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Diogo Rafael Lemos MarinhoCírculos segmentados gravados no Noroeste de Portugal. Inventário, estudo e interpretaçãoUniversidade do MinhoInstituto de Ciências Sociaismarço de 2022 Círculos segmentados gravados no Noroeste de Portugal. Inventário, estudo e interpretaçãoMinho | 2022UDiogo Rafael Lemos Marinho
Diogo Rafael Lemos MarinhoCírculos segmentados gravados no Noroeste de Portugal. Inventário, estudo e interpretaçãoUniversidade do MinhoInstituto de Ciências Sociaismarço de 2022Tese de MestradoMestrado em ArqueologiaTrabalho efetuado sob a orientação daProfessora Doutora Ana Maria dos Santos Bettencourte coorientação doProfessor Doutor Hugo Teotónio de Pinho Aluai Gonçalves Sampaio
ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho [Caso o autor pretenda usar uma das licenças Creative Commons, deve escolher e deixar apenas um dos seguintes ícones e respetivo lettering e URL, eliminando o texto em itálico que se lhe segue. Contudo, é possível optar por outro tipo de licença, devendo, nesse caso, ser incluída a informação necessária adaptando devidamente esta minuta] Atribuição CC BY https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/
iii Agradecimentos Esta dissertação de mestrado nunca será uma obra de uma pessoa só, mas sim de um conjunto de pessoas que me apoiaram, ajudaram e ensinaram. Em primeiro lugar, expressar o meu profundo agradecimento à Professora Doutora Ana Maria dos Santos Bettencourt e ao Professor Doutor Hugo Teotónio de Pinho Aluai Gonçalves Sampaio, por me incentivarem e confiarem nas minhas capacidades para levar a cabo este trabalho, por me ensinarem a fazer ciência e contribuírem para o meu crescimento enquanto pessoa e como investigador/arqueólogo. Sem dúvida que possuo um olhar bastante diferente sobre o mundo da Arqueologia e sem os vossos ensinamentos isso não era possível. Muito Obrigado! Uma palavra de profundo agradecimento ao Sr. Cândido Verde pelas inúmeras prospeções que realizámos, sendo um exímio prospetor e amigo. De igual modo, agradeço ao Sr. José Alvarez Alonso pela ajuda concedida na localização de alguns afloramentos, sendo, igualmente, um exímio prospetor e amigo. Aos dois, muito obrigado! Agradeço à Câmara Municipal de Arcos de Valdevez, na pessoa do Dr. Nuno Soares pela sua amabilidade e disponibilidade para me ajudar e solucionar algumas adversidades que surgiram no caminho. Agradeço à Associação Regional do Desenvolvimento do Alto Lima – ARDAL/ Porta do Mezio, pela sua disponibilidade e ajuda, facultando material gráfico, que acrescentou valor a este trabalho. Agradeço à Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho - UAUM, especialmente à Eng.ª Natália Botica, pois forneceu uma ajuda essencial para a realização deste trabalho. Uma palavra de agradecimento à Doutora Rebeca Blanco-Rotea, investigadora do Laboratório de Paisagens, Património e Território – Lab2PT. Agradeço à União de freguesias de Anhões e Luzio, em Monção, pela pessoa do Sr. Horácio Simões pela sua ajuda e amabilidade no decorrer das prospeções realizadas neste lugar. Agradeço ao meu amigo Luís Coutinho e à minha amiga Bruna Afonso, pela entreajuda nas prospeções bem como, em problemas que surgiram no decurso da construção dos nossos trabalhos. Foram momentos, realmente, mágicos. Um agradecimento ao Sr. António Faria de Remelhe pela sua paciência e ajuda na prospeção realizada neste lugar. Agradeço ao Sr. José Balinha de Carreço pela sua hospitalidade e companhia no decorrer dos trabalhos de prospeção na sua propriedade. Agradeço ao Sr. Luís Machado por me facultar o seu equipamento fotográfico. Um agradecimento a todos os meus colegas de licenciatura e mestrado em Arqueologia, que sempre me apoiaram na realização desta dissertação.
iv Por fim, expresso o meu profundo agradecimento à minha família. Especialmente, aos meus pais por me ajudarem e apoiarem sempre nas minhas ideias, ao meu irmão pelo apoio incondicional, à minha namorada por me ajudar, sempre, e me incentivar em momentos de dúvida, aos meus avós e ao meu primo por me apoiarem e ajudarem, efetivamente. Nunca esquecerei as nossas prospeções e quão maravilhados ficavam. Obrigado!
v DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho.
vi Círculos segmentados gravados no Noroeste de Portugal. Inventário, estudo e interpretação Resumo O objetivo primordial desta dissertação é aumentar o conhecimento sobre as manifestações de arte rupestre nacional. Para tal, decidiu-se estudar os círculos segmentados no espaço circunscrito do Noroeste de Portugal. Para a realização deste trabalho foi necessário elaborar uma lista de objetivos a responder. Para o efeito recorreu-se à vasta bibliografia existente sobre o tema, trabalho de campo (através da prospeção arqueológica) e trabalho de gabinete, através do uso das novas tecnologias. A conjugação de todas estas ferramentas possibilitou construir um inventário e discutir os dados obtidos, o que permitiu responder a todos os objetivos que se definiram. Deste modo, foi possível perceber que os círculos segmentados, considerados pré-históricos, ocorrem em 29 afloramentos desta região, quer destacados do solo ou rasante ao mesmo. Neste conjunto foram contabilizados 125 motivos. Através dos dados recolhidos, percebeu-se que estes afloramentos se situam, na sua maioria, abaixo dos 700 metros de altitude, em locais de fácil acesso, sobretudo, na base e a meio da vertente de montes. A proximidade com recursos hídricos é um cenário que ocorre em todos os afloramentos. Relativamente à proximidade com recursos mineiros observa-se que, uma parte significativa dos dados revela especial proximidade com recursos de estanho. Todos os afloramentos gravados que possuem uma boa exposição solar, existindo uma grande parte deles onde se consegue contemplar o movimento do sol no horizonte, na sua totalidade, isto é, desde o nascente ao ocaso, em várias épocas do ano. Nos afloramentos que possuem uma visibilidade parcial para o mesmo acontecimento, revela-se uma maior tendência para a observação do ocaso. Através da observação, à microescala de análise, da inter-relação destes motivos gravados com outros estilos de arte rupestre e conjugando-os com vários paralelos existentes, considera-se que estes motivos começaram a ser gravados no início da Idade do Bronze, ocorrendo, com maior frequência, durante todo este período e terminado no início da Idade do Ferro. Partindo desta hipótese, observou-se a proximidade entre alguns afloramentos com círculos segmentados e povoados da Idade do Bronze, tendo-se verificado que os lugares gravados se inserem, sistematicamente, no território teórico de exploração destes, embora com tendência para se localizarem na periferia, o que pode ser significativo e marcar divisórias entre
vii espaços para diferentes funções. A proximidade de muitos lugares gravados a recursos de estanho parece ser mais um dado atribuído para esta cronologia. Quanto às interpretações, as orientações dos painéis gravados, a distribuição espacial dos círculos segmentados nos afloramentos e a orientação dos seus segmentos indiciam que estes representam o movimento solar em determinados momentos do ano, bem como expressam conhecimentos sobre determinadas estrelas, podendo assim, admitir-se que são, simultaneamente, observatórios astronómicos e lugares de culto solar. A relação dos círculos segmentados com quadrúpedes, especialmente equídeos e barquiformes, que ocorrem principalmente no litoral, permitem colocar a hipótese de que estes lugares representam ideologias solares de inspiração nórdica, chegadas através da navegação atlântica. Palavras-chave: Noroeste de Portugal, arte rupestre, círculos segmentados, Idade do Bronze, símbolos, observatórios e santuários solares.
viii Engraved segmented circles in Northwest of Portugal. Inventory, study and interpretation Abstract The main objective of this work is to increase the knowledge about specific topic related to Portuguese rock art. To this end, it was decided to study the engraved prehistoric segmented circles in the circumscribed space of the Northwest of Portugal. To carry out this work, a list of objectives was prepared. For this purpose, it was used the vast existing bibliography available related on the subject, so as fieldwork (through archaeological prospecting and photography) and office work (including the use of new technologies, such as photogrammetry). The combination of all these tools allowed to build an inventory, and to discuss the collected data, shedding light about possible answers to the defined objectives. It was possible to perceive that segmented circles dating back from prehistoric times occur in 29 archaeological sites of the region, either engraved on outcrops detached from the ground or leveled with it. In this set of outcrops, 125 motifs were counted. Through the data collected, it was noticed that these archaeological sites are mainly located below 700 meters of altitude, occupying places of easy access, specially at the base or in the middle of the slopes of different hills. Their proximity to water resources occurs in all archaeological sites, regarding their proximity to mining resources, it is also observed that a significant part of the data reveals a special affinity to tin resources. All engraved outcrops have good sun exposure, with a large part of them allowing the contemplation of the entirely sun movement on the horizon, that is, from sunrise to sunset, and at various times of the year. In rock art sites that have partial visibility for the same event, it was detected a greater tendency to observe the sunset. Through the observation, at the micro-scale of analysis, interrelating these engraved motifs with other rock art styles, and combining them with several known parallels, it is considered that segmented circles began to be engraved at the beginning of the Bronze Age, occurring, more frequently, throughout this period, and ending at the beginning of the Iron Age. Based on this hypothesis, it was observed the proximity between some rock art sites with engraved segmented circles to settlements dating from the Bronze Age. What was verified is that the engraved places are systematically inserted in the theoretical territory of exploration of those settlements, although with a tendency to be located on their periphery. That raises the question of either, or not, these motifs could have been significant, marking divisions
xv Figura 37 - Gráfico com a localização dos círculos segmentados no afloramento. ........................................... 71 Figura 38 - Laje das Fogaças, em Caminha, e localização dos círculos segmentados no afloramento. ............. 72 Figura 39 - Vargielas 1, em Monção, e localização dos círculos segmentados no afloramento. ........................ 73 Figura 40 - Breia 1, em Viana do Castelo, a localização dos círculos segmentados no afloramento (Fonte: Adaptado de Bettencourt & Santos-Estévez, 2018, p. 34). ............................................................................ 74 Figura 41 - Fieiral 1, em Melgaço, a localização dos círculos segmentados no afloramento. ............................ 75 Figura 42 - Gráfico com a orientação dos segmentos dos círculos. ................................................................ 77 Figura 43 - Crastoeiro 2 com círculo segmentado assinalado. ...................................................................... 79 Figura 44 - Pormenor da Ereira 2 com os dois círculos segmentados assinalados. ......................................... 80 Figura 45 - Quinta do Paranho 1 com os círculos segmentados em cada extremidade assinalados. ................. 81 Figura 46 - Teixugos 2. Relação dos círculos segmentados (vermelho) e os motivos de Arte Atlântica Clássica. 81 Figura 47 - Breia 1 com a localização dos círculos segmentados assinalada face aos motivos de Arte Atlântica Clássica (Fonte: Adaptado de Bettencourt & Santos-Estévez, 2018, p. 34). .................................................... 82 Figura 48 - Breia 9, relação dos círculos segmentados (a vermelho) e outros motivos (Fonte: Adaptado de Bettencourt & Santos-Estévez, 2018, p. 72). ............................................................................................... 83 Figura 49 – Painel 11b da Laje da Churra, no qual se observa a relação dos círculos segmentados (a vermelho) e as espirais (a azul). ................................................................................................................................ 84 Figura 50 - Painéis 2 e 3 da Laje das Fogaças com os motivos de Arte Atlântica Clássica assinalados (a azul) e os círculos segmentados assinalados (a vermelho). ..................................................................................... 85 Figura 51 - Pormenor da Pedra da Costa 1: círculo segmentado sobreposto a uma nuvem de pontos.............. 85 Figura 52 - Gravuras do Alto da Portela do Pau/Pau com o círculo pré-histórico assinalado (a vermelho) e o quadrado segmentado (a azul) e outros motivos históricos. .......................................................................... 87 Figura 53 - Pormenor do painel 3 com círculo segmentado assinalado, rodeado por cruciformes. ................... 88 Figura 54 - Pormenor do painel 1 da rocha 1 do Gião 1 com círculo segmentado assinalado, perto de antropomorfo esquemático e de uma cruz (Fonte: adaptado de Baptista, 2018, p. 35). .................................. 89 Figura 55 - Pormenor do painel 2, com círculo segmentado assinalado no centro de uma composição esquemática, talvez formando a cabeça de um antropomorfo (Fonte: Adaptado de Baptista, 2018, p. 35). ...... 90 Figura 56 - Rocha 21 do Gião 1, relação do círculo segmentado (vermelho) e retângulo (a azul) e outros motivos. ............................................................................................................................................................... 91 Figura 57 - Pombas 2 com os círculos segmentados assinalados (vermelho) e quadrado segmentado (azul). ... 92 Figura 58 - Painel 1 do Fieiral 1, relação do círculo segmentado (vermelho) e os motivos esquemáticos (azul). 93 Figura 59 - Painel 2 do Fieiral 1, relação dos círculos segmentados (vermelho) com os motivos esquemáticos (azul). ...................................................................................................................................................... 93
xvi Figura 60 - Painel 6 do Fieiral 2, com o círculo segmentado assinalado (a vermelho) e os motivos em “U” da arte esquemática tardia (a azul)........................................................................................................................ 94 Figura 61 - Chão das Agras e a relação dos círculos segmentados (a vermelho) com outros motivos da Arte Esquemática Antiga, quadrado segmentado assinalado (a azul). A sobreposição de motivos verifica-se entre o círculo segmentado do centro da composição e um pequeno círculo aí existente (a laranja). ........................... 95 Figura 62 - Painel 1 da Chã da Coelheira com o círculo segmentado assinalado ............................................ 96 Figura 63 - Painel 2 da Chã da Coelheira com círculos segmentados assinalados. ......................................... 97 Figura 64 - Chã da Rapada 3 com círculos segmentados assinalados. .......................................................... 98 Figura 65 - Painel 3, 4, 5 e 6 da Eira das Lamelas, com os círculos segmentados assinalados (painel 3). ........ 99 Figura 66 - Painéis 1, 2, 3A e 3B de Outeiro Machado 1. Localização do círculo segmentado no painel 2 (a vermelho) face aos motivos esquemáticos, sobretudo presentes nos painéis 3A e 3B................................... 100 Figura 67 - Vargielas 1 (painel 3, 4 e 5) com círculos segmentados (vermelho), motivos atlânticos clássicos (azul), motivos esquemáticos (amarelo). ................................................................................................... 103 Figura 68 - Fieiral 2 (painel 6) relação entre o círculo segmentado (a vermelho), o machado (a azul), as paletas (a laranja) e o podomorfo (a amarelo). ..................................................................................................... 105 Figura 69 - Breia 1 (painel 7) relação entre os círculos segmentados (a azul) e o podomorfo (a vermelho) (Fonte: Adaptado de Bettencourt & Santos-Estévez, 2018, p. 40). .......................................................................... 106 Figura 70 - Fieiral 2 (painel 4), relação dos círculos segmentados (vermelho) com paletas (a azul). ............... 107 Figura 71 - Outeiro Machado; painel 1 (à direita) com machados assinalados (azul) e painel 2 (à esquerda) com círculo segmentado assinalado (vermelho) e paletas (a amarelo) nos dois painéis. ....................................... 108 Figura 72 - Desenho de Figueiró 1 de Abel Viana (1960). ........................................................................... 109 Figura 73 - Monte da Fonte Seca e a localização do círculo segmentado e o motivo retangular que parece contemporâneo. ..................................................................................................................................... 110 Figura 74 - Rocha 23 do Gião 1 localização do círculo segmentado (à esquerda) e.Vargielas 2 e a localização do círculo segmentado (à direita). ................................................................................................................. 111 Figura 75 - Pormenor de Santo Ovídio 1 (à esquerda) e localização do círculo segmentado de Santo Ovídio 2 (à direita). .................................................................................................................................................. 111 Figura 76 - Discos de ouro da Irlanda (Fonte: Cahill, 2015). ....................................................................... 112 Figura 77 – Artefacto em ouro de Balkakra (Fonte: https://historum.com). ................................................. 113 Figura 78 - Os dois lados do carro votivo de Trundholm, na Dinamarca (Fonte: Fot. do Samlinger Museu Nacional da Dinamarca: https://samlinger.natmus.dk/DO/asset/2613). ................................................................. 113 Figura 79 – A mulher Tobol com círculo segmentado em bronze na cintura (fonte: Aner & Kersten, 1986 in Kristiansen & Larsson, 2006, p. 301) ....................................................................................................... 114
xvii Figura 80 – Representações de círculos segmentados nas luras de bronze de Wismar (Fonte: Kristiansen & Larsson, 2006, p. 196). .......................................................................................................................... 115 Figura 81 - Carro votivos de Baiões 1 (Fonte: Silva-Gomes, 1992, in Schattner, 2011-2012). ........................ 115 Figura 82 - Disco em bronze proveniente do castro de Chao Samartín (Fonte: Villa Valdés, 2009). ................ 116 Figura 83 - Esquerda: disco solar em âmbar e metal encontrado na Dinamarca (Fonte: (Museu Nacional da Dinamarca); Meio: representação rupestre de disco solar, Backa, Bohusland, Suécia (Fonte: https://www.rockartscandinavia.com); Direita: Pormenor do painel 2 da Laje das Fogaças com provável representação do disco solar. .................................................................................................................. 117 Figura 84 - Entrada do túmulo de Bredarör, em Kivik, Suécia (Goldhahn 2009: 361) e esteios do câmara do túmulo de Bredarör, em Kivik, Suécia (Fonte: Goldhahn 1999: 159). ......................................................... 118 Figura 85 - Runohäll, Tanum 311 (Ling, 2010).......................................................................................... 119 Figura 86 - Representação rupestre de carro solar de Backa, em Brastad, Bohusländ, Suécia, puxado por um veado (Almgren, 1927, in Kristiansen & Larsson, 2006, p. 287). ................................................................ 120 Figura 87 – Gravuras de círculos segmentados em Franarp, na Suécia (Fonte: Coles, 2002 in Kristiansen & Larsson, 2006, p. 221) ........................................................................................................................... 120 Figura 88 - Gravuras rupestres de Fossum, na Suécia (Fonte: https://www.rockartscandinavia.com). ........... 121 Figura 89 - Esquerda: Estela de Atégua em Córdoba; Meio: Estela de Cabeza de Buey 1, em Cabeza de Buey; Direita: Estela de Substation, em Castelanu-le-Lez (fonte: Guadarmino, 2010). ............................................ 121 Figura 90 – Território teórico de exploração pedestre de 2 horas desde o Castro S. Caetano (6) e a localização de Teixugos 2 (15) (©UAUM). ................................................................................................................. 125 Figura 91 – Território teórico de exploração pedestre de 2 horas desde o povoado de Cristelo (8) e a localização de Monte de Porreiras 3 (18) (©UAUM). .................................................................................................. 125 Figura 92 – Território teórico de exploração pedestre de 2 horas desde o povoado de Sto. António (9) e a localização de Ereira 2 (24), Figueiró 1 (25) e Laje da Churra (26) (©UAUM). ............................................. 126 Figura 93 – Território teórico de exploração pedestre de 2 horas desde o Castro de Álvora (7) e a localização de Pedra da Costa 1 (©UAUM). ................................................................................................................... 127 Figura 94 – Território teórico de exploração pedestre de 2 horas de Castelo Faria (1) e o Povoado da Quinta do Rapido (2) e a localização da Quinta do Paranho 1 (1) (©UAUM)................................................................ 128 Figura 95 – Território teórico de exploração pedestre de 2 horas desde o povoado de Santa Ana (5) e a localização de Outeiro Machado 1 (30) (©UAUM). .................................................................................... 129 Figura 96 – Território teórico de exploração pedestre de 2 horas desde o povoado do Alto da Subidade (4) e a localização da Eira das Lamelas (29) (©UAUM). ....................................................................................... 130 Figura 97 – Território teórico de exploração pedestre de 2 horas desde o povoado do Alto da Senhora da Piedade (3) e a localização de Crastoeiro 2 (28) (©UAUM). .................................................................................... 130
xviii Figura 98 - Breia 5, associação do círculo segmentado (vermelho) e os quadrúpedes parecendo materializar o nascer do sol e o ocaso no solstício de verão, consoante a orientação dos equídeos (Fonte: Adaptado de Bettencourt & Santos-Estévez, 2018, p. 59) .............................................................................................. 133 Figura 99 - Breia 1 (painel 7), associação do círculo segmentado (vermelho) e quadrúpedes (azul), dirigindo-se estes para o nascer e ocaso solar no solstício de verão, tal como indicam os segmentos do círculo, que, por sua vez, adicionam informação sobre o solstício de inverno (Fonte: Adaptado de Bettencourt & Santos-Estévez, 2018, 40). ....................................................................................................................................................... 134 Figura 100 - Monte de Porreiras 3, associação do círculo segmentado e quadrúpedes (a vermelho). ............. 135 Figura 101 – Laje das Fogaças e a localização dos quadrúpedes (a vermelho). ........................................... 136 Figura 102 - Painel 2 da Laje das Fogaças com o cervídeo assinalado (a vermelho) e equídeo (a azul) e os vários círculos segmentados a que se associam. ................................................................................................ 137 Figura 103 – Laje da Churra, associação dos círculos segmentados (vermelho) e do equídeo (pintada a cinzento). ............................................................................................................................................... 138 Figura 104 - Laje da Churra (painel 6), associação entre um equídeo (pintada a cinzento) com um círculo segmentado no dorso. ............................................................................................................................ 139 Figura 105 – Fieiral 2 (painel 10) composição na qual se identifica um círculo segmentado junto do dorso do animal. .................................................................................................................................................. 140 Figura 106 - Laje da Churra (painel 6), associação entre os círculos segmentados (vermelho) e os barquiformes (azul). .................................................................................................................................................... 141 Figura 107 – Laje da Churra (painel 11b) e a relação entre os círculo segmentados (a vermelho) e os diversos barquiformes (a azul). ............................................................................................................................. 142 Figura 108 – Fieiral 2 (painel 6), a relação do círculo segmentado com o machado. .................................... 143
xix Índice de Tabelas Tabela 1 - Distribuição topográfica dos afloramentos com círculos segmentados ............................................ 45 Tabela 2 - Proximidade e relação direta dos lugares estudados com recursos hídricos .................................... 45 Tabela 3 - Altura dos afloramentos face ao solo atual ................................................................................... 53 Tabela 4 - Posição da superfície dos painéis gravados ................................................................................. 54 Tabela 5 - Visibilidade para o espaço físico a partir dos afloramentos gravados .............................................. 56 Tabela 6 - Localização dos círculos segmentados no afloramento ................................................................. 70 Tabela 7 - Orientação dos segmentos dos círculos ....................................................................................... 76 Tabela 8 - Orientação dos segmentos dos círculos da Laje das Fogaças ........................................................ 78 Tabela 9 - Orientação dos segmentos dos círculos da Laje da Churra ............................................................ 78
1 Introdução A presente dissertação visa adquirir o grau de Mestre em Arqueologia, atribuído pelo Departamento de História, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho. A elaboração deste trabalho nasce do gosto e da vontade de estudar as manifestações de arte rupestre presentes no território nacional. Partindo desta ideia foi necessário afunilar e definir um tema em concreto. Daqui surge a vontade de estudar um motivo em concreto, o círculo segmentado. Assim sendo, revelou-se interessante realizar uma Dissertação sobre os círculos segmentados gravados no espaço circunscrito do Noroeste português. Foi igualmente necessário delimitar o espaço de trabalho que, para este caso, compreende o Noroeste português, cujas fronteiras correspondem ao rio Minho, a norte, ao rio Tua, a este, ao rio Douro, a sul, e ao oceano Atlântico, a oeste. Este trabalho subdivide-se em quatro partes e um anexo, possuindo vários capítulos. Assim, a Parte I, intitulada Considerações Introdutórias , divide-se em dois capítulos: o primeiro capítulo é relativo à revisão da literatura sobre a arte rupestre nacional, com especial foco para o que foi publicado sobre os círculos segmentados e, o segundo capítulo, é relativo aos objetivos gerais e específicos do trabalho. A Parte II é relativa à Metodologia . Nesta são abordados vários capítulos, desde o quadro e os conceitos teórico que se adotaram, bem como a explicação da metodologia utilizada, tanto no trabalho de campo, como no trabalho de gabinete. A Parte III, designada de Espaço de trabalho , descreve as características físicas e ambientais do Noroeste português, a área de estudo. A Parte IV e última, referente à Discussão dos dados e interpretações , possui treze capítulos. O primeiro consiste numa introdução aos dados sujeitos ao estudo e o que vai ser analisado; o segundo descreve a localização geográfica dos afloramentos gravados; o caracteriza descreve o contexto físico que os envolve; o quarto demonstra a proximidade com recursos hídricos; o quinto trabalha a articulação com os recursos mineiros metálicos; o sexto apresenta uma caracterização da superfície gravada; o sétimo versa sobre as condições de visibilidade para o espaço físico; o oitavo aborda a relação das condições de visibilidade com o ciclo solar; o nono analisa o número de círculos segmentados e a sua orientação por afloramento; e o décimo aborda a questão cronológica através da relação dos círculos segmentados com outros estilos de arte rupestre. Na questão cronológica, exploram-se os paralelos arqueológicos. No capítulo onze
2 analisa-se a proximidade dos sítios com aqueles motivos estudados com os povoados considerados contemporâneos. No capítulo doze, relativo a O papel social e simbólico dos lugares gravados com círculos segmentados , fazem-se interpretações sobre a simbologia e o significado que possuíam os círculos segmentados. Por fim, o capítulo treze é dedicado às Considerações Finais . Esta dissertação termina com a apresentação da bibliografia utilizada. Esta dissertação compreende, ainda, o Anexo 1, intitulado Os círculos segmentados do Noroeste de Portugal , que mais não é do que uma inventariação dos sítios sujeitos a estudo. Este subdivide-se em dois capítulos: uma parte introdutória, onde são mencionados os critérios utilizados para elaborar o inventário, e um segundo capítulo, referente a todos os afloramentos que foram estudados e inventariados.
3 PARTE I. CONSIDERAÇÕES INTRODUTÓRIAS 1. Revisão da literatura O estudo sobre os círculos segmentados gravados no Noroeste de Portugal que aqui se propõe representa mais um episódio da investigação arqueológica em arte rupestre. Esta jornada inicia-se relativamente cedo, acompanhando lado a lado o surgimento da disciplina da Arqueologia em Portugal. Assim, o primeiro registo de um sítio arqueológico com arte rupestre dá-se no século XVIII, mais precisamente, em 1712, pela mão do Padre António Carvalho da Costa que descreveu as pinturas do Cachão da Rapa, em Carrazeda de Ansiães, junto ao rio Douro (Gomes, 2002). Nesse mesmo século, surge a obra de D. Jerónimo Contador de Argote, intitulada Historia Ecclesiastica do Arcebispado de Braga, Primaz das Espanhas, que inclui alguns registos relativos a sítios com arte rupestre nacional (Argote, 1732, 1734). No século XIX, há a registar a obra de Augusto Filipe Simões, intitulada Introdução à Archaelogia da Península Ibérica (1878), que contém novas imagens sobre a arte rupestre portuguesa. Neste mesmo período surge a figura de Francisco Martins Sarmento, que dá a conhecer as gravuras rupestres que se situam quer no interior da Citânia de Briteiros e castro de Sabroso, quer nos arredores destes dois sítios arqueológicos (Sarmento, 1899,1903). Para além disto, e através das suas inúmeras prospeções, conseguiu identificar mais sítios deste género na Serra da Estrela (Sarmento, 1883) e no Alto Minho (Sarmento, 1999) 1 . Este autor procede a algumas comparações entre as representações gráficas que ia encontrando com motivos da Índia e, posteriormente, com motivos da civilização micénica. Este exercício é fruto das correntes epistemológicas vigentes na altura, como o difusionismo, conforme defende Mário Varela Gomes (2002). Nos finais deste ciclo secular, surge José Leite de Vasconcelos com a sua obra Religiões da Lusitânia, na qual oferece a mais larga referência à arte rupestre até esse período, sobretudo no que se refere às pinturas e gravuras megalíticas (Vasconcellos, 1897). Em 1907, publica-se um breve inventário de arte megalítica portuguesa desenvolvido por José Leite de Vasconcelos, a convite de Adrien Mortillet, sendo esta investigação apresentada em França, no Congresso Pré-Histórico de França (Vasconcellos, 1907). 1 Texto póstumo.
4 Na senda das obras anteriormente publicadas, surge o trabalho da autoria de Juan Cabré (1916) abordando a arte rupestre galega e portuguesa, nomeadamente sítios com gravuras, como a da Eira dos Mouros (Pontevedra) e sítios com pinturas, como as do Cachão da Rapa (Carrazeda de Ansiães), além de esculturas antropomorfas. Nele, apresenta algumas interpretações e retira ilações de ordem cronológica daquilo que designa por Arte Esquemática, na qual inclui os motivos geométricos (quadriláteros), os antropomorfos, os traços horizontais e os símbolos solares (e.g. círculos segmentados pintados e presentes no Cachão da Rapa). Através do estabelecimento de paralelos com os motivos do Cachão da Rapa e da Eira dos Mouros com as pinturas dos monumentos megalíticos, bem como o surgimento da mesma tipologia de micrólitos em ambos os cenários, o autor baliza a Arte Esquemática entre o Neolítico e o surgimento dos primeiros artefactos em metal. Para além disso, o autor refere que este movimento artístico foi introduzido por “ neolíticos iberizados” provenientes do Norte de África (Cabré, 1916). No entanto, e até a este momento, a investigação arqueológica relativa à arte rupestre tinha ainda um carater divulgador e de sinalizar sistematicamente a presença de novos sítios com arte rupestre. Pela mesma altura, surge a figura de Henri Breuil que, em 1916, apresenta o primeiro estudo monográfico sobre o sítio arqueológico da Lapa dos Gaivões (Arronches), elaborando um decalque dos motivos através da técnica de frottage (Breuil, 1917). Henri Breuil assume especial importância no estudo e investigação de arte rupestre em Portugal, ao introduzir metodologias de investigação científicas no estudo da arte rupestre. Além do levantamento da totalidade de todos os motivos existente na Lapa dos Gaviões, regista a sua respetiva distribuição espacial e implementa a noção de estratigrafia e de associação, permitindo, assim, a criação de modelos de sucessão diacrónica, o que aliás foi salientado por Gomes (2002). Com a aplicação dos alicerces metodológicos que ainda hoje vigoram, Henri Breuil realizou importantes catálogos e sistematizações da gramática iconográfica rupestre da Península Ibérica, tanto paleolítica como pós-paleolítica, apresentando algumas propostas da evolução crono-estilística para diversos lugares com manifestações rupestres pelo território ibérico, sustentadas por paralelos assentes em cerâmica decorada encontrada em depósitos funerários ou rituais. Assim, entre 1916 e 1935, a imensa obra de Henri Breuil e as suas respetivas descobertas inspiraram vários investigadores nacionais e estrangeiros que trabalharam a arte rupestre do ocidente da Península Ibérica, originando uma grande produção científica entre os anos 20 e 40 do século passado.
5 Logo em 1923, Hugo Obermaier inicia o seu trabalho com uma primeira síntese sobre a arte rupestre do Noroeste peninsular. Nesta, identifica seis grupos de representações iconográficas, atribuindo os desenhos lineares simples e as figuras humanas ou de animais ultra esquematizados ao Epipaleolítico e os círculos simples ou concêntricos (labirintos), figuras complicadíssimas (composições intrincadas de círculos, linhas e covinhas), signos quadriláteros ou ovais e figuras estilizadas de animais a cronologias posteriores (Obermaier, 1923, in Varela Gomes 2002). Em 1925, Obermaier simplifica esta divisão e reduz aqueles seis grupos a apenas dois, denominados de “ Altere Gruppe” , contendo desenhos lineares simples, cruzes e quadriláteros com cronologia mais antiga, atribuídos ao período pós-Neolítico, ou seja, numa fase inicial da Idade do Bronze, e “ Jungere Gruppe” , comportando zoomorfos, círculos e labirintos, por sua vez atribuídos à Idade do Bronze pleno (Obermaier, 1925). De resto, este foi o primeiro investigador a tentar perceber as inter-relações entre a arte rupestre e outros sítios arqueológicos, admitindo uma certa relação entre a exploração de recursos naturais mineiros com a construção de monumentos megalíticos e, também, com sítios com arte rupestre ao ar livre (Gomes, 2002). Apresentada numa época de grande proliferação científica e do seu respetivo debate, a proposta de Obermaier (1925) teve aceitação científica generalizada, embora com algumas reservas por parte de certos investigadores, como López Cuevillas e Bouza Brey (1929). A posição reticente destes deve-se à atribuição de motivos como as suásticas e os cavaleiros à Idade do Ferro por parte dos conterrâneos galegos. Nesta linha de pensamento situa-se, também, Sobrino Buhigas (1935), com a sua obra de referência Corpus Petroglyphorum Gallaeciae que, de forma a complementar a cronologia proposta por Obermaier, atribui os motivos zoomórficos também à Idade do Ferro. Na década dos anos 40, a datação e a seriação iconográfica de Obermaier vem novamente a debate pela mão de López Cuevillas (1943), desta feita adicionando uma componente espacial. Este autor dividiu a iconografia do Noroeste em três grupos: o Grupo A, que comportava os cruciformes e ferraduras, situado no Norte de Portugal e Sul da Galiza, estendendo-se até à costa; o Grupo B, compreendendo combinações circulares e distribuindo-se pela área correspondente à fachada Atlântica ocidental e tendo o seu limite a sul no rio Vouga; e o Grupo C, incluindo zoomorfos, por vezes acompanhados por combinações circulares, distribuídos na zona limite de Pontevedra e alcançando a margem esquerda do rio Minho. Posteriormente, analisou novamente a arte rupestre do Noroeste Peninsular, identificando cerca de 27 tipologias de motivos (López Cuevillas, 1951). Neste trabalho identifica: (1) alfabetiformes; (2) figuras esquematizadas com traços naturalistas; (3) ídolos esquemáticos; (4) figuras possivelmente
12 características dos motivos, que tivessem um base sólida de dados e que percebessem a sua dispersão geográfica para, consequentemente, perceber a sua evolução, de modo a ter um grupo de motivos mais bem consolidados (V.O. Jorge, 1983, 1986, 1987). Realça-se o especial foco do autor na arte dos rochedos gravados ao ar livre do Norte e da Beira, explicando as problemáticas que lhe estão associadas, enunciando o trabalho de Martinho Baptista (1983-84) e enumerando e caracterizando os diversos locais (e.g. Bouça do Colado, as gravuras do Monte da Laje e o santuário rupestre do Gião) (V.O. Jorge, 1986, 1987). Apesar do autor abordar cada tema individualmente, alerta para a possibilidade de os vários motivos que analisa poderem interrelacionar-se, não sendo a sua subdivisão um entrave para a investigação futura, realçando que a interpretação dos motivos deve ser fortemente sustentada através de uma metodologia sólida (V.O. Jorge, 1986, 1987). Em 1986, Martinho Baptista realiza novo trabalho de síntese, abordando a arte rupestre em três grandes temas: pinturas esquemáticas, arte do Vale do Tejo e as gravuras dos Grupos I e II do Noroeste, reforçando, ainda, as ideias de trabalhos anteriores. A década de 90 é um período áureo da investigação de arte rupestre em Portugal, devido à descoberta das gravuras do Vale do Côa e de todo o impacto que estas geraram na sociedade portuguesa, levando inclusive à criação do já extinto Centro Nacional de Arte Rupestre (CNART) e à criação do Parque Arqueológico do Vale do Côa. Este organismo ganha papel de destaque a nível nacional, muito pela mobilização em massa da população portuguesa em torno da descoberta das gravuras do rio Côa, mas também a nível internacional, visto que as gravuras do Côa se mostram inéditas por se tratar das primeiras manifestações de arte rupestre ao ar livre datadas do Paleolítico. Neste período, surgem os trabalhos desenvolvidos por Vítor Oliveira Jorge (1991; 1994; 1996-1997; 1997) e V. O. Jorge e Susana O. Jorge; (1990; 1991; 1995), incidindo especialmente sobre a arte megalítica portuguesa. Na mesma década, surge na Galiza e em Portugal, um conjunto de trabalhos sobre arte rupestre da autoria de investigadores galegos, portugueses e do investigador britânico Richard Bradley (Bradley, Criado Boado e Fábregas Valcarce, 1993-1994, 1994; Fábregas e Bradley, 1996; Sanches, Santos, Bradley e Fabregas Valcarce, 1998). Nestes aborda-se o estudo da arte rupestre tendo em conta novas perspetivas, para além das usuais abordagens tipológicas.
13 Pela primeira vez, em 1997, é utilizada a expressão “ Arte Atlântica ” para os motivos que se enquadravam na “ Arte Galaico-Portuguesa ” ou no “ Grupo I do Noroeste ” (Bradley, 1997). Bradley (1997) propõe uma cronologia lata para as manifestações de Arte Atlântica, balizando-as entre os finais do IV milénio a.C., ou seja, entre o Calcolítico e a Idade do Bronze regionais. Já no início do século XXI, este mesmo autor escreve um importante artigo demonstrando a diferença entre Arte Atlântica e a Esquemática no Noroeste da Península Ibérica, no que concerne às temáticas, superfícies gravadas, acessibilidades e audiências (Bradley, 2002). A obra de Bradley (1997) é importante no panorama da investigação nacional pela introdução no estudo da arte rupestre de premissas da Arqueologia da Paisagem e pela inter-relação de três elementos: arte, suporte e paisagem. A cronologia longa de Bradley (1997) foi aceite por alguns investigadores e criticadas por outros, como é o caso de A. Peña Santos e Rey Garcia (2001), partidários de uma cronologia mais curta. Para reforçar a sua hipótese, estes vão usar uma das metodologias propostas por Bradley (1997), a análise espacial de lugares gravados, focando a sua inter-relação entre os sítios com arte rupestre e os povoados dos finais do III, inícios do II milénio a.C. Em 2003, Lara Alves (2003, 2009), perante o que se considera a originalidade da Arte Atlântica no Noroeste (com motivos zoomorfos e armas), preferiu utilizar a expressão “ Arte de Tradição Atlântica ”. Sendo partidária da cronologia longa, recua a origem desta arte para os inícios do IV milénio a.C., ou seja, para o Neolítico regional, por considerar que há semelhanças entre os motivos atlânticos e os motivos da arte megalítica (Alves 2003, 2009). Esta cronologia foi paulatinamente adotada por vários autores, ainda que por vezes com certas nuances (Dinis e Bettencourt, 2009; Bettencourt, 2009; 2013; Valdez, 2010; Valdez-Tullett, 2013, 2019; Cardoso, 2015). Cardoso (2015) atribuiu uma cronologia longa à Arte Atlântica, balizada entre o IV milénio e o I milénio a.C., tendo identificando duas fases de gravação na bacia do rio Ave como inseríveis na Arte Atlântica, além de uma eventual terceira fase ou já um novo ciclo artístico (Cardoso, 2015). Na primeira fase figuram os motivos circulares, covinhas e linhas meandriformes; na segunda perfilam os motivos zoomorfos esquemáticos, admitindo a presença de um barquiforme e alguns podomorfos ainda nesta fase; por fim, na terceira fase ou num novo ciclo artístico, insere uma suástica, uma dupla espiral e um serpentiforme (Cardoso, 2015).
14 Recentemente, Alves e Reis (2017) e Alves e Carvalho (2017) recuam a origem da Arte Atlântica para o V milénio a.C. M. Santos-Estévez (2007, 2012), propõe igualmente uma cronologia longa para a Arte Atlântica, afirmando que esta tem um longo período de atuação, sendo mutável, pelo que subdivide os seus momentos em três fases. A primeira fase situada no Neolítico, inclui motivos de combinações circulares, covinhas, círculos com covinhas e sulcos; a segunda situa na Idade do Bronze, inclui representações de armas (punhais, espadas e alabardas); e, na terceira fase, que situa na primeira Idade do Ferro, inclui cenas de caça, de equitação, figuras humanas, círculos concêntricos e labirintos (Santos-Estévez, 2012). No trabalho de 2007 também reflete sobre alguns motivos, como os círculos segmentados, quadrados segmentados, serpentiformes, ferraduras e podomorfos, símbolos que insere no que designa de Arte Esquemática Atlântica e que, cronologicamente, situa na Idade do Ferro (Santos-Estevez, 2007). No que diz respeito à Arte Esquemática gravada, desde cedo que em Portugal se percebeu a necessidade da sua revisão (Jorge, 1986; Alves e Reis, 2009, in Bettencourt 2019b), algo tentado por Cardoso (2015) e Cardoso e Bettencourt (2015) para a bacia do rio Ave, e por Bettencourt (2017a, 2017b, 2019a) em termos mais generalistas. Esta última autora propõe uma subdivisão da Arte Esquemática gravada de ar livre em duas fases, sendo a primeira, denominada de Arte Esquemática Antiga, inserível no Neolítico e no Calcolítico regionais, conjugando os antropomorfos esquemáticos, reticulados simples e complexos, soliformes e círculos simples. A segunda, Arte Esquemática Recente, e que enquadra na Idade do Bronze com persistência pela Idade do Ferro, inclui motivos em “U” ou semicirculares, com ou sem sulco e covinha central, e representações de falos (Bettencourt, 2017a, 2017b, 2019a). Nestas mesmas obras, Bettencourt (2017a, 2017b, 2019a), defende que a expressão “ Arte Atlântica” deve apenas ser usada para a sua primeira fase, a dita fase “clássica”, que é a que tem afinidades com as artes do Reino Unido e da Irlanda, e considera que os restantes motivos existentes no Noroeste ibérico (armas, cervídeos, equídeos, barquiformes, círculos segmentados, paletas, podomorfos, entre outros) fazem parte de um outro grupo que terá surgido na Idade do Bronze e que acompanha as alterações estruturais verificadas neste período em termos ideológicos, sociais, económicos e materiais (Bettencourt, 2019a). Este grupo, ainda difícil de definir, mas que Bettencourt (2019a) designa por “ figurativo” , comporta motivos que podem estar associados a afloramentos com grafismos de Arte Atlântica ou de Arte Esquemática, mas que podem, também, ocorrer em afloramentos ou áreas novas ou associadas a motivos distintos dos referidos estilos. É precisamente neste último grupo que se situa o nosso objeto de estudo, o círculo segmentado.
15 Os círculos segmentados foram inseridos por Santos-Estévez (2007) na Arte Esquemática Atlântica e atribuídos à Idade do Ferro. Já Bettencourt (2017a, 2017b, 2019a, 2019b) defende que não se enquadram nem na Arte Esquemática, nem na Arte Atlântica, por ocorrerem associados a estas duas expressões, sendo possível que se insiram num novo estilo artístico, ainda que mal conhecido e definido. A autora, através do estabelecimento de paralelos com a mitologia nórdica, remete a origem da sua cronologia para a Idade do Bronze (Bettencourt, 2017a, 2017b, 2019a). Quanto à sua interpretação, num trabalho que incide sobre o complexo de gravuras da Breia, em Viana do Castelo, Bettencourt e Santos-Estévez (2018), colocam a hipótese destes motivos se relacionarem com o culto solar, através da orientação dos seus segmentos, bem como a sua posição espacial relativamente a outros motivos tidos como seus contemporâneos, como é o caso de alguns equídeos (Bettencourt e Santos-Estévez, 2018). A análise do culto solar, associada aos círculos segmentados e aos equídeos, indicia influências da mitologia nórdica no litoral do Noroeste e é posteriormente desenvolvida por Bettencourt (2019a). Apesar destes estudos promissores, denota-se ainda a falta de uma sistematização sobre a temática no Noroeste de Portugal, facto que, per se, justifica plenamente o presente trabalho, apesar de já ter sido efetuada uma tentativa de sistematização para os cursos médio e inferior da bacia do rio Lima (Marinho et al., 2020 ). Com isto em mente, em termos de circunscrição geográfica, a área de trabalho terá como limite norte a margem direita do rio Minho, como limite oeste o oceano Atlântico, como limite sul a margem esquerda do rio Douro e como limite este, a bacia do rio Tua, incidindo sobre os atuais distritos de Braga, Viana do Castelo, Braga e Vila Real. 2. Objetivos O objetivo primordial deste trabalho é tentar aferir aspetos ideológicos das comunidades humanas póspaleolíticas através do estudo da manifestação vulgarmente conhecida como arte rupestre, nomeadamente, dos círculos segmentados gravados identificados no Noroeste de Portugal, motivos raros nesta zona do país. De forma a materializar o objetivo principal, foram pensados um conjunto de objetivos específicos, a saber:
16 • conceber um inventário de todos os afloramentos que contêm círculos segmentados na área de estudo (Noroeste de Portugal) para, dessa forma, sistematizar e, de certo modo, complementar o trabalho até agora realizado ao longo da investigação em arte rupestre em Portugal; • realizar, ao nível da macro escala, uma análise da sua distribuição espacial, seguindo pressupostos da Arqueologia da Paisagem, tentando identificar padrões de distribuição dos sítios arqueológicos abordados e as relações entre eles e o contexto físico envolvente; este exercício permitirá perceber a relação entre os afloramentos gravados e os elementos naturais que os rodeiam, como determinadas orografias, corredores de circulação naturais, recursos mineiros metálicos, recursos hídricos, entre outros; • realizar, ao nível da microescala, (1) uma análise às características físicas dos afloramentos gravados; (2) uma análise espacial do círculo segmentado no contexto rochoso (superfície pétrea) onde este se incorpora; e (3) uma análise espacial dos círculos segmentados nos contextos culturais onde ocorrem, tentando perceber que eventuais relações existem entre estes motivos e outros estilos de arte rupestre; • estudar a inter-relação destes motivos com outros contextos arqueológicos seus contemporâneos, tais como povoados, necrópoles e achados, tentando perceber de que forma eles se articulam em termos sociais, culturais e ideológicos com os mesmos; • propor eventuais interpretações para o papel simbólico destes motivos, o que se torna pertinente ao permitir analisar a sua origem, perceber em que contextos sociais, arqueológicos e paisagísticos a conceção de “círculo” ocorre e, também, perceber a simbologia que lhe poderá estar subjacente nos seus variados contextos; com efeito, este exercício pode dar algumas respostas sobre questões relativas à funcionalidade do círculo, quer do ponto de vista abstrato quer prático. Com a correlação dos dados recolhidos pretende-se igualmente propor uma cronologia para estes motivos, tanto através da análise estratigráfica horizontal, como de paralelos com contextos onde a sua representação ocorre, conforme o são a ourivesaria, a cerâmica, a metalurgia ou a arte rupestre. Após a execução dos passos anteriores, será possível abrir um leque de propostas relativamente às eventuais interpretações para estes motivos. Mas, mais importante do que isso, e no seguimento deste último objetivo pretende-se, de igual modo, levantar questões que possibilitem a continuação do estudo dos círculos segmentados gravados na esfera científica da arte rupestre nacional.
17 PARTE II. METODOLOGIA 3. Metodologia Este capítulo será dividido em dois subcapítulos. O primeiro, intitulado quadro teórico, será dedicado à especificação das premissas e dos conceitos teóricos aplicados no presente trabalho. O segundo, dedicado à praxis, especificará as metodologias de campo e de gabinete usadas para a concretização do mesmo. 3.1. Quadro teórico Perspetiva do conhecimento A produção e a conceção do conhecimento em Arqueologia acompanharam o desenvolvimento da disciplina enquanto área científica. Trata-se de um processo gradual e evolutivo resultante do surgimento de diversos paradigmas teóricos que devem ser entendidos à luz da sua contextualização e cujo contributo, sem exceção, teve a sua importância. Nos primórdios da Arqueologia, no período renascentista, predominava a recolha dos artefactos que, por conseguinte, resultou na prática de antiquarismo, onde se privilegiava o colecionismo e o primado do objeto, sendo um dos principais objetivos justificar os relatos bíblicos e/ou outros acontecimentos históricos relatados nas fontes escritas (Bettencourt, 1991). Contudo, em meados do século XIX, a disciplina arqueológica conhece um novo momento, fruto de uma discussão entre os eruditos que defendiam a perspetiva Criacionista (negando a existência da PréHistória) e os eruditos que defendiam a perspetiva Evolucionista (afirmando a existência da Pré-História). Esta discussão conhece um fim com o contributo de Jacques Boucher de Perthes, Antiquités Celtiques et Antédiluviennes (1847), que não só afirma a existência da Pré-História, como também confere um carácter científico à disciplina. Associadas a estes eventos temos ainda as obras de Charles Darwin que, em 1859, publica Da Origem das Espécies por Meio da Seleção Natural e, em 1871, publica a Descent of man and selection in relation to sex . Estas duas obras foram suplantadas por evidências e dados que o próprio Darwin recolheu, conseguindo, deste modo, afirmar a antiguidade do ser humano pré-histórico através da sua teoria da evolução das espécies (Darwin, 1859; Darwin & Murray, 1871). A partir deste momento, entre os finais do século XIX e inícios do século XX, desenvolve-se uma perspetiva focada no ato de produzir conhecimento, a perspetiva histórico-cultural. Nesta linha de conhecimento, o principal objetivo passava por estabelecer sequenciações cronológicas e culturais baseadas na cultura material,
18 através de uma ferramenta/conceito denominado de fóssil-diretor e tendo marcadamente uma perspetiva difusionista (Bettencourt, 1991). No entanto, esta perspetiva era vista de forma pouco credível em relação ao conhecimento produzido, não apenas devido à dispersão dos factos, mas, também, porque apresentava teorias pobremente sustentadas. Nesta corrente, destaca-se Gordon Childe, um investigador que acompanhou o ritmo evolutivo da ciência e que desenvolveu alguns conceitos relacionados com o estudo da cultura material. Tentando circunscrevê-la em termos espaciais e adotando, também, a perspetiva evolucionista sobre as comunidades do passado, virá a ter grande influência na próxima geração de investigadores (Childe, 1951 in Bettencourt, 1991). Da necessidade de dar respostas a muitas das críticas levantadas, surge a denominada Nova Arqueologia ou Arqueologia Processual, sendo um dos seus percussores Lewis Binford (1962). Nesta nova maneira de produzir conhecimento, a principal necessidade passava por quantificar os dados para produzir uma base sólida, assentando no modelo hipotético-dedutivo de Hempel, com o objetivo de solidificar o caráter científico das suas investigações. O paradigma processualista concentrava os seus esforços em entender as causas das mudanças culturais em ambientes com características variadas (Renfrew e Bahn, 2005). Com efeito, os arqueólogos processualistas procuravam dar respostas às questões “Como?” e “Porquê?”, em detrimento das questões levantadas pelos histórico-culturalistas, mais focadas em “O quê?”, “Onde?” e “Quando?” (Renfrew e Bahn, 2005). Também neste cenário surgiram críticas à excessiva preocupação com a quantificação dos dados em detrimento da parte interpretativa do processo epistemológico, que tendia a ignorar questões relacionadas com a religião, a arte e o simbólico. Outra das críticas baseou-se na excessiva preocupação dos processualistas com as tecnologias adaptativas e a adesão aos paralelos culturais fornecidos pela Antropologia em detrimento do contexto histórico, acusados de uma exacerbada crença positivista na definição da ciência arqueológica (Bettencourt, 1991; Renfrew e Bahn, 2005) Em resposta a esta crítica, o paradigma da Nova Arqueologia acaba por evoluir naturalmente, tendo Lewis Binford defendido três pontos chave: (1) a cultura tem de ser vista como um sistema com os seus aspetos tecnológicos, económicos, sociais, políticos e ideológicos, todos eles interligados; (2) a importância da ecologia e a necessidade de observar a interação do meio ambiente com a cultura e o ser humano; e (3) necessidade de estudar a evolução dos sistemas culturais ao longo do tempo (Renfrew e Bahn, 2005).
19 Com efeito, surge uma nova perspetiva epistemológica no seio da Arqueologia, a denominada Arqueologia Pós-processual ou Arqueologia Interpretativa, sendo uma das suas figuras centrais, Ian Hodder. Esta nova “escola” surge criticando a já referida posição excessivamente positivista da corrente processualista, admitindo que o contexto histórico e espacial tem um papel fulcral para produzir um conhecimento arqueológico e científico sólido (Shanks e Hodder, 1999). Assim, “ a arqueologia contextual baseia-se na perspetiva de que a arqueologia deve examinar todos os aspetos internos possíveis de uma cultura arqueológica ” (Bicho, 2012, p. 78). Com efeito, isto materializa-se no primado do simbolismo, do significado, do contexto histórico, da agência, tudo isto no quadro de um indispensável espírito crítico (Renfrew e Bahn, 2005). De um modo geral, a Arqueologia Processual defende que a cultura material é passiva e que o ser humano a produziu consoante as necessidades para se adaptar ao Meio (Renfrew e Bahn, 2005). Por outro lado, Shanks e Hodder (1999) defendem que, para a Arqueologia Pós-processual, a cultura material é ativa, sendo manipulada para causar uma mudança social e, consequentemente, transformar o cosmos que as comunidades do passado possuíam. É importante ressalvar que na perspetiva da Arqueologia Pós-Processual, o conhecimento é tido como subjetivo, abrindo portas a uma panóplia de interpretações dos dados, estando estes devidamente sustentados. Após esta breve e sucinta descrição da evolução da disciplina arqueológica, pretende-se agora caracterizar a posição adotada neste trabalho. Com efeito, e no que ao nível teórico diz respeito, considera-se o conhecimento como algo subjetivo e interpretativo e assente num conjunto de dados empíricos. Da mesma forma, entende-se que a arte rupestre é, simultaneamente, uma manifestação do universo ideológico e da interação das comunidades do passado com o espaço que vivenciaram e que experienciaram, mas, também, um agente ativo na construção e na perceção desse universo e na construção das intricadas relações sociais (Gell, 1998). Partilha-se, assim, a visão de Gell (1998, p. 6): “ I view art as a system of action, intended to change the world rather than encode symbolic propositions about it ”. Resumidamente, explica-se a posição holística que este trabalho adota, recorrendo às várias ferramentas disponibilizadas pelas diferentes perspetivas, como por exemplo, a metodologia da Arqueologia Processual para sistematizar os dados, analisar os constituintes físicos do espaço ou a utilização de programas informáticos que auxiliem e facilitem todo o processo. A nível da Arqueologia Pós-processual, busca-se essencialmente o caráter interpretativo e a visão subjetiva sobre o conhecimento, devidamente fundamentado, mas sempre tendo plena consciência da sua inerente subjetividade.
20 Parte-se, ainda, da premissa de que as comunidades que gravaram afloramentos na Pré-História do Noroeste português tinham uma visão animista do Mundo, por oposição à visão contemporânea e fortemente alterada que, aos olhos de hoje, tende-se a ver e a explicar o Mundo. Vários autores (Ingold, 2000; Bradley, 2000; Gosden, 2009; Thomas, 2001; Tilley, 2004) admitem que, algo que é hoje é definido como inanimado, como é o caso dos afloramentos, poderiam ter sido no passado elementos animados, portadores de características espirituais para lá da sua materialidade física. Os relatos de S. Martinho de Dume, ainda no século IV e V, dão conta que a população do Noroeste português ainda realizava práticas animistas, mencionando o “ culto das pedras ” (Baptista, 1983-84). Aliado a isto temos o trabalho de Maria do Carmo Séren (2012), no qual demonstra hábitos e evidências animista no Norte de Portugal através do “ culto das pedras ”. Bradley (2000) reconhece que em muitas sociedades existe um elo entre determinados lugares naturais (penedos, caminhos, rios, etc.) e determinados poderes sobrenaturais que, por conseguinte, originam os mitos, as lendas e as crenças associados aos afloramentos. Assim, a conjugação dos signos gravados juntamente com a forma física do afloramento e a sua localização no espaço, resultam no pensamento simbólico e a visão cosmogónica que as comunidades do passado tinham sobre o Mundo (Sampaio et al , 2018). 3.1.2. Conceitos 3.1.2.1. Arte Rupestre O conceito de arte rupestre é bastante controverso, reconhecendo a maioria dos investigadores que versam sobre o assunto que este termo não é, nem pode ser, condizente com a real definição das representações que se apresentam. No entanto, ele é utilizado por ser necessário recorrer a uma taxonomia reconhecível entre académicos, com o objetivo de evitar alguns constrangimentos de semântica. Tal como refere Bradley (1997, p. 4), “ The term ‘rock art’ is unsatisfactory, but, as happens with so many technical terms, it is too late to look for an alternative now ”. Arte rupestre, no sentido lato, representa uma maneira de agir sobre a rocha. Com efeito, recorre-se à explicação funcional de T. Heyd (2005, p. 1) sobre a arte rupestre: “ The name conventionally given to a variety of marks on rock made, arranged, or framed by human beings, from all areas around the world, from all cultures, and from all time periods, beginning in prehistory and ranging into the present. Marks made by adding material to the surface, such as paintings,
21 stencils, and drawings, are called pictographs; marks made by removing material from the surface are called engravings or petroglyphs ”. No entanto, há que ter em conta as várias problemáticas que a crescente investigação tem suscitado. Ingold (1986) defende que estas representações podiam ser instrumentos de comunicação entre grupos, hipótese que foi testada por Bradley (1997) ao observar a proximidade de vários afloramentos gravados com vias de circulação naturais. Layton (1991, p. 13), por seu turno, demonstra a complexidade de definição de arte, admitindo que: “ There are two approaches to the definition of art which are applicable across cultural boundaries, even if neither seems to have quite universal application. One deals in terms of aesthetics, the other treats art as communication distinguished by a particularly apt use of images .”. Através das suas observações etnográficas, posiciona a arte rupestre como efeito da religião das comunidades do passado (Layton, 1991). Além disso, e a através deste raciocínio, Layton (1991) identifica dois tipos de arte religiosa, a xamânica e a totémica. Deste modo, demonstra que existem diferenças entre elas através de questões relacionadas com o acesso e com quem gravava ou pintava os motivos. Nas comunidades xamânicas, tudo gira em torno do xamã, aquele que tem poderes sobrenaturais e visões, podendo ser a arte rupestre uma consequência destas experiências (Layton, 1991). Nesta vertente xamânica, e no que em termos de acessibilidades diz respeito, esta variava entre lugares restritos ao próprio xamã e os lugares a utilizar pelo xamã e a restante comunidade (Layton, 1991). Com efeito, as gravuras/pinturas podiam ser realizadas por uma grande parte da comunidade ou por um grupo restrito dentro dessa mesma comunidade (Layton, 1991). Já comunidades totémicas estão associadas a religiões sacerdotais, estando a criação de signos, relativos à arte rupestre, dedicada apenas a membros de um determinado estatuto social (Layton, 1991). C. Tilley (1994) refere-se às manifestações de arte rupestre como sendo objeto de interpretação com correspondência aos mitos e às crenças presentes no cosmos das comunidades do passado. Com efeito, entende-se por arte rupestre como algo imbuído de bastante simbolismo e consequente significado, algo resultante de uma estreita inter-relação das comunidades pré-históricas com o meio envolvente e o meio social e cuja materialização ocorreu nas diversas manifestações (pintura, gravura e arte móvel). Deste
28 3.2.2. Trabalho de campo A principal atividade realizada neste parâmetro foi a prospeção, resultante do planeamento anteriormente referido. Durante esta atividade foi feita a deslocação aos vários sítios abordados em três distritos, nomeadamente, Braga, Porto, Viana do Castelo e Vila Real. Além de permitir a relocalização/atualização de informação, no decorrer dos trabalhos de prospeção foram encontrados sítios inéditos. Foram preenchidas fichas de inventário para cada sítio arqueológico, procedendo-se, assim, a uma nova descrição ou ao complemento das descrições já disponíveis, bem como à sua localização ou relocalização através das coordenadas geográficas decimais segundo o sistema WGS 84. Alguns afloramentos tiveram que ser alvo de trabalhos preliminares de limpeza superficial para uma boa observação, descrição, análise técnica e levantamento fotográfico. Foram recolhidas várias fotografias de cada um dos sítios arqueológicos, incluindo fotografias de contexto, do afloramento gravado e dos motivos, todas acompanhados de escala e de seta de indicação do Norte geográfico. Por fim, realizou-se um levantamento fotográfico de todos os afloramentos passíveis desta ação, para execução de posteriores modelos fotogramétricos. 3.2.3. Trabalho avançado de gabinete Findadas as atividades anteriormente descritas, procedeu-se ao tratamento dos dados obtidos. O recurso a Sistemas de Informação Geográfica (SIG), sobre a forma do software informático QGIS, permitiu realizar uma análise espacial dos sítios arqueológicos. Através deste processo, foi possível identificar a sua respetiva distribuição topográfica, bem como a relação com outros contextos arqueológicos seus contemporâneos, como recursos mineiros e com as vias de circulação naturais. Com o SIG foi possível analisar as questões com a visibilidade a partir dos afloramentos gravados. De igual modo, procedeu-se à análise do território teórico de exploração pedestre com limite temporário de 2 horas desde os sítios arqueológicos com arte rupestre bem como a partir de povoados considerados contemporâneos (Finzi et al ., 1970 in Bettencourt, 1999). Relativamente a este último método foram utilizadas linhas anisotrópicas de 30 minutos até estabelecer o território teórico de exploração pedestre de 2 horas tendo por basa a topografia destes lugares, encarando este exercício como uma estimativa da área explorada, podendo esta ter sido diferente na Pré-História. Estas análises permitiram, posteriormente, propor conteúdos interpretativos dos dados obtidos.
29 Nesta fase da investigação procedeu-se, de igual modo, ao tratamento gráfico das fotografias recolhidas aquando dos trabalhos de campo, bem como à realização da fotogrametria proveniente dos levantamentos fotográficos efetuados aos afloramentos gravados. Nesta ação foi utilizado o software informático 3D F Zephyr , que transforma as fotografias em 2D dos levantamentos em modelos 3D, permitindo observar todos os negativos do afloramento, incluindo as gravuras. Obtido o modelo 3D, procede-se ao tratamento de imagem utilizando outro programa informático, denominado de MeshLab, que, por sua vez, permite corrigir algumas irregularidades estéticas e, também, tornar mais apresentável o modelo através do realce das gravuras, ficando assim o resultado final mais percetível para visualização e análise. Esta ferramenta mostrou-se bastante útil, pois autoriza a visualização dos painéis dos gravados com bastante mais detalhe e, em alguns casos, identificar mais motivos gravados do que aqueles que foi possível percecionar durante os trabalhos de campo. Após este passo, completou-se a descrição efetuada na deslocação ao campo onde perfilam afloramentos gravados. Terminadas estas tarefas e com todos os dados analisados, em interação, procedeu-se à redação da dissertação.
30 Parte III. Espaço de trabalho 4. O Noroeste de Portugal: breve caracterização 4.1. Caracterização física A área geográfica deste trabalho enquadra-se no Noroeste de Portugal, estendendo-se até à bacia do rio Tua. O Noroeste caracteriza-se, em termos geomorfológicos, por ter um relevo bastante acentuado (Medeiros et al ., 2006) (Fig. 1). A sua geomorfologia é caracterizada pela imponência montanhosa, que tem origem no sistema “GalaicoDuriense”, que parte da zona da Galiza e de Leão em Espanha, estendendo-se para sul, atravessando a fronteira a norte de Portugal, passando pelas serras do Alvão, Marão e Montemuro, pelo Douro inferior e prolonga-se até à Serra do Caramulo, estabelecendo-se como fronteira física entre Noroeste litoral e o Norte Interior (Ribeiro et al., 1987) (Fig. 2). Este alto relevo tem a sua altitude máxima fixada, de um modo geral, nos 1400 metros. O seu relevo acidentando forma um anfiteatro natural orientado para o oceano, possuindo um declive geral orientado para oeste, estendendo-se até ao oceano através de uma paulatina diminuição da altitude, materializando-se em montanhas cada vez mais pequenas, funcionado como “degraus” até às águas do oceano Atlântico (Ribeiro et al. , 1987). Associados a estas características, estão os principais rios do Noroeste, confluindo de igual modo para oeste (Ribeiro et al. , 1987). No Norte de Portugal constata-se que as zonas sísmicas são representadas quase exclusivamente por linhas epicentrais (Ribeiro et al ., 1987). Estas formam um conjunto de linhas paralelas e perpendiculares ao eixo da Culminação Ibérica Principal, tendo evidências do mesmo no relevo, pois as linhas sismotectónicas perpendiculares ao eixo de Culminação Principal dão origem aos vales dos principais rios do Noroeste (Ribeiro et al ., 1987). Através destes pressupostos vislumbra-se o grande paralelismo, que os vales dos rios localizado Entre Douro e Minho possuem, permitindo mesmo identificar cada montanha individualmente, tal como refere Ribeiro (1987, p. 131): “ À rede de linhas sismo-tectónicas do extremo Norte de Portugal e da parte da vizinha Galiza, corresponde assim uma rede de vales acentuados, que separa as montanhas como uma quadrícula ”. Os principais rios do Noroeste português dividem-se em rios de caráter internacional e de caráter nacional. Os internacionais são o rio Minho, Lima e Douro. Os nacionais são os rios Neiva, Cávado, Ave e Leça. Há ainda que mencionar o rio Tua, pois materializa o limite este do raio de ação deste trabalho.
31 O rio Minho nasce em Espanha, na Serra da Meira, a uma altitude de cerca 700 metros, percorrendo cerca de 300 km. Destes, 70 km correm na fronteira entre Portugal e Espanha, acabando por desaguar no Oceano Atlântico, frente a Caminha e La Guardiã (Lacasta et al. , 2016a). Os seus principais afluentes são os rios Trancoso, Mouro, Gadanha e Coura (Lacasta et al ., 2016a). O rio Lima nasce em Espanha, na serra de S. Mamede, a cerca de 950 metros de altitude, percorrendo cerca de 108 km, dos quais 67 km são em território português, desaguando no Oceano Atlântico, em Viana do Castelo (Lacasta et al ., 2016a). Os seus principais afluentes são os rios Vez e Castro Laboreiro (Lacasta et al ., 2016a). O rio Neiva, nasce no Monte Oural, a cerca de 772 metros de altitude, percorrendo cerca de 40 km, desaguando diretamente no Oceano Atlântico, em Castelo do Neiva (Oliveira e Alves, 2011). O rio Cávado nasce na Serra do Larouco, a cerca de 1520 metros de altitude, percorrendo cerca de 129 km, desaguando no Oceano Atlântico, em Esposende, sendo os seus principais afluentes são os rios Homem e Rabagão (Lacasta et al ., 2016b). O rio Ave nasce na serra de Cabreira, a cerca de 1200 metros de altitude, percorrendo 85 km, desaguando no Oceano Atlântico, a sul de Vila do Conde, sendo os seus principais afluentes os rios Vizela e Este (Lacasta et al ., 2016b). O rio Leça nasce no monte de Santa Luzia, a cerca de 420 metros de altitude, percorrendo 48 km até ao Oceano Atlântico, em Leça da Palmeira, tem como principais afluentes as ribeiras do Arquinho e Leandro (Lacasta et al ., 2016b) O rio Douro, nasce na serra de Urbion em Espanha, a cerca de 1700 metros de altitude, percorrendo 927 km, dos quais apenas 208 km são em território português, desaguando no Oceano Atlântico, na cidade do Porto (Lacasta et al ., 2016c). Os seus afluentes são em grande número, sendo os da margem direita de maior dimensão em relação aos afluentes da margem esquerda, correndo perpendiculares ao curso principal do rio (Lacasta et al ., 2016c). Entre os principais afluentes da margem direita figuram, os rios Pisuerga, Valderaduey e Esla, do lado espanhol, e os rios Sabor, Tua, Tâmega e Sousa, do lado português (Lacasta et al ., 2016c). Os afluentes da margem esquerda do lado espanhol são os rios Adaja, Tormes, Huebra e Águeda (este último entra em Portugal) e, do lado português, os rios Côa e Paiva (Lacasta et al ., 2016c).
32 Os romanos batizaram este rio como rio Durius, devido à sua morfologia, à velocidade a que corriam as suas águas e ao facto do seu curso se estabelecer “ numa garganta de 100 metros de profundidade, com vertentes a pique ”, o que dificultava a sua travessia (Ribeiro et al ., 1987, p. 138). Destaca-se ainda, a bacia do rio Tua, que limita a área deste trabalho pelo lado nascente. Este resulta da junção dos rios Tuela e Rabaçal, ambos com origem em Espanha (Beira, 2014; Carvalho, 2017). O rio Tuela, atravessa o concelho de Bragança e o rio Rabaçal separa os concelhos de Valpaços e Mirandela, dando-se a sua confluência a 4km a norte da cidade de Mirandela (Beira, 2014). A partir desse ponto, estende-se por 40 km, desaguando no rio Douro, caracterizando-se por ter “ um vale perfeitamente encaixado, talhado em vertentes graníticas frequentemente escarpadas ” (Carvalho, 2017). Os principais rios desta região desaguam no litoral costeiro através de estuários pouco profundos, excetuando o rio Douro, que “ conserva, até à foz, as suas escarpadas vertentes de canhão, talhadas na espessura do maciço granítico ” (Ribeiro et al ., 1987, p. 77). Entre os rios Minho e Lima, observa-se que o traçado da sua escarpa sugere um “ degrau de falha retocada recentemente pela abrasão ” (Ribeiro et al. , 1987, p. 78). Associada a este facto, está a descoberta de praias interglaciárias, nas imediações da foz rio Minho e Lima, provando o levantamento do litoral do Noroeste, durante a época quaternária (Ribeiro et al ., 1987). Na costa do Noroeste português verifica-se um conjunto de características interessantes. Desde logo, constata-se que a sua morfologia é consequência do levantamento característico da geomorfologia do Noroeste (Ribeiro et al ., 1987), ou seja, o mar bate numa linha de costa direita, estável e sem quaisquer indícios de ingressão (Ribeiro et al ., 1987). As arribas fósseis que se observam nesta região foram, outrora, o local onde as ondas do mar pliocénico batiam, estando nos dias de hoje situadas a quilómetros da linha de costa atual, ou seja, “ desenvolveuse uma praia ou cordão de seixos, às vezes interrompidos pelos afloramentos rochosos arrasados pelas vagas; daí se sobe, em degraus largos e irregulares, até à linha de costa .” (Ribeiro et al. , 1987, p. 77). Para além disto, Ribeiro (1987) refere que esta costa é sobretudo retilínea, demonstrando a ausência de abras, recessos e promontórios. Contudo, estudos paleoambientais, demonstram que ocorreram alterações importantes na costa Norte e Centro de Portugal ao longo da Pré-história Recente e do período romano. Segundo vários autores esta teria sido mais recortada do que é atualmente, possuindo várias lagunas, das quais ainda existem vestígios, como as lagoas da Apúlia (Esposende), Esmoriz (Ovar) e Mira (Coimbra) (Baptista, 1992;
33 Granja, 1993, 1999; Granja e Carvalho, 1992, 1995; Alves, 1996; Granja e Groot, 1996). Para além disto, Carvalhido refere que há cerca de 4 a 5 mil anos a altura do nível médio das águas do mar encontrava-se a 1/2 metros abaixo do atual (Carvalhido, 2018). Figura 1 - Localização do Noroeste português no contexto da Península Ibérica.
34 Figura 2 – Noroeste português e os limites geográficos deste trabalho. O Noroeste português situa-se em termos geológicos no que é conhecido como o Maciço Hespérico. Assim, a geologia desta região materializa-se na predominância de grandes batólitos graníticos, xistos cristalinos algonquianos, xistos argilosos pré-câmbricos e quartzitos silúricos (Ribeiro et al ., 1987). Na fachada mais litoral do Noroeste português, o granito é o recurso geológico mais abundante, determinando assim os contornos do relevo, segundo Ribeiro (1987, p. 174): “No granito, a alteração penetra profundamente na rocha sem modificar as formas da superfície; a arenização conserva, ou até exagera, uma topografia de maturidade, com vales escancarados, fundos largos e vertentes esbatidas; mas mantém-se ao mesmo tempo indefinidamente vigorosas as formas de todos os desníveis”. Na região mais interior, observa-se a predominância do xisto, moldando de igual modo o relevo desta região. Com efeito, Ribeiro (1987, p. 175), refere que se trata de uma região pouco escarpada, com um relevo semelhante a um “ mar de cabeços ”. Estas características explicam-se pelo efeito dos processos
35 de alteração, que permitem uma passagem gradual das montranhas para as planícies, devido à “ rede hidrográfica densa e o relevo muito dissecado ” (Ribeiro et al., 1987, p. 175). O Noroeste tem, pelas suas características geológicas, uma grande quantidade e densidade de recursos mineiros metálicos e não metálicos (Ribeiro et al ., 1987, Medeiros et al ., 2006). No que diz respeito aos recursos mineiros metálicos, pode-se afirmar que o Noroeste português é uma região bastante prolífera (Teixeira, 1961; Teixeira, 1974; Pereira, 1989; Teixeira e Medeiros, 1965; Teixeira e Medeiros, 1969; Noronha e Ribeiro, 1983; Ribeiro e Moreira, 1986; Moreira e Simões, 1988; Sousa e Sequeira, 1989; Teixeira et al ., 1967; Medeiros et al ., 1975; Medeiros et al ., 1980; Ferreira et al ., 2000; Ribeiro et al ., 2000; Sant’ Ovaia et al ., 2011; Filipe et al ., 2010; Gomes et al., 2015). Estes, foram explorados desde tempos remotos, tal como se constata por dados arqueológicos (Comendador Rey, 1997; Bettencourt, 1999; Bettencourt, 2001; Bottaini, 2012; Sampaio, 2014a, 2014b; 2014c; Comendador Rey e Bettencourt, 2011; Sampaio e Bettencourt, 2011; Alves e Gomes, 2015; Fernandes et al ., 2011; Fonte et al ., 2013). Para a época romana, além dos dados arqueológicos, é importante o testemunho de Estrabão, que na sua obra intitulada Geografia (III Livro ), diz aqui existir “abundância de ouro, prata e metais semelhantes ” (Deserto e Pereira, 2016). No distrito de Viana do Castelo, destaca-se as explorações de estanho, volfrâmio, ouro, prata e ferro (Teixeira, 1961; Teixeira et al ., 1972; Medeiros et al ., 1975; Ribeiro e Moreira, 1986; Moreira e Simões, 1988; Filipe et al , 2010). Realça-se a importância da exploração de estanho no concelho de Viana do Castelo, sendo uma das mais importantes e expressivas da região, ocorrendo sobretudo em filões pegmatíticos e em aluviões (Teixeira et al ., 1972). Relativamente à exploração do ouro e prata destaca-se a mina do Alto da Bouça da Breia (Viana do Castelo), as “minas da Muia”, em Vila Nova de Muia (Ponte da Barca), na qual existiu exploração romana e, por fim, a Casa dos Mouro nº3 (Monção) (Teixeira et al ., 1972; Medeiros et al ., 1975; Ribeiro e Moreira, 1986). No distrito de Vila Real, concentra-se uma diversidade e quantidade de recursos mineiros metálicos bastante significativa, ocorrendo a exploração de estanho, volfrâmio, ouro, ferro, chumbo e cobre (Teixeira, 1974; Teixeira et al ., 1967; Noronha e Ribeiro, 1983; Sousa e Sequeira, 1989; Sant’ Ovaia et al ., 2011). A exploração do minério de estanho, associando-se ao volfrâmio/tungsténio, distribuiu-se de forma uniforme por todo o distrito, destacando-se as jazidas do Couto Mineiro da Borralha (Montalegre); do
36 Couto Mineiro Bessa (Chaves); da zona ocidental de Vila Pouca de Aguiar no Alto Tâmega; das jazidas de St. Adrião – Sta. Leocádia e Quinta do Vale de Figueiras (Alijó) e, por fim, das Minas do Teixo e da Serrinha da Cascalheira (Peso da Régua), sendo estas apenas algumas das demais existente (Teixeira et al ., 1967; Teixeira et al ., 1974; Noronha e Ribeiro, 1983; Sousa e Sequeira, 1989; Filipe et al ., 2010). Na exploração do ouro e prata, destaca-se a importância do concelho de Vila de Pouca de Aguiar onde se encontram as jazidas de Três Minas (com evidências de exploração romana), do Campo Mineiro de Jales e da Gralheira, demonstrando, assim, uma grande densidade das explorações destes minérios (Filipe et al ., 2010; Sant’ Ovaia et al ., 2011). Relativamente à exploração de ferro, destaca-se o concelho de Peso da Régua com as principais jazidas a situarem-se, sobretudo, no rebordo oriental da Serra do Marão, no que é conhecido como Campo Mineiro de Vila Cova do Marão (Teixeira et al ., 1967; Filipe et al. , 2010). Por fim, apenas dar nota da ocorrência de explorações de cobre e chumbo no concelho de Vila Real, sendo estas de pequena dimensão (Filipe et al. , 2010; Gomes et al ., 2015). No distrito de Braga, as explorações de estanho, volfrâmio/tungsténio, chumbo, cobre, ouro e ferro estão identificadas (Teixeira e Medeiros, 1969; Pereira, 1989; Ribeiro et al ., 2000; Ferreira et al ., 2000; Filipe et al. , 2010). As explorações de estanho neste distrito associadas, ou não, a volfrâmio/tungsténio, ocorrem em todo o território, podendo-se destacar as minas de S. Gens e de Tibães (Braga), de Bogalheiros (Barcelos), de Monte Faro (Esposende), do Couto Mineiro das Minas da Borralha (Cabeceiras de Basto) e das minas de Adoria e Rio Mau e das minas do Seixoso (Celorico de Basto) (Teixeira et al ., 1969; Pereira, 1989; Ferreira et al ., 2000; Ribeiro et al ., 2000). Destacam-se, ainda, pequenas explorações de chumbo e cobre, no concelho de Celorico de Basto, nas minas da Facuca, bem como pequenas explorações de ferro (Pereira, 1989). No distrito do Porto ocorrem, sobretudo, explorações de ouro, prata, estanho, volfrâmio/tungsténio, ferro e chumbo (Teixeira e Medeiros, 1965; Medeiros et al ., 1980; Filipe et al ., 2010). Na exploração do ouro e prata destacam-se as jazidas de Castromil (Paredes), de Ribeiro da Serra e Lugar da Fontinha (Gondomar), de Montalto (Penafiel), de Lagoa Negra (Póvoa de Varzim) e de Fojo das Pombas (Valongo), estas últimas com exploração romana (Teixeira e Medeiros, 1965; Medeiros et al ., 1980; Filipe et al ., 2010). Relativamente à exploração de estanho, associado ou não a volfrâmio, observa-se uma maior incidência nas zonas limítrofes, destacando-se as minas de Paúlos e de Pedra Furada (Póvoa de Varzim)
37 e as minas de Santa Justa (Penafiel) (Teixeira e Medeiros, 1965; Medeiros et al ., 1980). Existem, ainda, pequenas explorações de ferro no concelho da Póvoa de Varzim e exploração de chumbo a sudeste de Aguiar de Sousa (Penafiel) (Teixeira e Medeiros, 1965; Medeiros et al ., 1980). Relativamente aos recursos mineiros não metálicos destaca-se, ainda, a exploração de sal marinho na zona costeira do Noroeste português. Através da análise dos dados arqueológicos, foi possível concluir que a exploração deste recurso ocorreu desde os finais do 3º milénio a.C., prolongando-se pelo 2º milénio a.C. e, provavelmente, pelo 1º milénio a.C., bem como pela época romana, a Idade Média e a Idade Moderna (Rau, 1951; Marçal, 1966; Fernandes, 1994; Almeida, 2005; Teixeira e Fonseca, 2011; Currás, 2017; Teixeira e Fonseca, 2011; Bettencourt et al ., 2020). 4.2 Caracterização ambiental (clima e coberto vegetal) e humana Orlando Ribeiro (1987, p. 16) refere que a Península Ibérica, no plano climático, tem de ser interpretada “ como um pequeno continente ”. Existindo um nítido contraste entre as regiões norte/sul e este/oeste. Deste modo, Portugal, juntamente com o Sudoeste da Galiza, constituem uma unidade climática individual no panorama ibérico, sendo a proximidade ao oceano e as características do relevo os fatores de união destas duas regiões (Ribeiro et al ., 1987). Com efeito, destaca-se o Noroeste português como expressão máxima da premissa anterior, tal como refere C. Medeiros (2006, p. 38): “ O Noroeste do território é assim a região de feição mais atlântica, devido à sua posição em latitude, mais próxima das baixas pressões sub-polares (sendo por isso frequentemente atingida pelas perturbações frontais) pela proximidade do oceano e por ser a região mais acidentada, onde se encontra uma grande parte das serras de Portugal.” Com efeito, esta região é bastante chuvosa, com uma precipitação anual superior a 1000 mm, destacando-se a região das montanhas do Gerês, com mais de 3000 mm (Medeiros et al. , 2006), materializando-se em cerca de 150 dias de precipitação (Ribeiro et al ., 1988). Caracteriza-se, ainda, pela forte e persistente nebulosidade, sendo esta mais comum pela manhã e pela noite (Ribeiro et al ., 1988; Medeiros et al. , 2006). O Verão é moderado a seco, sobretudo nas regiões montanhosas, e o Inverno é fresco, “ com 10 a 30 dias com temperatura inferir a 0º, a frio e muito frio nas montanhas, onde ocorrem mais de 30 dias com temperaturas negativas ” (Medeiros et al. , 2006). Isto resulta, numa amplitude térmica reduzida a dois meses secos, julho e agosto, ou apenas a um mês nas regiões montanhosas (Medeiros et al ., 2006),
44 Figura 5 - Distribuição dos afloramentos com círculos segmentados pelas bacias hidrográficas dos rios Cávado, Tâmega, Lima e Minho e costa do Oceano Atlântico. 3. Contexto físico Relativamente à altitude, os afloramentos analisados situam-se, na sua maioria (treze rochas – 45%), entre os 200 e os 700 metros em relação ao nível médio do mar (NMM), ou seja, a cotas de média altitude. Por outro lado, oito afloramentos (27,5%) abaixo dos 200 metros de altitude, observando-se igual cenário entre os 700 e 1300 metros de altitude (8 afloramentos, 27,5%). A altitude mínima registada verifica-se na Breia 1, em Viana do Castelo, a cerca de 54 metros, e a altitude máxima em Alto da Portela do Pau/Pau, em Melgaço, a cerca de 1250 metros. Em termos gerais, os sítios gravados com estes motivos ocupam, preferencialmente, baixas e médias altitudes (72,5%), de fácil acessibilidade. Relativamente à geomorfologia, observa-se que a maioria dos afloramentos gravados se localizam em vertentes de determinadas orografias (Tab. 1). Doze afloramentos (41%) situam-se a meio de vertentes, sendo eles: Pedra da Costa 1, em Arcos de Valdevez; Monte da Fonte Seca, Chão das Agras, Vargielas 1, Vargielas 2, em Monção; Monte de Porreiras 3, em Paredes de Coura; Breia 5, Breia 9 e Ereira 2, em Viana do Castelo; Eira das Lamelas, em Ribeira de Pena; Chã da Rapada 3, em Ponte da Barca; e Quinta do Paranho 1, em Barcelos.
45 Na base da vertente contabilizam-se nove afloramentos (31 %), sendo eles: Laje das Fogaças, em Caminha; Teixugos 2, em Monção; Breia 1, Figueiró 1 e Laje da Churra, em Viana do Castelo; Crastoeiro 2, em Mondim de Basto; Santo Ovídio 1 e 2, em Montalegre; e Quinta do Paranho 1, em Barcelos. Tabela 1 - Distribuição topográfica dos afloramentos com círculos segmentados Localização Nº de afloramentos % Topo 8 28% Vertente 12 41% Base da vertente 9 31% Total 29 100% Uma grande parte dos afloramentos gravados em vertentes, localizavam-se em pequenas plataformas de fácil circulação. Estão neste caso: Outeiro Machado 1, em Chaves; Pedra da Costa 1, em Arcos de Valdevez; Breia 1, 5, 9, Figueiró 1 e Laje da Churra em Viana do Castelo; Crastoeiro 2, em Mondim de Basto; Chã da Rapada 3, em Ponte da Barca; Teixugos 2, em Monção; Quinta do Paranho 1, em Barcelos; Eira das Lamelas, em Ribeira de Pena, Laje das Fogaças, em Caminha; Monte da Fonte Seca, Vargielas 1, Vargielas 2 e Chão das Agras, em Monção; e Monte de Porreiras 3, em Paredes de Coura. 4. Proximidade com recursos hídricos Observa-se uma forte ligação no que diz respeito à proximidade destes afloramentos com recursos hídricos, pois em todos os casos analisados foi possível observar relação com nascentes, ribeiros, rios e/ou o Oceano Atlântico. (Tab. 2) (Fig. 6). Tabela 2 - Proximidade e relação direta dos lugares estudados com recursos hídricos Sítios gravados Recursos hídricos nas imediações Quinta do Paranho 1 Ribeiro dos Amiais, tributário do rio Lima, afluente do rio Cávado. Gião 1 – rocha 1 Fonte dos Sete Olhos, Fonte das Abatujas, Fonte das Eirinhas, Ribeiro do Gião. Gião 1 – rocha 21 Fonte dos Sete Olhos, Fonte das Abatujas, Fonte das Eirinhas, Ribeiro do Gião. Gião 1 – rocha 23 Fonte dos Sete Olhos, Fonte das Abatujas, Fonte das Eirinhas, Ribeiro do Gião. Pedra da Costa 1 Tributário do ribeiro de Frades, afluente do rio Vez. Laje das Fogaças Inúmeras nascentes no Monte Góis (Alves, 2013), rio Minho. Pombas 2 Ribeira de Arga, ribeiro de S. João.
46 Alto da Portela do Pau/Pau Lagoa dos Piornais, lagoa do Vale das Antas, rio de Castro Laboreiro. Fieiral 1 Lagoa dos Piornais, lagoa do Vale das Antas, lagoa do Fieiral, rio de Castro Laboreiro. Fieiral 2 Lagoa dos Piornais, lagoa do Vale das Antas, lagoa do Fieiral, rio de Castro Laboreiro. Monte da Fonte Seca Regato das Bargielas, ribeiro do Gadanha. Chão das Agras Regato das Bargielas, ribeiro do Gadanha. Vargielas 1 Regato das Bargielas, ribeiro do Gadanha. Vargielas 2 Regato das Bargielas, ribeiro do Gadanha. Teixugos 2 Tributário de ribeiro dos Teixugos e do ribeiro do Ameal, afluentes rio Minho. Monte de Porreiras 2 Tributário do ribeiro de Porreiras, afluente do rio Coura. Chã da Coelheira Ribeiro da Abelheira, tributário do rio Froufe, afluente rio Lima. Chã da Rapada 3 Tributário do rio Froufe, afluente rio Lima. Breia 1 Tributário da ribeira da Nogueira, afluente do rio Lima. Breia 5 Tributário da ribeira da Nogueira, afluente do rio Lima. Breia 9 Tributário da ribeira da Nogueira, afluente do rio Lima. Ereira 2 Rio de Cabanas, Oceano Atlântico. Figueiró 1 Entre o rio de Cabanas e o ribeiro do Pego, Oceano Atlântico. Laje da Churra Ribeiro da Fonte Quente, entre o rio de Cabanas e o ribeiro do Pego, Oceano Atlântico. Crastoeiro 2 Mina de água dos Crastoeiros, ribeiro de Campos, rio Tâmega. Eira das Lamelas Tributário do rio Louredo, afluente do rio Tâmega. Outeiro Machado Tributário do ribeiro de Sanjurge, afluente rio Tâmega. Santo Ovídio 1 Tributário do ribeiro do Beredo e ribeiro Dola, afluentes do rio Cávado. Santo Ovídio 2 Tributário do ribeiro do Beredo e ribeiro Dola, afluentes rio Cávado.
47 Figura 6 - Relação dos afloramentos com círculos segmentados gravados e os recursos hídricos nas suas imediações. 5. Articulação com recursos mineiros metálicos Relativamente à relação entre a localização dos sítios arqueológicos em estudo e os recursos mineiros metálicos, conseguiu-se perceber uma estreita ligação, sobretudo com o estanho. Para obter estes resultados, foi necessário sistematizar a informação que as Cartas Geológicas de Portugal contêm relativa à presença dos minérios de estanho, ouro e prata, bem como ao auxílio dos dados disponíveis online no GeoPortal no que diz respeito ao Sistema de Informação de Ocorrências e Recursos Minerais Portugueses. Após essa fase, foi elaborado um mapa através de Sistema de Informação Geográfica (SIG) que permitiu discernir a proximidade e a dispersão dos recursos mineiros metálicos face aos afloramentos gravados (Fig. 7).
48 Figura 7 - Relação dos afloramentos com círculos segmentados gravados e os recursos mineiros metálicos (ouro, prata e estanho). Posto isto, o procedimento analítico que permitiu perceber a eventual relação, ou não, entre os recursos mineiros metálicos e os sítios arqueológicos, teve como consequência a observação do território teórico de exploração pedestre de 2 horas de cada afloramento. Com efeito, a utilização deste método de análise permitiu perceber que onze afloramentos com círculos segmentados gravados (38%) possuem no seu território teórico de exploração pedestre de 2 horas, jazidas primárias de estanho. São eles: Teixugos 2, em Monção (Fig. 11); Monte de Porreiras 3, em Paredes de Coura (Fig. 10); Pombas 2 e Laje das Fogaças, em Caminha (Fig. 9); Ereira 2, Laje da Churra, Figueiró 1, Breia 1, Breia 5, Breia 9, em Viana do Castelo (Fig. 8); e Eira das Lamelas, em Ribeira de Pena (Fig. 12), correspondentes a sítios de várias bacias fluviais, como as do Minho, Lima e Tâmega e, também, da plataforma litoral. Relativamente ao ouro, verifica-se uma menor expressão da relação deste recurso mineiro metálico com os sítios arqueológicos em estudo. Apenas em quatro casos (20%) o ouro está situado no território teórico de exploração pedestre de 2 horas dos afloramentos gravados. São eles: Pombas 2, em Caminha; Breia 1, Breia 5 e Breia 9, em Viana do Castelo.
49 Por fim, não se verificou qualquer relação entre os afloramentos em estudo e a prata, estando este último representando apenas uma vez no mapa anteriormente apresentado. Se considerarmos que estas três bacias fluviais, por serem muito ricas em recursos primários de estanho, certamente também teriam inúmeras jazidas de estanho de aluvião, o número de afloramentos gravados com círculos segmentados face aos recursos de estanho seria muito superior. Figura 8 – Território teórico de exploração pedestre de 2 horas de Breia 1 (21), Breia 5 (22), Breia 9 (23), Ereira 2 (24), Figueiró 1 (25) e Laje da Churra (26) e a sua relação com recursos mineiros (estanho e ouro) (©UAUM).
50 Figura 9 – Território teórico de exploração pedestre de 2 horas de Laje das Fogaças (8) e Pombas 2 (9) e a relação com recursos mineiros (estanho e ouro) (©UAUM). Figura 10 – Território teórico de exploração pedestre de 2 horas de Monte de Porreiras 3 (18) e a relação com recursos mineiros (estanho) (©UAUM).
51 Figura 11 – Território teórico de exploração pedestre de 2 horas de Teixugos 2 (15) e a relação com recursos mineiros (estanho) (©UAUM). Figura 12 – Território teórico de exploração pedestre de 2 horas de Eira das Lamelas (29) e a relação com recursos mineiros (estanho) (©UAUM)
52 6. Caracterização das superfícies gravadas 6.1. Classificação litológica No que diz respeito à classificação litológica dos afloramentos estudados, observa-se a predominância do granito, representando vinte e oito casos (97%), sendo que em apenas um caso (3%) ocorre em xisto. Trata-se de Pombas 2, em Caminha. 6.2. Dimensões Os afloramentos gravados com círculos segmentados caracterizam-se por serem de pequenas, médias e grandes dimensões. Para quantificar os dados obtidos, foram estabelecidos os seguintes parâmetros: (1) até cinco metros, na sua máxima extensão, são considerados de pequenas dimensões; (2) entre cinco e dez metros, na máxima extensão, são considerados de médias dimensões; (3) acima de dez metros, na sua máxima extensão, são considerados de grandes dimensões. Com efeito, contabilizaram-se nove afloramentos (33%) de pequenas dimensões, sete (22%) de médias dimensões e treze (45%) de grandes dimensões, observando-se, assim, uma preponderância para a gravação de círculos segmentados em afloramentos de grandes dimensões. 6.3. Altura face ao solo Relativamente à altura do afloramento em relação ao solo, foram definidas três tipologias: (1) afloramentos destacados, caracterizando-se por estar bastante pronunciados em relação ao mesmo; (2) afloramentos parcialmente destacados, que se caracterizam por terem áreas rasantes ao solo e outras destacadas do mesmo; e (3) afloramentos rasantes, encontrando-se ao mesmo nível ou ligeiramente acima daquele (Fig. 13). Contabilizaram-se doze afloramentos (41%) destacados do solo (Tab. 3): Gião 1 – rocha 23, em Arcos de Valdevez; Pombas 2, em Caminha; Alto da Portela do Pau/Pau e Fieiral 1, em Melgaço; Breia 5, Breia 9, Figueiró 1 e Laje da Churra, em Viana do Castelo; Crastoeiro 2, em Mondim de Basto; Outeiro Machado, em Chaves; Santo Ovídio 1 e Santo Ovídio 2, em Montalegre. No que diz respeito aos afloramentos parcialmente destacados do solo, contabilizaram-se cinco exemplares (18%), dos quais fazem parte: Gião 1 – rocha 1 e Pedra da Costa 1, em Arcos de Valdevez; Fieiral 2, em Melgaço; Chã da Rapada 3, em Ponte da Barca; e Ereira 2, em Viana do Castelo. Por fim, na tipologia afloramentos rasantes ao solo, observa-se uma maior incidência, com doze exemplares (41%). São eles: Quinta do Paranho 1, em Barcelos; Gião 1 – rocha 21, em Arcos de Valdevez; Laje das Fogaças, em Caminha; Monte da Fonte Seca, Chão das Agras, Vargielas 1, Vargielas 2 e
53 Teixugos 2, em Monção; Monte de Porreiras 3, em Paredes de Coura; Breia 1, em Viana do Castelo; Eira das Lamelas, em Ribeira de Pena; e Chã da Coelheira, em Ponte da Barca. Tabela 3 - Altura dos afloramentos face ao solo atual Altura do solo Nº de afloramentos % Destacado do solo 12 41% Parcialmente destacado solo 5 18% Rasante ao solo 12 41% Total 29 100 % Figura 13 - Em cima à esquerda: Quinta do Paranho 1; Em cima à direita: Santo Ovídio 1; Em baixo à esquerda: Laje das Fogaças; Em baixo à direita: Ereira 2. 6.4. Inclinação dos painéis gravados Estando os afloramentos subdivididos em painéis, pretende-se, agora, sintetizar a informação relativa à inclinação dos painéis com círculos segmentados gravados. Para tal, definiram-se três parâmetros: (1) superfícies planas; (2) superfícies inclinadas, com declives superiores a 45 graus; e (3) superfícies ligeiramente inclinadas, ou seja, com ângulo de inclinação inferior a 45 graus. No conjunto de quarenta e seis painéis com círculos segmentados distribuídos por 29 afloramentos,
60 Figura 20 – À esquerda, visibilidade desde a Pedra da Costa 1 (rosa) e do Monte de Porreiras 3 (roxo) e, à direita, visibilidade desde Laje das Fogaças (vermelho) e de Pombas 2 (azul). Figura 21 - Visibilidade desde o Alto da Portela do Pau/Pau.
61 Figura 22 - Visibilidade desde Teixugos 2 (verde) e de Fieiral 1 e 2 (rosa). Figura 23 - Visibilidade desde o Monte da Fonte Seca, de Chão das Agras e de Vargielas 1 e 2.
62 Figura 24 - Visibilidade desde Chã da Coelheira (verde) e de Chã da Rapada 3 (roxo). Figura 25 - Visibilidade desde a Breia 1, Breia 5 e Breia 9.
63 Figura 26 - Visibilidade desde Figueiró 1 (roxo escuro), de Laje da Churra (roxo claro) e de Ereira 2 (castanho).
64 Figura 27 - Visibilidade desde o Crastoeiro 2 (castanho claro), de Eira das Lamelas (verde) e de Outeiro Machado (azul). Figura 28 - Visibilidade desde Santo Ovídio 1 (rosa) e de Santo Ovídio 2 (verde).
65 8. Visibilidades e ciclo solar Analisar as questões da visibilidade sem as relacionar com a observação do ciclo solar e do espaço celeste, resultaria num exercício incompleto e impreciso. Assim sendo, foram analisadas as condições de visibilidade para o percurso do sol desde o nascer até ao ocaso, tendo presente que este varia ao longo dos anos. A boa exposição solar é uma característica comum a todos os afloramentos com círculos segmentados estudados. Esta característica leva inequivocamente a considerar uma forte ligação destes com o ciclo solar. No entanto, nem todos os afloramentos conseguem observar o movimento do sol durante o dia e o ano, devido ao seu posicionamento no meio físico envolvente. Como tal, e recorrendo à análise com o auxílio de SIG, foi elaborada uma tabela para aferir essas condições de visibilidade. Para tal, foi analisado se determinado afloramento possui uma maior predisposição para observar o nascer do sol ou o ocaso ou, então, a observação total do movimento do sol no firmamento. Note-se que os afloramentos situados a cotas mais elevadas, sensivelmente a partir dos 700 metros de altitude, gozam de uma posição privilegiada para este efeito. Esta análise permitiu perceber que uma quantidade considerável de afloramentos possui condições de visibilidade para observar a totalidade do ciclo solar (Fig. 29), registando-se catorze afloramentos (48%) com estas características. Gião 1 – rocha 1, (fig. 30), Gião 1 – rocha 21, Gião 1 – rocha 23, em Arcos de Valdevez; Alto da Portela do Pau/Pau (Fig. 31), Fieiral 1, Fieiral 2 (fig. 32), em Melgaço; Teixugos 2 (Fig. 33), Monte da Fonte Seca, Chão das Agras, Vargielas 1 e Vargielas 2, em Monção (fig. 34); Monte de Porreiras 3, em Paredes de Coura (fig. 35); e Santo Ovídio 2, em Montalegre. Por outro lado, registaram-se quinze afloramento (52%) que possuem uma visibilidade parcial sobre o ciclo solar (Fig. 29). Nesta categoria existem duas possibilidades de observação: para o nascer do sol e para o ocaso. Para o nascer do sol contabilizaram-se quatro afloramentos (14%): Breia 1, Breia 5 e Breia 9, em Viana do Castelo, e Outeiro Machado, em Chaves. Para o ocaso registaram-se onze afloramentos (38%): Quinta do Paranho 1, em Barcelos; Pedra da Costa 1, em Arcos de Valdevez; Pombas 2 e Laje das Fogaças, em Caminha; Chã da Coelheira e Chã da Rapada 3, em Ponte da Barca; Ereira 2, Laje da Churra e Figueiró 1 em Viana do Castelo; Crastoeiro 2, em Mondim de Basto; e Santo Ovídio 1, em Montalegre.
66 Figura 29 - Gráfico da visibilidade sobre o ciclo solar, total e parcial, desde os afloramentos gravados com círculos segmentados. Figura 30 - Vista panorâmica para nascente desde a rocha 1 - Gião 1, no 21 de julho de 2021 (verão). Figura 31 - Vista para nascente desde o Alto da Portela do Pau, no 6 de outubro de 2021 (outono). 0 5 10 15 20 25 30 Visibilidade total Visibilidade parcial Visibilidade sobre o ciclo solar
67 Figura 32 - Vista panorâmica para oeste desde o Fieiral 2, no 16 de agosto de 2021 (verão). Figura 33 - Vista para oeste desde os Teixugos 2, no 18 de dezembro de 2021 (outono). Figura 34 - Vista panorâmica desde nascente até poente a partir de Vargielas 1 e 2, no 8 de maio de 2021 (primavera).
68 Figura 35 - Vista panorâmica desde nascente até poente a partir de Monte de Porreiras 3, no 7 de outubro de 2021 (outono). 9. Número e orientação de círculos segmentados Passando para uma análise à microescala, foi efetuada uma contagem de quantos círculos segmentados considerados pré-históricos existem, em cada afloramento gravado. Também foi realizada uma análise à distribuição espacial destes motivos no afloramento. Noutro tópico foi analisada a orientação dos respetivos segmentos que compõe os círculos segmentados. Este exercício torna-se relevante, pois, a localização e a respetiva orientação dos segmentos dos motivos em estudo, permite inferir a relação destes motivos com o ciclo solar. 9.1. Número de círculos segmentados No conjunto de todos os vinte e nove afloramentos analisados foram contabilizados 125 círculos segmentados. Uma parte significativa dos afloramentos (doze, 42%) apenas possui um círculo segmentado. Cinco afloramentos (18%) possuem dois círculos segmentados gravados. Quatro afloramentos (11%) possuem três destes motivos gravados. Regista-se um afloramento (3%) com quatro motivos gravados, um afloramento (3%) com cinco, um afloramento (3%) com seis; um afloramento (3%) com sete, um afloramento (3%) com oito, um afloramento (3%) com dezassete, um afloramento (3%) com vinte e um e, por fim, um afloramento (3%) com vinte e três círculos segmentados gravados (Fig. 36).
69 Figura 36 - Número de círculos segmentados por afloramento. 9.2. Orientação dos círculos segmentados no afloramento Note-se que, neste item , não vão ser analisados os motivos de Santo Ovídio 1 e 2, em Montalegre, pelos motivos já expressos. Assim sendo, vão ser incluídos cento e vinte e três motivos. A análise da localização dos círculos segmentados no afloramento é um método imprescindível para perceber a relação entre a sua gravação e a superfície da rocha. Observar a alternância da localização destes motivos pode traduzir diferentes significados e ser útil como ferramenta interpretativa. Assim sendo, conseguiu-se perceber que ocorre uma dispersão dos motivos no afloramento que é homogénea. No centro do afloramento é onde ocorrem mais motivos, contabilizando-se vinte (16%). A nordeste, ocorrem dezoito (14%). A este registam-se quinze (13%). A noroeste, surgem catorze (12%). A sudeste registam-se treze casos (11%). O mesmo cenário repete-se a sudoeste, com doze motivos (9,5%). A sul, observam-se onze casos (8,5%) e, por fim, a oeste e a norte, contabilizam-se dez motivos cada (16%) (Tab. 6). 0 2 4 6 8 10 12 14 Número de círculos segmentados por afloramento Número de círculos segmentados por afloramento
76 9.3. Orientação dos segmentos No conjunto de 125 círculos segmentados distribuídos por vinte e nove afloramentos, também foi analisado e observado in loco a orientação dos segmentos de cada motivo. No entanto, não se analisaram os motivos de Figueiró 1, em Viana do Castelo, e os motivos de Santo Ovídio 1 e 2, em Montalegre, devido à impossibilidade de visitar os lugares, pelo que o total da amostra será de 115 motivos. Para realizar tal operação recorreu-se ao uso da bússola, devidamente orientada e colocada no centro de cada motivo, registando-se, assim, a orientação de cada segmento. Os resultados foram bastante esclarecedores. A maioria dos segmentos dos motivos encontram-se orientados para noroeste/sudeste e nordeste/sudoeste, ocorrendo em oitenta e quatro casos (73%). Com menor expressão contabiliza-se vinte casos (16%), que possuem os seus segmentos orientados para norte/sul e para este/oeste (Tab. 7). Há outros casos com diferentes orientações, mas são residuais. Três casos (3%) possuem os seus segmentos orientados para norte-nordeste/su-sudoeste e este/oeste e outros três (3%) com os segmentos orientados para nordeste/sudoeste, noroeste/sudeste, este/oeste e norte/sul, tendo nestes últimos mais do que quatro segmentos. Com um caso (1%) há círculos com os seus segmentos orientados para norte/sul, este/oeste e nordeste; para norte-noroeste/su-sudeste e este/oeste; para noroeste/sudeste e este/oeste; e para nortenoroeste/su-sudeste, sudoeste/nordeste, este/oeste e norte/sul (um caso com quatro segmentos). Tabela 7 - Orientação dos segmentos dos círculos Orientação dos segmentos Nº de motivos % Noroeste/Sudeste e Nordeste/Sudoeste 84 73% Norte/Sul e Este/Oeste 20 16% Norte-Nordeste/Su-Sudoeste e Este/Oeste 3 3% Norte-Noroeste/Su-Sudeste, Sudoeste/Nordeste, Este/Oeste e Norte/Sul 3 3% Norte/Sul, Este/Oeste e Nordeste 1 1% Norte-Noroeste/Su-Sudeste e Este/Oeste 1 1% Noroeste/Sudeste e Este/Oeste 1 1% Noroeste/Sudeste e Nordeste 1 1% Nordeste/Sudoeste e Este/Oeste 1 1% Total 115 100%
77 Como se pode verificar, a gravação dos segmentos não é arbitrária. A maioria orienta-se para noroeste/sudeste e nordeste/sudoeste, ou seja, para o ocaso e nascer do sol nos solstícios (NO/SE e NE/SO) (Fig. 42). Dois casos orientam-se para os solstícios e os equinócios (NE/SO, NO/SE e E/O). Outros casos assinalam os equinócios e o ocaso no solstício de verão e o nascer do sol no solstício de inverno (NO/SE e E/O) ou os equinócios e o ocaso no solstício de inverno e o nascer do sol no solstício de verão (NE/SO e E/O). Outro caso assinala apenas o solstício de verão a nascente e ocaso e a nascente no solstício de inverno (NO/SE e NE). Há, ainda, outras combinações que assinalam os equinócios associadas a diferentes momentos do calendário solar ou ao posicionamento dos astros, numa intenção declarada de marcação do tempo solar e da sinalização de determinados estrelas de orientação. Figura 42 - Gráfico com a orientação dos segmentos dos círculos. É frequente, no mesmo afloramento, a existência de círculos segmentados que se completam nas suas diversas orientações evidenciando a possibilidade de serem verdadeiros observatórios solares e astronómicos. Tal são os casos de Laje das Fogaças, em Caminha (Tab. 8) e da Laje das Churra, em Viana do Castelo (Tab. 9). NO/SE e NO/SO N/S e E/O NNE/SSO e E/O NE/SO, NO/SE e E/O N/S, E/O e NE NNO/SSE e E/O NO/SE e E/O NO/SE e NE NO/SO e E/O NNO/SSE, SO/NE, E/O e N/S 010 20 30 40 50 60 70 80 90 100 Orientação dos segmentos dos círculos
78 Tabela 8 - Orientação dos segmentos dos círculos da Laje das Fogaças Orientação dos segmentos Nº de motivos % NO/SE, NE/SO 14 66% N/S, E/O 4 19% NNE/SSO, E/O 1 5% NE/SO, NO/SE, E/O 1 5% N/S, E/O, NE 1 5% Total 21 100% Tabela 9 - Orientação dos segmentos dos círculos da Laje da Churra Orientação dos segmentos Nº de motivos % NO/SE, NE/SO 10 58% N/S, E/O 3 18% NE/SO, NO/SE, E/O 1 6% NO/SE, NE 1 6% NE/SO, E/O 1 6% NO/SE, SO/NE, E/O, N/S 1 6% Total 17 100% 10. A questão cronológica Tal como Bettencourt (2017a, 2017b) já havia constatado a nível geral, os círculos segmentados surgem tanto em afloramentos com motivos inseríveis na denominada Arte Atlântica Clássica, como em afloramentos com Arte Esquemática Antiga e Tardia como, ainda, associados a outros motivos que esta autora chama de figurativos. A questão da cronologia dos círculos segmentados passou pela sua inter-relação com os referidos estilos artísticos através de três critérios de análise que consistiram (1) na avaliação da sua localização face aos restantes motivos que caracterizam os outros estilos; (2) na existência de processos de adição, percetíveis por diferenças técnicas; e (3) na presença de sobreposições. Outra metodologia utilizada
79 foi a da procura de paralelos para este motivo gravado, quer com artefactos quer com outros contextos gravados. 10.1. Círculos segmentados versus Arte Atlântica Clássica Os resultados permitiram perceber que os círculos segmentados ocorrem associados a Arte Atlântica Clássica, isto é, a composições circulares, sulcos e covinhas. Tal sucede em nove afloramentos (31%): Breia 1, Breia 9, Crastoeiro 2, Ereira 2, Laje da Churra, painel 11b; Laje das Fogaças, Pedra da Costa 1, Quinta do Paranho 1 e Teixugos 2. Em cinco casos (Breia 1 – painel 7; Crastoeiro 2; Ereira 2; Quinta do Paranho 1; Teixugos 2) os círculos segmentados situam-se numa das extremidades das composições circulares (Figs. 47, 43, 44, 45, 46). No caso de Crastoeiro 2, observa-se um círculo segmentado na extremidade nordeste das composições atlânticas e num patamar ligeiramente inferior, sem nenhuma articulação com os restantes motivos. Este foi ainda gravado com um sulco com características técnicas distintas dos restantes motivos, sendo esbatido e pouco profundo (Fig. 43). Figura 43 - Crastoeiro 2 com círculo segmentado assinalado.
80 No caso da Ereira 2, registam-se dois círculos segmentados posicionados na extremidade norte do painel 1, estando, um deles associado a um reticulado – de resto um motivo de atribuição cronológica muito difícil, enquanto o outro está adossado a um sulco (Fig. 44). Figura 44 - Pormenor da Ereira 2 com os dois círculos segmentados assinalados. No caso da Quinta do Paranho 1, observam-se dois círculos segmentados em cada extremidade do afloramento, a norte e sul. O círculo segmentado da extremidade norte parece ter resultado do aproveitamento de um círculo concêntrico de duas voltas (Fig. 45).
81 Figura 45 - Quinta do Paranho 1 com os círculos segmentados em cada extremidade assinalados. No caso de Teixugos 2, dos dois círculos segmentados, um localiza-se a oeste e outro a noroeste. O motivo a oeste tem, nas suas imediações, vários círculos concêntricos, no entanto, não existe qualquer tipo de articulação entre eles. Adicionando a esta característica, observa-se uma técnica de gravação diferente, tendo o círculo segmentado um sulco mais largo. O motivo situado a noroeste, está adossado a um círculo concêntrico, porém, é notória as diferenças entre ambos. Não só o círculo segmentado se sobrepõe à última volta do círculo concêntrico, como a técnica de gravação é distinta, sendo o sulco, a par do anterior, mais largo (Fig. 46). Figura 46 - Teixugos 2. Relação dos círculos segmentados (vermelho) e os motivos de Arte Atlântica Clássica.
82 No caso da Breia 1, estes ocorrem na extremidade sudoeste do painel 7, em associação com motivos figurativos. Já na extremidade nordeste do painel 1 este motivo sobrepõe-se a outros mais antigos. No painel 2 partilham o mesmo espaço dos motivos atlânticos, embora sem evidência de articulação com estes (Fig. 47). Figura 47 - Breia 1 com a localização dos círculos segmentados assinalada face aos motivos de Arte Atlântica Clássica (Fonte: Adaptado de Bettencourt & Santos-Estévez, 2018, p. 34). Em quatro casos (Breia 9, Laje da Churra, Laje das Fogaças e Pedra da Costa 1) os círculos segmentados gravaram-se no mesmo espaço operativo das composições circulares. No caso da Breia 9, registam-se três círculos segmentados na extremidade norte do afloramento, estando dois deles envoltos numa figura circular de onde sai o que poderá ser um cabo, para um dos lados, e um sulco para outro que se vai unir a uma figura internamente segmentada. Há, ainda, outro círculo segmentado que se encontra no exterior desta composição junto de um círculo simples (Fig. 48). A oeste existe uma figura circular raiada, parcialmente delimitada por um semicírculo de onde sai um sulco. Tecnicamente não existe diferenças entre os motivos gravados, embora os círculos segmentados
83 pareçam ter sulcos menos largos do que os restantes motivos, podendo ter sido gravados em momento posterior (Fig. 48). Figura 48 - Breia 9, relação dos círculos segmentados (a vermelho) e outros motivos (Fonte: Adaptado de Bettencourt & Santos-Estévez, 2018, p. 72). No caso da Laje da Churra, mais concretamente no painel 11b, no qual se contabilizam dois círculos segmentados, observa-se a presença de duas espirais. Um destes motivos atlânticos ocorre entre os dois círculos segmentados, enquanto o outro, localizado a sul destes motivos, encontra-se mais distanciado. Não se verifica, qualquer tipo de articulação entre os motivos atlânticos e os círculos segmentados (Fig. 49). Tecnicamente, existem diferenças. O sulco das espirais é mais profundo enquanto o sulco dos círculos segmentados é menos profundo e ténue.
84 Figura 49 – Painel 11b da Laje da Churra, no qual se observa a relação dos círculos segmentados (a vermelho) e as espirais (a azul). No caso da Laje das Fogaças ocorrem raros motivos inseríveis na Arte Atlântica Clássica, como espirais e círculos concêntricos, muito erodidos e sem qualquer articulação com os círculos segmentados. Estes invadem a superfície do afloramento nas extremidades este, sudeste e sul e no centro (Fig. 50).
85 Figura 50 - Painéis 2 e 3 da Laje das Fogaças com os motivos de Arte Atlântica Clássica assinalados (a azul) e os círculos segmentados assinalados (a vermelho). No caso da Pedra da Costa 1, observa-se um círculo segmentado posicionado na extremidade este da superfície gravada que resultou do aproveitamento de um círculo preexistente preenchido com nuvens de pontos, onde se sobrepuseram os segmentos, com sulco mais fino (Fig. 51). Figura 51 - Pormenor da Pedra da Costa 1: círculo segmentado sobreposto a uma nuvem de pontos.
92 Figura 57 - Pombas 2 com os círculos segmentados assinalados (vermelho) e quadrado segmentado (azul). No caso de Fieiral 1, a par da rocha 1 do Gião 1, o afloramento, bastante erodido, torna difícil a observação da técnica utilizada. Aqui, apenas um círculo segmentado se situa na periferia da arte esquemática (Fig. 58), estando quatro círculos segmentados junto de quadrados segmentados. Nestes quatro casos, não se observam sobreposições entre motivos (Fig. 59).
93 Figura 58 - Painel 1 do Fieiral 1, relação do círculo segmentado (vermelho) e os motivos esquemáticos (azul). Figura 59 - Painel 2 do Fieiral 1, relação dos círculos segmentados (vermelho) com os motivos esquemáticos (azul).
94 No caso de Fieiral 2, observa-se, no painel 6, a presença de um círculo segmentado que, para além de outros motivos, faz-se acompanhar de motivos de arte esquemática tardia. São eles motivos em “U” com e sem sulco interior. Estes surgem duas vezes, bastante distantes do círculo segmentado, na extremidade oeste do painel. De destacar, contudo a sua localização face a vários motivos figurativos, como um machado, um podomorfo e a inúmeras paletas. Não se observa nenhuma articulação entre os motivos (Fig. 60). A análise da técnica dos motivos é de difícil execução devido ao elevado grau de erosão do afloramento, não sendo possível observar diferenças. Figura 60 - Painel 6 do Fieiral 2, com o círculo segmentado assinalado (a vermelho) e os motivos em “U” da arte esquemática tardia (a azul). No Chão das Agras os círculos segmentados são a figura principal da composição assumindo uma posição central. Aí também existem círculos com covinha central, círculos simples e covinhas e um quadrado segmentado, motivos típicos da Arte Esquemática Antiga. Um dos círculos segmentados sobrepõe-se, parcialmente, a um círculo simples, a sul da superfície gravada, mostrando ser mais recente (Fig. 61).
95 Figura 61 - Chão das Agras e a relação dos círculos segmentados (a vermelho) com outros motivos da Arte Esquemática Antiga, quadrado segmentado assinalado (a azul). A sobreposição de motivos verificase entre o círculo segmentado do centro da composição e um pequeno círculo aí existente (a laranja). No caso da Chã da Coelheira, estão bem patentes as diferentes técnicas utilizadas, apresentando-se os três círculos segmentados dos dois painéis (Fig. 62), com sulcos mais largos e erodidos, face aos motivos mais recentes feitos com um objeto metálico, que, pelo menos, em dois casos se sobrepõe, muito parcialmente, aos círculos segmentados muito parcialmente, reaproveitando-os (Fig. 63). Os motivos esquemáticos em forma de quadrados segmentados são poucos e não se interligam com os círculos segmentados.
96 Figura 62 - Painel 1 da Chã da Coelheira com o círculo segmentado assinalado
97 Figura 63 - Painel 2 da Chã da Coelheira com círculos segmentados assinalados. No caso da Chã da Rapada 3, observa-se um quadrado segmentado com um sulco mais esbatido e situado numa extremidade do afloramento. Deste modo, os três círculos segmentados apresentam-se com um sulco mais profundo e bastante distantes do motivo esquemático (Fig. 64). Para além disso, não se encontram sobrepostos pelos restantes motivos presentes na superfície gravada, de cronologia, aparentemente, mais recente.
98 Figura 64 - Chã da Rapada 3 com círculos segmentados assinalados. No caso da Eira das Lamelas, registam-se apenas dois círculos segmentados, estando no centro/oeste do afloramento. Um dos círculos é sobreposto por uma covinha, enquanto outro tem adossado um sulco com vários círculos simples (Fig. 65).
99 Figura 65 - Painel 3, 4, 5 e 6 da Eira das Lamelas, com os círculos segmentados assinalados (painel 3). No caso de Outeiro Machado 1, observa-se a presença de quadrados segmentados e reticulados complexos, assim como motivos em “U” considerados posteriores ao Bronze Antigo tendo por base o facto de se sobreporem a alabardas na Pedra Escrita de Ridevides (Bettencourt, 2021). Neste afloramento também existem outros motivos, eventualmente, contemporâneos dos círculos segmentados – armas e paletas. A relação entre o único círculo segmentado considerado pré-histórico e os motivos de arte esquemática é praticamente nula. Este situa-se distante dos motivos esquemáticos, estando noutro painel, que possui paletas e, sobretudo, motivos históricos (Fig. 66). Não se observam sobreposições. Tecnicamente, o sulco do círculo segmentado não é tão profundo comparativamente com o dos motivos esquemáticos como os reticulados e quadrados segmentados.
100 Figura 66 - Painéis 1, 2, 3A e 3B de Outeiro Machado 1. Localização do círculo segmentado no painel 2 (a vermelho) face aos motivos esquemáticos, sobretudo presentes nos painéis 3A e 3B. Em síntese, através desta análise concluiu-se que a representatividade de círculos segmentados em afloramentos com motivos de arte esquemática é significativa, representando estes 38% dos casos estudados. Relativamente à posição dos círculos segmentados em relação aos motivos esquemáticos antigos (círculos simples ou com covinha, quadrados segmentados, outros motivos reticulados e antropomorfos), nota-se que estes tanto podem ocorrer junto dos motivos esquemáticos (53%) como na sua periferia (47% da amostra). Já em relação os motivos em “U” que se consideram mais recentes (Bettencourt, 2017a, 2017b, 2021), os círculos segmentados apenas se associam no painel 6 do Fieiral 2, estando, contudo, os motivos esquemáticos muito afastados e sem qualquer inter-relação As sobreposições, apenas se observam no Chão das Agras, na Eira das Lamelas e na Chã da Coelheira. No caso do Chão das Agras, um círculo segmentado sobrepõe, parcialmente, um círculo simples, sendo assim, mais recente. Na Eira das Lamelas, um círculo segmentado é sobreposto por uma covinha, o que é algo bastante inconclusivo. No caso da Chã da Coelheira, os dois círculos segmentados, situados no centro do afloramento, são sobrepostos por dois sulcos posteriores, provavelmente de época histórica, mais profundos e executados com objeto metálico.
101 Para além disso, observa-se o que parece ser a associação de círculos segmentados a outros motivos, eventualmente contemporâneos. É o caso do Fieiral 2 onde um círculo segmentado se associa a um machado e a um podomorfo, ambas as figuras datadas da Idade do Bronze (Bettencourt, 2017a, 2017b; Moreira, 2018); do Outeiro Machado 1 onde o círculo segmentado se parece associar a paletas ou da rocha 1 do Gião 1, onde um círculo segmentado parece representar a cabeça de um antropomorfo com mãos bastante pronunciadas e corpo quadrangular, composição que poderá ser contemporânea ou indiciar uma associação de sentidos ao antropomorfo pré-existente, o que também parece ter acontecido a outro círculo segmentado associado a um antropomorfo esquemático deste afloramento. No caso da Chã da Rapada 3, observa-se que a técnica de gravação é distinta entre aquela que foi usada para criar o quadrado segmentado e a utilizada para criar os círculos segmentados. O sulco do quadrado segmentado não é tão profundo quando comparado com os sulcos dos círculos segmentados, para alem disso, observa-se um maior grau de desgaste no motivo. No caso de Pombas 2, observa-se que o sulco do quadrado segmentado se encontra mais erodido e menos percetível do que o sulco dos círculos segmentados. No caso da Eira das Lamelas há, também, diferenças técnicas, pois comparando os sulcos dos motivos esquemáticos, nota-se que estes foram feitos com uma metodologia diferente, originando um sulco mais visível e pronunciado, ao contrário do sulco mais esbatido dos círculos segmentados. A pouca representatividade e disposição dos círculos segmentados nos afloramentos, a sobreposição, num caso, face a um motivo esquemático antigo, a sua aparente associação a motivos figurativos da Idade do Bronze ou do Ferro e as diferenças técnicas, nalguns casos, parecem indiciar que estes motivos são mais recentes do que os da Arte Esquemática Antiga, atribuídos por vários autores ao Neolítico e Calcolítico ( Sanches, 1997, 2002, 2006; Bradley et al ., 2005; Alves et al ., 2013; Figueiredo, 2013). Em relação aos motivos em U, considerados posteriores ao Bronze Inicial, os círculos segmentados não se articulam com estes, no entanto não existem diferenças técnicas, podendo colocar-se a hipótese da sua contemporaneidade O que é certo é que os círculos segmentados, nalguns casos foram sobrepostos por motivos históricos, sendo, portanto, antigos. 10.3. Círculos segmentados versus motivos atlânticos clássicos e esquemáticos Apenas foi registado um afloramento com estas características, o que corresponde a 3% da amostra. Trata-se das Vargielas 1, em Monção, que apresenta uma superfície gravada que comporta círculos segmentados juntamente com motivos atlânticos clássicos e motivos esquemáticos.
108 Figura 71 - Outeiro Machado; painel 1 (à direita) com machados assinalados (azul) e painel 2 (à esquerda) com círculo segmentado assinalado (vermelho) e paletas (a amarelo) nos dois painéis. Em síntese, a articulação verificada nalguns casos entre os círculos segmentados e equídeos, barquiformes e armas, nalguns casos, indicia a mesma cronologia tal como já defendeu Bettencourt (2017a, 2917b, 2019a). 10.5. Círculos segmentados e motivos desconhecidos Neste grupo não se tem em conta os motivos considerados mais recentes em cada afloramento, como, por vezes, covinhas com canais, cruzes de diferentes tipologias, cruzeiros e pentagramas. Inseriram-se aqui dois (7%) afloramentos com círculos segmentados e com outros motivos difíceis de interpretar, cuja técnica de gravação e grau de erosão sugere contemporaneidade. São eles: Figueiró 1 e Monte da Fonte Seca. Figueiró 1, apresenta oito círculos segmentados, um localizado a sul e junto de motivos retangulares ou ovais, diversas vezes segmentados. No lado este do afloramento, observam quatro círculos segmentados e um círculo simples e, no lado oeste, três círculos segmentados e um círculo simples (Fig. 72). No desenho de Abel Viana (1960) existe a presença de um círculo concêntrico, em alto relevo, localizado a este. Pela técnica usada não parece um motivo atlântico, embora a questão fique em aberto. Poderá ser a representação de um escudo? Também as ovais ou quadrados de cantos arredondados, segmentadas
109 de modo irregular no interior, são motivos que surpreendem. Serão igualmente representações de escudos? De registar que motivo similar também aparece na Laje das Fogaças, no painel 3. Figura 72 - Desenho de Figueiró 1 de Abel Viana (1960). O Monte da Fonte Seca, regista a presença de um círculo segmentado no centro-este do afloramento. A norte deste motivo observa-se uma figura geométrica retangular, cuja extremidade sul se remata por duas séries de barras verticais intercaladas com uma não decorada (Fig. 73). Não ocorrem sobreposições.
110 Figura 73 - Monte da Fonte Seca e a localização do círculo segmentado e o motivo retangular que parece contemporâneo. 10.6. Exclusividade de círculos segmentados Neste grupo inseriram-se os afloramentos apenas com círculos segmentados. Também não se têm em conta motivos considerados históricos que possam ter sido adicionados posteriormente. Nesta categoria incluem-se quatro (14%) afloramentos: Gião 1 – rocha 23 (Fig. 74); Santo Ovídio 1 e Santo Ovídio (Fig. 75) 2 e Vargielas 2 (Fig. 74)). Em Santo Ovídio 1 observa-se que o círculo segmentado foi sobreposto pela gravação de um cruzeiro (Fig. 75)).
111 Figura 74 - Rocha 23 do Gião 1 localização do círculo segmentado (à esquerda) e.Vargielas 2 e a localização do círculo segmentado (à direita). Figura 75 - Pormenor de Santo Ovídio 1 (à esquerda) e localização do círculo segmentado de Santo Ovídio 2 (à direita). 10.7. Círculos segmentados em artefactos e outros contextos gravados A ocorrência de círculos segmentados não se circunscreve ao Noroeste português nem à arte rupestre de ar livre. Neste subcapítulo irá ser demonstrado a existência de paralelos para estes motivos existentes em contextos arqueológicos da Idade do Bronze. Tal existe em artefactos metálicos, nas gravuras do Túmulo de Kivik, na Suécia, na arte rupestre escandinava e nas estelas do Sudoeste ibérico.
112 10.7.1. Artefactos metálicos A representação de círculos segmentados em artefactos metálicos é bastante significativa. Estes ocorrem em ouro ou bronze, desde o Bronze Inicial até ao Bronze Final. Na Irlanda e na Grã-Bretanha, foram encontrados, em contexto de escavação, vários discos solares de ouro, alguns dos quais com representações de discos segmentados. Foram balizados, cronologicamente, entre o Calcolítico e o Bronze Inicial (Cahill, 2015) (Fig. 76). Figura 76 - Discos de ouro da Irlanda (Fonte: Cahill, 2015). Na localidade de Balkakra, Suécia, foi encontrados um artefacto metálico em forma de disco assente numa base que remata em círculos segmentados (Fig. 77) Lund (1981) consideraram-no um objeto musical de percussão, dos inícios da Idade do Bronze, e Knape e Nordstrom (1994), como um banco para líderes da Idade do Bronze. Kristiansen e Larsson (2006, p. 204) colocam este artefacto entre os séculos XVII e XVI a.C. como verdadeiros símbolos de uma nova ideologia vigente na sociedade de então.
113 Figura 77 – Artefacto em ouro de Balkakra (Fonte: https://historum.com). Da Dinamarca, em Trundholm, conhece-se um carro votivo, em bronze, cujas rodas apresentam a forma de círculos segmentados (Fig. 78)). É considerado como um carro solar puxado por cavalos, representando o dia e a noite (Aner & Kersten, 1976, in Kristiansen & Larsson, 2006, p. 294). É colocado, cronologicamente, entre os séculos XVI e XII a.C. Figura 78 - Os dois lados do carro votivo de Trundholm, na Dinamarca (Fonte: Fot. do Samlinger Museu Nacional da Dinamarca: https://samlinger.natmus.dk/DO/asset/2613). Para além destes exemplos, foi ainda encontrado a representação de um círculo segmentado, em bronze, interpretado como um símbolo solar, na sepultura da mulher de Tobol (Fig. 79), em Jutlândia, na Dinamarca, estando este datado de entre os séculos XVI e XIII a.C, sendo interpretado como um símbolo solar (Aner & Kersten, 1986, in Kristiansen & Larsson, 2006, p. 298-302).
114 Figura 79 – A mulher Tobol com círculo segmentado em bronze na cintura (fonte: Aner & Kersten, 1986 in Kristiansen & Larsson, 2006, p. 301) Note-se, igualmente, as representações de círculos segmentados nas luras de bronze de Wismar, Alemanha, que são atribuídas à Idade do Bronze Médio e Final (Fig. 80) (Kristiansen & Larsson, 2006, p. 195).
115 Figura 80 – Representações de círculos segmentados nas luras de bronze de Wismar (Fonte: Kristiansen & Larsson, 2006, p. 196). Na Península Ibérica conhecem-se os carros votivos da Senhora da Guia, em Baiões, em Viseu (Silva, 1979). Este conjunto comporta três exemplares de carros votivos de distintos tamanhos, nos quais os círculos segmentados surgem representados nas rodas (Fig. 81). São atribuídos ao Bronze Final (Silva, 1979). Figura 81 - Carro votivos de Baiões 1 (Fonte: Silva-Gomes, 1992, in Schattner, 2011-2012). No norte de Espanha, nas Astúrias, foi encontrado, na plataforma superior do Castro de Chao Samartín, um disco com segmentos cruzados, lembrando os círculos segmentados, feito em bronze, datado de entre os séculos VIII-VII a.C. (Villa Valdés, 2009) (Fig. 82).
116 Figura 82 - Disco em bronze proveniente do castro de Chao Samartín (Fonte: Villa Valdés, 2009). Um pendente em bronze, composto por um círculo segmentado, foi encontrado, no povoado de S. Estevão da Facha, em Ponte de Lima (Almeida et al., 1981). Este artefacto é proveniente da ocupação deste povoado no período cronológico entre o Bronze Final e os inícios da Idade do Ferro (Almeida et al., 1981). Existe um disco solar de metal e âmbar encontrado na Dinamarca, sem contexto, atribuído à Idade do Bronze e inícios da Idade do Ferro (Varberg et al ., 2019), tendo paralelos na arte rupestre como nas gravuras de Backa, na Suécia e na Laje das Fogaças, em Caminha (Bettencourt, 2019a) (Fig. 83).
117 Figura 83 - Esquerda: disco solar em âmbar e metal encontrado na Dinamarca (Fonte: (Museu Nacional da Dinamarca); Meio: representação rupestre de disco solar, Backa, Bohusland, Suécia (Fonte: https://www.rockartscandinavia.com); Direita: Pormenor do painel 2 da Laje das Fogaças com provável representação do disco solar. 10.7.2. Túmulo de Kivik, Suécia Na Suécia foi encontrado um contexto arqueológico funerário único: o túmulo de Bredarör, em Kivik, Suécia, datado entre os séculos XVI e XII a.C. (Goldhahn, 1999, 2009). Caracteriza-se por ser bastante grande e situa-se numa zona costeira. Possui um vasto espólio com artefactos metálicos. No entanto, o que o torna único, são oito esteios que possuem uma iconografia bastante diversificada, caracterizada por círculos segmentados, equídeos, um carro, antropomorfos, armas, luras, barquiformes, entre outros símbolos abstratos (Randsborg, 1993, in Kristianse & Larsson, 2006, p. 189; Goldhahn, 1999, 2009 (Fig. 84).
124 11. A integração dos lugares gravados nas paisagens da Idade do Bronze Partindo do ponto de partida de que os afloramentos gravados com círculos segmentados são da Idade do Bronze foi testada a hipótese da sua inter-relação com povoados deste período conhecidos no Noroeste. Para tal recorreu-se a uma ferramenta do SIG, que permite estabelecer linhas anisotrópicas através de um ponto predefinido no mapa, neste caso, os povoados da Idade do Bronze, e, calcular o território percorrido num determinado período de tempo, a partir dele. Para tal, definiram-se intervalos de 30 minutos até chegar ao território de 2 horas pedestres, considerando-o, assim, não só como o território provável de exploração económica, mas também, como um território de práticas mais conectadas com o mundo ideológico, tal como foi usado por Bettencourt (1999, p. 116). Foi possível fazer este exercício a partir de nove povoados, os únicos identificados na bibliografia como sendo da Idade do Bronze Médio ou Final localizados nas proximidades de sítios gravados. São eles: Cristelo, em Paredes de Coura; Santo António, em Viana do Castelo; Castro de Álvora, em Arcos de Valdevez; Quinta do Rapido, em Barcelos; Castelo Faria, em Barcelos; Santa Ana, em Chaves; Alto da Subidade, em Ribeira de Pena; Alto da Senhora da Piedade, em Mondim de Basto e Castro de S. Caetano, em Monção. Na bacia fluvial do Minho e plataforma litoral até à bacia do Lima, apenas se identificaram dois povoados nas proximidades de afloramentos gravados com círculos segmentados. São os de S. Caetano, em Monção (Silva & Campos, 2015) e o de Cristelo, em Paredes de Coura (Silva, 1991, 1992,1994). A partir do povoado de São Caetano é possível observar a presença de Teixugos 2 no seu território teórico de exploração pedestre de 2 horas (Fig. 90). No território teórico de exploração pedestre de 2 horas do povoado de Cristelo, observa-se que o afloramento gravado de Monte de Porreiras 3 não se encontra nesse território, no entanto, revela proximidade, podendo a sua localização não ser arbitrária (Fig. 91).
125 Figura 90 – Território teórico de exploração pedestre de 2 horas desde o Castro S. Caetano (6) e a localização de Teixugos 2 (15) (©UAUM). Figura 91 – Território teórico de exploração pedestre de 2 horas desde o povoado de Cristelo (8) e a localização de Monte de Porreiras 3 (18) (©UAUM).
126 Na plataforma litoral, o povoado de Santo António, com ocupação da Idade do Bronze, em Afife, Viana do Castelo (Bettencourt, 2013; Oliveira & Bettencourt, 2021) possui, no seu território teórico de exploração pedestre de 2 horas, os afloramentos gravados de Figueiró 1 e Laje da Churra, a sul, e o afloramento gravado de Ereira 2, a sudeste (Fig. 92). Figura 92 – Território teórico de exploração pedestre de 2 horas desde o povoado de Sto. António (9) e a localização de Ereira 2 (24), Figueiró 1 (25) e Laje da Churra (26) (©UAUM). Na bacia fluvial do Lima, conhece-se, apenas, um povoado da Idade do Bronze com proximidade a um afloramento gravado com círculos segmentado, sendo ele o Castro de Álvora, em Arcos de Valdevez, com ocupação do Bronze Final (Bettencourt, 1988, 1999). Verifica-se que a Pedra da Costa 1, está no centro do território teórico de exploração pedestre de 2 horas deste povoado, revelando uma forte ligação entre o povoado e o lugar com o afloramento gravado (Fig. 93).
127 Figura 93 – Território teórico de exploração pedestre de 2 horas desde o Castro de Álvora (7) e a localização de Pedra da Costa 1 (©UAUM). Na bacia fluvial do Cávado quer o povoado da Idade do Bronze Médio da Quinta do Rapido, em Barcelos (Bettencourt, 2013) quer o povoado de Faria, que possui ocupação do Bronze Médio e Final, também em Barcelos (Bettencourt, 1999) incluem no seu território teórico de exploração pedestre de 2 horas, o afloramento da Quinta de Paranho 1 (Fig. 94). Em ambos os casos as gravuras ficam no limite do território para os lados su-sudeste e este, respetivamente.
128 Figura 94 – Território teórico de exploração pedestre de 2 horas de Castelo Faria (1) e o Povoado da Quinta do Rapido (2) e a localização da Quinta do Paranho 1 (1) (©UAUM). Na bacia fluvial do Tâmega, identificaram-se três povoados nas proximidades de afloramentos gravados com círculos segmentados. São os de Santa Ana, em Chaves, do Alto da Subidade, em Ribeira de Pena e do Alto da Senhora da Piedade, em Mondim de Basto. Em relação ao povoado com ocupação do Bronze Final de Santa Ana, em Chaves (Santos, 1995) observa-se que o Outeiro Machado se encontra nos limites do seu território teórico de exploração pedestre de 2 horas, para oeste-sudoeste (Fig. 95).
129 Figura 95 – Território teórico de exploração pedestre de 2 horas desde o povoado de Santa Ana (5) e a localização de Outeiro Machado 1 (30) (©UAUM). Já em relação ao provável povoado da Idade do Bronze Final do Alto da Subidade, em Ribeira de Pena (Vasconcellos, 1917; Carvalho, 1981; Silva, 1986), observa-se que o afloramento gravado da Eira das Lamelas insere-se nos limites do seu território teórico de exploração pedestre de 2 horas, na sua extremidade nordeste (Fig. 96).
130 Figura 96 – Território teórico de exploração pedestre de 2 horas desde o povoado do Alto da Subidade (4) e a localização da Eira das Lamelas (29) (©UAUM). Em relação ao povoado com ocupação do Bronze Final do Alto da Senhor da Piedade (Dinis, 2006), no concelho de Mondim de Basto, em Vila Real, observa-se que o afloramento gravado do Crastoeiro 2 fica na extremidade nordeste do seu território teórico de exploração pedestre de 2 horas (Fig. 97). Figura 97 – Território teórico de exploração pedestre de 2 horas desde o povoado do Alto da Senhora da Piedade (3) e a localização de Crastoeiro 2 (28) (©UAUM).
131 Em síntese, através desta análise conseguiu-se comprovar a presença de lugares gravados com círculos segmentados nos territórios teóricos de exploração pedestre de 2 horas de povoados da Idade do Bronze. Tal verifica-se em dez casos (34% da amostra), embora seja de admitir que o número de povoados conhecidos para este período resulte apenas de trabalhos prévios e diferenciados em intensidade, para cada bacia fluvial, pelo que os dados são provisórios. Também se verifica, com exceção de um caso, que os afloramentos gravados se localizam nos limites dos territórios, entre 1h30 e 2 h, o que parece ser intencional. Tal circunstância levanta várias questões que só uma amostra maior poderá responder. Marcariam os lugares gravados, fronteiras entre o território de diferentes comunidades? Marcariam fronteiras entre o território explorado mais intensivamente para fins de subsistência e o território menos usado no dia a dia das comunidades? Seriam locais propositadamente isolados, como é conveniente a sítios associados ao mundo ideológico e religioso? Como explicar o caso da Pedra da Costa 1, no território de 30 m do povoado do Castro de Álvora? Teria este lugar sido marcado e integrado na Idade do Bronze por já ter grafias ancestrais?
132 12. O papel social e simbólico dos lugares gravados com círculos segmentados Pela observação de várias variáveis, como a distribuição espacial dos motivos gravados nos afloramentos, orientação dos segmentos constituintes dos círculos segmentados, escolha das superfícies gravadas em termos da exposição solar e visibilidade do percurso solar a partir delas, parece possível equacionar várias hipóteses sobre o papel social e simbólico destes lugares, a saber: - que teriam sido gravados por pessoas, conhecedoras dos fenómenos astronómicos, nomeadamente do ciclo solar; - que momentos importantes do ciclo solar estão inscritos na superfície dos afloramentos, como os solstícios de verão e de inverno e os equinócios de primavera e verão, entre outros momentos intermédios; - que determinadas estrelas de orientação também parecem estar “marcadas” nestes locais, nomeadamente as que orientam o norte, como é o caso da estrela polar, e outras que orientam o sul; - que estes lugares, ao valorizarem a contagem do tempo e a orientação, poderiam ser, simultaneamente, observatórios astronómicos e lugares de cerimónias e culto ao ciclo solar; - que, devido à diversidade do número de círculos segmentados por afloramento, parecem existir lugares mais frequentados do que outros, sendo os mais frequentados, provavelmente para cerimónias cíclicas e coletivas. Estes dados também permitem colocar a hipótese da existência de diferentes lugares articulados entre si, no contexto dos vários observatórios-santuários. Tal poderia ser o caso de Vargielas 1 e 2 ou de Fieiral 1 e 2, ambos com intervisibilidade entre si, mas este será um estudo a desenvolver em fase posterior a este trabalho. - que o facto destes lugares se encontrarem longe dos povoados seria intencional, como convém a lugares celebrativos e de foro religioso. Pela observação de várias variáveis, como a localização espacial dos círculos segmentados face a motivos gravados da arte atlântica clássica e esquemática, levantam-se, também, várias hipóteses a saber: - que estes representaram, provavelmente na Idade do Bronze, a reinterpretação ou adição de novos sentidos de / a lugares ancestrais de grande simbologia. Encontram-se nestas circunstâncias: a Laje das Fogaças e Pombas 2 em Caminha; a Quinta do Paranho 1, em Barcelos; Breia 1, Breia 9, Ereira 2 e Laje da Churra, em Viana do Castelo; Chão das Agras, Teixugos 2 e Vargielas 1 em Monção; Gião 1 – rochas 1, 21 e Pedra da Costa 1 em Arcos de Valdevez; Fieiral 1, 2 e Alto da Portela do Pau em Melgaço; Chã
133 da Coelheira e Chã da Rapada 3, em Ponte da Barca; Crastoeiro 2 em Mondim de Basto; Eira das Lamelas, em Ribeira de Pena; Outeiro Machado 1, em Chaves e, em Monção. - que, na Idade do Bronze, se criaram novos lugares significantes no território. São eles: Breia 1, Breia 5, Laje da Churra e Figueiró 1 em Viana do Castelo; Monte de Porreiras 3 em Paredes de Coura; Monte da Fonte Seca e Vargielas 2 e Monção; Gião 1 – rocha 23, em Arcos de Valdevez; Laje das Fogaças em Caminha; Santo Ovídio 1 e 2, em Montalegre; Vargielas 2, em Monção. As relações dos círculos segmentados com equídeos possibilitam, também, novas considerações: - que estas associações ocorrem em pequeno número (cinco casos): Breia 5 (Fig. 98); Breia 1 – painel 7 (Fig. 99); Laje das Fogaças, Monte das Porreiras 3 e Laje da Churra – painel 3 e todas na fachada mais litoral do Noroeste, o que indicia, tal como Bettencourt (2017a, 2017b, 2019) defendeu, a adoção do culto do cavalo solar, característico da Idade do Bronze nórdica, no qual o equídeo é responsável por transportar o sol durante o dia e durante a noite, sendo o sol representado pelo círculos segmentados materializando os segmentos os solstícios e equinócios durante o ano. Esta autora defendeu esta hipótese com base na Breia 5, na Breia 1 (Fig. 98) e no painel 1 da Laje das Fogaças. Figura 98 - Breia 5, associação do círculo segmentado (vermelho) e os quadrúpedes parecendo materializar o nascer do sol e o ocaso no solstício de verão, consoante a orientação dos equídeos (Fonte: Adaptado de Bettencourt & Santos-Estévez, 2018, p. 59)