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Perder imagens do passado? Nem a feijões!: Exposição de quadros parietais no âmbito de 2016-Ano Internacional das Leguminosas

Gomes, Ana Rita Coelho; Nogueira, Paula Ramos; Nobre, Alexandra

Abstract

O ensino em geral, e o das Ciências em particular, recorre a múltiplas formas de expor e transmitir conhecimento e, neste processo, a imagem tem desde sempre um papel preponderante. Foi partindo deste pressuposto – a importância da imagem para o processo de ensino-aprendizagem ao longo do tempo – que se pensou a presente exposição. Nela se apresentaram quadros parietais e imagens de outra tipologia, veiculadoras de conhecimento científico no âmbito das ciências naturais, e que foram usadas em Portugal, essencialmente durante o século XX. Pretendeu-se que a exposição cujo tema central é as leguminosas, e que teve lugar em 2016 – Ano Internacional das Leguminosas, fosse apelativa, quer para o público escolar, quer para o público em geral, e permitisse fortalecer relações entre a ciência e a sociedade, promovendo a literacia e a cultura científicas. R Abstract: The teaching methods, especially those concerning to natural sciences, should take advantage of several strategies, from demonstrations to hands-on approaches and, in these processes, the image has a central role. It was with this premise – the importance of the image for the teaching and learning processes through time – that the present exhibition was planned. Therefore, parietal charts and other images used in Portugal, mainly during the 20th century in the scope of natural sciences teaching, were chosen and presented. As 2016 was decreed by United Nations Organization as the International Year of Pulses, the exhibition seemed a good opportunity to celebrate this theme and to strengthen of the relation between science and society.

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Diretores (Main Editors) João Rui Pita e Ana Leonor Pereira Universidade de Coimbra Os originais enviados são sujeitos a apreciação científica por referees. Coordenação Editorial (editorial coordinator) Maria João Padez Ferreira de Castro Edição Imprensa da Universidade de Coimbra Email: [email protected] URL: http://www.uc.pt/imprensa_uc Vendas online: http://www.livrariadaimprensa.uc.pt Design Imprensa da Universidade de Coimbra Imagem da Capa Reprodução parcial de quadro de Pedro Freitas(1953-2016) intitulado "A biblioteca". Coleção particular Infografia Bookpaper Impressão e Acabamento Simões e Linhares, Lda. ISSN 2183 -9832 ISBN 978-989-26-1311-6 ISBN Digital 978-989-26-1312-3 DOI https://doi.org/10.14195/978-989-26-1312-3 Depósito Legal ....../19 Obra publicada com a colaboração de: Os volumes desta coleção encontram -se indexados e catalogados na Base de dados da Web of Science. © NOVEMBRO 2020, IMPRENSA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA ANA LUÍSA SANTOS, ANA ROLA, CARLA MORAIS, CLARA VASCONCELOS, ELSA M. C. GOMES, ISILDA TEIXEIRA RODRIGUES, JORGE AZEVEDO, SÉRGIO P. J. RODRIGUES (COORDS.) História da Ciência no Ensino. Revisitando Abordagens, Inovando Saberes History of Science in Science Teaching: Revisiting Approaches, Innovating Knowledge • COIMBRA 2020 Conselho editorial (editorial Board) Alain Touwaide Institute for the Preservation of Medical Traditions, Smithsonian Institution, Washington, USA Anita Magowska Poznan University of Medical Sciences, Poland António Gonzalez Bueno Universidad Complutense de Madrid, España Emanuela Appetiti Institute for the Preservation of Medical Traditions, Smithsonian Institution, Washington, USA Javier Puerto Universidad Complutense de Madrid, España Jean ‑Noel Missa Université Libre de Bruxelles, Belgique Juan António Rodriguez Sanchez Universidad de Salamanca, España Márcia Ferraz Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Brasil Olivier Lafont Université de Rouen, France Patricia Aceves Universidad Autónoma Metropolitana, Xoximilco, México Pedro Ricardo Fonseca Universidade de Coimbra, Portugal Philip Rieder Université de Genève, Suisse Stéphane Tirard Université de Nantes, France Stuart Anderson London School of Hygiene and Tropical Medicine, Great Britain Tania Fonseca Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil Victoria Bell Universidade de Coimbra, Portugal sumário História da Ciência no Ensino. Revisitando Abordagens, Inovando Saberes. Uma Introdução Sérgio P. J. Rodrigues, Ana Luísa Santos, Ana Isabel Rola, Carla Morais, Clara Vasconcelos, Elsa M. C. Gomes, Isilda Teixeira Rodrigues, Jorge Azevedo .......................................................................... Na Génese da Revolução Química e na afirmação da Teoria Newtoniana: Contributos de João Jacinto de Magalhães (1722-1790) Isabel Malaquias ........................................................................................ Egas Moniz (1874-1955), Prémio Nobel: Figura Incontornável no Ensino da História das Ciências em Portugal Ana Leonor Pereira, João Rui Pita .............................................................. António Gião (1906-1969): Biografia, personalidade e últimos trabalhos científicos Carlos Fiolhais ........................................................................................... A Origem da Cor nos Selos Portugueses (1857-1909) Catarina Pinto, J. Sérgio Seixas de Melo .................................................... A Petrografia microscópica no ensino da Mineralogia e Petrologia, na Universidade de Coimbra, no final do século XIX e início do século XX. O exemplo da coleção Krantz de lâminas delgadas Elsa M. C. Gomes, Pedro M. Callapez, Carla Marques, Carlos Barata ......... 6 Perder imagens do passado? Nem a feijões! Exposição de quadros parietais no âmbito de 2016 – Ano Internacional das Leguminosas Ana Rita Coelho Gomes, Paula Ramos Nogueira, Alexandra Nobre ........... Os museus e o ensino em ciências: uma perspetiva histórica Carlos Barata, Carla Marques, Pedro M. Callapez ....................................... Acervo histórico do Instituto Geofísico da Universidade de Coimbra: um contributo para a lecionação da História da Ciência no ensino Básico e Secundário Gina Pereira Correia, Fernando B. Figueiredo, Ana Gomes ....................... Coloquios dos Simples e Drogas da India de Garcia da Orta: um instrumento privilegiado para o ensino da história da botânica João Paulo S. Cabral .................................................................................. Recursos didáticos sobre Pedro Nunes para utilização da História da Ciência em contexto de sala de aula Andreia Marlise Carneiro-Carvalho, Isilda Teixeira Rodrigues ................... História da Sericicultura na Obra de Rafael Bluteau (Séc. XVII-XVIII) Jorge Azevedo ............................................................................................ A refutação da geração espontânea nos microrganismos como contributo para a esterilização Ana C. Sampaio, António Inês, Ana Pinto-Sintra ........................................ A Farmacopeia Portuguesa e a Farmacopeia Europeia: revisão histórica e sua importância no ensino da Tecnologia Farmacêutica Jaime Conceição, João Rui Pita, Helena Maria Cabral-Marques, José Manuel Sousa Lobo .................................................................................... 7 Medindo o corpo e o esqueleto: os instrumentos da casa Mathieu (1889) no ensino da Antropologia na Universidade de Coimbra Maria Augusta Rocha, Ana Luísa Santos ..................................................... Reading Graeco-Roman Medicine in the Light of its Medical-Surgical Instruments Maria do Sameiro Barroso.......................................................................... ICATE: Um projeto de sensibilização para o controlo de doenças infeciosas através da educação Inês Cravo-Roxo, Ana Santos-Carvalho, Angélica Carvalho, Patrícia Lourenço, Paulo Ferreira, Richard Marques, Rui Soares, Susana Alarico, Sónia Ferreira .................................................................... “Gestão Sustentável dos Recursos” – Avaliação das Atividades Práticas dos Manuais Escolares de Ciências Naturais: Edição 2007 Versus 2014 Estefânia Pires, Celeste Gomes, Isabel Abrantes, Alcides Pereira, Gina Pereira Correia .................................................................................. Contributos de uma história da sismologia em Portugal para a compreensão da atividade sísmica (objetivo geral n.º 11 das metas curriculares de ciências naturais do 7.º ano do ensino básico) Jorge Ferreira ............................................................................................. O projeto “Histórias com Ciência na Biblioteca Escolar” António Andrade, Helmuth Malonek, Isabel Malaquias, José Saro, Vítor Bonifácio ........................................................................................... Cursos Avançados do Instituto de Educação e Cidadania para o Ensino Básico: Uma estratégia aplicada à História da Ciência Ana Santos-Carvalho, Adriana Fontes, Alexandra Oliveira, Inês CravoRoxo, Lucieta Marques, Nuno Santos, Richard Marques, Sónia Ferreira ..... 8 Influência do Curso Avançado de Ciências Experimentais nas perceções dos alunos do 4º ano sobre o trabalho dos cientistas: um estudo de caso numa escola Ciência Viva Denise Esteves, Ana Santos-Carvalho ......................................................... 9 história da CiênCia n o ensino. revisitando a Bordagens, inovando saBeres. um a introdução Sérgio P. J. Rodrigues 0000-0002-4640-7039 CQC, Departamento de Química, Universidade de Coimbra [email protected] Ana Luísa Santos 0000-0001-6073-1532 CIAS, Departamento de Ciências da Vida, Universidade de Coimbra [email protected] Ana Isabel Simões Rola 0000-0003-1298-1160 CITEUC, Departamento de Ciências da Terra, Universidade de Coimbra ana.av[email protected] Carla Morais 0000-0002-2136-0019 CIQUP, Unidade de Ensino das Ciências, Departamento de Química e Bioquímica, Faculdade de Ciências, Universidade do Porto cmorais@ fc.up.pt 16 e Cidadania para o Ensino Básico, analisando, entre outros aspetos, a sua aplicação a diferentes realidades. Finalmente, Denise Esteves e Ana Santos-Carvalho analisam a evolução das perceções dos alunos do 4º ano do ensino básico acerca do trabalho dos cientistas. Agradecimentos Agradecemos aos elementos da Comissão Científica do 2EHCE, aos revisores científicos e às instituições que tornaram possível a reunião científica e a publicação do presente volume, CIAS, CQC, UC e UTAD. 3. Referências Amador, F. (2010). Contribuições da História da Ciência para os processos de desenho curricular. Revista da Educação, XVII (1), 9-30. Fiolhais, C. (2013). História da Ciência em Portugal. Lisboa: Arranha-Céus. Malaquias, I. & Morris, P. J. T. (Eds.) (2019). Perspectives on Chemical Biography in the 21st Century. Newcastle: Cambridge Scholars. Matthews, M. R. (1994). Science teaching: the role of history and philosophy of science. New York: Routledge. Santos, A. L., Rola, A., Morais, C., Vasconcelos, C., Gomes, E., Rodrigues, I., Azevedo, J. & Rodrigues, S. (Eds.) (2017). 2º Encontro de História para a Ciência no Ensino/III Colóquio de História da Ciência para o Ensino. Programa e Resumos. Coimbra: I&D CIAS. Acedido a 10 de feverteiro de 2019, em https://estudogeral. sib.uc.pt/-handle/10316/44445. 17 na génese da r e vo l u ç ão Q u í m i C a e n a a f i r m aç ão da teoria newtoniana: ContriButos d e João JaC i n to d e m agalhães (1722-1790) in the genesis o f the C hemiCal revolution and the newtonian theory affirmation: ContriButions from João JaC i n t o d e m agalhães (1722-1790) Isabel Malaquias 0000-0002-3179-0282 Departamento de Física, CIDTFF, Universidade de Aveiro [email protected] Resumo: O desenvolvimento do espírito de experimentação e de quantificação caracterizou o século XVIII. Várias são as personagens da época bem conhecidas no campo das ciências e divulgadas no ensino das ciências. No entanto, muitas vezes ficam restringidas a dois grandes nomes, Antoine Lavoisier e Joseph Priestley, na eventual companhia de Benjamin Franklin e Alessandro Volta. Menos comum é a perceção de que, em torno destes homens, fervilhava um grupo de outras personagens – industriais, instrumentalistas, homens de ciência – que também contribuíram para o desenvolvimento científico. Apresentamos João Jacinto de Magalhães (1722-1790), 18 aveirense ilustre que, fixando-se em Londres (1763), partilhou entusiasticamente o espírito que fazia vibrar aquela cidade em torno da instrumentação, da química, da física, da astronomia, da medicina. Acentuamos o papel importante que teve na comunicação internacional da pneumática inglesa, que foi determinante no desabrochar da nova química lavoiseriana, e o seu contributo para a afirmação experimental da teoria newtoniana, divulgando o uso da máquina de Atwood, ainda hoje presente em escolas secundárias. Palavras-Chave: História da ciência, João Jacinto de Magalhães, comunicação científica, Revolução Química, máquina de Atwood Abstract: The development of the spirit of experimentation and quantification characterized the eighteenth century. Several personages of the time are well-known in sciences, being included in the teaching of sciences. However, they are often restricted to two great names, Antoine Lavoisier and Joseph Priestley, in the possible company of Benjamin Franklin and Alessandro Volta. It is less common the perception that, around these men, a group of other people – industrialists, instrumentalists, scientists – was stirring up, also contributing to the scientific development. We present John Hyacinth de Magellan (1722-1790), illustrious man born in Aveiro, who settled in London (1763), and shared enthusiastically the spirit that made this city vibrate around the instrumentation, chemistry, physics, astronomy, medicine. We emphasize the important role he played in the international dissemination of English pneumatics, that had been instrumental in the blossoming of the new chemistry of Lavoisier and his contribution to the experimental confirmation of Newtonian 19 theory, promoting the use of the Atwood machine, which is still present today in secondary schools. Keywords: History of science, John Hyacinth de Magellan, scientific communication, Chemical Revolution, Atwood machine 1. Introdução A integração da história da ciência, ou, mais adequadamente, de episódios de história da ciência, no ensino das ciências, tem suscitado nos últimos trinta anos diversas opiniões e registos (Martins, 2001; Boston Working Group, 2013), salientando-se tanto os aspetos positivos como os negativos. A necessidade de humanização da ciência é um fator relevante a ter em conta quando se ensina ciências, pois permite que os estudantes compreendam as diferentes facetas, não só científicas, que influem no trabalho dos cientistas. Alguns autores pretendem contribuir para “desfazer” o mito do cientista na sua torre de marfim, reivindicando o papel dos contextos no processo científico. Outros autores, mais renitentes, referem a criação de novos “mitos” e versões desajustadas ou mesmo deformadas do que a documentação histórica permite objetivar (Martins, 2001). Almeida (1993), em relação com a questão apontada, refere os textos literários que podem ser utilizados em aulas de Física, não apenas com finalidade estritamente motivadora mas como meio para gerar nos alunos atitudes cuja formação é encargo de qualquer disciplina – sentimentos e emoções desejáveis, curiosidade científica, consciência crítica, etc. Pretendemos aqui realçar o que de melhor se poderá fazer na aproximação destas duas áreas, sem perder de vista os problemas 20 apontados, mas buscando a proximidade necessária e criando espaços mutuamente enriquecedores, ao ampliar e dar significado a conhecimentos e ao diversificar e valorizar públicos. Procuramos contribuir para o melhor conhecimento de um personagem português que interveio de uma maneira singular no desenvolvimento da ciência europeia do século XVIII. 2. Contexto científico setecentista O progresso científico-instrumental na Europa setecentista ultrapassou em muito a herança do século anterior. No que respeita à física, por exemplo, ocorreram mudanças significativas no respetivo conceito, entre o início com o final do século. Na última fase, a física tinha-se libertado das ciências biológicas e demarcava-se da química. Passou a englobar áreas que pertenciam ao grupo das ciências matemáticas, designadamente a ótica e a mecânica, e a abarcar a mecânica de fluidos e a pneumática, o calor, a meteorologia, a geofísica, a eletricidade e o magnetismo. Durante o século XVIII, a física sofreu processos de redefinição complexos, que incluíram a reformulação dos seus objetivos e processos, processos esses aos quais não foram alheios os desenvolvimentos da instrumentação e da técnica em geral. É nesta perspetiva que Heilbron (1979) considera que devemos procurar a unidade e singularidade desta ciência (Malaquias, 1994). Olhando para o século anterior, verificamos que a química se afasta relativamente aos modos de atuação alquímicos, procurando-se uma interpretação teórica mais próxima dos resultados experimentais. O filósofo natural inglês Robert Boyle (1627-1691) deu noções operacionais de “elemento”, “composto” e “mistura”. Estudaram-se as reações de calcinação, a combustão, a respiração e a fermentação e procuram-se interpretações das mesmas. No século seguinte, a química constitui-se como o ramo das ciências físicas 21 que sofre uma revolução ímpar que conduz à sua autonomia como disciplina no final de setecentos. A ciência e o espírito científico tiveram durante este século um desenvolvimento apreciável. Estamos no Século das Luzes, caraterizado pelo seu secularismo, racionalismo e crença na ordem natural das coisas. Foi a interligação destes três grandes traços que contribuiu para “criar um humanismo de vistas largas” (Wolf, 1936), que existira na época grega clássica e atingiu o seu esplendor neste século (Malaquias, 1994). Wolf acrescenta que “a ciência em si foi o fruto das novas atitudes” que tiveram o seu berço em Inglaterra no século XVII e se desenvolveram no século XVIII no resto da Europa, transferindo-se para a própria sociedade, com a contestação dos dogmas, do Estado, do direito divino dos reis, a proclamação da liberdade de pensamento e de expressão, a “iluminação” do povo, a tolerância, o humanismo, o humanitarismo, e a internacionalização (Malaquias, 1994). No contexto político, perfilaram-se grandes déspotas – Maria Teresa de Áustria, Luís XIV, Catarina da Rússia, Frederico da Prússia, D. José I e o seu ministro, Marquês de Pombal, Luís XVI, só para referir os mais destacados –, mas ocorreram também grandes momentos de rotura, como a independência das colónias inglesas na América do Norte (1776) ou a Revolução Francesa, em 1789. O devastador terramoto de 1755, em Lisboa, teve repercussões europeias e foi motivo de discussão político-filosófica para além de religiosa. A ele se seguiu o grande terramoto na Calábria em 1783. A importância da aprendizagem de ciências e, nelas, a física, foi realçada neste século, num espírito verdadeiramente baconiano, pois dela deveria emergir um homem novo, mais culto e mais rico, com maiores capacidades para retirar da natureza o que esta tinha de bom e útil. Verificou-se, portanto, durante este período, um esforço grande no sentido de interessar, pelas ciências, um público mais 22 vasto, de estabelecer o ensino da física experimental, tanto nas escolas como nas universidades, na corte como nos salões (Bedel, Hahn, Laissus, Torlais, 1986). Foi durante esta época que nasceu, em Aveiro, João Jacinto de Magalhães (1722-1790) que, após uma vida monástica em Santa Cruz de Coimbra, iria notabilizar-se, após se fixar em Londres, como homem de ciência, autor de melhoramentos em diversos instrumentos científicos e também facilitador da disseminação da informação científica e técnica através dos seus interlocutores europeus, no início da Revolução Industrial (Home, Malaquias, Thomaz, no prelo). Recentemente publicada, a sua correspondência – For the Love of Science – dá-nos uma perceção abrangente e curiosa da sua atividade, onde se cruzam personalidades importantes da esfera científica e política que sustentaram com Magalhães uma rede de discussão e difusão de novidades científicas, técnico-instrumentais e literárias, que fervilhavam na época numa Londres onde a tranquilidade política beneficiava a criatividade e o desenvolvimento de uma burguesia culta (Malaquias, no prelo). 2. Na génese da Revolução Química A apresentação clássica da química setecentista tem sido feita de um ponto de vista biográfico, opondo essencialmente Joseph Priestley (1733-1804) a Antoine-Laurent Lavoisier (1743-1794), o que levou recentemente à necessidade de estudar melhor o contexto científico da época para perceber que outros contributos, relações e discussões influenciaram a mudança. Esse mesmo contexto permitiu verificar que o estudo dos gases foi importante nos despoletar da Revolução Química (Crosland, 1980) e na descodificação do que se entendia, desde há séculos, por “ar”. Nesse sentido, a 23 questão de saber como é que os avanços da pneumática inglesa chegaram ao continente europeu, em particular a França, passou a interessar. A primeira informação que os químicos franceses receberam sobre os desenvolvimentos do estudo dos gases no estrangeiro, pode ser apontada, em primeira instância, a Priestley (Schofield, 1981; Guerlac, 1961). Magalhães, na primavera de 1772, informou o mundo científico francês das importantes descobertas de Priestley, relacionadas com o “ar fixo” (dióxido de carbono) e o seu método de impregnar água com o mesmo. Priestley apresentara as suas experiências em sessão da Royal Society de Londres, em março de 1771, à qual Magalhães assistiu como seu convidado. Pouco depois, em junho de 1772, Priestley publicou parte do seu trabalho intitulando-o “Directions for Impregnating Water with Fixed Air”. Priestley pediu ao seu amigo Magalhães, que presenciou muitas das suas experiências sobre gases, que divulgue os principais resultados (Malaquias, 1994, 2008). As cartas que Magalhães enviou, nessa época, para os seus amigos e correspondentes, nomeadamente para o químico e intendente geral de finanças francês Trudaine de Montigny (1733-1777) e para o seu secretário Louis-Henri Duchesne (1724-1793), deram a conhecer o método de Priestley, fazendo-o chegar a Lavoisier, bem como os aperfeiçoamentos posteriores que Magalhães introduziu na máquina para produzir águas minerais artificiais, permitindo a produção de águas carbonatadas em casa e sobretudo nas grandes viagens de barco (Malaquias, 1994, 2008). Em carta ao químico real francês Pierre Macquer (1718-1784), de 20 de março de 1772, Magalhães refere outros trabalhos de Priestley que continuavam a ser lidos na Royal Society, sobre diferentes espécies de ar (ar fixo, ar mefítico, ar queimado, ar inflamável). A 5 e 7 de julho de 1772, Magalhães enviou a Duchesne e a Trudaine de Montigny missivas referindo uma novidade que consi- 24 dera muito útil para o público e para a qual pede divulgação. Disse a Duchesne que tinha enviado dois opúsculos em inglês a Trudaine e um outro à Académie Royale des Sciences, informando que tinha passado o dia a fazer cópias, para enviar pelo correio a outros amigos seus e também a Trudaine, do seu método de carbonatar as águas minerais. Pediu que fosse impressa e largamente divulgada em França. Como escreve em carta a Trudaine: Vous savez que l’Air-fixe a eté depuis quelques années l’objet des Recherches de nos Philosophes, & que leurs resultats sont devenues interessants (…) Le papier ci-joint renferme La method pour faire des eaux acidules & Calybées, que J’ai abregé en françois & generalisée à la portée de tout le monde, d’après celle du Dr Priestley, dont je eus l’honneur de vous envoyer des copies imprimées par la poste derniere. Je pense avoir detaillée assez nettement ma particuliere methode, un peu diferente de celle de l’Inventeur, pour ne pas avoir besoin d’aucune planche pour que tout le monde la comprendre. (…) (Malaquias, 1994, 2008) Em agosto do mesmo ano, apareceu publicado em Paris, no Journal de Physique, o artigo de Priestley, enviado por Magalhães, que conheceu grande divulgação (Malaquias, 1994). Meses antes, Magalhães fizera já referências à descoberta e uso do ar fixo, em cartas a Macquer, com quem se correspondia pelo menos desde o verão de 1770, de acordo com o testemunho de Magalhães, e a propósito da tradução inglesa do Dictionnaire de Chimie do químico francês. O tradutor inglês inserira notas sobre as minas de ferro e outras sobre o ar fixo, que Magalhães pedia a Macquer que analisasse. Em cartas subsequentes, informou-o sobre os trabalhos de Johann Mayer (1705-1765) em Osnabrück, Joseph Black (17281799) em Edimburgo, Nikolaus von Jacquin (1727-1817) em Viena de 25 Áustria, Ludwig Rousseau (1724-1794) em Munique, e David Macbride (1726-1778) em Dublin sobre o ar fixo e as publicações dos últimos três ou quatro anos de Henry Cavendish (1731-1810) nas Philosophical Transactions sobre as suas experiências (Malaquias, 1994, 2008). Entretanto, em outubro de 1772, Lavoisier apresentou na Académie Royale des Sciences os resultados das suas primeiras experiências sobre a combustão do fósforo. Mais tarde, debruçou-se sobre os estudos realizados sobre o ar, nomeadamente o ar fixo de Black, de onde resultou a publicação dos seus Opuscules physiques et chimiques (1774). 3. Na afirmação da física newtoniana A aceitação do newtonianismo teve lugar ao longo do século XVII muito devendo à sua progressiva introdução nos cursos de física. Em particular, a visita que o físico holandês Willelm Jacob‘s Gravesande fez a Londres, no início do século XVIII, onde conheceu Newton, foi particularmente iluminadora no sentido em que, no seu regresso à Universidade de Leiden, nos Países Baixos, Gravesande iniciou um curso novo de física experimental, escrevendo para o efeito um compêndio que se tornou a semente de uma nova era, um tempo que assistiu ao desenvolvimento de instrumentos destinados ao ensino da física (Malaquias, 2017). A influência posterior do holandês Pieter van Musschenbroeck (1692-1761), seu sucessor em Leiden, e da instrumentação desenvolvido pelo seu irmão Jan, alcançou os gabinetes de física da Europa. Embora a tradição apontasse a importância dos cursos académicos, do século XVII em diante verificou-se a importância de cursos populares de demonstradores que, inspirando-se nos Entretiens sur la Pluralité des Mondes (1686) do francês Bernard de Fontenelle (1657-1757), promoviam a divulgação da ciência e, em especial, da física experimental, apaixonando o grande público. 32 Figura 1. Máquina de Atwood – Foto de José Pessoa in EUROPALIA91. FIS.0126 – Cortesia do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra. 33 egas m oniz (1874-1955), Prémio noBel: figura i nContornável n o e nsino da h istória da s CiênCias e m Portugal egas m oniz (1874-1955), noBel Prize: undisPuted f igure i n the t eaChing o f h i s to ry o f sCienCe i n Portugal Ana Leonor Pereira Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (Departamento de História, Estudos Europeus, Arqueologia e Artes) e Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra-CEIS20 ORCID:http://orcid.org/0000-0003-3581-1359 [email protected] João Rui Pita Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra (Laboratório de Sociofarmácia e Saúde Pública) e Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra-CEIS20 ORCID:http://orcid.org/0000-0003-2851-337X [email protected] Resumo: Egas Moniz (1874-1955) é uma figura incontornável na história das ciências a nível mundial e, obviamente, na história das ciências em Portugal. Foi cientista, professor e clí- 34 nico de prestígio. Foi Prémio Nobel de Medicina ou Fisiologia em 1949. Forte empreendedor, Egas Moniz tem sido objeto de variados estudos de diferente fôlego e rigor. A diversidade de estudos sobre a vida e obra de Egas Moniz são, por si só, reveladores do interesse pedagógico em revisitar regularmente esta figura carismática da ciência. Do seu legado destacamos a Casa Museu Egas Moniz que é de fulcral valor no ensino da história das ciências. Os estudos que desde há duas décadas realizamos sobre Egas Moniz, incluindo a história da história de Egas Moniz, permitem-nos sublinhar a exemplaridade do legado moniziano para o ensino da história das ciências em Portugal na época contemporânea. Palavras-Chave: história da medicina, Portugal, século XX, ensino, Casa Museu Egas, Moniz, ensino Abstract: Egas Moniz (1874-1955) is an inescapable figure in the history of sciences worldwide and, of course, in the history of science in Portugal. He was a prestigious scientist, professor, and clinician. He was Nobel Prize in Medicine or Physiology in 1949. Strong entrepreneur, Egas Moniz has been the subject of various studies with distinct depths and rigor. The diversity of studies on the life and work of Egas Moniz are, in themselves, revealing of the pedagogical interest in regularly revisiting this charismatic figure of science. From his legacy, we highlight the Egas Moniz House Museum which is of great value for teaching the history of science. The studies we have carried out on Egas Moniz for two decades, including the history of Egas Moniz’s history, allow us to emphasize the exemplarity of the Monizian legacy for the teaching of the history of science in Portugal in the contemporary era. Keywords: history of medicine; Portugal; twentieth century; teaching; Egas Moniz House Museum; teaching 35 1. Introdução António Caetano de Abreu Freire Egas Moniz (1874-1955) natural de Avanca, Estarreja, formado e doutorado em medicina pela Universidade de Coimbra onde foi professor, transferiu-se para a Faculdade de Medicina de Lisboa, fundada em 1911. O médico neurologista cultivou a ação política até ao final da Primeira Guerra Mundial e depois de 1918 manteve-se coerente com o seu ideário e muito atento à política nacional e internacional. Foi escritor e cidadão de cultura médica, científica, literária, histórica, estética, e outras, tendo-se evidenciado na vida intelectual portuguesa na primeira metade do século XX. Fez ciência inovadora em Portugal com projeção mundial ao conceber a angiografia cerebral e a leucotomia pré-frontal. Recebeu prémios e distinções, mormente o Prémio Nobel de Medicina ou Fisiologia (1949), sendo, até ao momento, o único nobelizado na área das ciências em Portugal. Este prémio Nobel português tem sido estudado por vários historiadores da ciência desde meados do século XX. Sublinhamos os mais recentes estudos de Ana Leonor Pereira, João Rui Pita, Manuel Correia, José Morgado Pereira, António Damásio, João Lobo Antunes, entre outros. É na sequência de alguns dos projetos e estudos desenvolvidos por nós sobre Egas Moniz a partir do Grupo de História e Sociologia da Ciência e da Tecnologia do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra que surge o presente estudo que pretende mostrar a importância da figura de Egas Moniz na história das ciências e as potencialidades pedagógicas da sua obra científica, médica e cultural. A Casa Museu Egas Moniz, em Avanca, Estarreja, Aveiro tem assumido o seu papel na preservação da história e memória do cientista, médico e intelectual. O ensino / aprendizagem do exemplo de Egas Moniz requer, sem dúvida, um quadro de várias visitas à Casa Museu Egas Moniz, estadias ou alguma demora dentro da própria casa para se poder respirar 36 o espírito do lugar e da época moniziana, especialmente a época científica e médica. Os autores ao longo de vários anos de pesquisa sobre o tema têm realizado levantamento de fontes e de bibliografia subsidiária sobre o assunto. Têm também realizado diversas visitas científicas a lugares pertencentes ou visitados por Egas Moniz. Desta pesquisa e em particular da análise da bibliografia subsidiária é possível sistematizar os estudos sobre Egas Moniz e da restante pesquisa pretende-se também valorizar e mostrar a importância de Egas Moniz para a cultura científica portuguesa e para o ensino da história das ciências em Portugal. Nas partes seguintes é feita uma breve biografia de Egas Moniz e depois faz-se uma breve abordagem da historiografia moniziana no que respeita a estudos gerais e numa última parte mostra-se o interesse da Casa Museu Egas Moniz para a história e ensino das ciências em Portugal. 2. Egas Moniz: breve apresentação António Caetano d’Abreu Freire Egas Moniz (1874-1955) é uma das figuras mais marcantes da história da medicina portuguesa. Nasceu em Avanca em 29 de novembro de 1874 e faleceu em Lisboa em 13 de dezembro de 1955. Em 1886 realizou exame da instrução primária em Estarreja e iniciou os estudos liceais no Colégio de S. Fiel em Castelo Branco. Concluiu os estudos secundários no Liceu de Viseu e nessse ano de 1891 foi para Coimbra para realizar os preparatórios médicos para ingressar na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra onde ingressou em 1894. Obteve formatura (bacharelato em medicina) em 1899 e licenciou-se no ano seguinte. Estava, assim, apto para exercer medicina mas Egas Moniz gostava de prosseguir estudos. Assim, em 1901 doutorou-se em medicina com a tese A Vida Sexual I – Fisiologia. Em 1902 apresentou provas para concurso para ingresso na Faculdade de Medicina 37 da Universidade de Coimbra com a dissertação A Vida Sexual II – Patologia. Esta duas teses, para além de focarem, para a época, uma arrojada temática foram posteriormente transformadas num livro único que teve variadas edições. Após concurso foi nomeado lente substituto da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. Juntamente com Egas Moniz nesse ano ingressaram na Faculdade de Medicina outros docentes que também foram figuras de vulto na instituição: Sobral Cid, Elísio de Moura, Luís Viegas e Ângelo da Fonseca. Desde jovem estudante, Egas Moniz teve interesse pela atividade política. Em 1903 foi Deputado por Estarreja e, em 1908, integrou o movimento revolucionário que pretendia derrubar João Franco. Em 1910 ascende a professor catedrático da Fauldade de Medicina da Universidade de Coimbra. Contudo, em 1911 transferiu-se para a recém fundada Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. De resto, esta mudança era importante para Egas Moniz na medida em que muitos dos seus interesses profissionais e políticos estavam justamente na capital. O absentismo na Faculdade de Medicina da Coimbra era enorme, aliado a uma forte desilusão com a instituição universitária, conforme relatou mais tarde na sua obra Confidências de um investigador científico. É em 1910, ano da implantação da República, que Egas Moniz se inicia na maçonaria, justamente na Loja Simpatia e União, de Lisboa. Em 1915 inicia o processo de reconstrução da Casa do Marinheiro, em Avanca, a sua querida residência. Entre 1915 e 1919 atinge o auge da atividade política em que tanto havia investido. Em 1917 fundou o Partido Centrista e foi nomeado Ministro dos Negócios Estrangeiros. Em 1918 foi nomeado para presidir à delegação portuguesa à Conferência da Paz e no ano seguinte foi destituído de funções por Afonso Costa. Esta destituição foi forte revés para Egas Moniz o que traçou o seu afastamento da política ativa. Na sua obra Um ano de política (1919) Egas Moniz deixa-nos testemunho do que 38 em seu entender foi a sua destituição e a desilusão perante a vida política ativa. A partir do seu afastamento da política ativa, Egas Moniz investiu profundamente na sua atividade científica e clínica. Exerceu cargos de chefia como, por exemplo, a direção Hospital Escolar de Lisboa, e vieram ao cimo as suas qualidades de liderança, de persistência, de trabalho, aliadas ao seu profundo conhecimento da medicina, à atualização de conhecimentos, bem como o sentido da inovação. O cérebro foi desde muito cedo uma preocupação científica muito forte. O seu investimento científico levou às suas descobertas científicas de enorme notoriedade e marcantes para a história da medicina: a angiografia cerebral e a leucotomia pré-frontal. A primeira experiência sobre arteriografia foi realizada em 1925 (com sais de bromo), em 1927 teve lugar a primeira realização de arteriografia cerebral e em 1935 realizou a primeira leucotomia pré-frontal. As suas publicações científicas que desembocaram nestas duas descobertas foram muitas, algumas delas traduzidas para línguas estrangeiras e publicadas em conceituadas revistas. Se na vida política portuguesa Egas Moniz é figura relevante, Egas Moniz é, igualmente, incontornável na história da medicina mundial. Foi galardoado em 1945 com o Prémio da Universidade de Oslo, pela conceção da angiografia cerebral, e em 1949 foi distinguido com o Prémio Nobel de Medicina ou Fisiologia por ter concebido a leucotomia pré-frontal. Até finais do século XIX, como já tivemos oportunidade de provar, Portugal foi um centro recetor e não emissor de saber científico, no sentido de se produzir o novo (Pereira e Pita, 1993). Produzia-se ciência mas a inovação verificou-se num escasso número de instituições sobretudo na França, Alemanha e Inglaterra. Contudo, Egas Moniz triunfou na ciência. Produziu novidade dentro do país e com parcos recursos. Além de cientista e professor, também foi clínico de nomeada e foi, justamente, no exercício da 39 clínica que um doente o feriu com oito balas. Ficou às portas da morte. Tinha 65 anos. E para surpresa de todos, Egas Moniz viveu até aos 81 anos. Egas Moniz, a sua vida e a sua obra, constitui um processo muito complexo com aparentes ambiguidades e contradições. Mas é certo que Egas Moniz fez sucesso no estrangeiro tendo permanecido em Portugal. Era conhecido na Europa e conhecia o que de mais avançado se fazia na Europa. Tirou partido das suas qualidades de inteligência, de trabalho e de organização. E estas três qualidades foram efetivamente a chave do seu enorme êxito incluindo os lugares de liderança na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e no Hospital. Foram muito importantes para o seu trabalho de investigação e para o seu sucesso os estímulos que recebeu de cientistas franceses como Joseph Babinsky (1857-1932), Albert Pitres (1848-1928), Pierre Marie (1853-1940), entre outros, e do cientista espanhol Ramón y Cajal (1852-1934). Egas Moniz tomava como paradigma de investigador científico este notável médico-cientista espanhol, prémio Nobel em 1906. Egas Moniz não estava isolado. Era relevante o seu relacionamento com muitos vultos da vida política e científica europeia, brasileira e norte-americana. Egas Moniz redigiu centenas de trabalhos. Legou-nos obras pioneiras sobre hipnotismo, psicanálise, vida sexual e outros temas. Escreveu sobre arte, história, literatura e teatro. Deixou-nos duas obras de natureza autobiográfica, Confidências de um Investigador Científico (um grosso volume de 623 páginas e editado em 1949) e A nossa casa (volume com 413 páginas, editado em1950), obras que, enquanto fontes historiográficas, foram objeto de desconstrução por vários estudiosos, mormente Manuel Correia. O médico e cientista Egas Moniz cumpriu o que deve ser considerado o ideal de todo o universitário: produzir ciência e fazer escola. Egas Moniz juntamente com Almeida Lima (1903-1985), que foi um 40 dos seus colaboradores mais próximos e o autor da realização prática da leucotomia pré-frontal, formou, desde a década de trinta do século XX, a escola portuguesa de angiografia. O Centro de Estudos Egas Moniz, na Universidade de Lisboa, desde 1950, prossegue as tarefas de investigação que honram o nome do primeiro Prémio Nobel português. 3. A História da história da ciência: o desafio moniziano Em cerca de sete décadas vieram a público inúmeros artigos e trabalhos de valor e consistência muito variáveis sobre Egas Moniz e a obra moniziana. Entre os estudos mais antigos que foram realizados e que serviram de ponto de partida para esta análise da história da história merece destaque, desde logo, a publicação feita pela Comissão Executiva das Comemorações do Centenário do Nascimento do Prof. Egas Moniz. Também a investigação realizada pelos autores deste estudo e que levou à publicação da obra de Ana Leonor Pereira, João Rui Pita e Rosa Maria Rodrigues, intitulada Retrato de Egas Moniz (1999), e da obra coletiva Ana Leonor Pereira e de João Rui Pita Egas Moniz em livre exame (2000) e de outros artigos artigos permitiu-nos ter uma primeira visão de conjunto sobre o que tinha sido publicado sobre Egas Moniz até aos últimos quinze anos. De então para cá, a nossa investigação tem continuado atenta ao que se tem publicado sobre e a propósito de Egas Moniz. Assinalem-se, igualmente, diferentes atividades que temos organizado a propósito ou em torno de Egas Moniz. É o caso, por exemplo, das seguintes iniciativas: o Colóquio “Egas Moniz: perfil de risco e catástrofe na ciência” (2002). Em 2005, cinquenta anos após a morte de Egas Moniz, a revista Estudos do Século XX subordinada ao tema Ciência, saúde e poder e organizada pelos autores deste estudo, publicou um dossier temático sobre 41 Egas Moniz e que contou com estudos de Alexandre Castro Caldas, Eduardo Sá, Manuel Correia e François Chast. Assinale-se, também, o Simpósio temático sobre história da psicocirurgia em 2012 integrado . Assinale-se, também, o Simpósio temático sobre história da psicocirurgia em 2012 integrado nas III Jornadas de História da Psiquiatria e Saúde Mental (que organizamos ininterruptamente desde 2010 e que em 2018 passaram a congresso internacional) e que contou com a presença de Jean-Noël Missa, Zbigniew Kotowicz e de Manuel Correia. Por isso, facilmente se compreende que a investigação que temos em curso de há vários anos a esta parte (vejam-se as referências bibliográficas de nossa autoria no final do texto) seja o suporte da classificação dos textos sobre Egas Moniz em dois grandes grupos: os escritos maiores e os escritos menores. Esta classificação foi alvo de uma publicação realizada por nós intitulada, justamente, Escritos maiores e menores sobre Egas Moniz (2000). Esta pesquisa donde resultou o estudo anterior permitiu-nos verificar que da imensa bibliografia sobre Egas Moniz, alguns trabalhos apresentam a cientificidade exigida pela historiografia. Outros artigos podem ser classificados como divulgativos, nem sempre escritos de acordo com as regras de apresentação de trabalhos de história e algumas vezes com imprecisões factuais e com dados que as fontes não confirmam. Alguns destes pequenos artigos fazem mesmo um jogo entre os dados do arquivo histórico e a fantasia literária. Contudo, deve sublinhar-se que a história da história da ciência, neste caso a história da história da medicina, deve analisá-los ao nível das imagens construídas, do impacto no imaginário social e da sua incontornável função cultural e pedagógica. 48 sobre a vida e obra de Egas Moniz por si só mostra o interesse em historiografar e revisitar esta figura ímpar da ciência. O legado de Egas Moniz consubstanciado na Casa Museu tornam o cientista português uma figura incontornável no ensino da história das ciências. A investigação que desde há cerca de duas décadas realizamos sobre Egas Moniz, em particular, a história da história de Egas Moniz levam-nos a sublinhar o valor e a importância do legado moniziano para o ensino da história das ciências em Portugal. Os problemas que colocou e que procurou resolver continuam a aguardar novas abordagens científico-médicas, ainda que a partir de 1951 a investigação farmacológica tenha disponibilizado os primeiros psicotrópicos. 7. Fontes e bibliografia A herança de Egas Moniz na Neurorradiologia (2017). Estarreja: Câmara Municipal de Estarreja. Antunes, J. L. (1996). As cartas de Egas Moniz para Almeida Lima. In Um modo de ser, 10ª ed., (173-201). Lisboa: Gradiva, 1996. Antunes, J. L. (1999). Egas Moniz homem de letras. In Numa cidade feliz. (213-223). Lisboa: Gradiva, 1999. Antunes, J. L. (1999). Psicocirurgia – Uma história. In: A excelência da investigação. Na essência da Universidade. (18-35). Coimbra, Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. Antunes, J. L. (2010). Egas Moniz uma biografia. Lisboa: Gradiva. Cascais, A. F. (2001). A cabeça entre as mãos: Egas Moniz, a psicocirurgia e o Prémio Nobel. In Nunes, J.A. & Maria Eduarda Gonçalves (Orgs.). Enteados de Galileu? A semiperiferia no sistema mundial da ciência. (291-359). Porto: Edições Afrontamento. Coelho, A.M. (1999). Egas Moniz. Perfil politico. Estarreja: Câmara Municipal de Estarreja. Correia, M. (2006). Egas Moniz e o Prémio Nobel. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra. Correia, M. (2010). Egas Moniz: representação, saber e poder. Coimbra: Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Correia, M. (2011). Egas Moniz em livre (re)exame: uma década depois. In Pereira, A.L. & J.R. Pita (EdsEds). II Jornadas de História da Psiquiatria e Saúde Mental. (75-80) Coimbra: Grupo de História e Sociologia da Ciência-CEIS20. 49 Correia, M. (2012). A 1ª Conferência Internacional de Psicocirurgia: entre entusiastas mimetizadores, inovadores e céticos. In Pereira, A.L. & J.R. Pita (Eds). III Jornadas de História da Psiquiatria e Saúde Mental. Reunião Internacional. (37-43) Coimbra: Grupo de História e Sociologia da Ciência-CEIS20 / Sociedade de História Interdisciplinar da Saúde Correia, M. (2013). Egas Moniz no seu labirinto. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra. Correia, M. (2014). Psicanálise e psicocirurgia: a contaminação inconsciente. In Pereira, A.L. & J.R. Pita (Eds). IV Jornadas Internacionais de História da Psiquiatria e Saúde Mental (185-193). Coimbra: Grupo de História e Sociologia da CiênciaCEIS20 / Sociedade de História Interdisciplinar da Saúde Correia, M. (2015). Egas Moniz na História da Ciência: uma acomodação problemática. In Malaquias, Isabel et al. Perspetivas sobre Construir Ciência – Construir o Mundo (311-315). Aveiro: UA Editora – Universidade de Aveiro Correia, M. (2015). Ideação psiquiátrica do retorno: “sintonização regressive” e “regresso à infância” a propósito da psicocirurgia. In Pereira, A.L. & J.R.Pita (Eds). V Jornadas Internacionais de História da Psiquiatria e Saúde Mental. (65-72). Coimbra: Grupo de História e Sociologia da Ciência-CEIS20 / Sociedade de História Interdisciplinar da Saúde Correia, M. (2016). Alteração de sintomas na psicocirurgia. O papel da persuasão. In Pereira, A.L. & J.R.Pita (Eds). VI Jornadas Internacionais de História da Psiquiatria e Saúde Mental. (49-52). Coimbra: Grupo de História e Sociologia da Ciência-CEIS20 / Sociedade de História Interdisciplinar da Saúde Correia, M. (2016). Radiobiografia de Egas Moniz. S.l.: Novas edições académicas. Correia, M. (2017). Alteração de sintomas na psicocirurgia. O papel da persuasão. In Pereira, A.L. & J.R.Pita (Eds) História Interdisciplinar da Loucura, Psiquiatria e Saúde mental – VII. (137-140). Coimbra: Grupo de História e Sociologia da Ciência-CEIS20 / Sociedade de História Interdisciplinar da Saúde. Fiolhais, C. (2000). Egas Moniz, Ciência e Paixão. Das Artes, Das Letras. 2ª série. Suplemento de O Primeiro de Janeiro. 16 (5 Janeiro) 9. Moniz, E. (1919). Um ano de política. Lisboa: Portugal-Brasil limitada, Sociedade Editora. Moniz, E. (1924). Júlio Dinis e a sua obra. Lisboa: Casa Ventura Abrantes Moniz, E. (1925). A necrofilia de Camilo Castelo Branco. Lisboa: Ventura Abrantes. Moniz, E. (1929). Ao Mestre Malhoa. Lisboa: Tip Libanio da Silva. Moniz, E. (1930). Os pintores da loucura. Lisboa: Instituto de Medicina Legal. Moniz, E. (1937). Os médicos no teatro vicentino. Lisboa: Sep. Imprensa Médica, 3(8) 1937 Moniz, E. (1939). Ricardo Jorge. Lisboa Médica. 16(9) 517-563. Moniz, E. (1940). Ao lado da medicina. Lisboa: Bertrand. Moniz, E. (1942). História das Cartas de Jogar: Lisboa. Editorial Ática. Moniz, E. (1943). Maurício de Almeida – escultor. Coimbra: Coimbra Editora. Moniz, E. (1944). No cinquentenário de Brown Séquard. Jornal do Médico. 5(97) 33-36. 50 Moniz, E. (1948). Ramon y Cajal, Uma doutrina e uma época. Memórias da Academia das Ciências de Lisboa – Classe de Ciências, 5 Moniz, E. (1948). O Abade de Baçal. In Memórias da Academia das Ciências de Lisboa. – Classe de Ciências, 5 Moniz, E. (1949). Confidências de um Investigador Científico. Lisboa: Edições Ática. Moniz, E. (1949). Guerra Junqueiro. Porto: Empresa de Puiblicidade do Norte. Moniz, E. (1950). A Nossa Casa. Lisboa: Paulino Ferreira, Filhos, Lda. Moniz, E. (1950). Silva Porto. Porto: Tip. Sequeira. Moniz, E. (1950). Abel Salazar. Palavras enviadas ao Prof. Ruy Luís Gomes, lidas na sessão de homenagem em memória do Prof. Abel Salazar em Janeiro de 1950 in Conferências, 4:103. Moniz, E. (1951). O solitário de Amarante. Figueira da Foz: Tip. Cruz & Cardoso. Sep. da Colectânea A Teixiera de Pascoaes, a Academia de Coimbra. Moniz, E. (1952). Os últimos anos de Ramon y Cajal. In Folia Chimica Internacional. 2(5) Os trilhos da neuroradiologia depois da 1ª angiografia cerebral (2017). Estarreja: Câmara Municipal de Estarreja. Pereira, A.L. & Pita, J.R (2000) Cronologia sumária da vida e obra de Egas Moniz. In Pereira, A.L. & João Rui Pita Egas Moniz em livre exame (381-388). Coimbra: MinervaCoimbra, 2000. Pereira, A.L. & Pita, J.R (2000) Egas Moniz: uma apresentação. In Pereira, A.L. & João Rui Pita Egas Moniz em livre exame (19-37). Coimbra: MinervaCoimbra, 2000. Pereira, A.L. & Pita, J.R (2000). Egas Moniz: angiografia cerebral (1927) e leucotomia pré-frontal (1935). Boletim Informativo. Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos. 2ª Série. 8 (2000) 9-10. Pereira, A.L. & Pita, J.R (2000). Egas Moniz. In Vivo. Revista Mensal de Saúde, 1(1) 44 Pereira, A.L. & Pita, J.R (2002). A gota de Egas Moniz. In Vivo. 2(11) 45-46 Pereira, A.L. & Pita, J.R (2003). Egas Moniz, Prémio Nobel. Materiais inéditos para uma biografia em rede. Munda. 45/46, 92-106 Pereira, A.L. & Pita, J.R (2005). Egas Moniz (1874-1955). Marinheiro da ciência e da tecnologia, Prémio Nobel de Medicina e Fisiologia, 1949. 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Munda. 42, 61-76. 53 antónio g i ão (1906-1969): Biografia, Personalidade e últimos traBalhos CientífiCos antónio g i ão (1906-1969): BiograPhy, Personality and l at e s t sCientifiC works Carlos Fiolhais 0000-0002-1527-0738 Departamento e Centro de Física da Universidade de Coimbra [email protected] Resumo: Após resumir a biografia do meteorologista português António Gião e traçar um esboço da sua personalidade, analisam-se os artigos que publicou nos últimos sete anos da sua vida (1963-1969). A análise do trabalho científico desse período, realizado no quadro da Fundação Gulbenkian (Instituto Gulbenkian de Ciência) e da Universidade de Lisboa (Faculdade de Ciências) revela que ele, passado o tempo alto da sua carreira em meteorologia, trabalhava então num pequeno círculo à margem da melhor investigação científica da época. Palavras-Chave: António Gião, Meteorologia, Fundação Gulbenkian 54 Abstract: After summarizing the biography of the Portuguese meteorologist António Gião and outlining his personality, we analyse the articles he published during the last seven years of his life (1963-1969). The analysis of his scientific work in that period, carried out within the framework of the Gulbenkian Foundation (Gulbenkian Institute of Science) and the University of Lisbon (Faculty of Sciences), reveals that at that time, after the peak of his meteorological career, he was working in a small circle in the margins of the best international research of the time. Keywords: António Gião, Meteorology, Gulbenkian Foundation 1. Introdução António Gião (Reguengos de Monsaraz 1906 – Lisboa 1969) foi um dos físicos portugueses do século XX com maior número de publicações científicas (somou um total de cerca de 150, dos quais 28 livros). Trabalhou principalmente em Meteorologia Teórica, designadamente em Mecânica dos Fluidos, mas deu também alguns contributos, na fase final da sua vida, para a Física de Partículas (ensaiando teorias de unificação entre a teoria da gravitação e o eletromagnetismo) e para a Cosmologia (propondo um modelo em que há criação de matéria). Depois de resumirmos a biografia de Gião e de apresentarmos um perfil da sua personalidade, analisamos neste artigo os trabalhos científicos que ele publicou nos últimos seis anos da sua vida, entre 1963 e 1969, quando trabalhava em Lisboa como investigador da Fundação Calouste Gulbenkian e como professor da Universidade de Lisboa. A fonte principal deste artigo é a tese de doutoramento “A personalidade científica de António Gião”, apresentada por José Carlos Tiago de Oliveira à Universidade de Évora (Tiago de Oliveira, 55 2012), complementada pelo corpus de artigos de Gião publicados no Arquivo do Instituto Gulbenkian de Ciência – A. Estudos Matemáticos e Físico-Matemáticos (ver Apêndice). 2. Biografia A formação académica de António Gião inicia-se em 1923 quando, vindo do Alentejo onde tinha nascido 17 anos antes (a casa da sua família, em Reguengos de Monsaraz, que ele deixou em testamento à Sociedade Portuguesa de Autores, ostenta hoje o seu nome), se matricula no curso de Ciências Físico-Químicas na Universidade de Coimbra. Porém, em 1925, quando frequentava o segundo ano, partiu para Estrasburgo, França, perseguindo o seu sonho de estudar meteorologia. No ano seguinte, ainda estudante, publica um breve artigo sobre cirros na revista Nature (Gião, 1926), que deve ter sido o primeiro artigo publicado por um português nessa revista. Em 1927 forma-se como engenheiro geofísico em Estrasburgo. Iniciou então uma distinta carreira internacional. Em 1927 e 1929 está, como enviado pelo Ministério da Marinha português, em Bergen, Noruega, sede de uma escola de Meteorologia onde pontificava Jacob Bjerknes (1897-1975), filho de outro meteorologista, Vilhelm Bjerknes (18621951), a fim de se inteirar das teorias meteorológicas mais recentes (Bjerknes filho visitou Portugal em 1927, tendo mantido contactos com os Serviços Meteorológicos da Marinha, na época responsáveis pela previsão do tempo em Portugal) (Leonardo, 2011). Em 1928 é convidado a participar numa expedição ao Polo Norte num dirigível, comandado pelo general italiano Umberto Nobile (1885-1978), mas não aceita, o que vem a revelar-se como uma sorte sua, já que a viagem redundaria numa tragédia, com oito mortos. Em 1929-1931 Gião trabalha em Paris, no Office Nacional de Météorologie de France (ONMF). Em 1929 publica o livro La Mecanique Différentielle des 56 Fronts e du Champ Isallobarique, com prefácio do general Émile Delcambre (1871-1957), diretor do ONMF, e introdução de Jacob Bjerknes (Gião, 1929). Em 1930 segue-se outro livro, Recherches sur les Perturbations Mécaniques des Fluides, Première Partie, com prefácio do meteorologista francês Philippe Wehrlé (1890-1965), que haveria de suceder a Delcambre na direção do ONMF (Gião, 1930), livro que teve uma sequela (Deuxième Partie) em 1931 (Gião, 1931), após a qual se haveria de ocorrer uma rutura entre Gião e Wehrlé (e, mais em geral, com o OMMF) (Gião, 1931). Ainda em 1931, Gião recusa um convite do Massachusetts Institute of Technology (MIT). Em 1932 começa a publicar em Astrofísica, aplicando algumas das suas ideias da Meteorologia. Em 1933 propôs a criação de um Instituto de Meteorologia em Portugal, com o nome de Instituto de Mecânica da Atmosfera, uma ideia que não teve logo seguimento (o Serviço Nacional de Meteorologia só haveria de surgir em 1946). Em 1941 regressa a Portugal em virtude da Segunda Guerra Mundial, quando já estava casado (há dois anos) com uma senhora francesa de origem judia, Sophie Spira (1904-1999), de quem não teve filhos, passando a residir na mansão familiar de Reguengos de Monsaraz. É nessa altura que se começa a interessar pela teoria de campos aplicada à Física de Partículas e à Cosmologia, e se corresponde com físicos famosos como Albert Einstein (1879-1955) e Erwin Schroedinger (1887-1961), dado que, como eles, seguia por caminhos científicos menos ortodoxos. Passa a publicar, para além de revistas estrangeiras, em revistas portuguesas como o Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa, a Técnica (revista dos estudantes do Instituto Superior Técnico), a Portugaliae Physica (órgão da Sociedade Portuguesa de Física) e a Portugaliae Mathematica (órgão da Sociedade Portuguesa de Matemática), revistas onde publica algumas das suas ideias em Física de partículas e em Cosmologia, para além de prosseguir o seu trabalho científico em Meteorologia. Propõe um calculador analógico para previsão do tempo. 57 Em 1960 começa a última fase da sua vida, quando se muda para Lisboa, por ter sido convidado para professor catedrático da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, lugar que acumula com o de investigador da Fundação Calouste Gulbenkian, que tinha sido fundada em 1956. Na Faculdade é docente das cadeiras de Física-Matemática e Mecânica Celeste. Em 1961 os seus alunos da Faculdade de Ciências queixam-se ao primeiro-ministro António de Oliveira Salazar das suas qualidades pedagógicas. Em 1962 entra em polémica com colegas quando rejeita a admissão a provas de doutoramento de João Santos Guerreiro (1923-1987), discípulo de José Sebastião e Silva (1914-1972), um dos maiores matemáticos portugueses do século passado. No mesmo ano de 1962 passa a dirigir o recém-estabelecido Centro de Cálculo da Fundação Gulbenkian, situado na Rua D. João V, n.º 30, em Lisboa, tornando-se pioneiro da informática para fins científicos em Portugal (Calado, 2007; Cadete 2006). No mesmo ano colabora na criação da revista Arquivo do Instituto Gulbenkian de Ciência da Fundação Gulbenkian, cuja série A (Estudos Matemáticos e Físico-Matemáticos) codirige com os seus colegas Fernando Fonseca (1895-1974), Carlos Alves Martins, Flávio Resende (1907-1967) e Orlando Ribeiro (1911-1997), e organiza em Lisboa, no edifício da Reitoria no campo Grande acabado de inaugurar, um congresso apoiado pela NATO sobre Cosmological Models, que contou com a presença do físico britânico de origem austríaca Hermann Bondi (1919-2005) e do físico alemão Pascual Jordan (1902-1980), o primeiro um dos proponentes da teoria cosmológica do estado estacionário e o segundo um dos fundadores da teoria quântica (controverso por ter sido membro do Partido Nacional-Socialista, embora no pós-guerra tenha sido deputado do Partido Democrata-Cristão). O jovem inglês Stephen Hawking (19422018) está presente nesse congresso. Em 1966 Gião debate com o seu colega José Sebastião e Silva, com quem tinha tido uma desavença, e outro matemático da mesma Faculdade, Fernando Veiga de 64 “Conhecem este senhor De aspecto tão impecável É o nosso professor De Física Matemável* Dizem que há já muitos anos Antes de tudo existir Quando o nosso criador O Mundo quis construir Só tinha dificuldade Na questão da dimensão E resolveu recorrer Ao bom Professor Gião E este logo demonstrou Que quatro tinha de ser E diz-nos ainda a lenda Que, mesmo sem perceber O Criador assim fez. (…)” *Palavra nova que é uma brincadeira do autor, explicitada no final do poema. À queixa apresentada pelos alunos a Salazar, tanto quanto se sabe, não foi dada resposta pelo destinatário, mas teve sequência interna: a cadeira de Mecânica Celeste foi atribuída a outro professor e foi de algum modo facilitada a passagem na cadeira de Física-Matemática. Gião tinha poucos amigos, mesmo na Faculdade onde ensinava: pontificavam nestes Flávio Resende e Orlando Ribeiro, mas estes eram professores respetivamente de Biologia e de Geografia, e não de Física e Matemática, as suas áreas de especialidade. A carreira universitária de Gião ficou ensombrada pela polémica em que se envolveu com alguns colegas, nomes notáveis da matemática nacional, que obtiveram importantes apoios internacionais. Os matemáticos 65 tinham razão, apesar de Gião nunca ter nunca reconhecido o erro, insistindo na defesa do artigo do seu discípulo. Tal contribuiu para a sua queda de prestígio no ambiente académico. Não será alheio à polémica com Sebastião e Silva o seu pedido ao Presidente do Instituto de Alta Cultura, em março de 1966, para se ausentar por um ano para uma missão científica em França e Itália. Veio a doença, que se haveria de revelar fatal: em 1968. Gião estava hospitalizado em Londres. As suas últimas palavras a um colaborador terão sido: “Ao que um homem pode chegar!“. 4. Últimos trabalhos Focamo-nos aqui nos artigos de Gião publicados nos seus últimos seis anos de vida. O apêndice enumera esses artigos (a lista baseia-se na bibliografia compilada por João Carlos Tiago de Oliveira na sua tese sobre Gião) (Tiago de Oliveira, 2012). Resumidamente: Total de artigos em 7 anos: 24 1963: 4 artigos 1964: 4 artigos 1965: 3 artigos 1966: 6 artigos 1967: 3 artigos 1968: 3 artigos 1969: 1 artigo Total de coautores: 5. O total de 24 artigos (ver Anexo) não deixa de ser considerável atendendo à idade do cientista e às características do meio científico nacional numa época em que se publicava muito pouco, designadamente após o doutoramento e, ainda menos, após a nomeação 66 como catedrático: a média de Gião no período analisado é de 3,4 artigos por ano. No entanto, deve salientar-se que, desses artigos, 18 foram publicados na revista Arquivo do Instituto Gulbenkian de Ciência, A. Estudos Matemáticos e Físico-Matemáticos, que ele, como investigador principal da Fundação Gulbenkian, fundou e dirigiu até à sua morte (a revista não lhe sobreviveu) e outro foi publicado na série de Cursos e Seminários do mesmo Instituto. Quer dizer, sem a ajuda que lhe foi proporcionada pela Fundação Gulbenkian a sua produtividade científica teria sido muito escassa. A criação da revista e a política generosa de ofertas de publicações da Fundação terá permitido a circulação nacional e internacional dos seus trabalhos, mas o certo é que nenhum destes artigos foi sujeito a um processo de refereeing que é apanágio do método científico. A conclusão só pode ser que o seu trabalho era endogâmico, não alcançando níveis de qualidade internacional. Dos outros cinco artigos, dois foram publicados na revista da Faculdade onde trabalhava e que ele próprio dirigiu, a Revista da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (os dois artigos têm a ver com o erro científico que provocou uma querela); dois saíram também noutras publicações universitárias portuguesas, um publicado num livro de homenagem a Fernando Fonseca, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, e o outro num livro de homenagem a Rodrigo Sarmento de Beires (1895-1975), engenheiro eletrotécnico, professor na Faculdade de Ciências do Porto e irmão do famoso aviador com o mesmo nome, nos Anais da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (o análogo da Revista da Faculdade de Ciências de Lisboa); e, finalmente, um outro, intitulado “O espaço, o tempo e a vida”, de índole divulgativa, uma discussão à volta da ciência, filosofia e arte, teve na base uma conferência convidada que proferiu em Évora a 7 de abril de 1967 e veio a lume nos Anais da Junta Distrital de Évora. A imprensa local deu eco a essa conferência pública pelo prestígio que Gião na altura gozava fora da Universidade. 67 Analisando agora o número de autores, só cinco desses artigos tiveram coautores: um foi escritos com o meteorologista francês Jean Roulleau e o matemático português Renato Pereira Coelho (1921-), que mais tarde seria professor catedrático de Matemática na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra; outro com o mesmo Renato Pereira Coelho; um com José Barbeito; e dois com Jorge Branco (n. 1930), meteorologista que seria não só investigador no Instituto Gulbenkian de Ciência como divulgador científico (fez traduções, como a de Cosmos de Carl Sagan) nos anos 80 do século passado, quando se iniciou a coleção Ciência Viva da Gradiva. A análise dos conteúdos dos artigos revela que eles se repartem entre a Meteorologia (MET, 11), o tema principal, logo seguido pela Física-Matemática (FM, 7), Física de Partículas (FP, 3), Cosmologia (COS, 2) e Filosofia da Ciência (FIS, 1). Verifica-se, portanto, que Gião se dividia entre a Meteorologia e a Física-Matemática, os domínios principais da sua carreira. Além disso publica sobre Física de Partículas e Cosmologia, nessa altura duas áreas não tão intimamente relacionadas como estão hoje. O único artigo de Cosmologia, apesar de ser difícil de ler, é bastante interessante, por ter aparecido no contexto do referido congresso sobre cosmologia, que foi uma das últimas conferências dessa área em que foi proeminente a teoria do estado estacionário, que nessa altura estava a ser ultrapassada pela teoria do Big Bang em face das observações da radiação cosmológica de fundo realizadas em 1965 pelos físicos americanos Arno Penzias (n. 1933) e Robert Wilson (n. 1936). O seu artigo sobre Filosofia da Ciência, ou talvez melhor divulgação cultural, revela o extremo interesse de Gião por essa temática: por vezes preconceitos de natureza filosófica influenciaram os seus trabalhos científicos. O texto, que não é de compreensão fácil, revela o seu domínio da cultura, incluindo a humanista: Gião escreveu poesia. Tem um claro tom poético a frase: “O Universo é o manto pelo qual o Ser se protege do Nada.” 68 O elevado número de autocitações nos artigos de Gião (indicado no fim de cada referência na lista em Apêndice, para os artigos do Arquivo do Instituto Gulbenkian de Ciência. A) corrobora o seu isolamento científico, revelando que os seus trabalhos não ultrapassavam o perímetro do seu pequeno círculo. João Carlos Tiago de Oliveira comentou na sua tese que de toda a produção científica de Gião, só num caso o número de citações de outros excedia o número das autocitações. No caso dos 18 artigos do Arquivo do Instituto Gulbenkian de Ciência, existem 55 referências, das quais 43 são auto-citações. Acrescendo, foi extremamente escasso o número de citações que outros autores fizeram, desde o dia em que foram publicados até aos dias de hoje, desses trabalhos de Gião: é, porém, interessante que o historiador de ciência Helge Kragh tenha revelado interesse pelo artigo que Gião apresentou à Conferência de Cosmologia realizada em Lisboa na análise que faz da história dos modelos cosmológicos, em particular da transição dos modelos de estado estacionário para o Big Bang (Kragh, 2009). 5. Conclusão Pode-se concluir que, nos últimos anos da sua vida, António Gião, após ter feito uma carreira internacional na área da Meteorologia, e de ter mudado, pelo menos em parte, o foco do seu trabalho quando voltou à sua terra natal, realizou um trabalho bastante isolado na Fundação Gulbenkian e na Faculdade de Ciências de Lisboa. A publicação de artigos em revistas prestigiadas como a Nature (só um, juvenil, em 1926, já que outro, na maturidade, foi recusado), nos Comptes Rendus de l’Académie Française de Sciences (23, em 1947-1950 e 1958-1961, sob o patrocínio do famoso físico francês Louis de Broglie, de quem a certa altura Gião se afastou) e na Physical Review (dois, em 1949-1950), foram pontos altos da sua 69 carreira internacional, que lhe granjeou fama em Portugal. O apoio da Fundação Gulbenkian permitiu-lhe realizar a investigação que bem entendeu, desfrutando da colaboração de assistentes e de meios de cálculos, que eram excecionais (como um computador de alguma capacidade, cujo aproveitamento nessa época lhe faz merecer um lugar na história da informática em Portugal). Mas, do ponto de vista científico, a escolha de Gião não se revelou uma boa aposta para a Fundação Gulbenkian: na época a investigação científica de ponta que se fazia no mundo não era aquela. Tanto assim foi que a Fundação decidiu, após a sua morte, encerrar a investigação em Física concentrando os seus esforços na área da Biologia, esforços esses que prosseguem nos dias de hoje no instituto estabelecido em Oeiras que conserva o nome de Instituto Gulbenkian de Ciência. Embora apenas em círculos intelectuais restritos, Gião granjeou alguma fama fora da academia. Talvez devido à estranheza dos temas que cultivava e ao seu isolamento. Quando morreu, o poeta Ruy Belo (1933-1978) escreveu um poema intitulado “Necrologia”, que conclui num tom algo melancólico: “Eu nunca o conheci, nunca o conhecerei” (Belo, 2014). Eis o poema completo: “Portugal tem nove milhões de habitantes. Lisboa talvez tenha um milhão Nada disto me pode consolar, bem sei. Morreu António Gião. Eu não o conheci, nunca o conhecerei.” Esse verso pode ser interpretado como revelador não só do isolamento social da ciência nos anos 60 em Portugal mas também, dentro da ciência, o isolamento de Gião. Era um homem metido dentro do seu mundo, um homem muito difícil de conhecer. 70 6. Referências Belo, R. (2014).Todos os Poemas. Lisboa: Assírio e Alvim Cadete, A. (2006). O Centro de Cálculo Científico da Fundação Calouste Gulbenkian. Acedido a 15 de maio de 2018, em http://www.memtsi.dsi.uminho.pt/mesas/2_ sessao/mesa2 – Antonio Cadete.pdf. Calado, J. (2007). Ciência. In A. Barreto (Ed.), Fundação Calouste Gulbenkian, Cinquenta Anos, 1956-2006. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. Fiolhais, C. (2008). António Gião, Um eremita científico. Gazeta de Física, 31 (3), 22. Gião, A. (1926). Cirrus at lower level than alto-cumulus. Nature, 118, 49. Gião, A. (1929). La Mecanique Différentielle des Fronts e du Champ Isallobarique. Mémorial de l’Office National Météorologique de France, 20, 128 pp.”. Gião, A. (1930). Récherches sur les Pérturbations Mécaniques des Fluides, Première Partie: Théorie générale des perturbations. Mémorial de l’Office National Météorologique de France, 21, XV-f, 61 pp. Gião, A. (1931). Récherches sur les Pérturbations Mécaniques des Fluides, Deuxième Partie. Les Pérturbations atmosphériques. Mémorial de l’Office National Météorologique de France, 22, 96 pp. Kragh, H. (1997). Cosmology and Controversy. Princeton: Princeton University Press. Leonardo, A., Martins, D. J. & Fiolhais, C. (2011). The meteorological observations in Coimbra and the Portuguese participation in weather forecast in Europe. Earth Science History, 30 (1), 135-162. Oliveira, T. de & Brandão, J. C. (2012). A Personalidade Científica de António Gião. Dissertação de Doutoramento, Universidade de Évora, Portugal. Apêndice: Os últimos artigos de Gião 1963 (4 artigos) Gião, A. (1963). Sur la loi de distribution de Maxwell-Boltzmann. Arquivo do Instituto Gulbenkian de Ciência, A. Estudos Matemáticos e Físico-Matemáticos, 1 (1), 1-30. 5 Refs, todas de Gião (FM). Gião, A. (1963). On the relation between the total pressure variation and the field of mean temperature. Arquivo do Instituto Gulbenkian de Ciência, A. Estudos Matemáticos e Físico-Matemáticos, 1 (2), 33-98. 5 Refs. todas de Gião (MET). Gião, A., Roulleau, J. & Pereira Coelho, R. (1963). Application de l’équation de la diffusion à la détermination des circulations zonales. Arquivo do Instituto Gulbenkian de Ciência, A. Estudos Matemáticos e Físico-Matemáticos, 1 (3), 101-130. 4 Refs., das quais 2 não são de Gião (MET). Gião, A., Roulleau, J. & Pereira Coelho, R. (1963). Application de l’équation de la diffusion à la détermination des circulations zonales. Arquivo do Instituto 71 Gulbenkian de Ciência, A. Estudos Matemáticos e Físico-Matemáticos, 1 (3), 101-130. 4 Refs., das quais 2 não são de Gião (MET). Gião, A. (1963). On the theory of the cosmological models with special reference to a generalized steady-state model. Arquivo do Instituto Gulbenkian de Ciência, A. Estudos Matemáticos e Físico-Matemáticos, 1 (4), 135-230. 13 Refs., das quais 6 não são de Gião (COS). Este artigo saiu também nas Atas da Conferência (Proceedings of a NATO ASI) sobre “Cosmological Models” realizada em Lisboa em 1963, publicadas também pelo Instituto Gulbenkian de Ciência. 1964 (4 artigos) Gião, A. (1964). Propriétés locales et globales de l’ opérateur laplacien. Arquivo do Instituto Gulbenkian de Ciência – Cursos e Seminários (8), 95 pp. (FM). Gião, A. & Barbeito, J. M. (1964). A new form of the sea level tendency equation. Arquivo do Instituto Gulbenkian de Ciência, A. Estudos Matemáticos e FísicoMatemáticos, 2 (1), 3-44. 2 Refs., as duas de Gião (MET) Gião, A. (1964). On the weighted advection. Arquivo do Instituto Gulbenkian de Ciência, Lisboa, A. Estudos Matemáticos e Físico-Matemáticos, 2 (2), 49-82. 1 Ref., de Gião (FM). Gião, A. & Pereira Coelho, R. (1964). Influence des sources thermiques sur la circulation zonale. Arquivo do Instituto Gulbenkian de Ciência, A. Estudos Matemáticos e Físico-Matemáticos, 2 (3), 85-118. 2 Refs., as duas de Gião (MET). 1965 (3 artigos) Gião, A. (1965). Fourier transforms and the continuation of functions. Arquivo do Instituto Gulbenkian de Ciência, A Estudos Matemáticos e Físico-Matemáticos, 3 (2), 73-149.”. 0 R (FM). Gião, A. (1965). Le comportement des fonctions d’onde sur les lignes d’univers des particules élementaires. Arquivo do Instituto Gulbenkian de Ciência, A. Estudos Matemáticos e Físico-Matemáticos, 3 (3), 151-174. 6 Refs., das quais 3 não são de Gião (FP). Gião, A. (1965). Sobre a existência da matéria. In Livro de Homenagem ao Prof. Fernando Fonseca. Lisboa: Universidade de Lisboa, pp. 139-146 (COS). 1966 (6 artigos) Gião, A. (1966). Climatologie dynamique de la France et des régions avoisinantes. Arquivo do Instituto Gulbenkian de Ciência, A. Estudos Matemáticos e FísicoMatemáticos, 4 (1), 135-210 7 Refs., todas de Gião (MET). Gião, A. (1966). Vortex perturbations on a mean field of motion. Arquivo do Instituto Gulbenkian de Ciência, A. Estudos Matemáticos e Físico-Matemáticos, 4 (2), 6996. 0 Ref. (MET). 72 Gião, A. (1966). On the Fourier continuation of functions: Theoretical complements and exemples. Arquivo do Instituto Gulbenkian de Ciência, A. Estudos Matemáticos e Físico-Matemáticos, 4 (3), 99-131. 0 Ref. (FM). Gião, A. (1966). Climatologie dynamique de la Péninsule Ibérique. Arquivo do Instituto Gulbenkian de Ciência, A. Estudos Matemáticos e Físico-Matemáticos, 4 (4), 135-210.7 Refs., todas de Gião (MET). Gião, A. (1966). O princípio de inércia na mecânica ondulatória relativística. Anais da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, XLIX, Homenagem ao Professor Doutor R. Sarmento de Beires no seu jubileu, 75-90 (FP). Gião, A. (1966). Sur la déduction des équations intégrales de l’équation de Fourier par le tenseur d’Oseen. Revista da Faculdade de Ciências de Lisboa (A), fasc. II (11), 205-206 (FM). 1967 (3 artigos) Gião, A. (1967). On the structure of particles. Arquivo do Instituto Gulbenkian de Ciência, A. Estudos Matemáticos e Físico-Matemáticos, 5 (1), 1-74. 2 Refs., as duas de Gião (FP). Gião, A. (1967). On the wave continuation of functions. Arquivo do Instituto Gulbenkian de Ciência, A. Estudos Matemáticos e Físico-Matemáticos, 5 (2), 77117.0 Ref. (MET). Gião, A. (1967). O espaço, o tempo e a vida. Évora: Gráfica Eborense, 34 pp., (Conferência realizada no Palácio de D. Manuel, em Évora, a 7 de abril de 1967, Separata do Boletim da Junta Distrital de Évora, vol. 7.) (FIL). 1968 (3 artigos) Gião, A. & Branco, J. A. (1968). Ergodic properties and waves. Arquivo do Instituto Gulbenkian de Ciência, A. Estudos Matemáticos e Físico-Matemáticos, 6 (1), 1-68. 0 Ref. (MET). Gião, A. (1968). La variation de pression au niveau de la mer en tant qu’advection pondérée. Arquivo do Instituto Gulbenkian de Ciência, A. Estudos Matemáticos e Físico-Matemáticos, 6 (2), 71-100. 0 Ref. (MET). Gião, A. (1968). Sur la deduction des équations intégrales de l’équation de Fourier par le tenseur d’ Oseen. Revista da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, II Série A, 11 (1965-66), 295-297 (FM). 1969 (1 artigo) Gião, A. + & Branco, J. A. (1969). On some properties of the isallobaric field. Arquivo do Instituto Gulbenkian de Ciência, A. Estudos Matemáticos e Físico-Matemáticos, 7 (1), 1-48.1 Ref., de Gião (MET) + Falecido. 73 a origem da C o r nos s e l o s Portugueses (1857-1909) th e o rigin o f C o l o r i n P ortuguese stamPs Catarina Pinto, J. Sérgio Seixas de Melo 0000-0001-9708-5079 CQC, Departamento de Química, Universidade de Coimbra, Rua Larga, 3004-535 Coimbra, Portugal [email protected] Resumo: A origem dos pigmentos e corantes utilizados no processo de impressão dos primeiros selos Portugueses constitui, até aos dias de hoje, uma incógnita. Sobre este importante tópico existem escassas referências, como a que indica a existência de uma caixa com tintas de impressão, sem qualquer referência ao seu conteúdo, vinda de Inglaterra, recebida pela Casa da Moeda em 23 de abril de 1853. Sabe-se, de uma análise anterior que efetuámos a alguns selos do Reino Unido, que o ácido carmínico (para os vermelhos) e a célebre mauveína (para os lilases/púrpura) foram utilizados no período entre 1847-1901. Neste trabalho mostraremos com base numa análise envolvendo diversas técnicas (Fluorescência de Raios-X, espectroscopia de UV-Vis, HPLC-DAD) conjuntamente com uma pesquisa a documentos históricos, que as tintas utilizadas 80 minuir a moral às tropas adversárias através de caricaturas com o intuito de humilhar (Figura 3).(Lage Cardoso, 1998) Por último, a falsificação filatélica – que tem como finalidade maior enganar colecionadores, os filatelistas – categoria que mais preocupa dado os elevados valores que podem estar envolvidos. Por exemplo, “Os selos postais missionários Havaianos são raros … um selo postal não usado de 2 cêntimos foi vendido, em 1995, por 660,000$”.(Healey, 2006) Neste âmbito as falsificações são, por vezes, executadas com elevado cuidado e perfeição sendo assim difícil a sua identificação.(Imperio et al., 2013; Lage Cardoso, 1998) Figura 3 – Exemplo de um selo postal falso propagandístico. (Lage Cardoso, 1998) Em Portugal, a organização dos Correios veio por mão de D. Manuel I quando este redige uma carta, a 6 de novembro de 1520, estabelecendo assim Luís Homem como Correio-Mor. Mais tarde, passa a ser o Estado a deter a administração dos Correios Portugueses, no reinado de D. Maria I. (de Oliveira Marques, 1995; Vieira, 1983) A troca de correspondência, em Portugal, não era diferente daquela que era realizada nos outros países. Contudo, desde 1840 que era sentida a premência de Portugal ter uma reforma postal que o colocasse em pé de igualdade com as outras nações. Foi assim que em 1851 foi criada uma comissão para discutir a reforma do Serviço Postal Português. As conclusões dessa comissão constituíram o mote do Decreto-Lei de 27 de outubro de 1852. Este decreto instituiu 81 as bases da nova Reforma Postal Portuguesa estipulando o uso do selo postal a partir de 1 de julho do ano seguinte. Deste modo, os serviços passaram a ser regidos por um Regulamento aprovado por Decreto-Lei de 4 de maio de 1853. (de Oliveira Marques, 1995; Vieira, 1983) D. Fernando II enviou Francisco de Borja Freire (FBF), funcionário da Casa da Moeda, a Inglaterra com o objetivo de aprender o ofício da impressão dos selos postais. Este teria de estudar o processo de impressão dos selos de relevo, tendo dois selos britânicos sido a base de inspiração. Foi então requerida autorização para a compra de uma máquina de impressão e tintas para as primeiras impressões. (de Oliveira Marques, 1995; Vieira, 1983) Em maio de 1853 dá-se início à impressão do selo postal de 25 reis e a 1 de julho, desse ano, entram em circulação os primeiros selos postais portugueses de 5 e 25 reis (Figura 4). (de Oliveira Marques, 1995; Vieira, 1983) Figura 4 – Primeiros selos postais Portugueses, 5 e 25 reis. (Miranda da Mota, 2016) Pouco se sabe sobre a produção destes primeiros selos em Portugal. Sabe-se apenas que a 23 de abril de 1853 chegou à Casa da Moeda uma caixa de tintas de impressão e dois barris de goma, e, no dia 27 desse mesmo mês, chegou a máquina de estampar. (de Oliveira Marques, 1995; Vieira, 1983) Os exemplos de falsificações são vastos. Por vezes, uma má impressão conduz ao desaparecimento de uma dada cor (que aparecia na versão original), ou a ação da luz pode oxidar/degradar deter- 82 minados pigmentos ou corantes conduzindo a uma alteração da mesma, etc. Estes são exemplos de alterações a partir de um original que o transformam em raridade. No entanto, o acesso a cunhos ou chapa de impressão de selos descontinuados, ou a carimbos, são outra fonte de falsificação que permite a obtenção de espécimes muito próximos dos originais. De relembrar que nos selos não existem números de série (ao contrário das notas) embora se saibam quantos exemplares foram produzidos. A raridade é sempre o ex-libris de um colecionador. Por estes motivos um perito na identificação de falsificações é normalmente um colecionador com muitos anos de experiência e igualmente muitos exemplares de um dado selo. Face ao exposto, a análise de selos postais com a finalidade de determinar a sua autenticidade é uma questão relevante para as pessoas envolvidas neste campo, quer para os avaliadores de falsificações (certificados por sociedades filatélicas) quer para os colecionadores. No entanto, o âmbito desta contribuição não é a descrição de falsificações em selos postais, mas a identificação dos corantes (ou pigmentos) utilizados na impressão em alguns dos primeiros selos Portugueses, assim contribuindo para o conhecimento da história do selo Português e do seu Sistema Postal. 1.2. A Cor Advinda das Moléculas Uma história, necessariamente breve, impõe-se igualmente no que diz respeito à existência e utilização ao longo dos tempos das moléculas da cor. Desde os tempos pré-históricos que o homem utiliza, no seu dia a dia, pigmentos ou corantes, o que pode ser exemplificado pelas gravuras existentes em grutas e cavernas. A diferenciação entre corantes e pigmentos tem em conta a sua solubilidade: os corantes são normalmente compostos orgânicos e são 83 solúveis no solvente, enquanto que os pigmentos são (geralmente) de origem inorgânica e insolúveis na maioria dos solventes. Existem, contudo, exceções. (Griffiths, 1984; Maria J. Melo, 2009; Maria J. Melo et al., 2016) Os corantes e pigmentos podem ainda, para além de ser subdivididos em orgânicos e inorgânicos, categorizados como naturais ou sintéticos, tendo em conta a sua origem.(Zollinger, 2003) A cor apresentada pelas moléculas, é devida à absorção de radiação na região do visível (~400-750 nm). A absorção de radiação promove um eletrão a um nível energético superior (com mais energia), designado por estado excitado. A cor observada é aquela que é refletida (não absorvida) traduzindo-se na complementar da absorvida. No estado excitado, não sendo estável, a molécula tende a “procurar” a sua forma mais estável, assim, retoma para o estado mais estável (menos energético) – estado fundamental. Os corantes naturais são normalmente encontrados nas secreções de caracóis marinhos ou de insetos, usados muitas vezes para colorir fibras ou pinturas. O índigo, é provavelmente o corante natural mais antigo de que há memória, tendo sido encontrados vestígios do seu uso no antigo Egito e em Iluminuras medievais.(Balfour-Paul, 1998; Melo et al., 2016; Seixas de Melo et al., 2006; Seixas de Melo, 2018) Nos tempos medievais o azul ultramarino, extraído do mineral lapis-lazuli, era usado em pinturas religiosas. Na Era Moderna, a síntese do azul da Prússia, em 1704, marca, parcialmente, o início da indústria de pigmentos sintéticos. Com a síntese desta nova molécula que apresentava a mesma cor que o azul ultramarino (de origem natural), este último foi gradualmente substituído pelo uso do azul da Prússia.(Lamb, Bourriau, 1995) A descoberta da estrutura do benzeno, fez com que uma nova era se instalasse na fabricação de moléculas orgânicas. A partir do conhecimento da estrutura molecular era possível desenhar 84 as moléculas. Um dos primeiros exemplos é o da síntese laboratorial da alizarina (Figura 5) por parte de Griebe e Libberman. (Graebe, Liebermann, 1868; Phillips, 1929) A partir daí muitas outras moléculas foram desenhadas. Um dos exemplos de moléculas sintetizadas (e dos seus derivados) são os conhecidos “Hofmann Dyes”, ou derivados do trifenilmetano. Hofmann mostrou que a anilina azul é um derivado trifenilo da rosalina e que com a introdução de diferentes grupos na molécula eram produzidos corantes com diversas cores púrpura e violeta, conhecidos como “Hofmann’s Violet”.(Zollinger, 2003) No entanto, o derivado trifenilmetano mais célebre foi a fuschina (Figura 5) (de cor vermelho-magenta) por muitos considerado o segundo corante derivado da anilina, logo a seguir à mauveína, mais famoso de sempre.(Cooksey, Dronsfield, 2009) A icónica mauveína foi obtida por William Henry Perkin, em 1856, tendo constituído um dos marcos mais importantes da história da ciência e da tecnologia, encontrando-se na origem da indústria de tintas sintéticas e globalmente da indústria química como a conhecemos hoje.(Conceição Oliveira et al., 2014 ; Garfield, 2002; Maria J. Melo, 2009; Seixas de Melo, 2018; Zollinger, 2003) Fruto de uma descoberta ao acaso, a utilização da cor púrpura teve um novo élan no século XIX. Várias são as histórias existentes sobre a mauveína e o seu (curto) período de ouro. Uma prende-se diretamente com a sua utilização em selos postais. De facto, em virtude da Guerra Civil norte-americana, travada entre 1861 e 1865, o acesso a algodão (cujo fornecimento vinha em grande parte daquela ex-colónia do Reino Unido) levou os tingidores ingleses a procurarem outros usos para as suas tintas, nomeadamente em alguns dos primeiros selos postais do Reino Unido. (Conceição Oliveira et al., 2014) 85 O O OH OH A lizarina N HH Cl - NH 2 NH 2 Fuschina Figura 5 – Estruturas químicas da alizarina e da fuschina. 2. Estado da arte 2.1. As Moléculas da Cor em Selos Postais Os selos postais de vários países têm sido objeto de alguns estudos com o objetivo de identificar as moléculas da cor utilizadas na impressão dos mesmos. Assim, temos como exemplo, (i) os selos raros dos missionários havaianos dos quais foram efetuados estudos comparativos de falsificações com exemplares verdadeiros (Chaplin et al., 2002); (ii) o selo Maurício laranja-vermelho de 1847 e o selo 1847 azul não usado (Chaplin, et al., 2004); (iii) selos brasileiros (impressos entre 1850 e 1922) (Schwab, et al., 2016); (iv) os primeiros selos postais do Chile (Lera, et al., 2013); (v) alguns selos postais espanhóis (Castro, et al., 2008), e (vi) os selos postais de um cêntimo do Reino Unido (“one-penny stamps”) vigente no período decorrido entre 1841 e 1880 (Ferrer et al., 2006), e, mais recentemente, um (vii) trabalho sobre os primeiros selos japoneses (Araki et al., 2016). A acrescentar a estes, e, talvez um dos mais relevantes, o selo pos- 86 tal 6d de 1867-1880 do Reino Unido que inclui o corante mauveína. (Conceição Oliveira et al., 2014) Procuremos detalhar um pouco mais algumas das investigações realizadas nestes trabalhos. No caso de (i), o estudo recorreu à Microscopia Raman, tendo sido possível efetuar a distinção entre selos postais originais (1847) e 1858-1862 e as falsificações dos mesmos.(Chaplin et al., 2004) A raridade e, portanto, o alto valor alcançado por estes selos – com a mais rara conquista de cerca de £ 1 milhão em leilão – levou à falsificação destes.(Chaplin et al., 2004) Para o selo original 1847 1d, o pigmento vermelho-laranja foi identificado como óxido de chumbo (II, IV) (Pb3O4 – “vermelho de chumbo”);(Chaplin et al., 2004) os selos originais e reproduções 1847 2d, diferem apenas nos tons de azul e na fibra de papel, foram detetados alguns cristais que pertencem ao azul ultramarino. Tendo isso possibilitado a distinção entre a reprodução, que continha os cristais, e o selo original.(Chaplin et al., 2004) Os primeiros selos postais japoneses de 1871-1876 (item (vii) acima), gravados à mão, foram analisados e um dos objetivos assumidos foi o de distinguir selos postais, gravados por duas entidades diferentes, um gravador privado, Atsutomo Matsuda e, a partir de 1873, pelo Governo Japonês.(Araki et al., 2016) A análise química dos selos postais recorreu de técnicas não-invasivas (FTIR, Raman, XRF e espectroscopia de absorção) e invasivas (HPLC). (Araki et al., 2016) A origem das diferentes cores nestes selos postais, tais como, o azul, o amarelo, o verde, o castanho, a púrpura e o preto foi analisada. Concluiu-se que Matsuda usava principalmente pigmentos inorgânicos como o azul da Prússia, o cinábrio, o vermelho de chumbo, em contraste com as impressões feitas pelo Governo Japonês que utilizou, azul ultramarino, cochinilha, o “amarelo cromado”, o verde-esmeralda e derivados (não especificados) sintéticos do trifenilmetano.(Araki et al., 2016) 87 Os selos postais lilases da Rainha Vitória foram recentemente analisados, tendo sido detetada a presença da icónica mauveína, usada para colorir os selos postais de 1867-1880.(Conceição Oliveira et al., 2014) A técnica cromatográfica HPLC-DAD-MS/MS foi escolhida para a realização das análises químicas, o que conduziu à descoberta de mauveína produzida por diferentes processos sintéticos. Deste estudo foi possível concluir, de mais de 35 selos postais lilases analisados, que na maioria dos selos postais 6d de 1867-1880 foi utilizada a mauveína na sua impressão. No entanto, em alguns selos postais, o ácido carmínico foi encontrado como o corante maioritário, apesar desses mesmos selos apresentarem uma cor lilás. (Conceição Oliveira et al., 2014) Chegamos agora ao objeto de estudo deste trabalho: quais os corantes/pigmentos utilizados na impressão dos primeiros selos postais Portugueses? Sobre os corantes usados nos selos postais Portugueses, é apenas conhecido que o material utilizado para a impressão dos primeiros exemplares proveio de uma caixa originária de Inglaterra. A sua constituição química permanece desconhecida até aos dias de hoje. 3. Resultados e Discussão Foram analisados trinta e quatro selos postais Portugueses (incluindo réplicas), organizados em doze grupos. Para esta análise foram escolhidos selos postais de cor vermelha, rosa e púrpura, de que se ilustram alguns exemplares nas Figuras 6-8.1 Os selos postais foram analisados recorrendo a técnicas não – destrutivas 1 A identificação (com acrónimo) das amostras foi realizada com base no seu número de catálogo (13-160), no seu ano de impressão (1857-1909) e o número da réplica (1-3). Por exemplo, o acrónimo 13_1857-62_Rep1 representa o selo postal com o número de catálogo 13, impresso no ano 1857-1862 e a réplica número #1. 88 (espectroscopia de UV-Vis e fluorescência de raios-X (XRF, do inglês)) e destrutivas (Cromatografia Líquida de Alta Eficiência (HPLC, do inglês)). Figura 6 – Exemplo de dois selos postais Portugueses vermelhos analisados, 13_157-62_Rep1 (esquerda) e 22_1866_Rep1 (direita). Figura 7 – Exemplo de dois selos postais Portugueses rosa analisados, 66_1884_Rep2 (esquerda) e 160_1909_Rep2 (direita). Figura 8 – Exemplo de dois selos postais Portugueses púrpura e vermelho-alaranjado analisados, 54_1880_Rep1 (esquerda) e 149_1898_Rep1 (direita). 89 3.1. Fluorescência de Raios-X (XRF) Recorreu-se, numa primeira fase, à análise dos diferentes selos postais por XRF uma vez que esta permitiria fazer uma diferenciação quanto à origem orgânica (corantes) ou inorgânica (pigmentos) da cor. A determinação dos elementos presentes apenas na tinta foi realizada através da subtração do espectro do papel (ii) ao espectro obtido para a área colorida (tinta, (i)) (Figura 9). 93  3.1. Fluorescência de Raios-X (XRF) Recorreu-se, numa primeira fase, à análise dos diferentes selos postais por XRF uma vez que esta permitiria fazer uma diferenciação quanto à origem orgânica (corantes) ou inorgânica (pigmentos) da cor. A determinação dos elementos presentes apenas na tinta foi realizada através da subtração do espectro do papel (ii) ao espectro obtido para a área colorida (tinta, (i)) (Figura 9). Figura 9 – Exemplo de uma análise por XRF ao selo postal 30_1867_Rep1. A identificação de corantes orgânicos por XRF é muito limitada.(Duran et al., 2014; Hahn et al., 2004) Houve, pois, necessidade de recorrer a outras técnicas que permitissem a identificação do material corante. No entanto, no que diz respeito aos pigmentos inorgânicos, vários elementos metálicos foram detetados como, por exemplo, o mercúrio (Hg), enxofre (S), chumbo (Pb). Uma vez detetada a sua presença foi necessário avaliar a sua distribuição pelo selo postal. Deste modo, o mapeamento do selo postal, permitiu a obtenção da distribuição espacial de cada um destes elementos. A Figura 10, apresenta, como exemplo, o mapeamento de Hg para um selo postal. Figura 9 – Exemplo de uma análise por XRF ao selo postal 30_1867_Rep1. A identificação de corantes orgânicos por XRF é muito limitada. (Duran et al., 2014; Hahn et al., 2004) Houve, pois, necessidade de recorrer a outras técnicas que permitissem a identificação do material corante. No entanto, no que diz respeito aos pigmentos inorgânicos, vários elementos metálicos foram detetados como, por exemplo, o mercúrio (Hg), enxofre (S), chumbo (Pb). Uma vez detetada a sua presença foi necessário avaliar a sua distribuição pelo selo postal. Deste modo, o mapeamento do selo postal, permitiu a obtenção da distribuição espacial de cada um destes elementos. A Figura 10, apresenta, como exemplo, o mapeamento de Hg para um selo postal. 96 Foi possível verificar que, maioritariamente, os corantes utilizados eram de origem orgânica. Mais ainda, verificou-se que em 1866 e 1867, no que diz respeito aos selos de cor vermelha, existiu uma produção dos mesmos onde existiu mistura de ambos (corantes e pigmentos). O mesmo não se verificou para os de cor rosa, onde estes apenas apresentaram eosina y. De salientar que para o ano de 1867 foram estudadas duas cores, púrpura e vermelho, sendo que para a cor púrpura foi identificado, como fonte molecular da cor, o pigmento PbS e para a cor vermelha, os corantes ácido carmínico e cinábrio (em alguns exemplares a mistura de ambos, consultar Tabela 1 onde estão sumariados os selos postais analisados). 4. Conclusões O principal desafio colocado no início deste trabalho foi o de identificar as moléculas da cor usadas nos primeiros selos postais Portugueses. Com base neste estudo foi possível, pela utilização conjunta de diferentes técnicas analíticas, uma identificação dos corantes (tendo sido identificados ácido carmínico e eosina y) e dos pigmentos (tendo sido identificados óxidos de chumbo, cromato de chumbo, sulfito de chumbo e, ainda, cinábrio) presentes nos primeiros selos postais Portugueses, de cor vermelha, rosa e púrpura. De especial relevo é o facto de se encontrarem muitos pigmentos (em particular o cinábrio) em períodos em que na maioria dos países europeus (e mundiais) o uso de corantes orgânicos era, a julgar pelos estudos existentes, dominante. Podemos assim dizer que foi realizada, pela primeira vez, uma análise química conclusiva aos primeiros selos postais Portugueses. No entanto, até chegar a um bom porto, algumas dificuldades foram surgindo, nomeadamente, com a pouca informação histó- 97 rica no que à composição química das tintas usadas diz respeito. A obtenção das melhores condições para a execução de padrões foi também uma dificuldade dado que, mais uma vez, se desconhecia a origem e composição do papel utilizado nos selos postais. De modo a tornar esta investigação mais aliciante para o conhecimento da história química dos selos postais, uma articulação entre estudos histórico-sociais e químicos constituirá por certo no futuro uma forma de enriquecimento do mesmo. 5. Referências Bibliográficas Araki, S., Kondo, E., Shibata, T., Yokota, T., Suzuki, M., Hirashita, T., Yamaguchi, K., Matsumoto, H. & Murase, Y. (2016). Analysis of Pigments in the Printing Inks of the First Japanese Postage Stamps, the Hand-Engraved Issues. Bulletin of the Chemical Society of Japan, 89 (5), 595-602. doi: 10.1246/bcsj.20150421 Balfour-Paul, J. (1998). Indigo: British Museum Press. Castro, K., Abalos, B., Marti, I., Etxebarria, N& Manuel, J. (2008). Scientific examination of classic Spanish stamps with colour error, a non-invasive micro-Raman and micro-XRF approach : The King Alfonso XIII (1889-1901 ”Pelón”) 15 cents definitive issue. Journal of Cultural Heritage, 9, 189-195. doi: 10.1016/j. culher.2008.02.001 CFP – Clube Filatélico de Portugal. (2010). Pêra de Satanás, em http://leiloes. cfportugal.pt/25LeilaoCFP/0001 a 0235 Coleccao Invicta/slides/0139.html Chaplin, T. D., Clark, R. J. H.& Beech, D. R. (2002). 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Zürich: Verlag Helvetica Chimica Acta & Wiley-VCH. 101 a Petrografia miCrosCóPiCa n o ensino da m ineralogia e Petrologia, n a u niversidade d e C oimBra, n o final d o séCulo XiX e iníCio d o séCulo X X . o eXemPlo da Coleção krantz d e lâminas delgadas th e miCrosCoPiC P etrograPhy and the teaChing o f m ineralogy and Petrology at the university o f C oimBra, during the l at e nineteenth and early twentieth Centuries. t h e eXamPle o f the krantz ColleCtion o f thin seCtions Elsa M. C. Gomes 0000-0001-6307-1859 Centre for Mechanical Engineering, Materials and Processes (CEMMPRE), Departamento de Ciências da Terra, Universidade de Coimbra, Portugal [email protected] Pedro M. Callapez 0000-0002-6493-2208 Centro de Investigação da Terra e do Espaço da Universidade de Coimbra (CITEUC), Departamento de Ciências da Terra, Universidade de Coimbra, Portugal [email protected] 102 Carla Sofia da Silva Marques 0000-0003-2776-3131 Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade de Coimbra, Portugal [email protected] Carlos Barata 0000-0003-3524-0752 Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade de Coimbra, Portugal [email protected] Resumo: O ensino da Mineralogia e Petrologia na Universidade de Coimbra, entre o final do século XIX e inícios do XX, surgiu e evoluiu no contexto dos avanços técnicos e científicos de 1900, que culminaram com o advento do microscópio de polarização. Neste período muito se deveu ao esforço de António José Gonçalves Guimarães, um dos vultos influentes na Faculdade de Filosofia de então, como lente da cadeira de «Mineralogia e Petrologia» e diretor da Secção de Mineralogia e Geologia do Museu de História Natural. É-lhe atribuída a iniciativa de aquisição de diversas coleções didáticas, instrumentos e demais equipamentos, de que destacamos, neste estudo, a coleção Krantz de lâminas delgadas. Este acervo, de dimensão internacional, constituiu um recurso didático valioso na introdução da petrografia microscópica, como uma metodologia essencial no estudo de minerais e rochas. Do ponto de vista científico, foi a base da investigação em Mineralogia e Petrologia por mais de um século e, no ensino, mantém-se como disciplina base de Geologia, nas universidades portuguesas. Palavras-Chave: Coleção Krantz, lâminas delgadas, petrografia, microscópio de luz polarizada, Universidade de Coimbra 103 Abstract: During the late 19th and early 20th centuries the teaching of Mineralogy and Petrology at the University of Coimbra emerged and evolved in the context of the technical and scientific advances of the first of these centuries, culminating with the advent of the polarizing microscope. Through this period much was due to the efforts of António José Gonçalves Guimarães, one of the influent personalities of that time, at the Faculty of Philosophy, as a professor of «Mineralogy and Petrology» and director of the Section of Mineralogy and Geology of the Natural History Museum. For such purposes, he was responsible for the acquisition of many didactic collections, instruments and other equipment, of which we highlight, in this study, the Krantz collection of thin sections of rocks. This collection was a valuable didactic resource for the introduction of microscopic petrography as an essential methodology in the study of minerals and rocks. From a scientific point of view, it was the basis of research in Mineralogy and Petrology for more than a century and it remains as a basic course in programs of study in Geology, at the Portuguese universities. Keywords: Krantz collection, thin sections, petrography, polarizing microscope, University of Coimbra 1. Introdução O surgimento de conteúdos e atividades letivas sobre minerais e rochas, na Universidade de Coimbra (UC), constituiu uma das muitas consequências positivas da criação dos estudos de História Natural, no âmbito da reforma pombalina de 1772. Aos desígnios que conduziram à sua implementação, dentro do espírito de modernidade estruturante de que se revestiu a criação da Faculdade 104 de Filosofia Natural, não terá sido estranha a perceção, por parte do legislador e de alguns dos lentes desse período, entre os quais Domenico Vandelli (1735-1816), de que a Mineralogia e a Geognosia constituíam áreas do saber com importância científico-tecnológica e formativa, estratégicas para o desenvolvimento económico do Reino, confrontado que estava com os progressos crescentes da Revolução Industrial de além-fronteiras. Na realidade, para além de problemáticas referentes à Mineralogia sistemática e à importância do estudo dos minerais e rochas em si mesmo, estavam em causa a Metalurgia e Arte de Minas e, com ela relacionados, os estudos de Docimásia e de Montanística, com vista a que os alunos pudessem adquirir competências sobre paragéneses e jazidas, incluindo as resultantes da experimentação prática, que pudessem ser úteis à prospeção e exploração mineiras em Portugal e seus territórios ultramarinos, mas também à transformação de matérias-primas daí decorrentes, permitindo suprir de quadros as indústrias ressurgentes. A criação do Gabinete de História Natural no Colégio de Jesus (e.g. Ferreira, 1990; Baptista, 2000, 2010; Callapez & Brandão, 2011) e, mais tarde, já em 1801, do Gabinete de Metalurgia (Ferreira, 1998), vieram dotar a UC de coleções substanciais de Mineralogia e Petrologia, utilizadas em atividades letivas e consubstanciadas pela publicação de manuais próprios, de que foram apanágio os Elementos de Metalurgia (1798, com fac-simile reeditado em 2000) e as Tábuas Mineralógicas (1823, reeditadas em 1835) de Manuel Barjona (1758-1831) (Ferreira, 1990, 1998). Para a tão necessária qualificação destas novas áreas do saber, através da especialização de lentes, de recursos bibliográficos atualizados e de amostras, instrumentos e modelos, também terão contribuído as longas estâncias que José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838), João António Monteiro (1769-1834) e Paulino de Nola Oliveira e Sousa (1759-1831) efetuaram em instituições no estrangeiro, sobretudo em Paris e em Freiberg (Ferreira, 1988, 1992; Pinto et al., 2011). Para além de 105 diversas remessas enviadas pelos dois últimos, ao longo de vários anos, destaca-se a importante coleção de minerais trazida pelo Padre Nola, em meados de 1822, a qual viria a fazer parte integrante do Gabinete de Metalurgia e, mais tarde, dos acervos do então criado Museu de História Natural da Universidade (Monte-São, 1872). Desta forma, desde os primeiros anos que se seguiram à reforma de 1772, ao longo do último quartel de oitocentos e durante todo o século XIX, a Faculdade de Filosofia Natural pautou-se pela existência de condições substanciais ao nível de qualidade letiva, na pessoa de diversos lentes com conhecimentos e preparação efetiva para lecionarem conteúdos de Geologia, auxiliados por um universo crescente de recursos, incluindo amostras de minerais e rochas, disponíveis nos gabinetes e museu, para manuseamento por professores e alunos. O histórico de disciplinas nestas áreas é longo e traduz a evolução do conhecimento e pensamento geológico, numa jovem ciência em renovação: História Natural (1772-1791), Zoologia e Mineralogia (1791-1835), Metalurgia (1801-1835), Mineralogia, Geognosia e Metalurgia (1835-1844) e Mineralogia, Geologia e Arte de Minas (1844-1886) (Ferreira, 1998; Universidade de Coimbra, 1878-1921). Estavam, assim, criadas as condições para que uma profícua escola de Mineralogia e Petrologia existisse na academia de Coimbra, sobretudo a partir de 1880, já sob tutela de António José Gonçalves Guimarães (1850-1919). Durante este período ampliaram-se significativamente as coleções de minerais e rochas do museu, a par da aquisição repetida de instrumentos óticos, incluindo microscópicos petrográficos, permitindo assim implementar os estudos de Petrografia e de Petrologia e, não muito longe do que melhor se fazia na época, a nível universitário, conforme daremos conta nos parágrafos seguintes. Desta forma, através do presente estudo pretende-se: 1) divulgar e descrever a coleção Krantz de lâminas delgadas pertencente aos 112 Guimarães manteve a sua influência no ensino da Mineralogia e Petrologia, como professor catedrático da UC (Tabela 2). Terá sido ele o grande impulsionador dos estudos em Cristalografia, Mineralogia e Petrologia, na Faculdade de Filosofia e, posteriormente, na Faculdade de Ciências da UC, principalmente no período entre 1886 e 1912 (Universidade de Coimbra, 1878-1921), altura em que assumiu a direção da Secção de Mineralogia e Geologia do Museu de História Natural, mantendo a regência das cadeiras de «Mineralogia e Geologia» e de «Mineralogia e Petrologia» (Universidade de Coimbra, 1878-1921). A ele se atribui, também, a aquisição de coleções didáticas, instrumentos e demais equipamento, como os microscópios de polarização Carl Zeiss Jena (nº de série 6000), ano de fabrico 1883, e Ernest Leitz Wetzlar (nº de série 98286), ano de fabrico 1907, que hoje integram o espólio do Departamento de Ciências da Terra da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UC. 5. Desafios no ensino da Petrografia no século XXI O microscópio de polarização foi, durante quase um século, o único instrumento fiável na identificação de minerais, considerando que aqueles que os utilizavam eram altamente habilitados na realização dessa tarefa. O aparecimento da microssonda eletrónica e do microscópio eletrónico de varrimento (MEV) retirou alguma preponderância à Petrografia realizada ao microscópio de polarização, sobretudo nos trabalhos de investigação em Mineralogia e Petrologia. Contudo, no ensino da Mineralogia e Petrologia, as universidades portuguesas mantêm programas clássicos, onde se valoriza a observação de rochas e minerais ao microscópio petrográfico. Na UC, as aulas práticas das disciplinas de Mineralogia, Petrologia Ígnea e Petrologia Metamórfica, do 1º Ciclo em Geologia, possuem um horário de 3 horas semanais, sendo que a observação à escala mi- 113 croscópica representa mais de 50% do programa da componente prática de cada disciplina. No caso da Petrologia Metamórfica pode mesmo corresponder a um peso de cerca de 70%. O treino em microscopia exige um considerável investimento de tempo na prática de rotinas na determinação das propriedades óticas dos minerais. No entanto, o estudo de lâminas delgadas, sendo essencialmente uma tarefa descritiva, não atrai os alunos do século XXI. Frequentemente, podem utilizar-se atlas ou algumas aplicações, fáceis de carregar no telemóvel ou no «tablet», e o estudo é realizado por comparação com as imagens disponíveis, sem recorrer à caracterização exaustiva das propriedades óticas. Os procedimentos para a caracterização das propriedades óticas dos minerais são lecionados na disciplina de Mineralogia, mas o docente depara-se com muita resistência na aplicação desses conhecimentos nas disciplinas de Petrologia. Kile (2006) refere que “é inadequado identificar um mineral como quartzo, apenas porque parece quartzo, pois não se parte de uma sólida compreensão dos fundamentos”. Kile (2006) identifica as razões para o declínio da microscopia de luz polarizada no ensino das Geociências: 1. Os métodos óticos foram substituídos pela difração de raios X (DRX), microscopia eletrónica de varrimento (MEV) e microssonda eletrónica; 2. A evolução dos currículos exigiu que alguns temas fossem substituídos por outros; 3. Sendo uma metodologia considerada por alguns como anacrónica, diminuiu a probabilidade de receber financiamento para projetos de investigação e de ensino. Uma perspetiva abrangente da Mineralogia como atividade interdisciplinar que suporta todas as áreas das Geociências (Parsons, 2002), como a Petrologia, a Geologia Económica, a Geoquímica, a 114 Geofísica, a Geologia de Engenharia, a Geologia Ambiental, etc., para além de outras áreas, como as Ciências Forenses e a Arqueologia, com integração da Petrografia e dos métodos óticos, pode ser o caminho para cativar alunos para esta metodologia. De qualquer forma, não fosse o significado histórico e importância museológica, a coleção Krantz de lâminas delgadas, do século XIX, ainda hoje poderia constituir um recurso valioso e atual para utilizar em aulas práticas da disciplina de Petrologia Ígnea. Com efeito, apesar da sua antiguidade, reveste-se de uma qualidade e diversidade que, no presente, dificilmente se encontram em coleções didáticas disponíveis no mercado, para uso escolar. 6. Conclusões A coleção Krantz de lâminas delgadas apresentada neste estudo, terá sido adquirida à Casa Krantz no início do século XX, considerando o ano de publicação do catálogo, com base na data inscrita no prefácio (maio de 1897). É composta por 248 lâminas delgadas, das 250 originais, sendo 225 de rochas ígneas e 25 de rochas metamórficas. A maioria das amostras foram colhidas em regiões da Alemanha (68,4%) e de outros países europeus (29,6%). De acordo com o seu autor, esta coleção tinha como principal objetivo o ensino e o estudo autónomo, mantendo-se, atualmente, como um potencial recurso didático a ser utilizado no ensino da petrografia, ao nível do ensino superior. No final do século XIX, início do século XX, destaca-se, no ensino da Mineralogia e Petrologia, na UC, o Doutor António José Gonçalves Guimarães, professor catedrático desta Universidade, de 1880 a 1919. Foi responsável pela cadeira de «Mineralogia e Petrologia» durante 15 anos, ao que acresce a direção da Secção de Mineralogia e Geologia do Museu de História Natural, sendo-lhe atribuída a aquisição de 115 numerosas coleções didáticas e equipamentos, que constituem, presentemente, um espólio valioso do Museu de História Natural da Universidade de Coimbra. A introdução da petrografia microscópica, como disciplina essencial da Mineralogia e Petrologia, na Faculdade de Filosofia e, em 1911, na Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra, decorre em linha com outras instituições de ensino superior da Europa e sucede aos avanços técnicos e científicos da primeira metade do século XIX, em especial do advento do microscópio de polarização. Até aos anos 70 do século XX, a Petrografia, realizada ao microscópio petrográfico, constituía a base de trabalhos de investigação nas áreas da Mineralogia e Petrologia. O estudo de lâminas delgadas ao microscópio de polarização é uma tarefa essencialmente descritiva, exigente do ponto de vista do treino de rotinas na identificação das propriedades óticas dos minerais, que contribuem para a sua identificação. A aprendizagem dessas rotinas seria, certamente, aliciante para os alunos universitários no final do século XIX e início do século XX. No entanto, constitui um enorme desafio para os docentes das disciplinas de Mineralogia e Petrologia do século XXI. Urge criar estratégias inovadoras no ensino da Petrografia, porventura valorizando o seu papel abrangente e o seu carácter interdisciplinar. 7. Referências bibliográficas Baptista, M. T. (2000). Gabinete de História Natural. In O Gabinete de História Natural/Revivências (9-17). Coimbra: Museu de História Natural, Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade de Coimbra. Baptista, M. T. (2010). O Gabinete de História Natural da Universidade de Coimbra. In Coleções e museus de Geologia: missão e gestão (51-60). Coimbra: Centro de História e Filosofia da Ciência da Universidade de Évora & Museu Mineralógico e Geológico da Universidade de Coimbra. Barjona, M. J. (1798). Metallurgiae elementa, quae amplissimi philosophici ordinis iussu ad usum academicum / elucubravit. Coimbra: Tipografia Académica. 116 Barjona, M. J. (1823). Taboas mineralogicas. 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Fotomicrografias de lâminas delgadas da coleção: (a) lâmina 11, granito, Finlândia; (b) lâmina 61, troctólito, Alemanha; (c) lâmina 77, lherzólito, França; lâmina 95, bostonito, Estados Unidos. 120 Tabela 1. Organização, em grupos e subgrupos, da coleção Krantz de lâminas delgadas. I. Rochas plutónicas a. Rochas graníticas b. Rochas sieníticas c. Rochas sieníticas com nefelina e leucite d. Rochas dioríticas e. Rochas gabroides f. Peridotito e rochas piroxénicas g. Teralito II. Rochas filonianas a. Pórfiros graníticos b. Aplitos e pegmatitos c. Rochas lamprofíricas III. Rochas extrusivas A.1. Liparito e pantelerito B.1. Quartzopórfiro e quartzokeratófiro A.2. Traquito B.2. Pórfiro sem quartzo A.3. Rochas fonolíticas A.4. Dacito A.5. Andesito B.3. Rochas porfiríticas A.6. Basalto B.4. Meláfiro B.5. Rochas diabásicas B.6. Picrito e picrito porfirítico A.7. Tefrito e basanito A.8. Rochas com leucite A.9. Rochas com nefelina A.10. Melilitobasalto A.11. Limburgito e augitito Tabela 2. Histórico das disciplinas e respetivos docentes, na faculdade de Filosofia e na Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra, de 1877 a 1921 (Universidade de Coimbra, 1878-1921). 121 Perder imagens do Passado? nem a feiJões! eXPosição d e Quadros Parietais n o âmBito d e 2016 – an o i nternaCional da s l eguminosas learning with images from the Pa s t : eXhiBition o f Parietal C a n va s i n 2 0 16 – international y ear o f P ulses Ana Rita Coelho Gomes Escola de Ciências da Universidade do Minho Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto STOL – Science Through Our Lives 0000-0001-5284-6081 Paula Ramos Nogueira STOL – Science Through Our Lives Instituto de Investigação Interdisciplinar da Universidade de Coimbra 0000-0003-1552-8054, Alexandra Nobre3 0000-0002-7359-4503 Escola de Ciências da Universidade do Minho STOL – Science Through Our Lives [email protected] 128 1.3. Escolha do tema da exposição A escolha de um tema para uma exposição é um ponto-chave para o seu êxito, na medida em que a sua pertinência deve ser expressiva para o público-alvo. Neste caso particular optou-se por contemplar as leguminosas como forma de celebrar 2016 – Ano Internacional das Leguminosas (AIL) (em inglês The International Year of Pulses – IYP), decretado pela ONU (Organização das Nações Unidas). Leguminosas no sentido de família Leguminosae ou Fabaceae refere-se à terceira maior família da botânica, de ampla distribuição geográfica e com mais de 700 espécies, em que o fruto em forma de vagem é uma característica exclusiva. Algumas espécies podem ser consumidas ainda sem amadurecer, outras são consumidas secas. Pulses é a palavra inglesa para leguminosas secas de grão, as que efetivamente se comemoram em 2016 e que contemplam por exemplo o feijão, a ervilha, a lentilha, a fava e o grão-de-bico. No entanto, esta exposição abrange também outros exemplares da família Leguminosae, bem como alguns aspetos interessantes de algum modo relacionados com estas plantas como por exemplo: a composição nutricional das sementes, as experiências de genética clássica de Mendel utilizando ervilhas, os parasitas que lhes podem causar doenças, as aves granívoras que delas se podem alimentar, ou mesmo a associação simbiótica que estabelecem com bactérias a nível das raízes. O principal propósito desta exposição foi, em paralelo com a divulgação do espólio fascinante de quadros parietais da ESSM, educar para a cidadania, nomeadamente alertando para os diversos benefícios das leguminosas (em especial as leguminosas secas de grão), tanto a nível de saúde pessoal, como de sustentabilidade ambiental. Algumas das suas características mais importantes consistem no facto dos seus grãos serem ricos em fibras, e de constituírem uma considerável fonte de proteína e de energia. As leguminosas 129 devem representar cerca de 5 e de 10% da dose diária recomendada (DDR) de energia e de proteína, respetivamente (IYP, 2015). Para além disso, as leguminosas contêm quantidades significativas de outros nutrientes essenciais tais como cálcio, ferro e lisina. Acresce a todos estes benefícios o facto de serem acessíveis do ponto de vista económico, logo ao alcance da generalidade da população. 2. O germinar da ideia 2.1. O museu e os recursos museológicos escolhidos para a exposição O museu da ESSM engloba uma coleção de material didático e científico, das mais variadas áreas do conhecimento, desde as Ciências às Línguas (Lopes, 2015) que reflete a evolução histórica do Liceu. Os objetos provêm maioritariamente dos seus Gabinetes de História Natural, de Físico-Química e de Geografia, e contém também itens que remontam ao antigo Colégio do Espírito Santo que funcionou, entre 1872 e 1910, nas antigas instalações da atual ESSM (Lopes, 2015)1. Neste espólio constam, entre outros objetos, livros e 1 Em Portugal, os liceus foram criados pelo Decreto-Lei de 17 de novembro de 1836, documento que se destinava a um plano de criação e de instalação dos liceus nacionais, de inspiração francesa, e que visavam reformar e modernizar os estudos secundários. Esta reforma propunha a instalação dos liceus nas capitais de distrito, constituindo a primeira rede escolar deste tipo de equipamentos de ensino. Foram criados 18 liceus nesta altura (Alfarela, 2007), nomeadamente o Liceu Nacional de Braga. Na verdade, a falta de local e de recursos financeiros levou a que o arcebispo de Braga, D. Pedro Paulo de Figueiredo da Cunha e Melo, emprestasse parte do Seminário de S. Pedro para se poderem realizar as aulas do Liceu (Soares, 2015). Foi assim que nasceu em Braga o ensino liceal e, que devido ao seu crescimento, foi transferido no ano letivo de 1921-1922, para as instalações do antigo Colégio do Espírito Santo. Durante o Estado Novo foram feitas intervenções para aumento das instalações, justificadas pelo crescente número de alunos. Mais tarde, com a revolução de 25 de abril de 1974, ocorreram grandes alterações na estrutura dos cursos, nos objetivos da formação dos alunos e nas práticas pedagógicas. Nasceu 130 manuais escolares, animais taxidermizados, herbários, instrumentos científicos, esqueletos e modelos anatómicos e ainda, uma coleção muito numerosa de quadros e mapas parietais. Na verdade, existem cerca de 1200 quadros parietais no arquivo da ESSM, sendo que a sua maioria pertence às áreas da Biologia e das Línguas2 e é proveniente da Alemanha e França, (embora também de Itália, Inglaterra e mesmo de Portugal, apesar de escassos). Depois de uma análise pormenorizada ao catálogo e posterior visita ao arquivo da ESSM para inferir a adequação do seu estado de conservação, foram escolhidos dezoito quadros parietais que ilustram diferentes aspetos do assunto escolhido, as leguminosas. Dois deles, com o título Pisum sativum e com a descrição “A ervilha. Hereditariedade Leis de Mendel. Genética da herança sexual”, pertencem à coleção “Hereditariedade – Leis de Mendel” – Uitgave J. Verhave, Hilversum3 (Fig. 1). A informação que veiculam de um modo bastante visual (e de certo modo esquemático) remete à Genética Clássica e aos trabalhos de Gregor Mendel sobre hereditariedade, desenvolvidos em meados do século XIX. Mais concretamente, os quadros parietais ilustram a segregação dos carateres puros na descendência, quer em casos de monohibridismo (cor da semente), quer de dihibridismo (cor da semente e estrutura lisa/ então a Escola Secundária de Sá de Miranda (ESSM), que entretanto sofreu novas alterações aquando da intervenção da empresa pública «Parque Escolar» entre os anos de 2007 e 2010, nomeadamente a nível da restauração e modernização das salas de aula e do teatro. Atualmente, a ESSM é um Agrupamento de Escolas e dele fazem parte: dois Jardins de Infância; oito Escolas de 1º ciclo; e duas Escolas de 2º e 3º Ciclos sendo que uma delas, a ESSM, possuí também ensino secundário e profissional. 2 Todos os quadros foram catalogados e organizados por coleções pela arquivista Catarina Oliveira, delegada pelo Ministério da Educação para a prossecução desta tarefa. 3 As ilustrações desta coleção foram criadas por Uitgave J. Verhave em 1964, enquanto esteve em Hilversum na Holanda, não havendo qualquer referência a esta editora após este período. 131 rugosa), um tópico incontornável nos programas de Biologia até aos nossos dias. 136  Verhave, Hilversum4 (Fig. 1). A informação que veiculam de um modo bastante visual (e de certo modo esquemático) remete à Genética Clássica e aos trabalhos de Gregor Mendel sobre hereditariedade, desenvolvidos em meados do século XIX. Mais concretamente, os quadros parietais ilustram a segregação dos carateres puros na descendência, quer em casos de monohibridismo (cor da semente), quer de dihibridismo (cor da semente e estrutura lisa/rugosa), um tópico incontornável nos programas de Biologia até aos nossos dias. Figura 1 - Quadros parietais representativos das leis de Mendel da herança sexual. Pisum sativum [Quadros parietais de Biologia] 0,97m x 0,74m, coleção da Escola Sá de Miranda. Outros quatro quadros parietais apresentam plantas representativas da família Leguminosae (também conhecida por Fabaceae), mas não  4 As ilustrações desta coleção foram criadas por Uitgave J. Verhave em 1964, enquanto esteve em Hilversum na Holanda, não havendo qualquer referência a esta editora após este período. Figura 1 – Quadros parietais representativos das leis de Mendel da herança sexual. Pisum sativum [Quadros parietais de Biologia] 0,97m x 0,74m, coleção da Escola Sá de Miranda. Outros quatro quadros parietais apresentam plantas representativas da família Leguminosae (também conhecida por Fabaceae), mas não das leguminosas secas de grão que se comemoram em 2016 de acordo com o decretado pela ONU (Fig. 2). 132 137  das leguminosas secas de grão que se comemoram em 2016 de acordo com o decretado pela ONU (Fig. 2). A B C D Figura 2 - Quadros parietais de diferentes plantas representativas da família Leguminosae. (A) Arachis hypogaea, (B) Haematoxylon campecheanum, (C) Senegalia senegal, (D) Adonsonia digitata L. [Quadros parietais de Biologia], coleção da Escola Sá de Miranda. Foram escolhidos pelo seu cariz didático já que são bons exemplos de plantas cujo fruto é uma vagem (e consequentemente são leguminosas) como é o caso do amendoim (Fig. 2A), mas que no senso comum não são imediatamente associadas a este grupo taxonómico. Estes quadros de origem alemã pertencem à coleção Figura 2 – Quadros parietais de diferentes plantas representativas da família Leguminosae. (A) Arachis hypogaea, (B) Haematoxylon campecheanum, (C) Senegalia senegal, (D) Adonsonia digitata L. [Quadros parietais de Biologia], coleção da Escola Sá de Miranda. Foram escolhidos pelo seu cariz didático já que são bons exemplos de plantas cujo fruto é uma vagem (e consequentemente são leguminosas) como é o caso do amendoim (Fig. 2A), mas que no senso comum não são imediatamente associadas a este grupo taxonómico. Estes quadros de origem alemã pertencem à coleção Zippel-Otto Thomé4, estão associados à descrição “Plantas de cultura 4 Entre 1876 e 1899, o botânico alemão Hermann Zippel (e mais tarde Otto Wilhelm Thomé) e o ilustrador Carl Bollmann produziram um elevado número de quadros parietais educacionais sobre plantas de culturas estrangeiras, Estes quadros 133 estrangeira, em quadros parietais coloridos. A planta, sua estrutura e características” e foram oferecidos pela Direção Geral do Ensino Liceal em agosto de 1936. Um outro quadro parietal também selecionado para a exposição apresenta a anatomia vegetal (mais concretamente a nível estrutura do caule e da raiz) pondo em destaque a diferença entre plantas monocotiledóneas e dicotiledóneas e pertence à coleção “Antonio Vallardi – Botânica”5, de origem italiana (Fig. 3). Este quadro, apesar de não ser muito apelativo do ponto de vista cromático, tem um carácter didático importante, nomeadamente como auxiliar de legendagem de imagens obtidas por observação de cortes histológicos ao microscópio ótico. Num quadro também escolhido do espólio para figurar na exposição estão ilustradas as doenças que os coleópteros podem causar nas cultivares agrícolas, nomeadamente em ervilheiras e faveiras, bem como os efeitos observáveis na sua parte área (Fig. 4). Este quadro que permite relacionar zoologia e botânica, e remete para as relações de parasitismo entre seres vivos, pertence à coleção Meinhold6 e foi enviado pela Junta Administrativa do Empréstimo para o Ensino Secundário. mostraram plantas que na época eram consideradas culturas exóticas ou que não tinham origem da europeia. Esta série de quadros com cerca de 24 exemplares foi publicada pela Friedrich Vieweg & Sohn, em Braunschweig, Alemanha, em quatro edições entre 1876 e 1906 (Irenaeus Kraus, 2015). 5 A editora Vallardi foi fundada em 1750 quando a família Vallardi comprou uma empresa de artesanato em Milão. Em meados do sec XIX a editora foi distinguida por diversas obras artísticas, geográficas, científicas e religiosas. Mais tarde esta editora especializou-se na publicação de manuais, atlas geográficos e materiais educacionais, tornando-se numa imponente editora na Itália e por toda a Europa. Hoje em dia, a editora continua a dedicar-se à publicação de obras no domínio do conhecimento, história, literatura e ciências (Regione Lombardia, 2018). 6 A editora Meinhold-Verlag foi fundada em janeiro de 1777 por Carl Christian Meinhold e existiu até 1946. 134 Figura 3 – Quadro parietal representativo da estrutura da raiz e do caule de plantas monocotiledóneas e dicitiledóneas. Fusto e radice 0,67m x 0,98m [Quadros parietais de Biologia], coleção da Escola Sá de Miranda. Existem ainda dois quadros alusivos às bactérias de solo (Fig. 5). Estes foram escolhidos por remeterem para um aspeto muito importante das leguminosas secas de grão, que é o facto de estas estabelecerem importantes relações de simbiose com certas bactérias fixadoras de nitrogénio atmosférico que lhes permite aumentar a sua quantidade circulante na planta. Na verdade, esta característica importantíssima no ciclo biogeoquímico do nitrogénio é comum a todas as leguminosas. Estes dois quadros pertencem à coleção Dr. Tauber7 e foram doados pela Direção Geral do Ensino Liceal, em 20.08.1936, ao Liceu Nacional Sá de Miranda. 7 As autoras não encontraram informação sobre esta coleção. 135 Figura 4 – Quadro parietal representando alguns coleópteros causadores de doenças em cultivares agrícolas, bem como os efeitos visíveis nas mesmas. [Quadro parietal de Biologia], coleção da Escola Sá de Miranda. Figura 5 – Quadros parietais representando diferentes bactérias da microflora do solo, bem como ilustrando a relação que algumas estabelecem com as raízes de plantas leguminosas. Bactérias I e II 0,63m x 0,88m [Quadros parietais de Biologia], coleção da Escola Sá de Miranda. Passando agora para uma área do conhecimento completamente diferente, e de forma a mostrar os benefícios das leguminosas em termos alimentares, foram escolhidos cinco quadros da coleção “Kat”8, de origem alemã, que referem os valores nutricionais de vários alimentos, entre eles as leguminosas secas de grão (Fig. 6). Um pormenor curioso é o do quadro da figura 6C estar cataloga8 As autoras não encontraram informação sobre esta coleção. 136 do como pertencente a esta coleção, mas apresentar o texto em francês. Na verdade poderá tratar-se de uma edição traduzida que acontecia frequentemente quando determinado recurso se tornava muito procurado. Figura 6 – Quadros parietais que veiculam informação diversa relacionada com a alimentação. A saber: (A) Proteínas e teor de água de vários alimentos (B) Calorias e teor de hidratos de carbono de vários alimentos. (C) Proporção de substâncias complementares nos alimentos II (D) Tempo de digestão de uma refeição no estômago e (E) Composição e valor nutricional dos alimentos mais importantes. 0,90m x 0,73m [Quadros parietais de Biologia], coleção da Escola Sá de Miranda. 137 Há ainda um quadro representativo da ervilheira (visão geral e pormenores) da coleção Jung-Koch-Quentell9 – Botânica 1928 (Fig. 7). Este quadro descreve os aspetos anatómicos e morfológicos da parte aérea da planta, flor, fruto e sementes em detalhes impressionantes e de enorme beleza estética, razão pela qual foi selecionado para ilustrar o panfleto de apoio à exposição. Figura 7 – Quadro parietal representativo da ervilheira (visão geral e pormenores). Pisum sativum. 0,90m x 1,12m [Quadros parietais de Biologia], coleção da Escola Sá de Miranda. E, por fim, temos os dois últimos quadros: um que representa a ervilheira de cheiro (Fig. 8) da coleção Balslev-Warming10, e outro elucidativo da germinação do feijão, pertencente à coleção da Casa Deyrolle11 (Fig. 9) cujo autor é M. Gaston Bonnier, professor da 9 Nos finais do século XIX Heinrich Jung, Gottfried Von Koch e Friedrich Quentell criaram uma série de quadros parietais de botânica. Foram publicados em 1891 pela editora Hangemann que ainda hoje imprime estes quadros, sendo que a maioria do trabalho é feito artesanalmente. 10 Este quadro parietal foi criado pelos botânicos dinamarqueses E. Warming e V. Balslev na década de 50 do século passado. 11 A Casa Deyrolle fundada em 1831 em Paris é a maior casa especializada em taxidermia, uma forma de conservação de animais vertebrados tendo em vista a criação de coleções científicas ou a conservação de espécimes ameaçados de extinção. 144 por aproveitar a estreita ligação que os jovens mantêm com os telemóveis, ao invés de os proibir em contextos de ensino, propomos possíveis estratégias a desenvolver em museus de ciências naturais, capazes de responderem a estas questões prementes. Pretendemos reavivar os objetivos históricos destes museus, através da utilização de apps educativas para telemóveis de última geração e apresentar estratégias que aproximem os museus às escolas e à respetiva comunidade escolar. Deste modo, procura-se potenciar o valor educativo do material disponibilizado pelos museus que, por norma, apenas está acessível às escolas nas páginas dos manuais escolares. Palavras-chave: Ensino não-formal, Gamificação, História dos museus, M-learning Abstract: Are natural sciences museums prepared to teach curricular contents of science, Biology and Geology, of the 3rd Cycle and Secondary Education? Choosing to take advantage of the close connection that young people maintain with smartphones, instead of prohibiting them in educational contexts, we propose possible strategies to be developed in museums of natural sciences, capable of answering these pressing questions. We intend to revive the historical goals of these museums, by using educational apps built for the latest smartphones, and presenting strategies that brings museums closer to school’s community. Thus, we sought to enhance the educational value of the material made available by the natural science museums that, in general, is only accessible to schools in the textbooks pages. Keywords: Gamification, Museums History, M-learning, Nonformal education 145 1. Introdução Ao longo deste artigo pretendemos rever a origem e história dos museus no mundo (2.) e em Portugal (3.), compreender um pouco melhor o modo como a escola e os museus podem colaborar (4.), introduzindo possíveis estratégias de M-learning (4.1.), como a gamificação (4.1.1.). Os museus possuem, presentemente, uma identidade multifacetada que reflete preocupações ao nível da instrução, do turismo e da regulação de comportamentos e rotinas sociais, estabelecendo relações entre aspetos culturais e políticos da própria governação (Bennet, 1995). Contudo, a história dos museus tem uma origem etimológica distinta da visão moderna dos museus. De facto, o termo “museu” provém da latinização da palavra grega mouseion, um termo empregado para nomear um local ou templo dedicado às Musas1. A estas nove entidades da mitologia grega, referidas pela primeira vez nos trabalhos de Homero e Hesíodo, que as louvam no início das suas obras poéticas pela dádiva da inspiração, memória e conhecimento, era atribuída o dom de inspirar a criatividade artística ou científica (Hard, 2004; Kaufman et al., 2009; Lewis, 2011). 1 A musa Calíope (que significa bela voz) inspirava a ciência em geral e a eloquência da poesia épica e era representada por uma tabuleta e buril; Clio ou Kleio (proclamadora) inspirava o conhecimento da História e tinha como símbolo um pergaminho parcialmente aberto; Erato (a amável) musa da poesia romântica era apresentada com uma pequena lira; Euterpe (doadora de prazeres) era a patrona da música e da poesia lírica e ostentava uma flauta; Melpômene (a poetisa) era a musa da Tragédia sendo representada com uma máscara trágica, uma grinalda e uma clava; Polímnia ou Polyhymnia (a de muitos hinos) inspirava a poesia sagrada e a música cerimonial ou sacra e era exibida como uma figura velada; Tália ou Thaleia (que faz brotar flores) inspirava a comédia e a poesia pastoral sendo representada com uma máscara cómica e uma coroa de hera ou um bastão; Terpsícore (a rodopiante) era a patrona da dança e do canto coral e possuía uma lira e plectro; e Urânia (a celestial) tida como inspiradora do conhecimento da Astronomia, que naquela época permanecia associada à Astrologia, era representada com um globo celestial e um compasso. 146 Curiosamente, as musas eram, de acordo com a respetiva estória mitológica, filhas de Zeus e da titânide Mnemósine (Memória), o que pode ser interpretado como a memória do conhecimento, que a humanidade foi adquirindo ao longo da sua história, a inspirar as diferentes artes e a ciência. Em última análise, deverá ser exatamente esta a principal missão dos museus modernos. De referir, porém, que no poema do poeta grego Álcman, do século VII a.C., é atribuída uma genologia alternativa às Musas, criando uma origem mais antiga para estas divindades da mitologia grega, como filhas de Ouranos ou Urano, o deus do céu, e Gaia, a deusa da Terra, sendo consideradas, nesta versão, irmãs e não filhas de Mnemósine. Estas duas versões são reconciliadas por alguns autores, que defendem a existência de duas gerações de Musas (Hard, 2004). Enquanto na Grécia Antiga a palavra mouseion, como já foi referido, designava templos dedicados às musas e tinha, portanto, um propósito centrado na contemplação religiosa, no Antigo Egito o termo foi aplicado para nomear o Mouseion de Alexandria (ou o Grande Museu de Alexandria) fundado pelo rei do Egito Ptolomeu I Sóter (366-283 a.C.) no início do século III a.C.. Tendo funcionado como um colégio de estudiosos, era constituído por um observatório, um jardim botânico, um zoológico e pela famosa biblioteca de Alexandria. Facilmente se percebe, por estes motivos, que presentemente esta instituição da antiguidade seja percecionada sobretudo como um protótipo de universidade, da qual a preservação e interpretação dos objetos constituintes das suas coleções era apenas um aspeto. De facto, e apesar do seu principal propósito continuar envolto em incertezas, parece clara a existência de uma vasta coleção eclética recolhida com intuitos de investigação, divulgação e ensino das artes e da ciência. Ainda neste período, foi na Roma Antiga, provavelmente durante o Império Romano, que a versão latinizada da palavra mouseion deu origem ao vocábulo “museu”, tendo sido 147 igualmente empregue, neste contexto, para indicar locais cuja índole principal era a discussão filosófica (Demas, 2005; Lewis, 2011). 2. A História dos Museus A aproximação do conceito de museu à aquisição, preservação e interpretação de objetos começou a ser consolidada, presumivelmente, com as coleções de Aristóteles e do seu discípulo Teófrasto, iniciadas por volta da metade do século IV a.C., durante as viagens destes filósofos à ilha grega de Lesbos, localizada no nordeste do mar Egeu. A recolha, estudo e classificação de espécimes botânicos esteve na origem da metodologia empírica formulada por Aristóteles, permitindo-lhe, posteriormente, fundar o seu Lyceum, onde criou uma comunidade de estudiosos em áreas como biologia e história. Esta instituição era constituída também por um mouseion o que, provavelmente, deu início à associação deste termo com a investigação académica. Aliás, o próprio Ptolomeu I Sóter escolheu, para organizar o Mouseion de Alexandria, Demétrio de Faleros, herdeiro da lógica aristotélica e aluno de Teófrasto, que por sua vez havia sucedido a Aristóteles na liderança do seu Lyceum. De acordo com as instruções de Ptlomeu I Sóter, Demétrio recolheu, entre outras iniciativas, mais de 200000 pergaminhos para a biblioteca do Mouseion de Alexandria, que chegaria a ultrapassar os 700000 pergaminhos durante o século I a.C., com o intuito de construir uma coleção universal a ser utilizada para a construção de conhecimento (Abt, 2006; Bales, 2009). Na realidade, a tendência humana para adquirir, preservar e interpretar, conceitos que construíram o museu em termos históricos, antecede, numa grande escala temporal, a origem da própria palavra. Indícios que remontam pelo menos até ao paleolítico, como é o exemplo das coleções de artefactos líticos, de pele, de ossos 148 de animais e de conchas do mar, encontradas em túmulos desse período, comprovam exatamente o quão importante, identificador e construtor da nossa identidade individual e coletiva foi a preservação de objetos em coleções. Outra importante contribuição das coleções reside no seu potencial instrutivo, seja antes da invenção da escrita, como no caso das gravuras do paleolítico encontradas em diversos locais, um pouco por todo o mundo, como por exemplo no vale do Côa, Portugal, na Caverna de Chauvet, França, no complexo de cavernas Laas Geel, Somália, no Planalto de Cumberland, Tennessee, Estados Unidos da América, ou após a invenção dos primeiros alfabetos, como no caso da escrita cuneiforme dos sumérios, encontrada, por exemplo, nas tabuletas do segundo milénio a.C. descobertas nas ruínas de Larsa, uma cidade da antiga Suméria, na Mesopotâmia, ou os hieróglifos egípcios (Valladas et al., 2001; Almeida et al., 2004; Mayer et al., 2009; Lewis, 2011; Simek et al., 2013; Gutherz et al., 2014). Deste modo, verifica-se a existência de registos de coleções em diversos locais do mundo, provenientes de diferentes épocas, constituídos por objetos aos quais foram sendo atribuídos um valor religioso, mágico, económico, estético educativo ou histórico. Da Roma Antiga, com as coleções de arte expostas, inclusive, em locais públicos, à China, com, por exemplo, as coleções das casas imperiais iniciadas, pelo menos, com a Dinastia Shang (XVI a.C. a XI a.C.), passando pelas coleções de relíquias religiosas da África, Europa e Médio Oriente, a que estava mais perto do conceito atual de museu era a coleção da Pinacoteca na Acrópole de Atenas da Grécia Antiga (do grego pinakotheke e que deriva da palavra pinakes referente a tabuletas pintadas). Esta era uma das salas, ou neste caso galeria, do edifício Propileu, construído no século V a.C. na entrada da Acrópole de Atenas, e abrigava pinturas que homenageavam os deuses. O termo também foi utilizado na Roma Antiga, para denominar as divisões nas casas privadas romanas, mas geralmente abertas ao 149 público, que expunham nas suas paredes pinturas e frescos móveis (Abt, 2006; Lewis, 2011). Durante o período renascentista, a Europa em geral e a península itálica em particular, foram fortemente influenciadas pela redescoberta do valor artístico e científico da antiguidade clássica greco-romana e pelos textos de diferentes sábios de nações do médio-oriente e do oriente, trazidos para a europa por intermédio das rotas comerciais que se iam estabelecendo entre estas regiões. É neste contexto que a palavra “museu” é recuperada, na cidade- -estado de Florença, um dos principais centros do Renascimento, para descrever, de modo amplo, a coleção estabelecida por Lorenzo de’ Medici. Nos dois séculos seguintes a palavra estabelece-se um pouco por toda a Europa, sendo utilizada no século XVII para descrever as coleções dos gabinetes de curiosidades. Entre as coleções mais famosas, às quais não só foram dadas essa denominação como ainda tiveram um papel importante na formação de museus modernos, estão incluídas as de Ole Worm (1588-1654), Jonh Tradescant (1608-1662), Hans Sloane (1660 – 1753) e James Smithson (1765-1829) (Da Costa, 2002; Brandão, 2008; Lewis, 2011; Romero-Reverón & Arráez-Aybar, 2015). Ole Worm, nascido em Aarhuus, Dinamarca, além de médico, professor e reitor na Universidade de Copenhaga, estabeleceu, entre 1620 e 1654, uma coleção, inicialmente focada em amostras de minerais e, posteriormente, em animais, plantas e objetos criados pelo ser humano. Enquanto professor utilizou diversos elementos constituintes da sua coleção em aulas de Física e para destronar algumas especulações populares da época, por exemplo a ideia da existência de chifres de unicórnios, que na realidade eram o dente canino característico dos narvais. Após a sua morte foi publicada uma obra da sua autoria, na qual grande parte da sua coleção é descrita detalhadamente e complementada com mais de cem ilustrações dos objetos descritos. Esta coleção foi comprada pelo rei 150 Frederico III da Dinamarca e incorporada na Royal Kunstkammer, uma coleção cujos elementos constituintes foram, após 1825, redistribuídos por diversos museus especializados, como o Museu Nacional da Dinamarca, onde alguns dos seus objetos ainda se encontram expostos (Romero-Reverón & Arráez-Aybar, 2015). No caso de Jonh Tradescant, que continua o trabalho do pai (seu homónimo), desenvolve uma coleção de espécimes raros de plantas, no jardim da sua casa em Lambeth (atualmente um bairro em Londres), bem como objetos de arte e curiosidades naturais, exibidos no mesmo local, intitulado The Ark (em português A Arca). A coleção destacava-se pela raridade dos seus objetos, como por exemplo espécimes de dodós e outras aves exóticas, globalmente reconhecidos como um importante recurso na investigação científica da época, em Inglaterra. Um catálogo desta coleção foi preparado por Elias Ashmole (1617-1692), com a assistência de Dr. Thomas Wharton e publicado em 1656, sobre o título Musaeum Tradescantianum, tendo Jonh Tradescant doado a coleção a Ashmole sob a condição desta permanecer na confiança de Jonh Tradescant ou da sua mulher enquanto fossem vivos. Após ter adquirido posse da coleção, Elias Ashmole propôs a sua doação à Universidade de Oxford, em 1677, conduzindo à formação do Museu Ashmolean aberto ao público em 1683, num edifício construído de propósito para a receber (Josten, 1960; MacGregor, 2001; Lewis, 2011). Hans Sloane (1660-1753), de ascendência escocesa, nasceu na Irlanda do Norte e é considerado o pai do British Museum, devido à sua coleção que serviu de base à formação do museu. Colecionista e naturalista, características que lhe foram reconhecidas ainda em criança, exerceu a profissão de médico, tendo aceitado a oferta do Duque de Albemarle, Governador da Jamaica, para se tornar o seu médico pessoal. Após a morte do Duque, 18 meses após a sua chegada à ilha, teve oportunidade de recolher espécimes daquela ilha para a sua coleção privada, antes de regressar a Inglaterra. Além de 151 se ter tornado um médico conceituado na alta sociedade, tornou-se membro da Royal Society, tendo inclusive sido primeiro secretário e presidente da mesma, sucedendo a Isaac Newton, em 1727. Hans Sloane continuou, ao longo da sua vida, a aumentar a sua coleção, que além de objetos de história natural incluía ainda livros, manuscritos, moedas, medalhas e pinturas. Legou a coleção ao estado, por um preço inferior ao real valor, após a sua morte em 1753, que se tornou o núcleo do British Museum, aberto ao público em 1759. Igualmente importantes na criação deste museu foram as coleções de Robert Cotton e Robert Harley, compostas maioritariamente por manuscritos (Edwards, 1870; Ultee, 1988; Hawkins, 2010; Mendes, 2013). James Smithson (1765-1829) foi um químico e mineralogista inglês do final do século XVIII e início do século XIX. Legou a sua coleção e dinheiro ao governo dos Estados Unidos da América com o intuito de criar uma instituição que aumentasse e difundisse o conhecimento. Em 1846 o Congresso desta nação, após um intenso debate político sobre a melhor forma de aplicar os fundos e sobre o que significa aumentar e difundir conhecimento, aprovou a legislação que criou o Instituto Smithsonian, em Washington, D.C., conduzindo à formação do primeiro dos seus muitos museus, o Museu Nacional dos Estados Unidos da América (EUA). Este abriu em 1858, integrado no programa científico do Smithsonian, que desde cedo se estabeleceu como o principal auxiliar da ciência e da educação nos Estados Unidos da América, continuando assim a cumprir a visão original de James Smithson até aos nossos dias (Melber & Abraham, 2002; Childs, 2011; Lewis, 2011). Estes colecionadores, entre outros, continuaram, portanto, a herança dos renascentistas italianos, que iniciaram as primeiras grandes coleções, geralmente associados a famílias mercantis, bancárias e da alta nobreza, motivados por fazer renascer a herança clássica da antiguidade romana e grega. Famílias, como a Medici de Florença, produziram coleções impressionantes de antiguidades, destacando-se 152 a coleção iniciada por Cosimo de Medici, no século XV, desenvolvida pelos seus descendentes e legada ao estado, com o intuito de a tornar disponível para o público, em 1743. Aliás, já durante o século XVI, vários palácios, como o Uffizi, tinham aberto espaços para o público geral e turistas verem as coleções, geralmente relacionadas com arte (Abt, 2006; Lewis, 2011). Durante o mesmo período, esta tendência foi emulada por várias casas reais por toda a Europa, que ainda contribuíram com o patronato de cientistas e artistas, conduzindo à criação de coleções pessoais especializadas, particularmente de História Natural, Arqueologia e História, e de Sociedades eruditas como a Royal Society em Londres (1660) e a Academia de Ciências em Paris (1666). Várias destas coleções, que no devido tempo encontraram o seu caminho para museus, tiveram catálogos publicados que refletiam um espírito de investigação racional, que começava a surgir na Europa e que promovia a classificação sistemática do mundo natural. Deste modo, este período assistiu à transição das coleções privadas para as exposições públicas, das coleções como símbolos de prestígio social e económico para o interesse científico associado ao entretenimento, de um número reduzido de colecionadores para um grupo mais amplo, contribuindo para avanços no conhecimento, na continuidade das coleções e da sua acessibilidade à comunidade científica e público geral (Lewis, 2011). De referir que durante esta fase de transição, a distinção entre museus, a extensa e heterogénea rede de colecionadores privados e os comerciantes de raridades deste período era incerta, com um grande número de objetos a serem transferidos entre estes agentes, como as casas de leilões que serviam de locais de exposição do conhecimento natural da época, proporcionando um espaço para a resolução de ambiguidades na classificação e avaliação dos objetos e o respetivo registo dessa informação, através dos catálogos, e que chegaram até aos nossos dias (Alberti, 2005). 153 Dois dos marcos mais importantes do século XVIII, no que diz respeito à história dos museus, foram a formação e abertura, em 1753 (por ato do parlamento) e 1759, respetivamente, do British Museum, em Londres e, em 1793, do Louvre, em Paris, ainda atualmente dois dos mais importantes museus europeus. O desenvolvimento do Iluminismo e do espírito enciclopédico durante este século, conjuntamente com o maior interesse do público pelo exótico, foram determinantes para os governos destes dois países terem assumido a responsabilidade de adquirir, preservar e divulgar a ciência e a arte, contribuindo para um maior conhecimento científico e entretenimento. Outro fator decisivo por detrás destas decisões governamentais foram as alterações sociais e políticas registadas um pouco por toda a Europa, resultantes da industrialização e da revolução francesa, e consequentes invasões francesas. Outros países, como a Alemanha, a Itália, a Áustria, a Rússia, a Espanha e Portugal, implementaram diligências idênticas ao longo das décadas seguintes, geralmente associadas a um maior acesso do público geral às coleções da realeza europeia, num processo gradual. Assim, no século XVIII o conceito de museu estabeleceu-se como uma instituição que tem como objetivo preservar e divulgar as suas coleções para a comunidade científica e geral. Este modelo europeu de museu, ilustrado por Denis Diderot num esquema detalhado para um museu nacional para a França no Nono volume da sua Enciclopédia, publicado em 1765, foi transportado para outros continentes. Como exemplo temos, nos Estados Unidos o Peale Museum, em Filadélfia, em 1786, na Argentina o Museu Argentino de Ciências Naturais, Buenos Aires, em 1812, no Brasil o Museu Real do Rio de Janeiro, em 1818 (o primeiro museu português numa colónia), na África do Sul o museu baseado na coleção zoológica de Andrew Smith, Cidade do Cabo, em 1825, e na Austrália o Museu Sydney ou Museu Colonial, em 1827 (Abt, 2006; Lewis, 2011; Mendes, 2013). 256 Dos Index dos principais autores que escreveram o nascimento, criação, vida e propriedades do bicho-da-sedarealçamos a referência, que consideramos mais importante (pág. 72-73) (Bluteau, 1679): Cristóvão Isnardo (1665), que escreveu, em francês, sobre a cultura das amoreiras e a criação dos bichos-da-seda, mais clara, difusa e metodicamente, que todos os demais e por isso dele se tirou a maior parte das noticias que se encerram nos seguintes capítulos; a edição de 1728 (pág. 328) repete a bibliografia e a edição de 1769 ignora essa informação. Os Index dos capítulos estão indicados, respetivamente, da 1.ª para a 3.ª edições, nas páginas 79-86, 331-332 e 91-95, destacamos da edição de 1679: ... Como o fundamento principal da seda depende das amoreiras, esta rica árvore, cujas folhas servem de sustento aos bichos, será o assunto do primeiro capitulo deste Tratado. Duas sortes de amoreiras se conhecem, umas brancas e outras negras.... Ambas servem para alimentação dos bichos, mas as brancas são preferíveis porque são mais tenras, mais precoces (em 20 dias), mais fáceis de cultivar e a seda produzida é mais fina e de maior valor.... As suas folhas são o melhor alimento que a terra produz para o gado e o seu fruto o melhor que se conhece para sevar galinhas, frangos, capões e toda a sorte de aves. O Capitulo II. Varios modos de plantar as Amoreiras brancas, e pretas a páginas 86-89 (1.ª edição), 332-333 (2.ª edição) e 95-97 (3.ª edição), destaca-se da 1.ª edição: Há 4 modos de plantar as amoreiras brancas e pretas: semente tirada das amoras, por mergulho dos ramos, por estacas e ramos cortados e plantados em outro lugar e por enxerto de amoreiras brancas em pretas,... Dos seguintes capítulos, que se seguem nos três livros, não extraímos qualquer informação relevante, dado ser dedicada à cultura das amoreiras (estão indicadas dentro dos parenteses as páginas da 1.ª à 3.ª edições do livro):Capitulo III. Modo de transplantar as Amoreiras nascidas por semente (pág. 90-96, 333-334 e 98-101); Capitulo IV. 257 Modo de plantar as Amoreiras por mergulho (pág. 96-98, 334-335 e 101-103); Capitulo V. Modo de plantar as Amoreiras por estaca (pág. 99-101, 335-335 e 103-104); Capitulo VI. Modo de plantar as Amoreiras por enxerto (pág. 101-102, 335-335 e 104-105); Capitulo VII. Como se devem entreter as Amoreiras (pág. 103-116, 336-338 e 104-114) e Capitulo VIII. Modo de recolher a semente das arvores para as semear (pág. 117-130, 338-340 e 114-122). A Parte II. Contem o modo de criar os bichos, até tirar a seda O Capitulo I. Do lugar proprio para criar os bichos, em 1679 (pág. 131-137), em 1728 (pág. 341-342) e em 1769 (pág. 123-126): Para fazer uma copiosa criação de bichos-da-seda, deve-se preparar um lugar cómodo, em que se alimente 7 semanas que tem de vida, ao menos nos últimos 30 dias.... Convém que as câmaras, se for possível, tenham janelas umas defronte das outras, algumas ao meio dia, porque nos dias calmosos entre o ar livremente, mas também que tenham vidraças, ou encerados, porque nos dias tempestuosos e frios estejam abrigados. É necessário, que não haja nenhum mau cheiro e se preciso cerrar todos os buracos de ratos e impedir que não entrem na câmara galinhas, frangos ou pardais.... O Capitulo II. Regras para conhecer, e escolher os melhores grãos, e fazer sahir os bichos,em 1679 (pág. 137-140), em 1728 (pág. 342- -343 em 1769 (pág. 127-131): Os melhores grãos são os que vêm da Sicilia, do Levante e de Espanha, são pequenos, pardos escuros e muito redondos e para conhecer se estão mortos ou falsificados, se quebrará um entre as unhas e se laçar bem de humor luzente, é sinal de bondade.... No Capitulo III. Das mudas dos bichos, e como convemtratallos no tempo dellas é referido em 1679 (pág. 141-149), em 1728 (pág. 343-344) e em 1769 (pág. 131-135) que os bichos mudam, 4 vezes desde o nascimento até formar o casulo; em cada muda dormem 3 ou 4 dias e ficam como que imóveis ou doentes e não comem até 258 mudar as peles, o que se conhece quando parecem mais brancos e mais curtos do que eram.... O Capitulo IV. Modo de colher, e conservar as folhas das Amoreiras em 1679 (pág. 150-155), 1728 (pág. 345-345) e 1769 (pág. 135-138): as folhas das amoreiras devem colher-se após o Sol secar o orvalho, ou a água da chuva, em tempo chuvosos, porque aos bichos-da-seda nenhuma coisa lhes faz maior dano que as folhas molhadas do orvalho ou da chuva.,... O Capitulo V. Das doenças dos bichos da seda, e dos remedios, que se lhe pódemapplicar em 1679 (pág. 156-173), 1728 (pág. 346-349) e 1769 (pág. 138-149): Os bichos-da-seda estão sujeitos a 2 géneros de doenças, umas naturais e outras acidentais. As naturais são as 4 mudas,..., as suas doenças acidentais são causadas do rigor do tempo, da má qualidade da folha, da pouco sadia situação do lugar em que se criam, do mau trato que se lhes dá e do mau cheiro que os ofende,..., sinais de doenças são quando se fazem amarelos, quando incham, quando são luzidios ou quando têm nódoas, como de pisaduras, ou quando se acham molhados por baixo com humidade amarela e é necessário separar os doentes – porcas – dos são,... O Capitulo VI. Segredo para fazer nascer muitos bichos da seda sem semente, que daraõexcellentes grãos com abundancia em 1679 (pág. 173-177), 1728 (pág. 349-350) e 1769 (pág. 149-151): ver livros que apoiam ou contestam a teoria da geração espontânea apresentada por Rafael Bluteau. O Capitulo VII. Modo para fazer subir, e tecer os bichos da seda em 1679 (pág. 178-186), 1728 (pág. 350-351) e 1769 (pág. 152-157): O fazer a seda é tão natural aos bichos, que apenas saem da semente, quando começam a deitar do estamago um fiozinho de seda, e se bem repararmos veremos as casquinhas da semente pegadas uma com a outra com umas fendinhas quase impercetíveis a as folhas que ae deixam sobre a semente e o papel furado para obrigar os bichos 259 a sair também ficam pegados pela tecidura dos raminhos da seda que os bichos deixaram. ... O Capitulo VIII. Do tempo, em que os casulos se haõ de tirar da lenha em 1679 (pág. 186-187), 1728 (pág. 351-351) e 1769 (pág. 156-158): no primeiro dia, que o bicho começa a fiar, forma é sua anafaia, que é como uma teia de aranha, no segundo começa o seu casulo, e se cobre quase todo de seda, no terceiro não se vê já; nos seguintes vai isto espessando a sua obra, sem nunca quebrar o fio que é tão delgado, e juntamente tão comprido, que não é hipérbole dizer, que com um destes fios, se pode cingir uma grande cidade, porque tem quase duas léguas de comprimento. Suposto isto depois de 8 ou 10 dias tirarão com destreza os casulos da lenha, e os guardarão em cestos ou alcofas; darão algum tempo mais aos vagarosos, mas também não esperarão que os que foram mais diligentes na tecidura do seu casulo, o cheguem a furar porque seria uma grande perda para os que os criaram. Parte III Capitulo I. Como devem aparelhar os casulos, para delles tirar a seda, e conservallos muito tempo, e impedir, que as borboletas naõ os furem em 1679 (pág. 188-194), 1728 (pág. 352-353) e 1769 (pág. 159-162): e os que criaram os bichos, por falta de fiandeiras, ou pela abundância da novidade, não tiveram tempo, nem como tirar a seda dos casulos, 4 ou 5 dias depois que os casulos forem tirados dos ramos, porão os casulos ao sol, desde o meio-dia até às quatro horas da tarde, tornando-os a por, E tirar três dias sempre nas mesmas horas ver e por este modo os arredores do sol, afogarão os bichos nos seus casulos. Também poderão por em parte separada dos casulos, algumas mantas ao maior calor do sol, 4 ou 5 horas ao menos, e nestas mesmas mantas, e cobertores muito quentes, recolherão os casulos, e os cobrirão, porque com este calor abafadiço, os bichos morrem mais depressa... 260 Capitulo II. Como se devem escolher os casulos, e unir as borboletas, para que ponhaõ a semente em 1679 (pág. 194-203), 1728 (pág. 353-355) e 1769 (pág. 163-168): escolherão os casulos mais tesos e mais corados, porque as borboletas, que deles saem poem a melhor semente, não importa de que cor sejam os casulos, contanto que a cor seja viva e subida, porém, os de cor verde mar são os melhores. Para fazer uma onça de semente, há mister cem pares de casulos. Cem casulos de borboletas machos e outros cem de borboletas fêmeas. Quando apartarem os casulos para a semente advertirão que em cada casulo o bicho se mova solto, desapegado, o que conhecerão sacudindo brandamente o casulo, junto dos ouvidos, porque se o bicho não bulir, será sinal, que está podre, e pegado à seda, neste estado não serve para o nosso intento,... Capitulo III. Da fórma do forno, dobadoura, e outros instrumentos para tirar a seda em 1679 (pág. 203-206), 1728 (pág. 355-355) e 1769 (pág. 169-170): em tirar a seda do casulo, e passá-la a meadas com uma roda, ou dobadoura, e um tacho de água quente, já são as camponesas de Trás-os-Montes tão peritas, que facilmente podem ensinar esta arte às províncias do Reino,... Capitulo ultimo. Do barbilho, e do modo de o aparelhar em 1679 (pág. 206-211), 1728 (pág. 355-356) e 1769 (pág. 171-173): o barbilho, propriamente falando, é aquela primeira seda a que chamarão anafaia, que os bichos fiam primeiro que comecem a tecer o seu casulo. Porém de baixo desta palavra, barbilho, se entende toda a seda, que se tira com os dedos do redor do casulo, quando se dão a fiar, e juntamente todos os casulos furados pelos bichos, e todos os desperdícios de seda, que a fiandeira não pode inteiramente tirar.... Finalmente para conclusão desta obra, digamos que nos bichos da seda, tudo é milagroso enquanto vivem, tudo o que deles fica, depois de mortos, aproveita. 261 Os livros terminam com Additamentos ao opusculo […]: – Na edição de 1679 (pág. 212-220) Amplissimisfratribys, (pág. 221-226) Laudes moriet Bombicis. Lausmori, (pág. 227-230) Laus Bombicis; – Na edição de 1728 (pág. 357-360) Amplissimisfratribys, (pág. 361-365) Laudes morietBombicis. Lausmori, (pág. 364-365) Laus Bombicis, (pág. 366-383) ... Só no fim da vida voa. Também chegamos ao fim da nossa Prosa Económica; aos que se quizerem aproveitar dela, desejo muitos aumentos na fazenda; e aos que não têm sitio, nem cabedal, nem vontade para esta ocupação, e adictos ao idioma Latino, só folgarão de ouvor em lingua não vulgar as glórias deste nobilissimo, e utilissimo inseto....; – Na edição de 1769 (pág. 174-220) ... Só no fim da vida voa. 2.3. Livros que apoiam ou contestam a teoria da geração espontânea apresentada por Rafael Bluteau A teoria da geração espontânea, à época defendida por inúmeros estudiosos foi, de igual modo, seguida por Bluteau. Afirmou este autor que nas terras em que não há semente alguma dos bichos-da- -seda,suprirá a Arte esta falta; com uma prodigiosa metamorfose de que falam muitos autores e que de ordinário se experimenta em muitas partes do Oriente (Bluteau, 1679). Na mesma referência: no tempo da primavera, quinze dias depois de começar a sair a folha das amoreiras, tomarão uma vaca prenha e antes dela parir 20 dias arreo, a sustentarem com folhas de amoreira, não lhe dando erva nem feno, nem algum outro genero de alimento nem tão pouco lhe darão de beber e depois de nascida a vitela, continuaram outros 8 dias, dar à vaca folhas de amoreira; depois disto 262 matarão a vitela no tempo em que estiver farta do leite da mãe e a cortarão em pedaços até as patas dos pés e das mãos, que deitarão fora e não tirarão nada das mais partes do corpo, mas ajuntarão tudo, a carne, o sangue, os ossos, a pele e as tripas com uma gamela de pão e a porão no mais alto sobrado da casa, para que se não sinta o fedor; toda esta mistura de carnes, ossos e sangue se corromperá e desta corrupção nascerão uns bichinhos que se recolherão com folhas de amoreira, em que naturalmente se pegam e passados aos tabuleiros se criarão na mesma forma, que os outros, até fazerem os seus casulos, dos quais sairão borboletas, que ajuntando-se, porão grãos muito melhores, que os dos outros bichos. ... O poeta Marco Girolamo Vida, o Cremonhês, Bispo de Alba, defendeu esta metamorfose nos seguintes versos: Sicut apes tenerireparanturcoedeiuuenci Hic super accedittantùm labor:antèjuvencus Bis denosquedies,bis denasqueordinenoctes Graminisarcenduspastu, prohibendusabundis. Intereà in stabulistantùmillipinguiamori Sufficiuntfolia,etlactenticortice ramos. Viscera ubi caesifuerint liquefacta, videbis Bombycemfractiscondensamerumperecostis Atque globos tototinearumeffervere tergo, Etvelutiputres passim concrescere fungos. Nas Georgicas de Virgilio foi seguida a doutrina da geração espontânea professada por Aristóteles e pelos maiores filósofos da antiguidade, que perdurou até ao século XVII. Essa obra foi traduzida por Pereira (1875), e podemos ver de seguida esta teoria aplicada às abelhas: 263 E de saber, como o corrupto sangue De bois novos gerar abelhas podem. Relatarei agora, desde a origem A tradição; porque por toda a parte, Onde a ditosa gente de Canopo, Que de pellense tem o sobrenome, ... Escolhe-se um novilho, em cuja fronte, Annos dous a armadura denuncie; As ventas mais a boca se lhe tapão, Para não respirar, resista embora; E sendo morto com pancadas, fique O interior contuso, a pelle inteira. D´este modo se deixa neste encerro, ... Entretanto os humores aquecidos A fermentar entro dos tenros ossos Começão; animaculos sem couto Entrão a apparecer: pasmosa cousa! Ao princípio sem pés, em pouco tempo Adquirem azas, e enxameando voão Cada vez mais, ás regiões aereas. Seguindo as mesmas teorias Isnard (1665)já tinha dedicado o capítulo I da IV Parte do livro “Memoires et instructions pour le plant des meuriers blancs, nourriture des vers asoye. Et lárt de filer, mouliner &aprester” à obtenção das sementes do bichos-da- -seda através de um método semelhante ao anteriormente descrito, alegando que lhe tinha sido assegurado ser o método praticado no Levante. Resumidamente, era usada uma vaca próximo do parto, alimentada exclusivamente a folhas de amoreira; sendo o vitelo igualmente alimentado exclusivamente com folhas de amoreira e 264 leite materno. Posteriormente abate-se o vitelo, que se desmancha em pedaços e se coloca numa caixa de madeira, no sótão de uma casa. Desta decomposição irão nascer bichos-da-seda. A mesma ideia da geração espontânea foi defendida por Casas (1777)no capitulo VI do livro “Arte nuevo para criar seda Agricultura general, que trata de la labranzadel campo, y sus particularidades, crianza de animales. Propriedades de las plantas que enella se contienen, y virtudes provechosas a la salud humana” em que tratou de criar novas sementes de seda alegando se tratar de uma matéria praticada por muitos, que passa por fazer semente de seda da corrupção de uma vaca ou vitela; e porque se pratica de várias maneiras, sendo uma invenção dos Mouros, dizendo que nunca foi escrito em livro nem foi tratador por qualquer autor (segundo ouviu dizer). Uns dizem que se dá de comer exclusivamente folha de amoreira a uma vaca e mata-se, e da corrupção do ventre nascerão vermes, que se criam com folhas de amoreira e fazem seda. Outros fazem o mesmo com uma vitela antes de começar a comer e dá-se-lhes exclusivamente folhas de amoreira, cosendo o ânus à vitela, até que esteja bem inchada, e não coma mais, e afoga-se pelas narinas, de modo a morrer sem lesão de golpe, nem sangue, e enterra-se numa estrumeira, até que crie larvas, que serão criadas com folhas de amoreira. Outros, não enterram a vitela, mas põem- -na à sombra coberta com folhas de amoreira e aí sairão os vermes. Outros dizem que a vaca deve comer folhas de amoreira desde que fique prenha até ao parto, fazendo o mesmo com a vitela até a abater. Esta teoria continuou a ser defendida por Lanes y Duval (1787) no livro “Arte de la cria del gusano de la seda” em que considerou que a introdução da sericicultura na Europa era muito antiga, do reinado do Imperador Justiniano, tendo uns monges trazido as sementes da Ásia a Constantinopla, segundo os Historiadores Procopio e Zonadas; mais tarde os Árabes comunicaram-na a toda a Europa 265 e África; mas naquele tempo a Física e a História Natural eram defeituosas; assim, considerou terem sido transmitidos absurdos intoleráveis e erros ridículos, que de século em século chegaram ao presente (ano de 1787). Considerou que Don Gerónimo Vida foi o primeiro a tratar dos bichos-da-seda, mas que cometeu erros frequentíssimos, e ridículas preocupações. Seguiram-se autores Italianos que confirmaram ou transladaram as mesmas ridiculizes, às quais juntaram algumas ainda maiores e mais risíveis e depreciáveis. Cita que, para renovar a semente, se acaso se perdesse, se havia de criar um bezerro unicamente com folha de amoreira, e matá-lo a meio da criação; que da corrupção da sua carne sairiam uns vermes que fiariam formosos casulos. Neves (1827) referiu a obra de Bluteau (1679)com reimpressão de 1724 como um ato do autor manifestar a sua amargura, atribuída a motivos sinistros pelo insucesso obtido e mesmo abandono do sirgo, voltando a referir o mesmo emBluteau (1728a). Neves (1827) considerou ainda que Bluteau era um grande erudito, que a sua obra é preciosa relativamente à época, mas apresentou algumas concessões absurdas como o inculcado segredo de fazer nascer os melhores bichos-da-seda dos despojos corruptos de uma vitela, nascido de uma vaca, que nos últimos tempos da sua prenhez tivesse sido unicamente nutrida com folhas de amoreira, adotado de alguns escritores antigos. É uma imitação de outro segredo acreditado em tempos ainda mais antigos, de fazer nascer abelhas dos despojos de um touro, ao qual se nada deve a indústria, muito devem as Belas Letras; porque se nunca produziu abelhas, deu nascimento àquela ficção do Pastor Aristeo, com que Virgílio rematou o livro IV, e último das Geórgicas: chefe de obra inimitável, em que o pincel do ilustre Mantuano ostentou toda a delicadeza dos seus traços, toda a viveza das suas cores (Neves, 1827). Curiosamente foi Louis Pasteur (1822-1895) que ficou famoso pelos seus estudos acerca das doenças dos bichos-da-seda, que deu 272 A GE de moluscos, anfíbios e mesmo de ratos era vulgarmente aceite no século XVII. No entanto, essa visão começou a ser questionada com a emergência do empirismo/experimentalismo, iniciada no princípio desse século. A partir das experiências de Francesco Redi (1626-1698), um físico que serviu na corte dos Médicis em Florença, a GE ficaria circunscrita aos parasitas intestinais e microrganismos, tendo provado que os insetos provinham de ovos pré-existentes na matéria em decomposição. Em 1668, Redi desenhou uma experiência que, apesar de simples, mostrou o seu espírito rigoroso de investigação. A experiência incluía três grupos de frascos de boca larga, todos contendo matéria orgânica em decomposição, mas submetidos a condições diferentes. Num dos grupos (o controlo), os frascos estavam abertos, permitindo a entrada de ar e de moscas; noutro grupo, a abertura dos frascos estava tapada com um tecido que permitia a entrada de ar, mas impedia a entrada de insetos; no último grupo de frascos a entrada estava selada, não permitindo nem a entrada de ar, nem de moscas. No final do ensaio, foi possível concluir que novas moscas apareciam somente no primeiro grupo, onde as moscas adultas tinham depositado os seus ovos, refutando a ideia da GE nos insetos. No final do século XVII o conceito de biogénese estendeu-se a todos os insetos e parasitas externos como os ácaros. Todavia, no caso dos microrganismos, a crença na GE permanecia. As infusões, algas, e os fungos formavam-se a partir da matéria orgânica morta, enquanto os parasitas apareciam na matéria orgânica viva (Farey, 1972). Muito provavelmente, a ideia generalizada da natureza inconstante ou pleomórfica, primitiva e indiferenciada das bactérias, apoiava a ideia da GE nestes organismos. As bactérias eram considerados organismos mutáveis uns nos outros, de natureza intermédia entre os animais e as plantas e de origem heterogénea e variável, não sendo possível a sua definição individual (Doolittle, 2013). O físico Henry C. Bastian, nos anos 70 do século 273 XIX, ainda defendia a GE dos microrganismos causadores de doença (Strick, 2000). Um dos defensores da GE foi Georges Buffon, um intelectual francês que rejeitava a criação divina mas defendia a heterogénese: durante a decomposição, os restos mortais dos organismos libertavam “átomos vitais” após a morte, que eram captados novamente pelas plantas (Gasking, 2007). Indo ao encontro do espírito da época, Buffon queria demonstrar experimentalmente a GE. Para isso convidou John Turberville Needham (1713-1781), um padre católico, a deslocar-se a Paris para o efeito. Aí, delineou uma experiência onde frascos com vários caldos nutritivos (e.g. infusões de sementes, molho de carne de cordeiro) eram fervidos, sendo posteriormente fechados com rolhas de cortiça. Ao fim de algum tempo apresentavam crescimento microbiano e Buffon acreditou que a GE estava demonstrada. Será justo sublinhar que Needham não partilhava totalmente da visão de Buffon sobre a GE. Needham acreditava numa «força vegetativa» que daria vida à matéria inanimada (Agutter e Wheatley, 2008). Lazzaro Spallanzani (1729-1799), nascido em Modena um século após Redi, apesar de ter sido ordenado padre jesuíta abandonou o sacerdócio, bem como os estudos em direito, optando pela ciência experimental e tornando-se um importante fisiologista. Tornou-se um sério opositor da teoria da GE apresentada por Buffon e Needham. Tendo confirmado as observações de Leeuwenhoek sobre os microrganismos responsáveis pela decomposição em meio orgânico, Spallanzani acreditava que os caldos usados por Needham não tinham sido suficientemente aquecidos, de modo a matar os «animálculos». Adicionalmente, Needham tinha usado rolhas de cortiça porosas, que poderiam ter permitido a entrada de microrganismos. Numa série de experiências com caldos submetidos à fervura observou que os microrganismos não cresciam se o recipiente fosse aquecido e selado apropriadamente (Fig. 1). Nos recipientes que embora 274 aquecidos permaneciam abertos, o caldo ficava turvo, evidenciando crescimento microbiano. Spallanzani inferiu que os microrganismos não surgiam espontaneamente, mas antes eram transportados pelo ar, crescendo nos locais propícios ao seu desenvolvimento. Grupo 1 Grupo 2 Grupo 3 Grupo 4 Figura 1 – Esquema do delineamento experimental de Spallanzani sobre a GE dos microrganismos, em resposta à executada por Needham, defensor desta teoria. Grupo 1 – caldo não fervido e destapado; Grupo 2 – caldo não fervido, mas selado; Grupo 3 – caldo fervido, não selado; Grupo 4 – caldo fervido e selado posteriormente. (Fonte: própria). Needham respondeu às experiências alegando que ao prolongar a fervura dos caldos a “força vegetativa” da matéria orgânica tinha sido destruída. Outros apoiantes da GE argumentavam que era a ausência de ar, em especial do oxigénio, que inibiria a formação dos microrganismos a partir da matéria orgânica. O oxigénio era considerado condição necessária para o crescimento microbiano 275 (seria preciso esperar quase um século para que fosse conhecido o metabolismo anaeróbio). Spallanzani reagiu contaminando deliberadamente um caldo fervido e observando posterior crescimento microbiano. Além disso, alterou o bocal dos frascos, prolongando a sua abertura, em forma de capilar, permitindo que entrasse ar antes de selar os frascos. Estas experiências confundiram Needham. Vários contemporâneos destes dois adversários repetiram as experiências, tendo na sua maioria confirmado os resultados relatados por Needham, o que não é surpreendente. Alguns frascos preparados por Spallanzani acabaram por ficar turvos, tendo este concluído que algumas formas dos “animálculos” seriam resistentes ao calor. Apesar das experiências bem delineadas por Spallanzani, a parceria Needham-Buffon, reuniu mais consenso. Curiosamente, a batalha intelectual Spallanzani-Needham seria aplicada na conservação dos alimentos em lata, no início do século XIX. Em 1810, Nicolas Appert (1749-1841), um pasteleiro e chefe parisiense, anunciou a apertização que consistia em selar hermeticamente num recipiente, em geral de vidro ou metálico, alimentos submetidos ao calor. Ao longo de mais de uma década experimentou o seu processo que foi premiado pelo governo francês. Ganho o prémio e em plenas guerras Napoleónicas, a sua invenção despertou muito interesse no exército. Um dos problemas na refutação da GE era essencialmente técnico (Farley, 1972), pois tinha a ver com a capacidade de resistência ao calor exibida pelos microrganismos nos caldos submetidos a fervura. Charlton Bastian (1837-1915), um apoiante da GE, não estava convencido de que os microrganismos eram transportados pela atmosfera, pois as suas experiências mostraram que alguns micróbios eram mais termorresistentes do que se supunha, sobrevivendo à fervura. Louis Pasteur (1822-1895), químico e um dos fundadores da microbiologia juntamente com Ferdinand Cohn (1828-1898) e Robert Koch (1848-1910), contribuiu definitivamente para o descrédito, 276 a nível científico, da GE. Pasteur provou que a fermentação era um processo mediado por microrganismos, e que diferentes microrganismos tinham um impacto distinto nos processos fermentativos. Como consultor de industriais produtores de cerveja e de vinho, desenvolveu um método que permitia controlar uma bactéria que adulterava estas bebidas: o uso do calor (a 48 ºC), seguindo-se a guarda em recipientes hermeticamente fechados. O método foi desenvolvido, nomeado de pasteurização e ainda hoje continua a ser um dos mais utilizados no controlo microbiano na indústria alimentar, embora com algumas modificações. Pasteur, após uma troca de argumentos com os defensores da GE entre eles Felix Pouchet, diretor do Museu da História Natural de Rouen (Porte, 1961; Schwartz, 2001), e percebendo que o desenvolvimento da microbiologia como ciência racional só seria possível quando a ideia do aparecimento espontâneo dos microrganismos fosse derrotada (Wainwright e Lederbergl, 1992), delineou uma experiência similar à de Spallanzani, com o cuidado de que esta fosse realizada na presença de ar, argumento frequentemente usado pelos defensores da GE. Com essa finalidade usou frascos especiais com pescoço em forma de S (frascos com «pescoço de cisne») onde colocou um caldo rico em nutrientes o qual designou de «infusão», submetido a fervura de modo a matar os microrganismos presentes. A forma do frasco permitia que o seu conteúdo estivesse exposto ao ar sem no entanto as partículas suspensas, entre elas os microrganismos, caírem na infusão, pois ficavam retidas nas curvas do frasco. Enquanto os frascos permanecessem intocáveis não se observava turbidez, i.e., sinais de crescimento microbiano. Mas, se a um dos frascos fosse partido o «pescoço de cisne», as partículas entravam em contacto com a infusão e os microrganismos multiplicavam-se rapidamente (Vallery-Radot, 1886). A experiência delineada por Pasteur demostrou que os microrganismos não resultavam de GE, sendo provenientes de outros 277 microrganismos transportados pelo ar. Em 1860, a Academia de Ciências ofereceu o prémio a Pasteur pela sua contribuição na questão da GE (Vallery-Radot, 1886). Apesar do sucesso de Pasteur e das suas experiências, a discussão com os defensores da GE continuou: Joseph Louis Guy-Lussac (1778-1850) argumentou que a ausência de crescimento microbiano era devido à exclusão do ar, e que bastava uma pequena bolha de ar para existirem microrganismos, como acontecia na apertização. Pasteur provou que o argumento era uma falácia, numa série de experiências em toda a França. Frascos de «pescoço de cisne» de cerca de 250 mL contendo um líquido putrescível foram fervidos e, durante a ebulição, selados. Os frascos foram posteriormente transportados e abertos em vários ambientes (20 frascos por ambiente) – no campo longe de habitações, no sopé das montanhas do Jura e no mar de Gelo em Montanvert a 2000 m de altitude. Após a exposição, foram depositados em Paris, na mesa da Academia das Ciências. Dos 20 frascos abertos 8, 5 e 1 tinham sido contaminados, respetivamente para o campo, sopé do Jura e mar do Gelo (ValleryRadot, 1886). Não era a presença de ar que limitava o crescimento microbiano, mas a densidade microbiana, que diminuía com a altitude. Estando afastado o argumento da GE para o mundo microbiano, era agora possível discutir conceitos como controlo microbiano (pasteurização), assepsia, esterilização e doenças infeciosas. Pasteur foi um grande defensor da teoria gérmica que postulava que as doenças infeciosas eram causadas pela presença ou ação de microrganismos. 2. Limitações na discussão da GE 2.1. A descoberta de estruturas resistentes ao calor Os resultados contraditórios obtidos a partir das infusões usadas nas experiências, quer dos defensores quer dos oponentes da 278 GE, suscitaram interesse por parte de vários investigadores, entre eles John Tyndall (1820-1893) e Ferdinand Julius Cohn (1828-1898). Tyndall em 1877-1878 demonstrou que a esterilização de certas infusões, como as provenientes do feno e do solo, ocorria somente após fervuras repetidas (Crellin, 1966) devido à presença de germes resistentes ao calor. Tyndall concluiu que as bactérias tinham fases de desenvolvimento distintas, uma mais termo-lábil do que outra, mais fácil de destruir pela fervura (Tyndall, 1877). Nesse mesmo ano, F. Cohn, botânico alemão nascido na antiga Prússia, grande taxonomista microbiano apoiante da teoria da evolução, mas vulnerável aos argumentos esgrimidos pelos apoiantes da GE (O’Malley, 2009), descobriu que os endósporos bacterianos eram as estruturas resistentes ao calor. Com base nesses resultados, Tyndall, desenvolveu um método de esterilização fracionada, a tindalização (Tyndall, 1877). Neste método, as formas vegetativas termo-sensíveis são mortas quando a infusão é fervida e, após o arrefecimento das infusões, quando os endósporos termorresistentes sobreviventes à fervura revertem à sua forma vegetativa, a infusão é fervida uma segunda vez. O número de fervuras, bem como o tempo entre cada uma delas poderia ser determinado conforme a infusão (Drews, 2000). Em 1880 a maioria dos cientistas britânicos concordava com a afirmação de Tyndall: “The argument that bacteria and their germs, being destroyed at 140°F, must if they appear after exposure to 212°F, be spontaneously generated, is I trust, silenced for ever”. Após as descobertas de Tyndall e Cohn, Pasteur e o seu colaborador próximo, Charles Chamberland, passaram a esterilizar os líquidos a 115-120 ºC, por autoclavagem. 279 2.2. A invenção da autoclave A autoclave é um equipamento essencial num laboratório de microbiologia. O seu aparecimento resultou da ação de vários inventores ao longo de 2 séculos. Denis Papin (1647-1712) é considerado o primeiro inventor (Hugo, 1991), tendo desenvolvido em 1629 um dispositivo ao qual designou digestor de vapor (Fig. 2), quando trabalhava com o Inglês Robert Hooke, de quem era assistente. O digestor a vapor provou ser útil na extração de gelatina de ossos e tendões, a pressões elevadas, usada na preparação de alimentos. Em 1820, Marcus Leman aperfeiçoou o digestor de Papin, melhorando o tempo necessário para a digestão dos alimentos, que passou a ser de 30 minutos. No entanto, a segurança do aparelho continuava a ser duvidosa, pelo que a sua utilização estava restrita às indústrias química (na vulcanização e obtenção de compósitos) e alimentar. Foi Charles Edouard Chamberland (1851-1908), microbiologista e colaborador de L. Pasteur que, em 1879, adaptou o dispositivo de M. Leman para uso médico e laboratorial (Fig. 2), tema da sua tese de doutoramento “Recherches sur l’origine et le développement des organismes microscopiques” (Anónimo, 2017), onde desenvolveu trabalhos que incidiram na esterilização de meios de cultura. Figura 2 – Representações esquemáticas do digestor a vapor de D. Papin em 1679 (à esquerda) e da autoclave desenvolvido por C. Chamberland em 1879 (à direita) (imagens de domínio público). 280 3. Desafios da esterilização: presente e futuro Se a refutação da GE foi uma condição essencial para o conceito de esterilização ser desenvolvido, e a autoclave um equipamento fundamental para a preparação dos meios de cultivo microbiano, sabe-se hoje que existem microrganismos resilientes ao protocolo de autoclavagem mais usual (121 ºC, 15 minutos). Embora essa resistência seja mais frequente nas formas esporuladas, as células vegetativas de alguns termófilos resistem à autoclavagem convencional. É o caso de culturas de Pyrolobus fumarii que crescem exponencialmente ao fim de 1 hora de autoclavagem a 121 ºC (Blöchl et al., 1997), ou da estirpe 121 de Geogemma barossii que resiste à autoclavagem (121 ºC) ao longo de 24 horas, permanecendo viável quando submetida a 130 °C, durante 2 horas (Kashefi e Lovley, 2003). Se, na maioria das vezes, o processo de autoclavagem padronizado é suficiente na inativação dos endósporos, esporos de Desulfotomaculum spp. sobreviveram ao fim de uma série de três autoclavagens (e.g. D. kuznetsoviiT e D. geothermicum), ou após autoclavagem extrema (culturas de D. kuznetsovii a 130-154 °C durante 15 minutos) ou a exposição a temperaturas elevadas em banho de óleo (O’Sullivan et al., 2015). Partículas infeciosas como as proteínas priónicas transmissíveis, responsáveis por exemplo pela doença de Creutzfeldt-Jacobs, podem apresentar resistência elevada aos métodos de descontaminação mais usuais (autoclavagem 121°C por 15 minutos, radiação ionizante e agentes químicos). Para estes agentes infeciosos, é necessário usar protocolos de autoclavagem mais agressivos de modo a obter esterilização de objetos cirúrgicos, como autoclavagem a 132 °C, durante 30 minutos, após tratamento de pré-vácuo durante 18 minutos a 134-138 °C (WHO, 1999). Contudo, a esterilização eficaz não é garantia de segurança microbiana. Muitas toxinas sintetizadas por microrganismos resistem à 281 autoclavagem e ao calor seco, entre elas endotoxinas como os lipopolissacáridos, ou a toxina botulínica, sendo nestes casos aplicado um processo de autoclavagem modificado, a autoclavagem hidro- -térmica (Miyamoto et al., 2009). Desde o início da aventura espacial, a esterilização da nave tem sido uma preocupação (Demidov et al., 1995) que, com o previsível aumento de missões espaciais, mesmo para o exterior do nosso sistema solar, resultará inevitavelmente, num protocolo de proteção interestelar (Cockell, 2008). A esterilização continuará pois a ser uma preocupação no futuro, à medida que novos ambientes sejam explorados pela Humanidade, incluindo o espaço. 4. Conclusões A ideia da GE limitou o desenvolvimento da microbiologia como ciência experimental e racional, afetando negativamente a discussão sobre a causa das doenças infeciosas, tanto nos animais como nas plantas. A controvérsia em torno da questão GE, apesar de hoje parecer estéril e desesperante, tornou-se uma força motora do progresso científico ao perspetivar ou idealizar, numerosas experiências e ter permitido o desenvolvimento de conceitos científicos novos e abordagens experimentais inovadoras (Farley, 1977). O controlo microbiano e a esterilização dependeram sobretudo de avanços no conhecimento científico e tecnológico, como a descoberta dos endósporos e a invenção da autoclave. Atualmente, a esterilização continua a ser fonte de preocupação, estando dependente do conhecimento de novas formas ou compostos biológicos, bem como dos avanços tecnológicos. 288 e retratado nesta publicação, constitui um conceito objetivo, isto é, está relacionada com o cumprimento das especificações e aplica-se ao produto acabado (medicamento) e aos produtos utilizados no seu fabrico (substância(s) ativa(s) e excipientes). Nesta publicação efetua-se uma revisão histórica das Farmacopeias Portuguesa e Europeia, demonstrando-se as suas funções no estabelecimento de normas da qualidade para os medicamentos e para os produtos que são utilizados no seu fabrico, e evidencia-se a sua importância no ensino universitário da Tecnologia Farmacêutica. 301  evidencia-se a sua importância no ensino universitário da Tecnologia Farmacêutica. Figura 1 - Atributos essenciais do medicamento. 2. Farmacopeias Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) (Review of World Pharmacopoeias, 2013), uma farmacopeia (do grego pharmakon, droga, fármaco; poeio, faço) é uma coletânea legalmente vinculativa, elaborada por uma autoridade nacional ou regional, de normas e especificações da qualidade para medicamentos utilizados num país ou região. Por sua vez, Conceição e seus colaboradores (Conceição, Pita, Estanqueiro, & Sousa Lobo, 2014), definem uma farmacopeia como um livro oficial com valor legal, elaborado por uma comissão técnica especializada, que acompanha a evolução científica e tecnológica dos conhecimentos ligados aos medicamentos, avalizando a atualização da sua qualidade e salvaguardando, assim, a Saúde Pública. O objetivo basilar de uma farmacopeia é promover a Saúde Pública, estabelecendo normas e métodos de aplicação obrigatória Figura 1 – Atributos essenciais do medicamento. 2. Farmacopeias Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) (Review of World Pharmacopoeias, 2013), uma farmacopeia (do grego pharmakon, droga, fármaco; poeio, faço) é uma coletânea legalmente vinculativa, elaborada por uma autoridade nacional ou regional, de normas e especificações da qualidade para medicamentos utilizados num país ou região. Por sua vez, Conceição e seus colaboradores (Conceição, Pita, Estanqueiro, & Sousa Lobo, 2014), definem uma farmacopeia como um livro oficial com valor legal, elaborado por uma comissão técnica especializada, que acompanha a evolução científica e tecnológica dos conhecimentos ligados aos medicamen- 289 tos, avalizando a atualização da sua qualidade e salvaguardando, assim, a Saúde Pública. O objetivo basilar de uma farmacopeia é promover a Saúde Pública, estabelecendo normas e métodos de aplicação obrigatória para garantir a qualidade dos medicamentos, beneficiando os doentes, os profissionais de saúde, a indústria farmacêutica, as autoridades regulamentares e os sistemas de saúde (Artiges, 1998). As farmacopeias também desempenham um papel importante no combate aos medicamentos falsificados, contrafeitosou ilegais, um problema global e uma ameaça crescente (Keitel, 2010, 2011). Atualmente, a nível mundial, existem quarenta e nove farmacopeias (Index of Pharmacopoeias, 2013), sendo quarenta e seis nacionais (como por exemplo, a Farmacopeia Portuguesa), duas regionais (como por exemplo, a Farmacopeia Europeia) e uma internacional – a Farmacopeia Internacional editada pela OMS, cuja primeira edição, volume um, foi publicada em 1951 (Wiggins, Skutnik, Shimek-Cox, & Schwarzwalder, 2008). As farmacopeias são usualmente classificadas em três grupos, designadamente (Carvalho Guerra & Correia Alves, 1986; Folch y Andreu, 1942): • farmacopeias-dispensatórios – caracterizam-se por serem elaboradas por um único autor e não apresentam qualquer valor legal; • farmacopeias-antidotários – caracterizam-se por serem elaboradas por um único autor e apresentam valor legal; • farmacopeias propriamente ditas, isto é, todas as farmacopeias oficiais com valor legal elaboradas por comissões nomeadas para esse efeito. As comissões farmacopeicas são constituídas por peritos de reconhecido mérito científico, das áreas das ciências farmacêuticas, 290 médicas, médico-veterinárias e outras, de modo a abranger as principais áreas do fabrico e da análise do medicamento e dos seus constituintes, nomeadamente a Tecnologia Farmacêutica, a Química Farmacêutica, os métodos físico-químicos e biológicos, os fármacos naturais, a Farmacoterapia, a Farmacocinética, os soros e vacinas, a Biotecnologia e as preparações radiofarmacêuticas (Declaração de retificação n.º 352/2012; Portaria n.º 408/96, de 22 de agosto). Relativamente à constituição de uma farmacopeia, esta apresenta um conjunto de (Sousa Lobo, 2009): i) monografias de matérias-primas utilizadas no fabrico de medicamentos, quer como substâncias ativas quer como excipientes; ii) monografias específicas de produto acabado, quer se trate de medicamentos quer de diversos produtos sanitários; iii) textos informativos; iv) textos que visam padronizar técnicas de índole física ou química descritas nas diferentes monografias; v) textos respeitantes a alguns materiais de embalagem; e vi) breves referências aos materiais utilizados como reagentes na execução dos diferentes ensaios. 2.1. Farmacopeia Portuguesa Presentemente, a Farmacopeia Portuguesa é da responsabilidade da Comissão da Farmacopeia Portuguesa, comissão técnica especializada da Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde, I.P. (INFARMED), e é elaborada em conjugação com a Farmacopeia Europeia do Conselho da Europa (Deliberação n.º 10/CD/2013). É de salientar que a Farmacopeia Portuguesa é aceite pela legislação do Brasil e de outros países onde o Português é uma língua oficial como, por exemplo, Moçambique, Guiné e São Tomé e Príncipe (Sousa Lobo, 2008, 2012). A história da Farmacopeia Portuguesa tem sido objeto de estudo por diversos autores (Damas Móra, 1979, 1998; Pereira da Gama, 291 1940; Proença da Cunha & Roque, 2011; Rosendo, 1952), uma vez que a publicação de uma farmacopeia é uma questão farmacêutica, médica e de Saúde Pública. De seguida, irão ser abordadas, de um modo muito sinóptico, as farmacopeias portuguesas não oficiais (de 1704 a 1833) e as farmacopeias portuguesas oficiais (de 1794 até ao presente). Para uma leitura mais detalhada sobre a história da Farmacopeia Portuguesa, recomenda-se a leitura de três artigos: i) “As Farmacopeias Portuguesas e a Saúde Pública” publicado na Acta Farmacêutica Portuguesa (Conceição et al., 2014); ii) “Um livro com 200 anos: A Farmacopeia Portuguesa (Edição oficial). A publicação da primeira farmacopeia oficial: Pharmacopeia Geral (1794)” publicado na Revista de História das Ideias (Pita, 1999); e iii) “De Pombal ao Estado Novo: A Farmacopeia Portuguesa e a História (1772-1935)” pulicado no Jornal Medicamento, História e Sociedade (Sousa Dias, 1995). 2.1.1. Farmacopeias Portuguesas Não Oficiais Durante os séculos XV, XVI e XVII, autores como Tomé Pires (1465-1540), Garcia de Orta (1500-1568), Amato Lusitano (1511-1568), Cristóvão da Costa (1525-1594) e Cristóvão de Lisboa (1583-1652)desempenharam um importante papel ao nível da Farmácia e da Medicina (Pita, 2007). Contudo, a literatura farmacêutica portuguesa era praticamente inexistente até ao século XVIII (Pita, 1999; Sousa Dias, 1994). Em finais do século XVII e inícios do século XVIII, a Farmácia congregava (Cabral & Pita, 2015): i) purgas, sangrias, clisteres e remédios vegetais descritos por Galeno; ii) medicamentos químicos; iii) águas mineromedicinais; iv) drogas americanas; v) rudimentos de injeções endovenosas; e vi) rudimentos de transfusões sanguíneas. As farmacopeias portuguesas não oficiais foram publicadas maioritariamente durante o século XVIII – o que estava em sintonia com 292 os países mais avançados do ponto de vista científico (Sonnedecker, 1993) – e caracterizam-se por não apresentarem valor legal. É de salientar que durante os séculos XVII e XVIII foram publicadas em todo o mundo mais de oitenta farmacopeias (del Castillo García, 2014). A Pharmacopea Lusitana foi a primeira farmacopeia escrita por um boticário em língua portuguesa em 1704 (de Santo António, 1704; Pita & Pereira, 2005). O seu autor foi D. Caetano de Santo António (~ 1660-1739) e a farmacopeia teve quatro edições (1704, 1711, 1725 e 1754). Posteriormente, foram editadas a Pharmacopea Bateana (em 1713 por Jorge Bateo (1608-1669)), a Pharmacopea Ulyssiponense (em 1716 por João Vigier (1662-1723)), a Pharmacopea Tubalense ChimicoGalenica (em 1735 por Manuel Rodrigues Coelho), a Pharmacopea Portuense (em 1766 por António Rodrigues Portugal), a Pharmacopea Meadiana (em 1768 por Ricardo Mead), a Pharmacopea Dogmatica (em 1772 por Frei João de Jesus Maria (1716-1795)), a Pharmacopea Lisbonense (em 1785 por Manuel Joaquim Henriques de Paiva (17521829)), a Pharmacopea Chymica, Medica, e Cirurgica (em 1805 por António José de Sousa Pinto (1777-1853)), a Pharmacopea Naval e Castrense (em 1819 por Jacinto da Costa), e a Pharmacopea das Pharmacopeas Nacionaes e Estrangeiras (em 1833 pelo Bacharel B. J. O. T. Cabral) (Conceição et al., 2014). É importante realçar que: i) algumas destas farmacopeias apresentaram várias edições e/ou partes/tomos; ii) a Pharmacopea Ulyssiponense foi a primeira farmacopeia portuguesa a inscrever de um modo sistematizado os medicamentos químicos e a incluir uma descrição do material e das técnicas de Química Farmacêutica (Sousa Dias, 1987; Vigier, 1716); e iii) a Pharmacopea Tubalense Chimico-Galenica (Figura 2) é considerada como a farmacopeia de maior circulação em Portugal no século XVIII (Rodrigues Coelho, 1735). 293 Figura 2 – Frontispício da primeira parte da primeira edição da Pharmacopea Tubalense Chimico-Galenica, 1735 (Rodrigues Coelho, 1735). 2.1.2. Farmacopeias Portuguesas Oficiais Em Portugal, entre 1794 e 2008, foram publicadas nove farmacopeias oficiais (Figura 3) (Conceição et al., 2014; Conceição et al., 2016). A Pharmacopeia Geral para o Reino, e Domínios de Portugal foi a primeira farmacopeia oficial – aprovada por decreto de D. Maria I de 7 de janeiro de 1794 – e foi editada para cumprir o que estava determinado nos Estatutos da Universidade de Coimbra de 1772 (Estatutos da Universidade de Coimbra (1772), vol. 3, 1972; Pita, 1999b; Tavares, 1794). O seu autor foi Francisco Tavares (1750- -1812), médico, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e físico-mor (Pita, 1995; Silva, 1998). O Codigo Pharmaceutico Lusitano, aprovado pelo Decreto de 6 de outubro de 1835, foi a segunda farmacopeia portuguesa oficial, cujo autor foi Agostinho Albano da Silveira Pinto (1785-1852) (da Silveira Pinto, 1835; Lemos, 2016b). As principais inovações desta 294 farmacopeia foram as seguintes (Pita, 1999a; Sousa Dias, 1995): i) substâncias ativas isoladas a partir de produtos naturais; ii) introdução de instrumentos laboratoriais modernos; iii) adoção da nova nomenclatura química; e iv) referências à teoria atómica de Dalton e ao sistema métrico. Posteriormente, a farmacopeia teve novas edições em 1836, 1841, 1846, 1858, 1876, sendo as duas últimas edições póstumas da responsabilidade de José Pereira Reis, lente da Escola Médico-Cirúrgica do Porto (Lemos, 2016a) 1794 Pharmacopeia Geral 1835 Codigo Pharmaceutico Lusitano 1876 Pharmacopea Portugueza 1935 Farmacopeia Portuguesa 1986 Farmacopeia Portuguesa V 1997 Farmacopeia Portuguesa VI 2002 Farmacopeia Portuguesa VII 2005 Farmacopeia Portuguesa 8 2008 Farmacopeia Portuguesa 9 Figura 3 – As nove farmacopeias portuguesas oficiais. A Pharmacopêa Portugueza, aprovada pelo Decreto de 14 de setembro de 1876, foi a terceira farmacopeia portuguesa oficial e a primeira a ser elaborada por farmacêuticos e médicos (Pharmacopea Portugueza, 1876). É importante destacar que esta obra não indicava qualquer processo de esterilização para as soluções para injeções hipodérmicas (Sousa Dias, 1994, 1995). Na última década do século XIX, a indústria farmacêutica portuguesa começou a desenvolver-se, sendo a Companhia Portuguesa de Higiene a primeira indústria de grande dimensão a ser instituída pelo farmacêutico Emílio Faria Estácio (1854-1919) (Moreira dos Santos, 2014; Sousa Dias, 1993). A nível internacional, durante o século XIX, 295 surgiram as primeiras indústrias como, por exemplo, a Merck, a Bayer, a Sandoz, a Parke-Davis e a Ciba (Malerba & Orsenigo, 2015). A Farmacopeia Portuguesa, aprovada pelo Decreto-lei n.º 24876, de 9 de janeiro de 1935, foi a quarta farmacopeia portuguesa oficial e foi elaborada por uma comissão que nunca fora nomeada para esse efeito (Farmacopeia Portuguesa. Edição Oficial, 1935). Esta farmacopeia não apresentava na sua comissão professores do ensino superior e publicou-se no âmbito da política assistencial e de medidas farmacêuticas do Estado Novo (1933-1974). Em 1946, foi publicada a segunda edição da Farmacopeia Portuguesa IV que era um verdadeiro “livro de fórmulas”, uma vez que integrava inúmeras fórmulas farmacêuticas como, por exemplo, soluções, emulsões, pomadas, pós, óvulos e supositórios (Barbosa & Pinto, 2001; Farmacopeia Portuguesa IV, 1946). Ulteriormente, em 1961 e 1972, foram publicados dois suplementos. A entrada de Portugal na então denominada Comunidade Económica Europeia (CEE), em 1986, teve um importante impacto na área do me dicamento (Aranda da Silva, 2017). Além disso, durante a década de oitenta, Portugal tornou-se membro da Farmacopeia Europeia do Conselho da Europa sediado em Estrasburgo. A Farmacopeia Portuguesa V foi aprovada em um de outubro de 1985 e constituiu uma tradução-adaptação da segunda edição da Farmacopeia Europeia (Farmacopeia Portuguesa V, 1986). A partir desta edição, todas as Farmacopeias Portuguesas subsequentes corresponderam a traduções-adaptações da Farmacopeia Europeia. Ademais, o carácter de formulário de medicamentos característico das farmacopeias começou lentamente a diminuir, surgindo a preocupação crescente com a preparação industrial de medicamentos. Neste âmbito, foram aplicadas as “Boas Práticas de Fabrico” (BPF) nos Estados Unidos da América (em 1963) e na Europa (em 1992), cujos objetivos são garantir a reprodutibilidade e a rastreabilidade dos lotes (EudraLex – Volume 4 Good manufacturing practice (GMP) Guidelines; Immel, 2001; Patel & Chotai, 2008). 296 A Farmacopeia Portuguesa VI foi aprovada através da Portaria n.º 74/97, de 31 de janeiro, e constituiu a primeira farmacopeia portuguesa a ser editada, na totalidade, sob a responsabilidade do Instituto Nacional da Farmácia e do Medicamento (INFARMED), atualmente designado de Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde I.P (Farmacopeia Portuguesa VI, 1997). As principais inovações desta farmacopeia foram as seguintes (Morgado, 1998): i) substituição, em inúmeros casos, dos ensaios em animais por ensaios in vitro (ensaio de pirogénios por ensaio de endotoxinas bacterianas; supressão do ensaio de toxicidade anormal quase na sua totalidade; e doseamentos físicos, químicos ou físico-químicos em vez de doseamentos microbiológicos ou biológicos); ii) reorganização das diferentes partes da farmacopeia para simplificar a sua consulta (nova numeração decimal, e os anexos passaram a figurar nas monografias); iii) uso exclusivo do sistema internacional de unidades; e iv) harmonização de numerosas monografias entre as farmacopeias dos Estados Unidos da América do Norte, do Japão e Europeia. A Farmacopeia Portuguesa VII, aprovada pela Portaria n.º 122/2003, de 23 de janeiro, foi a primeira farmacopeia a englobar uma versão em formato CD-ROM (Farmacopeia Portuguesa VII, 2002). A Farmacopeia Portuguesa 8 foi editada em 2005 e consistiu numa tradução-adaptação da quinta edição da Farmacopeia Europeia (Farmacopeia Portuguesa 8, 2005). Atualmente está em vigor a Farmacopeia Portuguesa 9, a quarta a ser editada sob a responsabilidade do INFARMED desde a sua criação em 1993, publicada em 2008 e aprovada pela Deliberação n.º 2272/2009, de 3 de agosto (Farmacopeia Portuguesa 9, 2008). De acordo com o seu prefácio, a Farmacopeia Portuguesa é um códex de normas e métodos para garantir a qualidade dos medicamentos, para uso humano e veterinário, que estabelece através das suas monografias os requisitos a que devem obedecer os fármacos, excipientes, outras substâncias de uso farmacêutico e os métodos 297 analíticos a usar na sua caracterização e doseamento (Farmacopeia Portuguesa 9, 2008). Posteriormente, foram publicados oito suplementos: suplementos 9.1, 9.2 e 9.3 em 2008; suplementos 9.4 e 9.5 em 2009; e suplementos 9.6, 9.7 e 9.8 em 2010. A Comissão da Farmacopeia Portuguesa atual está exposta na Tabela I e do seu trabalho resultará a publicação da Farmacopeia Portuguesa 10 (Declaração de retificação n.º 352/2012; Deliberação n.º 10/CD/2013). Tabela I – Atual Comissão da Farmacopeia Portuguesa (Ministério da Saúde, Infarmed, 2017). José Manuel Sousa Lobo Presidente Carlos Manuel Magalhães Afonso Vice-Presidentes Maria João Antunes Gaspar Portela António José Infante Alfaia Secretário Ana Paula Rodrigues Martins Membros Cristina Maria Martins Almeida Helena Maria Cabral-Marques Inocência Maria Serrano Pinto Mendes Isabel Vitória Figueiredo João Manuel Braz Gonçalves Joel André do Vale Passarinho José Paulo de Sousa e Silva Luís Miguel Meirinhos Soares Maria Anabela Rodrigues Maria da Graça Campos Maria Eduardo Morgado Figueira Maria Helena Pinto Ferreira Maria Margarida Duarte Ramos Caramona Natércia Maria Guerra Simões Rui Manuel Amaro Pinto Ana Luísa de Freitas Urmal Ramalho Ribeiro Peritos Eva Cláudia Baptista Roosevelt Mendes Mónica Cancela Abreu Gonçalves Vaz Almeida Miranda Patrícia Gracias Fernandes da Costa Catalão Paula Maria Ramos Martinho Figueiredo Rita Vasconcelos Pimentel 304 (etapa que se traduz no aumento da força mecânica do material devido a interações partícula-partícula). Os três processos tecnológicos principais para o fabrico dos comprimidos são a compressão direta, a granulação a húmido e a granulação a seco (ou método da dupla compressão), como ilustrado na Figura 7 (Lachman, Lieberman, & Kanig, 2010; Leane, Pitt, & Reynolds, 2015; Sousa Lobo, 1989). Ainda de acordo com a monografia farmacopeica (Farmacopeia Portuguesa 9, 2008), é possível distinguir dez tipos de comprimidos para administração por via oral, designadamente: i) comprimidos não revestidos; ii) comprimidos revestidos; iii) comprimidos efervescentes; iv) comprimidos solúveis; v) comprimidos dispersíveis; vi) comprimidos orodispersíveis; vii) comprimidos gastrorresistentes; viii) comprimidos de libertação modificada; ix) comprimidos para usar na cavidade bucal; e x) liofilizados orais. Convém, ainda, sublinhar que os comprimidos de dupla camada e de multicamadas são utilizados na terapêutica para a administração oral de fármacos (Abebe, Akseli, Sprockel, Kottala, & Cuitiño, 2014; Vaithiyalingam & Sayeed, 2010). Conforme o Estatuto do Medicamento (Decreto-Lei n.º 176/2006, de 30 de agosto), excipiente é qualquer matéria-prima que, incluída nas formas farmacêuticas, se junte às substâncias ativas ou suas associações para servir-lhes de veículo, possibilitar a sua preparação ou estabilidade, modificar as suas propriedades organoléticas ou determinar as propriedades físico-químicas do medicamento e a sua biodisponibilidade. 305 Figura 7 – Fluxograma de fabrico dos três processos tecnológicos principais de preparação dos comprimidos (Conceição, 2011). Sousa Lobo (Nogueira Prista et al., 2009), baseado na classificação de Lachman, classifica os excipientes em duas categorias, nomeadamente : • excipientes primários ou tecnológicos, cuja utilização é função do medicamento a preparar e que aparecem, em geral, em quase todas as fórmulas correspondentes a uma determinada forma farmacêutica; 306 • e os excipientes secundários ou específicos, cuja utilização depende das características do fármaco ou de outros fatores não diretamente relacionados com a própria forma farmacêutica e que, por isso, surgem pontualmente nas fórmulas. No caso dos comprimidos, os excipientes tecnológicos são os diluentes, os desagregantes, os aglutinantes e os lubrificantes (Nogueira Prista et al., 2009; Nogueira Prista et al., 2003). Por sua vez, os absorventes, os aromatizantes, os corantes, os edulcorantes, os molhantes e os tampões são excipientes específicos (Nogueira Prista et al., 2009; Nogueira Prista et al., 2003). Em geral, os ensaios de controlo da qualidade de uma forma farmacêutica dividem-se em quatro categorias, particularmente: i) ensaios respeitantes à(s) substância(s) ativa(s); ii) ensaios físicos e físico-químicos; iii) ensaios que avaliam a uniformidade do lote; e iv) ensaios que avaliam as características de libertação do(s) fármaco(s). Em relação ao cumprimento de especificações farmacopeicas, os comprimidos têm que obedecer aos requisitos/especificações de quatro ensaios farmacotécnicos, a saber (Farmacopeia Portuguesa 9, 2008): três destinam-se a avaliar a uniformidade do lote (uniformidade das preparações unitárias (2.9.40), uniformidade de teor (2.9.6) e uniformidade de massa (2.9.5)) e um destina-se a avaliar as características de cedência do fármaco in vitro (dissolução (2.9.3)). Adicionalmente, alguns tipos de comprimidos têm que cumprir o ensaio de desagregação (2.9.1). A título de exemplo, os comprimidos gastrorresistentes, um tipo de comprimidos de libertação retardada, têm que resistir duas horas ao contacto com o suco gástrico e devem desagregar uma hora após o contacto com o suco entérico. Por outro lado, os comprimidos não revestidos devem desagregar quinze minutos após o contacto com água. A desagregação e a dissolução são ensaios que permitem avaliar as características de cedência de um fármaco in vitro (Allen Jr., 307 Popovich, & Ansel, 2007; Vila Jato, 2001). Todavia, a dissolução – retrata um processo físico-químico – é um ensaio mais recente e mais informativo, tendo particular relevância para fármacos poucos solúveis em água (Dokoumetzidis & Macheras, 2006; Shohin, Grebenkin, Malashenko, & Stanishevskii, 2016). Em contrapartida, a desagregação retrata um processo físico e tem especial interesse para fármacos solúveis em água (Donauer & Löbenberg, 2007). A solubilidade da substância ativa é um parâmetro importante para que ocorra a sua absorção (Ros, Somoza, Martín, & Rubio, 2014). Com efeito, convém salientar que a absorção de um fármaco é o resultado de um compromisso (LeBlanc et al., 1997): por um lado, deve estar em solução para poder ser absorvido, portanto, deve ser solúvel na água e ionizado no pH do meio; e por outro lado, deve também ter uma certa lipofilia (e, portanto, ser não ionizado) para se dissolver na membrana e se difundir passivamente através dela. Analisando a monografia dos comprimidos de AAS (Farmacopeia Portuguesa 9, 2008), medicamento vulgarmente conhecido como Aspirina®, é possível constatar que no ensaio de dissolução a quantidade de AAS dissolvida é, no mínimo, oitenta por cento do teor indicado no rótulo após trinta minutos. Todas as condições experimentais do ensaio estão definidas e o doseamento do fármaco – composto pouco solúvel na água – é realizado por espetrofotometria na região do ultravioleta (265 nm). A título elucidativo, apresenta-se na Figura 8 o perfil de dissolução de duas fórmulas de comprimidos (n = 6; média ± desvio-padrão) (Conceição et al., 2016): a fórmula I está em conformidade com as especificações farmacopeicas, ou seja, após trinta minutos a percentagem dissolvida de AAS é superior a oitenta por cento; e a fórmula II não está em conformidade, uma vez que a percentagem dissolvida de fármaco após trinta minutos é inferior ao valor estabelecido. 308 0 20 40 60 80 100 120 0 5 10 15 20 25 30 35 AAS (%) Tempo (minutos) Fórmula I Fórmula II Conforme Não conforme Figura 8 – Perfis de dissolução in vitro de comprimidos de AAS (Conceição et al., 2016). Em relação à qualidade microbiológica das preparações farmacêuticas, os comprimidos para administração por via oral pertencem à categoria 3 (Farmacopeia Portuguesa 9, 2008). Por fim, destaca-se que não se realiza apenas o controlo da qualidade da forma farmacêutica final, isto é, também se realiza o controlo durante o processo de fabrico (IPC – In process control) (Zayas, Talley, & Sanchez, 2005). Assim, é comum durante o fabrico de comprimidos elaborarem-se cartas de controlo como, por exemplo, das massas médias, das amplitudes, da dureza, da friabilidade e do tempo de desagregação. 4. Conclusões Atualmente, as farmacopeias são livros oficiais com valor legal, elaborados por uma comissão técnica especializada, que acompanham a evolução científica e tecnológica dos conhecimentos ligados 309 aos medicamentos, avalizando a atualização da sua qualidade e salvaguardando, assim, a Saúde Pública. A Farmacopeia Portuguesa, em Portugal e em alguns países onde o Português é uma língua oficial, e a Farmacopeia Europeia, na Europa e a nível internacional, desempenham uma função muito importante no estabelecimento de normas da qualidade para os medicamentos e para os produtos que são utilizados no seu fabrico. A Farmacopeia Portuguesa é mais antiga do que a Farmacopeia Europeia, no entanto, no presente momento, ambas apresentam nove edições oficiais. Com efeito, a Farmacopeia Europeia (intergovernamental) é uma das três principais farmacopeias a nível mundial em conjunto com a Farmacopeia Japonesa (governamental) e a Farmacopeia dos Estados Unidos da América (independente do governo). A Tecnologia Farmacêutica constitui uma área científica que tem como objetivo formular, preparar e efetuar o controlo da qualidade de medicamentos. As farmacopeias, juntamente com os formulários de índole galénica, desempenham uma função importante no ensino universitário desta área do saber. 5. Agradecimentos Jaime Conceição expressa a sua gratidão ao Programa de Doutoramento em Medicamento e Inovação Farmacêutica (i3DU), financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia,I. P. (FCT), pela bolsa de investigação com a referência PD/BD/127813/2016. 6. Referências Abebe, A., Akseli, I., Sprockel, O., Kottala, N., & Cuitiño, A. M. (2014). Review of bilayer tablet technology. Int J Pharm, 461 (1-2), 549-558. 310 Allen Jr., L. V., Popovich, N. G. & Ansel, H. C. (2007). Formas farmacêuticas e sistemas de liberação de fármacos (8.ª ed.). Porto Alegre: Artmed. Aranda da Silva, J. (2017). Vinte e cinco anos de evolução do INFARMED, I.P.: Os atuais desafios. Revista Portuguesa de Farmacoterapia, 9 (2), 45-49. Artiges, A. (1998). O papel da Farmacopeia e da Rede Europeia de Laboratórios Oficiais de Controlo da Qualidade no Sistema Europeu da Qualidade do Medicamento. Segundas Jornadas do Infarmed. Lisboa: Ministério da Saúde, Infarmed. Artiges, A. (2001). 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Geneva: World Health Organization. 320 da Légion d’Honneur de l’empereur Napoléon III (in Désiron, 2016). Também a Bélgica, o seu país natal, prestou homenagem ao importante industrial, atribuindo-lhe, em 1866, o título de Chevalier de l’Ordre de Léopold (in Désiron, 2016), erigindo-lhe um busto póstumo em 1933 e, ainda, integrando-o na toponímia (Braye, 2014). Após o seu falecimento, em 1879, é o filho Raoul que dá continuidade à Casa. Posteriormente, junta-se-lhe o irmão Henri (Braye, 2014; Désiron, 2016) e a produção desenvolve-se com encomendas da ‘marinha, armada e na senda da aventura colonial’ (Braye, 2014). Em 1901, com o falecimento de Raoul, diversas mudanças ocorreram (La Lancette française, 1883 in Désiron, 2016), que incluíram o estabelecimento de novas sociedades comerciais (Braye, 2014, Martin et al., 2016) sendo o último catálogo publicado em 1933 (Braye, 2014). 2.1. A aquisição à casa Mathieu em 1889 A pesquisa realizada no Arquivo da Universidade de Coimbra revelou uma cópia da fatura, datada de 29 de junho de 1889, respeitante à compra de 39 instrumentos pelo Museu Antropológico (Figura 2) no valor de 1546,75 francos, equivalentes a 284.365 réis. Conforme indicado pelo Diretor interino, Henrique Teixeira Bastos (1861-1843), o pagamento foi efetuado em 30 de julho do mesmo ano, através do envio de quatro vales de correio. Em 24 de setembro, a empresa H. Guichard do Porto, que rececionou a encomenda, enviou à Universidade de Coimbra uma nota de despesa no valor de 29.509 réis, que incluía itens como frete, direitos, selos e impressos da agência ao despachante (Figura 3). Na figura 4 reproduz-se a folha da Universidade de Coimbra, de 30 de setembro, em que é indicado o quantitativo das despesas do transporte ‘de Paris ao Havre, e do Havre ao Porto, e d’ali à Universidade’, aos quais foram adicionados o pagamento do caminho de ferro do Porto a Coimbra (580 réis) e o 321 transporte da estação de Coimbra até à Universidade (400 réis). Em 15 de outubro, Henrique Teixeira Bastos recebe da tesouraria este quantitativo. Analisada esta documentação, constata-se que decorreram três meses entre a chegada da fatura e a entrada dos instrumentos, tendo o pagamento ao fornecedor tardando apenas um mês. Figura 2. Frente e verso da fatura do débito do Museu Antropológico à casa Mathieu, discriminando as quantidades, números do catálogo e respetivos preços dos instrumentos. No verso consta a indicação do pagamento por Henrique Teixeira Bastos. (Arquivo da Universidade IV-1ªD-7-5-1_06 e 07). Figura 3. Memorandum e fatura da empresa H. Guichard relativa ao desalfandegamento e transporte (Arquivo da Universidade IV-1ªD-7-5-2_01 e IV-1ªD-7-5-2_02). 322 Figura 4. Folha da Contabilidade da Universidade dando conta das despesas associados ao transporte, internacional e nacional, até ao Gabinete de Antropologia (Arquivo da Universidade IV-1ªD-7-5-2_03). Confrontados os dados existentes na fatura e os do catálogo de 1873 da casa Mathieu (Figura 5), apresenta-se de seguida a listagem 323 dos instrumentos adquiridos. De referir que no catálogo constam, para além da numeração e da designação dos instrumentos, a descrição e a sua aplicação. Para alguns instrumentos existe igualmente uma referência bibliografia, frequentemente assinada por Broca, em que as características e funções foram indicadas detalhadamente. Neste trabalho apresenta-se apenas uma breve descrição dos instrumentos. A saber: Figura 5. Capa do catálogo da casa Mathieu, publicado em 1873. 324 A. Antropometria 3. Metro duplo. Articulado com molas. 4. Grande esquadro graduado. Determina a estatura do indivíduo e a altura de diversos pontos inferiores do seu corpo. 5. Grande tábua graduada (Broca). Instrumento de difícil utilização em trabalhos de campo, mas muito útil para os laboratórios. 6. e 7. Esquadro diretor e esquadro explorador (Broca). Para medidas, ditas, de duplo esquadro. 8. Goniómetro facial de Broca. Mede o ângulo facial (esqueleto e no vivo) e projeta o triângulo de Cuvier. Apresentado na Sociedade de Antropologia de Paris, na sessão de 22 de dezembro de 1864, por Paul Broca, alegando que os modelos existentes eram pesados e dispendiosos. Baseando-se no princípio craniométrico de Bush, adaptou um goniómetro e confiou a Louis Mathieu a sua execução (Rocha, 2009). 11. Esquadro auricular flexível. Instrumento antropométrico para determinar o bregma que é ligeiramente diferente do bregma osteométrico. 15. Dinamómetro de bolso de Mathieu. Instrumento em elipse com dupla função e dupla escala em Kg. Mede a força da pressão centrípeta exercida no sentido do eixo menor da elipse (escala interior – força de pressão da mão). A escala exterior mede e tração centrifuga sobre o grande eixo (força de tração do indivíduo). Pode, ainda, funcionar como balança. 16. Pneumómetro [espirómetro]. Grande fole para o qual o indivíduo lança todo o ar da expiração. A lâmina inferior está fixa e a superior, ao subir, desloca um cursor, B, que marca na escala o volume de ar expirado, em litros e quartos de litro. 17. Esfigmógrafo. Dá o traçado do pulso. Aparelho que regista o pulso arterial, cujo traçado avalia o seu tipo, intensidade e frequência (Manuila et al., 2004). 325 18. Antropómetro (Laboratoire d’anthropologie1). É destinado a medir a altura de todos os pontos do corpo e pode dar, igualmente, as medidas horizontais seguindo o método das coordenadas retangulares e o procedimento do duplo esquadro. B. Craniometria 1º Instrumentos gerais 20. Metro padrão em cobre para laboratório. Fixado numa parede, serve para aferir as fitas métricas. 25. Endómetro (Henri Mathieu). Introduz-se pelo buraco occipital para medir diâmetros intra-cranianos. Consiste em dois compassos opostos com ramos divergentes encurvados em S e articulados em X. O compasso inferior utiliza-se para o diâmetro ântero-posterior e o superior para os diâmetros transversais. O comprimento dos diâmetros é indicado para cada compasso por uma graduação marcada num dos ramos do outro compasso. 26. Paquímetro (Broca). Mede a espessura de qualquer ponto do crânio e serve para marcar no exocrânio um ponto de correspondência do endocrânio. 27. Compasso de Grandidier. Craveira transformada em compasso de espessura, pois tem as duas hastes encurvadas, as quais, quando reunidas, formam um circulo. 2º Instrumentos para determinar a posição do crânio 30. Cranióstato para o crânio humano. Tábua retangular onde se coloca o crânio, segundo o plano alvéolo-condiliano de Broca, para posteriores medições. Para ilustrar as figuras existentes no 1 ‘Os instrumentos ainda inéditos que construímos sob a direção do M. Broca, para o Laboratoire d’Anthropologie des Hautes Études, são indicados pelas palavras entre parêntesis: (Laboratoire d’anthropologie)’ (Catálogo, 1873: [3]). 326 catálogo, reproduzimos a imagem que conjuga os instrumentos números 30, 32 e 34 (Figura 6). Figura 6. Imagem do Catálogo da casa Mathieu (1873: 11), ilustrando a aplicação dos instrumentos números 30, 32 e 34 num crânio humano. 31. Cranióstato para anatomia comparada (Laboratoire d’anthropologie). Permite posicionar, no plano alvéolo-condiliano de Broca, crânios humanos e de animais de pequeno, médio e grande porte. 32. Orbitóstato de cremalheira (Broca). Pequeno instrumento que fixa a agulha orbitária no eixo da órbita. 34. Agulhas orbitárias. Agulhas que introduzidas na órbita, atravessam o buraco central do orbitóstato, dando assim a direção do eixo orbitário. Encontram-se aplicadas no crânio que ilustra a utilização do cranióstato (instrumento nº 30). 35. Régua bimilimétrica. Régua em marfim com 50 cm de comprimento, graduada apenas numa extensão de 20 cm. Utiliza-se na determinação do ângulo bi-orbitário, por um processo trigonométrico, que mede o afastamento das duas agulhas orbitárias no homem ou em qualquer outro vertebrado. 36. Cranióforo de Broca. Suporte de madeira e ferro que se introduz no buraco occipital para fixar o crânio numa posição horizontal com a ajuda da Libelle (instrumento nº 37). 327 37. Libelle (Broca). Instrumento em madeira, em forma de esquadro, destinado a orientar o crânio no cranióforo (instrumento nº 36). 3º Instrumentos para desenhar o crânio 40. Craniógrafo (Broca). Serve para desenhar, em projeção geométrica, os diversos contornos cranianos. Para isso são necessários o cranióforo e o craniógrafo. 41. Estereógrafo (Broca). Instrumento que permite desenhar, em projeção geométrica, os detalhes de exocrânio. 42. Suspensor e o fio de chumbo condiliano (Broca). É um suporte craniano para ser utilizado com o estereógrafo. 44. Endógrafo de Broca (Laboratoire d’anthropologie). Instrumento para desenhar as curvas endocranianas, através do buraco occipital. Compõe-se de quatro peças distintas: o fixador ou peça basilar, a placa negativa, a placa positiva e a régua com as respetivas armaduras. 45. Cefalómetro d’Antelme. Permite projetar no papel os pontos necessários para a construção das curvas cefálicas ou cranianas, medindo ângulos e raios, num sistema designado por método das coordenadas polares (Rocha, 2009). Concebido pelo médico A. Antelme, foi submetido em 1838 à apreciação da Academia das Ciências de Paris, tendo começada por ser utilizado na determinação das medidas cefalométricas no vivo (Antelme, 1860-1863) e, posteriormente, no crânio. Em 1839 foram construídos dois exemplares utilizados na ‘Expedition Scientifique du Nord’ e em 1845 foi aconselhado para a viagem ao Brasil por M. Darcet (Rocha, 2009). É considerado no Catálogo de 1873 como o primeiro dos instrumentos de precisão da Antropologia. 328 4º Instrumentos especiais 57. Goniómetro parietal (Quatrefages2). Grande compasso articulado que serve para determinar o ângulo parietal, tanto no vivo como no esqueleto. Foi apresentado à comunidade científica na Academia de Ciências de Paris, em 1858. O pensamento científico do séc. XIX atribuía grande importância ao ângulo parietal na ‘distinção das raças humanas’ (Prichard in Quatrefages, 1858), o que levou Quatrefages a idealizar e a mandar fabricar o goniómetro parietal (Rocha, 2009). 58. Nível occipital (Broca). Em forma de gancho, coloca-se a parte retilínea sobre o eixo do buraco occipital e a ponta da parte recurvada vai marcar o perfil do crânio, ao nível do plano do buraco occipital que varia de ‘raça’ para ‘raça’. 60. Goniómetro occipital retangular para anatomia comparada (Broca). Eram fabricados dois modelos, um grande e um pequeno, para animais de diferentes portes. Atendendo às dimensões, crê-se que terá sido adquirido o menor. 61. Compasso de espessura com três ramos3. Resulta duma adaptação mais funcional do instrumento usado pelos escultores, que Quatrefages utilizava. 63. Goniómetro auricular (Broca). Mede os ângulos auriculares. 66. Gancho esfenoidal e a sonda ótica. Medem o ângulo esfenoidal de Virchow e Welcker, sem abrir o crânio. 2 Jean Louis Armand de Quatrefages de Bréau (1810-1892), naturalista e antropólogo francês (Ferembach, 1989). 3 Este instrumento não está desenhado no catálogo, pelo que não é possível confirmar a sua forma. Terá custado 12 francos. No entanto, existe no acervo da Universidade de Coimbra um instrumento (número 62) idêntico ao ilustrado na figura 41, designado por compasso de espessura de três ramos (Broca) (Laboratoire d’Anthropologie) com custo de 25 francos e que não consta na fatura de compra. Assim, questiona-se se terá havido algum lapso no envio. 329 67. Gancho túrcico (Broca). Determina, por exemplo, o ângulo da sela de Landzert, cuja cúpula está na lâmina quadrada e o comprimento da apófise basilar. 72. Cranioscópio (Broca). Para a observação do endocrânio, através do buraco occipital, compõe-se de um aparelho de iluminação, espelhos e suporte do espelho. 5º Instrumentos construídos para o laboratório de Antropologia 74. Moldura [chassis] de Pierre Camper. Desenho geométrico do crânio por projeção num plano vertical. 80. Goniómetro de Morton. Destinado às demonstrações dos cursos de craniologia, foram construídos sem modelos, a partir de descrições ou figuras publicadas pelos seus autores. 82. Aparelho de Mantegazza. Utilizado para medir a área do buraco occipital, foi construído a partir de um modelo vindo de Florença. C. Osteometria 90. Osteómetro [tabua osteométrica] (Laboratoire d’anthro- -pologie). Permite medir os ossos sobre uma escala graduada. Estes instrumentos usados nos estudos de antropometria, craniometria e osteometria, pretendiam avaliar morfometricamente a população viva e proceder à identificação civil e criminal (Rocha, 1985). O esqueleto era pesquisado com vista à definição de ‘tipos raciais’4 em indivíduos provenientes de escavações, ou de outras recolhas, efetuadas tanto no território nacional como nas colónias e, também, nas recém-constituídas coleções de crânios identificados. 4 Os estudos genéticos revelaram há algumas décadas que na espécie humana não existem raças. A variabilidade é entendida como uma adaptação ao ambiente (Jurmain et al., 2017). 336 Rodrigues, A. M. (1999). O orientalismo em Portugal: séculos XVI-XX. 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The tools, the sources for their study and their context illustrate textbooks, provide data on similar medical thought and practice in the whole Roman Empire and on physician’s social status. They testify the existence of funerary medical honours such as heroization, following the example of Asclepius, the patron of Graeco-Roman medicine. The finding of surgical instruments 338 in female tombs also discloses the existence of female medical practitioners. Focusing on Greek-Roman surgical tools provides an accurate and global view on founding procedures that established Western surgery. Keywords: Surgical instruments, Graeco-Roman medicine, History of surgery, Women doctors, Roman archaeology Resumo: Visualizar a história da ciência através de seus objetos proporciona uma compreensão prática e directa de seu nível técnico-científico e do seu contexto histórico-social. Essa abordagem é particularmente útil no estudo da cirurgia e dos seus instrumentos greco-romanos, destacando seus avanços incomparáveis em relação às proto-medicinas anteriores. Um levantamento dos instrumentos deixa clara a complementaridade entre medicina e cirurgia, bem como sua concepção e a preparação de medicamentos por médicos. Os instrumentos, o estudo das suas fontes e o seu contexto ilustram os textos, fornecem dados sobre o pensamento e a prática médica semelhante em todo o Império Romano e sobre o estatuto social do médico. Testemunham a existência de honras médicas funerárias como a heroização, seguindo o exemplo de Asclépio, patrono da medicina greco-romana. A descoberta de instrumentos cirúrgicos em túmulos femininos também revela a existência de médicos do sexo feminino. O estudo dos instrumentos cirúrgicos greco-romanos fornece uma visão precisa e global sobre os procedimentos fundadores que estabeleceram a cirurgia ocidental. Palavras-chave: Instrumentos cirúrgicos, Medicina greco- -romana, História da cirurgia, Práticas funerárias, Médicos do sexo feminino, Arqueologia romana 339 1. Graeco-Roman medicine Graeco-Roman medicine, extended from Hippocrates (460-370 B.C.) to Paul of Aegina (625-690 A.D.), the last Byzantine compiler, laid the foundations of rational medical thought, explaining diseases by natural causes, as opposed to a supernatural origin, characteristic of earlier magical proto-medicines. The shift from magical to rational thinking is difficult to trace, but it is already evident in the Homeric epics (Jaeger, 1993, 150-151). An emerging difference in the concept of deities may be at the basis of rational thinking. Gods are anthropomorphic and stand very close to humans. For Homer, gods are similar to humans. Although gods are beings who live without weight, they present human traits. Trivial feelings govern them. They get angry, fight, intrigue, are sensitive to pain, have feelings of revenge; they feel and behave just like men (Barnnert, 1979, pp. 15, 88). Gods are not only close to men; they fall in love with mortals and marry them (Romilly, 2001, p. 73). In the Odyssey, men assume and accept mortal boundaries. Odysseus preferred Penelope and his human life. He refused goddess Calypso’s offer to turn him into a god: “I offered to make him immortal and ageless.” (Homer, Odyssey, Book 5, v. 135, Rieu, 1991, p. 74). In Homer’s epics, rational thinking goes into the myth and starts to change it. Between 650-330 B.C., the pre-Socratic philosophers formulated new theories launching the basis of modern science (On this subject, see Jaeger, 1993, pp. 150-180). New concepts provided the insights that were lacking in myth, enabling the further development of philosophical and scientific thought (Mansfeld & Primavesi, 1983, pp. 16-17). Ionic philosophy followed the epics. Between 650330 B-C., new findings and theories formulated by the pre-Socratic 340 philosophers launched the basis of modern science (On this subject, see Jaeger, 1993, pp. 150-180). Later, the belief in myth decayed. Pindar (517-438 B.C.), the great lyrical poet commented on the myth of Pelops, son of Tantalus, the founder of the House of Atreus, constructed on the legendary origin of the equestrian events at Olympia (Swaddling, 1980, p. 66). Pindar expressed disbelief in myths (men told stories) when referring to Pelops in the first Olympian Ode. “Yes, wonders are many, but then too, I think men’s talk stories are embellished beyond the true account and deceive by means of elaborate lies.” (Pindar, Olympian 1, vv. 28b, Race, 1997, p. 49) Rational thinking also prevailed in medicine from the pre-Socratic philosophers to the Classical. The Hippocratic writings (460-370 B.C.) came out by that time. According to Jacques Jouanna: “Hippocratic medicine combines observation of the sick with an over-all reflection starting from fundamental concepts of which the Greek were the inventors, in particular art and nature. Medicine from Hippocrates onwards is defined by as a technē, a Greek term which covers two inseparable notions of this period, art and science, both of which are opposed to chance. The special feature of this technē is that it is applied to man and presupposes the knowledge of man. For, to understand the man is to understand his physis (Nature), his nature a fundamental operating concept unknown to other medicines of the Mediterranean basin, such as Egyptian medicine or Mesopotamian medicine” (Jouanna, 2010, p. 5). As a result, in the Hippocratic treatise “Nature of Man”, a new concept of disease was enunciated. 341 “The body of men has in itself blood, phlegm, yellow bile, and black bile; these make up the nature of his body, and through these, he feels pain or enjoys health. Now he enjoys the most perfect health when these elements are duly proportioned to another in respect of compounding, power, and bulk, and when they are perfectly mingled.” (Hippocrates, Jones, 1959, pp. 11). In this text and the treatise “On the Humours”, health was presented as a balance of the four humours composing the body, the disease resulting in a balance disturbance. Blood-letting would expel the excess of blood. Vomiting, purging and sneezing would derive the other humours (Hippocrates, Jones, 1959, pp. 79-95). This new concept of health and disease shifted the previous magical paradigm into a rational basis, enhancing empirical observation and thought. Physicians also took hold of surgery. It was a great feat of Greek medicine. Asclepius, the patron of the physicians, was an eminent surgeon. In Apollodorus’ Chronicle, a vital source from the second century A.D. for the Greek myths, we read that: “Asclepius proved to be a skilled surgeon and practised his craft so well that he not only kept some people from dying, but he even raised people who had died.” (Apollodorus, Book III, 121, Smith & Trazkoma Transl. 2007, pp. 59-60). Many surgical procedures remained the same as in Greek-Roman times, currently carried out with anaesthesia and modern tools. Some ancient instruments like scalpels, forceps, tweezers, vaginal or rectal specula are also quite similar to current devices. 2. Graeco-Roman surgery Amongst simple surgical procedures were bloodletting and cupping (Scarborough, 2010, p. 248). Their use was related to the 342 excretion of the excess of harmful substances believed to cause the diseases. Cupping vessels were already in use before Hippocrates. Six cupping vessels from a tomb in Ialysus, Rhodes, figure in medical relief. Two cupping vessels are hanging in the background of a tomb relief depicting a sitting doctor with a little boy standing in front of him. It is possibly from Egea and dated from about 480 BC. The cupping vessels are the only signs that identify the man as a physician. This relief states that cupping vessels were the identifying medical symbol in ancient Greece. (Künzl, 2002, p. 16). Asclepius was the most important healing hero in ancient Greece who became a god after his death. The serpent linked to his cult was kept as a memory of his hero status, according to the German archaeologist Ferdinand Kutsch (1889-1972) (Kutsch, 1913, p. 32). A tombstone from Athens, second century BC, housed in the British Museum, presents Jason, an Athenian physician examining the swollen belly of a child, is an example of an ancient medical appointment. Jason is seated on a cushioned stool, bearded and draped. He examines a patient, a child with an unnaturally distended belly. On the right side, there is an egg-shaped object resembling a cupping vessel. In translation, the inscription reads: ‘Jason, also known as Decimus, of the Archarnian deme [an administrative division of Athens] a physician’ (British Museum website). (Figure 1) the inscription reads: ‘Jason, also known as Decimus, of the Archarnian deme [an administrative division of Athens] a physician’ (British Museum website). (Figure 1) Besides simple procedures, Greek physicians started to perform more complex operations. In previous cultures, surgical procedures dealt mainly with trauma. Issues resulting from cranial trauma may have motivated Neolithic trepanations may have been carried out to 343 resolve complications due to cranial injury (Barroso, 2010, pp. 130141). Graeco-Roman surgery largely improved trauma surgery and launched elective procedures beyond trauma, aiming to solve specific problems, often appearing as the only possibility of saving the patients’ lives. Descriptions of about one hundred twenty different operations figure in textbooks (Bliquez, 2016, p.1). Pleural-thoracic empyema was drained since Hippocrates (Hippocrates, Potter, Volume VI, p. 55). Embryotomy ranges among the most remarkable surgical achievements. It was first described in Hippocratic times in the text De excectione foetus (Schubert and Huttner, 1999, pp. 370-373). The operation was performed to remove a dead child from the living mother´s womb. The Roman encyclopedist Caius Cornelius Celsus (25 BC-50 AD) described the most relevant Greek-Roman surgical procedures performed at his time, such as eye surgery that was widely developed, including cataract couching (Celsus, Book VII, 7, Henderson, pp. 349-351). The abdominal cavity was left untouched. However, hernia repair was carried out (Celsus, Book VII, 18, Henderson, p. 399). Extraction of bladder stones by rectal incision was hazardous, but it was described by Celsus as the last resource to attempt saving the patient’s life (Celsus, Book VII, 26, Henderson, pp. 431-439). 3. Tools and training Physicians devised their instruments. A text written by Galen (130-210 AD), after a fire that destroyed some of his most esteemed goods, enlightens the manufacture of medical-surgical tools: “You were amazed that I was seen bearing without distress the destruction in the fire not so much of my silver, gold, silver plate and the many loan documents that were deposited there, as that 344 of a further mass of stored there, namely, a huge quantity of drugs of all sorts, both simple and compound, and instruments of every kind. Some, valuable for medical purposes, I said I had lost but still hoped to replace, but that other instruments I had invented myself, making models out of wax before handing them over to the bronze-smiths, these I cannot replace without a great deal of time and effort; likewise books, both those copies of the writings of ancient authors corrected by my own hand and my compositions, as well as so-called antidotes (…)” (Singer, 2013, pp. 78-79) Physicians devised wax models for the bronze-smiths to shape them, as Galen stated in this text. The instruments are similar throughout the Empire, as the doctor and surgeon, John Stuart Milne observed. They share the same “air de famille” (Milne, 1907, p. 18). This similarity leads to the assumption of a common practice throughout the Empire. Otherwise, physicians read the same books and appear to have followed identical standards. Ancient physicians, represented in reliefs with scrolls (books) and medical-surgical instruments seem to share similar collective learning, training, and practice. As in our days, they learned, trained and spoke the same language throughout the civilized world. The teachers were recognized by the Greeks, especially at a high level of education. The master’s role was particularly emphasized when training a technical skill, whether for further education or to become a professional (Massar, 2010, p. 170). In Galen’s text, it is clear how relevant learning was for physicians. He states that he corrected them with his hand. Galen wrote several comments on Hippocratic texts, adding his observation, research, and experience. Like Galen, physicians followed their masters. The Byzantine compilers gathered the most important written works and added their expertise, improving techniques, devising tools, introducing new procedures. 345 A relief from a marble sarcophagus from Ostia, Italy, portraying a physician with his scrolls (books) and instruments illustrates the patterns followed in medical practice (Figure 2). The physician is sitting, holding a scroll, showing that he is a learned man. A case with surgical tools on the cabinet top identifies him as a physician. Scrolls and a bleeding basin are also proofs of his profession. The style of his garments and the Greek inscription identify him as a Greek physician in Rome. Strigils decorate both sides of the sarcophagus. Strigils, used by athletes to scrape away oil and dust after sportive competitions, were also used in medicine. Galen widely mentioned their use in his book “De Sanitate Tuenda” (Green, 1951). 4. Identifying medico-surgical tools Graeco-Roman medical-surgical instruments rank among archaeological objects of everyday life, and some tools, such as knives are similar to devices used for other purposes unless they come from a surgical context. The German archaeologist Ernst Künzl has carried out significant research on instruments found in physician’s tombs, providing accurate identification of different typologies (Künzl, 1982). Toilet tools also require careful attention. Instruments such as tweezers/forceps are similar to tweezers of medicinal use. These are longer and of better quality, the top being frequently decorated with balusters and beadings. Some tweezers are made up by splitting a single strip of metal. Some have serrated grips (Eckart, 2008, p. 160). 352 land, used to attach feminine garments, identified the deceased as a woman. A scalpel handle and a razing blade handle identified her profession as a surgeon (Künzl/Engelmann, 1997, 376 Fig 2; Künzl, 2002, p. 94, Fig.132; Künzl, 2013, pp. 95-96, Fig. 40). 7.4. The dentist from Wederath Upon the discovery of the tomb Nr. 1539 in the Celtic necropolis of Wederath, currently, in Belgium, a study of the ashes was carried out. It was compatible with a young woman. An iron dental forceps and a razor blade found within have identified the profession of the deceased as a surgeon who also practised dentistry. The findings of the tomb, dating from 100 A.D., are housed in the Archaeological Park of Wederath, Belgium (Künzl/Engelmann, 1997, p. 376 Fig 1; Künzl, 2013, p. 95, Fig 41). 7.5. The physician from Heidelberg-Neunheim The anthropological study of the human remains of an inhumation tomb, found in Heidelberg-Neuenheim, in Germany, ancient Germania Superior, identified a woman aged thirty to thirty-five. Two bronze cupping vessels, a spoon-probe, a slate palette, and two mortars identified the profession of the deceased as a physician. Bones of a dog, frequently associated with Asclepius´ cult, were also found. The findings of the tomb, dating from 100-150 A.D., are housed in the Kurpfälzig Museum Heidelberg (Hensen, 2004, pp. 76-79; Künzl, 2013, p. 87, Fig. 32). 353 7.6. The oculist from Saint-Médard-des Prés Roman villa in Saint-Médard-des Prés, in France, in 1847. The anthropological study identified a female skeleton. The house and the tomb were thought to belong to a Gallic painter because of the finding of many supposedly painting materials. When the materials were studied, the identification with eye medicines came out. An alabaster mortar, a bronze rectangular box with remains of ancient collyria, spoon-probes, a slate palette, numerous glass balsamaria, and small ceramic amphorae identified the deceased with a specialist in the preparation of eye medicines, possibly a doctor of eye diseases. However, no tools like cataract needles and others used in eye surgery came out among the findings currently housed at the Vendéen Museum in Fontenay-le-Comte (Pardon-Labonnelle, 2008, pp. 157-170; Dasen, 2011; Künzl, 2013, p. 93, Fig. 39). A mortar and pestle and glass balsamaria, found in a tomb from Pombalinho, Santarém, in Portugal, dated from the end of the first century/beginning of the second century A.D., seem to point to the profession of the deceased as someone skilled in drug preparation (AA/VV, 1989, pp. 89-91). The case of the women from Saint-Médard-des-Prés might be the same. 8. Conclusion Graeco-Roman medicine, based on rational thinking and practice, was very interventional. Adopting cupping vessels as a symbol, earlier Greek physicians placed great emphasis on surgery. Although there were references to some anaesthetics, they were certainly challenging to manage because of their toxicity and, consequently, would have been seldom used. The ignorance of bacteriology, sepsis, and antisepsis, was also of no help for ancient surgeons. Wealthy 354 decorations state the high social status of many ancient physicians but were hazardous in the healing of wounds and in the recovery of surgical operations. Surprisingly, patients survived. Somehow doctors with so few resources were healing heroes. In many cases, texts report remarkable improvements in surgical techniques and procedures. Their instruments testify some of the most remarkable achievements of medicine and surgery in Graeco-Roman time. Acknowledgements I want to thank the British Museum, the Metropolitan Art Museum New York, the Wellcome Library and Dr Antonio Carvalho, Director of the National Museum of Archaeology in Lisbon, for the kind permission to reproduce the images. References AA.VV. Museu Nacional de Arqueologia e Etnologia (org.). 1989. Portugal. Das Origens à Época Romana, Lisboa: Museu Nacional de Arqueologia e Etnologia. Adams, F. (1844-1847). The seven books of Paulus AEgineta: translated from the Greek: with a commentary embracing a complete view of the knowledge possessed by the Greeks, Romans, and Arabians on all subjects connected with medicine and surgery, London: The Sydenham Society. Alves, F., Raposo, L., Santos, A. (org.). (1995). Um gosto privado/Um olhar público, Doações D. Luís Bramão, Bustorff Silva, Barros e Sá, Lisboa: Instituto Português de Museus/Museu Nacional de Arqueologia. Apollodorus´ Library and Higgin’s Fabulae. Two Handbooks of Greek Mythology (2007). Smith, R. 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Courtesy of the Metropolitan Museum of Art New York. 358 Figure 3 – Marble relief from the Athens Asklepeion, second century AD (Reproduced from Milne, 1907, Plate V). Figure 4 – A Slate palette for mixing ointments, from a set of Roman surgical instruments and accessories. Museum number 1968.0626.30. Courtesy of the British Museum. 359 Figure 5 – ‘Dentistry Case’ from Bustorff da Silva Collection. From left to right: rectangular box to store medicines and lid, spoon-probe, spatula-probe, triangular spoon-probe, periosteal elevator, tweezers, small tweezers with a sliding ring, scalpel handle, dental forceps. Photo credit: João Pessoa. Courtesy of the National Museum of Archaeology Lisbon. Figure 6 – Set of instruments from Torre d’Ares. On the right corner – Slate palette. From right to left: a copper needle for bandage sewing, copper alloy perforated fish spatula-probe, spatula-probe, two copper alloy probes, copper alloy ear-probe, two copper alloy spatula-probes, copper alloy/silver spoon, two copper alloy (needle?) fragments, copper alloy/silver scalpel handle, four copper alloy tweezers. Photo credit: João Pessoa and Luísa Oliveira. Courtesy of the National Museum of Archaeology Lisbon. 360 Figure 7 – Bronze cataract needle from a set of surgical instruments and accessories. Provenance: Italy. Date: Roman period? Inv. Nr. 1968, 0626.31 Courtesy of the British Museum. 361 Figure 8 – Roman gynecological and obstetric instruments. 1 and 2 Curettes, 3 and 4 Uterine probes, 5 Bronze probe, 6 Fragment of a cranioclast, 7 Embryotomy hook, 8 Embryotome, 9-Small embryotome hook (Reproduced from Diepgen 1937, p. 262). 368 3. Infection Control Awareness Through Education (ICATE) A sensibilização para o controlo de infeção através da educação tornou-se uma prioridade para a AWISHE. Assim, o ICATE é um projeto composto por programas educacionais, dirigido a crianças, professores e profissionais de saúde que assenta em: a) três dos oito Objetivos do Milénio: (i) conseguir educação básica para todos, (ii) combater o Vírus da Imunodeficiência Humana (VIH) / Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (SIDA), a Malária, a Tuberculose e outras doenças infeciosas, e (iii) criar plataformas de colaboração para o desenvolvimento; e (b) dois dos dezassete Objetivos para a Sustentabilidade e Desenvolvimento: (i) assegurar uma vida saudável e bem-estar para todas as idades, e (ii) assegurar uma qualidade de educação inclusiva e equitativa, e promover a aprendizagem ao longo da vida para todos (United Nations, 2017). O ICATE é um projeto educacional dirigido a zonas rurais e comunidades desfavorecidas, que serve de interface para a partilha de conhecimento entre universidades, hospitais, escolas e as comunidades locais, criando, desta forma, Comunidades de Aprendizagem Colaborativa. Desenhado para ser implementado em países em desenvolvimento e/ou comunidades rurais, é único e distinto dos outros na medida em que se foca nos alunos, nos professores e no desenvolvimento das suas competências na área da saúde, particularmente no controlo de doenças infeciosas. Nos países africanos, o Vírus da Imunodeficiência Humana/ Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (VIH/SIDA), a Malária e a Tuberculose são três dos principais problemas de saúde que necessitam de um alerta contínuo através de programas educacionais intensos. Também no Brasil, em comunidades rurais, o alerta para VIH/SIDA, Malária, Tuberculose, Dengue e resistência a antibióticos é uma necessidade urgente. 369 O projeto ICATE envolve a formação intensa de professores em cada um dos temas selecionados, nomeadamente, VIH, Malária e Tuberculose, permitindo-lhes aplicar e desenvolver actividades com os seus alunos, por forma a entenderem estes problemas de saúde, podendo assim preveni-los e/ou controlá-los desde muito cedo. Este projeto foca-se em dar a conhecer aos alunos, quer através da formação dos seus professores, quer através de formação própria, um conjunto de conceitos que, embora básicos, são essenciais para a prevenção e controlo destas doenças. É de extrema importância o desenvolvimento de programas que desde cedo coloquem as crianças em contacto com a Ciência. Tendo em conta esta necessidade, o ICATE, além de um projeto que visa educar para o controlo de infeção, pretende também aumentar o capital científico de cada criança. 3.1. Equipa Multidisciplinar A equipa que compõe o projeto ICATE é uma equipa multidisciplinar que reúne médicos, farmacêuticos, biólogos, microbiólogos, antropólogos e historiadores da Ciência, que partilham o seu conhecimento através de formação intensiva a professores e/ou profissionais de saúde, que depois transmitem os conhecimentos adquiridos às crianças e/ou população em geral. No final da implementação do projeto, espera-se que esteja criada uma comunidade sustentável de aprendizagem colaborativa. 3.2. Materiais didáticos O ICATE tira partido da formação das Comunidades de Aprendizagem Colaborativa para facilitar a transferência de conhe- 370 cimento e experiência educacional das universidades para as escolas, hospitais e comunidade em geral, dando à população um conjunto de ferramentas que lhe permitirá lidar e/ou participar no controlo de infeção mais proativamente. Assim, com o objetivo de combater o VIH/SIDA, Malária e Tuberculose, foram desenvolvidos programas contínuos e vigorosos que ajudam a implementar, no terreno, atividades que promovem a saúde através do melhor conhecimento destas doenças, permitindo assim um diagnóstico mais célere. É de salientar que os programas não são apenas um conjunto de atividades pontuais, mas sim programas contínuos, que, quando implementados pelos professores e/ou profissionais de saúde que recebam a formação para os implementar, demoram um ano letivo a cumprir todas as atividades referentes aos temas propostos. Após a formação, é disponibilizado, aos professores formados, um conjunto de materiais pedagógicos, composto por apresentações powerpoint, manuais, e um guião para cada atividade. O programa referente a cada tema é composto por 10 sessões, que incluem uma exposição teórica e uma atividade prática. Os alunos recebem dos seus professores e/ ou, em casos pontuais, da própria equipa do projeto, manuais e os trabalhos resultantes da execução das atividades propostas. Em cada tema, uma das suas 10 sessões, é dedicada à história do tema e da investigação científica a ele associada. Ou seja, o programa referente ao VIH/SIDA conta com uma sessão dedicada à história do vírus e da síndrome, bem como à história da investigação científica associada a esta problemática. De igual modo, do programa referente à Malária faz parte uma sessão dedicada à história da Malária, e da investigação científica que tem vindo a ser desenvolvida sobre esta doença. Também o programa de Tuberculose conta com uma sessão dedicada à história da Tuberculose, e da investigação científica associada a esta doença. O principal objetivo da sessão relativa ao VIH/SIDA é compreender o conceito, origem, emergência, primeiros casos, disseminação, 371 identificação e distribuição do VIH e da SIDA. Quanto à origem do VIH, o Vírus da Imunodeficiência de Símios (VIS) terá sido transferido, de forma natural, de primatas não humanos para seres humanos, mutando-se, rapidamente, no VIH, em finais do século XIX ou inícios do século XX, em África, onde emergiu, devido a vários fatores. A evidência da existência do VIH mais antiga confirmada é proveniente do sangue do “homem congolês”, recolhido em 1959, e cuja positividade foi confirmada em 1998. Depois de se começar a disseminar por todo o Mundo, foi em 1982 que se oficializou o termo SIDA. Contudo a identificação do vírus apenas aconteceu entre 1983 e 1985, e o nome VIH foi oficializado em 1986. No que se refere à distribuição mundial, em 2014, existiam cerca de 36.900.00 pessoas portadoras de VIH (Pickrell, 2006; Sharp e Hahn, 2011; S/A, 2018; Mandal, A. 2019a; S/A, 2019). O principal objetivo da sessão relativa à Malária é compreender o percurso evolutivo do vetor, do parasita e da doença, bem como a história da investigação científica inerente a esta doença. Provavelmente, as espécies de Plasmodium que atualmente provocam Malária aos humanos tiveram origem em primatas não humanos de África há milhares de anos. A descrição mais antiga de sintomas coincidentes com os sintomas da Malária pode ser encontrada no Canon da Medicina, escrito na China, em 2 700 a. C. Ao longo do tempo, vários foram os tratamentos propostos. A descoberta do parasita da Malária (espécies do género Plasmodium) foi feita por Charles Laveran, em 1880. Passados seis anos, em 1886, Camillo Golgi fez a diferenciação de várias espécies. De 1890 a 1922, foram vários os investigadores que deram nome às diferentes espécies de parasitas. Entre 1897 e 1898, Ronald Ross descobriu que o mosquito (fêmeas de espécies do género Anopheles) é o vetor do parasita da Malária. Entre 1898 e 1899, Giovanni Grassi e alguns colegas perceberam o ciclo de transmissão da Malária entre humanos. Na década de 1980, começou a ser desenvolvida uma vacina para a Malária, a RTS,S (co- 372 nhecida como Mosquirix). O seu uso foi aprovado por autoridades europeias, em 2015 (S/A, 2016; World Health Organization, 2019). O principal objetivo da sessão relativa à Tuberculose é compreender o percurso evolutivo da bactéria que provoca a Tuberculose e da própria doença, bem como a história da investigação científica a ela inerente. As estirpes atuais de Mycobacteirum tuberculosis (principal bactéria que causa Tuberculose) têm uma origem provável entre os 15 000 e os 20 000 anos. A evidência mais antiga de Tuberculose foi encontrada em esqueletos humanos, em Israel, datados de 7 000 a.C. Em 1854, Hermnann Brehmer abriu o primeiro sanatório anti Tuberculose, onde eram mantidas as pessoas que exibiam sintomas da doença. Em 1865, Jean Villemin demonstrou a natureza infeciosa da doença. Em 1882, Robert Koch descobriu o agente infecioso que provoca a Tuberculose, e que ficou conhecido como Bacilo de Koch, hoje cientificamente designado M. tuberculosis. Em 1906, Albert Calmette e Camille Guérin desenvolveram a primeira vacina com sucesso contra a doença, a BCG (Bacilo de Calmette e Guérin), usada pela primeira vez em humanos em 1921 (Daniel, 2006; Frith, 2014; Mandal, A. 2019b). 3.3. Histórico das ações A implantação nacional do projeto ICATE ocorreu em maio de 2016, no então Instituto de Promoção Social de Bustos, no concelho de Oliveira do Bairro, Portugal, com cariz de ação piloto. Esta ação teve a duração de um mês, ao longo do qual as atividades foram desenvolvidas de uma forma mais intensiva. Também nesse ano, ocorreu a implantação internacional do projeto. De 6 a 9 de junho, teve lugar, no Colégio Maria Auxiliadora, em Canoas, Rio Grande do Sul, Brasil, o I Encontro Nacional de Treinamento de Formação de Professores e Tutores de Comunidades 373 de Aprendizagem Colaborativa. Esta atividade foi composta por dois grandes momentos: um Salão Científico, onde os membros da equipa do projeto ICATE fizeram uma apresentação das suas áreas de investigação, e a formação de professores e alunos. Ainda no mesmo ano, o projeto foi divulgado noutro continente, tendo sido apresentado ao então Ministro da Educação de Moçambique, ao Reitor do Instituto Superior de Ciências e Tecnologia de Moçambique (ISCTEM), ao coordenador da rede de escolas associadas do Programa de Escolas Associadas (PEA) da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO). 3.4. Resultados Como referido anteriormente, o cumprimento de todas as atividades, referentes aos três programas do projeto ICATE, demora um ano letivo. No final desse ano, teremos não só professores formados pela equipa que compõe o projeto ICATE nas três áreas, VIH, Malária e Tuberculose, como também cada aluno educado pelos seus professores passará a actuar como um potencial disseminador de conhecimento. A primeira ação de implantação do projeto, no Instituto de Promoção Social de Bustos, resultou na formação de 50 alunos e duas professoras do primeiro ciclo. Esta versão piloto revelou-se extremamente útil na aferição dos conteúdos que compõem os diferentes programas. Da implantação do projeto no Brasil, resultou a formação de 83 professores de diferentes ciclos de ensino e diversas áreas do conhecimento, provenientes de várias escolas públicas e privadas, de distintos municípios do Rio Grande do Sul e de São Paulo. Estiveram também presentes na formação 54 alunos do 9º ano e do ensino secundário, do Colégio Maria Auxiliadora. Desta ação, resultou ainda 374 a assinatura de vários protocolos de colaboração entre a AWISHE e diversas entidades brasileiras, entre as quais, universidades, escolas, e órgãos governamentais. Relativamente à ação de divulgação do projeto ICATE em Moçambique, desta resultou a assinatura de três protocolos de colaboração, nomeadamente, com o ISCTEM, a Unidade de Processamento de Ideias (UPI), e a organização não-governamental OSUWELA – Associação para a Promoção do Desenvolvimento através da Formação em Ciência. 4. Conclusões Os dados da OMS mostram a necessidade global de sensibilizar a população para a prevenção de doenças infeciosas que, para ter impacto a longo prazo, tem de começar a ser feita intensamente junto dos mais novos. O aumento do conhecimento sobre os hábitos de saúde e o envolvimento das comunidades na promoção de hábitos de vida saudáveis terão também um impacto económico significativo, uma vez que farão diminuir, não só os dias que o indivíduo está doente, e logo não produtivo, mas também, no limite, o número de mortes nos países mais afetados por estas doenças infeciosas. O ICATE tem um papel a desempenhar junto dos profissionais de saúde e dos professores, e consequentemente junto dos mais novos, contribuindo para a alteração de hábitos e mentalidades, tornando assim a nossa sociedade mais informada e capaz de agir no combate às doenças infeciosas. 375 5. Referências IUHPE (2009). Construindo escolas promotoras de saúde: diretrizes para promover a saúde em meio escolar. International Union for Health Promotion and Education. Ahmed, Syed Mia C. DeFino, Emily R. Connors, Anne Kissack, Zeno Franco (2014) Science Cafés: Engaging Scientists and Community through Health and Science Dialogue. 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Acedido a 07 de março de 2019 em: https://www.who.int/malaria/en/ 377 “g e s tão sustentável dos reCursos” – a va l i aç ão da s a tividades P rátiCas dos manuais esColares d e CiênCias naturais: ed i ç ão 2007 Versus 2014 sustainaBle m anagement o f r esourCes” – evaluation o f PraCtiCal a Ctivities o f n atural sCienCes sChoolBooks: 2007 edition Versus 2014” Estefânia Pires1, Celeste Gomes1, Isabel Abrantes2, Alcides Pereira3, Gina Pereira Correia4 Estefânia Pires – https://orcid.org/0000-0002-3390-6867 Celeste Gomes – Falecida Isabel Abrantes – https://orcid.org/0000-0002-8761-2151 Alcides Pereira – https://orcid.org/0000-0002-7392-2255 Gina Pereira Correia – https://orcid.org/0000-0002-0269-7564 Resumo: As atividades práticas (AP), incluídas na unidade curricular “Gestão sustentável dos recursos”, foram avaliadas 1 CITEUC, Departamento de Ciências da Terra, Universidade de Coimbra, este- [email protected] 2 CEF, Departamento de Ciências da Vida, Universidade de Coimbra, isabel. [email protected] 3 MARE, Departamento de Ciências da Terra, Universidade de Coimbra, aperei- [email protected] 4 CITEUC, [email protected] 384 concordantes, por forma a encontrar uma solução consensual. A análise em dois tempos foi importante, na medida em que permitiu garantir a fiabilidade da análise, minimizar eventuais erros, verificar a consistência dos resultados e diminuir a subjetividade inerente ao processo de análise. A metodologia utilizada na análise das AP consistiu em procedimentos de cariz qualitativo. A análise qualitativa implicou a aplicação da técnica de análise de conteúdo, com a definição dos objetivos, a análise documental e a revisão bibliográfica que possibilitou utilizar e adaptar taxonomias de classificação e de análise de frequência das atividades, segundo um processo de categorização e codificação (Amado, 2000). As categorias de análise foram definidas recursivamente à interpretação das AP. 3. Resultados e discussão Os ME editados em 2014 apresentam um maior número de AP (n=204) num número total de páginas inferior aos ME de 2007 (Tabela II). Tabela II – Número de páginas e de atividades práticas (AP) nos manuais escolares (ME) de Ciências Naturais, do 8.º ano de escolaridade, na unidade curricular “Gestão sustentável dos recursos”. ME Páginas/ME (n) AP/ME (n) ME editados em 2007 A 109 17 B 81 55 C 76 18 D 60 26 E 72 46 Total (n) 398 162 ME editados em 2014 F 62 61 G 55 35 H 63 29 I 105 44 J 80 35 Total (n) 365 204 (n) – Número total. 385 Número de atividades práticas por manual escolar e por sub- -subtemas/conteúdos a lecionar por objetivos Na análise dos dados referentes aos manuais de 2007 sobressaem os ME B e E, com 55 e 46 AP, respetivamente, representando 62,3% do total das atividades (Tabela III). A unidade curricular “Gestão sustentável dos recursos” nos ME de 2007 está organizada em três sub-subtemas e nos ME de 2014, os conteúdos a lecionar por objetivos são quatro. Apesar das Orientações Curriculares de Ciências Físicas e Naturais referirem a exploração de três sub-subtemas, os ME B e C não incluem o sub-subtema “Riscos das inovações científicas e tecnológicas para o indivíduo, a sociedade e o ambiente” e, apesar do ME D o incluir, não apresenta qualquer AP. De realçar que os restantes ME, editados em 2007, têm um número muito reduzido de páginas dedicado a este sub-subtema (Tabela III). Tabela III – Número de atividades práticas por sub-subtema e manual escolar (ME) de Ciências Naturais do 8.º ano de escolaridade, editados em 2007 (Pires & Gomes, 2010). ME Sub-subtema A (n) B (n) C (n) D (n) E (n) Total (n) Recursos naturais, utilização e consequências 10 33 13 18 31 105 Proteção e Conservação da Natureza 5 22 5 8 14 54 Riscos das inovações científicas e tecnológicas para o indivíduo, a sociedade e o ambiente 2 NO NO 0 1 3 Total 17 55 18 26 46 162 (n) – Número total; NO – Não observado, o ME não contém este sub-subtema. No que se refere aos ME de edição mais recente sobressaem os ME F (n=61) e I (n=44). Nos ME de 2014, tal como nos de 386 2007, o conteúdo programático com menor representatividade é o “Desenvolvimento científico e tecnológico e qualidade de vida das populações humanas” (Tabela IV). Relativamente à frequência de AP por sub-subtemas (ME de 2007) (Tabela III) e nos conteúdos a lecionar por objetivos (ME de 2014) (Tabela IV), verificou-se que, nos ME de 2007, o que apresenta maior representatividade é “Recursos naturais – Utilização e consequências” (n=105) e nos de 2014 é, aquele que lhe corresponde, “Classificação dos recursos naturais, exploração e transformação” (n=85). Tabela IV – Número de atividades práticas por manual escolar (ME) de Ciências Naturais do 8.º ano de escolaridade, editados em 2014 de acordo com os conteúdos a lecionar por objetivos. ME Conteúdos a lecionar por objetivos F (n) G (n) H (n) I (n) J (n) Total (n) Classificação dos recursos naturais, exploração e transformação 23 19 10 21 12 85 Ordenamento e gestão do território e conservação da natureza 17 5 7 8 7 44 Gestão de resíduos e da água 13 11 6 9 9 48 Desenvolvimento científico e tecnológico e qualidade de vida das populações humanas 8066727 Total 61 35 29 44 35 204 (n) – Número total. Estes resultados poderão estar relacionados com o maior número de páginas, e a diversidade de assuntos explorados que se aproximam mais do quotidiano. Por outro lado, o menor número de AP em “Riscos das inovações científicas e tecnológicas para o indivíduo, a sociedade e o ambiente” e em “Desenvolvimento científico e 387 tecnológico e qualidade de vida das populações humanas”, nos ME de 2007 e 2014, respetivamente, poderá ser explicado por se tratar de um conteúdo transversal a outras disciplinas. Globalmente, nos ME de 2014 há um maior número total de AP e uma distribuição mais equilibrada pelos conteúdos a lecionar por objetivos. Tipologia das atividades práticas em manuais escolares de Ciências Naturais, na unidade curricular “Gestão sustentável dos recursos” Os ME analisados recorrem a AP de tipologia diversa na concretização das atividades de aprendizagem da “Gestão sustentável dos recursos”. Contudo, as AP de campo são nulas nos ME da edição de 2014. Nos ME de ambas as edições, 2007 e 2014, o número total de AP é maior na tipologia de papel e lápis com 68,6 e 76,5% respetivamente. As restantes tipologias estão restritas a valores baixos, muito baixos, nos ME de ambas as edições (Tabela V). As atividades de papel e lápis envolvem, sobretudo, a resolução de exercícios e compreendem, maioritariamente, a leitura e análise de textos informativos, notícias de jornais ou revistas e gráficos, e esquemas ou imagens, seguidas de alguns itens que exigem dos estudantes a seleção de informação disponibilizada nessas fontes. De um modo geral, são tarefas que apelam à reprodução do conhecimento científico explicitado nos textos, sem que se atribua relevância à discussão e avaliação de situações problemáticas. Em ambas as edições dos ME, as AP laboratoriais são escassas (n=2) e restritas a poucos ME. Inferiu-se que seja pelo facto dos processos geológicos, que envolvem estes conteúdos programáticos, poderem ser explicados por intermédio de analogias simples. Os ME B e E apresentam uma AP laboratorial do tipo orientada para a determinação do que acontece, e do tipo exercício, respetivamente. O ME I, da edição de 2014, é o único desta edição que tem AP laboratoriais, uma do tipo exercício e outra ilustrativa. 388 Dado que o ME adotado é a principal origem das AP laboratoriais, que muitos professores implementam, e que, de acordo com um estudo efetuado por Leite e Esteves (2005), os professores revelam, geralmente, falta de sentido crítico em relação aos protocolos apresentados nos ME, seria importante incluir em futuras edições de ME uma diversificação das atividades laboratoriais. Tabela V – Tipologia das atividades práticas (AP) incluídas em manuais escolares (ME) de Ciências Naturais, do 8.º ano de escolaridade, na unidade curricular “Gestão sustentável dos recursos”. Tipologia de AP ME editados em 2007 ME editados em 2014 A (n) B (n) C (n) D (n) E (n) Total (n) F (n) G (n) H (n) I (n) J (n) Total (n) Papel e lápis 16 43 14 13 38 124 41 29 21 28 21 140 Exercício CTSA102000 200011 2 Projeto 0 0 0 0 2 240421 11 Pesquisa 0 5 1 9 0 15 8 4 2 9 11 34 Laboratorial 0 1 0 0 1 200020 2 De campo 0 0 0 1 2 300000 0 Debate 0 0 0 2 0 202210 5 Sugestões (Consultas de sites e outros) 04212 900010 1 Outros 1 0 1 0 1 38 0 0 0 1 9 Total (n) 17 55 18 26 46 162 61 35 29 44 35 204 (n) – Número total. 1 CTSA – Ciência, Tecnologia, Sociedade e Ambiente. Na edição de 2007, apenas o ME D apresenta como proposta de atividade o debate (n=2), tendo-se registado um aumento da frequência desta tipologia nos ME de 2014 (n=5), distribuída pelos ME G, H e I. A baixa frequência, possivelmente, deve-se ao facto deste tipo de AP exigir o dispêndio de algum tempo, quer para a sua preparação e/ou construção, quer para a sua implementação (Tamir, 1990). As AP de pesquisa possibilitam um envolvimento dinâmico do estudante, importante numa EDS, proporcionando o desenvolvimento da sua capacidade de resolução de problemas e tomada de decisões (Pires et al. 2009). O ME D propõe uma atividade designada “Vai 389 e Pesquisa” (n=9), na maioria das vezes, com breves orientações, para planificação de uma pesquisa de âmbito local/regional e sua posterior divulgação. Saliente-se que, nos ME de edição mais recente, se registou um incremento considerável na frequência de AP de projeto e pesquisa. Este resultado está em consonância com as orientações recentes para o ensino e aprendizagem das ciências, nas quais os objetivos estão explicitamente centrados no estudante. Estas atividades inserem-se numa dinâmica construtivista de aprendizagem, perspetivando a construção de aprendizagens nas interações sociais. Como o ensino das Geociências é mais difícil a partir de livros, as AP de campo são importantes (Van Loon, 2008). Todavia, nenhum ME da edição mais recente tem propostas de AP de campo, embora sejam preconizadas como sugestão nos DCO. A frequência nula destas AP nos ME de 2014 suscitou-nos a seguinte questão: Quais os fatores que terão levado os autores dos ME mais recentes, a não incluir nos ME esta tipologia de AP? O trabalho desenvolvido não nos permite tirar uma conclusão, mas consideramos que poderia ser motivo para investigações futuras. Em síntese, para a unidade curricular “Gestão sustentável dos recursos” os ME analisados valorizam pouco a importância da interação dos estudantes com o meio natural, no sentido de promover uma aprendizagem segundo as orientações que vêm sendo enfatizadas para o EC. Porém, seria desejável haver mais atividades desta natureza, sobretudo as de fácil concretização, como as que não implicam grandes deslocações, podendo ser realizadas na proximidade da escola ou no recinto escolar (Dourado, 2001). Nos ME, de ambas as edições, o número total de exercícios CTSA é reduzido (n=2), possivelmente porque os autores dos ME têm a perceção que, na sua maioria, os professores têm pouco conhecimento acerca da perspetiva CTSA (Magalhães & Tenreiro-Vieira, 2006; Vieira & Martins, 2004). 390 Verificámos que a exploração da perspetiva CTSA é feita através de textos que, regra geral, não levam o estudante a questionar os argumentos apresentados, bem como não o estimulam a procurar mais informações. Apesar do Programa da disciplina de Ciências Naturais salientar a importância de promover uma maior interação da Ciência com o avanço tecnológico, com a sociedade e com o ambiente, os resultados obtidos são coincidentes com os de outras investigações, ou seja, a presença de atividades CTSA é pouco relevante nos ME e, quando surgem, não promovem uma verdadeira interação CTSA (Udeani, 2013). Contrariamente aos ME de 2007, todos os da edição de 2014 contemplam atividades de pesquisa, tendo-se verificado um incremento (n=34). Este registo é importante, pois estas atividades potenciam o desenvolvimento da capacidade de resolução de problemas. Decorrente da nossa prática profissional surgiu-nos a questão seguinte: Será que os professores efetivamente propõem aos estudantes a realização destas AP de pesquisa? Segundo Mendes e Rebelo (2004), estas AP só se realizam nas escolas, se os professores as compreenderem, lhe reconhecerem interesse, valor e forem capazes de as implementar com conforto e segurança. Por outro lado, pensamos que a necessidade que os professores sentem em lecionar os conteúdos programáticos em tempo útil pode condicionar a implementação destas atividades. Por isso, os professores são confrontados com a necessidade de alterar estratégias e de restruturar o contexto educativo, de forma a redefinir os critérios de sucesso no ensino e aprendizagem das ciências (Chin & Osborne, 2008). 4. Conclusões Nos ME analisados está patente uma diversidade de propostas de AP para a lecionação da unidade curricular “Gestão sustentável dos recursos”. 391 Nos ME, editados em 2007, concluímos que: i) os ME B e E apresentam um maior número de AP e uma melhor distribuição pelos conteúdos; ii) nos cinco ME (A, B, C, D e E) prevalecem as atividades de papel e lápis; iii) nos ME A e E, as atividades de pesquisa são inexistentes iv) nos ME A, C e D, os exercícios CTSA são inexistentes; v) apenas os ME B e E apresentam uma proposta de AP laboratorial, do tipo orientada para a determinação do que acontece, e do tipo exercício, respetivamente; vi) apenas o ME D propõe atividades de debate; vii) o ME B não contempla o sub-subtema “Riscos das inovações científicas e tecnológicas para o indivíduo, a sociedade e o ambiente”. Nos ME em vigor, editados em 2014, concluímos que: i) o ME F é o que apresenta um maior número de propostas de AP; ii) as atividades de papel e lápis prevalecem, tal como nos ME da edição de 2007; iii) todos os ME apresentam propostas de atividades de pesquisa; iv) os ME I e J apresentam, cada um, um exercício CTSA; v) apenas o ME I apresenta AP laboratoriais, uma do tipo exercício e outra ilustrativa; vi) nenhum ME propõe AP de campo; vii) os ME, exceto o F e o J, desconsideram os debates. Na globalidade, para ambas as edições, as propostas de exercícios CTSA, de campo, laboratoriais e de debate estão restritas a um número diminuto de ME e a um número reduzido de ocorrências. Concluiu-se, ainda, que os ME analisados não cumprem cabalmente as orientações emanadas nos DCO e o esperado relativamente à promoção de uma literacia científica, no âmbito de uma EDS, já que apresentam poucas propostas de AP que estimulem o pensamento reflexivo e crítico. Este estudo incidiu nas AP de apenas uma unidade curricular e de um número não aleatório de ME, não permitindo a generalização dos resultados obtidos. Contudo, consideramos que os professores devem adotar uma atitude mais reflexiva e crítica face aos processos de ensino e de aprendizagem e às propostas de AP apresentadas 392 nos ME, por forma a colmatarem as lacunas que eventualmente existam, em geral, e no ME adotado na sua escola, em particular, de modo a proporcionarem atividades diversificadas e promotoras do desenvolvimento de competências de diferentes níveis cognitivos. Em suma, decorrente dos resultados apresentados e independentemente de possíveis questionamentos e da diversidade de perspetivas, parece essencial a necessidade de uma avaliação contínua dos ME existentes no mercado livreiro português. A importância reconhecida que os ME têm nos processos de ensino e de aprendizagem exige uma investigação constante para a sua melhoria. Para tal, a divulgação das investigações realizadas é importante, quer do ponto vista pedagógico e social, quer do ponto de vista investigativo, podendo a discussão dos resultados constituir um contributo válido no sentido dessa melhoria. Contudo, reconhecemos que esta análise não poderá estar dissociada da compreensão dos possíveis fatores que condicionam os autores dos ME no seu processo de conceção e da discussão de possibilidades que os permitam ultrapassar. Por fim, apelamos aos professores para uma atitude reflexiva e mais sustentada da utilização deste recurso didático, pois não podemos deixar de referir que os ME analisados evidenciam potencialidades que permitem o desenvolvimento de AP diversificadas. Com efeito, importa, também, que reflitam acerca dos métodos de ensino e da necessidade de desenvolverem recursos de apoio específicos. Agradecimentos O CITEUC, o CEF e o MARE são financiados por Fundos Nacionais através da FCT – Fundação para a Ciência e Tenologia (projetos: UID/ Multi/00611/2013, UID/BIA/04004/2013 e UID/MAR/04292/2013) e pelo FEDER – Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional atra- 393 vés do COMPETE 2020 – Programa Operacional Competitividade e Internacionalização (projeto: POCI-01-0145-FEDER-006922). 5. Referências bibliográficas Amado, J. (2000). A técnica de análise de conteúdo. Revista Referência, 5, 53-63. Apple, M. (2002). Manuais Escolares e Trabalho Docente. Lisboa: Didáctica Editora. Bonito, J., Morgado, M., Silva, M., Figueira, D., Serrano, M., Mesquita, J., & Rebelo, H. (2013). Metas Curriculares Ensino Básico – Ciências Naturais 5.º, 6.º, 7.º e 8.º anos. Lisboa: Ministério da Educação e Ciência. Chin, C., & Osborne, J. (2008). Students’ questions: a potential resource for teaching and learning science. Studies in Science Education, 44(1), 1-39. Choppin, A. (2004). 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A catalogação das réplicas, considerando o período até 20 de outubro de 1757, permitiu a Moreira de Mendonça notar que no ano de 1757 os tremores de terra passaram a ser «mais pequenos e menos em número» (Mendonça, 1758, p. 168), interpretando assim os dados que ele próprio recolhera, com a mesma racionalidade que também demonstra na interpretação do fenómeno sísmico. As indicações sobre as condições atmosféricas associadas às descrições das réplicas permitem afirmar que Moreira de Mendonça estaria convicto da possibilidade de prever a ocorrência sísmica, nomeadamente através de «sinais», mas reconhecendo que apenas um não permitiria um «prognóstico muito certo» (Mendonça, 1758, p. 251). O próprio GTL teria estado associado a determinadas condições atmosféricas: «Eu tive bastante conhecimento de quatro sinais que experimentei1 (…) que se fizera neles maior reflexão (…) poderia acautelar-me, e comunicar o meu receio a muitas pessoas, e difundir-se este de sorte que fosse útil a muita gente» (Mendonça, 1758, p. 251). Se a ligação dos sismos com as condições atmosféricas foi admitida por Moreira de Mendonça, uma eventual ligação, sugerida por outros autores (refere-se ao espanhol Miguel Cabrera), ao Sol, à Lua, a Estrelas e a Eclipses não. Após analisar interpretações contemporâneas e antigas, na terceira parte da História Universal dos Terramotos, Moreira de Mendonça concluiu por uma «inegável 1 Turvação da água (poços), fervor ou intumescência das águas marítimas, e dos rios, vapor da terra denso e escuro, e calor imoderado a respeito da estação (Mendonça, 1758, p. 253-256). [Document text truncated for crawler view.]