de tudo o que tinha desaparecido no final do Império Antigo. Apesar do inegável contributo proporcionado por todas estas missões para o avanço do conhecimento sobre a necrópole, permanece ainda por realizar, um estudo integrador que permita proporcionar uma visão global sobre o trabalho que foi feito na necrópole, bem como a caracterização dos túmulos mais importantes e dos indivíduos aí sepultados. Desse modo, conhecendo a necrópole de uma forma mais integrada, podemos facultar à comunidade científica, mas também à comunidade local, informações essenciais para a caracterização da necrópole. A história das investigações deste sítio demonstra o modo como uma política que não valoriza as especificidades de cada estação arqueológica, sujeitando-a a explorações pontuais que visam, apenas, a aquisição de bens patrimoniais sem, contudo, compreender a singularidade do seu contexto histórico, está profundamente errada. Este modo de atuação tem resultado num conjunto de estações abandonadas, com espólios e registos dispersos por diferentes instituições. O objetivo geral deste trabalho é contribuir para ultrapassar os constrangimentos resultantes desta política, desenvolvendo um estudo sistemático para consolidar o seu valor científico e patrimonial. Assim, este trabalho pretende contribuir para: Introdução 5 1O conhecimento pormenorizado de Qubbet el-Hawa implica caracterizar o tipo de enterramentos, sua datação e a evolução ocupacional do local, desde o Império Antigo até à atualidade. 2Reconstituir as intervenções arqueológicas realizadas no século XIX, o que nunca foi feito, e reinterpretar dados recolhidos em escavações anteriores e analisá-los de modo a recriar o seu contexto histórico e arqueológico da necrópole. 3Criar um plano de valorização do sítio para que num futuro próximo, este possa ser um local visitável e valorizado, com as infraestruturas necessárias e aliciando assim as operadoras turísticas a integrá-lo no seu plano turístico. Assim, este estudo divide-se em três partes: A primeira parte procuraremos sintetizar a exploração arqueológica do Sítio de Qubbet el-Hawa. Abordaremos as primeiras referências ao local e analisaremos os trabalhos arqueológicos que se desenvolveram desde o século XVIII até à atualidade. Na segunda parte, procuraremos caracterizar a necrópole, procedendo a uma análise detalhada dos quatro túmulos que se encontram na atualidade visitáveis e abertos ao público, tendo em vista a sua descrição arquitetónica, decorativa e funcional. Finalmente, abordaremos também algumas questões relacionadas com o espólio arqueológico e o estado de conservação do local. Neste âmbito, iremos problematizar o futuro para Qubbet el-Hawa, avançando com algumas hipóteses de valorização do mesmo. A curiosidade que, desde logo, Qubbet el-Hawa suscitou, deu origem a uma grande dispersão do seu espólio que atualmente se encontra espalhado por muitos países, museus e até coleções particulares. Muitos destes dados estão irremediavelmente perdidos, mas há, também, muita documentação que pode ainda ser recuperada, tendo em vista a sua análise integrada. Foi justamente com o intuito de preparar essa análise integrada que decidimos reunir a informação ainda disponível sobre as intervenções realizadas na necrópole. Como era necessário compreender a natureza das intervenções realizadas no sítio desde o inicio do século XVIII até à atualidade, a nossa investigação dividiu-se em três grandes etapas: 1ª Etapa – Pesquisa bibliográfica Recolha bibliográfica – recolha exaustiva de publicações que descrevem ou caracterizam o sítio arqueológico, desde o século XVIII até à atualidade; O sítio arqueológico de Qubbet el-Hawa (Assuão). Contribuição para um estudo 6 Recolha e análise dos relatórios publicados – Análise dos relatórios publicados pelas missões que desenvolveram trabalho na zona em questão; 2ª Etapa – Prospeção Prospeção arqueológica– Batida de campo de toda a área onde se encontra localizada a necrópole, bem como a envolvente; Levantamento fotográfico – Toda a zona já devidamente identificada pelas diversas missões arqueológicas foi fotografada, assim como a área envolvente; 3ª Etapa - Análise e integração dos dados Estudo e análise de todas as informações e dados recolhidos ao longo das duas etapas anteriormente descritas. Todas as atividades anteriormente enumeradas e descritas ocorreram durante o período de outubro de 2019 até fevereiro de 2020. Algumas não foram devidamente concluídas devido às contingências aplicadas pelas autoridades egípcias, relacionadas com a pandemia desencadeada pelo COVID 19, a qual determinou o encerramento ao público e a cessação de todos os trabalhos de campo em curso no sítio arqueológico. Contudo, consideramos suficientes as informações já recolhidas. Parte I A exploração arqueológica do Sítio de Qubbet el-Hawa (Assuão - Egipto) O sítio arqueológico de Qubbet el-Hawa (Assuão). Contribuição para um estudo 8 1. As primeiras descrições efetuadas sobre o local Desde o século XVIII que Qubbet el-Hawa tem suscitado o interesse de viajantes e estudiosos. Foram as descrições feitas pelos primeiros visitantes que alimentaram a curiosidade, mesmo quando pouca gente se aventurava a subir o Nilo e, menos ainda, a ultrapassar Luxor. Frederick Norden 1 foi um precursor. Chegou a Assuão em dezembro de 1737 e na sua obra “Travels in Egypt and Nubia”, editada em 1757, faz aquela que se considera ser a primeira descrição de Assuão e da Ilha de Elefantina. Deslocando-se de feluka 2 , visitou as margens este e oeste onde se localiza a ilha e terá sido a primeira pessoa a descrever e desenhar o antigo templo de Elefantina que mais tarde foi destruído: “I went to a little island, situated in the neighbourhood of Essuaen and very near the western shore of the Nile. It is called by the name of the Elephantine. It is the southern part it is mountainous and covered with ruins. There are, however, but very few of these ruins that one can well distinguish, because the rest are buried underground.” (Norden ,1757: 301). Norden exalta a imponência do edifício, mas também fala do descuido e abandono do local, dos constantes atos de vandalismo causados por pastores que, ao fazerem fogueiras, queimavam as paredes ainda decoradas com hieróglifos. Só passados mais de sessenta anos da publicação da obra de Norden 3 , é que são feitas novas referências a Qubbet el-Hawa. Desta feita foi, por John Lewis Burckhardt 4 , que menciona o local em “Travels in Nubia”. Burckhardt chegou a Assuão em Fevereiro de 1813, e iniciou o seu roteiro com uma visita ao Cemitério Sarraceno 5 localizado perto da antiga pedreira de granito onde ainda hoje se encontra o famoso Obelisco Inacabado. 1 De origem dinamarquesa. Filho de um coronel da marinha ele próprio capitão de marinha. Possuía um especial talento para o desenho, tendo utilizado os seus dotes no desenho cartográfico. Viajou por diversos países e a pedido do rei da Dinamarca, Christian VI, participou na primeira expedição ao Egipto, organizada pelo francês Pierre Le Roux em 1737. Elaborou mais de 200 desenhos e fez uma exaustiva descrição de toda a viagem no Egipto. Faleceu em Paris, em 1741. 2 Barco tradicional egípcio de uma vela e mastro alto, que navega utilizando a força do vento. 3 Norden, 1757: 304. 4 Viajante e explorador, nasceu em 24 de novembro de 1784, em Basileia (Suíça), numa família abastada. Insatisfeito com a sua profissão de professor, resolveu viajar entre 1808 e 1817, pela Síria, Egipto e Arábia saudita, assumindo a identidade falsa de Sheikh Ibrahim Ibn ‘Abd Allah’. Faleceu numa das suas viagens (outubro de 1817) e foi sepultado no Cairo. 5 Actual Cemitério Fatimida localizado na margem este, que se estendia desde a estação de comboios de Assuão até à zona do Obelisco Inacabado. Está reduzido a 1/3 da dimensão anterior pois foi destruído, em grande parte, pela construção da actual estrada principal que liga Assuão a Abu Simbel. Parte I - A exploração arqueológica do Sítio de Qubbet el-Hawa (Assuão-Egipto) 15 Figura 4. Localização dos túmulos de Grenfell (QH 25/26) e zona a explorar (Foto SB). Outro ponto que tem levantado algumas interrogações é o facto de Grenfell ter iniciado a numeração dos túmulos a partir do número 25 não, como seria de se esperar, no número um. É possível que esta decisão possa estar relacionada com o factor “localização” do túmulo; este encontra-se a meio da plataforma, no topo da colina. Grenfell poderá ter pensado na hipótese de encontrar mais túmulos, no seguimento da mesma cota (para a esquerda e assinalado na fotografia em cima a amarelo). Se olharmos para o resto da plataforma, existe uma linha na continuidade o que, na nossa opinião, será comprovado pela missão espanhola, quando regressar ao trabalho nesta área. Uma descrição mais detalhada será feita na segunda parte deste estudo, contudo, é importante referir que, segundo Budge (Budge, 1887: 36, 37), Grenfell terá encontrado no interior deste túmulo duplo, de Mekhu e Sabni (QH 25/26), uma grande quantidade de fragmentos de ataúdes, restos de múmias queimadas que devido ao seu péssimo estado de conservação, se desfizeram imediatamente, diversos fragmentos cerâmicos, potes cerâmicos de cerveja, algumas estelas de pedra inscritas com hieróglifos e em demótico. O sítio arqueológico de Qubbet el-Hawa (Assuão). Contribuição para um estudo 16 Uma parte do material identificado foi levada para o Museu de Bulaq 18 . No entanto, quando Budge se deslocou ao museu a fim de identificar e transliterar, o material encontrado, passou pela casa de Mustafa Shakir, onde terá visto algumas estelas, várias máscaras funerárias em madeira, uchabtis 19 e diversos fragmentos de tampas de ataúde em madeira. Tratar-se-ia do mesmo espólio? Ou seria a percentagem acordada que poderia reter? Onde se encontra o espólio cedido a Mustafa Shakir, na actualidade? Após o fim da escavação deste túmulo, a equipa continuou a explorar a plataforma, seguindo para norte. Neste alinhamento encontrou diversos túmulos, normalmente sem qualquer nome associado. Foi entre estes que apareceu o Túmulo QH 28 (Hekaib). Sobre o Túmulo de Heqa-ib (QH 28) há pouca informação. Não sabemos o que foi encontrado no seu interior, nem se estava coberto por areia. Apenas foi descrita a existência de uma pequena porta rectangular, talhada na rocha, com acesso directo a uma sala de pequena dimensão, na qual foi identificada uma abertura quadrada com um corredor bastante estreito que conduz à câmara funerária. Budge refere que, nesta passagem, foi descoberta uma pequena estátua em pedra com a representação do defunto e que esta ficou na posse de Edward Malet (Budge, 1887: 23). O texto de Budge é lacunar sobre o contexto em que surge Edward Malet e porque ficou ele com a estátua. No seguimento dos trabalhos, outro túmulo é identificado. Trata-se do Túmulo QH 31, pertencente a Nub-Kau-Ré-Nakht / Sarenput II. Budge mais uma vez, apenas faz a descrição do túmulo, mas nada refere sobre a sua descoberta e escavação, nem se foi encontrado algum espólio. Acrescenta que o túmulo terá sido preparado para Nub-Kau-Ré Nakht, mas que Sarenput terá ficado com ele. Diz-nos também (Budge, 1887: 29) que junto à sala onde existe um nicho ricamente decorado com o altar, identificaram, do lado direito uma grande passagem, cortada na rocha e que um pequeno grupo resolveu explorar essa abertura, descobrindo tratar-se de uma galeria inclinada para o lado esquerdo e apresentando um declive acentuado, conduzindo a um pequeno fosso com cerca de 7 metros de profundidade, desceram por uma corda que amarraram a um dos pilares na entrada da passagem, carregando consigo o equipamento para escavar. Descobriram que o fosso não tinha saída e que neste 18 Cortesia do Sr. Brugsch Bey. 19 Pequenas estatuetas, colocadas nos túmulos, representando servos cuja função era substituir o morto em seus trabalhos no submundo. Parte I - A exploração arqueológica do Sítio de Qubbet el-Hawa (Assuão-Egipto) 17 foi construído uma parede com tijolos de adobe e argila. Removeram parte dos tijolos e descobriram um terceiro buraco, mas sem parede de tijolo ou argila. Desta vez, sentiram dificuldades porque o ar era bastante pesado e quente e as velas esgotaramse. Depois de algumas pesquisas, acabaram por descobrir uma ligação a outro corredor estreito, onde se arrastaram até uma outra divisão que se encontrava entulhada de pedras de pequeno porte até ao teto. Budge escreve 20 que acreditava que este fosse o derradeiro local onde estariam, se existissem, os sarcófagos de Nub-Kau-Ré Nakht e Sarenput. Terá desistido por falta de tempo, já que o trabalho de limpeza da câmara demoraria muito a ser concluído e ele próprio teria de deixar Assuão em pouco tempo. Decepcionado por ter de partir sem concluir esta aventura, Budge acrescenta que, para ele, este era o túmulo mais interessante escavado até ao momento por Sir Grenfell. Não só do ponto de vista decorativo, mas também porque uma pergunta acabou por não ter resposta; qual seria afinal o grau de parentesco entre Nub-Kau-Ré Nakht e Sarenput? No inverno de 1886-87, Budge regressa a Assuão para continuar as escavações juntamente com Sir Francis Grenfell. A primeira tarefa realizada quando chegaram à necrópole foi limpar a escadaria localizada em frente aos túmulos QH 25/26 de Mekhu e Sabni. Esta operação foi feita com a ajuda de soldados ingleses ocasionalmente estacionados em Assuão. Os trabalhos de escavação iniciam-se na plataforma superior com a limpeza e identificação de diversos túmulos. Encontrados vários fragmentos de cerâmica e partes de múmia já em muito mau estado, havia altares destruídos e paredes totalmente cobertas com cal branca por cima das pinturas originais. Budge refere que, seguindo para norte, identificaram um túmulo que merecia uma maior atenção (Budge 1887:32). Efectuaram a remoção da areia da entrada, onde encontraram uma inscrição que atesta a sua construção durante a XII dinastia. Foi-lhe atribuído o número QH 32 21 . Este túmulo apresentava problemas de infiltrações de humidade na rocha, assim como fissuras e fracturas na parede e na porta de entrada. 20 Budge, 1887: 29. 21 Não chegámos a visitar este túmulo. Encontra-se fechado e não nos foi dada qualquer justificação para o facto. Acreditamos que não se encontre estável a nível de conservação. O sítio arqueológico de Qubbet el-Hawa (Assuão). Contribuição para um estudo 18 Budge fala-nos da importância do defunto 22 , faz uma descrição do túmulo que apresentava vestígios de reutilização no período romano, porque apenas foram encontrados vários fragmentos de cerâmica desse período. Este túmulo além de vandalizado, terá sido pilhado também ao longo dos anos e Budge lamenta o facto de não ter encontrado nada importante, a não ser dois a três esqueletos enterrados na areia (Budge, 1887: 32). As escavações prosseguiram mais a norte, onde se encontraram vestígios de uma outra escadaria. Após algumas semanas a escavar e limpar a zona, foi encontrada a entrada para outro túmulo, datado da VI dinastia, feito para o chefe dos escribas do deus Khnum, chamado Nexu, que terá vivido no reinado do faraó Pepi II. Budge conta que, nesta altura, a Missão terá recebido a visita do Príncipe de Nápoles e uma pequena festa/cerimónia foi organizada em sua honra. O Príncipe visitou o túmulo ficando admirado com a vivacidade das cores das representações ao fim de mais de cinco mil anos após a sua execução (Budge, 1887: 32). O “Túmulo do Príncipe de Nápoles” como ficou conhecido o QH 31, apresenta uma forma bastante irregular e estava completamente preenchido com fragmentos de cerâmica quase até ao teto, partes de múmias, crânios e todo o tipo de desperdícios. Os trabalhos terminaram com a partida dos soldados ingleses que ajudaram durante toda a escavação e que, entretanto, receberam ordens para regressar ao Cairo. Pertenciam à XI Companhia da Royal ENG, comandada pelos Majores Hepper Hare e Plunkett e pelo Capitão Hales. Budge também deixa Assuão, mas regressa um mês depois e retoma as escavações que Sir Grenfell havia deixado incompletas, nas imediações do Túmulo QH 31. Budge identificou uma nova sala de pequena dimensão, cujo teto era suportado por três pilares, tanto para o lado norte como para sul, bem como pequenas salas contendo múmias. Um poço foi desenterrado com mais de quatro metros de profundidade, e no final deste, foi então, identificada uma sala onde foram encontrados mais de 200 potes cerâmicos. Um metro mais para sul, foi então identificada a sala com a múmia ainda conservada num ataúde, mas sem qualquer inscrição. No tampo do ataúde, repousavam dois pequenos barcos, ainda com velas e mastros, em muito bom estado de conservação. Budge acrescenta que um destes barcos terá sido oferecido ao Museu Britânico. 22 Budge 1887:32. Parte I - A exploração arqueológica do Sítio de Qubbet el-Hawa (Assuão-Egipto) 19 Budge fornece uma descrição detalhada da sua descoberta. Aos pés da múmia terá aparecido uma caixa quadrada, modelo de um celeiro. Continha diversos compartimentos repletos de sementes e sobre a tampa de cada divisão, um nome específico. Foram também encontrados vasos de alabastro, 30 potes de cerâmica comum (pratos e taças). Budge termina o relatório das escavações fazendo algumas considerações, entre elas sobre a cúpula localizada no topo da colina de Qubbet el-Hawa (Cúpula Ventosa), elogiando o trabalho feito por Sir Grenfell. O trabalho efectuado por Grenfell e W. Budge foi pioneiro para a época. As descrições feitas por Budge são bastante explicativas, contudo, algumas dúvidas ficaram por esclarecer. Afinal, quantos túmulos foram identificados por ambos? Além do Museu de Bulaq e de algumas ofertas pontuais ao Museu Britânico, onde se encontra o restante espólio e afinal o que foi realmente encontrado além do descrito nestes dois relatórios? Não conseguimos apurar se existe algum diário de campo efectuado durante as escavações, com apontamentos adicionais e desenhos. De modo geral ficamos a saber que os túmulos QH 25 e 26 foram utilizados como depósito, desconhecendo-se uma data concreta, se na VI dinastia ou posteriormente. Estes foram vandalizados pela utilização continuada de fogueiras no seu interior, o terá coberto as paredes com uma espessa camada de fuligem. No geral, os túmulos por eles identificados são datados da VIª dinastia e da XIIª dinastia (Império Antigo e Médio). Ficamos a saber, também, que de um modo geral, os túmulos localizados na plataforma superior, por se encontrarem mais expostos, terão sofrido mais com o vandalismo. Alguns foram reutilizados aquando da construção do mosteiro copta, exemplo disso é o QH 34h (Khunes). O sítio arqueológico de Qubbet el-Hawa (Assuão). Contribuição para um estudo 20 Figura 5. Pormenor do Túmulo de Khunes a partir da escadaria. Parte do mosteiro copta (Foto: SB). Todo este conjunto de estruturas escavadas por Francis Grenfell é conhecido como os “Túmulos de Grenfell”, actualmente identificados sob as seguintes referências: Figura 6. Quadro com listagem dos túmulos escavados por Francis Grenfell Wallis Budge (SB). Túmulos identificados por Sir Francis Grenfell e Wallis Budge QH 25 e 26 (Mekhu e Sabni) QH 28 (Hekaib) QH29 (Sobekhotep) QH31(Serunput II / Nub-Kau-Ré-Nakht) QH32 (Aku) QH34a (Khunes) QH34e (Khui) QH34n (Herkhuf) QH36 (Sarenpitu) QH Desconhecido Parte I - A exploração arqueológica do Sítio de Qubbet el-Hawa (Assuão-Egipto) 21 Os trabalhos arqueológicos de Francis Grenfell despertaram o interesse de outros investigadores pelo local, dando origem à criação de outros projectos arqueológicos na zona. 2.1.1. Ernesto Schiaparelli 23 (1892) Figura 7. Fotografia a preto e branco de Ernesto Schiaparelli (Museu Egípcio de Turim). As escavações de Ernesto Schiaparelli terão iniciado no final do ano de 1892, na zona este da colina 24 , mas só em Fevereiro de 1893, dá notícia do aparecimento do Túmulo QH34n de Herkhuf, em Qubbet el-Hawa. Trata-se de um túmulo, como todos os outros, escavado na rocha, localizado no seguimento dos túmulos de Grenfell. A porta de acesso ao interior do túmulo localiza-se num pequeno átrio, completamente soterrada por areia. Depois de dois dias de trabalho, parte das areias do topo da colina desabaram novamente no local que estava a ser limpo (Schiaparelli, 1892: 23). Quando finalmente a área ficou liberta da areia, Schiaparelli ficou fascinado com as inscrições e representações tão bem conservadas, no exterior e no interior da porta. Terá sido Jacques de Morgan a terminar o trabalho, especialmente na transliteração e tradução dos textos hieróglifos inscritos nas paredes do túmulo, o que resultou numa publicação de carácter científico em 1894 25 . Sabemos que Schiaparelli terá ainda encontrado outro túmulo. Contudo, a informação relativa a este outro achado é escassa e sem grandes pormenores. 23 Foi o Director do Museu Egípcio de Florença e posteriormente do Museu Egípcio de Turim e o pioneiro no uso da fotografia como meio de documentação de uma escavação. 24 Ver Mapa nº 29. 25 De Morgan, 1894: 141-201. O sítio arqueológico de Qubbet el-Hawa (Assuão). Contribuição para um estudo 22 Figura 8 e 9. Porta principal de acesso ao túmulo de Herkhuf (QH 34n). Fotos: Ernesto Schiaparelli (Cortesia do Museu Egípcio de Turim). Tentámos obter mais informações, inclusive as incluídas nos relatórios de escavação e contactamos o Museu Egípcio de Turim que nos informou ter apenas em sua posse algumas fotografias do interior e exterior do túmulo e que, possivelmente, todos os registos de campo deveriam estar ainda no Museu Egípcio de Florença (ver nota 25). Conseguimos contactar a Diretora do Museu Egípcio de Florença que nos informou que todo o espólio, bem como os registos de campo, tinham sido transferidos para o Museu Egípcio de Turim. Pensamos que os registos se encontrem misturados com outro espólio pois Ernesto Schiaparelli fez mais trabalhos nos Egipto, no Vale dos Reis, no Vale das Rainhas e em Deir-El Medina e é natural, que tivesse juntado as plantas, fotografias e notas relativas aos diferentes locais. Esperamos que para um futuro projeto consigamos encontrar os registos efetuados por este arqueólogo. 2.1.2. Jaques De Morgan (1893) Figura 10. Fotografia a preto e branco de Jaques de Morgan Parte I - A exploração arqueológica do Sítio de Qubbet el-Hawa (Assuão-Egipto) 23 Jacques de Morgan foi Director do Serviço das Antiguidades do Egipto de 1892 a 1897.Em Janeiro de 1893, Jacques de Morgan chega a Assuão acompanhado de Urbain M. Bouriant (Director do Instituto Francês de Arqueologia Oriental do Cairo), Georges Legrain (membro também do Instituto Oriental Francês do Cairo), Gustave Jéquier (Arqueólogo Suiço) e Alessandro Barsanti (curador e conservador no Serviço de Antiguidades) para empreender uma missão arqueológica sob os auspícios do Serviço das Antiguidades do Egipto. A equipa fez o levantamento de todos os grafittis gravados nas rochas de granito localizadas no Nilo, especialmente nas zonas das cataratas. Este trabalho foi efectuado até ao mínimo detalhe. Depois de concluído, a equipa efectuou o levantamento das inscrições dos monumentos de Elefantina. O projecto de trabalho incluiu ainda, levantamentos das inscrições em Qubbet el-Hawa, e uma descrição dos túmulos encontrados por Grenfell (De Morgan, 1894: 144). Na primeira fase do trabalho, foi feita a limpeza dos túmulos onde era totalmente impossível aceder. Seguiu-se o levantamento da localização dos túmulos, de todas as inscrições, representações, bem como do estudo arquitectónico dos 16 túmulos que até então tinham sido identificados e escavados. O trabalho acabou por fazer algumas correcções nas traduções/transliterações anteriormente realizadas por Ernesto Schiaparelli. Apesar de não ter realizado qualquer escavação no local, a equipa de Jaques de Morgan empreendeu o primeiro estudo sistemático sobre Qubbet el-Hawa. O estudo integral da necrópole foi publicado no primeiro volume da monumental obra, Catalogue des Monuments et Inscriptions de L’Égypte Antique 26 . LISTAGEM DOS TUMULOS ESTUDADOS POR JAQUES DE MORGAN QH25/QH26 Mekhu e Sabni I (pai e filho) QH28 Hekaib (filho de Penidebi) QH34 Serenpitu (Filho da senhora Sit-Teni) 26 De Morgan et all (1894) Catalogue des Monuments et Inscription de L’Égypte Antique. Premier Série –Haute Égypte.Tome Premier, De La Frontiére de Nubie a Kom Ombo. Vienne. O sítio arqueológico de Qubbet el-Hawa (Assuão). Contribuição para um estudo 24 QH32 Khema ? Reutilizado pela familia de Aku e Akua QB34e Khui QH 34h Khunes QH29a Nexu (?) (o Príncipe de Nápoles?) QH34n Herkhuf (e a sua mulher Tepeh-Nefert) QH35 Pepinakht Hekaib I QH35l? Sem-Mesi? QH36 Sarenput I /Serenpitua QH90 Sobek-Hotep QH102 Khuin-Khnum QH105 Seni QH88 Henebaba Figura 11. Quadro com listagem dos túmulos escavados por Jaques de Morgan (SB). Parte I - A exploração arqueológica do Sítio de Qubbet el-Hawa (Assuão-Egipto) 31 Figura 15. Croqui do plano do Túmulo 15 pertencente a Kagemu, elaborada por Lady Cecil. As paredes do vestíbulo mostram cenas religiosas, bastante danificadas, devido a uma praga de térmitas. Duas fossas foram encontradas no vestíbulo, uma de cada lado, cobertas por pedras. Após a limpeza e no meio do entulho, foi descoberto um pote cerâmico de engobe vermelho/preto 30 . Lady Cecil adianta que a 27 de Janeiro de 1902, o selo 31 colocado na porta deste túmulo, terá sido partido. Aparentemente ninguém tinha entrado, porque um ataúde de madeira foi encontrado pela equipa ainda in situ , com uma múmia. Infelizmente, a múmia estava em muito mau estado, devido à praga de térmitas. Foram identificados diversos potes de cerâmica vermelha, contendo, no seu interior, argila do Nilo. A porta que ligava o vestíbulo à capela funerária, apresentava vestígios de ter sido preparada para levar uma porta. O teto é suportado por quatro pequenas colunas redondas. No meio da parede era visível um pequeno nicho. À esquerda, a câmara funerária apresentava apenas duas colunas com decoração. O teto estava decorado com diferentes motivos: patos, rolas e inscrições a negro. O interior continha areia e pedras de médio porte. Misturado com a areia, foi identificado o bojo pertencente a um vaso canópico e duas tampas pintadas a negro. 30 Possivelmente tipo Naqada I ou Kerma clássico. Torna-se difícil confirmar sem a existência de desenho ou uma fotografia. 31 Ainda atualmente, todos os túmulos ou locais de depósito contendo espólio arqueológico, são selados pelo inspetor, no fim do dia e no final das campanhas. Pela manhã, os inspetores, a primeira coisa que fazem é verificar se o selo está intacto. Caso não esteja, é aberto um inquérito para apurar responsabilidades, porque no local ficam sempre guardas que supostamente têm de circular durante toda a noite pelo sítio arqueológico e verificar os selos das portas. Como é óbvio, as peças mais significativas são automaticamente transferidas para o museu local. Desde 2016 que a politica mudou e as peças mais importantes, no mesmo dia, viajam para os depósitos do Grande Museu do Cairo. O sítio arqueológico de Qubbet el-Hawa (Assuão). Contribuição para um estudo 32 Na câmara funerária, foi encontrado um sarcófago antropomórfico em arenito, mas sem inscrições. A tampa, encontrava-se partida. Tudo apontava para que este túmulo tivesse sido construído na VI dinastia e mais tarde reaproveitado/reutilizado, devido à datação estilística das pinturas de parede (datadas da XIX ou XX dinastia). Túmulo 16Localiza-se na mesma linha sequencial do túmulo anterior. É composto por uma câmara funerária e duas salas para mobiliário funerário. Os objetos existentes neste túmulo foram completamente destruídos pela praga de térmitas e, por esse facto, a escavação do túmulo pela equipa de Lady Cecil foi suspensa. No exterior, entre a areia, foram encontrados diversos objetos cerâmicos, contendo restos de ossos calcinados. Túmulos 17, 17a, 17b, 17cTodos localizados a este. O Túmulo 17 encontrava-se totalmente destruído, devido ao deslizamento de terras provocado por um terramoto. Os seguintes também não se encontravam em melhor estado. Não foi efetuado qualquer tipo de trabalho nestes túmulos. Túmulos 17d, 17e - Localizados a sul dos anteriores. Foram abandonados pela mesma razão. Um pouco mais abaixo destes túmulos, foram identificadas duas sepulturas com cerca de dois metros de comprimento cada, cobertas por areia e pedras de pequeno porte. Ao serem limpas foram identificados dois esqueletos que não apresentavam vestígios de terem sido enfaixados ou cobertos por um sudário. Tratar-se-iam de enterramentos do período copta. As escavações avançaram para o lado este de Qubbet el-Hawa, na mesma sequência dos túmulos de Grenfell. Túmulo 18 – Localizado na rampa a sul da colina, para o lado este, ao mesmo nível do Túmulo QH 34. A porta de acesso encontrava-se parcialmente coberta por areia, que demorou algum tempo a remover. Junto à porta foram identificados dois ramos de tamareiras e dois ramos de palmeiras dome 32 . Trata-se de um túmulo com planta labiríntica, com diversos corredores, seguindo várias direções e em cada direção diferente, o teto era suportado por várias colunas. Por não apresentar segurança alguma, não foi efetuado nenhum tipo de trabalho no interior deste túmulo. Túmulo 19 - Localizado perto do túmulo QH 27 de Grenfell, encontrava-se em muito mau estado e muito instável também. Teve de ser escorado. A porta de entrada encontrava-se tapada com pedras e 32 Dome trata-se de um fruto de cor castanha clara e do tamanho da palma da mão, com alguma dureza. Bastante utilizado no Egipto, pode ser utilizado como farinha, depois de ralado e pode ser misturado em água para beber como sumo fresco. Tem um sabor bastante forte e levemente adocicado. É utilizado para as dores de estômago e má circulação do sangue. Rico em vitaminas A, B, B1 e B2. Há quem diga que ajuda na regeneração das células do organismo, após a luta contra o cancro. Também existe noutras partes do norte de África. Parte I - A exploração arqueológica do Sítio de Qubbet el-Hawa (Assuão-Egipto) 33 areia. Estava ladeada por duas colunas. Havia um longo mas estreito corredor que teve de ser percorrido a rastejar, conduzindo a uma pequena câmara funerária. À esquerda da entrada, uma passagem inclinada levava a outra câmara funerária dividida em duas partes. Nessa câmara, as térmitas tinham destruído quase tudo, mas conseguiu-se identificar algumas figuras completas de Ptah-Sokar-Osiris e algumas máscaras funerárias. Foram identificadas muitas múmias por todo o túmulo, mas era impossível tocar-lhes. Encontravam-se todas desfeitas, quase em pó, devido às térmitas. Foi identificada muita cerâmica, especialmente potes cerâmicos (cerca de 45) de grandes dimensões, em tudo semelhantes aos encontrados no Túmulo 15, além de contas de colar de diversas cores e tipos, escaravelhos alados em faiança azul, uma paleta cosmética em alabastro, com a representação de uma flor de lótus. As escavações avançaram para o lado sul da colina, mesmo por cima das ruínas do Mosteiro de S. Jorge. Os trabalhos neste local iniciaram-se a 13 de fevereiro de 1902 e foi identificada uma entrada para um túmulo onde foi encontrada uma múmia desfeita. Parte das faixas estavam destruídas e junto ao peito foi identificado uma concha em madrepérola inscrita com a cartela real de: Senuseret I. Também foi encontrada uma adaga de bronze no meio das faixas e algumas contas em ágata. Não foi atribuído número a este túmulo que data da XII dinastia. Túmulo 20Apresenta um pequeno vestíbulo. O teto à esquerda é suportado por um pilar quadrado. Foi identificada uma passagem subterrânea no centro que conduzia a duas pequenas câmaras funerárias. As paredes encontravam-se enegrecidas pelo fogo ocorrido na antiguidade. Por baixo de uma das câmaras funerárias, a uma profundidade de cerca de seis metros, foi identificada outra câmara, cuja entrada se encontrava ainda selada. As pedras foram removidas e foi identificado um ataúde retangular e dois potes cerâmicos. Sobre a tampa do ataúde, encontravam-se diversas pontas de seta em sílex, algumas tigelas, e três bengalas, bastante destruídos pelas térmitas. O ataúde media 1,90x0,45x0,61m e encontrava-se em bom estado de conservação. Apresentando uma inscrição em branco e preto e representações várias. O nome: MesenuSaHaqiaa foi identificado. A múmia estava em mau estado. Túmulo 21No seguimento do túmulo anterior encontrou-se um enterramento datado da XXVI dinastia com dois ataúdes, de um homem e de uma mulher. O ataúde do homem estava em muito mau estado e completamente destruído pelas térmitas. No exterior era possível observar na base do ataúde, O sítio arqueológico de Qubbet el-Hawa (Assuão). Contribuição para um estudo 34 a representação do touro Ápis - transportando a múmia. A múmia terá sido coberta por um colar de contas com várias voltas. O ataúde da mulher encontrava-se em melhor estado de conservação e a múmia coberta por um colar de contas azuis, com várias voltas. Foi também encontrada uma opala em verde-escuro no meio do colar. Os vestígios encontrados apontam para enterramentos intrusivos datados da Época Baixa. Túmulo 22De grandes dimensões, este túmulo apresenta cerca de sete câmaras funerárias. A entrada estava tapada por pedras e muita areia onde foi encontrada uma grande quantidade de contas de colar, uma ametista e contas em coralina. Junto à entrada foram encontradas duas múmias. Foram encontrados vários fragmentos de vasos em alabastro amarelado e acinzentado. Foi anda possível identificar outros vestígios de múmias, mas muito destruídas. Os ataúdes encontravam-se destruídos, devido às térmitas. Foram também descobertos diversas pontas de seta partidas, de sílex e outra concha em madrepérola com o nome Senuseret I gravado. No exterior do túmulo foram ainda identificados vários potes cerâmicos. Entre o espólio, figurava uma boneca em madeira de braços manobráveis, segurando uma rola numa das mãos. Túmulo 23Localizado no seguimento do anterior. Um vestíbulo foi identificado, mas o seu teto terá colapsado e todo o espaço ficou coberto por escombros. Apenas uma parte tinha areia, que foi removida. Foi identificada uma câmara funerária onde se encontraram restos de uma múmia completamente desfeita pelas térmitas. Túmulo 24 – Composto por um vestíbulo e uma pequena câmara subterrânea. Foram identificados diversos ataúdes cuja decoração ainda se encontrava em bom estado de conservação. As múmias estavam destruídas pela praga das térmitas. Foram encontradas muitas contas de colar, incluindo uma ágata e uma ametista. Junto à parede mais afastada, foi encontrada uma grande quantidade de cerâmica pertencente a diversos períodos: dois potes cerâmicos, pertencentes à VI dinastia, (iguais aos identificados no Túmulo 15), duas pedras de ametista e uma ágata, com a representação de dois leões e um pequeno cilindro com o nome de Amenemhat III. Também algumas conchas, duas paletes de cosmética e uma colher em madeira. 3.1.2 Segunda campanha (novembro de 1902): Limpeza e conservação No início de novembro do mesmo ano, iniciam alguns trabalhos pontuais de remoção de areia, nos seguintes túmulos: Parte I - A exploração arqueológica do Sítio de Qubbet el-Hawa (Assuão-Egipto) 35  QH25 Mekhu (Grenfell) - Remoção da areia localizada junto aos batentes da porta de acesso ao interior do túmulo; Limpeza da escadaria nº1, desde o sopé da montanha até à porta; Limpeza da plataforma;  QH26 Sabni (Grenfell) - Remoção da areia localizada junto aos batentes da porta de acesso ao interior do túmulo; Limpeza da escadaria nº2, desde o sopé da montanha até ao topo da plataforma;  QH31 Nub-Kau-Ré-Nakt - Sarenput II (Grenfell) - Remoção da areia localizada junto à porta de acesso ao túmulo e interior.  QH 32 Akhou (Grenfell) - Apenas uma ligeira limpeza  QH35 Pepinakh - Hekaib I (Grenfell) - Remoção da areia localizada no átrio em frente à porta e acesso ao interior do túmulo e interior.  QH 36 Sarenput I, filho de Sitteni (Cecil) - Remoção da areia localizada no interior do túmulo.  QH nº18 Khakemahu (Cecil) - Foi construído um muro de pedra de ambos os lados da porta exterior a fim de impedir a areia de entrar, assim como uma grande de ferro para a porta. Trabalho terminado na primeira semana de dezembro de 1903. 3.1.3 Terceira campanha (fevereiro de 1904): Escavação Por se tratar de um local muito promissor, Lady Cecil e Howard Carter resolveram continuar as escavações iniciadas em dezembro de 1902. O trabalho continuou exatamente onde tinha parado. A numeração dos túmulos continuou a ser sequencial, dando seguimento à numeração anteriormente atribuída. (Cecil, 1905: 126-129) Os túmulos em questão localizavam-se na zona este, a sul das ruínas do Mosteiro de S. Jorge. Túmulo 25 – A entrada encontrava-se tapada por pedras e o interior encontrava-se repleto de areia e pedras de médio porte. Misturados na areia, tanto no interior, como no exterior foram encontrados abundantes fragmentos de cerâmica, pequenas tigelas de barro vermelho, um jarro, dois escaravelhos e um amuleto de um peixe em coralina. Foi também identificado um pote de alabastro ainda com tampa e um pequeno estilete de madeira utilizado para pintar os olhos, além de muitas contas de colares e um pequeno uchabti . O ataúde encontrado estava em muito mau estado de conservação devido à praga de térmitas. Túmulo 26 – Trata-se de um pequeno túmulo localizado nas imediações do túmulo 25. Encontravase completamente coberto por areia e pedras de médio porte. Foram identificados vestígios da praga de O sítio arqueológico de Qubbet el-Hawa (Assuão). Contribuição para um estudo 36 térmitas no interior e no exterior do túmulo e, todo o mobiliário funerário incluindo a múmia estava destruído, salvando-se, apenas, algumas contas de colar de várias cores e formas e atribuídas à XII dinastia. Túmulo 27 – Localizado junto ao anterior. Com uma pequena entrada, coberto por areia e pedras de médio porte. O interior encontra-se dividido em duas partes. No meio da divisão da direita foi identificado um fosso com cerca de 12 metros de profundidade. O túmulo foi limpo e apenas foi encontrada uma pequena tigela. Túmulo 28 – No seguimento do anterior, mas para sul. Encontrava-se também coberto de areia, entulho e a entrada fechada por várias pedras. No seu interior identificaram-se duas salas de dimensão bastante reduzida e um fosso com cerca de 15 metros de profundidade que terminava numa pequena sala. O corredor apresentava bastantes fragmentos de cerâmica espalhados no chão e uma grande quantidade de contas de colar em vidro azul. Na sala, foi encontrada uma estela em granito. A ausência de outros vestígios, leva a pensar que o túmulo tenha sido saqueado na antiguidade e todo o seu espólio destruído ou removido. Túmulo 29 – Apresenta um pequeno vestíbulo onde foram identificados vestígios de gesso nas paredes. Parte do teto terá desabado e o restante não se apresentava seguro. Foi limpa a entrada que se encontrava coberta por areia e pedras de médio porte. Foram encontradas muitas contas de colar e escaravelhos alados em faiança azul. No exterior foram encontrados fragmentos de cerâmica. Túmulo 30 – Apresentava vestígios de gesso. Encontrava-se cheio de areia e entulho que foi retirado do interior e no meio deste, tijolos de adobe partidos e alguma cerâmica. Túmulo 31 – Localizado para sul do último grupo dos túmulos de Grenfell e perto do topo, da encosta, num grande monte de areia. Foi alcançado a partir do topo, tendo sido criado um caminho para ajudar a remover toda a areia acumulada. O acesso ao interior é feito por uma abertura com alguma inclinação guiando até ao vestíbulo, onde se localiza a câmara funerária. O teto é suportado por quatro colunas redondas. No lado esquerdo da porta, foram encontrados fragmentos pertencentes à base de uma estátua. O vestíbulo e sala foram limpos e identificada outra entrada para uma segunda sala que estava tapada. As pedras foram removidas e no interior o túmulo apresentava-se intacto. Um total de 80 ataúdes, terão sido encontrados neste local. O estado destes era bastante mau devido às térmitas. Foi identificado o seguinte espólio: 130 uchabtis anepígrafas e 250 uchabtis com inscrição, um anel em faiança azul, com o nome de Horemheb, três escaravelhos com a inscrição abreviada do capítulo Parte I - A exploração arqueológica do Sítio de Qubbet el-Hawa (Assuão-Egipto) 37 XXX do Livro dos Mortos , colares, escaravelhos alados, potes vermelhos entre outros. Todos estes objetos apontam para um enterramento datado do período ramséssida. Do lado direito foi encontrado outro túmulo, com bastante cerâmica. Túmulo 32 – Localizado a sul do anterior. Encontrava-se coberto por areia e depois de limpo nada foi encontrado. Os trabalhos 33 efetuados em Qubbet el-Hawa por Lady Cecil e Howard Carter, além de terem sido descritos detalhadamente, possibilitaram a identificação de 32 novos túmulos, com enterramentos maioritariamente datados da Época Greco-Romana e da Época Baixa. Ficaram assim mais nítidas, as características dos enterramentos originais, datados do Império Antigo, Médio e da Época Greco-Romana. Verificou-se que muitos destes túmulos, foram reutilizados em épocas diferentes, com especial prevalência na Época Greco-Romana. Outros foram severamente destruídos pelas térmitas, e outros ainda foram vandalizados. Umas das pistas deixadas pelos saqueadores são as contas de colares encontradas no exterior dos túmulos e perto da porta. Em trabalhos de escavação anteriormente realizados por nós, ficámos a saber que esta se trata de uma prática comum de quem vai à procura de ouro e outros materiais valiosos nos túmulos. Os saqueadores raramente destroem por completo as múmias no interior dos túmulos, certamente por medo, mas também por não terem iluminação. Assim, depois de manipulados, os restos eram recolocados no interior e nos cantos das câmaras adjacentes. Os saqueadores apenas levavam consigo, o que tinha valor. Também juntaram os objetos encontrados numa sala ou em várias, acabando o material por ficar entulhado. O facto de alguns túmulos apresentarem restos de gesso ou de cal nas paredes, indicia a reutilização do local pelos coptas. Também juntavam os objetos encontrados numa sala ou em várias, acabando o material por ficar entulhado. Temos conhecimento de que Lady Cecil e Howard Carter terão elaborado um diário de campo com uma descrição bastante detalhada, e com desenhos descritivos. Lamentamos não ter tido acesso a esses diários e talvez num futuro próximo consigamos localizá-los. 33 Gostaríamos de acrescentar que até aos dias de hoje, a maior parte destes túmulos estão por re-localizar. Acreditamos que talvez devido a remoções de areias provocadas por outras escavações ou tempestades de areias, tenham acabado por ocultado a porta de acesso. O sítio arqueológico de Qubbet el-Hawa (Assuão). Contribuição para um estudo 38 3.2 Labib Habachi 34 (1946-1952) Cerca de 42 anos separam os trabalhos feitos por Lady Cecil e Howard Carter, dos do arqueólogo egípcio, Labib Habachi. Anos esses em que Qubbet el-Hawa esteve esquecida e entregue aos ladrões de túmulos. Só em 1946, Qubbet el-Hawa volta a ser um local importante para os arqueólogos, que retomam os trabalhos com uma descoberta feita na Ilha de Elefantina por Labib Habachi, o santuário de Hekaib 35 (Habachi 1956:10-12). Em resultado desta descoberta, Habachi decidiu escavar em Qubbet el-Hawa, à procura do túmulo de Hekaib. Entre 1946 e 1952, Habachi, efectivamente, encontrou os Túmulos QH 35 36 (Pepinakht/Hekaib I), o Túmulo QH 35d (Pepinakht/Hekaib II) e o Túmulo QH3 5 37 e (Sabni II). Figura 16. Trabalhos de escavação no interior do Túmulo QH 35d (Hekaib). 34 Arqueólogo de nacionalidade egípcia, bastante conhecido por diversos trabalhos de escavação e estudos por todo o Egipto. Trabalhou mais de 30 anos Para o Departamento das Antiguidades Egípcias. Trabalhou mais tarde para o Instituto Oriental da Universidade de Chicago, como consultor em matérias relacionada com a Núbia. Só muito mais tarde terá recebido os créditos pela sua carreira e dedicação à arqueologia. Infelizmente, só nos anos 70 é que a maior parte dos seus trabalhos foram devidamente publicados por variadíssimas razões. 35 Em 1949 Habachi pôs a descoberto, na Ilha de Elefantina, um conjunto de estruturas pertencentes a um edifício, datado do Império Médio, dedicado a uma divindade desconhecida, chamada Hekaib. Foram descobertas mais de 15 estátuas, estelas, mesas de oferendas. Maior parte desses objectos apresentava o nome de Hekaib “honrado pelo príncipe Hekaib”, “Amado do príncipe Hekaib”. Pensou na altura que talvez Hekaib terá vivido na Ilha e mais tarde divinizado por serviços prestados. Veio-se a comprovar que tal edifício se tratava de um santuário dedicado a PepiNakht-Hekaib I, divinizado. 36 Lichtheim 1988:15. 37 Lichtheim 1988:17. Parte I - A exploração arqueológica do Sítio de Qubbet el-Hawa (Assuão-Egipto) 39 Durante as escavações no Túmulo 35d, e depois de algum tempo sem encontrar o que procurava, em 1947, Habachi descobriu finalmente, uma parede cultual dedicada a Hekaib 38 . O acesso era apenas possível através de uma rampa de areia. Demorou-se cerca de 10 semanas a limpar e a colocar à vista a parede com as representações de Hekaib e foi então que se descobriu a grande sepultura, localizada a norte desta parede (Jaggi, 2004: 65-70). Na decoração da entrada para o túmulo estava representada o falecido e junto deste, cerca de 10 prisioneiros. No interior do túmulo também foram identificados alguns nichos e uma porta falsa sem inscrições. Uma das representações identificadas é a procissão funerária de Hekaib. Muito espólio foi encontrado nas diversas escavações efectuadas por Habachi em Qubbet elHawa, desde vasos canópicos 39 intactos, potes e vasos cerâmicos que apresentavam inscrições que posteriormente Elmar Edel traduziu e publicou. Durante algum tempo chegou se a pensar que os registos recolhidos por Habachi tivessem sido perdidos. Só mais tarde, Karl Seyfried e Gerd Vieler conseguiram encontrar todos os seus apontamentos e fotografias e incorporá-las para uma publicação futura sobre Qubbet el-Hawa. 3.3. Elmar Edel 40 (1957-80) e a Missão de Bona (1959-1984). De 1959 até cerca de 1984, Elmar Edel lidera todos os trabalhos efectuados na Necrópole de Qubbet el-Hawa. O projecto intitulava-se “Eine eingehende Beschreibung und Kartierung der Gräber (Hellincky 2014:270). Terão efectuado mais de 20 campanhas, durante as quais realizaram trabalhos de limpeza, escavações pontuais, mas sobretudo, empreenderam o levantamento e estudo de todas as inscrições. A partir de 1967, as escavações arqueológicas tornaram-se cada vez mais activas. O principal objectivo da missão foi estudar e compreender os enterramentos do Império Antigo e do Primeiro Período Intermediário. Apesar de muito desse trabalho já ter sido feito anteriormente por Sir Francis Grenfell, havia a necessidade de rever os dados e observar determinados aspectos no local. De um modo geral, os seus trabalhos de escavação conseguiram “recuperar” mais de 1.000 artefactos, identificar quase um total de 25 túmulos, publicar diversos estudos de inscrições em estelas 38 Foram identificados, até ao momento, cerca de seis Hekaib. QH 28 (Hekaib, filho de Penidebi), QH30 (Hekaib II), QH 33 (Hekaib III), QH 35 (Pepinakht - Hekaib I), QH 35a (Hekaib) e QH35b (Pepinakht - Hekaib). 39 Utilizado para guardar vísceras embalsamadas dos mortos. 40 Egiptólogo e especialista em Filologia e Professor no Bonner Ägyptologisches Seminar. O sítio arqueológico de Qubbet el-Hawa (Assuão). Contribuição para um estudo 40 e em potes cerâmicos. Na sequência destas escavações, a Universidade de Bona enriqueceu significativamente a sua colecção de antiguidades egípcias. Os primeiros trabalhos efectuados pela equipa consistiram na limpeza de toda a plataforma superior e dos túmulos QH 25 (Mehu) e QH 25 (Sabni), os túmulos de Grenfell e respectiva escadaria, seguindo-se os outros túmulos localizados na mesma plataforma. 3.3.1 Os trabalhos de escavação Iremos apenas descrever os trabalhos que consideramos mais importantes durante as 20 campanhas arqueológicas em Qubbet el-Hawa empreendidas por Elmar Edel 41 . 41 Também não possuímos todas as informações para podermos analisar em detalhe, dos diversos relatórios elaborados por Elmar. Parte I - A exploração arqueológica do Sítio de Qubbet el-Hawa (Assuão-Egipto) 47 Figura 22. Planta com a localização das áreas A, B, C e D, elaborada pela Missão Inglesa. Martin Bommas dividiu a zona de escavação em quatro áreas (A a D): O sítio arqueológico de Qubbet el-Hawa (Assuão). Contribuição para um estudo 48 Área A – corresponde ao primeiro terraço em linha com a esquina do Túmulo 35L (numeração criada por Bommas). Neste estrato arqueológico foi identificado algum lixo do período “moderno 46 ”, misturado com contas em faiança, diversos fragmentos de ataúdes em madeira pintada, e cerâmica do Império Médio e Época Baixa. Área B – Definida por dois muros construídos com pedra local de acabamento grosseiro. Ambos paralelos e de orientação este/oeste, com uma distância entre si de cerca de 87cm. A altura é de 80cm. Ambas as áreas A e B provaram a existência de um segundo terraço contendo túmulos que ainda não foram escavados. Área C – Duas aberturas na parede nordeste da escadaria têm acesso a seis túmulos tipo mastaba, visíveis no sopé da montanha. Construídas em duas filas orientadas a norte, os túmulos estão localizados no sopé da montanha. Foram efetuados trabalhos de limpeza, a fim de se entender, a área de dispersão dos achados. Área D – Quase no limite da concessão, foram identificadas algumas estruturas em pedra durante a prospeção, dois muros com a orientação oeste/este e referidas como muro norte e muro sul. Figura 23. Foto de pormenor das duas estruturas com a orientação oeste/este 46 Segundo Bommas: In an attempt to achieve further understanding of the site, wind-blown sand and a thick package of rubble, mainly consisting of sandstone chips was removed. Within this layer, which must have been deposited in modern times, faience beads, painted fragments of wooden coffin boards, as well as Late Period and occasional Middle Kingdom pottery were found alongside modern trash consisting of plastic items and cigarette packs” (Bommas 2016:7). Parte I - A exploração arqueológica do Sítio de Qubbet el-Hawa (Assuão-Egipto) 49 Quando o relatório foi publicado, anexou-se um estudo da cerâmica encontrada 47 . Por enquanto, é o único relatório preliminar publicado. No ano de 2019, o programa de televisão inglesa “Tomb Diggers”, da BBC 1, teve uma equipa em Qubbet el-Hawa e filmou a entrada num dos túmulos do tipo mastaba localizado no sopé da montanha 48 . 4.3 Proyecto Qubbet el-Hawa (2008 até actualidade) Trata-se de uma missão da responsabilidade da Universidade de Jaén dirigida por Alejandro Jimenez Serrano. Este projeto foi iniciado no ano de 2008 e até ao momento foram publicados os relatórios preliminares de dez campanhas de escavação, diversos artigos apresentando estudos cerâmicos, antropológicos, trabalhos de conservação e restauro, análise e consolidação de pigmentos, uma tese de estudo sobre a arquitetura tumular e muitos outros artigos sobre Qubbet el-Hawa 49 . 4.3.1 Campanha 1 50 (2008) A primeira campanha realizada em 2008, teve como principal objetivo o levantamento topográfico de todo o maciço rochoso, estudo pictórico utilizado nas representações tumulares, a limpeza e escavação do Túmulo QH33 (Grenfell). Os trabalhos iniciaram com a limpeza de detritos e areias acumulados no corredor e entrada do túmulo e a escavação do exterior onde foi encontrado algum espólio cerâmico. Foi elaborada a descrição do túmulo e das diversas partes que o compõem. Não foi identificado qualquer tipo de decoração na fachada exterior do túmulo. 47 Bommas 2016:1-35. 48 Esta mastaba encontrava-se apenas identificada e foi propositadamente limpa e parte escavada só a zona da entrada, ao vivo para o programa de televisão. 49 Jiménez Serrano et all 2009:35-60; Jiménez Serrano et all 2009:41-75; Jiménez Serrano et all 2009:35-60; Jiménez Serrano et all 2010:65-98; Jiménez Serrano et all 2012:102-123. Jiménez Serrano et all 2013:7-58. Jiménez Serrano et all 2014:748. Jiménez Serrano et all 2015:7-88.Jiménez Serrano et all 2017:13-110. Jiménez Serrano et all 2018:13-164. 50 Jiménez Serrano et all 2009:35-60. O sítio arqueológico de Qubbet el-Hawa (Assuão). Contribuição para um estudo 50 Figura 24. Levantamento topográfico com a localização de todos os Túmulos identificados até ao momento. A sul da entrada, do lado exterior, foi escavada uma estrutura quadrangular que sugere ter sido utilizada aquando da execução deste túmulo, pelos artesãos. Tudo parece indicar tratar-se uma vala de poste, para a colocação de andaimes em madeira. A porta de acesso ao interior tem cerca de quatro metros de altura e não apresenta qualquer tipo de decoração. Este túmulo poderá datar da XIIª dinastia 51 . Até ao momento não foi possível identificar o seu proprietário original. 51 Datação avançada pelos responsáveis pelo artigo, sem qualquer justificação. Parte I - A exploração arqueológica do Sítio de Qubbet el-Hawa (Assuão-Egipto) 51 Nesta campanha foi encontrado diverso espólio arqueológico, como por exemplo: uma estela, vários ostraca 52 do período copta, uma estátua osiríaca 53 , fragmentos de ataúdes e sarcófagos, amuletos e diversas contas vítreas de colar. 4.3.2 Campanha 2 54 (2009) Os trabalhos desta campanha incidiram essencialmente nos túmulos QH 33, 34 e 34h. Foi escavado o corredor de acesso ao interior do túmulo QH34 e feito um plano. A escavação forneceu dados que parecem indicar que terá sido construído no mesmo recinto funerário do Túmulo QH 33, mas posteriormente. Foi feita a consolidação do Túmulo QH34h. A campanha incluiu georreferenciação. 4.3.3 Campanha 3 55 (2010) Foram realizados trabalhos de consolidação e um estudo antropológico do espólio osteológico. Foram efetuados trabalhos de análise estrutural e consolidação do Túmulo de Khunes (QH34h) e feita a consolidação, in situ , de três ataúdes em madeira, localizados no corredor do túmulo QH34, bem como das estruturas e adobes identificados na entrada e corredor. Foi também feita alguma consolidação e conservação do espólio arqueológico encontrado durante as escavações. 4.3.4 Campanha 4 56 (2012) Os trabalhos desta campanha incidiram nos túmulos QH33 e 34. Foi dada especial atenção ao estudo e análise dos materiais encontrados após a descoberta de três novas câmaras funerárias desconhecidas, além de um fosso. O material encontrado apresenta uma datação muito diversa: XIIª, XVIIIª, XXII e XXVIª/XXVIIª. 52 Fragmento de cerâmica ou pedra utilizado para documentar procedimentos oficiais, pequenas mensagens ou nomes. A escrita utilizada era geralmente o demótico. 53 Estátua que representava do deus egípcio Osíris (como um rei mumificado com barba e a cabeça adornada com uma coroa. A pele poderia ter uma coloração verde ou preta), associado ao renascimento, ressurreição, justiça e à fertilidade. 54 Jiménez Serrano et all 2009:41-75. 55 Jiménez Serrano et all 2010:65-98. 56 Jiménez Serrano et all 2012:102-123. O sítio arqueológico de Qubbet el-Hawa (Assuão). Contribuição para um estudo 52 4.3.5 Campanha 5 57 (2013) Continuação dos trabalhos iniciados na campanha anterior. Elaboração de uma descrição exaustiva do exterior do túmulo QH34 e do interior do túmulo QH33. Além da continuação do estudo dos materiais encontrados foi ainda elaborado um desenho preliminar da câmara funerária do Túmulo QH31 (Sarenput II). 4.3.6 Campanha 6 58 (2014) Os trabalhos iniciaram-se com a remoção das areias acumuladas no exterior do túmulo QH31 (Sarenput II). Foram ainda feitas escavações no interior do Túmulo QH 33, no fosso principal que resultou na descoberta de uma nova câmara funerária com nove enterramentos intactos. Uma terceira câmara com um enterramento datado da XIIª dinastia também foi encontrada. Foram ainda feitos trabalhos de conservação e restauro em material arqueológico, registo fotográfico do espólio e dos seguintes túmulos - QH 25, 226, 29, 34e, 34g, 34h, 34n, 35m, 102 e 110. 4.3.7 Campanha 7 59 (2015) Foi feita a escavação dos fossos identificados anteriormente no Túmulo QH 31 (Sarenput II). Os trabalhos de escavação da câmara funerária encontrada no fundo da fossa norte, do Túmulo QH33 continuaram. Foi efetuada uma limpeza geral no caminho geralmente utilizado pelos turistas e que pôs a descoberto o Túmulo QH 34cc. Os estudos antropológicos e análise dos restos humanos, prosseguiram e foram iniciadas a digitalização 3D das peças mais significativas, encontradas nas escavações. Foram ainda feitas diversas análises a pólenes e sementes recolhidos e encontrados dentro dos potes cerâmicos. 57 Jiménez Serrano et all 2013:7-58. 58 Jiménez Serrano et all 2014:7-48. 59 Jiménez Serrano et all 2015:7-88. Parte I - A exploração arqueológica do Sítio de Qubbet el-Hawa (Assuão-Egipto) 53 4.3.8 Campanha 8 60 (2016) Nesta campanha, os trabalhos arqueológicos concentraram-se essencialmente em continuar a escavação da antecâmara inferior, associada ao poço norte do túmulo QH33, descoberta durante a campanha de 2015. Algumas estruturas do Túmulo QH 34aa foram reforçadas fisicamente e foi efetuada a limpeza e remoção de areias do caminho localizado em frente do Túmulo QH 35n. Também foram realizados alguns trabalhos arqueológicos no Túmulo QH 35p. Foi feita uma escavação numa lixeira datada do período copta e que já tinha sido identificada numa campanha anterior, localizada a norte do Túmulo QH 33, entre os Túmulos QH 34aa e o QH 34bb. A estratigrafia identificada e o espólio a ela associado, data-a dos séculos VI e VII d.C. e foi utilizada ininterruptamente ao longo desse período. 4.3.9 Campanha 9 61 (2017) Os trabalhos efetuados nesta campanha focaram-se nas escavações do hipogeu 62 datado do Império Médio, assim como a continuação dos trabalhos já anteriormente iniciados nos túmulos QH 32, QH 33, QH 34aa, QH 34bb, QH35p e QH36 datados do Império Antigo. Foi feito algum trabalho de consolidação no mobiliário funerário encontrado. Os estudos antropológicos também continuaram. Foi atualizada a cartografia do local, tendo sido adicionados os novos túmulos encontrados durante as primeiras campanhas arqueológicas. 4.3.10 Campanha 10 63 (2018) Foram prosseguidos os trabalhos da campanha anterior e adicionada alguma informação nova proveniente das escavações feitas nos túmulos QH32 (Aku), QH 34bb (Shemai), QH 35n, QH 33 y QH 36 (Sarenput I). Realizados alguns estudos arquitetónicos, epigráficos, antropológicos e interpretação de alguns papiros encontrados. Trabalho de restauro e consolidação pontual. 60 Jiménez Serrano et al. , 20016: 11-62. 61 Jiménez Serrano et al. , 2017: 13-110. 62 Túmulos escavados na rocha datados do Império Médio. Composto por série de corredores, rampas ou escadarias descendentes que conduziam a um vestíbulo e à câmara funerária. Normalmente estava rodeado por quatro divisões utilizadas como depósito para o mobiliário funerário e afins. 63 Jiménez Serrano et al. , 2018: 13-164. O sítio arqueológico de Qubbet el-Hawa (Assuão). Contribuição para um estudo 54 Apesar de não ter sido publicado qualquer corpo documental sobre as informações recolhidas, com os seus trabalhos a missão tem contribuído para melhorar o conhecimento e a compreensão de Qubbet el-Hawa. Até Janeiro de 2020, já tinham sido escavados e identificados mais de 100 túmulos, datados de diversos períodos e alguns dos quais com reocupações. Como os trabalhos vão continuar, é muito possível que o número de túmulos identificados continue a aumentar. Parte II Caracterização O sítio arqueológico de Qubbet el-Hawa (Assuão). Contribuição para um estudo 54 1. A necrópole Figura 25. Do cemitério Fatimida, margem este (Assuão), para a necrópole Qubbet el-Hawa, margem oeste. (visível no topo da montanha a Qubbet Ali Abu e as ruínas do mosteiro copta de S. Jorge). IAA140228 - Paul Collart 1930. Localizada na margem Oeste do rio Nilo, mesmo de frente para a cidade de Assuão, esta colina é conhecida por diversos nomes 64 . Embora os mais referenciados sejam Qubbet el-Hawa (Cúpula do Vento), e Qubbet de Ali Abu el-Hawa 65 , devido à existência de uma pequena capela de cúpula abobadada mesmo no topo da colina 66 , o seu nome verdadeiro será Makaber al Nobla’a, ou seja, “Túmulo dos Nobres”. 64 Também por “Vale dos Príncipes” ou “Colina do Vento”. 65 Embora referenciado como o local de sepultamento do Sheikh Ali Abu el - Hawa, aquando dos nossos inquéritos orais, fomos informados da seguinte história: Ali Abu viveu há mais de 700 anos. Terá deixado a sua aldeia (conhecida por Abu el - Reish Quibli e localizada em Assuão), para viver em clausura. Escolheu a colina do vento, tendo-se dedicado à oração e ao aconselhamento. Vivia da caridade. Quando faleceu, foi sepultado na aldeia, onde existe um santuário com o seu nome que, ainda hoje é visitada por muitos peregrinos. 66 Jaggi 2004:65-75; Roman 1889:47, Vischak 2006:49. Parte II - Caracterização 61 Em 1992, o arqueólogo Mohi el-Din 79 efetuou uma sondagem de salvamento, após uma denúncia de que uma retroescavadora ao efetuar trabalhos de remoção de areias, teria afetado um túmulo, depois identificado como uma mastaba. A equipa inglesa liderada por Martin Bommas, em 2008 terá também identificado e limpo dois túmulos tipo mastaba, na mesma área, trabalho referido anteriormente no capítulo 4 da I Parte. Figura 34 e 35. Qubbet el-Hawa, zona este /mosteiro copta e Qubbet Abu Ali (SB) Atualmente, a zona sul corresponde a toda a área localizada junto ao rio onde se pensa que Lady Cecil e Howard Carter terão identificado, pelo menos um túmulo. Um passeio de barco pelo rio, junto a esta zona, permite observar mais túmulos. 79 El-Din, 1994: 39. O sítio arqueológico de Qubbet el-Hawa (Assuão). Contribuição para um estudo 62 Figura 36. Pormenor dos túmulos localizados junto à margem do Nilo (sem número), Zona sul (foto SB). Acrescentamos também que até hoje, não se tem a real noção da total extensão ocupada pela necrópole. Acreditamos que tanto para oeste como para norte, existam mais túmulos. Não podemos esquecer que há partes da montanha completamente cobertas pelas areias, ainda por limpar ou prospetar. Mesmo os túmulos descobertos anteriormente pelas escavações de Grenfell e Lady Cecil, estão hoje “perdidos”. Enquanto isto não for feito, o local vai continuar muito vulnerável à atividade depredatória. Atualmente, a zona da colina e zona sul estão adjudicadas à missão espanhola, e a zona este, adjudicada à missão inglesa. A necrópole de Qubbet el-Hawa foi escavada na colina de arenito localizada na margem Oeste de Assuão e a cerca de 3 quilómetros da Ilha de Elefantina. Toda a parte sudoeste da necrópole, é visível da Ilha de Elefantina. Desde os primeiros trabalhos efetuados por Sir Grenfell até à atualidade foram identificados um total de 100 túmulos e, com a continuação dos trabalhos, talvez outros possam surgir. Muitas áreas ao longo da montanha encontram-se cobertas por areia que vai sendo arrastada pelo vento ou pelas diversas tempestades de areia, especialmente durante os meses de maio e setembro. Por vezes, o acaso coloca parte de uma porta à vista. Junto à encosta, no sopé da colina e no vale, surgiram túmulos do tipo mastaba, alguns em mau estado de conservação, devido à sua localização, outros têm fornecido dados e informações interessantes, mostrando a importância deste local, e a sua utilização ao longo de vários períodos, sempre com a mesma função. Parte II - Caracterização 63 A maior parte dos túmulos estão distribuídos por três plataformas e orientados a este, para acompanhar o nascer do sol, associado ao mito de criação de Heliópolis 80 , ao deus Rá-Atum que todas as manhãs se lavava (purificava), antes de se erguer a este do horizonte 81 . A colina associava-se, portanto, à montanha primordial, local onde se dava a criação, o renascimento e a ressurreição. As águas de Nun que a rodeavam, separavam o mundo dos vivos do mundo dos mortos 82 . Os trabalhos realizados por Sir Grenfell e Wallis Budge apresentam ainda algumas dúvidas em relação ao número total de túmulos escavados e identificados. A nosso ver, esta questão só estaria completamente esclarecida, se fosse encontrado o diário de campo elaborado por Wallis Budge, o que até ao momento não aconteceu. Budge, nos seus relatórios de escavações 83 , apenas descreve e identifica os mais importantes, que iremos mencionar de seguida. 1.1. Os túmulos de Grenfell TÚMULO PROPRIETÁRIO QB 25 e 26 Mekhu e Sabni I QB 31 Nubkaura-NextSarenput II QB 35 Heqab (filho de Penateba) QB 32 Sabni QB 33 Sarenput (governador da Etiópia e presidente dos países estrangeiros) QB 34 Nexu (a seguir a escadaria de QH34hKhunes) ? Outros não identificados até ao momento Figura 37. Quadro 3 Túmulos de Grenfell (identificação do número e respectivo proprietário) Faz uma pequena descrição de cada um deles, e que já referimos anteriormente, mencionando inclusive, algum do espólio achado. 80 Foi a partir da montanha primordial ou Benben (associada com a pirâmide) que ocorreu a criação do mundo e o nascimento dos deuses (Texto das pirâmides nº359). 81 Oestigaard 2011:67. Os deuses Hórus e Toth assistiam ao banho de Rá-Atum, nas águas purificadoras do Nilo. 82 Op.cit. pp.23. 83 Budge 1887:78-82 e 1888:4-40. O sítio arqueológico de Qubbet el-Hawa (Assuão). Contribuição para um estudo 64 Refere 84 também o facto de que, após logo a descoberta do duplo Túmulo QH 25 e 26, terá encontrado várias portas de túmulos, sem inscrição e achados significativos. Uma das informações 85 mais interessantes está relacionada com a identificação e limpeza da escadaria, onde no topo foram identificadas quatro pequenas aberturas que ocultavam quatro pequenas salas onde tinham sido depositadas diversas múmias. 1.2 Ernesto Schiaparelli e Herkhuf Em 1892, Ernesto Schiapareli identifica e procede às escavações 86 do Túmulo 34n, atribuído a Herkhuf, um importante oficial e nobre da VI dinastia, que terá liderado diversas campanhas, trocas comerciais com os países estrangeiros, e terá igualmente liderado diversas incursões militares contra os Núbios do sul. Figura 38. Fotografia de pormenor da fachada do Túmulo QH 34n – Herkhuf (Foto Ernesto Schiaparelli) A Directora do Museu Egípcio de Florença e um dos responsáveis pelos arquivos de Schiaparelli no Museu Egípcio de Turim, informaram-nos que no caso do Museu de Florença, não existe qualquer espólio pertencente a Schiaparelli, desde a sua transferência para o Museu Egípcio de Turim. De Turim esclareceram-nos que apenas possuem espólio fotográfico, que nos foi gentilmente cedido e algum espólio arqueológico. 84 Budge 1887:22. 85 Op cit pp.34. 86 Schiaparelli 1892:21-52. Parte II - Caracterização 65 Figura 39. Fotografia dos trabalhos de escavação efectuados no interior do Túmulo 35d – Pepinakht - Hekaib I. A equipa de Schiaparelli terá sido também, responsável pelos primeiros trabalhos de escavação no Túmulo 35d, pertencente a Pepinakht Hekaib I, que não terá terminado. 1.3. Os túmulos de Cecil Lady Cecil e Howard Carter nos seus trabalhos efetuados entre 1901 87 e 1904 88 identificaram um total de trinta e dois túmulos. As descrições também já foram referidas anteriormente. Os túmulos do 1 ao 14 encontram-se localizados na mesma plataforma. Datam da Época GrecoRomana com, apenas, uma exceção da Época Baixa. Os túmulos do período romano encontram-se dispersos, localizando-se na rampa sudeste, outros a nordeste da montanha. O Túmulo 18 é referido por Lady Cecil, do relatório dos trabalhos, como o mais problemático a nível da sua conservação. Encontra-se em perigo de colapsar a qualquer momento. O Túmulo 20 é o mais destruído devido à devastação causada pelas térmitas, identificas na maior parte dos túmulos do 15 ao 20. 87 Cecil, 1903: 51-73. 88 Cecil, 1905: 273-283. O sítio arqueológico de Qubbet el-Hawa (Assuão). Contribuição para um estudo 66 Figura 40. Vista área com a possível localização dos Túmulos identificados por Lady Cecil (Google Earth/SB). Acreditamos que parte da área escavada por Cecil se situaria na plataforma superior e intermédia da colina. É possível que um destes 20 túmulos, esteja localizado junto ao rio, na zona sul. Seria, por isso, muito importante descobrir o caderno de campo referente a estas escavações. O Túmulo 22 terá sido uma das grandes descobertas, pelas dimensões e também por conter no interior cerca de sete câmaras funerárias. A entrada estava tapada por pedras e muita areia onde foi encontrada uma grande quantidade de contas de colar, uma ametista e contas em coralina. Junto à entrada foram encontradas duas múmias. 1.4 Labib Habachi e Hekaib II Anteriormente identificado por Jaques de Morgan e Ernesto Schiaparelli, foi só em 1947, após 10 semanas de remoção de areias, que a câmara funerária do divinizado Hekaib (QH 35d) é descoberta 89 devido a uma abertura a norte do túmulo. Os Túmulos QH 35a, QH 35f e QH 110 (Setka) também foram descobertos por Habachi. 89 Kamil, 2007: 156. Parte II - Caracterização 67 1.5 Elmar Edel/Missão de Bona e Sobek-Hotep O Túmulo QH 207 (Sobek-Hotep) foi descoberto em 1963. Durante várias campanhas 90 de escavação, algumas delas em túmulos já identificados anteriormente por outros arqueólogos, conseguiu identificar mais de 1000 artefactos e efetuar diversos estudos de inscrições em estelas e potes cerâmicos. 1.6 Martin Bommas e os túmulos tipo mastaba Já anteriormente também referidos e apesar de só existir um relatório publicado 91 até ao momento, na área B, sopé e vale da montanha, terão sido identificados até ao momento, cerca de três túmulos mastaba, todos em mau estado de conservação. 1.7 Missão espanhola novas câmaras funerárias Trata-se de um dos estudos 92 mais importantes já feitos. Pequenas escavações pontuais e remoção de areias, levaram a equipa a efetuar a descoberta de mais salas e corredores, em túmulos já previamente identificados. Foram ainda descobertos os túmulos QH 34cc, QH 35p e QH 34bb (Shemai). Nem todos os túmulos identificados são visitáveis. Ou porque se encontram em mau estado de conservação, ou porque estão em processo de estudo e não é possível fazê-lo sem uma autorização especial das autoridades egípcias 93 . 2.Os túmulos escavados e identificados Do total de cerca de 100, apenas quatro túmulos encontram visitáveis 94 Existe um quinto, que está muito destruído e alterado 95 . 90 Hellincky, 2014: 270. 91 Bommas, 2016: 1-35. 92 Todos os relatórios publicados desde 2008 até 2019. 93 Para as visitas que tenham fins de investigação, deve ser feito um pedido prévio pelo interessado ou por intermédio da missão responsável pelo projeto. O investigador deverá ser acompanhado por um inspetor das Antiguidades Egípcias, previamente escalonado para tal. 94 Os turistas são normalmente acompanhados por um guarda, que pouco pode informar sobre a história dos túmulos e seus ocupantes. 95 Trata-se do Túmulo QH 34h de Khunes. A maior parte do seu espaço foi reaproveitado para a construção do mosteiro copta e a maior parte das representações e pinturas foram vandalizadas. O pouco que resta do Túmulo necessita ser consolidado e efetuada uma limpeza profunda. O sítio arqueológico de Qubbet el-Hawa (Assuão). Contribuição para um estudo 68 Figura 41. Planta com a localização dos Túmulos descritos. São estes túmulos que iremos descrever, já que se afiguram como os exemplares mais representativos da arquitectura funerária da necrópole. Parte II - Caracterização 69 Figura 42. Quadro 4Identificação dos túmulos descritos neste trabalho (Número/Proprietário/Datação). 2.1 Túmulo QH 25 (Mekhu) Figura 43. Planta dos Túmulos QH25/26. Localização: Plataforma superior Escavado por: Sir Grenfell e Wallis Budge Proprietário do Túmulo: Mekhu (o Príncipe; o Chanceler do Rei) Tipologia: Túmulo duplo (com filho Sabni) / Complexo I Datação: VI dinastia TÚMULO PROPRIETÁRIO DATAÇÃO QH 25/26 Mekhu e Sabni I (túmulo duplo) VI dinastia QH 31 Sarenput II XII dinastia QH 34n Herkhuf VI dinastia QH 36 Sarenput I XII dinastia O sítio arqueológico de Qubbet el-Hawa (Assuão). Contribuição para um estudo 70 Figura 44. Fotografia a preto e branco com o pormenor do átrio dos Túmulos QH 25 e 26. Descrição: localiza-se na parte mais sudoeste, após a curva da montanha. Apresenta uma enorme escadaria desde o sopé até à plataforma, onde foi talhado na superfície da rocha o túmulo e a entrada. Esta mede cerca de quatro metros de altura. É um complexo formado por três túmulos (25, 26 e o recentemente descoberto 24), que utilizam a mesma fachada e plataforma. Figura 45 e 46. Pormenor da entrada para o Túmulo QH 25 (Mekhu), obelisco e representação de Mekhu e família (Fotos: SB). Parte II - Caracterização 77 Figura 58. Pormenor da porta falsa existente no Túmulo de Sabni (Foto: SB). d) O texto autobiográfico de Sabni: Quando efectuávamos a pesquisa sobre o texto biográfico de Sabni, reparamos que alguns estudiosos não o mencionavam, referindo apenas a sua existência, enquanto outros apresentaram a sua própria interpretação. Lamentamos o estado de conservação a que chegou, mas com material adequado talvez seja possível fazer a sua leitura. Contudo, resolvemos apresentar algumas das interpretações que encontramos. Alexanian 99 diz-nos que Sabi relata que seu pai Mekhu terá morrido durante uma expedição à Núbia e que ele foi recuperá-lo para o trazer de volta ao Egipto. Um comissário real de nome Iri terá recebido um decreto real, partindo para Assuão com tudo o que seria necessário para preparar o enterro. Sabni apresentou a lista detalhada de todas as coisas que este obteve da residência real para efectuar o enterro de seu pai. “I went down to bury [this] my father [in his tomb] in the necropolis. Then this Iri came from the Residence and he brought a decree in order to welcome the count (H3tj-a), royal seal-bearer, sole companion and lector priest, this Mekhu. He brought [...] embalmers, a senior lector priest, a councilor (he who is in the jz-bureau), an inspector of the mortuary workshop, mourners, and the equipment of the embalming-place in its totality. 99 Alexanian, 2006: 7. O sítio arqueológico de Qubbet el-Hawa (Assuão). Contribuição para um estudo 78 He brought festival-ointment from the embalming-place, the mystery from the two mortuary workshops, [...] from the house of arms, cloth from the two treasuries, and all the burial material which is issued from the Residence, exactly as it was issued for the hereditary prince (jrj-pa.t) Meru”. (The text concludes as follows: ( Urk. I, 139, 2). Alexanian 100 acrescenta que: “It becomes perfectly clear that the representative architectural layout of the rock-cut tomb of Sabni and Mekhu corresponds to an extensive burial ceremony”. Figura 59 a 60Representação de burros e servos transportando essências e outras oferendas Por outro lado, Weigall 101 , apresenta a seguinte interpretação: “The rescue of his father's body was conducted by him in the following manner: Sabna took with him a troop of soldiers and a hundred asses bearing presents with which to pacify hostile chiefs: and, having sent information to the king to justify his absence, he set out for Arthet, probably along the caravan road which leads to the modern Tomás. There he found the body, and having made a rough coffin for it, he loaded it upon an ass. Difficulties were now experienced owing to the hostility of the natives, and Sabni therefore sent them presents of incense, clothing, and an elephant tusk, three cubits long; at the same time stating that he also had a tusk six (cubits long, which might be given in return for assistance rendered. This had the desired effect, and Sabni started on the return journey with his precious burden. Just as he neared his home he was met by a shipload of embalmers, priests and mourners, sent from Memphis by the king, who had been pleased and touched on hearing of Sabni,'s filial piety. The king also wrote a letter to Sabni, in which he said: "I will do for you, every excellent thing as a reward for this great deed of bringing back your father". 100 Op. Cit. 101 Weigall, 1910: 423-425. Parte II - Caracterização 79 E diz que Sabni, depois do funeral do pai, foi até Mênfis presentear o faraó em atitude de agradecimento e que terá levado alguns presentes, entre os quais, uma caixa de óleos. Tentamos encontrar outras opiniões, mas pensamos que o facto de haver muitas dúvidas sobre a interpretação do texto representado no seu túmulo, faz com que poucos queiram arriscar. Na nossa opinião, é urgente efetuar um levantamento e um estudo mais aprofundado de todos os painéis existentes nestes dois túmulos. Grenfell e Wallis Budge foram os responsáveis pela escavação deste túmulo duplo pertencente a pai e filho. No relatório de escavação, como nota importante, Budge mostra-se muito entusiasmado, acrescentando que o túmulo apresentava algumas particularidades: em primeiro lugar, destaca-se pelas suas dimensões e também por ser dividido em dois. Atualmente estão ambos ligados, não existindo nenhuma separação entre o túmulo do pai e do filho (Budge, 1887: 22-23). Gaston Maspero defendia que talvez tivesse existido um muro a separar os dois túmulos. No entanto, o túmulo foi reutilizado pouco depois da sua utilização original. Maspero (1888: 143-163) coloca a hipótese de um novo proprietário poder ter mandado destruir o muro de separação na vigência da XII dinastia. Não acreditamos muito nesta interpretação porque não existe qualquer tipo de vestígio de ambos os lados da parede que possa sugerir ter existido uma separação. Curiosamente, quando visitámos o túmulo, observámos na parede orientada a este, uma abertura que terá sido entaipada podendo ser a entrada para o túmulo de Sabni. Espólio: Museu de Bulaq e Museu Britânico e paradeiro desconhecido. 2.3 Túmulo QH31 (Sarenput II /Nub-Kau-Ré-Nakht) Figura 61. Planta do Túmulo Sarenput II/Nub-Kau-Ré-Nakht O sítio arqueológico de Qubbet el-Hawa (Assuão). Contribuição para um estudo 80 Localização: Plataforma superior Escavado por: Sir Grenfell e Wallis Budge Proprietário do Túmulo: Sarenput II (Governador, portador do selo real, amigo único, supervisor dos sacerdotes, supervisor das tropas, da porta dos países estrangeiros do sul, chefe dos artesãos reais) Tipologia: Túmulo individual Datação: XII dinastia Descrição: localiza-se na parte mais sudoeste e na plataforma superior. O acesso é feito até um pequeno átrio ou pátio exterior. A porta é retangular, com cerca de quatro metros de altura e talhada, diretamente na rocha. No topo, apresenta uma inscrição, mas em muito mau estado. Bouriant 102 diz que a inscrição apresenta a titulatura e filiação de Sarenput II e um apelo aos vivos: “quem passar pela minha sepultura, seja de barco no Nilo, que navegue para norte ou para sul, pelo amor que tem aos deuses, faça oferendas de pão, vinho, carne, aves, em duplicado, em favor do príncipe devoto, Sarenput”. a) Interior: O acesso ao interior faz-se por três degraus para a sala hipostila, de planta rectangular, composta por duas filas de colunas quadradas, três de cada lado, do corredor principal que vai da porta até uma escadaria. O teto é bastante alto. Todas as paredes foram afeiçoadas para levar uma camada de cal ou estuque e não apresentam qualquer inscrição ou pintura. Figura 62. Pormenor do corredor da sala hipostila (SB) b) Corredor: segue-se um conjunto de nove degraus que levam a um pequeno corredor. Nas paredes são visíveis pinturas que representam o falecido, seguindo-se, em ambos os lados três nichos 102 Bouriant, 1887: 184-185. Parte II - Caracterização 81 retangulares equidistantes, cada um com uma estátua representando o falecido com a barba postiça e em forma de Osíris. Algumas apresentam-se danificadas. Figura 63 e 64. Nichos com estátuas Osiríacas representando o falecido. Pormenor de estátua (Foto SB). Figura 65. Pormenor das inscrições nos pilares (Foto SB). Nos últimos pilares, a seguinte inscrição: “ The chief, the prince, the inspector, the extraordinary Smer, the president of the profects of Khrum, the superintendent of the frontier, Serenput, triumphant ” (Budge, 1887: 28). O sítio arqueológico de Qubbet el-Hawa (Assuão). Contribuição para um estudo 82 c) Sala: Este corredor segue até uma pequena capela onde as três paredes apresentam painéis pintados com cenas da vida do falecido e sua família. No painel principal, o falecido está sentado do lado esquerdo e em frente, uma mesa de oferendas. À sua direita, o filho Ankhu, segura um ramo de três flores de lótus azul. Figura 66 a 68. Pormenor das pinturas na capela (SB). No painel do lado esquerdo está representado Sarenput de pé, segurando um bastão na mão direita e o ceptro sekhem 103 na mão esquerda. Na parede do lado direito, a representação de uma mesa de oferendas, a sua mãe, a filha SatTjeni. Por trás dela, Sarenput, a esposa Dedet e o filho, Ankhu. Segundo Lichheim 104 , Seranput foi um nobre bastante importante, governador de Elefantina, e detentor de uma extensa titulatura: portador do selo real, amigo único, supervisor dos sacerdotes, chefe dos artesãos, supervisor das tropas da porta dos países estrangeiros do sul e supervisor do exército. O nome a ele associado (Nub-kau-Re-Nakht), encontra-se relacionado com o nome de coroação do faraó Amenemhat II. Casou com Dedet-Khnum, sacerdotisa da deusa Hathor. Poderá ter nascido ou ter sido 103 Este ceptro simboliza poder e força. Está normalmente associado a funcionários que desempenhavam um cargo importante. 104 Lichheim, 1988: 398. Parte II - Caracterização 83 educado na corte e posteriormente enviado para Elefantina, após a morte do pai. Teve dois filhos, Ankhu e Sat-Tjeni, que terá casado com Heqarib II (QH 30). Segundo Bouriant 105 passado alguns meses, Sir Grenfell e Budge terão encontrado uma sala cheia de espólio funerário, pertencente a diversos períodos. Talvez seja o resultado de uma acumulação feita na antiguidade. Budge faz uma pequena referência a esta descoberta, mas não chega a enumerar todo o espólio identificado. Assim, num dos cantos era possível observar cerca de 70 estelas, 20 das quais anepígrafas e cinco ilegíveis, entre outros objetos. 2.4 Túmulo QH 34n (Herkhuf) Figura 69. Planta do Túmulo de Herkhuf. Localização: Plataforma superior Escavado por: Ernesto Schiaparelli, fevereiro de 1893 Proprietário do Túmulo: Herkhuf (Alto cargo na Administração Local) Tipologia: Túmulo individual/ Complexo II Datação: VI dinastia Descrição: localiza-se na parte mais a este, após a curva da montanha para norte. Faz parte do complexo II (34i; 34j; 34k; 34l;34m; 34n;34o; 34p). Acede-se por um pequeno átrio ou pátio exterior, delimitado de ambos lados por um muro grosseiro. A porta é talhada na rocha, apresentando um rebaixamento na fachada, em toda à volta. São visíveis as cinzeladas feitas pelos trabalhadores e uma grande fractura que terá sido restaurada, o que danificou parte da inscrição existente em toda a volta deste rebaixamento. Trata-se da mais completa 105 Bouriant, 1887: 196-198. O sítio arqueológico de Qubbet el-Hawa (Assuão). Contribuição para um estudo 84 autobiografia do seu ocupante. Herkhuf terá sido, sem dúvida, um dos nobres mais importantes e conhecidos da Ilha de Elefantina. É um documento histórico escrito pelo então jovem Pepi II (Vischak, 2006: 98). Figura 70 e 71 - Pormenor da fachada do Túmulo de Herkhuf (SB). A inscrição é: “I have come here from my city, I have descended from my nome; I have built a house, set up (its) doors, I have dug a pool, planted sycamores. The king praised me, My father made a will for me. I was one worthy --- One beloved of his father, Praised by his mother, Whom all his brothers loved. (5) I gave bread to the hungry, Clothing to the naked, I brought the boatless to land. o you who live upon earth, Who shall pass by this tomb Going north or going south, Who shall say: "a thousand loaves and beer jugs For the owner of this tomb," I shall watch over them in the necropolis. I am an excellent equipped spirit (akh), A lector-priest who knows his speech. Parte II - Caracterização 85 As for any man who enters this tomb unclean, I shall seize him by the neck like a bird, He will be judged for it by the great godl I was one who spoke fairly, who repeated what was liked, I never spoke evilly against any man to his superior, For I wished to stand well with the great god. Never did I judge between two [contenders] In a manner which deprived a son of his father's legacy.” (Trad. in Lichthein, 1973:24) Além da carta do jovem Pepi II, apresenta também a titulatura de Herkhuf, fórmulas para oferendas e descrevem-se algumas das suas virtudes. Do lado direito, a representação de Herkhuf, de pé, segurando uma vara e do lado esquerdo, ele e seu filho mais velho, Djemi. a) Sala: um pequeno degrau dá acesso ao interior, até uma pequena sala hipostila, apresentando no eixo central, uma fila de quatro colunas quadradas, que suportam o teto. Ao fundo, na parede oeste do lado esquerdo, um túnel descendente aberto na rocha. Seguindose para a direita, uma porta falsa com uma mesa de oferendas. Ao lado, o túnel principal que desce até à câmara funerária. Na mesma parede, a porta falsa de Herkhuf, seguindo-se uma outra, mas de pequenas dimensões. O sítio arqueológico de Qubbet el-Hawa (Assuão). Contribuição para um estudo 86 Figura 72 a 74. Pormenor da porta falsa e túnel descendente (Foto SB). Espólio: uma parte encontra-se no Museu Egípcio de Turim e outra desconhece-se o paradeiro. 2.5 Túmulo QH 36 (Sarenput I) Figura 75. Planta do Túmulo de Sarenput I Localização: Plataforma superior Escavado por: Sir Grenfell e William Budge Proprietário do Túmulo: Sarenput I (Governador Supremo da Etiópia responsável dos países do sul) Tipologia: Túmulo simples Datação: XII dinastia Descrição: O acesso ao interior do túmulo é feito através de um pátio ou átrio de grandes dimensões, composto por um eixo de sete colunas quadradas que serviriam de suporte à cobertura desta zona. Parte II - Caracterização 93 trabalhos agrícolas, piscícolas, artesanais, administrativos, ou atividades de carácter lúdico, evocando desportos, jogos, dançarinas e músicos. Qubbet el-Hawa apresenta um estilo com um cunho muito particular, podendo até considerar-se como um estilo regionalista, onde os temas estão relacionados com elementos relacionadas com água, como peixes, barcos e com atividades favoritas do morto, como pescar nas margens do Nilo, apanhar pássaros no meio dos canaviais. Há representações que mostram a importância dada à família, em que estas apresentam tributos ao morto, ou simplesmente, aparecem em cenas do dia-a-dia, como menciona O’Neill 117 : “Whin the tombs, the deceased is despicted enjoying the pursuits of elite life, hunting in the desert and fishing in the mashes surrounded by his family in a locus of self-observation and selftematization. These so-called “scenes of daily life” served as a sacred dimension of permanence epitomised in a perpetual state of idealised existence”. Outra observação que gostaríamos de fazer prende-se com o facto, de que nem todas as paredes dos túmulos de Qubbet el-Hawa apresentam pinturas ou outro tipo de decoração. Segundo Vischak (2015:134), devido ao facto de existir um modelo estandardizado para os túmulos da elite nobre, em que as paredes das capelas deveriam estar completamente decoradas, alguns estudiosos acreditavam que, pelo facto das paredes dos túmulos em Qubbet el-Hawa não se encontrarem inteiramente pintadas, não significaria que não tenham sido terminadas. E como justificação acrescentavam que talvez, o início da construção e preparação dos túmulos possa ter ocorrido, quando o seu proprietário já se encontrava em idade avançada. Nem Vischak nem nós acreditamos em tal justificação, por várias razões: túmulos incompletos significam deixar, apenas, uma parede, ou um painel por concluir e a situação repete-se em quase todos os túmulos. Nenhum túmulo menfita, que apresenta pintura incompleta se assemelha aos túmulos de Qubbet el-Hawa. Outro argumento é porque a escolha e a preparação do túmulo é umas das grandes preocupações dos seus proprietários, enquanto vivos. Sabiam que podiam falecer a qualquer momento, e temiam que o túmulo não estivesse pronto ou quase pronto para o receber. A não conclusão dos túmulos também não seria por falta de artesãos, já que existia uma grande comunidade deles em Elefantina 118 , comprovada por evidências arqueológicas encontradas na ilha. 117 O’Neill, 2015: 6. 118 Vischak 2015: 135. O sítio arqueológico de Qubbet el-Hawa (Assuão). Contribuição para um estudo 94 Seria muito interessante, continuar a investigar este assunto porque talvez se chegue a conclusões bastante inovadoras. 3.2.2 A Infraestrutura A infraestrutura dos túmulos de Qubbet el-Hawa, é normalmente constituída por diversas divisões situadas a um nível inferior, onde se localizava a câmara funerária e onde era colocado o ataúde do morto e todo o seu mobiliário funerário. A câmara funerária era geralmente ampla. No inicio da VI dinastia é acrescentado um túnel, no fim do qual existiria uma passagem ocultada, de acesso à câmara funerária 119 . 3.2.3. As mastabas São os primórdios das pirâmides, apresentam uma forma troncocónica, compostas por superestrutura e subestrutura. Esta última onde se localizava a câmara funerária cujo acesso era pelo poço. Na superestrutura estavam localizadas a capela funerária e a porta falsa. Figura 83. Representação em corte de mastaba. 119 Bárta 2011: 54. Parte II - Caracterização 95 3.3 Os Túmulos da XII Dinastia (Império Médio) Durante este período surge uma grande variedade estilística 120 . Mas a base mantém-se a mesma. Desde os finais do Império Antigo e Império Médio que os governadores provinciais preferiam ser enterrados nos seus próprios nomos , em túmulos escavados na rocha, acompanhando o declive de montes sobre o Nilo e com vista para as terras cultivadas. Os túmulos tipo hipogeu adaptavam-se perfeitamente a este relevo, onde as características do solo, não apresentavam as condições essenciais para a construção de uma mastaba (Martinez Hermoso, 2017: 75). 3.3.1 A super-estrutura A parte exterior de alguns túmulos apresentava um átrio ou pátio, em frente à fachada onde fora talhada a porta de acesso ao interior do túmulo. Podem ser simples ou apresentar elementos decorativos, o caso específico do túmulo QH36 (Sarenput I). No lintel, aparecem os títulos do morto e ao longo da parede exterior, dois painéis com representações do falecido do filho. Já no túmulo QH31 (Sarenput II), a fachada não apresenta qualquer elemento decorativo ou inscrição. Mantém-se a existência de salas hipostilas onde o número de colunas pode variar entre 2, 4,6, ou mais. As Capelas funerárias As capelas apresentam uma característica diferente das do período anterior. As câmaras são escavadas de modo perpendicular às paredes, mas nas mais antigas, apresentam-se paralelas 121 . O santuário Localiza-se na parede do fundo da câmara das oferendas, o mais afastado possível da entrada. Este local era separado por paredes, poderia ter degraus de acesso ou uma pequena rampa e era frequentado apenas pelos sacerdotes e familiares próximos do falecido. Neste local que substitui o antigo Serdab encontrava-se a estátua do falecido. 120 Martinez Hermoso, 2017: 101. 121 Martinez Hermoso, 2017: 101. O sítio arqueológico de Qubbet el-Hawa (Assuão). Contribuição para um estudo 96 3.3.2 A infraestrutura As câmaras funerárias localizavam-se na subestrutura, no final de uma rampa descendente ou de um fosso vertical. 3.3.3 Os Hipogeus Trata-se de um conjunto de câmaras funerárias escavadas na rocha. Dispunham de diversos corredores e escadarias descendentes, conduzindo a um vestíbulo. A câmara funerária era, geralmente, rodeada por quatro salas onde estava depositado todo o mobiliário funerário pertencente ao morto. O plano da subestrutura era labiríntico, tornando-se por vezes bastante complexo. 3.4. Outras estruturas Na necrópole de Qubbet el-Hawa, e até ao momento, foram escavadas quatro escadarias que vão desde a base da colina, até à plataforma onde se localizada a porta de acesso aos túmulos: QH 24 Mekhu, QH 25 Sabni I, QH 34h Khunes e QH 36 Sarenput I. O ataúde chegaria de barco à base da colina e depois seria transportado por familiares e servos até finalmente descansar, no interior do túmulo. Parte II - Caracterização 97 Figura 84 a 86 . Escadaria de Mekhu e Sabni. Pormenor da escadaria de Sarenput I Khunes (Fotos: SB). Por terem estado enterradas durante muito tempo, apresentam-se em bom estado de conservação. A primeira a ser a ser encontrada foi a escadaria de Sabni I, seguindo-se a de Mekhu, Khunes e Sarenput I. Entre cada quatro lanços de escadas, existe uma plataforma que serviria para os transportadores do ataúde fazerem uma ligeira pausa. De ambos os lados da escadaria, dois muros serviriam de suporte, reforçando-a e protegendo-a. Atualmente, conseguimos observar que partes desses muros de suporte foram remexidos e alterados, não na sua totalidade, mantendo ainda partes originais. Perto do topo, nos últimos lanços de escadas, existem aberturas nos muros de suporte e que são também referidos por Budge na sua descrição. Outra situação que merece atenção: os degraus não apresentam todos o mesmo tamanho. Os da base apresentam uma altura de 30cm, aproximadamente, e esta vai aumentando à medida que se vai subindo, tendo os últimos degraus uma altura aproximada de quase meio metro e mais. Esta situação poderá estar relacionada com a necessidade de utilizar a escadaria como reforço. Havendo ou não alguma simbologia até agora desconhecida, uma coisa é certa: era necessário utilizar mais a força corporal, especialmente das pernas, para subir os últimos degraus. Se acrescentarmos o transporte de um ataúde, o esforço seria a dobrar. Budge data a construção da escadaria como sendo do período romano. Discordamos da datação porque os túmulos que se encontram no topo da plataforma são da VI dinastia (2345-2181 a. C.), da O sítio arqueológico de Qubbet el-Hawa (Assuão). Contribuição para um estudo 98 época do faraó Pepi II e as características construtivas que apresentam em nada se assemelham com as construções do período romano no Egipto Para finalizar, uma característica que achamos importante mencionar e que torna estes túmulos únicos, está relacionada com a importância que os proprietários de três 122 túmulos, dão às suas autobiografias, apresentando-as na parede exterior dos seus túmulos para que fossem vistas e lidas por todos que visitassem a necrópole. Trata-se de uma verdadeira campanha política, post mortem , para que não fossem esquecidas as suas façanhas, as suas expedições, ou até as suas boas acções, acabando por exaltar também o poder do monarca. Segundo Vishack 123 , “these autobiographies contribute to a picture of increased royal interest in Nubian trade during the Sixth Dynasty”. 4. O espólio arqueológico Para se conseguir interpretar corretamente um sítio arqueológico, existem procedimentos a não esquecer: o registo diário em caderno de campo, o registo estratigráfico, fotográfico e gráfico, são peças fundamentais para reconstruir a história de um lugar. Quando a existência de potencial estratigráfico é reduzida ou quase nula, deve recorrer-se a outros elementos possíveis como, por exemplo, o espólio arqueológico que além de fornecer datações, ajuda a entender como foi utilizado por quem e em que espaço de tempo. A necrópole de Qubbet el-Hawa foi vista durante muito tempo, como um local que abrigava tesouros. Em diversos períodos do tempo foi saqueada, o seu espólio vendido e todas as informações a que poderíamos ter tido acesso foram destruídas ou simplesmente desapareceram. O espólio arqueológico é indispensável para a compreensão de um contexto arqueológico, com o fim de se elaborar uma análise qualitativa e quantitativa desse mesmo contexto e para realizar um estudo material cultural. No séc. XIX, era prática comum nas escavações efetuadas no Egipto, o espólio ser dividido em duas partes: uma parte para o país da missão arqueológica e outra para as autoridades egípcias. 122 Tratam-se de Sabni I (QH 26), e Herkhuf (QH 34h) O terceiro túmulo não se encontra visitável, e pertence a PepinakhtHekaib I (QH 35). 123 Vishake, 2006: 27. Parte II - Caracterização 99 Atualmente, todo o espólio permanece no Egipto. Este ainda é um ponto sensível de abordar no Egipto pela maneira como algum espólio foi parar aos grandes museus europeus. Como se pode estudar um sítio, sem saber o paradeiro do seu espólio? De todos os relatórios por nós lidos e analisados, nenhum faz referência a qualquer análise feita ao espólio das escavações do séc. XIX. Só depois de muita investigação cruzada ficamos a saber onde está parte dele, mas sem qualquer publicação de fotografias ou listagens. Assim, das escavações de Sir Grenfell e Wallis Budge, parte do espólio encontra-se no Museu Egípcio do Cairo e a outra metade, está no Museu Britânico 124 : “It is also positive that the tomb catalogue includes the British Museum objects from the Grenfell excavations that can be more or less securely assigned to a particular tomb (i.e. QH 92 and QH 98)”. Mas nem tudo. Apenas o espólio retirado dos túmulos QH 92 e 98 é mencionado, não havendo referências aos restantes túmulos escavados por Grenfell e Budge. Em 2014, Auenmuller 125 e Frizenreiter, referem num artigo sobre a localização do espólio arqueológico referente aos trabalhos realizados pela Missão Arqueológica de Bona em 1969, especificamente no Túmulo QH 207, bem como o referente aos restantes túmulos, se encontra na Universidade de Bona, “ In addition, a collection of finds from Edel’s excavations currently housed in the Ägyptische Museum der Universität Bonn are undergoing renewed investigation by Dr. Martin Fitzenreiter and his staff ”. No Museu da Universidade de Bona encontram-se mais de 1.000 objetos provenientes de Qubbet el-Hawa. Das escavações efectuadas por Ernesto Schiaparelli, o espólio arqueológico recolhido está no Museu Egípcio de Turim, mas também não tempos conhecimento de que material se trata, nem em as quantidades. Em relação ao espólio proveniente das escavações de Lady Cecil e Howard Carter, sabemos que as peças mais importantes se encontram no Museu Egípcio do Cairo, mas em relação às restantes, não temos conhecimento onde possam estar. 124 Hellinckx, 2014: 280. 125 Auenmuller, 2014: 101-107. O sítio arqueológico de Qubbet el-Hawa (Assuão). Contribuição para um estudo 100 O mesmo se passa, em relação ao trabalho de Lalib Habachi. Sabemos que na Ilha de Elefantina está todo o espólio recolhido por ele nas escavações efetuadas na ilha e é bem possível que entre esse espólio também esteja o que recolheu nos túmulos escavados em Qubbet el-Hawa. Em relação às missões atuais, as regras são completamente diferentes em relação à acomodação do espólio arqueológico. Cada missão é responsável pela organização de um armazém onde é recolhido todo o espólio arqueológico das diversas escavações. Esse armazém é propriedade do estado. No final de cada campanha, é entregue uma base de dados, um inventário fotográfico, desenhos do espólio encontrado, o qual dever ser entregue em anexo com o relatório das escavações. O espólio fica devidamente acomodado no armazém cuja localização só é conhecida pela equipa e pelos inspetores egípcios. Gostaríamos de acrescentar que no Museu Núbio estão expostas, pelo menos cinco peças provenientes da necrópole de Qubbet el-Hawa. Não sabemos que forma é que as peças aí chegaram. Assim, achamos que é urgente criar uma base de dados abrangente onde se incluam todas as informações sobre o espólio encontrado em Qubbet el-Hawa, a sua localização, o estado de conservação; anexar desenhos e fotografias e, depois de devidamente estudado, efetuar uma publicação. Defendemos também que todo o espólio proveniente das escavações atuais em Qubbet el-Hawa deva estar num espaço que ofereça as condições essenciais para o seu estudo, acomodação e segurança. Na nossa opinião, esse local seria o Museu Núbio. Em anexo, colocámos uma listagem, criada por nós, de todo o material arqueológico referido nos diversos relatórios de escavação. Parte III Que futuro para este local? O sítio arqueológico de Qubbet el-Hawa (Assuão). Contribuição para um estudo 102 1. O estado de conservação: algumas considerações Se no capítulo anterior abordámos questões como a localização e conservação do espólio arqueológico e a necessidade urgente de se proceder à elaboração de uma base de dados, neste ponto iremos questionar o estado de conservação da necrópole. Faremos algumas considerações e adiantamos algumas propostas, algumas das quais com um carácter de urgência. Tomámos conhecimento de que foram realizados dois estudos 135 , completamente distintos, o primeiro de consolidação e conservação da necrópole e o segundo sobre as influências climáticas nas estruturas arqueológicas do sítio. Ao longo dos anos, a necrópole tem sido submetida a diversos trabalhos arqueológicos. A remoção de areias, de um lado para outro desencadeia graves problemas. O que antes tinha atingido a sua própria estabilidade, de um momento para o outro ganha instabilidade. Se a acção humana é responsável por isso, não nos podemos esquecer que a natureza também tem as suas implicações: as amplitudes térmicas, as tempestades de areia, os tremores de terra, as pragas de insectos, tudo isto vai modificando o espaço. 1.1 A colina: problemas estruturais Esta montanha é de arenito, um tipo de rocha sedimentar que se forma a partir da desintegração de rochas como o granito. É altamente porosa e contém em menor quantidade, algumas partículas de quartzo, feldspato, micas argila, óxidos de ferro, carbonatos e sílica que todos juntos acabam por lhe dar alguma dureza e estabilidade 136 . 135 Hermi e Brania, 2007: 77-87; Angelini et al. , s/data (referência na bibliografia). Infelizmente ambos não apresentam as datas em que os trabalhos se realizaram. 136 https://rocks.comparenature.com/pt/arenito-textura/model-8-11 Parte III - Que futuro para este local? 109 Figura 97. Vista geral de Qubbet el-Hawa, numa sexta-feira. No sopé da montanha existe, apenas, um pequeno café chamado Papyrus , rústico e construído em madeira, onde se pode beber chá, café, refrigerantes e água. Foi neste local que conversamos com os habitantes, alguns deles responsáveis pelos camelos e burros que levam as pessoas a passear. Queixaram-se por o turismo ser escasso e por as empresas não quererem trazer os visitantes àquele local. Mas existe um problema que requer uma solução urgente, e está relacionado com as construções turísticas que estão a surgir junto ao rio, para noroeste, até perto da zona do túmulo da família Aga Khan, especialmente em zonas que deveriam ser consideradas “ Non Edificandi ”, ou zona especial de proteção. Cada mês que passa, surge uma nova construção que nos deixa preocupações, especialmente porque toda a área é muito sensível e a qualquer momento podem surgir túmulos e enterramentos que ficarão danificados ou destruídos. Daí termos já referido a urgência de um trabalho de prospeção e a realização de sondagens arqueológicas. Uma ação deste tipo serviria como dissuador de escavações clandestinas, sustendo o tráfico de antiguidades. O sítio arqueológico de Qubbet el-Hawa (Assuão). Contribuição para um estudo 110 Apesar da lei 142 ser clara e existirem coimas bastante pesadas para o seu não cumprimento, a área é muito extensa e por isso não é respeitada nem controlada. Defendemos a criação de um plano multidisciplinar de proteção, divulgação e salvaguarda que possa envolver todas as instituições governamentais, as missões a trabalhar no local, assim como os moradores. A nosso ver é uma forma de promover a proteção do sítio arqueológico, tornando-o mais seguro, fomentando a criação de novos postos de trabalho, tão necessários na atual conjetura económica existente no Egipto. A criação de um centro de interpretação do local será um primeiro passo importante para melhorar a situação de Qubbet el-Hawa. Sem um espaço que possa ajudar a integrar o visitante na colina, fornecer as informações básicas sobre a história do local, os túmulos existentes e seus proprietários, os cultos funerários e a sua importância, o cemitério dos nobres será sempre um lugar desconhecido. Sem descurar, claro, outras pequenas infraestruturas, como, por exemplo, um café, casas de banho, posto de apoio ao turismo. Outra carência do lugar é a inexistência de sinalética. Quem quiser visitar Qubbet el-Hawa, compra o bilhete numa pequena casa localizada na base da montanha, depois sobe a escadaria até ao Túmulo de Khunes, onde lá poderá encontrar ou não, o guarda responsável por guiar a visita. Este, pouco sabe. Não recebeu qualquer formação específica, apenas está informado quais são os túmulos que podem abrir aos visitantes. O único túmulo que ainda apresenta um pequeno painel informativo é o QH 25 e 26 (Mekhu e Sabni), já em muito mau estado e de difícil leitura 142 Law nº117 of 1983, as amended by law nº3 of 2010, promulgating the Antiquities protection law, artº22: “Building in places adjacent to archaeological sites inside the inhabited area shall not be licensed except in accordance with special terms set by Supreme Council for Planning and Urban Development to the competent organ after taking the Council’s approval. The competent organ must include in the license provisions which the Council sees guaranteeing the establishment of the building is in a proper way that does not predominate over the antiquity or spoil its appearance and ensure for such a suitable sanctum together with taking appropriate of the archaeological and historical environment and specifications guaranteeing protection of stated antiquity. The Council must declare its opinion in the application within a period of 60 (sixty) days as of date of submission of such otherwise the lapse of the period referred to is considered a refusal”. Parte III - Que futuro para este local? 111 Figura 98. O painel informativo junto ao Túmulo de Mekhu e Sabni É fundamental a criação de novos painéis, devidamente enquadrados na zona, dispondo de informação essencial. Achamos também, que seria útil haver um pequeno panfleto ou então substituir os papéis, por hotspots, em que fosse possível aceder a toda a informação, via telemóvel e gratuitamente, validado através de um código de acesso. O sítio arqueológico de Qubbet el-Hawa (Assuão). Contribuição para um estudo 112 Figura 99. Parque de estacionamento dos camelos A medida ideal seria juntar as autoridades locais, os habitantes e diversos organismos ligados à cultura, de modo a criar uma parceria, para a elaboração de um projecto de revitalização local, a nível histórico, arqueológico e turístico. Em conjunto poderiam desenvolver um Site-Book, contendo a diversa informação sobre o local. Como diz Avrami 143 : “The process of valorizing begins when individuals, institutions, or communities decide that some object or place is worth preserving, that it represents something worth remembering, something about themselves and their past that should be transmitted to future generations. Heritage is valued in a variety of ways, driven by different motivations (economic, political, cultural, spiritual, aesthetic, and others), each of which has correspondingly varied ideals, ethics, and epistemologies. These different ways of valuing in turn lead to different approaches to preserving heritage”. Resumindo, o futuro de Qubbet el-Hawa passa por:  Um plano de salvaguarda e protecção do sítio arqueológico e sua envolvente  A criação de um Centro de Interpretação do local  Criação de infra-estruturas de apoio 143 Avrami et al. , 2000: 8. Parte III - Que futuro para este local? 113  Dinamização e criação de incentivos para a população local Sendo esta base criada e implementada, todos acabarão por fruir deste espaço de uma maneira bastante diferente, ganhado este local as pessoas. Considerações finais O sítio arqueológico de Qubbet el-Hawa (Assuão). Contribuição para um estudo 114 Três séculos de trabalhos arqueológicos realizados no Sitio de Qubbet el-Hawa, elaborados por equipas diferentes, resultaram em muita informação, mas nem por isso há um maior conhecimento do local, já que muita dessa informação, entretanto, se perdeu. O próprio foi severamente prejudicado pelas condições precárias de conservação usadas à época das escavações e o pouco que se conservou dispersou-se pelo mundo (Egipto, Inglaterra, Itália, Alemanha e Estados Unidos), impossibilitando um estudo integrado. Após uma exaustiva pesquisa bibliográfica e feita a interpretação dos relatórios de escavação a que conseguimos ter acesso, deparámo-nos com a existência de lacunas relacionadas com a localização dos túmulos e quantos foram escavados na sua totalidade pelos diversos arqueólogos. Sabemos que Sir Grenfell e Wallis Budge referem ter descoberto cerca de vinte túmulos 137 . O facto é que os arqueólogos só apresentam dados em relação a dez túmulos, levando-nos a concluir que os outros dez se encontram perdidos. Ou nada possuíam digno de registar. O mesmo aconteceu com os túmulos escavados por Lady Cecil e Howard Carter. Após a leitura dos relatórios, por diversas vezes muito sumariados, sentimos alguma dificuldade em tentar compreender as localizações de alguns e onde se encontra parte do espólio recolhido. Questionamos, também, o facto de, num total de vinte e quatro túmulos escavados, não existir uma única indicação relativa à decoração tumular e toda a importância é dada, apenas, ao material encontrado. Compreendemos que nos séculos XIX e princípio do XX dava-se maior importância ao espólio que poderia enriquecer os museus europeus ou as coleções particulares do que a relatórios de escavação. Também observámos que, nas descrições apresentadas por ambos, trinta e dois túmulos são atribuídos à Época Greco-Romana, enquanto que três poderão apresentar datações que variam entre o Império Antigo e Império Novo (nº 14, 15 e um sem número atribuído). Terão estes túmulos sido reutilizados? Poderão estes túmulos localizar-se na zona norte e este da colina? Existiria perto da colina algum forte militar, semelhante ao existente na zona de Gebel el-Silsila 138 ? São questões que um dia gostaríamos de poder responder ao darmos continuidade a este trabalho. 137 Bouriant, 1887: 181. 138 Localiza-se junto ao Nilo, a cerca de 50km norte de Assuão. A Missão Sueca liderada por Maria Nilsson tem vindo a realizar algumas escavações pontuais neste local. Considerações finais 115 O trabalho efetuado por Edel e a Missão de Bona foi, sem dúvida, o mais importante estudo efetuado, tendo a sua equipa realizado o levantamento e análise descritiva de todas as inscrições existentes nos túmulos e arredores de Assuão. Os trabalhos de escavação na Necrópole de Qubbet el-Hawa têm continuado e atualmente duas missões dedicam algum do seu tempo, ao estudo deste local. Fruto de outra época, a equipa que mais trabalho tem desenvolvido, é sem dúvida, o Proyeto Qubbet el-Hawa (Universidade de Jaén), liderado por Alejandro Jiménez. Apesar do inegável contributo proporcionado por todas estas missões para o avanço do conhecimento a necrópole, permanecia e ainda por realizar, um estudo integrador que permitisse proporcionar uma visão global da necrópole. Com este trabalho procurámos contribuir para dar a conhecer a necrópole de uma forma mais integrada, facultar à comunidade científica, mas também à comunidade local, informações essenciais sobre Qubbet el-Hawa. Na segunda parte do nosso trabalho, procurámos responder a algumas questões sobre quem eram os nobres aqui sepultados e o porquê da escolha deste local como última morada. Cerca de 100 túmulos encontram-se dispersos por três plataformas 139 orientadas a este (nascer do sol) e foram devidamente preparadas, pelos artesãos, para receber os nobres e governadores residentes na Ilha de Elefantina e nomeados pelo rei. Alguns destes quiseram deixar acessível a todos, a sua titulatura, as suas campanhas políticas e mercantis às terras núbias e ao serviço do rei, e alguns, devido às suas façanhas ,foram divinizados 140 . Procurámos colmatar as falhas existentes sobre a interpretação destes túmulos, fazendo a descrição, o mais completa possível, dos quatro e únicos túmulos possíveis de visitar na atualidade. Avançámos algumas hipóteses, que consideramos importantes para interromper o desconhecimento deste local histórico, pois sem história, este sítio arqueológico torna-se um livro em branco. Foi nosso intuito chamar a atenção para as ameaças da degradação do terreno e a necessidade de valorizar todo o espaço, fornecendo aos visitantes e também aos habitantes informação que demonstrem a importância de Qubbet el-Hawa desde o Império Antigo até a atualidade. Tentámos 139 No sopé da colina foram identificadas algumas sepulturas tipo mastaba, mas este local ainda requer muito trabalho de prospecção, escavação e análise arqueológica afim que se possa compreender quem eram as pessoas aqui sepultadas. 140 O caso específico de Pepynakht-Hekaib (QH 35d), o qual teve direito à construção de um santuário em seu nome na Ilha de Elefantina, descoberto e escavado pelo egiptólogo Labib Habachi. O sítio arqueológico de Qubbet el-Hawa (Assuão). Contribuição para um estudo 116 corresponder de forma positiva ao desafio lançado no inicio do trabalho, tendo em conta as adversidades com que não contávamos. Assim, acreditamos que num futuro próximo este local se possa tornar um lugar que conte um pouco da História egípcia e, por conseguinte, dos antigos habitantes que tiveram a última morada na montanha do vento. Bibliografia O sítio arqueológico de Qubbet el-Hawa (Assuão). Contribuição para um estudo 124 Smith, M. (2008). Osiris and the Deceased, UCLA , Los Angeles: pp. 1-4. Spaull C. (1974). Collected Papers by H. J. Polotsky, The Journal of Egyptian Archaeology 60 , London: pp. 276-277. Tyldesly, J. (2005). Los descubridores del Antiguo Egipto , Ed. Destino, Vol. 98, Barcelona. Torallas Tovas, S. e Zomeño Rodríguez, A. (2011). De nuevo en la orilla oeste del Nilo: campaña en los restos arqueológicos cristianos de Qubbet-el-Hawa (Asuán), Collectanea Christiana Orientalia 8 UCOPress , Editorial Universidad de Córdoba, Córdoba: pp. 305-308. Valenti Costales, M. (2011). La detección de diferentes periodos de ocupación a través del análisis del material cerámico hallado en el patio de la tumba 33 en la necrópolis de Qubbet el-Hawa (Asuán, Egipto, Estrat Crític 5, 2 , Barcelona: pp. 340-350. Vischak, D. (2006). Locality and Community in Old Kingdom Provincial tombs: The cemetery at Qubbet el-Hawa , Institute of Fine Arts, New York. Vischak, D. (2015). Community and Identity in Ancient Egypt - Old Kingdom cemetery at Qubbet el-Hawa , New York. Weigall, A. (1910). Guide to the Antiquities of Upper Egypt – from Abydos to the Sudan frontier , London. Willems, H. (1996). The coffin of Heqata (Cairo JlE 36418) - A case Study of Egyptian funerary culture of the early Middle Kingdom, Orientalia . 70 , Belgium. Apêndices 1-LISTAGEM DOS TÚMULOS IDENTIFICADOS EM QUBBET El-HAWA E RESPETIVAS DATAÇÕES TÚMULO/PROPRIETÁRIO DATAÇÃO QH 23 Desconhecido VI Dinastia (2345-2181 a. C.), época de Pepi II. QH 24 Desconhecido - QH 25 Mekhu VI Dinastia (2345-2181 a. C.), época de Pepi II. QH 26 Sabni I VI Dinastia (2345-2181 a. C.), época de Pepi II QH 26a Desconhecido - QH 27 Desconhecido - QH 28 Hekaib (filho de Penidebi) - QH 29 Sobek-Hotep VI dinastia (Época de Pepi II) QH 29a Desconhecido _ QH 30 Hekaib II XII Dinastia (Senwosret III 1837-1819) QH 31 Sarenput II (Nub-Kau-RéNakht) XII Dinastia e reutilizada no 3º Período Intermédio e Época Saita ou Persa. QH 32 Khema ? Reutilizado pela familia de Aku e Akua XII Dinastia (Amenemhat II -1878-1843) QH 33 Hekaib III/Ameny-Seneb XII Dinastia (Amenemhat III 1818-1773) QH 34 Desconhecido XII Dinastia QH 34aa XII Dinastia QH 34bb QH 34e QH 34dd VI dinastia QH 34e Khui Construído no fim da XII Dinastia (talvez durante o reinado de Amenemhat III; reutilizada no fim II período QH 34ee XII Dinastia QH 34ff XII Dinastia QH 34k - QH 34kk XII Dinastia QH 34g Ankhes VI dinastia QH 34gg XII Dinastia QH 34h Khunes VI Dinastia QH 34hh XII Dinastia QH 34i SobekHotep - QH 34ii XII Dinastia QH 34jj XII Dinastia QH 34ll XII Dinastia QH 34n Herkhuf VI Dinastia (2345-2181 a. C.) QH 35 Pepinakh Hekaib I VI Dinastia QH 35a Hekaib - QH 35c Sabni - QH 35d Pepinakh -Hekaib II VI Dinastia QH 35e Sabni II VI Dinastia QH 35i Desconhecido - QH 35l Sen Mesi Amenemhat I/Senwosret I 19391910+16/1920-1875 QH 35p Desconhecido - QH 36 Sarenput I XII Dinastia (Reinado de Amenemhat I - 1985-1956 a.C.) QH 88 Henebaba - QH 89 Sabni - QH 90 Sobek-Hotep ? VI Dinastia QH 90a Desconhecido - QH 90c Li-Shemai Setka ? - QH 90c Y-Shemai - QH 91 Desconhecido - QH 92 Li-Nekhemet - QH 93 Seni, Inhetepet, Hepi? - QH 98 Li Shemai Setka VI Dinastia QH101 Setka - QH 102 Khwin-Khnum VI Dinastia QH 102c Imbi - QH 103 Tjetji VI Dinastia QH 104 Desconhecido VI Dinastia QH 105 Seni - QH 106 Desconhecido - QH 109 Abebi/Iqeri - QH 110 Setka - QH206 Kaimsenu/ Iqeri - QH 207 Li Semai Setka /Sobek-Hotep - TT 60 Sent (mãe do Vizir Antefiker) - 2TABELA DOS TÚMULOS, PROPRIETÁRIOS, RESPECTIVOS ACHADOS E LOCAL DE DEPÓSITO NÚMERO PROPRIETÁRIO(S) DO TUMULO TITULATURA RESPONSÁVEL E DATA ACHADOS LOCAL DE DEPÓSITO QH23 Desconhecido (VI dinastia/ Reinado Pepi II) - Lady Cecil/H. Carter; Limpeza e novas descobertas, em 2019, Missão espanhola (Universidade de Jaén) Diversos e não especificados pela missão arqueológica Nos depósitos da Missão espanhola em Assuão QH24 Desconhecido _ _ _ _ QH25/ QH26 Mekhu e Sabni I (pai e filho) Mekhu : Príncipe herdeiro; Chefe dos países estrangeiros. Sabni: Príncipe da família real; Governador do sul; Amigo e chefe do sumo-sacerdote; F. Grenfell e W. Budge Fragmentos de sarcófagos, restos de múmias, cerâmica diversa, estelas, uchabtis, máscaras funerárias Parte terá ido para o Museu Bulaq QH26a Hib-Ab? (filho de Penatmai) Devoto ao deus Abu F. Grenfell e W. Budge - Parte terá ido para o Museu Bulaq QH27 Desconhecido - F. Grenfell e W. Budge - - QH28 Hekaib (filho de Penidebi) Filho do Principe Serenpitua F. Grenfell e W. Budge, - QH28d Hekaib II Chefe dos exércitos; Chefe dos intérpretes; Chefe dos países estrangeiros; Descoberto em 1947 por Labib Habachi, uma sala subterrânea com pinturas murais. - QH29 Sobek-Hotep Chanceler F. Grenfell e W. Budge - - QH29a Nexu (?) (o Príncipe de Nápoles?) F. Grenfell e W. Budge - - QH30 Hekaib II (filho de Sit-Hathor) Sumo sacerdote; F. Grenfell e W. Budge Um fragmento de estuque com descorarão de uma planta de papiro, estátuas e fragmentos cerâmicos, vasos com o nome do falecido Parte terá ido para o Museu Bulaq QH31 Sarenput II (NubKau-RéNakht) Príncipe, Supervisor dos profetas de khnum de Elefantina; comandante da fronteira e das terras do sul F. Grenfell e W. Budge Base de uma estátua em granito negro, mesas de oferendas, estela com a representação da barca divina; estela com texto em demótico; Museu Britânico/ Museu Egípcio do Cairo QH32 Khema ? Reutilizado pela familia de Aku e Akua Governador supremo da Etiópia e presidente dos países do sul e o governador do palácio F. Grenfell e W. Budge Cerâmicas tipo Flower pots, espolio osteológico, madeira proveniente dos ataúdes, cestarias (proveniente da limpeza efetuada pela missão espanhola) - Nos depósitos da Missão espanhola em Assuão - QH33 Hekaib III/AmenySeneb - - - - QH34 Serenpitu (Filho da senhora Sit-Teni) Nobre e conselheiro e chanceler pessoal, chefe dos profetas de Sati - - - QH34b Khunes (Younis) e esposa Shun Chanceler do rei do Baixo Egipto F. Grenfell e W. Budge - - QB34e Khui Chanceler das duas barcas F. Grenfell e W. Budge - - QH34g Ankhes - - - - QH 34h Khunes - - - - QH34n Herkhuf (e a sua mulher TepehNefert) Alto cargo na Administração Local. Chefe de todos os países estrangeiros do Ocidente e Oriente; O que leva a seu senhor todos os produtos do estrangeiro; Chefe do Alto Egipto; Chefe dos portadores do selo real; Padre dos sacerdotes; Chefe dos exércitos Expedição francesa (Denon, 1799). Conhecido antes da limpeza feita por Grenfell em 1885. Fevereiro de 1893 Ernesto Schiaparelli - - QH 34i SobekHotep - - - - QH? Maaa e seu filho Khunes - - - - QH? Sabna, Zema e Herkhut - - - - QH35l? Semmes e C? Sem-Mesi? - - - - QH35 Pepinakht Hekaib I Portador do selo real, superintendente dos batedores, conselheiro Jaques de Morgan - QH35e Sabni II (filho de Hekaib I) Portador do selo real, superintendente dos segredos da porta sudoeste Labib Habachi - - QH36 Sarenput I /Serenpitua Foi nomeado príncipe de Abu no Império Médio pelo faraó Sesóstris I. - - - QH88 Henebaba - - - - QH90 Sobek-Hotep Sacerdote de deus; - - - QH90c Metjenu - - - - QH92 Iy-En-Khenet - - - - QH93 Seni Inhotepet/ Hepi Chanceler do rei do Baixo Egipto - - - QH98 Iy-Shema (chamado Setka) - - - - QH102 Khuin-Khnum - - - - QH103 Tjeji - - - - QH105 Destruído pelos coptas - - - - QB108 Dedu-Tjeni - - - - QB109 AbebyBebyTeddju, Iqeri - - - -