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Universidade do Minho Instituto de Ciências Sociais Isabel Maria Cunha Marques A (in)dependência da TSF Rádio Notícias relativamente à agência Lusa outubro de 2022 UMinho | 2022 Isabel Maria Cunha Marques A (in)dependência da TSF Rádio Notícias relativamente à agência Lusa
Isabel Maria Cunha Marques A (in)dependência da TSF Rádio Notícias relativamente à agência Lusa Relatório de Estágio Mestrado em Ciências da Comunicação Informação e Jornalismo Trabalho efetuado sob a orientação da Professora Doutora Madalena Oliveira Universidade do Minho Instituto de Ciências Sociais outubro de 2022
ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do Repositório UM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição CC BY https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/
A (in)dependência da TSF Rádio Notícias relativamente à agência Lusa iii Agradecimentos Ao jornalista e orientador de estágio, Artur Carvalho, por toda a paciência e compreensão ao longo desta aventura; A toda a equipa da TSF, do turno da Manhã 2, do Porto, pelos ensinamentos, companheirismo e boa integração que me proporcionaram; Aos meus colegas e companheiros para uma vida que a Universidade do Minho me deu e que nunca me deixaram desistir; Às minhas amigas de infância e do secundário por estarem sempre lá; Aos meus pais por todo o apoio incansável que sempre me deram ao longo de todo o meu percurso académico; À minha orientadora de estágio da Universidade do Minho, Profª. Doutora Madalena Oliveira por toda a ajuda prestada ao longo da redação deste relatório.
iv DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducentes à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho.
A (in)dependência da TSF Rádio Notícias relativamente à agência Lusa v Título A (in)dependência da TSF Rádio Notícias relativamente à agência Lusa Resumo O presente relatório de estágio visa refletir sobre a relação de dependência da TSF-Rádio Notícias relativamente à agência Lusa. No ponto de partida desta observação está um estágio curricular de três meses, realizado na redação da TSF, no Porto, entre 13 de outubro de 2021 e 13 de janeiro de 2022, no turno da Manhã 2, no âmbito do Mestrado em Ciências da Comunicação, com especialização em Informação e Jornalismo, e de cuja experiência emergiram algumas das questões que inspiram a abordagem ao tema da relação da rádio com a agência de notícias. Não é novidade que a constante evolução tecnológica tem vindo a alterar o paradigma jornalístico ao longo dos últimos tempos. Tome-se o exemplo do aparecimento da televisão por cabo, com canais dedicados a noticiários 24 horas por dia, e do jornalismo digital. De forma a atender aos desejos dos consumidores, os jornalistas viram-se obrigados a alterar as suas rotinas e a produzir cada vez mais informação num curto espaço de tempo. A TSFRádio Notícias não foi exceção. Devido ao caráter imediato do digital, a redação recorre, diariamente, às agências de notícias, entre elas, a Lusa, para informar o ouvinte dos acontecimentos. A imagem do jornalista como “herói” armado de mochila e gravador a vaguear sem rumo em busca de uma grande reportagem ou notícia praticamente desapareceu para dar lugar a um “jornalismo de secretária”. Tendo em conta que a agência de notícias Lusa, atualmente, é utilizada na maioria dos órgãos de comunicação portugueses, até que ponto a dependência da rádio TSF relativamente a esta agência não conduz à uniformização do que é notícia? Esta aposta põe em risco valores como o rigor, a objetividade ou o caráter reflexivo? Poderemos estar a aproximarmo-nos do fim do jornalismo tradicional? Estas são apenas três das questões que se procura problematizar ao longo deste documento. Partindo de uma base teórica para uma análise prática, este relatório pretende, acima de tudo, ser uma reflexão sobre a progressiva sedentarização do jornalismo radiofónico, bem como sobre as suas possíveis vantagens e consequências para os jornalistas da TSF. Palavras-chave agência de notícias; Lusa; TSF-Rádio Notícias; jornalismo; informação
vi Title The (in)dependence of TSF Rádio Notícias on Lusa news agency Abstract This internship report aims to reflect on the relationship of dependence of TSF-Rádio Notícias in relation to Lusa news agency. At the starting point of this observation is a three-month curricular internship, carried out at TSF newsroom, in Porto, between October 13, 2021, and January 13, 2022, in the morning shift 2, under the scope of the Master’s in Communication Sciences, with specialization in Information and Journalism, and from whose experience emerged some of the questions that inspire the approach to the theme of the radio's relationship with the news agency. It is no news that the constant technological evolution has been changing the journalistic paradigm in recent times. Take for example the emergence of cable television, with channels dedicated to news 24 hours a day, and digital journalism. To meet consumers' desires, journalists had to change their routines and produce more and more information in a short period of time. TSFRádio Notícias was no exception. Due to the immediate nature of digital, the newsroom resorts daily to news agencies, among them Lusa, to inform the listener of the events. The image of the journalist as a "hero" armed with backpack and tape recorder wandering aimlessly in search of a great report or news has practically disappeared to give way to a "desk journalism". Considering that the Lusa news agency is currently used in most of the Portuguese media, to what extent does the dependence of TSF radio in relation to this agency lead to the standardization of what is news? Does this bet put at risk values such as rigor, objectivity, or reflexive character? Could we be approaching the end of traditional journalism? These are only three of the questions we seek to problematize throughout this document. Starting from a theoretical basis to a practical analysis, this report intends, above all, to be a reflection on the progressive decentralization of radio journalism, as well as on its possible advantages and consequences for TSF journalists. Keywords news agency; Lusa; TSFRádio Notícias; journalism; information
A (in)dependência da TSF Rádio Notícias relativamente à agência Lusa vii Sumário Introdução .................................................................................................................................... 1 Agência Lusa: uma fonte privilegiada no jornalismo? ............................................................... 1 1 .................................................................................................................................................... 3 Uma análise crítica sobre o estágio na TSF-Rádio Notícias ................................................................... 3 1.1 Estagiar na rádio e na TSF…. Porquê?............................................................................. 3 1.2 Breve história da TSF-Rádio Notícias ............................................................................... 4 1.3 Da sala de aula para a redação ........................................................................................ 6 1.4 O estágio na TSF: As histórias e as aprendizagens que se prolongam no tempo ......... 8 1.4.1 Escrever para o ouvido ..................................................................................................... 8 1.4.2 A construção de notícia para rádio .................................................................................... 9 1.4.3 A importância do som .................................................................................................... 10 1.4.4 Aprender a falar em rádio ............................................................................................... 12 1.4.5 A saída para o campo .................................................................................................... 14 1.5 Tudo o que é bom, acaba depressa ................................................................................ 16 2 .................................................................................................................................................. 19 Reflexões sobre um jornalismo feito à base da secretária ................................................................... 19 2.1 O conceito de agência de notícias .................................................................................. 20 2.2 O surgimento pelo mundo ............................................................................................... 21 2.2.1 A chegada das agências noticiosas a Portugal: Do silenciamento à conquista da liberdade .. 22 2.2.2 A agência Lusa de Informação: De Lisboa para o online .................................................... 25 2.2.3 O papel e o poder da Lusa em Portugal ........................................................................... 28 2.3 A influência das agências de notícias na era da informação instantânea ................... 30 2.4 Os dois lados do uso das agências noticiosas ............................................................... 33 2.5 O jornalismo sentado: Uma nova forma de informar através da secretária ................ 37 2.6 O fim do jornalismo tradicional? ..................................................................................... 41 3 .................................................................................................................................................. 43 Os efeitos da Lusa na produção informativa da TSF ........................................................................... 43 3.1 Objetivos ........................................................................................................................... 43 3.2 Metodologia ..................................................................................................................... 44 3.3 As duas faces da aplicação da entrevista ...................................................................... 47 3.4 A análise dos dados ......................................................................................................... 48 3.4.1 A transformação da notícia de agência para a TSF: um processo linear? ............................ 48
viii 3.4.2 A utilização da agência Lusa: vantagens e desvantagens ................................................... 50 3.4.3 A (in) dependência da TSF na escolha dos conteúdos editoriais ......................................... 53 3.4.4 A criatividade dos sons ambiente: uma realidade ameaçada? ............................................ 54 3.4.5 A rádio sem as agências de notícias ................................................................................ 55 3.5 Considerações gerais ...................................................................................................... 56 4 .................................................................................................................................................. 59 Conclusões finais do estágio na TSF ................................................................................................ 59 4.1 O estágio na TSF: um culminar de aprendizagens ........................................................ 59 Referências bibligráficas .................................................................................................................. 62 Anexos .......................................................................................................................................... 67 Anexo I – Exemplos de breves ou notícias produzidas durante o estágio .......................... 67 Anexo II – Exemplos de notícias com RM produzidas durante o estágio ........................... 68 Anexo III – Exemplo de reportagem produzida durante o estágio ...................................... 70 Anexo IV – Guião da entrevista aplicada aos jornalistas da TSF ........................................ 71 Anexo V – Consentimento informado .................................................................................... 73 Anexo VI – Entrevistas aos jornalistas da TSF transcritas .................................................. 78 Este relatório foi redigido em conformidade com o estilo APA, 7ª edição.
A (in)dependência da TSF Rádio Notícias relativamente à agência Lusa 7 p. 293); um produtor, que apoia de forma direta o editor, e os repórteres. Durante o estágio acabei por integrar a equipa da Manhã 2 com um horário das 9h00 às 15h30. O primeiro dia serviu sobretudo para conhecer os cantos à “casa”, que iria integrar durante três meses, bem como a equipa envolvida (tanto os jornalistas como os sonoplastas). No fundo, foi um dia de observação. Um dos aspetos amplamente destacados foi a necessidade de pautar todas as minhas ações com proatividade e espírito de iniciativa, mas também o caos organizado, sempre com interajuda, vivenciado na redação. Isto tendo em conta que a TSF se pauta pela constante atualização da informação de hora em hora ou de meia em meia hora. Nesse dia tive também já a oportunidade de integrar a reunião prévia que marca o início de cada turno de informação. Normalmente, no caso da equipa da Manhã 2, essa reunião é feita pelo editor, por volta das 9h00, e serve sobretudo para perceber quais são os temas do dia, os conteúdos que vão para o ar 3 , o que é notícia, as peças que vão transitar de um turno para o seguinte e as funções por que cada jornalista ficará responsável durante esse período. Ao mesmo tempo, este é ainda um espaço de partilha de sugestões e de discussão em que, acima de tudo, se discutem os valores-notícia da TSF. Sobre esse momento foi-me ainda explicado, de uma forma breve, que as minhas funções passariam por dar apoio à equipa na produção de breves e de notícias 4 e ainda pela realização de trabalho exterior, através de entrevistas ou reportagens. No entanto, sempre com uma particularidade: o trabalho de um estagiário nunca vai parar ao ar, já que se depreende que este é o “momento ideal” para o aprendiz errar e aprender. Ainda assim, um dos aspetos que me marcou de uma forma particular, nesse dia, foi o facto de ter tido a oportunidade de entrar num estúdio de gravação e de assistir a um noticiário em direto. Foi nesse momento que me apercebi, ainda mais, da magia, da simplicidade e, acima de tudo, da responsabilidade que era “ligar o microfone” e informar os ouvintes com a atualidade. Afinal de contas, e tendo em conta a opinião do autor brasileiro Eduardo Meditsch (2001), a rádio ainda continua a ser encarada como um “patinho feio” para aqueles que a desconhecem. É um meio invisível em plena era da imagem; um meio aparentado com a oralidade numa cultura onde o que vale é o escrito; um meio absolutamente fugaz numa civilização que prestigia a posteridade; e sobretudo um meio descentralizado, na contramão de um sistema económico e político baseado na acumulação. 5 3 Que vão para antena. 4 Notícias curtas. 5 Ver: https://www.observatoriodaimprensa.com.br/primeiras-edicoes/a-nova-era-do-rdio/
8 Este é apenas um dia de três meses de aprendizagens, erros, medos, histórias, mas também de descobertas. É sobre estes aspetos que vamos refletir no seguinte ponto. 1.4 O estágio na TSF: As histórias e as aprendizagens que se prolongam no tempo 1.4.1 Escrever para o ouvido Uma das primeiras indicações que me foram transmitidas, perentoriamente, foi a de que não é possível redigir uma notícia sem pensar na possibilidade de o ouvinte a poder ouvir já a partir de metade da mesma. Por esta razão, a escrita radiofónica deve ser a mais simples e clara possível, de forma que o ouvinte não fique com dúvidas. Isto porque a rádio é um meio “volúvel, etéreo e sensorial” (Meneses, 2003, p. 26) que depende apenas de um sentido, a audição. Por outras palavras, quando escrevemos e quando falamos em rádio temos de ter em mente que há cuidados a ter em conta, nomeadamente, através de uma escrita pensada para a oralidade. Nesta linha de raciocínio, e inspirada por Ana Cabello (1995), a linguagem radiofónica deve procurar criar, constantemente, imagens mentais para quem a escuta. Assim, e tendo em consideração o livro La radio por dentro y por fuera , de Jimmy Camargo (1980), durante a redação devemos procurar utilizar uma linguagem que seja comum a todos. Em resumo, que tanto seja percetível a uma criança como a um adulto, em que não seja necessário recorrer ao uso do dicionário para interpretá-la e que, simultaneamente, desperte o interesse do ouvinte. Esta era uma das preocupações determinantes na fase de aprendizagem. Tal como referi acima, ao longo do estágio, um dos trabalhos em que fui colocada à prova, ao longo do primeiro mês, recaía, precisamente, sobre a escrita de breves ou notícias sobre diversas temáticas como economia, cultura, desporto, etc. Para a sua redação contava com o apoio da agência Lusa e da Reuters, as agências de notícias utilizadas pela TSF, através do software Dalet Team News (Anexo I). O empreendimento da sua escrita tinha por base pelo menos cinco aspetos: simplicidade e clareza, através da escolha das palavras certas, afirmação direta e com o mínimo de orações; rigor, através da precisão e da dispensa de adjetivos que distorçam a mensagem; concisão, tendo em conta que a gestão do tempo é um dos grandes desafios de quem trabalha em rádio, sobretudo na informação,
A (in)dependência da TSF Rádio Notícias relativamente à agência Lusa 9 “muito por culpa daquilo que está convencionada ser a diminuta capacidade de retenção da atenção do ouvinte 6 ” (Meneses, 2003, p. 36) e, por fim, variedade, de forma a evitar a repetição de palavras. Inspirado em Rosemary Hortsmann (1991), João Paulo Menezes (2003) recorda-nos a importância de cumprir com estes requisitos. (…) O ouvinte é praticamente cego. A mensagem do ouvinte chega-lhe apenas através de um sentido, a audição. Não se quer dizer com isto que os contributos para uma experiência completa, proporcionada pelos quatro sentidos, devam ser ignorados. Pelo contrário, o redator deve incorporar com argúcia esses contributos para o seu trabalho. A escolha das palavras certas vai permitir ao ouvinte ver, tocar, cheirar e até provarimaginando. É esta a capacidade de estimular a imaginação que faz a diferença na arte de escrever para rádio. (Hortsmann, 1991, citado em Meneses, p. 47) No fundo, escrever para rádio é estar numa luta incessante diária baseada em duas perguntas estruturais: “eu diria isto no meu dia-a-dia?” ou “falaria assim com alguém?”. Claro que esta não era uma realidade desconhecida por mim dado que tanto na licenciatura em Ciências da Comunicação, como nas unidades curriculares de Jornalismo no segundo ciclo, nos diferentes ateliers de rádio, desde cedo, nos foi transmitida a necessidade de síntese, concisão e de uma linguagem o mais clara possível. Aliás, costuma-se dizer que menos é mais na rádio. Por essa razão, a escrita radiofónica não foi propriamente uma descoberta, mas antes uma forma de pôr em prática o já apreendido. Cito a este propósito uma frase do jornalista da TSF Fernando Alves 7 - “se a palavra perde brilho, estamos a matar aquilo que nos levou à rádio” -, já que o brilho representa a “liberdade que o jornalista tem sempre de sentir, para escolher aquilo que de melhor vai servir a comunicação com o ouvinte” (Meneses, 2003, p. 45). 1.4.2 A construção de notícia para rádio Se até agora falávamos acerca da importância de escrever de uma forma clara e simples para a rádio, torna-se agora pertinente perceber o processo de construção da mesma. Foi esse o seguinte desafio proposto pela rádio TSF para o estágio curricular. Para tal, em primeiro lugar, devemos ter em mente que, atualmente, existem quatro elementos que constituem o texto de uma peça 8 radiofónica, nomeadamente, o lead , o corpo, os lançamentos dos sons e o último parágrafo ou rodapé. 6 Para reter a atenção do ouvinte, o jornalista de rádio deve seguir duas prioridades: ter em atenção o tempo de abordagem de cada assunto. Um minuto é uma boa referência para peça de rádio. 8 Texto mais som
10 Se, num momento anterior, referia a necessidade de, desde o início, prender a atenção dos ouvintes, torna-se agora fulcral introduzir um novo conceito a esta reflexão. O de “pirâmide invertida”, ou seja, o texto [em rádio] deve ser construído a partir da premissa de que a informação mais importante deve surgir sempre em primeiro lugar e a menos relevante numa etapa seguinte. Um aspeto de grande curiosidade prende-se com o facto de a informação fundamental dever ter como ponto de partida o editor e não a peça do repórter. De acordo com João Paulo Menezes (2003, p. 49), isto acontece porque “suporta mais dados em menos tempo”, “permite à rádio bater-se na luta concorrencial com os canais de informação da internet pelo mais rápido de noticiar”, “enquadra a necessidade de noticiar um facto sobre o qual não se conhecem ainda todos os detalhes” e “respeita a urgência do relato oral”. Precisamente, e inspirada pelo artigo “Construção do Texto Radiofónico: O Estilo Oral-Auditivo” (Cabello, 1985), a elaboração de uma notícia para rádio requer o uso de um estilo “oral-auditivo”, conseguido através de caraterísticas como os sons ambientes, o tempo, a voz, a linguagem, a dinâmica, entre outros. Uma das ideias base que me foi sempre transmitida, durante o processo de estágio, foi a de que os elementos que compõem a notícia devem funcionar como um todo e nunca individualmente, pelo que a repetição de ideias não é de todo desejável e a peça deve ser construída como se estivéssemos a contar uma “história” a alguém. Em síntese, é como Chantler e Harris (1998) sustentam: a rádio não deve procurar cometer o erro de contar toda a história na primeira linha, já que se pressupõe que este meio é simples, direto e curto. Assim, ao longo da notícia, o ouvinte deve ser conduzido através do correto encadeamento dos parágrafos. Reitero, mais uma vez, que esta vertente não se evidenciou como uma descoberta, mas antes uma consolidação do que já tinha sido aprendido durante as diferentes aulas de jornalismo, tanto em imprensa escrita como em rádio. No entanto, com a exceção de que em rádio a síntese e a simplicidade na escrita são as palavras de ordem e valem ouro. 1.4.3 A importância do som “Na rádio tudo é som” (Meneses, 2003, p. 82). Aqui, quando falamos de som referimo-nos à informação que é produzida por quem trabalha na rádio. Neste caso, estamos a falar dos jornalistas, dos animadores e dos operadores-sonorizadores.
A (in)dependência da TSF Rádio Notícias relativamente à agência Lusa 11 No ponto anterior recordava a importância de saber compor uma peça para rádio, no que toca à escrita. Porém, como já fui dando a conhecer, a rádio é muito mais do que apetência escrita. A rádio é aquilo que chega até nós através da escuta, e nada substitui a credibilidade da mensagem transmitida. Neste espaço, o som assume esse papel preponderante. Assim como descrevi acima existem quatro elementos que, atualmente, compõem uma peça de rádio: o lead, o corpo, os lançamentos dos sons e o último parágrafo ou rodapé. Os lançamentos dos sons ou RM 9 nada mais são do que os depoimentos gravados, pelos jornalistas, para informar, credibilizar e introduzir ritmo e emotividade à peça. Em suma, o som assume a responsabilidade de responder a pelo menos duas das perguntas que se pretende ouvir ao longo de uma peça: a do “como?” e a do “porquê?”. Tendo ainda como orientação o Manual de Reportagem do REC (Bonixe, Reis & Coelho, 2021), nos dias de hoje, o som é ainda responsável por estabelecer relações, por desvendar o espaço, por criar imagens e por atribuir dimensão a lugares vazios. É costume ouvir-se no dia a dia na TSF expressões como “o que é que diz esse som?”, “cortar um som” ou mesmo “lançar um som”, já que a edição deste elemento é outra das marcas distintivas desta rádio. Desde o início do estágio que me foi dito que a tarefa de edição nunca seria exclusiva do jornalista, nem do estagiário, mas sim um trabalho conjunto entre o profissional de informação e o operador-sonorizador. Ressalve-se que a TSF norteia a sua ação pela regra de que uma “rádio com as caraterísticas de informação em regime de intensidade não pode dispensar o trabalho dos operadoressonorizadores” (Meneses, 2003, p. 300). Assim sendo, nesta terceira etapa de aprendizagem, durante várias semanas, o orientador ia-me atribuindo diferentes sons gravados, em estúdio, por outros jornalistas, sobre diferentes temas da atualidade. Posteriormente, tinha como tarefas a construção de peças a partir desses RM, bem como a anotação do tempo de recorte dos mesmos (Anexo II). Todavia, é nesta fase da escolha dos sons certos, e do recorte, que está a maior dificuldade. Tal como se recorda no livro de estilo da RTP, “as declarações curtas são aquelas que mais prendem a atenção dos telespectadores. Quanto maior for uma declaração, mais facilmente o telespectador se desconcentra e distrai”. 9 “Registos Magnéticos” – gíria jornalística, para referir os sons de declarações gravados que são emitidos em peças informativas ou durante os noticiários.
12 Na redação da TSF aceita-se que o tempo ideal de um som deva permanecer entre os 30 e os 45 segundos e que a partir de um minuto comece a ser excessivo, isto tendo em conta a capacidade de retenção do ouvinte. O produto final 10 deverá ter entre um minuto e um minuto e meio, no máximo. Concluída esta “gestão” restava-me imprimir o texto da peça e dirigir-me aos estúdios do sonorizador para proceder ao recorte final dos sons, à sua gravação e à montagem definitiva da notícia. Tal como já fui referindo ao longo dos outros tópicos, mais uma vez, esta importância do som não me era desconhecida já que ao longo do curso esta vertente foi sendo sempre explorada. Porém, tornou-se novidade a partir do momento em que existiam profissionais responsáveis pela sua edição. Desde o início do ciclo de estudos, até pela crescente precariedade que se vive na área, que nos foi transmitida a ideia de que, mais do que nunca, este é o tempo em que um jornalista deve estar preparado para assumir qualquer trabalho jornalístico: fotografia, vídeo ou som. A edição sonora não é exceção. O facto de me ter cruzado, na TSF, com profissionais especializados do ramo, fez com que eu acreditasse que ainda existem pessoas que podem exercer as funções que a área exige, nomeadamente, na mais-valia de um operador-sonorizador. Ainda na esteira do vantajoso, não poderia deixar de mencionar a bagagem de aprendizagem extra no âmbito da edição que o trabalho em conjunto com estes técnicos me ofereceu. 1.4.4 Aprender a falar em rádio Dialogar é-nos apresentado como uma tarefa simples no nosso dia a dia. Ainda assim, quando circunscrevemos a linguagem à rádio, é possível intuir que este recurso é bem mais complexo do que possa parecer. Neste caso, optei por denominar este ponto de aprendizagem de como “falar em rádio”, mas a verdade é que até poderia ter como título “a leitura em rádio”. Isto porque são mais as vezes em que lemos do que aquelas em que verdadeiramente falamos, à base do improviso, na rádio. Dito isto devemos agora fazer sobressair que dentro do meio sonoro existem dois registos: o lido e o falado. O segundo é o desejável, o primeiro o praticado. Foi com base nesta ideia que decorreu a quarta etapa do estágio na TSF. Aprendida a parte da escrita e do som, dar-se-ia como notória a ausência da menção da oratória na rádio, o mais conhecido como, prosear. Como mencionava antes, à medida em que ia escrevendo as diferentes peças e fazendo o recorte dos sons, dirigia-me aos estúdios, para 10 Peça final de rádio
A (in)dependência da TSF Rádio Notícias relativamente à agência Lusa 13 que me fosse dado auxílio, por parte de um técnico de som, com a finalidade de gravação e montagem do mesmo. Ao longo desta fase tive a oportunidade de aprender técnicas de como disfarçar a leitura, de refletir acerca da forma como a escrita influencia o jeito de falar, a postura que devemos assumir no momento no qual estamos a falar para um microfone, nomeadamente, de segurança para oferecermos credibilidade ao ouvinte, a importância de uma boa dicção, entoação, respiração e ritmo, e claro a questão da pronúncia. Como sabemos, a prolação continua a ser um dos temas mais sensíveis e polémicos ao longo dos tempos. Sendo eu natural do Norte de Portugal, com queda para confundir os “vês” pelos “bês”, desde logo, me foi dito que a questão do sotaque não seria uma das prioridades da TSF. Apesar de a rádio assumir, nos dias de hoje, uma cobertura a nível nacional, paira a ideia de que o sotaque das diferentes regiões do país apresenta-se como um elemento distintivo da cultura portuguesa, sendo apenas a má dicção ou o mau português de rejeitar. Em resumo, pode dizer-se que só em situações de procura do português correto se deve, de facto, alterar a maneira de falar. Na TSF tanto o lisboês como o transmontano têm a mesma validade desde que se respeite as regras do português e da dicção. No entanto, tal como João Paulo Menezes (2003) alerta, há cada vez uma maior tendência para se padronizar a pronúncia: É perfeitamente normal que quem trabalha em rádio e na televisão se preocupe com a forma de falar. O que já não é normal é que apenas os jornalistas/animadores fora de Lisboa (ou será “L´sboa?” Como “coâlho” em vez de “coelho” ou “joâlho” para “joelho”) sintam a necessidade de controlar o sotaque … (Menezes, 2003, p. 118) Todas estas reflexões, atinentes à forma de falar em rádio, não eram, novamente, descobertas absolutamente surpreendentes, dado que ao longo do trajeto académico esta vertente foi sendo, constantemente, explorada. A título de exemplo, na cadeira prática de jornalismo radiofónico sempre nos foi incutida, nesta parte da gravação, a necessidade de se falar de uma forma correta e articulada de forma a não causar ruído 11 no ouvinte. Ainda assim, um dos aspetos que me tocou, de uma forma particular, foi o facto de ver que a rádio continua a dar valor aos diferentes sotaques que há pelo país e a não apostar na padronização. Afinal, ainda são estas as particularidades que nos definem. O sotaque faz parte da nossa história. O sotaque conta a nossa história. 11 Tudo aquilo que pode fazer com que o ouvinte interrompa a escuta da rádio.
14 1.4.5 A saída para o campo Se até agora refletíamos acerca de um trabalho, maioritariamente, construído à base da redação e da secretária, na última etapa do estágio tive a oportunidade de acompanhar a equipa da TSF na saída para o campo. Neste cenário, tanto em reportagens como em diretos. No caso da reportagem, o desafio passava em, posteriormente, com o material recolhido pelos jornalistas, construir a minha própria peça sonora. Ou seja, nesta etapa, o trabalho do estagiário era essencialmente de observação. Apesar de nos dias de hoje, as saídas para o exterior, se realizarem com menor frequência, é comum ainda se ouvir pela redação, tanto pelos jornalistas como pelos estagiários profissionais, expressões como “sair em reportagem” ou “fazer uma reportagem”. Mas afinal o que é isto de sair em reportagem? É tudo aquilo que não pode ser feito em estúdio, “fazendo justiça à etimologia da palavra em latim que significa transportar, levar… aos ouvintes as informações apuradas pelo repórter” (Meneses, 2003, p. 189). Uma reportagem tanto pode recair sobre uma conferência de imprensa como um trabalho de um enviado especial no estrangeiro. Nesta linha de pensamento e partindo do livro Manual de Reportagem (Bonixe, Reis & Coelho, 2021), torna-se ainda fulcral referir que a reportagem radiofónica só existe no caso de haver captação de sons ambiente. Assim, atinge o seu ideal quando “o fio afetivo da narração consegue reproduzir a atmosfera sonora que transporta quem a escuta para esse lugar do acontecimento” (Oliveira, Santos & Kellen, 2021, p.152). Na TSF há uma frase que resume o que está em causa: “vamos ao fim da rua, vamos ao fim do mundo” (Meneses, 2003, p. 190). Em síntese, é ir em vez de telefonar. É estar no local onde acontecem as coisas e não depender de intermediários. Reportando-me novamente, ao estágio curricular, o acompanhamento das reportagens aconteceu em três momentos distintos: nos 90 anos de Germano Silva, na Casa do Infante, no Porto, na visita guiada ao Coliseu do Porto e na abertura do Museu do Vitral (Anexo III). Um aspeto que ficou desde logo claro foi a necessidade de agir de acordo com um espírito imbuído de pré-preparação, antes da ida para o local, nomeadamente, através da pesquisa de informações, e a atenção redobrada na gravação de sons e de sons ambiente. Neste caso, a gravação de áudio, no exterior, era feita através do quantum lite 12 . Ainda assim, um dos aspetos mais desafiantes, mais do que a saída para o exterior, era a chegada à redação com todo o material capturado. Muitas vezes com áudios que ultrapassavam uma hora. 12 Gravador de som exterior.
A (in)dependência da TSF Rádio Notícias relativamente à agência Lusa 15 Como já tive a oportunidade de explicar, a TSF pauta-se pelas peças sonoras, de preferência, curtas e concisas. No género reportagem não é exceção. Independentemente do material que o jornalista reúna, cabe a este profissional fazer a sua devida seleção, recorte e, posteriormente, a escrita do texto. O tempo limite, do produto final, não deve exceder os dois minutos. Nesta linha de pensamento, outra das grandes questões que se impunha na hora da “montagem” final passava pelo seu início. Com o tempo limite reduzido e o longo material reunido, muitas vezes existia a inquietação de como começar a peça. Lembro-me de uma jornalista daquele turno referir que uma boa técnica para contornar essa dúvida passava por pensar sempre o que nos transportou àquele lugar, a fazer aquela reportagem. No que toca ao acompanhamento de diretos, ou seja, o informar do ouvinte no local em que tudo está a acontecer estes realizaram-se em dois momentos distintos: na requalificação da Igreja de Santa Clara e no 116º aniversário da livraria Lello. Ao longo dos diretos, um dos conceitos interiorizados é o de que não pode existir um direto sem um mínimo de planeamento prévio, seja ao nível das questões para os entrevistados, seja ao nível do teste-voz 13 com os técnicos de som da TSF. Como Meneses (2003) recorda, durante um direto tudo pode acontecer, nomeadamente, coisas boas, mas também coisas más: “instrumentalização/manipulação da informação, calúnias/ difamação, alteração de prioridades jornalísticas (aquilo que no jargão chamamos de “palha”), incapacidade, muitas vezes, de ouvir a outra parte”. Outra observação importante de referenciar passa pela importância das sensações visuais, para contextualizar o ouvinte do espaço onde nos encontramos, e pela capacidade de síntese. Tal como já fui mencionando, a questão do tempo prolonga-se em qualquer um dos formatos em rádio. Neste caso, um direto na TSF não deve exceder os cinco minutos. Aliás, ainda sobre esta questão temporal, recordo-me que, de forma a auxiliar o jornalista, era-me pedido que controlasse o tempo e que o avisasse antes do minuto final. Assim, restariam ainda alguns segundos para “fechar” o direto com as últimas considerações. Ainda que estes formatos sejam familiares, pela bagagem de ensinamentos dados pela universidade, não existe qualquer dúvida de que um dos aspetos que se tornou mais desafiante, ao longo da presente etapa, foi a questão do tempo aliado a prazos. Apesar de ao longo do curso em Ciências da Comunicação nos ter sido solicitado, frequentemente, para desenvolvermos reportagens ou diretos, em contexto de aula, a verdade é que os docentes acabavam por ser mais flexíveis em termos de datas de entregas. Por exemplo, na maioria das vezes tínhamos um mês para as desenvolver. Na TSF isso nunca 13 Teste prévio antes da emissão em direto.
16 poderia acontecer até porque a rádio precisa constantemente de conteúdos para a enriquecer. Ainda mais uma rádio feita à base da informação. Uma reportagem na TSF significa sair da redação às 10h00 e às 12h00 ter a peça pronta para o ar. Ainda que nunca me tenha sido exigido por parte do orientador ou por parte de outro jornalista da TSF a apresentação da reportagem final, num período de tempo específico, por ser uma estagiária curricular, sempre senti a necessidade de me instigar e de comprovar a mim própria que também era capaz. Antes que não seja para ter uma perceção completa do que é trabalhar em rádio e do que é ser uma jornalista na TSF. 1.5 Tudo o que é bom, acaba depressa Mais do que um estágio curricular, a oportunidade de integrar a rádio TSF representou uma das formas de pôr em prática o conhecimento a que tive acesso ao longo dos cinco anos de formação em Ciências da Comunicação. Simultaneamente, esta experiência permitiu-me verificar e confirmar uma das minhas maiores convicções: a vontade de ser jornalista de rádio e de fazer rádio. Ao longo de 13 semanas, tive a oportunidade de acompanhar e trabalhar com uma equipa de profissionais, de participar e dar sugestões de conteúdos nas reuniões diárias, mas, mais que isso, de partilhar histórias e memórias com aqueles jornalistas que via, anteriormente, como referências. Um dos aspetos que ficou, desde logo, em evidência é o espírito de interajuda que paira pela redação. Durante aquele turno, mais do que um conjunto de pessoas individuais encontramos uma equipa, sempre disposta a ajudar e a ouvir o outro. Além disso, uma das ideias que me foi, desde o início, transmitida é a que não devemos ter medo de perguntar e que na rádio não existem perguntas parvas, mas sim uma partilha de opiniões. Outra das particularidades prende-se com o facto de a TSF, atualmente, não fazer uma distinção direta “nem no tratamento”, nem nas tarefas, entre um jornalista e um estagiário. Confesso que, ao início, este era um dos meus maiores receios até pela responsabilidade que a TSF representa a nível nacional no que toca à área da informação. Lembro-me que foram várias as pessoas que me alertaram para o facto de não me poder vir a ser dada a atenção devida, já que ainda existe um preconceito de que as principais empresas, incluindo, os órgãos de comunicação social, em Portugal, tendem a desvalorizar o estagiário e a colocá-lo em tarefas diminutas ou extintas. Claramente, no meu caso, esta ideia foi completamente desconstruída.
A (in)dependência da TSF Rádio Notícias relativamente à agência Lusa 23 oportunidade para fazer chegar informação junto das colónias portuguesas em África” (Afonso, 2014. p.18). A missão contraditória desta agência está também saliente no primeiro “Livro de Estilo” elaborado por Lupi, citado por Silva (2002). Logo nos primeiros dois pontos é referido: “1. A Lusitânia não quer, nem pode, fornecer aos seus subscritores senão um serviço noticioso que seja, absolutamente, objetivo, factual e livre de desmentidos; 2. devem ser evitadas notícias que possam merecer controvérsia, provocar confusão no espírito dos leitores” (Silva, 2002, p. 10). Ora, se ao início se evidencia uma preocupação pela objetividade, rapidamente, esse foco deixa de fazer sentido com a exclusão de certas notícias. Outro exemplo ilustrativo da propaganda que se vivia é que passado pouco tempo de a agência ter iniciado funções, o administrador-delegado foi chamado ao gabinete de Marcello Caetano, ministro das comunicações interino, por haver uma série de notícias que o mesmo não aprovava. Já para não dizer que a garantia da sobrevivência da Agência Lusitânia estava em boa parte associada ao Governo. Ao nível dos equipamentos de edição e transmissão, em comparação às agências internacionais, a Lusitânia ainda trabalhava de forma primitiva. Três anos se passaram, quando em 1947, o redator-chefe do Diário de Notícias , Dutra Faria, juntamente com Barradas de Oliveira e Marques Gastão decidem fundar a Agência de Notícias e Informação (ANI). Na opinião de Carlos Veiga Pereira e José Júlio Gonçalves (1963), mencionados por Silva (2002), a agência ANI seria a primeira agência portuguesa na qual seria legítimo aplicar a nomenclatura de agência noticiosa. Ainda assim, tal como a agência Lusitânia, nasceria com o apoio do Governo. No início da década de 50, a ANI, dispunha de correspondentes “nas províncias portuguesas no Ultramar, nas ilhas da Madeira e dos Açores e no estrangeiro, produzia uma média de 2300 palavras/dia e tinha um orçamento anual que rondava os quatro mil contos” (Silva, 2002, p. 13). Por sua vez, a concorrente direta [Lusitânia] transmitia em média 4.000 palavras, “possuía correspondentes na maioria das grandes cidades das colónias do Ultramar, nas ilhas da Madeira e dos Açores e no estrangeiro, e tinha contratos com diversas agências de notícias internacionais” (Silva, 2002, p. 14). Desde logo, uma das grandes diferenças entre ambas é que a Lusitânia partilhava interesses com o regime, ao passo que a ANI assumia com o governo uma posição menos comprometedora e meramente contratual. Consequência disso, e obrigada a enfrentar uma situação de concorrência direta, a Lusitânia acabou por perder poder e prestígio em relação à ANI. A Lusitânia acabou por ser extinta em 18 de novembro de 1974.
24 Quanto à agência ANI acabaria por não ter um desfecho diferente da sua concorrente. Com a revolução do 25 de abril e, consequentemente, com o fim do regime da ditadura, a instauração desta nova democracia exigia um fim com o passado e a eliminação das agências pautadas pelo antigo regime. A agência ANI cessou atividade em setembro de 1975. A solução encontrada pelo Governo do pós-25 de abril para resolver a questão das agências noticiosas culminou na criação de uma nova agência: a Agência Noticiosa Portuguesa (ANOP). De acordo com Silva (2002), tendo em conta os seus estatutos, a nova agência terá como objetivo: A prestação do serviço de informação noticiosa através da recolha, tratamento e difusão do material informativo, nomeadamente de notícias e imagens para utilização na imprensa e em outros meios de comunicação social nacionais ou estrangeiros (...)”, devendo exercer a sua atividade com rigor e objetividade, por forma a garantir uma informação digna de confiança à escala nacional e internacional, [salvaguardando] a sua independência, nomeadamente perante o Governo e a Administração Pública, e a possibilitar a expressão e o confronto das diversas correntes de opinião, atuando como instrumento ao serviço do interesse coletivo e da democracia. (Silva, 2002, p. 18) Três anos após a sua criação, a ANOP já tratava cerca de 300 mil palavras/dia e difundia, aproximadamente, 70 mil para os clientes nacionais e estrangeiros e para duas comunidades de emigrantes portugueses, “1500 para as missões diplomáticas do Governo Português, 4000 para Macau, e 2500 para jornais, rádio e televisão em língua portuguesa instalados, principalmente, no continente americano” (Silva, 2002, p. 19). Contudo, em 1980, a ANOP começa a demonstrar alguns sinais de instabilidade financeira e, simultaneamente, uma certa impotência para confirmar a sua expansão. Nessa época, existiam ainda rumores sobre a extinção daquela agência noticiosa e sobre a criação de uma nova cooperativa composta por empresas públicas e privadas do setor da comunicação social. O expectável acabou a confirmar-se em 1982 com a extinção da Agência Noticiosa Portuguesa e com o surgimento de uma nova agência privada, de base cooperativista, a Porpress. Entre as vinte e uma empresas de comunicação social e de telecomunicações, que assinaram o contrato, estava a Radiodifusão Portuguesa, a Radiotelevisão Portuguesa, a Empresa Pública dos Jornais Notícias e Capital (EPNC), a Empresa do Diário Popular, o Jornal de Notícias , o Comércio do Porto , o Correio da Manhã , o Primeiro de Janeiro e o Diário de Lisboa .
A (in)dependência da TSF Rádio Notícias relativamente à agência Lusa 25 A Porpress acabaria por ser a responsável pela difusão de informação a nível nacional e internacional tanto em Portugal como no Mundo. Simultaneamente, incumbir-se-ia, igualmente, a cumprir a isenção de opiniões a nível político, económico ou ideológico. Ainda assim, como refere Moreira (2011), o futuro da ANOP ainda estava em aberto e especulava-se que “as duas agências pudessem coexistir, ou então, unirem-se em uma só, de maneira a evitar controvérsia pela extinção da empresa”. Nesse sentido, a 11 de agosto do mesmo ano os órgãos de comunicação social que formaram a Porpress juntam-se em reunião e decidem que o projeto passaria agora a denominar-se de Notícias de Portugal (NP). No entanto, a situação na ANOP continuava a ser de sobrevivência. Em julho de 1983, para fazer frente à instabilidade, surge ainda a iniciativa, por parte do Governo, de fundir as duas agências, porém a NP mostrou-se totalmente contra e, mais uma vez, a situação das duas agências acabaria por ser adiada. Só após três anos, em 1986, é que o governo e as agências chegam a um acordo e decidem extinguir a ANOP e alterar a personalidade jurídica da agência NP. A partir desta decisão seria criada uma única agência de cooperativa de utilidade pública. Segundo Silva (2002), a futura agência deveria possuir “total autonomia económica e financeira”, através de um capital próprio e de receitas, de forma a não depender do Governo. Nisto, teria ainda de agir sem qualquer influência ou pressão de grupos ideológicos, políticos ou económicos. Assim, nascia a Agência Lusa de Informação. Fundada pela Resolução de Conselho de Ministros, a 28 de novembro de 1986, esta deveria ter como principais objetivos a recolha de material noticioso com interesse informativo, o seu respetivo tratamento e a difusão mediante pagamento. Para desempenhar um serviço público de interesse nacional, Silva (2002) chama ainda a atenção para outros fatores que a Lusa deverá ter em consideração. A agência deverá assegurar a cobertura nacional e regional do País, em particular das regiões autónomas, bem como os acontecimentos relacionados com a Comunidade Económica Europeia, com os países de língua oficial portuguesa e outros espaços de relevante interesse para Portugal, nomeadamente os de forte concentração de comunidades portuguesas. (Silva, 2002, p. 38) Com cerca de 240 trabalhadores, às zero horas de 1 de janeiro de 1987, a agência Lusa iniciava o seu serviço noticioso. 2.2.2 A agência Lusa de Informação: De Lisboa para o online
26 O arranque da Lusa não foi pacífico. Como referi, no tópico anterior, aquando do seu surgimento a Lusa possuía cerca de 240 trabalhadores, dos quais 170 jornalistas vinham de agências antecessoras. Por conseguinte, isto implicava por parte dos jornalistas, habituados a concorrer entre si, uma adaptação e uma procura por uma identidade comum. Assim sendo, e como Silva (2002) recorda, nos primeiros tempos, “o casamento” não é fácil, e, frequentemente, o trabalho informativo da Lusa foi posto em causa por parte dos leitores, que “se queixam de sobreposição de notícias, de despachos informativos contraditórios, de a agência ter herdado os erros e os vícios das suas antecessoras”. Este começo “mal-aventurado” da Lusa manteve-se ao longo de todo o ano de 1987. Como forma de solucionar, no início de 1988, a agência decide reestruturar a sua estrutura interna de chefias e é nessa altura que se desencadeia uma melhor época para a Lusa. Mais estável, a nova agência começa a demonstrar sinais de desenvolvimento e de expansão internacional. A 18 de janeiro de 1989 é ainda inaugurada a sua própria sede na zona de Benfica, em Lisboa. Nesta fase inicial, a Lusa possuía delegações no Porto, Coimbra, Faro, Guarda, Évora, Ponta Delgada e Funchal e correspondentes em todos os distritos de Portugal. Em África, a representação da agência era estabelecida através de delegações em Maputo, Luanda, Bissau, Cidade da Praia e uma correspondente em São Tomé e Príncipe. Na África do Norte através de uma delegação na capital marroquina, Rabat , e na Ásia por um Desk Ásia-Pacífico . Já na Europa, a agência era detentora de uma delegação em Bruxelas e de uma rede de correspondentes em todas as capitais. No total, a Lusa dispõe de uma rede de correspondentes nacionais e internacionais que comporta mais de centena e meia de jornalistas que, para além das cidades referidas, se distribuem ainda por cidades como Washington, Rio de Janeiro, São Paulo, Buenos Aires, Joanesburgo, Sidney e Telavive. A estes, somam-se ainda os cerca de cem jornalistas que, diariamente, produzem uma média de oitenta mil palavras a partir da sede da agência. (Silva, 2002, p. 40) No que toca ao serviço informativo prestado pela Lusa, “o mesmo funciona 24 horas por dia, distribui-se por cinco setores – nacional, internacional, economia, comunidades e regiões e desporto – e é difundido para a quase totalidade dos órgãos de comunicação social” (Silva, 2002, p. 41). Como complemento ao serviço noticioso, a agência possuía ainda um centro de documentação e um serviço fotográfico através da agência Reuter e da European Press Agencies. Resultado disto e do estatuto de “única agência noticiosa de âmbito nacional”, em 1988, através das cerca de 400 notícias diárias que difundia, a Lusa era responsável “por cerca de metade do noticiário nacional e de perto de cem das notícias internacionais utilizadas na comunicação social portuguesa”
A (in)dependência da TSF Rádio Notícias relativamente à agência Lusa 27 (Silva, 2002, p. 41). No que toca ao nível internacional, a Lusa estabelecia-se como pilar na informação sobre Portugal, sobre os países africanos de língua oficial portuguesa e sobre as comunidades portuguesas no estrangeiro. Após um ano, a Lusa abandonava a rede de distribuição telegráfica como meio de transmissão e receção de notícias e a era do satélite ganhava lugar na agência. Este avanço permitia uma maior rapidez na difusão do serviço noticioso, uma seleção de notícias conforme o interesse do cliente e uma maior credibilidade na informação. A isto, estabeleciam-se também novos serviços através do telefone e videotexto especificados para o público. É em 1995 que a primeira experiência no ciberespaço acontece pela agência. Na altura, por intermédio da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, durante um mês, a Lusa disponibilizou na internet as notícias produzidas na redação. Para Baptista (1995), num artigo publicado no jornal Semanário , citado por Silva (2002), a principal vantagem deste serviço passava por “informar os emigrantes internautas, já que pode ser acedido de qualquer ponto do mundo onde haja um computador, um modem e uma linha telefónica”. A ligação definitiva ao online chegaria em 1996. Face a isto, a rede passou a disponibilizar um serviço noticioso, gratuito, direcionado para as comunidades estrangeiras e portuguesas, para rádios locais e para a imprensa regional, a um preço inferior ao convencionalmente aplicado. Ainda assim, esta modernização tecnológica e dos serviços provocou um impacto negativo na saúde financeira da agência, em 1997. Como Barrett (2000) explica, “teoricamente, a internet reduz os custos de negócio, contudo, para ser utilizada, necessita de investimento informático para a comunicação”. Financiamento esse que a agência noticiosa não possuía em volume suficiente. Tendo em conta Silva (2002), em apenas “dez anos de funcionamento, a agência Lusa acumulara 850 mil contos de prejuízos, que culminaram numa falência técnica”. Na altura, a solução encontrada para resolver a questão visou o aumento do financiamento, por parte do governo, e, posteriormente, a transformação da cooperativa de interesse público numa sociedade anónima detida, em grande parte, por capitais públicos. A agência Lusa passar-se-ia assim a designar de LUSA – Agência de Notícias de Portugal, S. A. De acordo com o artigo 3º dos seus estatutos, citado por Silva (2002), a agência portuguesa passaria agora a desempenhar as seguintes funções por intermédio de uma informação “factual, isenta, rigorosa e digna de confiança”: A recolha de material noticioso ou de interesse informativo e seu tratamento para difusão; divulgação do material recolhido, mediante remuneração livremente
28 convencionada, para utilização de órgãos de comunicação social nacionais e estrangeiros ou de quaisquer outros utentes individuais ou coletivos, institucionais ou empresariais que o desejem; prestação ao Estado português, ao abrigo de um contrato específico, plurianual, de serviços da sua especialidade que assegurem o cumprimento das obrigações do Estado no âmbito do serviço de interesse público relativo à informação dos cidadãos. (Silva, 2002, p. 43) Hoje, durante as 24 horas do dia, com cerca de 280 jornalistas, a Lusa distribui notícias, em tempo real, “aos seus clientes sobre o que de mais significativo ocorre ou vai ocorrer em Portugal e no Mundo nas áreas de política, sociedade, local, ciência, Macau, e Timor-Leste, desporto, economia, internacional e África” (Silva, 2002, p. 43). Para tal, a agência possui uma rede de delegações e de correspondentes por todos os distritos de Portugal, pelos países africanos de língua oficial portuguesa, Timor e Macau, e por Pequim, Madrid e Bruxelas. A este leque de cidades, com correspondentes, juntam-se ainda Berlim, Londres, Paris, Roma, Moscovo, Washington, Brasília, Joanesburgo, Rabat e Jacarta. Através das vantagens do satélite e da internet, a Lusa utiliza o primeiro para propagar o serviço noticioso até, por exemplo, aos jornais e às rádios nacionais. No que toca ao online, os serviços têm em vista “clientes especiais”, com interesses particulares. Tomemos o exemplo das embaixadas portuguesas, da imprensa regional e dos municípios. Assim, a Lusa atinge o “estatuto de principal produtor de notícias para jornais, rádios e televisões de língua portuguesa, com a valência de maior fornecedor de conteúdos informativos atualizados para a NET portuguesa” (Silva, 2002, p. 44). 2.2.3 O papel e o poder da Lusa em Portugal Segundo Sousa (1997), atualmente, a Lusa “não tem, em Portugal, concorrentes dignos de registo”. Esta realidade pode ser justificada pela informação rápida, factual, isenta e rigorosa que a agência noticiosa produz diariamente e que é, posteriormente, distribuída por “um milhar de clientes permanentes” (Praça, 2013, p. 24). De acordo com o livro de estilo da Lusa (2019) fazem parte desses utilizadores: Os órgãos de comunicação social de expansão nacional, regional e local em Portugal, as agências noticiosas internacionais, os organismos da administração pública, as embaixadas e os consulados portugueses no estrangeiro, as autarquias, as empresas públicas e privadas, os principais órgãos de comunicação social das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, as associações de emigrantes e os média dos
A (in)dependência da TSF Rádio Notícias relativamente à agência Lusa 29 países africanos de língua oficial portuguesa, além de particulares, que necessitam de uma informação rápida e concisa. (Lusa, 2019, p. 4) Consciente da responsabilidade acrescida que representa, nos dias de hoje, há um conjunto de regras a que a Lusa deve procurar obedecer e aplicar, de acordo com o seu livro de estilo. Medidas essas que contribuíram também, de certa forma, para o seu reconhecimento nacional e internacional. Em primeiro lugar, a Lusa deve procurar ser uma referência na escrita para os órgãos de comunicação. Em segundo lugar, deve-se pautar pelos princípios do rigor e da rapidez, sem pôr em causa a precisão e a exatidão. A isto, somam-se as questões da clareza, da imparcialidade, da escrita rigorosa, da isenção de pressão de terceiros, da pluralidade da informação, da qualidade e do trabalho em equipa. Por esta razão, todas as notícias da Lusa deverão traduzir o cumprimento do artigo 1 do Código Deontológico dos Jornalistas Portugueses: “O jornalista deve relatar os factos com rigor e exatidão e interpretá-los com honestidade. Os factos devem ser comprovados, ouvindo as partes com interesses atendíveis no caso. A distinção entre notícia e opinião deve ficar bem clara aos olhos do público” (Lusa, 2019, p. 8). Ademais, todas as fontes e protagonistas citados “devem ser identificados pelos nomes por que são conhecidos, pelos cargos ou funções exercidas, pela profissão, pelo partido a que pertencem, pela nacionalidade (…) e, quando for razão disso, pela idade” (Lusa, 2019, p. 10). A agência compromete-se, igualmente, a não divulgar desmentidos, nem a consentir o plágio. No entanto, há desmentidos que podem constituir notícia. “Por exemplo: se um jornal anuncia a demissão de um político e se este declara ao jornalista da agência que não tem intenções de se demitir, a Lusa deve noticiar” (Lusa, 2019, p. 19). Relativamente à informação proveniente da internet a recolha deve ter em conta “cuidados adicionais”, dada a impossibilidade de controlo total do conteúdo que lá circula. Quando o interesse noticioso se revelar elevado a Lusa pode ainda fazer notícia a partir de informações de outros órgãos de comunicação. Neste caso, a fonte deve estar sempre referenciada no texto. Ainda tendo em conta o “Contrato de prestação de serviço noticioso e informativo de interesse público”, disponibilizado pela mesma agência, responsabiliza-se a “ajustar qualitativamente e quantitativamente os seus serviços e a sua presença no território nacional e no espaço internacional, com particular relevância no espaço lusófono” (Lusa, 2007, p. 1). Além do mais, enquanto serviço público, apresenta a obrigação de redigir notícias sobre acontecimentos que sejam relevantes para Portugal e para os portugueses. Essa distribuição é realizada, num momento seguinte, através de texto, fotografia, áudio e vídeo, nos setores da política, da economia,
30 da cultura, entre outros. Assim, a Lusa “compromete-se a diversificar os seus produtos tendo em conta as novas tecnologias, as exigências dos mercados e as expectativas dos seus diferentes clientes quanto à prestação do serviço público” (Lusa, 2007, p. 3). A agência trata ainda a informação noticiosa, assim como a sua adaptação, segundo critérios da sua responsabilidade, respeitando a Lei de Imprensa. Em termos de organização, como referi anteriormente, a Lusa deve ser encarada como “plataforma de influência” através da cobertura de Portugal Continental e Ilhas, dos países de língua oficial portuguesa e de “parcerias e sinergias com entidades governamentais e não governamentais, agências de notícias internacional e órgãos de comunicação social nacionais e internacionais” (Lusa, 2007, p. 3). O objetivo é atingir um número médio de notícias que respeite os seguintes parâmetros: “Textoentre 400 e 500 notícias/dia; fotografia – entre 100 e 150 fotos/dia; áudio – entre 30 e 40 registos/dia; vídeo – entre 15 e 30 registos/dia” (Lusa, 2007, p. 7). Posteriormente, estas serão adequadas e distribuídas a alguns destinatários. Entre os exemplos estão os jornais portugueses de âmbito regional, com uma média diária de 100 e 150 notícias de texto e entre as 10 e 20 fotografias e as estações de rádio portuguesas locais com uma média diária de 80 e 100 notícias de texto e os 5 e 10 registos áudio. 2.3 A influência das agências de notícias na era da informação instantânea Conceitos como a “objetividade, imparcialidade, apuração, transparência, credibilidade, isenção, busca pela verdade, ouvir todos os lados (fontes), investigar” (Lima, 2010, p. 2), entre outros, são termos que acompanham e sustentam os primórdios do bom jornalismo. Se antes os jornalistas cumpriam parte destes critérios através dos diferentes suportes físicos, como a carta ou o telefone, ou, até mesmo, presencialmente, a maioria destas etapas passou a desenvolver-se por intermédio de um computador. Conectados pela internet, os jornalistas passaram agora a ter acesso gratuito às principais agências de notícias, bem como aos jornais online nacionais e internacionais. “À primeira vista essa facilidade ampliou o olhar sobre os acontecimentos diante da multiplicidade de assuntos disponíveis para seleção” (Bianco, 2004, p. 7). Aliás, para Praça (2013), inspirado em Quintero (1996), a idade de ouro do jornalismo deveuse, em boa medida, à emergência das agências noticiosas, que possibilitaram aos órgãos de comunicação aceder a uma informação cada vez mais pormenorizada e instantânea.
A (in)dependência da TSF Rádio Notícias relativamente à agência Lusa 31 De acordo com Wolf (2006), a informação quotidiana é, nos dias de hoje, maioritariamente uma informação de agência constituída por fontes anónimas, que raramente aparecem devidamente identificadas. Para Gradim (2005), como fonte, as agências são fundamentais para a sobrevivência das redações, já que prestam auxílio na construção de uma agenda diária “rica e equilibrada”. Ainda nesta linha de pensamento, Wolf (2006), inspirado em Golding e Elliot (1979), recorda que os despachos das agências funcionam como um primeiro botão de alarme para as redações. Assim, confirmar a informação é uma tarefa cada vez mais rara, “confundida, muitas vezes, com a comparação de telexes de agências diferentes” (Soares, 2012, p.20). No entanto, com o passar dos anos esta técnica acabou também por cair em desuso. Tendo como exemplo o órgão britânico da BBC, mencionado por Wolf (2006), com base no artigo “Putting 'Reality' Together” de Schlesinger (1978), se anteriormente, neste meio, se entendia que nenhuma informação podia ser confirmada se não tivesse sido referida em despachos de duas agências, agora as notícias são difundidas através de uma fórmula do tipo fontes não confirmadas. Como realça o texto “The quality and independence of British journalism” mais do que nunca, estamos a produzir histórias, já que quase tudo é reciclado de outras fontes. A comprovar está um estudo de Lewis, Williams e Franklin (2008) tendo em conta a análise de 2.207 histórias de quatro jornais do Reino Unido. No final do relatório, os autores chegaram à conclusão de que cerca de 80% dos artigos tinham sido construídos com base nos despachos das relações-públicas e das agências noticiosas. Dos restantes 20% apenas 12% não apresentava qualquer tipo de informação das agências e em 8% a presença das relações-públicas não era clara. Contudo, como recorda Moreira (2011), o papel das agências de notícias ainda é desconhecido para uma grande parte dos consumidores, sendo apenas notória a sua existência quando existe de facto referência às mesmas, como é o caso de: “de acordo com a agência”; “informação avançada pelo correspondente da agência”; ou até mesmo peças assinadas deste modo: “Com Lusa”, “Sol e Lusa”, entre outras” (Praça, 2013, p. 26). A confirmá-lo está também Magalhães (2011) com um testemunho de David Pontes, que enumera vários casos de uma notícia, da autoria da Lusa, avançada por vários jornais, no mesmo dia e assinada por diferentes pessoas. Tendo em conta a opinião de Bianco (2004), a vantagem da utilização da internet deve assim ser encarada com precaução. “Na verdade, tem-se acesso ao conteúdo parcial de jornais online, portais e agências de notícias, portanto, nem sempre é o material jornalístico integral disponível apenas para os assinantes” (Bianco, 2004, p. 7).
32 Com isto, alerta que muitas vezes o material disponível já advém de “segunda ou terceira mão”, já tendo passado, previamente, por critérios prévios de seleção inerentes àquela publicação. Em igual posição está Silva (2002) que acredita que, ao assumirem a tarefa de seleção, recolha, filtragem e de difusão das notícias, acabam por desempenhar um papel de gatekeppers , como “decisores primários”, dos conteúdos que poderão ou não ascender a notícia, e, consequentemente, como “definidores da agenda jornalística”. Ainda assim, como se refere num relatório da Obercom (2020), ao respeitarem os pilares essenciais do jornalismo como a “precisão, objetividade e credibilidade”, as agências acabam por se tornar uma “fonte confiável de notícias”, necessária para o funcionamento das redações e para a sua credibilidade. A este propósito, evocam ainda que “as agências são um referencial de boas-práticas para os restantes autores e, mais do que entregar informação, distribuem know-how , tendo um importante papel na forma como os média lidam com a sobrecarga ( overflow ) de informação” (Obercom, 2020, p. 9). Na base da utilização das agências de notícias estão, segundo Golding e Elliott (1979), as razões económicas. O custo dos correspondentes no estrangeiro é infinitamente mais elevado do que a assinatura numa agência [...]; para os órgãos de informação menos poderosos, as despesas com os correspondentes estrangeiros ultrapassam as suas possibilidades económicas. Para eles, os serviços regionais das agências [...] são a única fonte possível de notícias vindas do estrangeiro. (Golding & Elliot, 1979, citado em Wolf, p. 102) Aliás, já em 1984 que a ideia era, igualmente, sustentada por Haskovec e First, e relembrada agora por Praça (2013). Segundo os autores para um órgão de comunicação cobrir toda a informação a nível mundial deveria possuir recursos financeiros para um “custoso” e “formidável” conjunto de correspondentes e repórteres. Requisitos esses a que poucos, antigamente, e nos dias de hoje, conseguem aceder. Um exemplo dramático desta realidade, recordado por Barrett (2000) é o do Washington Post que, em novembro de 2009 anunciou o encerramento de escritórios em Nova York, Los Angeles e Chicago. Só entre 2002 e 2006 “o número de correspondentes internacionais com base nos Estados Unidos encolheu 25%, de 188 para 141”. Já de acordo com o Obercom (2020), outra das razões da aposta nas agências noticiosas prendese com o acesso imediato a notícias fidedignas e, simultaneamente, com a libertação do tempo e dos recursos para os órgãos de comunicação social produzirem os seus próprios conteúdos. “Assim os jornalistas nas redações dos jornais, rádio e televisão, mas também nos meios online, podem realizar
A (in)dependência da TSF Rádio Notícias relativamente à agência Lusa 39 rebaixando−os ao nível de retocadores de transmissões de agência. (Ramonet, 2002, p. 24) Atualmente, o papel do jornalista sentado resume-se, na maioria das vezes, “a copiar o despacho” e a “colar no banco de dados que alimenta o site” (Pereira, 2004, p. 99), mesmo tendo em conta que as agências são produtoras de um discurso estratégico. Neste sentido, Pereira (2004), com base em Mouillaud (1997), alerta que, na realidade, nesta “cadeia de mediações”, o jornal acaba por ser o último operador. Face a isto, no dia-a-dia, a maior parte das peças jornalísticas acaba a ser redigida sem se verificar qualquer tipo de contacto direto com as fontes a não ser com as assessorias de imprensa ou as agências institucionais. O mesmo pensamento é sublinhado por Rogério Santos (1997) e relembrado por Tulha (2012). Apesar da consciência das vantagens da criação das agências noticiosas, não esconde as consequências nefastas que as mesmas trouxeram para a maioria dos órgãos de comunicação. Entre elas, está a forte dependência pela informação divulgada pelas agências. Ainda assim, para Patino (2001) a simples transformação de informações externas em informação não deixa de ser um trabalho jornalístico. Entre o copidesque da notícia da agência (criação leve) e a reportagem (criação pesada), ser jornalista é também inserir-se num processo de produção que leva à transformação de dados em notícia. Tudo isso num mecanismo de inteligência coletiva organizada. (Patino, 2001, citado por Pereira, p. 104) De entre os motivos da mudança, Pereira (2004) acredita que a internet não foi a única responsável pela introdução do jornalismo sentado, tendo apenas radicalizado esse tipo de produção, ao dar prioridade à publicação de notícias com base em fontes externas. Para Ana Tulha (2012), outro dos fatores são a diminuição do número de jornalistas, dos orçamentos e a facilidade de acesso a fontes de informação. Este processo de afastamento dos papéis tradicionais do jornalismo trouxe também, na opinião de Bastos (2012), a diluição da identidade profissional do jornalista e uma questão lançada pelos próprios e pelas vozes exteriores às redações: “O que fazem no dia-a-dia (alimentação de fluxos contínuos de última hora, adaptação de conteúdos, copy/paste, moderação de comentários, edição multimédia, gestão de redes sociais, etc.) é jornalismo?” (Bastos, 2012, p. 294). Para Adghirni (2004) “o verdadeiro jornalismo é aquele que investiga e denuncia, que aponta os males da sociedade, que cobra justiça”, estando esse profissional em extinção. Neste seguimento,
40 Pereira (2004) adianta também que o jornalismo sentado enfatiza a lógica do “custo-benefício e da dupla conveniência”, ao invés de se pautar por critérios de veracidade e de compromisso público. Perante esta nova realidade profissional, Perez (2000) defende que as competências exigidas ao jornalista também se alteraram e que a formação destes profissionais deve agora começar pela capacidade multimédia. “Todos os meios serão multimeios, a verdadeira especialidade dos futuros profissionais da informação será a capacidade de trabalho em todos eles, selecionando e interpretando informação com a suficiente criatividade para dispor agradavelmente essa informação” (Perez, 2000, p. 5). Millison (2004) acrescenta que os jornalistas online devem começar a aprender algumas ferramentas básicas da web. Entre elas, o pesquisar da informação e o adicionar de elementos multimédia à peça jornalística. Tendo por base o trabalho de Furio Colombo (1998), Aroso (2003) confirma ainda que, mais do que nunca, este é o tempo em que o novo jornalista se deve pautar por princípios morais, aliados a um conhecimento técnico cada vez mais aprofundado. Já como refere Filho (2000), os futuros jornalistas debater-se-ão com uma profissão incerta e imprevisível. A juventude que ingressa na profissão encontra hoje uma situação de dupla perplexidade. De um lado, um campo profissional extremamente mutante, incerto, movediço, tanto do ponto de vista da própria identidade do jornalismo quanto das possibilidades futuras de uma “profissão que não existe”. [...] Acresce-se o fato de ser esse “cemitério de carreiras abortadas” um território onde reina o frenesi da comunicação com o mundo, a instabilidade permanente de quem trata com as notícias, a eterna falta de tempo e, não raro, de competência, o que torna jornalistas frequentemente superficiais e incapazes de um tratamento mais denso das matérias cotidianas. (Filho, 2000, p. 55) É face a esta instabilidade que Bastos (2012) levanta uma reflexão final: Que restará do jornalismo da era pré-internet? Terá passado em definitivo à história? (...) Terá então o jornalismo clássico sido diluído por completo nos paradigmas em construção do ciberjornalismo? Investigar, cultivar fontes próprias, dar notícias em primeira mão, dar voz a grupos sociais, contextualizar, reportar, vigiar os poderes instituídos. (Bastos, 2012, p. 296) No final de contas é como Veríssimo (1999) defende: “Vivemos num tempo maluco em que a informação é tão rápida que exige explicação instantânea e tão superficial que qualquer explicação serve”.
A (in)dependência da TSF Rádio Notícias relativamente à agência Lusa 41 2.6 O fim do jornalismo tradicional? Conforme nos recorda Bastos (2012), o jornalismo vive hoje uma “encruzilhada importante na sua história”, em que “a via da velocidade e da superficialidade (…) conquista terreno todos os dias”. Face a esta realidade, já há quem equacione o fim do jornalista como o conhecemos, pois, como revela Lasica (1997), a internet tem o poder de alterar os pilares do jornalismo. Ainda assim, na opinião de Bastos (2000), o jornalismo terá todas as condições de se reinventar, em vez de, ser, progressivamente, eliminado. Neste sentido, Millison (2004) acredita que, face aos tempos atuais, o jornalista é o único profissional que desempenha o papel de edição e filtragem de informação com qualidade e confiança. Aroso (2003), inspirada em Herbert (2000), acrescenta ainda que a tarefa deste profissional não passa mais por encontrar ou descobrir informação, como no jornalismo tradicional, mas sim por selecionar, na vasta gama informativa, a informação mais pertinente. Sem ditar também a sua possível extinção ou continuação, aparece-nos Pinto e Sousa (1998) que reconhecem que o “jornalista perdeu o monopólio do jogo informativo”, mas reconquistou a função do gatekeeper . Para os autores, o filtrar da informação no online poderá tornar-se uma das tarefas do jornalista no futuro. Bastos (2000) considera ainda que este é o tempo em que as aptidões do jornalista se tornam essenciais, nomeadamente, através da “capacidade de seleção, síntese, hierarquização, enquadramento e mesmo de personalização da notícia” face à “sobre informação” de que a sociedade é alvo diariamente. Pois, tal como refere Zamora (2001), atualmente, o cidadão não dispõe de tempo, nem de formação, para interpretar devidamente a informação. Aroso (2003) vai ao encontro da opinião de Katherine Fulton (2000) e defende que o jornalismo não vai desaparecer, mas sim passar a desempenhar novas funções, entre elas: a reestruturação da informação recolhida, a organização e agregação de arquivos e a facilitação de conversações no online. Nesta linha de pensamento, Moretzsohn (2000) fala de uma “revalorização da mediação”, em que jamais serão retomados os conceitos originais que definem o jornalismo, mas é “inevitável” sublinhar o papel decisivo que este exerce “como prática de mediação discursiva”. Assim sendo, a mesma entende que o ponto de partida passa pela recuperação do papel do jornalista enquanto mediador. Gradim (2005) complementa ainda que todas estas formas de aceder à informação irão naturalmente coexistir, estando longe de ameaçar os jornalistas ou as suas publicações. Para a autora, “um motor de busca ou uma base de dados não podem substituir este serviço inestimável que um jornal presta aos leitores. Podem, e muito bem, complementá-lo” (Gradim, 2005, p.159).
42 Neste seguimento, Perez (2000) compara os meios de comunicação aos restaurantes: “a diferença entre eles não radica na decoração nem sequer no serviço, mas sim nos cozinheiros – há redações que servem a informação crua e há redações que dominam a arte de elaborar a informação”. Assim, para o mesmo autor, a vantagem competitiva estará na capacidade de “refinar informação” a partir de uma fonte que é comum a praticamente todos. Aroso (2003), partindo do ponto de vista de Colombo (1998), deixa também uma analogia à profissão de jornalista em que o profissional de informação se transformará num voluntário “de um patrulhamento ideal”, baseando-se o seu trabalho na denúncia e na identificação da desinformação face à vasta informação disponível. No entanto, resta por descobrir, num futuro próximo, “se o jornalismo e os jornalistas conscientes do seu importante papel social estão interessados em reafirmar os seus valores de sempre, ou vão, por falta de força, vontade ou alternativas, assistir à crescente diluição da sua razão de ser” (Bastos, 2012, p. 297).
A (in)dependência da TSF Rádio Notícias relativamente à agência Lusa 43 3 Os efeitos da Lusa na produção informativa da TSF artindo do pressuposto de que existe uma relação de dependência da TSF relativamente à agência Lusa, e que esta é usada na maioria dos órgãos de comunicação portugueses procura-se, nesta terceira parte, perceber os constrangimentos desta opção no interior da redação e a forma como o acesso à agência de notícias Lusa condiciona a escolha da informação que integra os noticiários. Neste sentido, numa tentativa de apreciação aplicada ao contexto do estágio, nesta etapa do relatório parte-se da seguinte pergunta: Que efeitos tem a dependência da rádio relativamente à agência Lusa na produção informativa? 3.1 Objetivos Sem a pretensão de apresentar uma investigação empírica no verdadeiro sentido do termo, o estudo que se apresenta nesta secção teve por finalidade proporcionar uma melhor compreensão do impacto que o fenómeno referido anteriormente terá nas rotinas de produção jornalística da rádio. Assim, com um olhar empírico sobre as práticas, pretendeu-se: - Compreender de que modo se processa a transformação da notícia de agência para rádio e o tipo de tratamento que lhe é atribuído; P
44 - Investigar se existe ou não referência à fonte durante a elaboração da peça jornalística; - Discutir o risco de uniformização informativa decorrente do uso das agências de notícias; - Percecionar as limitações ou vantagens da dependência da agência Lusa por parte da TSF; - Aferir se existe uma dependência ou uma independência da TSF relativamente às agências; - Observar o impacto da agência Lusa na escolha dos conteúdos editoriais da rádio; - Averiguar em que medida o uso das agências influencia nas atuais dificuldades que o setor enfrenta. Por exemplo, na precarização dos profissionais, no emagrecimento das redações ou no menor trabalho exterior. - Compreender se a criatividade dos sons ambiente está condicionada pelo uso das agências; - Percecionar como seria a rádio se houvesse uma menor utilização ou uma extinção das agências; - Clarificar se as funções dos jornalistas se alteraram, ao longo do tempo, com o uso da Lusa. 3.2 Metodologia Como sugere Coutinho (2011), investigar é uma atividade que pressupõe algo que é investigado, uma intencionalidade de quem investiga e um conjunto de metodologias, métodos e técnicas apropriadas aos objetivos da investigação. Centrando estes princípios relativamente à questão de partida que se pretende levar a cabo, neste relatório, optou-se pela abordagem qualitativa como a estratégia metodológica mais adequada. Apesar das conceções prévias do investigador, toda a investigação procura ir além de intuições e encontrar novo conhecimento e novas perspetivas que possam completar o estudo. Assim é também quando se opta pela pesquisa de tipo qualitativo. No fundo, como se sugere no artigo “Transcrever entrevistas: questões conceptuais, orientações práticas e desafios” (Azevedo et al., 2017), pretende-se conhecer, “em profundidade”, um determinado fenómeno tendo como ponto de referência as perspetivas dos principais envolvidos na problemática. Inspirado em Calil e Arruda (2004), Batista, Matos e Nascimento (2017) referem também que na investigação qualitativa se averigua os “dados descritivos” de uma determinada situação, envolvendo sempre o contacto direto do investigador com a “situação estudada”. Neste caso, os dados recolhidos
A (in)dependência da TSF Rádio Notícias relativamente à agência Lusa 45 serão ricos em pormenores descritivos no que toca a perceções e a opiniões para responder a alguns dos objetivos deste trabalho. Dentro desta metodologia optou-se ainda pela entrevista como técnica de “qualidade” para a coleta de dados. Minayo (2014) defende que esta é a estratégia “mais usada” no trabalho de campo, consistindo, acima de tudo, numa conversa entre dois ou mais interlocutores com o objetivo de se explorar uma determinada abordagem com uma maior profundidade. Júnior e Júnior (2011) reconhecem ainda que a entrevista deve ser utilizada sempre que haja uma necessidade de se obter dados que não possam ser encontrados a não ser por intermédio de pessoas. Ribeiro (2008) carateriza também a entrevista como: A técnica mais pertinente quando o pesquisador quer obter informações a respeito do seu objeto, que permitam conhecer sobre atitudes, sentimentos e valores subjacentes ao comportamento, o que significa que se pode ir além das descrições das ações, incorporando novas fontes para a interpretação dos resultados pelos próprios entrevistadores. (Ribeiro, 2008, p.141) De forma a obter respostas espontâneas e concretas, torna-se ainda essencial sublinhar que, dentro desta técnica, se procurou utilizar a modalidade da entrevista semi-estruturada através de um “roteiro” que foi preparado e utilizado na hora da conversa com base no “contexto externo, cultural e histórico” dos sujeitos. Minayo (2014) refere que este tipo de entrevista se pode posicionar como um apoio “claro” na sequência das questões, já que “facilita a abordagem e assegura, sobretudo aos investigadores menos experientes, que as suas hipóteses ou os seus pressupostos serão cobertos na conversa”. Ribeiro (2008) acrescenta também que nesta modalidade o questionamento é mais “profundo e subjetivo”, levando ambos “a um relacionamento recíproco, muitas vezes, de confiabilidade”. Aliás, a questão da confiabilidade é um dos aspetos mais importantes de se assegurar durante a entrevista de forma a garantir a validação dos dados. Assim, e tendo em conta que a questão de partida decorreu da experiência do estágio curricular na TSF, optou-se por dirigir a investigação, unicamente, aos cinco jornalistas e estagiários profissionais, do turno da Manhã 2, da redação do Porto, uma vez que foram os principais envolvidos do tema em investigação. Ao longo da conversa, o objetivo passava por colher destes profissionais o maior esclarecimento e comprovação possível de algumas das perguntas e respostas que me foram interpelando ao longo da
46 experiência de estágio, nomeadamente, no que toca aos efeitos negativos e positivos da utilização da agência Lusa por parte da rádio. Neste caso, as entrevistas foram realizadas online, por questões de agenda, através da plataforma Zoom, de forma a não se perder, totalmente, a interatividade entre o entrevistador e o entrevistado, bem como alguns aspetos corporais e de voz que podem ser, igualmente, ricos em informação extra. Os envolvidos foram ainda contactados por via de telefone ou email, entre 4 e 19 de agosto de 2022, sendo apenas solicitada a gravação do áudio aos entrevistados por uma questão de facilitação da transcrição e do tratamento das respostas. De salientar que nenhuma gravação de imagem ou vídeo esteve prevista neste estudo. Relativamente à privacidade dos participantes, caso assim o desejassem, esteve ainda salvaguardada a possibilidade de anonimato através de um nome fictício e da não utilização de dados pessoais que pudessem identificar os próprios. Nenhum entrevistado, porém, solicitou a reserva da identidade. De sublinhar também que todos os registos sonoros foram guardados por mim, sendo a única pessoa com acesso às gravações, arquivadas em computador pessoal e disco externo. Aos envolvidos foi ainda solicitada a assinatura de um termo de consentimento informado para o uso da entrevista com finalidade académica (Anexo V). Neste sentido, foram elaboradas 14 questões, distribuídas, essencialmente, por quatro grandes grupos, em que se pretendia, acima de tudo, conhecer a perceção dos jornalistas relativamente aos efeitos da utilização de agências de notícias por parte da TSF (Anexo IV). Assim, num primeiro momento, pretendeu-se compreender de que forma se processa a transformação da notícia de agência para rádio. Num segundo grupo de questões, abordou-se as principais vantagens e limitações deste recurso, posteriormente, explorou-se o impacto da utilização das agências de notícias, nomeadamente, na escolha dos conteúdos editoriais. Por fim, concretizou-se a abordagem em termos de impacto no meio sonoro. Antes da sua concretização foram ainda explicitados os objetivos e a natureza do trabalho aos entrevistados, bem como esclarecidas eventuais dúvidas. Na conversa, foi ainda realçada a necessidade de responder às questões com base na formação, opinião pessoal e experiência profissional. Feita a préapresentação, solicitou-se também a autorização aos sujeitos para a gravação da entrevista, esclarecendo o motivo da gravação. Posteriormente, as entrevistas gravadas foram transcritas, para facilitar o processo de análise das respostas recolhidas (Anexo VI).
A (in)dependência da TSF Rádio Notícias relativamente à agência Lusa 47 3.3 As duas faces da aplicação da entrevista Justificada pelo tipo de abordagem pretendido, isto é, pela intenção de aprofundar ideias sobre as perceções dos jornalistas, a entrevista tem, para este efeito, pontos fortes e fracos. Partindo do livro A entrevista na pesquisa qualitativa (Rosa & Arnoldi, 2017, p.129), o recurso à entrevista apresenta várias vantagens quando comparada com outras técnicas disponíveis. Entre elas estão a obtenção de um maior número de informação – “intensiva, holística e contextualizada” – ao se adotar um tipo de entrevista, nomeadamente, a semi-estruturada mais aberta à discussão e à partilha de opinião. Por outro lado, o facto de proporcionar ao entrevistador “uma oportunidade de esclarecimentos”, juntamente, com os envolvidos das perguntas e respostas que lhe surgiram ao longo da pesquisa, possibilitando também a “inclusão de roteiros não previstos”. A entrevista permite ainda o cumprimento de um “papel estratégico na previsão de erros”, já que prevê, anteriormente, “os enfoques, as hipóteses e outras circunstâncias úteis para a investigação” e ainda o estabelecimento de uma relação entre o pesquisador e o participante com maior “intimidade e relação de reciprocidade”. Ribeiro (2008, p.140) ressalta também, entre os pontos fortes, a “flexibilidade na aplicação” e a “taxa de resposta elevada”, já que é mais fácil um sujeito negar-se a responder a um questionário do que a ser entrevistado. Há também o benefício de poder ser aplicado a pessoas não aptas à leitura. Ainda assim, esta técnica não apaga limitações que a podem tornar, em certas situações, menos viável. Tendo como base, novamente, a obra de Rosa e Arnoldi (2017), uma das grandes desvantagens da entrevista passa pelo “fator tempo”, já que implica uma maior disponibilidade do entrevistado e do pesquisador, seja no processo de realização seja no devido tratamento. Por exemplo, a transcrição para o papel pode despender muitas horas e no final o investigador ainda omitir algumas informações. Outra das limitações sucede ainda pela dependência da “informação”, que se estabelece, unicamente, através da relação entrevistador, entrevistado, sendo que qualquer “deslize” pode condicionar a validade dos dados. Nesta linha de pensamento, surge ainda a questão da “confiança”, sendo que, se não existirem os valores da espontaneidade e da confiança, a validação dos resultados poderá não se concretizar. Surge também a questão da “observação”, dado que a entrevista apresenta como limitação a “falta de observação direta” e a “sinergia” ao não produzir tanta informação como a que a investigação em grupo poderia fornecer.
48 Simultaneamente, podem ainda ocorrer circunstâncias em que a pergunta seja incompreendida, em que haja respostas falsas ou que a influência do entrevistador nas respostas fornecidas seja notória. Ribeiro (2008, p.140) alerta também para o “custo elevado”, para a “polarização do entrevistador”, para a “não garantia do anonimato”, para a “sensibilidade aos efeitos no entrevistado”, para o “treinamento especializado que requer” e para as “questões que direcionam a resposta”. No entanto, como se sugere no artigo “A utilização da técnica da entrevista em trabalhos científicos”, facilmente, estes constrangimentos poderão ser ultrapassados, já que o sucesso desta técnica depende, em boa parte, do discurso compartilhado e da relação de “confiança” estabelecida entre o entrevistador e o entrevistado. 3.4 A análise dos dados Concluído o processo de transcrição das entrevistas, que foram realizadas entre 21 e 31 de agosto de 2022 e estando reunidas as devidas autorizações dos cinco jornalistas e estagiários profissionais, para a utilização de excertos, em nome próprio, ao longo do relatório, procedeu-se a uma leitura crítica dos dados, neste caso, organizados por cinco grandes grupos com base nas respostas reunidas: a) a transformação da notícia de agência para a TSF: um processo linear; b) a utilização da agência Lusa: vantagens e desvantagens; c) a (in) dependência da TSF na escolha dos conteúdos editoriais; d) a criatividade dos sons ambiente: uma realidade ameaçada? e, por fim, e) a rádio sem as agências de notícias. Um dos aspetos em evidência, numa primeira análise, é que é notória uma discrepância de opiniões, de uma forma geral, entre os jovens jornalistas estagiários, Cátia Barbosa e Rui Araújo, relativamente, aos efetivos, Artur Carvalho, Leonor Ferreira e Sónia Santos, no que toca aos efeitos da utilização da agência Lusa por parte da rádio. Os seguintes pontos incidirão sobre uma análise pormenorizada das cinco entrevistas realizadas, pelos grupos, anteriormente, descritos seguindo-se, por final, as considerações gerais. 3.4.1 A transformação da notícia de agência para a TSF: um processo linear? Curiosamente, dentro deste processo de transformação da notícia de agência para rádio não houve grande divergência de opiniões entre os jornalistas da TSF. De uma forma geral, foi explicitado que o uso diário da plataforma Dalet Team News para aceder aos takes da Lusa decorre partindo do
A (in)dependência da TSF Rádio Notícias relativamente à agência Lusa 55 De acordo com a jornalista Sónia Santos, no máximo, da plataforma apenas são retirados sons para a chamada “notícia breve”, não sendo nunca utilizados registos sonoros de agência para construir uma reportagem. Da agência Lusa apenas tiramos notícias como a chamada breve, que são duas ou três linhas ou os resultados de um estudo. Agora, a chamada reportagem pura e dura não, até porque eles não têm essa sensibilidade de quem trabalha em rádio para os sons. (Sónia Santos, 2022) Contudo, numa perspetiva mais pessimista, Cátia Barbosa questionou-se quanto ao cansaço que o ouvinte pode sentir na hora do noticiário ao ouvir um som repetido. A partir do momento em que retiras um som de uma agência noticiosa outros órgãos também o podem fazer. Portanto, não sei até que ponto não é cansativo para o ouvinte… Provavelmente, o zapping que fazes numa televisão também o fazes numa rádio para procurar coisas novas. Um trabalho criativo, para mim, tem de sair de ti, daquela redação, daquela equipa. As pessoas habituaram-se de tal forma às agências que agora perderam essa criatividade. Mesmo que sejas nova e que queiras mudar essa forma de trabalho não consegues porque as próprias pessoas que já lá estavam há mais tempo cultivam-te esse hábito de recorreres aquele recurso. (Cátia Barbosa, 2022) Neste seguimento, a jovem estagiária considerou que a utilização da agência Lusa tem um maior impacto na rádio ou no jornal do que nos outros órgãos de comunicação. Acho que a coisa está equilibrada entre a rádio e o jornal (…) Mas se calhar na rádio sentes mais este impacto pela questão de teres o som. Focas muita atenção no som e eu acho que quando sentes que aquilo é uma cópia de algum lado acaba por ser frustrante. É muito mais interessante quando ouves um direto e ouves uma coisa nova. (Cátia Barbosa, 2022) Rui Araújo e Artur Carvalho vão contra esta perspetiva, ressaltando que os órgãos baseados “no online ou no papel” são, “negativamente, mais influenciados” pela agência. “A transformação do texto para rádio obriga-te a uma leitura mais fina”, anotou Artur. 3.4.5 A rádio sem as agências de notícias Numa etapa final, pretendia-se que os jornalistas refletissem acerca de uma rádio sem agências de notícias. De uma forma generalizada, todos mostraram agrado com a hipótese da sua extinção, no entanto, a falta de profissionais e os constantes noticiários foram dois dos principais fatores de preocupação.
56 Tendo como base a opinião de Sónia Silva, ficar sem ou reduzir a utilização da agência Lusa condicionaria o trabalho dos jornalistas. No entanto, a jornalista admitiu que seria uma rádio “espetacular porque nos ia obrigar a ir para a rua e a vasculhar”. Na mesma posição mostrou-se Rui Araújo evidenciando que seria uma “rádio mais próxima”, já que as notícias seriam, integralmente, produzidas pelos jornalistas, mas que também seria produzido um jornalismo, no seu cerne, “muito mais lento”. “Por exemplo, lembro-me que houve uma altura em que ficámos algumas horas sem o serviço da Lusa e, na altura, foi complicado trabalhar porque é quase como se ficássemos cegos de um olho”, recordou o jovem. Cátia Barbosa evidenciou ainda que outro dos aspetos positivos passaria pela “aposta nos repórteres”. Porque não ter uma ou duas pessoas só a fazer reportagem de rua ao invés de estarem na redação? Muitas vezes acontece de não estar a acontecer nada no país e as pessoas estão só ali a atualizar as agências noticiosas e não fazem mais nada. Se calhar, se essas pessoas estivessem na rua, iam descobrir histórias superinteressantes (…) Eu acho que era muito bom tanto para o órgão como para os próprios ouvintes. (Cátia Barbosa, 2022) Num outro ponto de vista mostraram-se ainda os jornalistas Artur e Leonor ao considerarem que a rádio ficaria a perder, já que seria, certamente, um meio “mais pobre” em informação. Artur Carvalho relembrou que a principal vantagem das agências “é que elas nos alertam sempre para o que está a acontecer”, cabendo a cada jornalista, posteriormente, “procurar saber mais e buscar informação em outros locais”. Leonor Ferreira acrescentou também que “metade das coisas” não se saberiam partindo do pressuposto de que o serviço que a agência Lusa “presta e vende” é a “base de muitas redações”. 3.5 Considerações gerais Ao longo dos vários pontos anteriormente enunciados, foram analisados os resultados das entrevistas semiestruturadas realizadas aos cinco jornalistas, da Manhã 2 (redação do Porto), da TSF, onde ficou claro que existe uma discrepância de opiniões entre os jornalistas mais novos e os mais velhos, relativamente, àqueles que são os efeitos da dependência da agência Lusa por parte da rádio. Entre os jornalistas mais experientes percebe-se uma certa aceitação da “dependência” em que estão inseridos, já que existe uma consciencialização de que a rádio não possui, atualmente, os recursos financeiros e humanos necessários para conseguir, apenas com a sua equipa e conteúdos próprios,
A (in)dependência da TSF Rádio Notícias relativamente à agência Lusa 57 assegurar noticiários de hora em hora ou de 30 em 30 minutos sem ter por base a agência Lusa. Aliás, quando questionados sobre a possibilidade de encurtar o recurso à agência Lusa ou mesmo de a extinguir das rotinas dos jornalistas, a maioria dos profissionais mostrou-se até incapaz de imaginar tal realidade face às equipas reduzidas de que a rádio dispõe, nos vários turnos, nos dias de hoje. Dos jornalistas estagiários, ainda com pouca experiência ou a viver a primeira experiência profissional, depreende-se um sentimento de “desilusão”, já que, contrariamente, ao que aprenderam no curso de jornalismo, “o trabalho de investigação” acaba por ficar limitado ou em segundo plano para dar primazia a um jornalismo, essencialmente, sentado, onde as suas funções acabam por ser mais de caráter técnico, de atualização constante da agência, do que propriamente jornalístico. Apesar da heterogeneidade do perfil dos entrevistados, um aspeto curioso é que todos reconheceram que os profissionais da TSF, no dia a dia, não se limitam à informação disponível pela agência, muito menos ao formato de escrita, havendo sempre um esforço acrescido por tornar aquela notícia numa peça pequena, clara, simples e, se possível, procurando explorar novos ângulos que não os da agência. No que toca às vantagens da utilização, a opinião também se manteve unânime. Entre as principais, identificaram o facto de a Lusa possuir uma vasta rede de correspondentes e, posteriormente, disponibilizar notícias, a nível nacional e internacional, de minuto a minuto, não sendo necessário à TSF possuir jornalistas ou correspondentes em todos os pontos do país. Relativamente, às desvantagens, apesar de os jornalistas estagiários se mostrarem mais críticos, no que toca a este aspeto, houve uma que se destacou, de forma notória, entre todos, nomeadamente, a da uniformização do que é notícia nos vários órgãos de comunicação social e, consequentemente, a sujeição da redação à informação da agência. Retomando a pergunta de partida deste relatório, nomeadamente, que efeitos tem a dependência da rádio relativamente à agência Lusa na produção informativa, estes foram os efeitos mais evidentes reconhecidos, sem exceção, por todos os jornalistas. Ainda assim, verificou-se uma maior dependência do serviço texto do que do serviço áudio já que em rádio os sons são sempre “os lápis de cor”, sendo que, em nenhuma circunstância para produzir uma reportagem “pura e dura”, os profissionais retiram registos sonoros da plataforma. Outro dos aspetos identificados é que de uma forma geral, os profissionais não atribuem responsabilidade às agências pela tendência de “dependência”, nem pelas atuais dificuldades que o jornalismo enfrenta, nomeadamente, a da precarização dos profissionais ou do menor trabalho exterior, mas sim aos próprios órgãos de comunicação, principalmente, os privados, como é o caso da TSF, onde
58 há cada vez “menos dinheiro investido”. No fundo, tal como a jornalista Sónia Silva referia, as agências acabam por se tornar “um porto seguro” face à crise do setor e à falta de jornalistas que se regista nas redações. No final da entrevista atrevi-me ainda a questionar todos os profissionais sobre a possibilidade de não existirem agências de notícias, mas de a rádio e os seus noticiários continuarem a acontecer. Curiosamente, na sua maioria todos mostraram agrado com a hipótese. Entre as respostas mais frequentes ouvia-se que seria uma rádio “diferente”, “diversificada”, “próxima” e “espetacular”, que os obrigaria a sair à rua e a “vasculhar” histórias próprias. Em resumo, ao longo desta investigação ficou claro que os jornalistas da TSF estão conscientes dos efeitos “negativos” adjacentes à dependência da agência Lusa no que toca à produção informativa, da rádio, no entanto, tendo em conta a realidade de “crise” em que se encontram inseridos, atualmente, esta acaba por ser a única solução, pelo menos, por enquanto, para continuarem a cumprir com a imagem de marca da TSF, que são os noticiários de hora em hora. Rui Araújo comentava até, ao longo da entrevista, que o facto de utilizarem a Lusa é quase como se tivessem “mais um jornalista em redação”. Ainda assim, a maioria dos profissionais acredita que a TSF continua a ser uma rádio independente, uma vez que ainda produz conteúdos próprios e se destaca da agência a partir do momento que a usa, unicamente, como uma ferramenta de trabalho. Nesta linha de pensamento, na generalidade os jornalistas creem que a Lusa pouco ou nada influência na escolha dos conteúdos editoriais, estando essa responsabilidade atribuída aos “editores”.
A (in)dependência da TSF Rádio Notícias relativamente à agência Lusa 59 4 Conclusões finais do estágio na TSF om o fim do relatório de estágio pretende-se neste último ponto fazer uma retrospetiva acerca da experiência de estágio interligando-a com as conclusões que a investigação proporcionou. Ao longo deste ponto, serão ainda apresentadas algumas sugestões de melhoria e pesquisa futura. 4.1 O estágio na TSF: um culminar de aprendizagens Ao longo dos três meses de estágio curricular na TSF tive a oportunidade de aprender, crescer, tanto a nível profissional como pessoal, de pôr em prática o já aprendido ao longo do curso, mas, acima de tudo, de me confrontar com outras realidades e rotinas profissionais que até agora me eram, em parte, desconhecidas. Durante a formação em Ciências da Comunicação e, posteriormente, no Mestrado com especialização em Informação e Jornalismo, na Universidade do Minho, sempre nos foi incutido, por parte dos docentes, a importância de um jornalista ir para o exterior e de procurar as suas próprias histórias, de forma a tornar o seu trabalho original e diferente dos outros órgãos de comunicação. C
60 Neste sentido, a dependência pelas agências não era de todo desejável já que existia uma probabilidade acrescida de o aluno se limitar, unicamente, ao ângulo adotado pelas próprias e a acabar a não ser crítico e a não se questionar perante um determinado fenómeno ou acontecimento. Lembro-me, quando cheguei à redação da rádio, de me aperceber, imediatamente, da “responsabilidade” e do “peso” acrescido que a Lusa exercia sobre os noticiários da rádio e sobre a rotina dos jornalistas. Aliás, na altura, este foi um dos aspetos que mais me inquietou como estudante e aspirante a jornalista. Na maioria das vezes, durante o turno, o tempo em redação era passado a atualizar, constantemente, a agência com a expectativa de que algo novo surgisse para completar o bloco informativo seguinte, sendo que o trabalho de reportagem ou de exterior era posto em segundo plano ou de lado. Face a este panorama, rapidamente me comecei a questionar e a pensar o porquê daquela tendência e, consequentemente, os efeitos que a dependência pelas agências estariam a provocar na própria rádio, bem como nos próprios jornalistas. Foi a partir daí que nasceu a necessidade de me debruçar sobre este tema, procurando ouvir os cinco jornalistas da TSF, do Porto, com quem lidei, de forma mais direta, ao longo da experiência. Concluída a investigação e feita a devida análise dos resultados, um dos aspetos clarificados é que existe, de facto, uma grande vontade, por parte destes jornalistas, de se assumirem como “independentes” face às agências. No entanto, face à “grave crise” que a rádio enfrenta essa vontade nem sempre é suficiente e a falta de jornalistas, na redação, leva-os, muitas vezes, a terem de se “conformar” e a se “basear” nos recursos que a Lusa disponibiliza. Seja o serviço áudio, em menor frequência, ou o serviço texto. Aliás, ao longo das várias entrevistas um dos aspetos que mais os profissionais desabafavam é que, muitas vezes, acabam por ter de se limitar às questões dos jornalistas da agência já que de uma forma generalizada a Lusa é o único meio, nacional, que ainda consegue assegurar uma presença assídua na maioria dos acontecimentos, uma vez que possui um vasto leque de correspondentes, em todos os distritos, e é um órgão pago e público pelo que tem outras responsabilidades acrescidas. Ainda assim, quando existe a oportunidade de ir além daquele produto final, os jornalistas dão preferência a novos ângulos, que não os explorados pela agência, e estabelecem eles próprios os contactos com as fontes. Ao mesmo tempo, há sempre uma transformação da notícia de agência para rádio. Outro aspeto clarificado é que, partindo do princípio de que a rádio é um meio que vive, essencialmente, do som em nenhuma circunstância os profissionais fazem reportagem com os “sons
A (in)dependência da TSF Rádio Notícias relativamente à agência Lusa 61 ambiente” disponibilizados pela agência, uma vez que os jornalistas da Lusa não têm a mesma sensibilidade que os jornalistas da TSF. Todavia, um dos aspetos mais interessantes de se observar foi a discrepância de opiniões entre os jornalistas estagiários e os efetivos. Dos mais jovens nota-se uma vontade de mudar e um sentimento de “desilusão” associado à realidade de “forte dependência” com que se depararam aquando da entrada na TSF. Nesta linha de raciocínio, acredito que seja nesta vertente que esteja a maior limitação desta investigação já que seria relevante continuar a ouvir mais profissionais da TSF para perceber se os efeitos da dependência são ou não constantes, por todos os jornalistas, e se se confirma uma divergência de ideias entre as duas faixas etárias. Simultaneamente, acho que esta reflexão ganharia ainda uma maior expressão se se procurasse, futuramente, alargar esta reflexão aos ouvintes da TSF de forma a compreender se há ou não uma noção desta dependência, assim como os sentimentos/limitações que lhe surgem associados, já que são os principais “prejudicados” com esta realidade.
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A (in)dependência da TSF Rádio Notícias relativamente à agência Lusa 71 Anexo IV – Guião da entrevista aplicada aos jornalistas da TSF A presente entrevista surge no âmbito da Unidade Curricular de Relatório de Estágio, do 2º ano de Mestrado em Ciências da Comunicação, da Universidade do Minho, cujo tema assenta na (in)- dependência da TSF-Rádio Notícias relativamente à agência Lusa. Pretende-se que responda às questões com base nos seus conhecimentos, experiência profissional e opinião pessoal. 1. Tendo como pressuposto que há uma utilização da agência Lusa por parte da TSF, de que forma é que se processa a transformação da notícia de agência para rádio? 1.1Neste processo de utilização, que tipo de tratamento é atribuído a essa informação? Por exemplo, procura explorar novos ângulos ou limita-se à informação disponível pela agência? 1.2Após essa recolha de informação, faz algum tipo de menção em antena à origem da notícia? Todas as notícias trabalhadas a partir da agência Lusa são identificadas como tendo esta origem? 2. A seu ver quais são as principais vantagens e limitações da utilização da agência Lusa? 2.1Sente que o recurso à agência tem impacto na dinamização da redação? 2.2Qual o impacto da sua utilização? Sente que o seu uso proporciona, de certa forma, a uniformização do que é notícia nos vários órgãos de comunicação? 2.3Julga que, com a presença das agências, as suas funções são, maioritariamente, técnicas ao invés de jornalísticas? 3. Que impacto tem a agência Lusa na escolha dos conteúdos editoriais da TSF? 3.1Sente que o recurso aos conteúdos da agência representa um fator de desvalorização do jornalismo feito pela redação dos outros órgãos? O facto de a agência ser um recurso fácil aumenta ou não as atuais dificuldades que o jornalismo enfrenta? Por exemplo, na precarização dos profissionais, no emagrecimento das redações ou no menor trabalho exterior? 3.2Considera que o recurso à agência Lusa acaba por condicionar a independência da TSF? 4. Acredita que a utilização da agência Lusa tem um maior impacto negativo na rádio do que nos outros órgãos de comunicação social? 4.1Sendo a rádio um meio tão dependente de sons ambiente, sente que a utilização das agências acaba por condicionar a criatividade desses registos sonoros?
72 4.2Caso existisse uma menor utilização da agência Lusa considera que a TSF ganharia? 4.3Imaginando que não existissem agências de notícias, a seu ver que rádio escutaríamos hoje?
A (in)dependência da TSF Rádio Notícias relativamente à agência Lusa 73 Anexo V – Consentimento informado
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78 Anexo VI – Entrevistas aos jornalistas da TSF transcritas Artur Carvalho 1. Tendo como pressuposto que há uma utilização da agência Lusa por parte da TSF, de que forma é que se processa a transformação da notícia de agência para rádio? As notícias da Lusa são escritas e a rádio implica uma transformação numa linguagem de oralidade. Portanto, nós temos de transformar um texto que poderia ser de imprensa numa coisa falada. Esse é que é o topo da pirâmide da rádio bem feita... De estarmos a falar com quem nos ouve. 1.1 Neste processo de utilização, que tipo de tratamento é atribuído a essa informação? Por exemplo, procura explorar novos ângulos ou limita-se à informação disponível pela agência? A regra é sempre a mesma. Seja para uma notícia da Lusa, seja para uma notícia vinda de outra fonte. Reconhecendo mérito à notícia da Lusa, esse é o ponto de partida. Depois, a regra e a essência do ofício é tentar desenvolver e tentar acrescentar outras reações, contrapontos, porque a Lusa pode ainda não o ter feito. Nós não podemos ficar à espera de que a Lusa o faça, senão éramos uns meros transformadores das notícias da Lusa. 1.2 Após essa recolha de informação, faz algum tipo de menção em antena à origem da notícia? Todas as notícias trabalhadas a partir da agência Lusa são identificadas como tendo esta origem? Sim, sendo que no caso da Lusa essa obrigatoriedade não é tão grande e depende sempre do tipo de notícia. Obviamente, se for um exclusivo ou um conteúdo a que só a agência possa ter acesso, nós somos obrigados a dar o devido crédito porque são jornalistas iguais a nós. No entanto, se for uma notícia em que se consiga obter informação por outros meios, não temos de estar, propriamente, a citar a Lusa. Depois, há ainda um outro ponto que é o facto de a Lusa ser um serviço pago. Portanto, a partir do momento em que eu contrato o serviço da Lusa e pago, não tenho de estar a todo o tempo a citá-la. 2. A seu ver quais são as principais vantagens e limitações da utilização da agência Lusa? Sinceramente, não consigo ver limitações. 2.1 Sente que o recurso à agência tem impacto na dinamização da redação? Sim. Nós, facilmente, podemos acomodar-nos, porque as redações estão despidas. Se, antigamente, as rádios tinham músculos para fazerem as suas próprias notícias, neste momento, correm o risco de não ter tempo para as fazer. 2.2 Qual o impacto da sua utilização? Sente que o seu uso proporciona, de certa forma, a uniformização do que é notícia nos vários órgãos de comunicação? Não creio... Ainda é possível fazer trabalho próprio se pensarmos numa perspetiva positiva... Ao mesmo tempo, não precisas de te uniformizar pela Lusa quando tens todos os órgãos de comunicação online disponíveis à distância de um clique. Existirá se calhar uniformização numa perspetiva de que apenas a Lusa detém correspondentes em todas as capitais de distrito e esse tipo de abrangência nenhum órgão de comunicação social, tirando a RTP, consegue... Portanto, coisas mais locais em que a TSF reconheça relevância, sobre esse ponto de vista, damos com base na Lusa e depois, eventualmente, tentamos contactar outras fontes.
A (in)dependência da TSF Rádio Notícias relativamente à agência Lusa 79 2.2 Julga que, com a presença das agências, as suas funções são, maioritariamente, técnicas ao invés de jornalísticas? Eu sempre trabalhei com as agências, por isso, já não sei como é trabalhar sem. 3. Que impacto tem a agência Lusa na escolha dos conteúdos editoriais da TSF? Ela é auxiliar, não é mais do que isso. Não levamos todos os dias a agência da Lusa e fazemos daquilo a nossa bíblia…. Muito pelo contrário. 3.1 Sente que o recurso aos conteúdos da agência representa um fator de desvalorização do jornalismo feito pela redação dos outros órgãos? O facto de a agência ser um recurso fácil aumenta ou não as atuais dificuldades que o jornalismo enfrenta? Por exemplo, na precarização dos profissionais, no emagrecimento das redações ou no menor trabalho exterior? A precarização por essa via editorial tem antes a ver com o facto de o meio se ter transformado numa selva em que tudo é de todos do que, propriamente, com as agências. Se o funil fosse mais apertado para dar o mesmo número de notícias tinhas de ter, obrigatoriamente, mais gente. As agências são intermediárias, na maior parte dos casos. 3.2 Considera que o recurso à agência Lusa acaba por condicionar a independência da TSF? Não. Nós usamos a agência Lusa com os mesmos critérios de análise prévia que usamos tudo o resto. Há notícias da Lusa em que olhamos e nos questionamos sobre aquilo. Não comemos tudo só porque é da Lusa, até porque a agência também faz asneiras e notícias que não têm interesse nenhum. 4. Acredita que a utilização da agência Lusa tem um maior impacto negativo na rádio do que nos outros órgãos de comunicação social? Não. Basta ir a sites de jornais, diariamente, que encontras centenas de notícias que são apenas e exclusivamente fonte da Lusa. A rádio sobre esse ponto de vista até disfarça porque nos obriga a uma transformação. Os outros fazem copy-paste , mudam o título e a entrada. A transformação do texto para rádio obriga-te a uma leitura mais fina. 4.1 Sendo a rádio um meio tão dependente de sons ambiente, sente que a utilização das agências acaba por condicionar a criatividade desses registos sonoros? Creio que não porque, normalmente, o que tiramos da Lusa são declarações de pessoas a falar. Não temos grande margem para criatividade. 4.2 Caso existisse uma menor utilização da agência Lusa, considera que a TSF ganharia? Acho que não. Nós não fazemos noticiários inteiros com base na Lusa. 4.3 Imaginando que não existissem agências de notícias, a seu ver que rádio escutaríamos hoje? Uma rádio mais pobre, certamente. A vantagem das agências é que elas nos alertam sempre para o que está a acontecer. Nós depois, enquanto jornalistas, é que vamos procurar saber mais e buscar informação em outros locais.
80 Leonor Ferreira 1. Tendo como pressuposto que há uma utilização da agência Lusa por parte da TSF, de que forma é que se processa a transformação da notícia de agência para rádio? A agência Lusa como é um serviço público, tem a obrigação de cobrir praticamente tudo. Coisa que nos privados é impossível. Quando a notícia é feita e nos surge no ecrã da Lusa, o que nós fazemos é uma seleção do que nos interessa… Isso tem a ver com o perfil de cada rádio. Depois, a agência Lusa tem um formato de escrita que está, perfeitamente, explícito no seu livro de estilo, com aquelas regras muito clássicas, e a rádio pode, por exemplo, pegar na notícia, começar por outro lado e no caso da TSF de uma forma mais leve. Muitas vezes até acontece a notícia só estar no fim. O facto de uma notícia ser veiculada pela agência Lusa não significa que a TSF está totalmente dependente porque a Lusa também se engana. Por exemplo, se surge, de repente, uma notícia com a morte de alguém, mas ainda há dúvidas se é ou não oficial, a TSF ainda se dá ao trabalho de confirmar. Há todo um trabalho de transformação da notícia para a tornar, no caso da TSF, numa notícia pequena, que seja muito clara, porque a atenção dos ouvintes é muito pequena. Esse trabalho obriga o jornalista da TSF a olhar para a notícia da Lusa, ver nela onde está a notícia e depois resumir, ao máximo, de forma clara o que lá está. Depois, temos também cuidados quanto aos termos utilizados, não usamos estrangeirismos, ou seja, o nosso trabalho até acaba por ser muito de simplificação. 1.1 Neste processo de utilização, que tipo de tratamento é atribuído a essa informação? Por exemplo, procura explorar novos ângulos ou limita-se à informação disponível pela agência? Normalmente, o que acontece é que quando selecionamos uma notícia da agência, aquela informação dá-nos uma outra ideia, ou seja, tentamos sempre fazer o chamado acrescento. São ideias que se tiram e que se desenvolvem. Muitas vezes, até dão temas para reportagens. 1.2 Após essa recolha de informação, faz algum tipo de menção em antena à origem da notícia? Todas as notícias trabalhadas a partir da agência Lusa são identificadas como tendo esta origem? A partir do momento em que pagamos por aquele serviço, não temos a obrigação de fazer referência à agência Lusa. No entanto, há exceções. Por exemplo, se for uma notícia importante em que a declaração apenas foi feita à agência Lusa, aí referimos sempre a fonte de origem. Respeitamos muito quando são assuntos importantes e que correspondem, de facto, a um trabalho individual da Lusa. 2. A seu ver quais são as principais vantagens e limitações da utilização da agência Lusa? A principal desvantagem é ficarmos sujeitos à informação deles. Por exemplo, se eles vão cobrir uma conferência de um ministro importante e nós não temos meios para lá estar, acabamos por ficar dependentes deles… Muitas vezes, acontece querermos fazer mais uma pergunta, mas como não fomos, não pudemos… Por outro lado, também tem outras coisas boas. A agência Lusa, como tem uma ampla cobertura, consegue dar-nos uma visão geral de tudo. Desde desporto, política, internacional, sociedade, etc. Claro que nem toda a informação serve para a TSF porque, muitas vezes, há notícias que não entram no estilo da rádio, mas é uma boa base de trabalho, desde que o jornalista saiba pegar naquela informação, encare aquilo como uma base e depois faça acrescentos à notícia. 2.1 Sente que o recurso à agência tem impacto na dinamização da redação?
A (in)dependência da TSF Rádio Notícias relativamente à agência Lusa 87 haver sequer troca de ideias. Se calhar, se houvesse uma notícia própria, muitas vezes, trocarias ideias sobre contactos ou sobre essa pessoa… A Lusa, na maioria das vezes, retira-te um bocado esse trabalho em equipa porque tu limitas-te aquilo que está ali. 2.2 Qual o impacto da sua utilização? Sente que o seu uso proporciona, de certa forma, a uniformização do que é notícia nos vários órgãos de comunicação? Infelizmente, sim…. Vai ao encontro daquilo que referia há bocadinho… Como já olhas para aquilo com tanta segurança, tu próprio acabas por ficar preguiçoso e acabas a só utilizar aquela informação que todos os órgãos usam. 2.3 Julga que, com a presença das agências, as suas funções são, maioritariamente, técnicas ao invés de jornalísticas? Sim. Aliás, essa foi das coisas que mais me desiludiu. Quando tu vais para este curso por gosto, por curiosidade, por querer descobrir coisas novas e por querer trabalhar em assuntos diferentes, acabas por te desiludir com a realidade…. Chegas a uma redação e explicam-te que tens ali a Lusa onde vão surgindo notícias e que te podes guiar por ali…. Facilmente, acabas a refletir sobre o sentido do teu trabalho. É quase como se tivéssemos um trabalho simples da escola em que te dão um texto e tinhas de tentar diminuí-lo. Às vezes parece que é muito isso. Tens aqui um take com três ou quatro parágrafos e agora tens de transformá-lo em três ou quatro linhas porque para a rádio tem de ser uma coisa muito curta. Às vezes o que acontece também é que, mesmo que queiras ir além daquele tema, éte explicado que não há tempo e, portanto, ficas muito por ali. É difícil fazeres um trabalho de uma reportagem mais alargada ou então se o fazes é sempre para fora dos noticiários. O noticiário é muito limitado à Lusa e, nesse sentido, acho que te tira um bocado do foco do teu trabalho de investigação. E isso é um bocado triste porque para mim o jornalismo é investigar. 3. Que impacto tem a agência Lusa na escolha dos conteúdos editoriais da TSF? Bastante. Na TSF nós tínhamos sempre uma reunião antes do nosso turno começar em que discutíamos o que já tinha sido dado pela equipa da manhã e o que nós iríamos fazer. E, muitas vezes, o que acontece é que se não há tempo para fazer uma reportagem mais alargada tens de te limitar a dar continuidade aquilo que foi feito de manhã. Depois disso o que acontece é que só se trabalha com base na Lusa… De repente estás na redação a atualizar a Lusa, a ver o que está a acontecer, e trabalhas muito sobre isso. 3.1 Sente que o recurso aos conteúdos da agência representa um fator de desvalorização do jornalismo feito pela redação dos outros órgãos? O facto de a agência ser um recurso fácil aumenta ou não as atuais dificuldades que o jornalismo enfrenta? Por exemplo, na precarização dos profissionais, no emagrecimento das redações ou no menor trabalho exterior? A Lusa influencia nesses aspetos. Antigamente, se calhar tinhas uma redação mais completa, porque também havia mais trabalho no terreno... Agora, claro que a responsabilidade não é inteiramente da Lusa... Os editores e os jornalistas também têm responsabilidade sobre isso ao estarem à espera de que as coisas aconteçam… Há muito o pensamento de que eu não tenho jornalistas suficientes para ir lá, mas daqui a pouco sai um take da Lusa com as declarações do Rui Moreira, por exemplo. Acaba por influenciar nesse sentido. A redação já é pequena, mas depois os poucos jornalistas que tens não os mandas ao terreno, porque a Lusa como já lá está… aquilo vai sair na agência, ou seja, acabas por dar a entender que se calhar não precisas de mais jornalistas porque tu fazes na mesma esse trabalho. Se as agências não fizessem tanto esse trabalho, de "quase ter a papinha feita", tu eras obrigado a ter jornalistas na redação para irem lá.
88 Até me esqueci de referir, mas agora até a própria Lusa te dá os sons, por exemplo, das conferências de imprensa. Já não é só a escrita, ou seja, tu só tens de chegar e cortar o som do que te interessa. Portanto, até nisso influencia o facto de o jornalista não precisar de ir porque mais tarde ou mais cedo aquilo vai chegar. Para mim não é discutível que seja importante ires ao local e ao terreno na mesma porque nós hoje falamos muito em ser os primeiros, em dar em primeiro lugar, infelizmente, até demais e dás informação ainda sem confirmação. E, realmente, se tu fores ao local tu tens a informação, praticamente, em primeira mão. Eu acho que agora se chegou até ao ponto de haver essa preguiça de se dermos um bocado mais tarde não tem mal. É preferível ter as pessoas na redação porque nunca se sabe o que vai acontecer. 3.2 Considera que o recurso à agência Lusa acaba por condicionar a independência da TSF? Sim porque acaba por estar relacionado. Eu acho que o que demarca cada órgão é, precisamente, os trabalhos que tu fazes. Se fazes os trabalhos todos iguais aos outros acho que não posso considerar que trabalho num órgão… E, hoje em dia, vê-se isto em rádios ou em jornais... Para mim, um órgão independente é um meio que produz uma história e que te dá algo de novo. Das opiniões que tenho mesmo trabalhando na área, por parte das pessoas, é que sentem que leem tudo igual em todos os lados e já detetam essa cópia das agências. Isso é um bocado mal porque acaba por denegrir a nossa profissão. 4. Acredita que a utilização da agência Lusa tem um maior impacto negativo na rádio do que nos outros órgãos de comunicação social? Talvez. Se calhar na rádio tem um impacto mais negativo no sentido em que a rádio vive muito do som e eu acho que é muito interessante, até como ouvinte, tu ouvires declarações diferentes. Por exemplo, eu gosto muito de ouvir emissões em que há algo de novo e se tu te guias pelas agências, mesmo a nível de som, tu vais ouvir um som que já ouviste na televisão, que está escrito num jornal, etc. Portanto, eu não digo que seja a 100% na rádio, se calhar até acho que a coisa está equilibrada entre a rádio e o jornal... Também é frustrante tu leres, exatamente, a mesma coisa que lês num Expresso e num Público. Mas se calhar na rádio sentes mais este impacto pela questão de teres o som. Focas muita atenção no som e eu acho que quando sentes que aquilo é uma cópia de algum lado acaba por ser frustrante. É muito mais interessante quando ouves um direto e ouves uma coisa nova. 4.1 Sendo a rádio um meio tão dependente de sons ambiente, sente que a utilização das agências acaba por condicionar a criatividade desses registos sonoros? Sim. Acho que a criatividade também tem muita a ver com aquilo que produzes de novo. A partir do momento em que retiras um som de uma agência noticiosa outros órgãos também o podem fazer. Portanto, não sei até que ponto não é cansativo para o ouvinte… Provavelmente, o zapping que fazes numa televisão também o fazes numa rádio para procurar coisas novas. Um trabalho criativo, para mim, tem de sair de ti, daquela redação, daquela equipa. As pessoas habituaram-se de tal forma às agências que agora perderam essa criatividade. Mesmo que sejas nova e que queiras mudar essa forma de trabalho não consegues porque as próprias pessoas que já lá estavam há mais tempo cultivamte esse hábito de recorreres aquele recurso. 4.2 Caso existisse uma menor utilização da agência Lusa considera que a TSF ganharia? Eu acho que só essa obrigação de produzir coisas novas já era uma coisa positiva. Eu acho que falta apostar nos repórteres. Porque não ter uma ou duas pessoas só a fazer reportagem de rua ao invés de estarem na redação? Muitas vezes, acontece de não estar a acontecer nada no país e as pessoas estão só ali a atualizar as agências noticiosas e não fazem mais nada… Se calhar se essas pessoas estivessem na rua iam descobrir histórias superinteressantes.
A (in)dependência da TSF Rádio Notícias relativamente à agência Lusa 89 4.3 Imaginando que não existissem agências de notícias, a seu ver que rádio escutaríamos hoje? Íamos escutar uma rádio não tão focada na política, na economia…. Claro que essas notícias iam continuar a existir, mas tu, hoje em dia, assistes muito a sucessivas repetições. Ou seja, acho que ias ouvir uma rádio mais diversificada. Continuava-se a dar as notícias importantes, mas aliado a isso também ias contar histórias próprias, conhecer histórias de pessoas, etc. Eu acho que era muito bom tanto para o órgão como para os próprios ouvintes.
90 Rui Araújo 1. Tendo como pressuposto que há uma utilização da agência Lusa por parte da TSF, de que forma é que se processa a transformação da notícia de agência para rádio? As transformações até são grandes porque a escrita da Lusa em nada se identifica com a linguagem de rádio. Lembro-me de que, quando comecei a estagiar na TSF, essa era uma das minhas grandes dificuldades porque estava demasiado colado àquilo que eles escreviam e tinha de ser uma coisa completamente diferente. A escrita de rádio tem de ser muito mais direta, com uma linguagem mais percetível, enquanto a Lusa, como tem de cumprir com determinados parâmetros, às vezes, vai por caminhos que não podemos seguir. Ainda assim, é uma grande ajuda. 1.1 Neste processo de utilização, que tipo de tratamento é atribuído a essa informação? Por exemplo, procura explorar novos ângulos ou limita-se à informação disponível pela agência? Normalmente, partimos da agência e tentamos sempre fazer com que aquilo cresça mais para darmos outra identidade à notícia. Os takes da Lusa caem em todos os órgãos, portanto se nos limitarmos a fazer o que lá está, por vezes, torna-se muito redutor. 1.2 Após essa recolha de informação, faz algum tipo de menção em antena à origem da notícia? Todas as notícias trabalhadas a partir da agência Lusa são identificadas como tendo esta origem? Depende. Se for um exclusivo da Lusa referimos sempre a origem da fonte. Se for um comunicado que foi enviado às redações, nesse caso, não o citamos. 2. A seu ver quais são as principais vantagens e limitações da utilização da agência Lusa? Uma vantagem é que através da agência Lusa conseguimos esclarecer dúvidas de informações que encontramos, outra é que conseguimos chegar a notícias tanto do estrangeiro como de Portugal, facilmente, e por último o serviço de áudio oferecenos alguma segurança quando não conseguimos chegar a determinadas pessoas. Delimitações diria talvez a uniformização da linguagem, ou seja, de apostarmos sempre no ângulo da Lusa e de basearmo-nos demasiado no tipo de escrita da Lusa. 2.1 Sente que o recurso à agência tem impacto na dinamização da redação? Sim. Como partimos, muitas vezes, da Lusa essa influência já é notória. Muitas vezes, o nosso dia fazse do que a Lusa publicou ou do que tem vindo a publicar ao longo dos nossos turnos. Se não tivéssemos Lusa, talvez discutíssemos mais os temas, o que poderíamos fazer e que fontes poderíamos contactar. Às vezes, a solução é tão simples de se ir ver à Lusa que nos facilita e limitanos e talvez isso não nos permita ter criatividade para fazer coisas diferentes. 2.2 Qual o impacto da sua utilização? Sente que o seu uso proporciona, de certa forma, a uniformização do que é notícia nos vários órgãos de comunicação? Sim, porque, mesmo tentando fazer crescer alguns assuntos, nós olhamos sempre para o que a Lusa escreveu e é fácil voltar a pegar naquele ângulo. 2.3 Julga que, com a presença das agências, as suas funções são, maioritariamente, técnicas ao invés de jornalísticas? Sim. Como a TSF tem noticiários de 30 em 30 minutos, nós, às vezes, temos de estar a produzir tipo fábrica. Como caem notícias com muita frequência, nós temos de olhar para o que está na Lusa e escrever quase de forma automática.
A (in)dependência da TSF Rádio Notícias relativamente à agência Lusa 91 Por isso, por vezes, as funções jornalísticas de entrevistar, fazer reportagem, de fazer diretos, são postas de lado porque somos poucos, temos muita coisa para fazer e como temos a Lusa ali ao lado para nos ajudar, muitas vezes, transformámo-nos em operários de notícias ao invés de jornalistas. É muito difícil de se fazer esse trabalho quando somos tão poucos em redação e temos muitos noticiários por dia. 3. Que impacto tem a agência Lusa na escolha dos conteúdos editoriais da TSF? Não tem grande influência, porque as chaves mestras dos conteúdos editoriais são decididas com mais ponderação e não tanto com aquilo que cai na Lusa. No entanto, claro que se aparecer alguma notícia de última hora, na agência, isso pode-nos causar alguma discussão sobre o que poderemos fazer, em termos editoriais. 3.1 Sente que o recurso aos conteúdos da agência representa um fator de desvalorização do jornalismo feito pela redação dos outros órgãos? O facto de a agência ser um recurso fácil aumenta ou não as atuais dificuldades que o jornalismo enfrenta? Por exemplo, na precarização dos profissionais, no emagrecimento das redações ou no menor trabalho exterior? Ao ter a Lusa, ao lado, muitas vezes, é como se tivéssemos mais um jornalista em redação, mas, na rádio, diria que não tem grande influência, porque, mesmo olhando para aquilo que sai na Lusa, nós acabamos sempre por ter o trabalho de transformar aquilo em algo radiofónico. Portanto, talvez não haja tanta influência dessa precarização da redação. 3.2 Considera que o recurso à agência Lusa acaba por condicionar a independência da TSF? Existe uma certa dependência do nosso trabalho, relativamente, às agências, mas do aspeto editorial até não considero que tenha grande influência. Acho que influencia mais as escolhas dos editores e dos diretores. 4. Acredita que a utilização da agência Lusa tem um maior impacto negativo na rádio do que nos outros órgãos de comunicação social? Acho que não. Acho que os outros órgãos que são baseados no online e no papel são, negativamente, mais influenciados pela Lusa porque precisam de encher conteúdo quase até á exaustão. 4.1 Sendo a rádio um meio tão dependente de sons ambiente, sente que a utilização das agências acaba por condicionar a criatividade desses registos sonoros? Nós quando usamos as agências, normalmente, é para fazer notícias cruas e duras em que não dá para ter este tipo de sonorização mais criativo de reportagens. Portanto, nesse aspeto acho que não nos influencia muito. Quando fazemos reportagem saímos à rua e tentamos fazer o nosso trabalho também nesse aspeto da sonoplastia. 4.2 Caso existisse uma menor utilização da agência Lusa considera que a TSF ganharia? Neste momento, não iríamos beneficiar, porque temos pouca gente a trabalhar e precisamos da Lusa para nos dar algumas informações e para construirmos os nossos noticiários. Se tivéssemos uma equipa maior talvez não precisássemos tanto da Lusa… 4.3 Imaginando que não existissem agências de notícias, a seu ver que rádio escutaríamos hoje? Uma rádio mais próxima em que as notícias seriam todas elas feitas pelos jornalistas que a integram. Ao mesmo tempo, seria também um jornalismo muito mais lento porque não era tão fácil dar notícias de última hora. Por exemplo, lembro-me que houve uma altura em que ficámos algumas horas sem o serviço da Lusa e, na altura, foi complicado trabalhar porque é quase como se ficássemos cegos de um olho.