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Xosé Manuel Sánchez Rei (editor) 13 mOnOgRafía Estudos sobre gramática e sociolingüística galego- -portuguesas
Estudos sobre gramática e sociolingüística galego-portuguesas Xosé Manuel Sánchez Rei (editor) 13 Grupo de Investigación Lingüística e Literaria Galega
Directores: Teresa López Fernández (Universidade da Coruña) e Xosé Manuel Sánchez Rei (Universidade da Coruña) Secretario: Carlos-Caetano Biscainho-Fernandes (Unversidade da Coruña) Edita: Servizo de Publicacións da Universidade da Coruña Depósito Legal: C 1601-2021 ISBN: 978-84-9749-819-7 Distribúe: Consorcio Editorial Galego: [email protected] Deseño: Torné Asociados Maquetación: Antonio Souto
3 13 Índice xeral Introdución Xosé Manuel Sánchez Rei 7-16 Lingua de calidade: un concepto integrador para tender pontes e superar as diferenzas entre isolacionismo e reintegracionismo Neal Baxter 17-26 Actitudes e aptitudes en relación á lingua galega do profesorado novo do ensino secundario: contributos desde unha experiencia no mestrado profesionalizante (2013-2021) Carlos-Caetano Biscainho-Fernandes 27-48 Ainda os marcadores apresentativos em Português Europeu: imagina, repara e olha Isabel Duarte 49-65 Revertendo o proceso de substitución lingüística: a figura do suxeito neofalante na Galiza actual María Fernández Zas 67-85 Entre a fonética e a sintaxe: crase, combinación de unidades lingüísticas e segmentación copulativa nas secuencias rimáticas das cantigas Manuel Ferreiro 87-105 A obra de Xosé Ramón Freixeiro Mato: unha sede nacional para a lingua galega María Pilar García Negro 107-115 Traduçom de qualidade e galego de qualidade: a propósito do tratamento tradutivo das denominaçons vernáculas de organismos na prosa ficcional Carlos Garrido 117-139 A lingua galega en Internet após dúas décadas Xavier Guinovart 141-156 O sufixo -az no galego-portugués medieval Xoán Luís López Viñas 157-178 Análise sociolingüística e tradutolóxica das versións do inglés realizadas pola irmandiña María Luz Morales María Jesús Lorenzo-Modia 179-190 Antonio Benito Fandiño e o Entremesiño do Antroido pr’os rapaces (1813) Ramón Mariño Paz / Damián Suárez Vázquez 191-204 Contextos de uso do marcador discursivo pronto e ethos discursivo Maria Aldina Marques 205-219
Índice xeral 4 13 Partículas vocativas de origem nominal no galego, português e romeno Aurélia Merlan 221-241 O humor gráfico como estratexia social fronte ás ideoloxías lingüísticas hexemónicas. Unha nota sobre a historia sociolingüística do galego Estefanía Mosquera Castro 243-258 Da norma, da norma linguística e do português do Brasil Sandra Pérez López 259-273 O léxico do Romanceiro frente ao léxico da Lírica Cortês: convergências e divergências Natália Pires 275-292 Escrita e oralidade pela análise de espectrogramas: fenómenos fonéticos individuais, comunitários e gerais Helena Rebelo 293-314 A concorrência ponta, ponto vs. punta, punto, e similares. Breve aproximaçom José Luís Rodríguez 315-331 Da subalternidade da língua galega no período autonómico Roberto Samartim 333-350 Algúns aspectos da sintaxe dialectal portuguesa dos inicios do século XX e a súa correspondencia co galego Xosé Manuel Sánchez Rei 351-368 Fontes de uma herança histórico-cultural portuguesa: os registos foraleiros manuelinos Olinda Santana 369-388 A emoção na linguagem verbal: das interjeições ao calão na Fala Bracarense José Teixeira 389-409
Para Xosé Ramón Freixeiro Mato, amante dos líricos acentos da nosa lingua e excelente coñecedor das cativantes falas en que ela se manifesta
205 13 Contextos de uso do marcador discursivo pronto e ethos discursivo Maria Aldina Marques CEHUM Universidade do Minho certo tipo de palabras ou expresións que teñen unha extraordinaria importancia e que ficaran relegadas á mais absoluta marxinalidade nos estudos gramaticais e lingüísticos en xeral (Freixeiro Mato, 2005: 5) Resumo: Os Marcadores do Discurso (MD) são uma das categorias mais estudadas, ainda que com expressão diferente em função das línguas. Constituem uma categoria aberta, cujos limites e características se apresentam ainda muito difusos. O objetivo do presente trabalho é analisar os contributos do uso de pronto para a construção do ethos discursivo do locutor (Maingueneau, 1999; Amossy, 2010). Damos assim continuidade à análise de características deste marcador discursivo já apontadas em Marques (2014). Escolhemos uma perspetiva interdisciplinar, a fim de conjugar a teoria do ethos ou imagem de si, de natureza enunciativa, com a abordagem interacional das relações interpessoais, estabelecidas entre os participantes na situação de comunicação. O corpus para análise destas ocorrências e funcionamentos é constituído por entrevistas sociolinguísticas, em gravação áudio, realizadas, no âmbito do projeto Perfil sociolinguístico da fala bracarense. Palavras-chave: Marcadores discursivos; ethos; relações interpessoais. Contexts of use of the discourse marker pronto and discursive ethos Abstract: Discourse Markers (DM) are one of the most studied categories, albeit with different expression depending on the languages. They constitute an open category, whose limits and characteristics are still very diffuse. The objective of this work is to analyze the contributions of the use of DM pronto for the construction of the speaker’s discursive ethos (Maingueneau, 1999; Amossy 2010). Thus, we analyse characteristics of this DM already pointed out in Marques (2014). We chose an interdisciplinary perspective in order to combine the theory of ethos or self-image, of an enunciative nature, with the interactional approach of interpersonal relationships, established between the participants in the communication situation. The data for the analysis of these occurrences and functioning is constituted by sociolinguistic interviews in audio recording carried out within the scope of the project Sociolinguistic profile of Braga’s speech.
Maria Aldina Marques 206 13 Key words: Discourse markers; ethos; interpersonal relationships; pronto.
Contextos de uso do marcador discursivo pronto e ethos discursivo 207 13 1. Marcadores Discursivos: complexidade de uma categoria Os Marcadores do Discurso (MD) são uma das categorias mais estudadas, ainda que com expressão diferente em função das línguas. Se no inglês e francês, e também no espanhol, mas já em menor medida no português, é possível documentar um conjunto significativo e extenso de trabalhos na área, o mesmo não se passa com outras línguas, que começam agora a ser estudadas neste domínio. Não é, todavia, o caso do galego, que, entre outros estudos (Moreda Leirado, 2009; Domínguez Portela, 2009, 2011; ou Sánchez Rei, 2016), conta já com a fundamental investigação de Freixeiro Mato (2003, 2005, 2008, 2010, 2016, entre outras publicações). A par do contributo para o conhecimento científico na área, em termos absolutos, são estudos de particular interesse para quem investiga os MD em português quer se considere que galego e português são línguas diversas, quer variedades de uma mesma língua. Ao abordar os MD, estamos perante uma categoria discursiva, funcional, que em Ducrot & Bruxelles & Bourcier (1980) se designou como petits mots, na senda, talvez, da tradicional designação de partículas. Mas a marginalidade gramatical a que foram votadas altera-se e é no quadro teórico da pragmática discursiva, dos estudos da linguagem em uso, que os MD vão ser, sobretudo, analisados, ainda que a linguística cognitiva tenha vindo a impor-se na área, com destaque para trabalhos sobre gramaticalização dos MD. Os MD constituem uma categoria aberta, cujos limites e características se apresentam ainda muito difusos. É por essa razão que Rodríguez Somolinos (2011: 3), por exemplo, ao apresentar o volume Langages nº 184, inteiramente dedicado aos marcadores do discurso, deu ao seu texto introdutório o sugestivo título de Les marqueurs du discours: un domaine mal defini. Esta é ainda uma questão atual, pese embora os muitos trabalhos que continuam a ser realizados e publicados. É o caso de Lopes (2020: 122-123), um texto em que a autora reconhece que “a expressão Marcador Discursivo […] reenvia para conceitos distintos, consoante os autores que a convocam” e os quadros teóricos a partir dos quais o fazem. Nesta diversidade teórica, sobressaem duas categorias de marcadores discursivos, conectores e marcadores conversacionais (Lopes, 2020: 123), que fazem a distinção, respetivamente, entre suporte escrito e suporte oral, entre discurso planeado, formal e discurso não planeado, informal ou ainda entre discurso monologal e dialogal. Mas são distinções que devem ser tomadas como tendências, num domínio de análise de um objeto complexo e heterogéneo como são os discursos. Assim, mostra-se particularmente adequada a amplitude funcional, que Schiffrin (2001: 54) refere a propósito de elementos como well, but, oh e y’know, mas é válida para a categoria na sua globalidade: “one set of linguistic items that function in cognitive, expressive, social, and textual domains” [itálico meu].
Maria Aldina Marques 214 13 E, de facto, na intervenção reativa, o interlocutor coopera, reorientando a interação para outro tópico. A procura ou o desejo de concordância marcado por pronto faz-se sobre conteúdos implicitados que o alocutário deve recuperar. São, por conseguinte, conhecimentos compartilhados. A convocação do conhecimento compartilhado é uma estratégia central da interação, que os MD ativam ou podem ativar. Pronto ativa vozes doxais, que atualizam estes conhecimentos partilhados e reforçam o ponto de vista do locutor: (6) • • saca o travão de mão, o gajo foi/ o carro fugiu-lhe para a esquerda, apanhou as miúdas. Estavam sentadas, também não deveriam estar, mas pronto. • • Estavam sentadas ali do do/ no separador das duas faixas. Elas estavam ali sentadas do lado esquerdo (18H2C). Em (6), o locutor põe em cena uma voz doxal que afirma a fatalidade da vida, que o alocutário reconhece (ou o locutor apresenta como tal). É parafraseável por “é a vida!”, “acontece!”. b) Contexto de dissenso Em contexto de dissenso, ou de possível dissenso, o acordo ocorre como cedência. Em (7), pronto mostra um acordo parcial, posto em evidência pela ocorrência do conector mas, relativo à opinião do locutor sobre a pena de morte. Pronto é parafraseável por “de acordo”, “tem razão”. É uma estratégia de preservação de relação interpessoal colaborativa e próxima. (7) E: Mas já viu um um criminoso que que te/ que tomou o poder • • de matar alguém. I: Sim, matou. Pronto, mas lá está. Mas mas eu para mim entendo que essas pessoas que já são doentes. Essas pessoas não são normais (18H2C) Os contextos de consenso e dissenso são relevantes para a determinação do valor de concordância, que instaura uma relação de solidariedade entre os participantes, expressando procura de acordo, acordo, cedência, resignação. O conceito de ethos, com origem na antiguidade clássica, como prova técnica, a par do pathos e do logos, é retomado na análise do discurso por Maingueneau, que elabora uma teoria do ethos como construção da imagem de si nos discursos (Maingueneau, 1999; Amossy, 1999 e 2010). A análise conversacional, direcionada para o estudo dos textos orais do quotidiano, com outros quadros e influências teóricas, encaminhou as suas análises para outras problemáticas que não a análise do ethos. Mas como refere Amossy (2010: 13) “la présentation de soi fait partie
Contextos de uso do marcador discursivo pronto e ethos discursivo 215 13 intégrante des rites d’interaction qui caractérisent la vie quotidienne”. É, pois, pertinente interligar a relação interpessoal construída na interação com o ethos discursivo (Maingueneau, 1999, 2018). O ethos do locutor decorre da construção discursiva na sua globalidade, não de um marcador único ou meio discursivo único. Mas, ao ser uma estratégia de construção da relação interpessoal, pronto participa na construção do ethos discursivo do locutor. Há, nos usos de concordância de pronto, uma implicação enunciativa do locutor e do alocutário que influencia o seu ethos. Retomando Martín Zorraquino & Portolés (1999: 4147), acima citados, a concordância é a função “de desencadenar procedimientos de cooperación entre los interlocutores, señalando el acuerdo entre estos en relación con el mensaje que se intercambian”. É, por isso, possível concluir que os valores de concordância de pronto que apresentámos contribuem para a construção global do ethos, sendo a marca de um ethos mostrado conciliador. 3. Conclusão Vamos restringir as conclusões a alguns dos pontos centrais da análise realizada. Ao analisar o marcador discursivo pronto, partimos do pressuposto de que os valores apresentados não são estanques nem exclusivos de uma dada posição. A complexidade do objeto impõe tomar a multifuncionalidade como coocorrência de funções num mesmo contexto. Focando o valor de concordância de pronto, este valor sobressai como acordo com o dizer e o dito do alocutário, exprimindo acordo, perfeito ou cedência (resignação /concessão), e procura de acordo com o dizer e o dito do locutor. Pronto aprofunda, reforça, uma relação de convergência e minimiza o confronto, em situação de divergência; e, assim, a solidariedade entre os interlocutores é mostrada. Uma outra questão que se colocou, relacionada com a anterior, foi, pois, a de analisar o contributo que pronto, enquanto MD, pode dar para a construção do ethos ou imagem de si do locutor. A análise evidencia que o uso do MD pronto é uma estratégia discursiva que visa assegurar uma relação interpessoal de solidariedade, de concordância. Assim, o valor de concordância deste marcador contribui para a construção do ethos do locutor, um ethos conciliador. É de salientar que esta partícula pronto não se restringe a um nível microdiscursivo, antes influencia, ao nível macro, a construção do ethos do locutor. Todo o fazer discursivo participa na construção ethos global do locutor. Os usos de pronto, nomeadamente como pontuante, na terminologia de Christiano & Hora, deverão também ser analisados sob esta perspetiva.
Maria Aldina Marques 216 13 A convocação de um conhecimento compartilhado, trazendo para o discurso uma voz doxal, é uma outra vertente a merecer um estudo mais aprofundado. Referências bibliográficas Amossy, Ruth (2010). La présentation de soi. Paris: PUF. Auchlin, Antoine (1981). “Mais heu, pis bon, ben alors voilá, quoi! Marqueurs de structuration de la conversation et completude, Cahiers de Linguistique Française, 2, 141-159. Disponível em https://clf.unige.ch/files/3614/4111/1926/09-Auschlin_ nclf2.pdf (consultado em 10.02.2021). Bolden, Galina (2006). “Little words that matter: Discourse Markers ‘So’and ‘Oh’ and the Doing of Other-Attentiveness in Social Interaction”, Journal of Communication,56/4, 661-688. Disponível em DOI: 10.1111/j.1460-2466.2006.00314.x (consultado em 10.09.2020). Briz Gómez, Antonio (1998). El español coloquial en la conversación. Esbozo de pragmagramática. Barcelona: Editorial Ariel. Brown, Roger, & Gilman, Albert (1960). “The pronouns of power and solidarity”. Em Sebeok, Thomas A. (ed.), Style in Language, 253-276. Cambridge Mass: MIT press. Disponível em https://www.ehu.eus/seg/_media/gizt/5/5/brown-gilman-pronouns. pdf 5066 (consultado em 05.12.2020). Christiano, Maria Elizabeth Affonso, & Hora, Demerval da (1998). “O item lexical pronto: marcador discursivo e interativo, Graphos, 1/3, 197-205. Disponível em http:// periodicos.ufpb.br/ojs/index.php/graphos/article/view/9411/5066 (consultado em 02.09.2020). Domínguez Portela, Soraya (2011). “O marcador discursivo vale: usos ou abusos”, Estudos de Lingüística Galega, 3, 211-226. Disponível en https://www.redalyc.org/ articulo.oa?id=305626393014 (consultado em 07.11.2020). Domínguez Portela, Soraya (2009). “Olla e mira, dous marcadores discursivos en tres linguas: portugués, galego e español”, Cadernos de Lingua, 31, 27-74. Disponível em http://publicacionsperiodicas.academia.gal/index.php/Cadernos/article/view/34/40 (consultado em 07.11.2020). Dostie, Gaétane, & Pusch, Claus. D. (eds.) (2007). “Présentation. Les marqueurs discursifs. Sens et variation”, Langue française, 154, 3-12. Disponível em https://www. cairn.info/revue-langue-francaise-2007-2-page-3.htm (consultado em 07.11.2020). Duarte, Isabel Margarida & Ponce de León, Rogelio (eds.) (2020). Marcadores Discursivos. O português como referência contrastiva. Bern: Peter Lang. Ducrot, Oswald, & Bruxelles, Sylvie, & Bourcier, Danièle (1980). Les mots du discours. Paris: Minuit.
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