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Novos Desafios, Novas Competências: Contributos Atuais da Psicologia, 2016, p. 209-230. © 2016 by Aletheia - Associação Científica e Cultural. All rights reserved. DOI 10.17990/Axi/2016_9789726972679_209 209-230 a Centro de Investigação em Educação, Universidade do Minho. Correspondência para: [email protected]o.pt b Colégio de S. Caetano - Pólo de Formação. c Instituto de Educação, Universidade do Minho. d Centro de Investigação em Estudos da Criança, Universidade do Minho. a b Capítulo 8 Educação Sexual e para os Afetos: Retratos da Infância de quem viveu em Residências de Acolhimento Affective and sexual education: childhood portraits of those who lived in foster care homes Judite Zamith-Cruz Ana Rita Fernandes Júlio Gomes Zélia Anastácio Resumo O presente trabalho incidiu sobre a problemática de crianças e jovens oriundos de famílias disfuncionais onde estavam expostos a contextos ameaçadores para a sua saúde e integridade física e emocional. O objetivo geral consistiu em compreender conceções e fenómenos associados a comportamentos afetivo-sexuais de jovens que viveram em instituições de acolhimento, a fim de criar estruturas que estimulem a aquisição de competências pessoais e sociais. Para intervir nesta problemática optou-se por uma metodologia de investigação- -ação. Na fase de diagnóstico realizaram-se entrevistas semiestruturadas e orientadas por um guião. Foram colocadas questões sobre afiliações e sexualidade e afetividade e recolhidos relatos das experiências significativas de jovens adultos. Foram entrevistados 5 ex-residentes em Lares de Infância e Juventude (LIJ), de ambos os sexos (3 rapazes e 2 raparigas) com idades compreendidas entre 18 e 24 anos. Os dados obtidos nas entrevistas foram alvo de análise de discurso, constituindo-se categorias de análise a priori com base no conteúdo das questões. Dos resultados obtidos salienta-se que nenhum dos participantes referiu motivos plenos para a sua institucionalização, ignorando ou rejeitando a adversidade e maus tratos/abuso sofridos na sua infância. A sua perceção sobre os diálogos que os adultos mantinham com as jovens era de que diferiam dos que estabeleciam com os jovens, falando com elas de “menstruação” e “questões do corpo” (com preocupação acentuada sobre gravidez) e discutindo mais com eles sexo e prevenção de doenças. Sendo inexistentes relatos sobre relações afetivas e intimidade/confiança, parece urgente que os adultos de referência se predisponham a debater sentimentos e emoções e a auxiliar os jovens nas tomadas de decisão e na procura de resolução para os seus problemas afetivo-sexuais. Palavras-chave: Educação sexual; afetividade; formação e desenvolvimento de profissionais. Abstract The present work was focused on the problems of children and young people from dysfunctional families where they were exposed to threatening contexts for their health and physical and emotional integrity. The overall objective was to understand conceptions and phenomena associated with the affective-sexual behaviors of young people who have lived in host institutions, in order to create structures that encourage the acquisition of personal and social skills. To intervene on this issue an action-research methodology was followed. In the c d Provided for Personal License use. Not for reproduction, distribution, or commercial use. © 2016 Aletheia - Associação Científica e Cultural. All Rights Reserved. Provided for Personal License use. Not for reproduction, distribution, or commercial use. © 2016 Aletheia - Associação Científica e Cultural. All Rights Reserved.
Judite Zamith-Cruz, et al. 210 diagnostic phase semi-structured interviews were conducted and guided by a script. Questions about affiliations and sexuality and affection have been raised and reports of significant experiences of young adults were collected. We interviewed 5 ex-residents in host institutions of children and youth (LIJ), of both sexes (3 boys and 2 girls) aged between 18 and 24 years. Data obtained by interviews were subjected to discourse analysis, being a priori analysis categories based on the content of the questions. The results obtained should be noted that none of the participants said full reasons for their institutionalization, ignoring or rejecting the adversity and mistreatment/abuse suffered in their childhood. Youth perception about the dialogues adults held with the girls was that it differed from those established with the boys, talking with girls about “menstruation” and “body issues” (with marked concern about pregnancy) and discussing with boys about sex and disease prevention. Without reports about relationships and intimacy/confidence, it seems urgent that adults of reference be able to discuss feelings and emotions and to assist young people in decision-making and in seeking resolution to their affective-sexual problems. Keywords: Sex Education; affectivity; training and development of professionals. Introdução O presente trabalho é parte do projeto de investigação «Desenvolvimento de Competências para a Saúde e a Sexualidade Saudável a partir da Identificação de Necessidades em Meio Escolar e Meio Institucional» (FCT: PTDC/CPE-CED/120404/2010). O projeto edificou-se a partir de solicitações de técnicos de instituições de acolhimento de crianças e jovens para apoio e formação na área da sexualidade, dados os comportamentos sexuais inadequados com que se deparavam por parte dos acolhidos, como nos relatavam. Considerando as diretivas internacionais, o projeto tinha os seguintes fundamentos (UNESCO, 2008; 2009): i) a evidência de dificuldades na implementação da Educação Sexual (ES) de forma consistente e continuada; ii) a emergência e aumento de comportamentos sexuais de risco em jovens; e iii) as limitações de conhecimento dos profissionais que lidam com crianças e adolescentes sobre sexualidade humana e educação sexual. Graves disfunções familiares têm conduzido à institucionalização de crianças e jovens (Instituto da Segurança Social, 2012), com vista à sua proteção face a contextos que ameaçam a sua integridade física e emocional, incluindo os comportamentos sexuais precoces e de risco para a saúde (Antunes, 2010; Magalhães, 2010). O conceito de famílias “desestruturadas” (Furniss, 1991; Marvasti, 1995; Alves, 2007) refere-se a contextos primários que apresentam episódios de violência doméstica/conjugal, existindo vínculos/apegos reduzidos no casal, com mudança frequente de companheiro/a, comunicação limitada e ausência de regras, que podem ainda ser ambivalentes (“sim” e “não”, simultaneamente) ou inadequadas, ou seja, famílias com relacionamentos “disfuncionais”. Outro critério considerado pelos mesmos autores inclui a morte, a separação e o divórcio como cenários de graves Provided for Personal License use. Not for reproduction, distribution, or commercial use. © 2016 Aletheia - Associação Científica e Cultural. All Rights Reserved. Provided for Personal License use. Not for reproduction, distribution, or commercial use. © 2016 Aletheia - Associação Científica e Cultural. All Rights Reserved.
Educação Sexual e para os Afetos: Retratos da Infância de quem viveu em Residências de Acolhimento 211 crises familiares. Ainda tem vindo a ser salientada a condição de emigração e/ou mudança de residência frequente e a ausência prolongada de figura significativa, sendo mais frequentemente o pai. Em 2012, foram acompanhados por serviços públicos em Portugal mais de 16 mil crianças e jovens (Instituto de Segurança Social/ISS, 2013), em condições adversas. Em situações de perigo, no ano transato, esse foi o número de processos abertos por mais de 300 Comissões de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ), com pelo menos 5 técnicos envolvidos na prevenção (Jornal Público, 27/05/2013), mas sem contabilizar processos de anos anteriores. Em termos longitudinais (2006-2011), o número de menores em instituições descera 27%, de acordo com o Relatório de Caracterização Anual da Situação de Acolhimento de Crianças e Jovens, de 2011 (Instituto de Segurança Social/ISS, 2012). Em 2013 foi focada pela primeira vez a “exposição a comportamentos desviantes” como motivo de muitas separações de jovens das suas famílias. Portanto terão diminuído as situações consideradas de “negligência” e aumentado o número de casos de jovens referenciados por “comportamento desviante”, sobretudo expostos a violência familiar, associada a consumo de substâncias psicoativas, álcool e estupefacientes; a abuso sexual; e evidenciando absentismo escolar. Foram também enfatizadas circunstâncias em que são os jovens a fazerem mal a si próprios (autoflagelação), sem que os adultos atuem. Por sua vez, em Braga, no ano de 2012 (dados de 23 de junho e de 6 de novembro de 2012), de acordo com uma tipologia de situações de perigo, fornecida por CPCJ-Braga ao jornal local Correio do Minho (2012, 06/11/2012, p. 4), foram registadas 241 circunstâncias, discriminando situações, de forma quantificada: i) negligência a nível educativo, de saúde, dos comportamentos das crianças e psicoafetivos (47 situações); ii) negligência na supervisão e acompanhamento familiar (40 situações); iii) comportamentos desadequados (roubo, consumo de estupefacientes e álcool, violência para com a família e pares, bullying, fuga e pernoita fora de casa de familiares e vandalismo, frequência de espaços noturnos e insubordinação em contexto escolar (39 situações); iv) absentismo escolar (32 situações); v) violência doméstica (30 situações); vi) abandono escolar (16 situações); vii) exposição a modelos que possam prejudicar o bem-estar e desenvolvimento da criança (14 situações); viii) maus tratos físicos (11 situações); ix) maus tratos psicológicos e abusos emocionais (6 situações); x) consumo de estupefacientes (5 situações); e xi) prática de facto qualificado pela lei penal como crime - crianças de idade inferior a 12 anos (1 situação). Estes indicadores de problemas são preocupantes, para temáticas não contornáveis, nomeadamente por força dos media, sem que se conheça a Provided for Personal License use. Not for reproduction, distribution, or commercial use. © 2016 Aletheia - Associação Científica e Cultural. All Rights Reserved. Provided for Personal License use. Not for reproduction, distribution, or commercial use. © 2016 Aletheia - Associação Científica e Cultural. All Rights Reserved.
Judite Zamith-Cruz, et al. 212 combinação de fatores de risco que torna mais provável a ocorrência de abuso/maus tratos de crianças e jovens. Objetivos do Estudo Os objetivos deste trabalho focaram-se em compreender que aceitação e compromisso de valores para a vida assumem os/as jovens que foram institucionalizados; conhecer a experiência de ser um/uma estudante em minoria (ou da maioria, no LIJ); identificar o nível de compreensão dos jovens relativamente aos conceitos de sexualidade e afetividade, com vista à maior compreensão de práticas de vida e a intervir eficazmente; averiguar questões de género e de diversidade sexual nas múltiplas dimensões da sexualidade; identificar as condições que proporcionam confiança/intimidade, sociabilidade e sentimento de bem-estar no/as entrevistado/as, separado/as do seu “meio natural de vida” na infância. Tivemos também como objetivo conhecer melhor o impacto de riscos/perigos, nos domínios afetivo-sexuais de quem vive com problemáticas associadas: orfandade, pai desconhecido, discórdia conjugal grave, família numerosa, situação socioeconómica frágil, escassa educação dos pais, problema psiquiátrico da mãe, conduta criminal do pai. Pretende-se desta forma dar continuidade a propostas de prevenção de práticas de vida pós-institucionais (in-)satisfatórias, bem como atender a recursos pessoais de antigos acolhidos e de membros inspiradores e formadores pró-ativos de instituição, com especificidades próprias: locais de possibilidade social, de aprendizagem e de desenvolvimento. Metodologia A metodologia é qualitativa, sendo uma Investigação-Ação, a qual trabalha com estudos de caso (Cohen, Manion & Morrison, 2008). Apresenta-se aqui um estudo de caso realizado na fase de diagnóstico e de forma exploratória. Amostra O tipo de amostra é de conveniência, sendo a mesma constituída por cinco jovens (três do sexo masculino e dois do sexo feminino) com idades compreendidas entre os 18 e os 24 anos. Como critérios de seleção e inclusão na amostra salientam-se a acessibilidade e a sua aceitação para participar no trabalho de investigação, acerca de cujos propósitos foram previamente informados. Os inquiridos Provided for Personal License use. Not for reproduction, distribution, or commercial use. © 2016 Aletheia - Associação Científica e Cultural. All Rights Reserved. Provided for Personal License use. Not for reproduction, distribution, or commercial use. © 2016 Aletheia - Associação Científica e Cultural. All Rights Reserved.
Educação Sexual e para os Afetos: Retratos da Infância de quem viveu em Residências de Acolhimento 213 preencheram ainda outros requisitos para a seleção, nomeadamente a estabilidade emocional manifestada ao longo do tempo de escola, com informações positivas de educadores e professores e condutas adequadas no último LIJ frequentado e nas profissões que desempenhavam. Dois rapazes foram residentes em dois LIJ, com permanência (prolongada), excedendo os 4 anos. Os outros três jovens permaneceram em idênticas condições de atendimento prolongado, mas nunca mudaram de instituição. Para tratamento dos dados, os relatos dos participantes foram identificados, primeiro por número de texto/entrevista produzida (E#n), depois por sexo, masculino (M) ou feminino (F), e no fim por idade, obtendo-se as designações: E#1M24anos; E#2M21anos; E#3F21anos; E#4M19anos; e E#5F18anos. Seguidamente, foram atribuídos nomes fictícios aos respetivos inquiridos (João, Francisco, Teresa, Manuel e Júlia), os quais usamos aqui para caraterizar a amostra e posteriormente na apresentação dos resultados. Assim: — João esteve colocado num LIJ, dos 4 aos 21 anos (17 anos); — Francisco dos 12 aos 16 anos (4 anos); — Teresa dos 7 aos 15 anos (8 anos); — Manuel e Júlia foram residentes durante 8 anos. Todos foram institucionalizados entre os 4 e os 12 anos de idade, por razões indicadas pelos próprios, na ordem sequencial de entrevistas: — João - abandono materno (aos 2 anos), com desconhecimento do pai; — Francisco - separação dos pais; — Teresa - morte dos progenitores; — Manuel - maus tratos e negligência; — Júlia - separação/divórcio dos pais. É possível distinguir duas gerações, com base nas idades, constituindo João, Francisco e Teresa a primeira geração (24-21 anos); Manuel e Júlia uma segunda geração (21-18 anos). O nível de escolaridade de João é de 12.º ano completo. Francisco e Teresa alcançaram a frequência de 10.º ano, em Portugal, encontrando-se Teresa no momento a estudar num curso de mestrado, em Nova Iorque (EUA), após adoção aos 15 anos. Manuel realiza então uma licenciatura em Educação Física e Júlia completou o 9.º ano. Provided for Personal License use. Not for reproduction, distribution, or commercial use. © 2016 Aletheia - Associação Científica e Cultural. All Rights Reserved. Provided for Personal License use. Not for reproduction, distribution, or commercial use. © 2016 Aletheia - Associação Científica e Cultural. All Rights Reserved.
Judite Zamith-Cruz, et al. 214 A circunstância de três inquiridos namorarem (Francisco, Teresa e Júlia) indica uma possível estabilidade em relação, mas Francisco tem uma namorada a estudar noutra localidade distante. Os hobbies passam pela prática de desporto (João, Francisco, Teresa e Manuel), convívio com os amigos ex-colegas da instituição (João, Francisco e Júlia) e participação numa banda musical (João). A atual relação com a família (não inquirida) é sustentada por tios (João e Francisco), por primos (João), pela família de namorado/companheiro (Júlia) e por família portuguesa de adoção (Teresa). João coabita com ex-colegas de instituição, enquanto Teresa e Manuel vivem em residências de estudantes e Júlia com a família do companheiro. Por sua vez, Francisco reside de forma independente. João e Francisco encontravam-se empregados em lojas, tendo um deles ficado desempregado recentemente. Teresa trabalha como Educadora (assistente e mentora), em escolas de 2.º ciclo e 3.º ciclo, em Nova Iorque. Júlia e Manuel nunca trabalharam. Não existem situações declaradas de abuso de substâncias (tabaco, álcool e toxicodependências). São todos solteiros e sem filhos. Instrumento de Recolha de Dados O instrumento utilizado para a recolha de dados foi um guião com perguntas elaborado pelos autores para proceder à técnica de entrevista semiestruturada. Foram abordados dois aspetos do estudo: — Parte I: Afiliações - historial de institucionalização (10 questões); — Parte II: Sexualidade e Afetividade (10 questões). A parte I do guião abrangeu duas questões mais gerais relativas a perguntas simples: (1) costumas relacionar-te com os colegas com quem viveste no colégio (designação coloquial da residência de acolhimento)?; com que frequência se encontram?; que relação tens com eles (próxima?); são simples colegas?; amigos?; com quem convives, no dia-a-dia?; e (2) quem foi a pessoa para ti mais importante, dentro da instituição (porquê?). A parte II dirigiu-se à Educação Sexual na instituição, separando-se temáticas, crenças sobre adolescência e sexo no adulto e, especificamente, os processos educativos utilizados: (1) no colégio, que situações de vida (foram e) são mais debatidas na área afetiva e sexual?; (2) que ideias, pensamentos (representações sociais) têm os adultos sobre a sexualidade na adolescência (em geral), de acordo com o género masculino e com o género feminino (como são vistas as raparigas?; como são vistos os adolescentes, os rapazes?); (3) de que recursos (humanos e técnicos) dispõem Provided for Personal License use. Not for reproduction, distribution, or commercial use. © 2016 Aletheia - Associação Científica e Cultural. All Rights Reserved. Provided for Personal License use. Not for reproduction, distribution, or commercial use. © 2016 Aletheia - Associação Científica e Cultural. All Rights Reserved.
Educação Sexual e para os Afetos: Retratos da Infância de quem viveu em Residências de Acolhimento 215 no colégio, no que se refere à educação sexual? Como fazem a educação para a afetividade? As perguntas formuladas dirigiram-se, primeiro, a vínculos/afiliações: continuidade (ou não) das relações com os ex-colegas de instituição; designação de adulto mais importante para o jovem na residência. Noutra área, abordou-se a dimensão da sexualidade na vida; o modo de falar, por quem da instituição e de que temas em educação sexual e para os afetos; e perceções da representação dos adultos sobre a sexualidade na adolescência, em geral. Procedimento O procedimento consistiu, primeiramente, na construção do guião de entrevista e na obtenção de consentimento informado dos participantes. Seguiu-se a realização das entrevistas semiestruturadas, considerando a relação de confiança e partindo de questão de género e intimidade entrevistador/a-entrevistado/a. Por último, efetuaram-se as transcrições das entrevistas e procedeu-se à análise de discurso dos dados convertidos em texto. A partir dos textos, foram constituídas categorias a priori e a posteriori, não exclusivas, e seguindo a sequência do guião de entrevista. As categorias e subcategorias são representadas pelas “unidades de significado”, adiante sistematizadas por segmentos temáticos (T#1 a T#6) e subtemáticos (ST#1 a ST#4), respetivamente. Análise dos Dados Com base na perspetiva de Análise de Discurso, o guião de entrevista que criámos pode refletir «ações humanas e estas assemelham-se ao modo como um texto escrito se coloca ao leitor» (Tesch, 1990, p. 37). Defende-se que ser intérprete de ações seja uma condição de se ser-no-mundo, o que conduz a ver de modo diferente por conhecimento direto e atitude científica informada. O poder da voz do intérprete encontra-se então nos efeitos/ consequências que cause, quando se problematizem questões não plenamente abordadas. Nessa orientação primária, houve a intenção de que quem entrevistou jovens, conhecesse o contexto de vida dos inquiridos. Teria que falar com naturalidade, sentir-se confortável no que dissesse, achando que o seu trabalho é de valor social. O/a entrevistador/a, ao dar uma ou outra opinião, é aceite como uma figura de autoridade. Com essa convicção, presente na etnometodologia (Garfinkel, 1967) e na Análise de Discurso (“reflexividade”), escolheram-se como entrevistadores uma rapariga e um Provided for Personal License use. Not for reproduction, distribution, or commercial use. © 2016 Aletheia - Associação Científica e Cultural. All Rights Reserved. Provided for Personal License use. Not for reproduction, distribution, or commercial use. © 2016 Aletheia - Associação Científica e Cultural. All Rights Reserved.
Judite Zamith-Cruz, et al. 216 rapaz, que frequentavam a comunidade religiosa e assistencial a crianças e jovens. Ambos tinham idades ligeiramente superiores aos entrevistados, possuíam estudos e profissões educativas, além de ser frequente o convívio entre eles no contexto em que se inseriam. Em segundo lugar, podemos explicar ou dar conta (ver accountability) do que se esteja a realizar, estudando, uma consequência da conceção supracitada de reflexividade. Harold Garfinkel (1967) esclareceu-o, quando explicitou não se distinguir entre dizer e fazer: «nas atividades realizadas pelos membros [competentes], para produzirem e manejarem as situações da sua vida organizada, do seu dia-a-dia, se sabem fazer [ver reflexividade], sabem comunica-lo [accountability].» (p. 1). Por último, a noção de “indexicabilidade” proporciona o apercebimento explícito do discurso, nas circunstâncias em que se consuma o acesso ao sentido da palavra. Assim colocado, lembrou-o Garfinkel, faremos de diálogos o que seja “um trabalho documental”. Cada ação e cada palavra remetem-nos para um arquivo, sem significado à margem do uso na linguagem e do espaço sociocultural de enunciação, dito que seja o contexto a propiciar os significados e a determinar a posição sociocultural dos falantes. Justifica-se assim serem os entrevistadores dois membros competentes da comunidade, entendendo bem as expressões coloquiais e os contextos para os indexicais utilizados (expressões como “aqui”, “ali”, “isto”, “aquilo”, “agora”, etc.). De acordo com a Análise de Discurso, explorada por Jonathan Potter e Margareth Wetherell (1987), utilizamos sempre «Repertórios Interpretativos» (RI). Esta é uma denominação também presente no trabalho de Gilbert e Mulkay (1984) sobre o discurso científico. Podem ser dados exemplos no modo como se escreva ou se verbalize, usando um RI sociologizante (ex.: «a família costuma bater…»; «a família é desestruturada»), um RI psicologizante (ex.: «ele tem falta de controlo sobre si mesmo e bate no filho»), ou para um RI biologizante (ex.: «aquele homem tem falta de recetores para a vasopressina»; «um predador sexual»). Os RI que utilizaremos são transversais, o que indica uma orientação biopsicossocial de base teórica e presente na análise textual. Resultados Parte I – Afiliação – Historial de Institucionalização Que dizer de amigos e pessoas de contacto diário, fossem educadores, técnicos e pares, amigos, namorado/s ou companheiros? Provided for Personal License use. Not for reproduction, distribution, or commercial use. © 2016 Aletheia - Associação Científica e Cultural. All Rights Reserved. Provided for Personal License use. Not for reproduction, distribution, or commercial use. © 2016 Aletheia - Associação Científica e Cultural. All Rights Reserved.
Educação Sexual e para os Afetos: Retratos da Infância de quem viveu em Residências de Acolhimento 223 ST#4 – 3 - Recursos humanos, na residência, para ser efetiva a Educação para os Afetos e Sexualidade Quanto aos apoios humanos na residência, para ser efetiva a educação para os afetos e sexualidade, João mostrou crer que: as raparigas dirigiam-se às senhoras, até pelas questões da adolescência, começa a metamorfose lá do corpo delas e pronto… Elas falam mais entre elas. Acaba por ser só entre elas. (E#1M24anos) Contudo, os rapazes também têm mudanças sexuais secundárias. Francisco não pensa de forma semelhante a João, sendo as entrevistas independentes: Não tem nada a ver [com a questão de género]! No meu grupo [divididos 4 adultos para 7 crianças/jovens na instituição], havia… duas mulheres, um homem e o Irmão... Falavam todos abertamente… educadores com raparigas e educadoras com rapazes. (E#2M21anos) Mas para Manuel, «faz confusão a alguns rapazes falar sobre a sexualidade com educadoras.» Já Teresa defendeu que uma abordagem separada: depende da personalidade de cada aluno [ou aluna, jovem morador na residência] mas os educadores… penso que estão preparados para ouvir e dar conselhos a qualquer um dos sexos. (E#3F21anos) Sem tomar posição, Júlia «não falava muito… Só falava mesmo com a minha Psicóloga. Eu era - sou - muito fechada.» A interlocutora foi por si eleita. O que João assumiu de diferente é que haja raparigas, as suas amigas, mais maradas que falam consigo de sexo: «falamos mais abertamente sobre sexo.» Autoapresenta-se, aliás, da seguinte maneira: Sou um bocado promíscuo e, então, tenho piadas muito assexuadas [em vez de dizer sexuadas] e acho que [eu] torno tão à vontade as mulheres para falar comigo sobre sexo, que eu acho que, às vezes, me sinto uma mulher à beira delas, que eu ei lá… espera! (E#1M24anos) Esperar-se-ia que tivesse dito que as suas piadas, pondo à vontade as raparigas, fossem sexuadas. Mais uma vez e de forma distinta de João, Francisco entendeu o diálogo com figura de pai: Provided for Personal License use. Not for reproduction, distribution, or commercial use. © 2016 Aletheia - Associação Científica e Cultural. All Rights Reserved. Provided for Personal License use. Not for reproduction, distribution, or commercial use. © 2016 Aletheia - Associação Científica e Cultural. All Rights Reserved.
Judite Zamith-Cruz, et al. 224 … é diferente falar com um grupo de amigas, porque se entendem da mesma maneira, do que se [elas] falarem com o pai que é autoridade… porque [elas] sabem que se pisarem a linha [por desvio, no relacionamento com rapazes], pode correr mal… [na admoestação, castigo ou rejeição paterna]. (E#2M21anos) Nunca foi abordada a família na conversação, exceto quando se perguntou o motivo de viverem em LIJ, mas também João a referira no exemplo, se bem que após o divórcio não visse os progenitores. Noutra passagem, Francisco acrescentaria o seguinte: As raparigas - como são mais sensíveis - falam com as amigas mais sobre sentimentos. Elas falam mais do processo da evolução de uma mulher [no sentido em que] as raparigas mais velhas ensinam e dão instruções acerca de menstruação e coisas desse género… (E#2M21anos) Os rapazes serão diferentes delas. Para Francisco, eles estão mais à vontade com adultos. Sendo um jovem que não vê a mãe há muito tempo pode ainda imaginar uma situação exemplar do outro que a tem: O facto de seres um rapaz [interlocutor] e poderes falar com os teus pais… apesar de com as mães não se estar tão à vontade, porque mãe é mulher e há aquela cena de constrangimento... (E#2M21anos) ST#4 – 4 - Temáticas sexuais de meninas e rapazes E quando se fala de sexo e amor, com namoradas/“companheiras”? Para Francisco, dirigindo-se ao interlocutor, esclarece: «Se te apaixonares, acaba [acabas] por ser mais sentimental, falas mais com a tua companheira…» Então, Francisco entende que «[elas] falam mais sobre o sentimento [de amor] do que propriamente de sexo… [sexo] faz parte de uma relação mais avançada». Nova distinção de género, por relação ao entrevistador: «... [tu, um rapaz] não vais para à beira do teu amigo dizer ‘olha…o amor…’. Entre amigos [rapazes], acho que se fala mais na palhaçada». João havia também considerado que «[a conversação] entre amigos é mais sexual…». No entanto, Francisco acrescentou que, afinal, «[todos] falam da mesma coisa [sexo]… [embora] pessoas diferentes e de maneiras diferentes». Existem hiatos quando não se utilizem as palavras “sexo” e “amor” tão debatidas. Por último, foi criada uma primeira e uma segunda categorias, em domínios residuais – a Temática 5 (T#5) - relativa a “Outros assuntos esponProvided for Personal License use. Not for reproduction, distribution, or commercial use. © 2016 Aletheia - Associação Científica e Cultural. All Rights Reserved. Provided for Personal License use. Not for reproduction, distribution, or commercial use. © 2016 Aletheia - Associação Científica e Cultural. All Rights Reserved.
Educação Sexual e para os Afetos: Retratos da Infância de quem viveu em Residências de Acolhimento 225 taneamente abordados”, bem como na Temática 6 (T#6) “Estabilidade emocional atual”, em que foram contrastados ao conhecimento dos entrevistadores os benefícios proporcionados por se viver em residência. Para tentar identificar quais eram os benefícios de uma residência (propulsora de um sentido de vida cristão) foi formulada a pergunta da seguinte maneira: «como descreves a importância que viver no Colégio teve para o teu projeto de vida? Relativamente à Temática 5 (T#5) houve somente um depoimento (João) – dizendo algo que não fosse perguntado ou outro assunto: É-me difícil manter uma relação estável hoje em dia… Primeiro, não me quero estar a meter com ninguém… não me apareceu a pessoa ideal, porque no amor é mesmo assim… Mas também ando a fugir um bocadinho ao compromisso, porque se calhar sou um bocado ‘apaixonado por personalidades’. (E#1M24anos) Sobre a Temática 6 (T#6) “Estabilidade emocional atual”, conta que, no seu dia-a-dia, João é um empregado lojista. Possui o 12º ano de escolaridade. Pode viver sem outros recursos familiares ou sociais, numa casa partilhada. Comentou a sua desproteção antecipada e encaminhamento académico, por parte da instituição: «sentia-me protegido lá [no Colégio] - e não só - sabia que cá fora era um mundo completamente diferente e que eu ia ter de desenrascar sozinho.» Essa conceção de desproteção não impediu do seguinte reparo - «aquilo [a residência] basicamente foi um grande hotel para mim... Foi um dos epílogos da minha vida.» Entende-o como o final de uma etapa de vida, passada na “grande instituição/hotel”. Depois da «adolescência, quando se está a modelar a personalidade», o jovem adulto não saiu da “casa/Colégio”, por ter atingido os 18 anos. Permitiram-lhe o prolongamento de estadia no LIJ, até ao limite etário máximo – os 21 anos. Porquê? «Porque nunca fui um membro desestabilizador… [eu fui] uma mais-valia para quem comandasse as tropas», no sentido da liderança difícil do Colégio misto, com cerca de 60 menores, em que são inevitáveis os problemas educativos de quem seja afastado muitas vezes dos progenitores. Por seu lado, uma sua colega (Teresa) acreditou ter adquirido naquele local “grandes lições de vida” (entre os 7 e os 15 anos). Posteriormente adotada, deixou o local de residência e o país. Mas foi na organização católica e social que terá alcançado consciência e procedimentos éticos, frequentando, em Nova Iorque, num curso de mestrado de Saúde Pública, na especialidade de Saúde, Comportamentos e Sociedade. Ao ser questionada sobre como refere a educação no Colégio, responde: «Como se deve agir perante outras pessoas de uma maneira simpática e respeitosa…». Acresce ter aí vivido com “muita estrutura [disciplina] e orientações [para Provided for Personal License use. Not for reproduction, distribution, or commercial use. © 2016 Aletheia - Associação Científica e Cultural. All Rights Reserved. Provided for Personal License use. Not for reproduction, distribution, or commercial use. © 2016 Aletheia - Associação Científica e Cultural. All Rights Reserved.
Judite Zamith-Cruz, et al. 226 a vida]», que nomeia para as seguintes áreas: «organização quotidiana, trabalhos [domésticos] de casa e aprendizagens [escolares], desportos e lazeres.» Outra forma de destacar regras para a vida, por parte de João, foi dizer-se capaz de tomar as suas “decisões”, em independência, superando “a vergonha” e “ganhando confiança”, ao longo do tempo de internamento. O interlocutor pensaria que «se eu quisesse singrar na vida, ia depender muito [de mim, depois de 11 anos], mas ia depender mais de mim do que deles [dos tios e das tias]». A justificação para a diferenciação colocada em relação a familiares, passa por João acreditar nunca ter visto “nenhuma pessoa” – dos tios e das tias - a “sobressair”. O valor que se autoatribui se aplica a não ser uma “figura maternal ou paternal” qualquer dos seus tios e das suas tias. No entanto, ser “independente” implicou, na sua perceção, não ter tido possibilidade de frequentar a universidade e ter de trabalhar num estabelecimento comercial. Discussão Pela análise dos discursos reconhece-se que, por parte dos cinco inquiridos, não houve o reconhecimento de diferença – marginalização, estigma, limitado apoio social e familiar. Por outro lado, quando consideram uns «puros» («maduros», «com porcaria na cabeça»…) e os outros «não puros», podemos questionar se são consequências que decorrem de discriminação. Existem aspetos cognitivos do preconceito, devendo ser ouvidos rapazes e raparigas, segundo outra regra, a assimilação-contraste: “Assimilamos” facilmente um discurso, mas temos dificuldade em integrar o discurso contrário, estranho, no sexo “oposto”. Outro aspeto a salientar é ter sido feita a apresentação de um modelo familiar relacional pai-filho/a, em ausência do próprio ou o entrevistador serem pais («se tu tens um filho [que é] rapariga ou se tens um filho que é rapaz…»).Verificou-se também o não reconhecimento/valorização de condições gravosas com pais, na infância e na adolescência. No domínio da definição de sexualidade partilhada, os âmbitos preventivo e informativo são conhecidos. Os diálogos que os adultos têm com as jovens são distintos – os adultos falam mais com as meninas acerca de “menstruação”, sobre “questões do corpo”… Existe preocupação com elas, relacionada com a gravidez na adolescência. Com os jovens educa-se mais, segundo foi afirmado, o que seja sexo por prevenção de doenças, um outro espelho social. Provided for Personal License use. Not for reproduction, distribution, or commercial use. © 2016 Aletheia - Associação Científica e Cultural. All Rights Reserved. Provided for Personal License use. Not for reproduction, distribution, or commercial use. © 2016 Aletheia - Associação Científica e Cultural. All Rights Reserved.
Educação Sexual e para os Afetos: Retratos da Infância de quem viveu em Residências de Acolhimento 227 No que se refere às consequências negativas do afastamento familiar prolongado, nos jovens houve atraso escolar, estando ausentes perturbações de desenvolvimento e de conduta. Pensa-se que, além da definição de conceitos, seja fundamental que os educadores debatam emoções e sentimentos, uma vez que se verificou pelas entrevistas não ter sido dado relevo a relações afetivas e de intimidade, mas antes brincadeira e ironia. Por último, importa acentuar que não foram dados motivos cabais para institucionalização do próprio ou de pares. Foram ignoradas ou rejeitadas as tentativas de revelação de adversidade, como foi dito, e de maus tratos/ abuso. Tem vindo a ser observado que em situações de abuso, o silêncio possa indicar que se teme “magoar” os adultos implicados, que se teme o afastamento deles, a perda de afeto e a separação, quando não o “ridículo” e a etiquetagem de “mentira”. Num apelo a que seja mudada a forma como se autonomizam ex-residentes, observou-se que estes jovens tendem a continuar sem rede de apoio social externa, sendo a família reduzida. À exceção de um caso, os restantes não chegam a considerar a escola como um fator protetor e de encaminhamento futuro. Considerações Finais Na conjuntura mundial, nas Orientações da UNESCO (2009a), um compromisso de promoção educativa e sexual é colocado no género feminino, julgando-se menos “informado” em termos sexuais (vol. I, p. 6). Também se pensa que nas últimas quatro décadas tenham ocorrido extremas mudança no que seja designado “sexual” (WHO, 2002). O aparecimento do VIH/SIDA contribuiu para essa alteração e implicou medidas de Educação Sexual, sendo esta definida de forma transversal à educação, segundo a UNESCO (2009a, vol. I, p. 2) como: «uma aproximação ao ensino acerca de sexo e relacionamentos, culturalmente relevante e apropriada à idade, proporcionando informação cientificamente adequada, realista e em ausência de julgamento de valor.» Nesse sentido amplo, uma das medidas de sucesso, aprovada pela UNESCO, tem sido proporcionar educação independentemente da família, o que facilita a comunicação sobre sexualidade com cuidadores (como os de jovens institucionalizados), comunicação essa que é distinta da dos jovens que vivam com pais (Kirby, 2009; citado por UNESCO, 2009a, vol. I, p. 12). Com base no conhecimento das necessidades de crianças e jovens de LIJ, será realizada formação dirigida a domínios explorados nos “projetos Provided for Personal License use. Not for reproduction, distribution, or commercial use. © 2016 Aletheia - Associação Científica e Cultural. All Rights Reserved. Provided for Personal License use. Not for reproduction, distribution, or commercial use. © 2016 Aletheia - Associação Científica e Cultural. All Rights Reserved.
Judite Zamith-Cruz, et al. 228 de vida”: sexualidade e afetividade, podendo ser debatidas histórias-caso de bem-estar alcançado. Em tempo breve, será efetuado um maior número de entrevistas que incluam outras idades e outras residências locais, de modo a enriquecer-se o estudo. Recolhem-se, em paralelo, dados com técnicos das instituições, com diferentes perspetivas sobre sexualidade e afeto para ser melhorada a qualidade de intervenção. Referências Alves, S. (2007). Filhos da madrugada: Percursos adolescentes em lares de infância e juventude. Lisboa: Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Anastácio, Z. (2010). Sexualidade na Fase Intermédia da Adolescência: Relacionamentos, Comportamentos e Conhecimentos. International Journal of Developmental and Educational Psychology, 2, 695-705. Antunes, C. (2010). Abuso sexual na infância e na adolescência: Uma leitura narrativa do impacto e dos processos conducentes à resiliência. Braga: Universidade do Minho. Brizendine, L. (2006). O Cérebro Feminino. Lisboa: Alêtheia Editores. Cohen, L., Manion, L. & Morrison, K. (2008). Research methods in education (6th Ed.). London: Routledge. Furniss, T. (1991). The multiprofessional handbook of child sexual abuse: Integrated management, therapy and legal intervention. London: Routledge. Garfinkel, H. (1967). Studies in ethnomethodology. Englewood Cliffs, N.J.: Prentice-Hall. Gilbert, N., & Mulkay, M. (1984). Opening Pandora’s Box: A sociological analysis of scientists’ discourse. Cambridge: Cambridge University Press. Instituto da Segurança Social/ISS (2012, março). Relatório de Caracterização das Crianças e Jovens em situação de acolhimento em 2011. Lisboa: Instituto da Segurança Social. Instituto de Segurança Social/ISS (2013). Relatório de caracterização anual de situação de acolhimento das crianças e jovens, versão resumida. Lisboa: ISS, junho, 2013. Jornal Correio do Minho. (2012, 06/11/2012, p. 4). Jornal Público (2013). Mais de 69 mil crianças e jovens em perigo acompanhadas pelas comissões de protecção. Texto de A. Sanches. Jornal Público, 27 de maio de 2013. On-line: http://www.publico.pt/sociedade/noticia/mais-de-69-mil-criancas-e-jovensem-perigo-acompanhadas-pelas-comissoes-de-proteccao-1595577 (acedido em 15 de junho de 2013). Magalhães, T. (2010) (Coord.). Abuso de Crianças e Jovens: da suspeita ao diagnóstico. Lisboa: Lidel. Provided for Personal License use. Not for reproduction, distribution, or commercial use. © 2016 Aletheia - Associação Científica e Cultural. All Rights Reserved. Provided for Personal License use. Not for reproduction, distribution, or commercial use. © 2016 Aletheia - Associação Científica e Cultural. All Rights Reserved.
Educação Sexual e para os Afetos: Retratos da Infância de quem viveu em Residências de Acolhimento 229 Marvasti, J. (1995). Play diagnosis and play therapy with children victims of incest. In R. O’Connor & C. Schaefer (Eds.), Handbook of play therapy (Vol. II, pp. 1-41). N.Y.: Wiley and Sons. Potter, J., & Wetherell, M. (1987). Discourse and social psychology: Beyond attitudes and behaviour. London: Sage. Tesch, R. (1990). Qualitative research: Analysis types and software tools. N.Y.: The Falmer Press. UNESCO (2008). School-centered HIV & AIDS care and support. Paris: UNESCO. UNESCO (2009). International technical guidance on sexuality education: An evidence informed approach for schools, teachers and health educators. Vol. I The rationale for sexual education. Paris: UNESCO. WHO (2002). Defining sexual health: report of a technical consultation on sexual health. Geneva: WHO. Provided for Personal License use. Not for reproduction, distribution, or commercial use. © 2016 Aletheia - Associação Científica e Cultural. All Rights Reserved. Provided for Personal License use. Not for reproduction, distribution, or commercial use. © 2016 Aletheia - Associação Científica e Cultural. All Rights Reserved.