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Enunciação e referenciação. Os discursos de celebração de Abril

Marques, Aldina

Abstract

resumo: A celebração do 25 de Abril, em sede da Assembleia da República, é um evento dis- cursivo que tem como momento central o discurso presidencial. É sobre este género de discurso que nos vamos deter para analisar a construção da referenciação discursiva, no quadro teórico enunciativo-pragmático da análise dos discursos. A centralidade da enunciação na construção dos sentidos dos discursos é amplamente reconhecida. Como refere Charaudeau, a enunciação engloba a totalidade do ato de linguagem realizado. Nesta totalidade está, assim, incluído o processo de construção dos sentidos, e, nomeadamente, a questão da representação do mundo, uma questão já apontada por Benveniste (1970). A referência é sobredeterminada pela enunciação, pelo posiciona- mento enunciativo do locutor. Neste domínio, são particularmente importantes os contributos de Mondada & Dubois (1995) e Mondada (2001). O presente trabalho tem como objetivo a análise dos modos como, nos discursos de celebração do 25 de Abril, é levada a cabo a construção discursiva do objeto de celebração. O corpus de análise é constituído pelos discursos presidenciais de celebração do 25 de Abril (até ao centenário da República), abrangendo os discursos dos quatro presidentes eleitos após o 25 de Abril.

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redis: revista de estudos do discurso, nº 7, ano 2018 doi 10.21747/21833958/red7a5 Enunciação e referenciação. Os discursos de celebração de Abril marques, maria aldina mamar[email protected].pt resumo: A celebração do 25 de Abril, em sede da Assembleia da República, é um evento discursivo que tem como momento central o discurso presidencial. É sobre este género de discurso que nos vamos deter para analisar a construção da referenciação discursiva, no quadro teórico enunciativo-pragmático da análise dos discursos. A centralidade da enunciação na construção dos sentidos dos discursos é amplamente reconhecida. Como refere Charaudeau, a enunciação engloba a totalidade do ato de linguagem realizado. Nesta totalidade está, assim, incluído o processo de construção dos sentidos, e, nomeadamente, a questão da representação do mundo, uma questão já apontada por Benveniste (1970). A referência é sobredeterminada pela enunciação, pelo posicionamento enunciativo do locutor. Neste domínio, são particularmente importantes os contributos de Mondada & Dubois (1995) e Mondada (2001). O presente trabalho tem como objetivo a análise dos modos como, nos discursos de celebração do 25 de Abril, é levada a cabo a construção discursiva do objeto de celebração. O corpus de análise é constituído pelos discursos presidenciais de celebração do 25 de Abril (até ao centenário da República), abrangendo os discursos dos quatro presidentes eleitos após o 25 de Abril. abstract: The celebration of the revolution of 25th of April 1974, at the Assembly of the Portuguese Republic, is a discursive event that has as its central moment the presidential speech. I will analyze the construction of the discursive reference in this genre of discourse, within the enunciative-pragmatic approach of discourse analysis. The centrality of enunciation in the construction of discourse meaning is widely recognized.As Charaudeau points out, the enunciation encompasses the whole of the act of discourse performed. Thus, this includes the process of constructing the meanings of discourse, and in particular the question of the representation of the world, an issue already mentioned by Benveniste (1970). Reference is overdetermined by enunciation, specifically, by the enunciative positioning of the speaker. The theoretical contributions of Mondada & Dubois (1995) and Mondada (2001) on reference are particularly important. The present work aims at analyzing how the discursive construction of the object of celebration is carried out, in the speeches celebrating the 25th of April. The data is constituted by the presidential speeches celebrating the 25th of April (until the centenary of the Republic), covering the speeches of the four presidents elected after the revolution. palavras-chave: referenciação; evento discursivo; enunciação; discurso político de comemoração; objeto de discurso. CEHUM/CLUP key-words: referencing; discursive event; enunciation; political discourse of celebration; object of discourse. marques, maria aldina; enunciação e referenciação. os discursos de celebração de Abril redis: revista de estudos do discurso, nº 7 ano 2018, pp. 120-141 121 Le pouvoir établi sur la seule force, ou sur la violence non domestiquée, aurait une existence constamment menacée ; le pouvoir exposé sous le seul éclairage de la raison aurait peu de crédibilité. Il ne parvient à se maintenir ni par la domination brutale, ni par la seule justification rationnelle. Il ne se fait et ne se conserve que par la transposition, par la production d’images, par la manipulation de symboles et leur organisation dans un cadre cérémoniel. Balandier, 1992: 16 1. introdução Georges Balandier, na citação em epígrafe, atribui à dimensão cerimonial da política, e aí aos discursos, a tarefa e, sobretudo, a capacidade de assegurar a manutenção do poder para além da violência bruta ou, num outro plano, para além da pura racionalidade, se, lembrando Manuel Damásio (1994), tal fosse possível. Os discursos presidenciais de celebração de Abril são, a este título, exemplares. O ato explícito de pensar publicamente o 25 de Abril é um ato de poder político com alto valor simbólico, que visa a coesão social e ideológica da Nação. No presente trabalho, damos continuidade à análise da construção dos sentidos de Abril, nos discursos presidenciais de comemoração da efeméride (Marques, 2014, Marques & Duarte, no prelo), enquanto evento discursivo (Moirand, 2010, 2014)1, no quadro de um projeto mais amplo de análise dos discursos presidenciais de comemoração nos 100 anos da República, intitulado O Discurso do Presidente. 100 anos de discursos presidenciais em Portugal. 2. quadro teórico-metodológico O quadro teórico-metodológico em que nos situamos é o da análise linguística dos discursos (Rabatel & Chauvin-Vileno, 2006, Hailon, 2012, Adam, 2015, Marques, 2015, inter alia), que 1. Sobre a análise destes eventos discursivos, Moirand afirma: “L’un des objectifs de l’analyse est alors de s’interroger sur le rôle du langage dans la construction des événements sociaux. Un fait ne devient en effet un événement qu’à travers la circulation des discours qui le construit, ce qui vient de cette intentionnalité collective (dont parle Searle 1995), et qui repose sur des conventions linguistiques propagées par la chaîne ininterrompue des discours produits par la société.” 122 marques, maria aldina; enunciação e referenciação. os discursos de celebração de Abril redis: revista de estudos do discurso, nº 7 ano 2018, pp. 120-141 tem como objetivo descrever e explicar os usos e funcionamentos da língua nos discursos, entendidos como práticas sociais de natureza linguística. A necessidade, daí decorrente, de trabalhar com dados autênticos, determina a constituição de um corpus de análise, que passamos a apresentar. A comemoração, em sede da Assembleia da República2, da revolução democrática ocorrida em 25 de Abril de 1974, é um ato discursivo institucional, que tem como momento nuclear o discurso presidencial. Por esta via, os presidentes são intervenientes fundamentais na construção da memória e sentidos da revolução enquanto evento discursivo. O corpus de análise é constituído pelos discursos presidenciais de celebração do 25 de Abril (até ao centenário da República), num total de 34 discursos, abrangendo os discursos dos quatro presidentes eleitos após o 25 de Abril3: - Presidente Ramalho Eanes (RE): 8 discursos (entre 1977 e 1985)4; - Presidente Mário Soares (MS): 10 discursos (entre 1986 e 1995)5, - Presidente Jorge Sampaio (JS): 10 discursos (entre 1996 e 2005), - Presidente Cavaco Silva (CS): 6 discursos (entre 2006 e 2011). Estes discursos totalizam mais de 91.000 palavras (aproximadamente e por ordem cronológica: 22.632; 16.248; 40.254 e 11.883)6. O corpus assim constituído está marcado por uma forte dimensão de dialogismo interdiscursivo7, que decorre da seleção de um mesmo género discursivo e de um mesmo tópico retomado por diferentes vozes, em diferentes momentos, mas no mesmo espaço físico e com os mesmos objetivos. 2. Só em duas situações, em 1992 e 1993, o discurso presidencial de celebração foi pronunciado fora de S. Bento, em ambos os casos durante o mandato do Presidente Mário Soares. 3. Esta fronteira decorre do facto de este estudo estar integrado no projeto atrás referido. 5. Os discursos de celebração, em 1992 e 1993 foram realizados, respetivamente, junto ao monumento dos descobrimentos, em Lisboa, e, em Braga, no decorrer da inauguração de um monumento alusivo ao 25 de Abril. 4. Em 1975, 1976 e 1983 houve eleições no dia 25 de abril. 6. Os totais aproximados decorrem do facto de estar ainda em curso a revisão dos discursos, o que poderá ter impacto no total definitivo de palavras. marques, maria aldina; enunciação e referenciação. os discursos de celebração de Abril redis: revista de estudos do discurso, nº 7 ano 2018, pp. 120-141 123 7. «Mon discours, dans sa saisie d’un objet du discours, rencontre les discours antérieurs tenus par d’autres sur ce même objet, avec lesquels il entre en interaction. Cette dimension que Bakhtine nomme «relation dialogique avec les mots d’autrui dans l’objet» (Bakhtine1934/1975/1978: 105, «dialogicheskoe vzaimodestvo s chuzymi slovami v predmete») se voit actuellement désignée par l’appellation heureuse de dialogisme interdiscursif. On peut la mettre en relation avec la notion d’intertextualité, mais elle ne s’y résume pas. A la différence de ce que l’on entend habituellement par intertextualité – relation qu’un texte pose localement avec ou tel autre texte -, le dialogisme interdiscursif structure fondamentalement tout texte, en ce que celui-ci est obligatoirement réponse (Bakhtine 1952/1979/1984a: 298-299) à des textes antérieurs”. (Brès & Nowakowska, 2005). 2.1. o género discursivo de comemoração O conceito de género é central na análise dos discursos8. Do discurso de comemoração salientamos um dos parâmetros caracterizadores do género, a organização semântica. Com efeito, este género discursivo tem o objeto de comemoração como um dos tópicos constitutivos9. Logo, o significado do “25 de Abril” é indissociável do género discursivo e do quadro comunicativo que integra os interlocutores. Há uma simbiose entre os sentidos selecionados de Abril e a razão da comemoração, isto é, enquanto evento discursivo com valor simbólico mais do que como evento datado: 1.Vistas a esta luz, as comemorações do 25 de Abril serão sempre -e antes de maiso reencontro do povo com a sua identidade e de Portugal com a sua história multissecular. (MS, 1987) 2.2. referenciação e objeto de discurso É sobre estes discursos que nos vamos deter para analisar os modos de referenciação deste evento, privilegiando, portanto, uma perspetiva enunciativo-pragmática. A centralidade da enunciação na construção dos sentidos dos discursos é reconhecida (Moirand, 2005)10. Charaudeau (2015) é particularmente assertivo na afirmação do alcance teórico do conceito de enunciação, assumindo que “Du point de vue du discours, l’énonciation englobe la totalité de l’acte de langage.”11. Ora, nesta totalidade está incluído o processo de construção dos sentidos, que levanta a questão da representação do mundo, como processo de referência. Esta perspetiva englobante havia já sido apontada por Benveniste (1970)12. Trabalhos posteriores têm vindo a aprofundar essa reflexão. São análises que assumem o postulado de que a referência é sobredeterminada pela enunciação, pelo posicionamento enunciativo do locu8. Veja-se, a propósito, Kerbrat-Orecchioni, 2003, Moirand, 2003, Coutinho, 2007, Adam, 2014, Maingueneau, 2014, entre outros. 124 marques, maria aldina; enunciação e referenciação. os discursos de celebração de Abril redis: revista de estudos do discurso, nº 7 ano 2018, pp. 120-141 tor sempre em relação necessária com o seu interlocutor. Neste domínio, são particularmente importantes os contributos de Siblot (2001), Marcuschi (2006), Rabatel (2009; 2014-2015), Cavalcante (2012), Koch, Morato & Bentes, 2015, Koch & Cortez (2015), no seguimento das propostas de Mondada & Dubois (1995) e Mondada (2001), que, atendendo às especificidades teóricas da proposta que realizam, substituem o termo referência pelo de referenciação. Não se trata de um aspeto meramente terminológico, antes decorre de uma nova abordagem da questão em rotura com a abordagem tradicional. No excerto que a seguir é citado, sobressai essa deslocação da referência como relação exterior, especular, entre as palavras e as coisas para a referenciação como relação intradiscursiva de construção de “versões do mundo”, em função da relação intersubjetiva e social em curso na interação: La question de la référenciation (…) elle ne privilégie pas la relation entre les mots et les choses, mais la relation intersubjective et sociale au sein de laquelle des versions du monde sont publiquement élaborées, évaluées en termes d’adéquation aux finalités pratiques et aux actions en cours des énonciateurs. Mondada, 2001: 8. A referenciação é, pois, uma atividade discursiva de nomeação (designação e denominação)13, por categorização e recategorização, de um objeto de discurso14, isto é, um referente construído no discurso e pelo discurso como «…[entité] qui [est] interactivement et discursivement [produite] par les participants au fil de leur énonciation.» (Mondada 2001: 9). Por isso, os objetos de discurso não são o espelho de entidades exteriores, estáticas, pré-definidas, são construções dinâmicas que «…no e pelo discurso (…) são postos, delimitados, desenvolvidos [e] transformados» (Mondada, 1994: 62, apud Marcuschi, 2006: 13). Não contestando o valor referencial da língua, estes autores propõem antes uma revisão “da maneira como se dá esse processo de referenciação” (Marcuschi, 2007:141), indissociável da posição enunciativa do locutor e, portanto, da responsabilidade enunciativa assumida, na relação intersubjetiva que estabelece com o seu alocutário. Como consequência deste posicionamento constitutivo, o conceito de escolha é fundamental para abordar o processo de 10. “La majorité des travaux d’analyse du discours (…) s’appuient, au moins partiellement, sur les problématiques énonciatives.”. 11. “Du point de vue du discours, l’énonciation englobe la totalité de l’acte de langage. L’énonciation est ce processus par lequel un sujet parlant met en scène son dire, en fonction de divers paramètres: la situation de communication dans laquelle il se trouve, l’image qu’il se fait de son interlocuteur pour calculer les effets qu’il veut produire sur lui, l’univers de savoir qu’il est censé partager avec son interlocuteur et celui qu’il veut lui transmettre (interdiscours et dialogisme). Cet ensemble de paramètres constitue un dispositif communicationnel qui donne des instructions discursives au sujet parlant, et c’est en fonction de ces instructions que celui-ci mettra en scène son acte de langage. (Charaudeau, 2015) 9. Uma simples contagem das ocorrências de comemorar e similares evidencia a presença sistemática destes itens lexicais nos 34 discursos analisados: comemorar (58); comemoramos (13); comemoração (5); celebrar (19); celebramos (18) celebração (5). marques, maria aldina; enunciação e referenciação. os discursos de celebração de Abril redis: revista de estudos do discurso, nº 7 ano 2018, pp. 120-141 125 nomeação do objeto discursivo: «Elle [la nomination] est par là une prise de position à l’égard de la chose nommée qui désigne, en même temps que l’objet nommé, la position prise pour le nommer.» (Siblot, 2001: 15). É, por isso, uma nomeação orientada, com valor argumentativo, porque construída em função do outro, o alocutário, e dos objetivos perseguidos. Esta orientação opera como um foco que valoriza determinados eixos de sentido em detrimento de outros, implicando, assim, uma dimensão intersubjetiva. Deste modo, na análise do objeto de discurso, dos seus sentidos, é necessário operar um reposicionamento da questão, com integração da linearidade da cadeia anafórica, que ocupou as primeiras abordagens da referenciação, na configuracionalidade da construção dos sentidos, assumindo que se está perante categorias discursivas instáveis, flexíveis, que se inter-relacionam e participam na construção da coerência global dos discursos. Em suma, os interlocutores estão no centro do processo discursivo de referenciação. A construção dos sentidos na interação em que os falantes estão empenhados é uma atividade discursiva global e dialógica, que implica a intersubjetividade dos interlocutores, inscritos numa comunidade socio-discursiva, a qual preserva a memória de outros discursos e a mobiliza para construir novos sentidos. Nos discursos em análise, o 25 de Abril é um acontecimento social e político, construído discursivamente, ou seja, constitui um evento discursivo, tal como o define Moirand (2010): Un fait ne devient en effet un événement qu’à travers la circulation des discours qui le construit, ce qui vient de cette intentionnalité collective (dont parle Searle 1995), et qui repose sur des conventions linguistiques propagées par la chaîne ininterrompue des discours produits par la société. Ainda segundo a mesma investigadora, “L’un des objectifs de l’analyse est alors de s’interroger sur le rôle du langage dans la construction des événements sociaux.», como passaremos a fazer. 12. Enfin, dans l’énonciation, la langue se trouve employée à l’expression d’un certain rapport au monde. La condition même de cette mobilisation et de cette appropriation de la langue est, chez le locuteur, le besoin de référer par le discours, et, chez l’autre, la possibilité de co-référer identiquement, dans le consensus pragmatique qui fait de chaque locuteur un co-locuteur. La référence est partie intégrante de l’énonciation.» (Benveniste, 1970: 14). 13. «Dans la perspective discursive où nous en sommes, cette question de la nomination – le terme générique que nous adoptons - est intéressante car elle ouvre des pistes pour l’analyse des unités micro-discursives dans les discours et, tout particulièrement, dans les débats parlementaires et dans d’autres discours publics. Il s’agit donc d’analyser la nomination comme un phénomène relevant de manière essentielle d’une approche en discours et d’identifier ce passage, toujours instable d’une «désignation» à une «dénomination» à travers un processus de référenciation, de construction d’un objet de discours dans un corpus seléctionné.» (Marques, no prelo). 126 marques, maria aldina; enunciação e referenciação. os discursos de celebração de Abril redis: revista de estudos do discurso, nº 7 ano 2018, pp. 120-141 2.3. objetivos e hipóteses Neste enquadramento teórico, o presente trabalho tem como objetivo central a análise dos modos como, nos discursos de celebração do 25 de Abril, é levada a cabo a construção discursiva do objeto de celebração, o evento discursivo designado como 25 de Abril. Analisaremos o modo como os sucessivos locutores participam na tarefa de (re)construção da memória de Abril, isto é, dos seus sentidos. Vamos centrar-nos em duas dimensões da construção dos sentidos do 25 de Abril, (1) os modos de designação privilegiados nos discursos; (2) a introdução/ativação, reapropriação, progressão e modificações deste referente discursivo, no conjunto dos discursos considerados. Nestes dois casos, pretendemos dar conta do caráter dinâmico do processo de referenciação e, em particular, da importância das escolhas dos diferentes locutores para designarem o mesmo referente. Daremos especial atenção às formas nominais que participam neste processo. Para além das constrições trazidas pelo género discursivo, o discurso político de celebração, consideramos que a construção dos sentidos15 de Abril, enquanto objeto de discurso, nos discursos presidenciais da comemoração deste evento, decorre também das escolhas de cada locutor em função de um querer dizer (Koch & Cortez, 2015) e em inter-relação com o co(n) texto em que ocorre e com os seus interlocutores. Em particular, o estatuto dos locutores, de presidentes da República, e o contexto institucional em que usam da palavra criam uma sistematicidade na construção dos sentidos de Abril, ao longo dos 30 anos de celebrações, de acordo com os valores democráticos assumidos como partilhados pela comunidade portuguesa. 14. Citando ainda Mondada (2001 :9), este objeto de discurso, assume um estatuto particular enquanto tópico, isto é «… objet(s) considéré(s) et manifesté(s) par les participants comme ce à propos de quoi ils énoncent le discours en train de se faire.». 15. Privilegiando uma perspetiva pragmática do sentido, usamos indistintamente os termos sentido e significado. marques, maria aldina; enunciação e referenciação. os discursos de celebração de Abril redis: revista de estudos do discurso, nº 7 ano 2018, pp. 120-141 127 3. os processos de referenciação de abril 3.1. a designação do evento Na senda dos trabalhos de Moirand, sobre os eventos discursivos, consideramos que construir discursivamente um evento (Dire l’événement) é um processo complexo que supõe uma escolha e hierarquização das dimensões que se pretende “dar a ver”: Dire l’événement, c’est en premier lieu «nommer» les objets, les acteurs, les actes qui «font» l’événement, c’est-à-dire les désigner, mais aussi les caractériser en choisissant de cibler une de leurs «facettes» (Cruse) ou en leur donnant un «éclairage» particulier (Grize), qui vise à «donner à voir» aux destinataires une image de l’événement. Moirand et al., 2013 Como propusemos em Marques & Duarte (no prelo), na base da análise está o conceito de memória interdiscursiva (Moirand, 2004): «Assumimos, pois, que o discurso político de celebração é uma prática discursiva de “(re)memória” e que a celebração da revolução de Abril, visa a (re)construção dessa memória…” que tem um valor simbólico nacional16. São os próprios locutores (todos os presidentes, nos exemplos abaixo (2-5)) que dão conta desta função significativa, simbólica, em comentários metalinguísticos mais frequentes à medida que aumenta a distância temporal do evento: 2. Não se justificaria continuar a comemorar esta data se o seu significado ficasse confinado ao acto, localizado no tempo, do derrube de um regime autoritário, moralmente indefensável, socialmente injusto. O que hoje comemoramos não é o fim da ditadura, mas sim a afirmação da liberdade, da responsabilidade democrática, da solidariedade social. O que hoje comemoramos é a afirmação de uma moral política onde a justiça, em todos os seus domínios, não seja um mero artifício de linguagem que encobre a vontade de opressão e de exploração. (RE, 19882) 16. A celebração, de acordo com Durkheim (1991: 380), apud Rodrigues (2013: 15), é um ato social público desencadeador de um sentimento de exaltação nos próprios participantes no evento (a multidão): «O simples fato da aglomeração age como um excitante excecionalmente poderoso. Uma vez os indivíduos reunidos, liberta-se da sua aproximação uma espécie de eletricidade que os transporta rapidamente para um grau extraordinário de exaltação. Cada sentimento expresso vem repercutir-se sem resistência em todas essas consciências amplamente abertas às impressões externas: cada uma delas faz ecoar as outras e reciprocamente. O impulso inicial amplifica-se à medida que se vai repercutindo, como uma avalancha aumenta à medida que progride». No caso vertente, há uma carga simbólica a que os discursos presidenciais dão forma. 128 marques, maria aldina; enunciação e referenciação. os discursos de celebração de Abril redis: revista de estudos do discurso, nº 7 ano 2018, pp. 120-141 3. É nosso dever transmitir-lhes o testemunho da nossa experiência, dar-lhes a conhecer o significado do 25 de Abril, ensinar-lhes como a força criadora da liberdade transformou Portugal e nos permitiu ultrapassar tantos momentos difíceis. (MS, 1993) 4. Passados trinta anos, em que tudo mudou tanto, é natural que nos interroguemos: que significa comemorar, hoje, o 25 de Abril? E o que representará essa data para aqueles jovens que a não viveram? (JS, 2004) 5. Apenas direi que me impressiona que muitos jovens não saibam sequer o que foi o 25 de Abril, nem o que significou para Portugal. (CS, 2008) Passamos, pois, à análise do 25 de Abril enquanto objeto de discurso, construído nas formulações discursivas dos participantes e nas transformações realizadas em discurso, no quadro do co(n)texto em que ocorrem. No que concerne à introdução ou ativação do objeto de discurso, em função do quadro comunicativo, e particularmente da finalidade do evento discursivo, a acessibilidade do referente “25 de Abril” é dada como assegurada, sendo este tomado como conhecimento compartilhado17. O excerto abaixo constitui o início de um discurso presidencial que evidencia essa acessibilidade: 6. Vinte e cinco anos depois, tudo parece tão simples. Banalizaram-se as imagens daqueles militares em ameno convívio com a população. As fotografias e filmes, a preto e branco, conferem um ar remoto e frágil aos instantâneos da Revolução. (JS, 1999) Dado o contexto situacional de celebração, que justifica a elipse do complemento da preposição no sintagma “25 anos depois”, “a” revolução referida em (6) é identificada como a de 25 de Abril de 1974. É esta acessibilidade, marcada pela ocorrência do artigo definido, que assegura a mesma interpretação, no excerto seguinte: 17. Segundo Ariel (1990), a escolha das expressões nominais referenciais é condicionada pela presunção do locutor sobre o grau de ativação; por outras palavras, se há um antecedente saliente, o locutor usará um marcador de alta acessibilidade referencial; no caso contrário, usará um marcador de baixa acessibilidade referencial. marques, maria aldina; enunciação e referenciação. os discursos de celebração de Abril redis: revista de estudos do discurso, nº 7 ano 2018, pp. 120-141 135 Tenhamos confiança no futuro - e na liberdade -, com que nos reencontrámos em 25 de Abril de 1974, nesse dia - como disse, na sua voz inconfundível, Sophia de Mello Breyner: Inicial inteiro e limpo Onde emergimos da noite e do silêncio e livres habitamos a substância do tempo (MS, 1988) De facto, esta cadeia anafórica baseia-se, quase exclusivamente, no recurso a formas nominais como um mecanismo de referenciação que percorre todo o discurso presidencial. Mais uma vez, é um processo de retoma e substituição por modificações diversas. A diversidade das designações escolhidas aponta para a complexidade de sentidos agregados ao evento discursivo. Como já foi sublinhado, o contexto político e social, e o género discursivo em particular, não são alheios aos modos de construção da referenciação e das estratégias linguísticas usadas. Nos exemplos em análise, ilustrativos, na verdade, de todos os discursos de celebração considerados, a maior frequência, quase exclusividade, das formas pronominais contraria a hipótese avançada por Ariel (1990), sobre a relação entre formas nominais e acessibilidade do objeto. Consideramos que se trata de uma relação que depende de fatores contextuais diversos. Aqui, a acessibilidade alta do objeto de discurso conjuga-se com a ocorrência das expressões nominais. Para explicar esta conjunção, parece-nos necessário atender ao processo cíclico de ativação e desativação do referente discursivo, de que os exemplos acima dão conta. Mas é também necessário assinalar que a centralidade política e ideológica adquirida na interação em curso é reforçada por essa característica, que lhe confere visibilidade discursiva: 16. Por isso, podemos retirar desta exigente experiência política a convicção firme de que a defesa e afirmação do pluralismo democrático, (…), é valor que jamais se pode pôr em causa se queremos comemorar Abril na afirmação da esperança que 136 marques, maria aldina; enunciação e referenciação. os discursos de celebração de Abril redis: revista de estudos do discurso, nº 7 ano 2018, pp. 120-141 em todos nós fez nascer. Também por isso, comemorar Abril é continuar Abril. (RE, 1981) 4. conclusões Da análise dos discursos de comemoração presidenciais, de que apresentamos alguns exemplos, sobressai, apesar da diversidade das designações escolhidas e da variação na frequência das ocorrências, uma (sempre relativa) estabilização intersubjetiva dos sentidos do 25 de Abril. A sistematicidade da designação do objeto de discurso, na progressão referencial construída, tem a ver, por um lado, com o facto de este ser o motivo da comemoração (não apenas do discurso presidencial) e, por outro, de se pretender, pelo fortalecimento de valores que os sucessivos Presidentes defendem, confirmar o 25 de Abril como fator de coesão e dinamização nacional. O acontecimento político e social é assim reposicionado, e (re)memorizado, isto é, “ressignificado” no tempo e no espaço enquanto evento discursivo. Nesta discursivização, sobressaem duas vertentes: - A acessibilidade do referente discursivo e a sua ativação por processos de multidesignação nominal; - A prevalência das formas nominais com função anafórica, que confirmam, expandem e modificam os sentidos mobilizados no processo de referenciação. Por este processo de referenciação, a memória de Abril é progressivamente construída, confirmada, modificada; daí a multidesignação de que falámos acima. Aplica-se aqui a afirmação de Moirand et al. (2013) quanto à importância dos discursos na construção de uma memória coletiva: «…le discours utilise les moyens que la langue lui fournit pour «dire» ce qui a une importance pour l’homme, pour «parler» de ce qui devient important pour la société.». marques, maria aldina; enunciação e referenciação. os discursos de celebração de Abril redis: revista de estudos do discurso, nº 7 ano 2018, pp. 120-141 137 O género discursivo, como vimos, sobredetermina a construção do objeto de discurso, muito particularmente na coloração positiva (Grize, 2004) que de modo sistemático se evidencia em todos os discursos. 138 marques, maria aldina; enunciação e referenciação. os discursos de celebração de Abril redis: revista de estudos do discurso, nº 7 ano 2018, pp. 120-141 referencias Adam, J.-M. (2015). Le problème du texte dans l’analyse du discours développée par Dominique Maingueneau (1976-2014). In Angermuller, J. & Philippe, G. (orgs), Analyse du discours et dispositifs d’énonciation. 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