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A utilização das tecnologias da informação e comunicação no setor agropecuário em Portugal

Oliveira, Sandra Liliana Meira de

Abstract

Nos últimos anos o setor agropecuário em Portugal tem enfrentado inúmeros desafios. Os agricultores enfrentam pressões crescentes provocadas por fatores como: excesso de produção; concorrência; qualidade e segurança alimentar; ambiente; diversificação; aumento na exigência dos consumidores; alteração nos modelos de distribuição. Pressões estas que surgem num contexto de forte regulamentação, inerente ao enquadramento político e legal induzido pela união europeia, global e em constante mudança. O acesso à informação e às tecnologias da informação é, então, uma necessidade para lidar com estes desafios. Este estudo pretendeu perceber se o potencial das tecnologias da informação tem sido aproveitado no setor pecuário. Para tal estudaram-se fatores que influenciam a adoção de tecnologias no setor e determinou-se o grau de informatização das explorações. O método de estudo recorreu a uma avaliação quantitativa através de inquérito às empresas pecuárias e permitiu a recolha de dados de setenta e duas empresas. Os resultados alcançados permitiram concluir que há um baixo nível de informatização do setor e a utilização de internet é reduzida. Há também um baixo investimento em TIC por parte das empresas. A elevada faixa etária e o baixo nível de escolarização são fatores que contribuem negativamente para a adoção de tecnologias. Foi também possível perceber que a adoção de tecnologia se relaciona positivamente com o aumento do volume de vendas e que essa adoção parece também ser influenciada pelo tipo de produção da empresa. Empresas ligadas à produção de bovinos (carne ou leite), ainda que baixo, apresentam maior grau de informatização.

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Universidade do Minho Escola de Economia e Gestão Sandra Liliana Meira de Oliveira janeiro de 2021 A Utilização das Tecnologias da Informação e Comunicação no Setor Agropecuário em Portugal Sandra Liliana Meira de Oliveira A Utilização das Tecnologias da Informação e Comunicação no Setor Agropecuário em Portugal UMinho|2021 Sandra Liliana Meira de Oliveira janeiro de 2021 A Utilização das Tecnologias da Informação e Comunicação no Setor Agropecuário em Portugal Trabalho efetuado sob a orientação do Professor Doutor Vasco Eiriz e do Doutor Nuno Marques Dissertação de Mestrado Mestrado em Estudos de Gestão Universidade do Minho Escola de Economia e Gestão ii Direitos de Autor e Condições de Utilização do Trabalho por Terceiros Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição CC BY https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/ iii Agradecimentos A conclusão deste trabalho não teria sido possível sem o apoio de diversas pessoas. Gostaria de expressar um agradecimento muito especial à minha família pelo apoio incondicional e paciência demonstrados, desde o primeiro momento. Gostaria ainda de agradecer ao Doutor Vasco Eiriz e ao Doutor Nuno Marques, da Universidade do Minho, pelo interesse e apoio concedidos, pela disponibilidade e motivação transmitida. iv Declaração de Integridade Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. v A Utilização das Tecnologias da Informação e Comunicação no Setor Agropecuário em Portugal Resumo Nos últimos anos o setor agropecuário em Portugal tem enfrentado inúmeros desafios. Os agricultores enfrentam pressões crescentes provocadas por fatores como: excesso de produção; concorrência; qualidade e segurança alimentar; ambiente; diversificação; aumento na exigência dos consumidores; alteração nos modelos de distribuição. Pressões estas que surgem num contexto de forte regulamentação, inerente ao enquadramento político e legal induzido pela união europeia, global e em constante mudança. O acesso à informação e às tecnologias da informação é, então, uma necessidade para lidar com estes desafios. Este estudo pretendeu perceber se o potencial das tecnologias da informação tem sido aproveitado no setor pecuário. Para tal estudaram-se fatores que influenciam a adoção de tecnologias no setor e determinou-se o grau de informatização das explorações. O método de estudo recorreu a uma avaliação quantitativa através de inquérito às empresas pecuárias e permitiu a recolha de dados de setenta e duas empresas. Os resultados alcançados permitiram concluir que há um baixo nível de informatização do setor e a utilização de internet é reduzida. Há também um baixo investimento em TIC por parte das empresas. A elevada faixa etária e o baixo nível de escolarização são fatores que contribuem negativamente para a adoção de tecnologias. Foi também possível perceber que a adoção de tecnologia se relaciona positivamente com o aumento do volume de vendas e que essa adoção parece também ser influenciada pelo tipo de produção da empresa. Empresas ligadas à produção de bovinos (carne ou leite), ainda que baixo, apresentam maior grau de informatização. Palavras-chave: adoção, grau de informatização, pecuária, tecnologias da informação e da comunicação. vi The Use of Information and Communication Technologies in Livestock in Portugal Abstract In recent years, the agricultural sector in Portugal has faced numerous challenges. Farmers face increasing pressure from factors such as: overproduction; competition; food quality and safety; environment; diversification; increased consumer demand; change in distribution models. Pressures that arise in a context of strong regulation, inherent to the political and legal framework induced by the European Union, global and in constant change. Access to information and information technologies is, therefore, a necessity to deal with these challenges. This study aimed to understand whether the potential of information technologies has been exploited in the livestock sector. For this, factors that influence the adoption of technologies in the sector were studied and the degree of computerization of the explorations was determined. The study method used a quantitative assessment through a survey of livestock companies and allowed the collection of data from seventy-two companies. The results achieved allowed us to conclude that there is a low level of computerization in the sector and the use of internet is reduced. There is also a low investment in ICT by companies. The high age group and the low level of education are factors that contribute negatively to the adoption of technologies. It was also possible to notice that the adoption of technology is positively related to the increase in sales volume and that this adoption also seems to be influenced by the type of production of the company. Companies linked to the production of cattle (meat or milk), although low, present a greater degree of computerization. Keywords: adoption, degree of computerization , information and communication technologies, livestock. vii Índice Direitos de Autor e Condições de Utilização do Trabalho por Terceiros .................................................. ii Agradecimentos .................................................................................................................................. iii Declaração de Integridade .................................................................................................................. iv Resumo............................................................................................................................................... v Abstract.............................................................................................................................................. vi Índice ................................................................................................................................................ vii Índice de Tabelas ............................................................................................................................... ix Índice de Figuras ................................................................................................................................. x Lista de abreviaturas .......................................................................................................................... xi 1 Introdução ................................................................................................................................... 1 1.1 Nota introdutória .................................................................................................................. 1 1.2 Apresentação e relevância do tema ...................................................................................... 1 1.3 Objetivos e metodologia de investigação ............................................................................... 4 1.4 Estrutura e organização ........................................................................................................ 5 2 Revisão bibliográfica .................................................................................................................... 6 2.1 Tecnologias da informação e comunicação ........................................................................... 6 2.2 As TIC e o agronegócio ......................................................................................................... 7 2.3 Ferramentas informáticas de auxílio à gestão de empresas do setor pecuário ........................ 9 2.4 A adoção das tecnologias da informação e da comunicação ................................................11 2.5 O impacto organizacional na utilização das TIC ...................................................................13 2.6 Grau de informatização ......................................................................................................17 3 Contextualização do estudo ........................................................................................................19 3.1 O estado da agricultura ......................................................................................................19 3.2 Caracterização das explorações agrícolas ...........................................................................22 3.3 Caracterização da mão-de-obra agrícola ..............................................................................23 4 Metodologia ...............................................................................................................................26 4.1 Definição do problema e dos objetivos ................................................................................26 4.2 Caracterização da população ..............................................................................................27 4.3 Método de amostragem ......................................................................................................28 4.4 Método de recolha de dados ...............................................................................................28 3 de marketing direto de produtos agroalimentares e explorar oportunidades, como o comércio eletrónico, os leilões, as vendas de serviços e o ensino à distância, segundo o aludido autor. A empresa agropecuária vive da constante tomada de decisão acerca do modo de agir sobre o ambiente e os animais, para o desenvolvimento de atividades, em contextos complexos, dependentes de variabilidade climática, variabilidade das características espaciais e diversidade de animais, num contexto afeto a uma forte regulamentação. Nos dias de hoje, a gestão de informação é crucial para o empresário agropecuário, pois esta suporta uma correta tomada de decisão (Freitas, 2007). Como tal, o domínio das TIC que suportam processos de gestão de informação é fundamental, com o objetivo de assegurar uma gestão de informação eficiente e eficaz, garantindo que se tem a informação certa no momento exato (Freitas, 2007). Em Portugal, se noutros setores da economia as tecnologias da informação foram aplicadas rapidamente, o potencial destas tem sido subaproveitado no setor pecuário, as TIC quando utilizadas, centram-se em instrumentos de natureza contabilística e financeira, restringindo-se a informação ao setor administrativo (Neto et al, 2005). Nem todas as empresas do setor agrário beneficiam de tecnologia emergente e das inovações impulsionadas pelas tecnologias da informação e da comunicação, pondo de parte oportunidades para aumentar a produtividade e a riqueza (Neto et al, 2005). Segundo Dinis (2007), no setor agrícola, os empresários conseguem facilmente colocar esforço no desenvolvimento de novos produtos e mercados, mas têm dificuldade na inovação tecnológica devido à falta de infraestruturas de formação e à falta de conhecimento das tecnologias existentes e dos seus avanços. Neste contexto, o impacto da não utilização destas tecnologias, aumenta a probabilidade de tornar as empresas mais vulneráveis, não usufruindo da vantagem competitiva oferecida pela utilização destas, comparativamente com a concorrência (Zehir et al., 2010). As tecnologias da informação e da comunicação conferem às empresas uma vantagem competitiva, pois têm o potencial para suportar de forma mais eficiente as tomadas de decisões para o seu desempenho, tornando-as mais competitivas e inovadoras, gerando crescimento (Barba-Sa Chenchez, Marti Znez-Ruiz & Jime Nez-Zarco, 2007). Na sociedade do conhecimento, as empresas precisam desenvolver vantagens competitivas, baseadas no uso adequado e intensivo das tecnologias de informação e comunicação, que é um elemento essencial de sucesso no mercado atual. Este fato é especialmente relevante para as pequenas e médias empresas (PME), cuja sobrevivência depende, entre outros fatores, do uso das TIC para desenvolver novos modelos organizacionais, competir em novos mercados ou melhorar as suas 4 relações de comunicação interna e externa. (Barba-Sa Chenchez, Marti Znez-Ruiz & Jime Nez-Zarco, 2007). Tomando, então, como pontos de partida, a importância da utilização das TIC no seio das organizações e a assunção de que nesta era digital, as mesmas, ainda não estão a ser utilizadas, em todo o seu potencial, no setor pecuário, em Portugal, pretender-se-á, estudar e refletir sobre a utilização das tecnologias da informação e comunicação, neste contexto. 1.3 Objetivos e metodologia de investigação Este estudo tem como objetivos principais: i. Compreender a analisar a adoção de tecnologias da informação e Comunicação no setor; ii. Posicionar as empresas do setor de acordo com o seu grau de informatização; No âmbito da realização deste estudo forma definidos os seguintes objetivos específicos: 1. Identificar as tecnologias adotadas pelas explorações pecuárias para suporte à sua atividade; 2. Identificar atitudes das empresas face à adoção de tecnologias da informação e comunicação; 3. Identificar de que forma é que as empresas do setor pecuário usam as TIC; 4. Identificar fatores que influenciam a adoção das TIC; 5. Determinar o grau de informatização das empresas de produção animal. Para a realização do estudo foram recolhidos dados primários, através da aplicação de um inquérito, via questionário distribuído às empresas, utilizando-se, portanto, a metodologia quantitativa que se enquadra no paradigma positivista. A opção de efetuar a recolha de dados via questionário deve-se ao facto de que permite a recolha de dados diretamente às empresas, de forma rápida, através de um processo simples de resposta e sem custos associados. Pensou-se, inicialmente, no envio do questionário através de e-mail. Contudo, tendo em conta, as características particulares do setor, a internet não deve ser o único canal de distribuição do questionário. Tal pode enviesar o resultado do trabalho em termos de análise estatística, uma vez que, alguns responsáveis das explorações não possuem, ou só utilizam as suas contas de correio eletrónico para situações muito específicas, tais como a realização de candidaturas aos apoios comunitários (Pinheiro, 2014). Assim sendo, e como o autor do trabalho tem acesso a uma equipa técnico-comercial 5 do setor que permitiu a distribuição de inquéritos ao longo de todo o país, optou-se por distribuir o inquérito, de forma direta, em papel. A população deste estudo são as empresas do setor pecuário português. O estudo foi efetuado a partir de uma amostra representativa desta população e os inquéritos distribuídos a 72 empresas. Após recolha, os dados foram analisados com recurso ao software SPSS. 1.4 Estrutura e organização A presente dissertação é composta por sete capítulos. O primeiro capítulo comporta a Introdução que se dividem em quatro secções: nota introdutória, apresentação e relevância do tema, objetivos e metodologia de investigação e estrutura e organização. Nos capítulos dois é efetuada a revisão de literatura que irá suportar o tema tratado na presente dissertação. No capítulo três é efetuada a contextualização do estudo. Neste, ao longo de três secções (o estado da agricultura, caracterização das explorações agrícolas, caracterização da mão-de-obra agrícola), é caracterizado o setor agrícola e, consequentemente, o setor pecuário em Portugal. O capítulo quatro, metodologia, está dividido em quatro secções. Na primeira secção define-se o problema e os objetivos do presente trabalho. Segue-se, na segunda secção, a caracterização da população em estudo na dissertação. Na terceira secção é identificada a amostra e, por último, na quarta secção, apresenta-se o método de recolha de dados. O quinto e sexto capítulos tratam a apresentação, análise e discussão dos dados que foram recolhidos através das respostas obtidas ao questionário aplicado às explorações pecuárias. Por último, no capítulo 7, que se divide em três secções, começa-se por apresentar as principais conclusões recolhidas na dissertação (secção 7.1). Na secção 7.2 são identificadas as contribuições e implicações do estudo, e de seguida, na secção 7.3, são apresentadas as limitações do estudo e algumas considerações para o futuro. 6 2 Revisão bibliográfica 2.1 Tecnologias da informação e comunicação A era da informação. Assim se denomina o momento em que vivemos. Não foi de forma branda que se adotou esta designação. Nas últimas décadas, a informação obteve uma crescente importância, enquanto se assistia à disseminação global da utilização de computadores e redes. A informação é, hoje, encarada como um recurso essencial para as organizações, não que esta seja algo de novo, porque é, naturalmente, parte integrante de cada organização, mas porque, nas últimas décadas, foi reconhecida a sua importância estratégica (Atak, Erturgut, 2010). Dentro das organizações, a informação surge como um recurso estratégico e indispensável (Atak, Erturgut, 2010) e, como tal, é essencial recolher, processar e distribuir de forma eficaz e eficiente, a informação significativa para o funcionamento da organização. Tomando como ponto de partida o conceito de informação e definindo sistema como um conjunto complexo de elementos que interagem entre si (Tundidor Montes de Oca et al., 2018), um sistema de informação (SI) define-se como um conjunto de recursos que recolhem, processam, armazenam e distribuem a informação, com a finalidade de dar suporte à tomada de decisões numa organização (Tundidor Montes de Oca et al., 2018). Com a globalização das tecnologias e a utilização massiva de redes e de computadores, visando um processamento mais rápido e mais eficiente da informação, assistiu-se à sua integração nos sistemas de informação, que passaram a ser definidos, então, como conjuntos organizados de procedimentos, informações, tecnologias da informação e comunicação e pessoas, que visam alcançar objetivos definidos no seio de uma organização (Agarwal & Lucas 2005; Laudon & Laudon, 2012). Os sistemas de informação contêm informações sobre pessoas, locais e coisas significativas para os ambientes interno e externo a uma organização. Por sua vez, os sistemas de informação suportados por computadores incluem, também, redes complementares de hardware/software, que os recursos humanos de uma organização utilizam para recolher, filtrar, processar, criar e distribuir informação (Bere, Brijlal, 2014). As tecnologias da informação englobam, não apenas a componente informática tradicional (hardware e software), mas também, sistemas de gestão de base de dados e sistemas de telecomunicações e redes (TIC). Assim sendo, as melhorias dos sistemas de informação, no seio das organizações, incorrem em investimentos em TIC, nomeadamente em: hardware, sistema operativos, redes e telecomunicações, serviços de consultoria (empresas que implementam e integram 7 sistemas, prestando serviços de outsourcing) ou recursos internos para desenvolvimento de software à medida, sistemas de gestão de bases de dados (ferramentas responsáveis pela organização e gestão das base de dados da empresa) e software de gestão empresarial (Serrano et al, 2004). Nesta era da informação, as TIC podem proporcionar um diferencial nas empresas que as souberem utilizar de forma adequada, contudo, o sucesso da sua implementação estará no “saber escolher” e no “saber usar” o que pressupõe a assimilação de inovações tecnológicas, o alinhamento entre as TIC e as estratégias da organização, a elaboração de estratégias específicas para investimentos em TIC, bem como atitudes de gestão e comportamentais voltadas para a inovação (Fernandes & Alves, 1992). Mas, as TIC estão em constante mudança e o processo de aquisição e implementação de TIC pode ser bastante demorado, o que pode fazer com que estas se tornem ultrapassadas antes mesmo de serem utilizadas pelas empresas (West & Berman, 2001). Assim, mesmo sendo notórias a vantagens que a adoção de TIC proporciona, surgem muitas questões que se prendem com o problema de seleção, implementação, utilização e manutenção da tecnologia, ou seja, com os custos relacionados às TIC e à sua utilização efetiva, podendo contribuir para alterações não previstas ou desejadas na estrutura das próprias organizações (Freitas & Rech, 2003). Quando se fala em pequenas e médias empresas, estes custos associados são ainda mais relevantes. Há evidências que só mais recentemente as organizações de menores dimensões começaram a realizar maiores investimentos em TIC e como tal a usufruir dos benefícios de gerar, armazenar, veicular, processar e reproduzir informação de forma rápida e eficiente, estando, tal fato, diretamente relacionado com o decréscimo do custo de aquisição de tecnologias (Lunardi et al., 2010). 2.2 As TIC e o agronegócio O setor agroalimentar enfrenta um conjunto de desafios mundiais, que exigem uma reavaliação das práticas atuais em matérias de produção e comércio, cooperação entre as empresas ao longo da cadeia de abastecimento vertical, relações entre empresas em estágios semelhantes de produção ou comércio, infraestrutura dos setores de produção e serviços e de influência das políticas governamentais nas atividades de gestão das empresas (Schiefer & Zazueta,2003). Estes desafios incluem o aumento da globalização e da concorrência, uma produção alimentar altamente diferenciada e segmentada, requisitos em termos de garantia de qualidade, fiabilidade e flexibilidade na oferta dos alimentos, sustentabilidade da confiança das pessoas, controlo dos efeitos ambientais e eficiência dos 8 processos organizacionais. Neste contexto, as TIC têm o potencial de apoiar o setor a enfrentar estes desafios (Schiefer & Zazueta,2003). Em particular, no agronegócio (junção de inúmeras atividades que envolvem, direta ou indiretamente, toda a cadeia produtiva agrícola ou pecuária), as TIC têm potencial de promover o suporte ao setor agrário, para que esta lide com desafios, sendo também impulsionadoras de futuros progressos. No contexto atual, a adoção das tecnologias, por parte das empresas do setor agrário, não é uma escolha, mas uma questão de sobrevivência. Estas permitem equilibrar algumas desvantagens económicas, reduzindo barreiras de tempo e de distância dos principais mercados, sendo, portanto, consideradas um agente de reestruturação do ambiente e das funções dentro e fora das organizações, porque permite interligar pessoas, processos e empresas. As TIC não só podem ser aplicadas em praticamente todas as esferas da produção agrícola e da gestão das explorações, como têm a capacidade de transformar a produção e comercialização, assim como o fluxo de informação e o conhecimento dentro do setor (Rodrigues,2013). O aumento da utilização das TIC pode causar impactos positivos no agronegócio, destacando-se a substituição da força de trabalho e o aumento no controlo das atividades, contribuindo para a redução da incerteza e dos riscos. É possível, ainda, que a sua adoção aumente a entrada nos mercados, por facilitar o acesso à informação (Machado, 2011). A informação de qualidade adequada é condição necessária para a melhoria de todas as áreas da agricultura. Com a melhoria da evidência de dados, análise detalhada dos custos e estratégias de marketing sofisticadas, os agricultores serão capazes de tomar melhores decisões e obter maiores lucros. Além disso, a implementação e a utilização das TIC podem apoiar significativamente o aumento da competitividade. No agronegócio as TIC podem ser utilizadas de duas formas: diretamente, sendo utilizadas como ferramenta que contribui diretamente para a produção e indiretamente, quando são utilizadas como uma ferramenta que fornece informações ao produtor para tomar decisões de qualidade na gestão eficiente da sua empresa (Milovanovic, 2014). A informação deve ser entendida como um recurso de extrema importância, tão importante como o capital ou as pessoas e, como tal, deve ser gerida de modo a tirar-se o melhor proveito possível (Atak, Erturgut, 2010). A importância dos sistemas de informação tem de ser reconhecida pelas organizações e, quando aliados às TIC, surgem como ferramentas que podem potenciar, significativamente, o alcance dos objetivos dentro de uma empresa e contribuir para uma gestão eficaz da sua estratégia (Tundidor Montes de Oca et al., 2018). A introdução das TIC, por exemplo, na gestão financeira, pode conduzir a uma maior eficiência, a redução de custos e a melhores tomadas de decisão. Por sua vez, no contexto de produção, podem tornar mais racional o uso de recursos, obter 9 maiores margens de lucro e maior produtividade. A sua utilização pode, também, reforçar a sustentabilidade da agricultura, através da utilização mais racional dos insumos químicos e da, consequente, redução dos resíduos ambientais, assim como através do tratamento imediato e integrado das doenças das plantas e dos animais. A sua adoção é, particularmente, importante na pecuária, essencialmente, na adoção de sistemas de informação que armazenem, processem e analisem informações sobre o controle de matrizes, cruzamento de animais, inseminações artificiais, nutrição e sanidade de cada animal, entre outros (Machado et al, 2011). É, então, essencial a adoção de ferramentas informáticas de auxílio à gestão, que apoiem as empresas pecuárias, quer em áreas comuns a todas as empresas, quer em áreas especificas do setor. 2.3 Ferramentas informáticas de auxílio à gestão de empresas do setor pecuário A informação e a sua consequente utilização, como foi já referido, é algo que confere vantagem competitiva às empresas e uma condição essencial para a sua sobrevivência. Mas, para que esta informação seja significativa e cumpra o papel a que se propões é crucial que seja sujeita a um processo de controlo, através do qual é possível haver um acompanhamento de desempenho que atribua valor a um produto ou serviço, reconhecer novas necessidades, identificar e resolver problemas e avaliar os impactos e resultados do próprio processo de tomada de decisão (Schmitt, 2004). Como solução a esta questão, surgiram os sistemas integrados de gestão que oferecem funcionalidades que permitem integrar todas as informações de uma organização numa base de dados central partilhada por toda a organização (Al-Mashari, Zairi, 2000). Ao integrar-se a informação num único sistema evitase a sua fragmentação, melhora-se a sua conciliação, o acesso e a análise da mesma, contribuindo para uma tomada de decisões mais rápida e mais acertada (Poston, Grabski, 2001). No contexto atual, é notório o investimento, por parte das empresas, nestas ferramentas informáticas de apoio à gestão. Os sistemas informáticos empresarias têm emergido como uma opção de investimento para as organizações e o potencial e o impacto da sua utilização, no seio das organizações, tem sido largamente estudado. Nos dias de hoje destacam-se os sistemas ERP ( Enterprise Resource Planning Systems ), os sistemas CRM ( Customer Relationship Management Systems) e os sistemas Supply Chain Management Systems . Os sistemas ERP ganharam popularidade nos anos noventa (Hewavitharana et al., 2019). Ao longo do tempo foram-se expandindo e surgiram os sistemas CRM e SCM, bem como a possibilidade de se aceder a estes sistemas através da Internet. 10 Se, inicialmente, este software servia apenas grandes empresas mais tarde surge a necessidade de se alargar o mercado de modo abranger as pequenas e médias empresas. Para tal surge o conceito de ERP Open Source , e ainda novas formas de distribuir o software. Surge então o conceito de software como serviço (Saas). Um sistema ERP é um sistema informático que facilita o fluxo de informações entre todas as atividades de uma empresa como produção, logística, finanças e recursos humanos, suportado por uma base de dados central e cuja utilização permite gerir e otimizar a informação. Souza e Zwiccker (2000) definem ERP como sistemas de informação integrados, desenvolvidos com o intuito de atender a requisitos genéricos do maior número de empresas, adquiridos na forma de pacotes comerciais, para suportar a maioria das operações de uma empresa. Este tipo de sistema está dividido em vários módulos. Cada módulo suporta funcionalidades especificas das atividades a que se remete: marketing e vendas, gestão de produção, controlo de inventário, design de processo, gestão de qualidade, recursos humanos, gestão financeira, contabilidade e gestão de informação (Larson,et al., 2005). A estrutura modular possibilita que a sua utilização seja efetuada de acordo com as necessidades específicas de cada empresa e/ou departamento e/ou utilizador. Cada vez mais empresas percebem que os sistemas ERP podem fornecer um grande nível de competitividade adquirindo uma posição forte no mercado (Robey et al. 2002). Por sua vez, os sistemas de CRM focam-se em acrescentar e fidelizar clientes rentáveis para a organização, através de marketing, vendas e serviços. Estes sistemas oferecem uma infraestrutura que facilita a construção de relacionamentos com os clientes, a longo prazo (Quadros, 2007). Customer relationship management (CRM) quer como estratégia, quer como tecnologia sofreu uma grande evolução ao longo dos últimos anos. Houve um amadurecimento notório quer do ponto de vista conceptual, quer do ponto de vista tecnológico. Evolução esta que continua (Kumar & Reinartz, 2012). Nos dias de hoje CRM refere-se a uma estratégia, a um conjunto de táticas e a tecnologia que se tornou indispensável na economia moderna. A evolução referida é possível pela compreensão das relações interativas entre as empresas e os clientes e entre os próprios clientes. Desta forma, as empresas são capazes, cada vez mais, de customizar as mensagens de marketing para públicos-alvo maiores com base na resposta esperada do cliente e no valor do cliente para a empresa. Com recurso a sistemas CRM, quer enquanto estratégia, quer enquanto tecnologia, as empresas podem reduzir custos gerais de marketing, aumentar as taxas de resposta ao cliente e acima de tudo aumentar o lucro geral do cliente para a empresa (Kumar, 2010). 11 No que concerne aos sistemas SCM, ou gestão de cadeia de abastecimento, estes centram-se no desenvolvimento de processos eficientes e efetivos com os fornecedores para a obtenção de produtos e serviços necessários à atividade da empresa (Hendricks & Singhal, 2003). A sua integração no seio das empresas possibilita uma redução de erros de previsão e planeamento e permitem que as empresas reajam rapidamente às mudanças na oferta e procura (Hendricks & Singhal, 2003). O aumento do lucro e da produtividade, a redução dos custos operacionais, a minimização do stock e o tempo reduzido do ciclo de pedidos são alguns dos benefícios das utilizção de SCM (Nucleus Research, 2003a). Os principais construtores de soluções de gestão integrada ERP possuem módulos que se podem configurar de forma a corresponder às especificidades do setor pecuário: Sage, Microsoft Dynamics Nav, SAP, Epicor e Infor Styteline (Pinheiro,2014). Ao efetuarmos pesquisas on-line, é também possível encontrar empresas, no mercado português, que já desenvolvem soluções específicas para o setor agropecuário: Isagri, Wezoot, Phosphorland e AgroGestão. Ao analisar estas soluções é possível referir que nestas destaca-se o acesso imediato a informação de gestão de efetivos pecuários, no campo, o que facilita o maneio animal e acelera a tomada de decisão, e a possibilidade de integração com os ERP supracitados. É, portanto, possível afirmar que, na vertente das explorações pecuárias, as soluções tecnológicas permitem, nos dias de hoje, que estas organizações possam estar ao nível das mais evoluídas empresas de qualquer outro setor de atividade. 2.4 A adoção das tecnologias da informação e da comunicação As tecnologias da informação e da comunicação têm um papel importante no desenvolvimento das empresas, sendo notória a sua importância no e para o progresso das explorações agropecuárias. Interessa perceber se a difusão da tecnologia nas empresas do setor pecuário em Portugal é uniforme, e se não houver uniformidade, porque é que há desfasamento entre a adoção da tecnologia entre os produtores e quais são os fatores que explicam este quadro. As condições socioeconómicas, características específicas do produtor, características da produção e da propriedade rural e características da tecnologia podem interagir entre si para inibir ou promover a adoção da tecnologia. Segundo Machado & Nantes (2011) os fatores socioeconómicos como educação, cultura, posição social, mobilidade social, dimensão das propriedades, orientação comercial (maior ou menor), disponibilidade de crédito, operações mais especializadas podem influenciar a adoção da tecnologia. Por sua vez, variáveis de personalidade como empatia, 12 racionalidade, inteligência, atitude favorável à mudança, habilidade para lidar com incertezas e riscos e atitude favorável em relação à educação são também determinantes nesta adoção. Após a sua adoção, não fica assegurado que a sua implementação seja bem-sucedida. É necessário que esta seja aceite e utilizada. No caso das explorações agropecuárias esta mudança terá de ser sempre bem equacionada já que mão-de-obra é envelhecida o que poderá aumentar a resistência à utilização das TIC. Segundo Machado e Nantes (2011) se há benefícios na adoção das TIC, é um facto que surgem obstáculos relacionados com a sua seleção, implementação, utilização e manutenção, que por norma estão relacionados com os custos associados à aquisição e à utilização efetiva desta. Dentro das empresas os indivíduos podem reagir de forma diferente perante a nova tecnologia: fascínio, perplexidade, deslumbramento ou descrença. Há os que aceitam o desafio sem questionar e os que ficam relutantes em aceitar. Ao analisar os obstáculos que as organizações enfrentam ao adotar novas tecnologias Freitas & Rech (2003) e Santos et al. (2005) verificaram que fatores como falta formação, falta de suporte técnico, falta de políticas motivacionais, resistência cultural à mudança, tempo exigido para a tornar eficiente e produtiva e custo de implantação, são barreiras na sua utilização inicial. Neste contexto, é crucial que, ao haver investimento em tecnologia dentro de uma organização, deve ser assegurado que os sistemas de informação adquiridos estão alinhados com o negócio, sejam de fácil utilização, atuais e de fácil manutenção. Quanto mais as pessoas sentirem que as tecnologias satisfazem as suas necessidades mais fáceis será a sua adoção. Se se associar um plano de formação adequado então estar-se-á a minimizar o risco de o investimento ser negativo. A utilização eficaz da TI e a integração desta com a estratégia do negócio vão para além da ideia de ferramenta de produtividade, sendo, muitas vezes, fator crítico de sucesso (Laurindo et al., 2001). O caminho para o sucesso da aplicação de tecnologia nas organizações não está apenas relacionado com o hardware e o software utilizados, ou com as metodologias de desenvolvimento adotadas, mas sim com o alinhamento da TI com a estratégia e as características da empresa e da sua estrutura organizacional (Laurindo et al., 2001). Nas empresas do setor pecuário a adoção de TIC deve ser feita com muita atenção, priorizando a recolha de informação e garantindo que as pessoas envolvidas estão devidamente comprometidas, treinadas e orientadas (Machado et al., 2011). Comprometidas porque a implementação de um sistema de informação não passa unicamente por instalar e configurar uma ferramenta e formar os utilizadores para que a utilizem. Uma implementação de sucesso passará por estudar o contexto, principalmente o interno e adotar medidas que facilitem e permitam construir um ambiente adequado para que a tecnologia seja aceite por quem a vai utilizar (Bhattacherjee et al., 2004). As crenças e as 19 3 Contextualização do estudo 3.1 O estado da agricultura A população mundial duplicou desde 1960 (FAO, 2018). A população mundial em 2050 será cerca de 9 mil milhões de pessoas. As mais altas taxas de crescimento ocorrerão em áreas que dependem essencialmente do setor agrícola (agricultura, pecuária, silvicultura e pesca). O crescimento do setor agrícola será a forma mais eficiente de reduzir a pobreza e alcançar a segurança alimentar. Neste sentido, investir na agricultura é fundamental para promover o crescimento do setor e com isso reduzir a pobreza e a fome no mundo. Mas, devido à escassez de recursos e às variações climáticas, os investimentos terão de ser cada vez mais seletivos o que leva obrigatoriamente a uma criteriosa escolha das opções e investimentos a realizar (FAO,2012). A FAO monitoriza as estatísticas relacionadas com a alimentação e a agricultura de forma a desenvolver esforços para reduzir a fome e promover o desenvolvimento. Tem desenvolvido estudos estatísticos sobre a alimentação e agricultura e dá uma visão das tendências e das questões económicas, sociais e ambientais. De um modo geral, as estatísticas apresentadas por esta organização refletem o crescente reconhecimento de que a agricultura deve ser o pilar de qualquer agenda de desenvolvimento e das políticas de crescimento económico, compreendendo e monitorizando os múltiplos papéis da agricultura, o que é muito importante, essencialmente, para os países em desenvolvimento, onde a agricultura continua a ser central para as economias nacionais. Aprofundam também a compreensão sobre como os aumentos na produção agrícola devem ser pesados em conjunto com os custos sociais e ambientais para se alcançar um desenvolvimento sustentável. Segundo os últimos dados obtidos (FAO,2018): dois terços das pessoas com carência alimentar vivem em apenas sete países; a produção agrícola mundial cresceu entre 2,5 a 3 vezes nos últimos 50 anos, mas a área cultivada cresceu apenas 12%. Mais de 40% do aumento da produção alimentar veio das áreas irrigadas, que duplicaram de superfície; não há terras disponíveis para a expansão agrícola no sul da Ásia, no Médio Oriente e no Norte de África; os cereais continuam a ser de longe a mais importante fonte de energia alimentar; em muitos países em desenvolvimento, o setor agrícola pode contribuir até 30% para o PIB e é uma fonte de emprego para dois terços da população; cerca de 90% das terras agrícolas potencialmente acessíveis situam-se na América Latina e África Subsaariana, e metade está concentrada em apenas sete países; a perda de rendimento global nos principais cereais, devido a pressões bióticas (por exemplo, insetos, doenças, vírus) é em média mais 20 de 23% do rendimento potencial estimado; parte do orçamento público atribuída à agricultura caiu para uma média aproximada de 7% nos países em desenvolvimento, sendo ainda mais acentuada África; um terço dos alimentos produzidos para consumo humano é perdido ou desperdiçado em todo o mundo. Segundo os últimos dados do FAOSTAT (FAO,2020), a despesa pública total em inovação e desenvolvimento (I&D) agrícolas aumentou, impulsionada, sobretudo, por países em desenvolvimento, entre os quais o Brasil, que, juntamente com Angola, está entre os sete países que concentram metade das terras com potencial agrícola. A China e a Índia são responsáveis por metade do investimento em I&D, bem como o Brasil que duplicou a produção de cana-de-açúcar na última década e se tornou um dos maiores exportadores agrícolas, sobretudo de oleaginosas e produtos pecuários. Portugal é apontado no relatório da FAO como o décimo país com mais mulheres a trabalhar na agricultura. A agricultura e a pecuária, com o uso de fertilizantes sintéticos, têm aumentado a contribuição para o aquecimento global, sendo responsável, entre 2000 e 2010, por mais 1,6% das emissões de gases de efeito estufa (FAO,2020). A economia alimentar mundial está a ser cada vez mais impulsionada pela mudança de dietas para produtos de origem animal, como carne, leite e laticínios. Como resultado, a agricultura é afetada não só pelo crescimento da produção pecuária, mas também por meio de vínculos com outros setores que fornecem a alimentação dos animais. A produção pecuária global oferece, portanto, oportunidades para o desenvolvimento do setor agrícola, redução da pobreza e ganhos na segurança alimentar (FAO,2018). À medida que um país se desenvolve, a participação da agricultura no PIB diminui devido à migração da mão-de-obra da agricultura para setores não agrícolas. Logo, de forma a manter o desempenho vital da agricultura é importante então aumentar a produtividade por trabalhador no setor agrícola, o que pode resultar em maiores investimentos na agricultura e na utilização de tecnologias melhoradas (FAO, 2018). O aumento do investimento na agricultura será crucial para enfrentar o desafio de alimentar as 821 milhões de pessoas que, ainda nos dias de hoje, se encontram subnutridas (FAO,2018). Organizações mundiais ligadas à agricultura, trabalham em parceria com os governos e com o setor privado para conseguirem aumentar os investimentos e assim fomentarem o desenvolvimento agrícola de forma a alcançar esse objetivo e que passará essencialmente por promover práticas agrícolas sustentáveis, por meio de apoio à agricultura familiar, do acesso equitativo à terra, à tecnologia e ao mercado, enquadrado num dos objetivos da Agenda 2030, Aprovada na Cimeira da Organização das Nações Unidas a 25 de setembro de 2015: “Fome Zero e Agricultura Sustentável”. 21 Em 1986 Portugal entrou na CEE, o que, pesar de ter assinalado o início de um ciclo de grandes transformações, induzidas pelo acesso a fundos e programas comunitários, e que possibilitaram uma melhoria significativa na qualidade de vida da população e na infraestrutura física do país, não foi de todo positivo para o setor agrícola em Portugal. O balanço entre perdas e ganhos que advieram da integração comunitária é negativo e tal deveu-se ao facto de não se terem considerado particularidades, atrasos e desníveis da agricultura portuguesa em relação a outros países europeus (De Arruda Saron, 2015). Antes de 1986 a importação já era algo do qual o país dependia. Após incorporação na CEE, a pressão sobre a agricultura portuguesa aumentou e, sendo esta frágil e pouco competitiva, a redução do emprego agrícola, o peso da agricultura nos rendimentos das famílias nos espaços rurais e o aumento de áreas não cultivadas foram impulsionados (De Arruda Saron, 2015). Muitas explorações agrícolas, sobretudo as de mais pequena dimensão, não conseguiram sobreviver às profundas mudanças vividas nos mercados agrícolas. A agricultura em Portugal é essencialmente desenvolvida por agricultores familiares, que, representam 242,5 mil explorações agrícolas (94% do total das explorações). Entre 2009 e 2016 verificou-se uma diminuição, em 17%, do número deste tipo de explorações (INE,2018). A agricultura familiar está integrada num contexto de grandes lutas e perseverança para que as famílias que vivem no e do mundo rural gerem o seu sustento, a partir do trabalho árduo diário, passando por grandes dificuldades para garantirem a sua sobrevivência e a permanência nas suas terras, devido a diversos fatores limitantes como o acesso a políticas públicas adequadas e, também, a falta de consultoria e assistência técnica, contrastando com um mercado cada vez mais exigente. Apesar da agricultura ter perdido alguma importância, continua a ser uma das principais bases da economia nacional. Ao longo dos últimos anos, começam a surgir mudanças no que concerne às reformas políticas com o intuito de promover respostas e soluções, sendo de realçar, o debate que nos últimos tempos se tem desenvolvido em torno da importância da agricultura familiar na agricultura e economias nacionais, na alimentação e coesão territorial. O Estatuto de Agricultura familiar foi publicado em Diário da República através do Decreto-Lei n.º 64/2018 (2018), de forma a reconhecer a especificidade da agricultura familiar para a adoção de medidas de apoio a seu favor, a aplicar a nível local de forma a ter em conta a diversidade de estruturas e de realidades agrárias, bem como aos constrangimentos e potencial de desenvolvimento de cada território, reconhecendo-se que, as atividades da agricultura e dos serviços que estão diretamente relacionados com a agricultura familiar são determinantes para grande parte do território 22 português, o que torna necessária a promoção de políticas públicas locais que reconheçam esta importância. Neste contexto, o governo colocou em prática um conjunto de medidas (no quadro da política agrícola comum) como o aumento do montante forfetário de pagamento anual, a criação do pagamento redistributivo e alterações nos apoios aos Pequenos Investimentos nas Explorações Agrícolas do PDR 2020 - Programa de Desenvolvimento Rural do Continente. 3.2 Caracterização das explorações agrícolas De acordo com o Inquérito à Estrutura das Explorações Agrícolas (INE, 2018b), desde 2013, a dimensão média das explorações agrícolas e a dimensão económica por exploração cresceu 2,8 mil euros de Valor de Produção Padrão Total (19,9 mil euros em 2016), o número de sociedades agrícolas aumentou e os indicadores laborais, relacionados com a produtividade e a deficiência do trabalho, melhoraram significativamente. A agricultura de grande escala e cariz empresarial representam 4,4% das unidades produtivas em 2016, tendo produzido cerca de 44,6% do efetivo pecuário neste ano. Segundo a mesma fonte, o abandono da atividade agrícola ocorreu maioritariamente nas pequenas explorações, estando a redução do número de explorações de grande dimensão circunscrita a menos de uma centena de unidades produtivas. Os responsáveis jurídicos e económicos das explorações agrícolas são maioritariamente produtores singulares (95,0%). A elevada representatividade da agricultura familiar, constituída por pequenas explorações, coexiste com a agricultura de grande escala e cariz empresarial, formada maioritariamente pelas sociedades agrícolas. No Inquérito à Estrutura das Explorações Agrícolas (INE, 2018b) foram contabilizadas 258983 mil explorações, das quais 70,2% são especializadas. Desse total 45589 correspondem a produção especializada no setor da pecuária. No quadro seguinte é possível verificar a distribuição de empresas por tipo de produção pecuária. Tabela 1 – Número de empresas pecuárias por tipo de produção Tipo de Produção Número de Empresas Bovinos de Leite 6594 Bovinos de Carne 17661 Bovinos de Carne e Leite 738 0 20596 Granívoros - Suínos 1507 Granívoros - Aves 1492 Outros Granívoros 1893 Total 45589 Fonte: INE, 2018b 23 As explorações pecuárias apresentam as Dimensões Económicas (DE) mais elevadas, com os aviários a gerarem, em média, 221,3 mil euros, as suiniculturas industriais 192,9 mil euros e as explorações leiteiras 136,4 mil euros. A estrutura produtiva dos efetivos pecuários não registou alterações significativas nos últimos anos, com os ovinos a representarem 36,5% do efetivo total, seguindo-se os suínos, bovinos e caprinos. Os bovinos foram a única espécie que registou um aumento de efetivo face a 2009 (+9,5%). O número de explorações agrícolas com efetivos pecuários decresceu de forma acentuada em todas as espécies. Esta evolução resultou no aumento da dimensão média dos efetivos por exploração. Regionalmente o Alentejo é a principal região pecuária do país, concentrando mais de metade dos ovinos, 49,8% dos suínos e 44,0% dos bovinos. O efetivo caprino predomina no Centro, onde se produziu 37,1% do efetivo nacional. Entre 2009 e 2016 observou-se o aumento do peso da produção de suínos no Alentejo em 5,4 p.p. (passou de 44,3% em 2009 para 49,8% em 2016), principalmente em detrimento do Centro, que perdeu 2,5 p.p. da importância a nível nacional. Relevante também foi o aumento do peso dos caprinos no Norte (+3,2 p.p.), sobretudo à custa do Alentejo (INE, 2018b). 3.3 Caracterização da mão-de-obra agrícola De acordo com os resultados dos Censos 2011, a população empregada com atividade económica na agricultura, produção animal, caça e silvicultura, era de 120 230 indivíduos, o que representava cerca de 2,8% da população empregada em Portugal. Em termos evolutivos, face aos Censos 2001, o emprego recuou 44,2% nesta atividade económica, o que significa que a atividade perdeu 95 368 efetivos durante a década. A maior parte da população empregada na atividade económica da agricultura, produção animal, caça e silvicultura, trabalhava por conta de outrem, (51,9%), seguindo-se os trabalhadores por conta própria (23,1%) e os empregadores (18,1%). Em termos da população empregada, esta atividade económica assumiu maior importância no Alentejo, com 9,2% da população empregada, e na Região Autónoma dos Açores, com 6,8% (INE, 2018). Em 2016 a população agrícola familiar era constituída por 627,8 mil indivíduos, o que representa 6,1% da população residente em Portugal, verificando-se desde 2009 um decréscimo de 20,8% na população agrícola familiar. A população agrícola familiar tem maior expressão nas Regiões Autónomas e no Alentejo, ao passo que na Área Metropolitana de Lisboa apenas representa 0,4% da população residente. Apenas 13,9% trabalharam a tempo completo. Uma parte significativa da 24 população agrícola familiar (28,2%) exerceu atividades não relacionadas com a exploração agrícola (como trabalhadores por conta de outrem ou como empresários) (INE, 2018b). Como aspeto negativo destaca-se o envelhecimento dos produtores agrícolas, os mais velhos da UE28, cuja média de idades passou dos 63 anos em 2009 para os 65 anos em 2016. (INE, 2018b). Os baixos níveis de transferência de conhecimento, de difusão das inovações, de escolaridade e de formação de agricultores são a principal fraqueza e um dos maiores desafios para a agricultura (Reis, 2013). O nível de instrução dos produtores agrícolas é muito baixo. Os produtores agrícolas singulares são maioritariamente homens (66,2%) e têm em média 65 anos, sendo que 54,6% têm 65 ou mais anos. A grande maioria dos produtores agrícolas apenas concluiu o ensino básico (71,4%) e somente 5,8% são titulares de habilitações ao nível do ensino superior. Ressalva-se ainda, que 89% dos produtores agrícolas possui formação agrícola exclusivamente prática (INE, 2011). Esta conjuntura está relacionada com as baixas habilitações académicas, assim como de baixos níveis de participação em ações de formação ao longo da vida, como por exemplo, formação profissional. A frequência de cursos de formação na área agrícola depende, sobretudo, de obrigações legais (por exemplo, aplicação, distribuição e venda de produtos fitofarmacêuticos) ou de incentivos financeiros (por exemplo, produção integrada) (Reis, 2013). Até metade da década de 90, os serviços de aconselhamento agrícola e extensão rural eram dinamizados pelos serviços oficiais do Ministério da Agricultura, a nível das direções regionais. A partir deste momento, as funções de formação profissional, informação e aconselhamento técnico começaram a passar para as associações de produtores e outras organizações privadas, como os centros tecnológicos e operativos. Com a forte redução dos funcionários do Ministério da Agricultura, houve uma grande redução nos serviços de extensão rural e aconselhamento técnico. Atualmente, estes serviços são prestados, essencialmente, por organizações de agricultores, associações de apoio técnico e empresas privadas de consultadoria, bem com, pelas empresas fornecedoras de fatores de produção (Reis, 2013). Nas últimas décadas, fruto de políticas sucessivas, houve um desinvestimento nos serviços de apoio técnico prestados pelos serviços estatais, perdendo-se know how , que não foi acompanhado nem pelas associações, nem pela generalidade das cooperativas do setor. A grande evolução técnica e, consequentemente, produtiva, é atualmente impulsionada e sustentada pelos serviços técnicos de empresas do setor, quer sejam de nutrição, genética, sementes, fertilizantes, fitofármacos ou outros. 25 Este apoio é prestado de uma forma setorial e, raramente articulada, promovendo uma dispersão de informação, não potenciando a utilização e o valor que esta traz para as empresas agrárias. 26 4 Metodologia 4.1 Definição do problema e dos objetivos No desenvolvimento de uma investigação a definição clara do problema é fundamental, uma vez que o desenvolvimento da mesma visa responder ao mesmo, testando teorias e procurando soluções. De uma maneira geral, na investigação que adota uma metodologia quantitativa, como é o caso, a formulação do problema faz-se numa fase prévia, seja sob a forma de uma pergunta ou sob a forma de um objetivo geral (Coutinho, 2011). Com base no enquadramento realizado, assim como nos pressupostos teóricos apresentados, o propósito da presente dissertação estudar a utilização das tecnologias da informação e comunicação no sector pecuário em Portugal. O ponto alto do processo de formulação de um problema é a declaração dos objetivos da pesquisa. Estes são declarados em termos das informações necessárias para responder ao problema de pesquisa e servem de padrão, permitindo avaliar a qualidade e o valor do trabalho. Os objetivos precisam de ser os mais específicos e os menos ambíguos possíveis (McDaniel & Gates, 2011). A formulação de um objetivo, tem como preocupação central a de descrever um fenómeno (GIL, 2002). A questão de investigação assume, usualmente, a forma de hipótese de investigação ou a forma de objetivo de investigação. Muitas vezes, os investigadores declaram os objetivos da pesquisa na forma de hipóteses. Isto é, sob a forma de uma declaração conjetural acerca da relação entre duas ou mais variáveis que podem ser testadas com dados empíricos (McDaniel & Gates, 2011). Tendo em conta que o tipo de pesquisa em causa assume um carácter predominantemente descritivo, foram formulados objetivos de pesquisa em detrimento de hipóteses de pesquisa. O presente estudo tem como objetivo principal analisar a utilização das tecnologias da informação e comunicação no sector pecuário em Portugal. No setor pecuário as tecnologias da informação podem potenciar a gestão do negócio, permitindo o armazenamento, acesso, pesquisa e partilha de informação no suporte à tomada de decisões. Para se responder ao problema, pretende-se efetuar um estudo que abarque um conjunto de questões já exploradas na literatura, mas aplicado ao nosso país e a um setor de elevada importância para a nossa economia. No decorrer deste estudo, procurar-se-á explicitar de que forma as tecnologias da informação e comunicação estão a desempenhar um papel preponderante no desenvolvimento e no dia-a-dia das empresas do setor. Para tal procurar-se-á apontar exemplos de utilização das TIC e efetuar a análise de atitudes face à sua aplicação bem como de fatores que influenciam a sua adoção. 27 Em paralelo, efetuar-se-á o estudo do grau de informatização das explorações pecuárias. No que concerne a este tópico, pretender-se-á classificar as empresas de acordo com o seu posicionamento em termos de utilização da tecnologia. Tomando estes pontos em consideração, a revisão da literatura efetuada nos capítulos 2, 3 e 4 e o problema de pesquisa especificado anteriormente, identificam-se os seguintes objetivos gerais e específicos subjacentes ao estudo: Tabela 2 – Objetivos gerais e específicos da investigação Objetivos Gerais Objetivos Específicos 1. Compreender a analisar a adoção das Tecnologias da Informação e Comunicação no setor pecuário; 1.1. Identificar as tecnologias adotadas pelas explorações pecuárias para suporte à sua atividade; 1.2. Identificar atitudes das empresas face à adoção de tecnologias da informação e comunicação; 1.3. Identificar de que forma é que as empresas do setor pecuário usam as TIC; 1.4. Identificar fatores que influenciam a adoção das TIC. 2. Posicionar as empresas do setor pecuário de acordo com o seu grau de informatização. 2.1. Determinar o grau de informatização das empresas; Fonte: Autor Para responder às questões empíricas apresentadas, foi levado a cabo um estudo quantitativo junto de uma determinada população, apoiado num inquérito por questionário. 4.2 Caracterização da população Um dos primeiros passos a fazer num processo de investigação é definir qual a população de interesse (McDaniel & Gates, 2011). Pode-se definir população com o universo de pessoas da qual a amostra é selecionada (Greener, 2008). A realização de uma correta escolha da população assume extrema importância pois significará que as conclusões retiradas de uma amostra representativa dessa população poderão ser deduzidas para o universo. Uma pequena amostra de uma população, ou seja, um subconjunto da população para se fazer estimativas sobra as características da população total (McDaniel & Gates, 2011), cuidadosamente escolhida, pode refletir com precisão as características de onde esta foi extraída (Barañano, 2008). O quadro populacional da presente dissertação é constituído por todas as empresas que desenvolvem atividade de pecuária, em Portugal. A nossa amostra foi construída a partir desta população num total setenta e duas empresas, distribuídas ao longo de todo o país. 28 4.3 Método de amostragem O método de amostragem utilizado foi a não probabilística, uma vez que, se incluem elementos de uma população que são selecionados de uma maneira não aleatória. A amostra caracteriza-se por uma amostra de conveniência uma vez que, como o próprio nome infere, por motivos de conveniência foi mais facilmente de ser obtida (McDaniel & Gates, 2011). É possível utilizar dois tipos de amostragem, a amostragem probabilística e a não probabilística (Barañano, 2008) e a sua seleção depende dos objetivos do estudo, dos recursos disponíveis, das limitações de tempo e da natureza do problema que está a ser investigado. 4.4 Método de recolha de dados No desenvolvimento deste estudo utilizou-se o método quantitativo e utilizou-se a técnica de inquérito por questionário para a recolha de dados que nos permitiram responder aos objetivos apontados previamente. A utilização de questionários, estratégia popular em pesquisas de marketing, é normalmente associada a uma abordagem dedutiva e permite obter um volume de dados significativo a partir de uma amostra grande e de uma forma económica (McDaniel & Gates, 2011). Para Malhotra & Birks (2006), a obtenção de dados consistentes, uma vez que as respostas são limitadas para as alternativas existentes, que permite uma análise, codificação e interpretação de dados mais fácil, constitui uma das principais vantagens da sua aplicação. Através destes é possível obter quer respostas estruturadas (respostas em que se utiliza uma escala) quer respostas não estruturadas (McDaniel & Gates, 2011). A utilização de questões estruturadas pode ser considerada uma desvantagem porque reduz a variabilidade nos resultados e por vezes os sujeitos não querem ou são incapazes de fornecer a informação pretendida (Malhotra & Birks, 2006). O questionário, não foi por mim elaborado. Este resultou como produto da tese de dissertação intitulada "Grau de Informatização das Explorações Agrícolas” apresentada em cumprimento dos requisitos para o grau de Mestre em Empreendedorismo e Gestão da Inovação, na Universidade Europeia Laureate Internacional Universities, em agosto de 2014, por Paulo Jorge Da Silva Pinheiro. Não tendo sido ainda aplicado, a presente dissertação surge como uma oportunidade nesse sentido. O mesmo foi desenvolvido a partir de pesquisa que permitiu a recolha de material científico em fontes primárias (livros, teses, dissertações, trabalhos académicos e relatórios científicos e técnicos) e complementado com dados de caráter empírico, obtidos através de um conjunto de entrevistas 35 Tabela 8 – Número de empresas por tipo de produção Tipo de Produção Número de Empresas % Bovinos de Carne 16 22.22 Bovinos de Leite 10 13.98 Ovinos de Carne 0 0 Ovinos de Leite 0 0 Caprinos de Carne 0 0 Caprinos de Leite 0 0 Suínos 0 0 Roedores 2 2.78 Aves-Carne 44 61.11 Aves-Ovos 0 Total 72 100 Fonte: Autor Figura 1 – Distribuição das empresas por tipo de produção Fonte: Autor As empresas inquiridas são empresas que se dedicam, unicamente, a um tipo de produção (produção especializada). Das 72 empresas inquiridas, 22.22% dedicam-se a produção de carne de bovino, 13.98% à produção de leite de bovino, 2,78% à produção de roedores e 44% à produção de carne de aves. Na tabela 9 e figura 2 é indicado o número de colaboradores afetos às empresas inquiridas. Tabela 9 – Número de funcionários por empresa Nº de Funcionários Número de Empresas % % (acumulada) 0 0 0.00 0.00 1-5 71 98.61 98.61 6-10 1 1.39 100.00 11-20 0 0.00 100.00 Mais de 20 0 0.00 100.00 Total 72 100 Fonte: Autor 36 Figura 2 – Número de colaboradores por empresa Fonte: Autor Através da análise da tabela constata-se que 100 % das empresas inquiridas têm menos de 11 colaboradores. Sendo que, das mesmas, 98.61% têm menos de 5. Na tabela 10, aponta-se o volume de vendas em 2019 das empresas que constituem a amostra do presente trabalho. Tabela 10 – Volume de vendas em 2019 Volume de Vendas (milhares de euros) Número de Empresas % % (acumulada) Menos de 50 38 52.78 52.78 Entre 51 e 100 18 25.00 77.78 Entre 101 e 200 6 8.33 86.11 Entre 201 e 500 6 8.33 94.44 Mais de 500 4 5.56 100 Total 72 100 Fonte: Autor Figura 3 – Volume de vendas em 2019(milhares de euros) Fonte: Autor Através da análise da tabela e gráfico anteriores verifica-se que 77.78% das empresas apresentam volume de vendas inferior a cem mil euros e somente 5.56% das mesmas apresentam volume de vendas superior a quinhentos mil euros. Na tabela 11 e figura 4 é possível observar a distribuição da faixa etária dos responsáveis das empresas. 37 Tabela 11 – Idade do responsável da empresa Idade do Responsável da Empresa Número de Empresas % % (acumulada) Menos de 35 2 2.78 2.78 Entre 35 e 44 21 29.17 31.94 Entre 45 e 54 19 26.39 58.33 Entre 55 e 64 21 29.17 87.50 Mais de 64 9 12.5 100 Total 72 100 Fonte: Autor Figura 4 – Faixa etária do responsável da empresa Fonte: Autor É possível constatar que 84.73% dos responsáveis das empresas têm idades compreendidas entre os 35 e os 64 anos e 68.06% têm idades superiores a 45 anos. Relativamente às habilitações do proprietário/responsável da empresa pecuária obtiveram-se os seguintes dados: Tabela 12 – Habilitações literárias do responsável da empresa Habilitações literárias Número de Empresas % % (acumulada) Nenhuma 10 13.98 13.98 Ensino básico 38 52.78 66.67 Ensino secundário 8 11.11 77.78 Ensino superior relacionado com a agricultura 8 11.11 88.89 Ensino superior não relacionado com a agricultura 8 11.11 100 Total 72 100 Fonte: Autor Figura 4 – Habilitação literária do responsável da empresa Fonte: Autor 2,78% 29,17% 26,39% 29,17% 12,50% menos de 35 entre 35 e 44 entre 45 e 54 entre 55 e 64 mais de 65 38 Através da análise da tabela e gráfico anteriores verifica-se que 66.67% dos responsáveis das explorações têm habilitação igual ou inferior ao ensino básico (nono ano de escolaridade), dos quais 13.98% não detém qualquer habilitação. A tabela 13 expõe o volume de investimento anual em TIC, pelas empresas. Tabela 13 – Investimento anual em TIC Investimento anual em TIC (milhares de euros) Número de Empresas % Menos de 5 66 91.67 Entre 6 e 10 6 8.33 Entre 11 e 20 0 0 Entre 21 e 50 0 0 Mais de 50 0 0 Total 72 100 Fonte: Autor Figura 5 - Investimento anual em TIC (milhares de euros) Fonte: Autor Das 72 empresas inquiridas, 66 (91.67%) investem, anualmente, menos de cinco mil euros em TIC. Nenhuma das empresas investe mais que dez mil euros. Para 73.61% dos responsáveis das explorações pecuárias o trabalho na exploração constitui a sua atividade profissional principal. 87.5% descendem de profissionais agrícolas, 54.71% dependem de subsídios comunitários e nacionais, 56% consideram que o investimento em tecnologias da informação e comunicação é, nos dias de hoje, fundamental para tornar o negócio mais competitivo e 55.56% sentem-se capazes de integrar as TIC nos seus negócios. 39 Figura 6 - Outros dados Fonte: Autor 5.2 Atitudes perante a utilização da tecnologia Com a questão dois do inquérito, pretendia-se avaliar como os responsáveis/gestores das empresas pecuárias encaram a utilização de tecnologias de informação, de forma generalizada e independente das suas atividades profissionais, sem pretender uma conclusão fortemente sustentada como a que se obteria recorrendo ao modelo de aceitação de tecnologia (TAM) ou a qualquer um dos seus descendentes (Pinheiro, 2014). Na tabela seguinte apresentam-se os dados obtidos. 40 Tabela 14 – Atitudes perante a utilização da tecnologia Atitudes 1 2 3 4 5 Índice de Concordância* Nº % Nº % Nº % Nº % Nº % % É importante aceder a informação, on-line. 8 11.11 6 8.33 18 25.00 19 26.39 21 29.17 55.56 É importante ter acesso à internet a qualquer hora. 6 8.33 8 11.11 21 29.17 22 30.56 15 20.83 51.39 É importante ter acesso à internet para me manter ao corrente das últimas tendências em tecnologia. 6 8.33 12 16.67 15 20.83 30 41.67 9 12.50 54.17 Fico ansioso quando me esqueço do telemóvel. 6 8.33 19 26.39 11 15.28 22 30.56 14 19.44 50.00 Fico ansioso quando não tenho Internet disponível. 10 13.89 23 31.94 12 16.67 23 31.94 4 5.56 37.50 Dependo da tecnologia (smartphone, tablet, portátil, etc.) 11 15.28 15 20.83 13 18.06 33 45.83 0 0.00 45.83 A tecnologia irá fornecer soluções para muitos dos problemas. 8 11.11 14 19.44 21 29.17 29 40.28 0 0.00 40.28 Com recurso à tecnologia tudo é possível. 18 25.00 21 29.17 21 29.17 10 13.89 2 2.78 16.67 A utilização das novas tecnologias faz com que as pessoas desperdicem muito tempo. 1 1.39 16 22.22 23 31.94 32 44.44 0 0.00 44.44 A utilização das novas tecnologias torna a vida mais complicada. 11 15.28 21 29.17 21 29.17 17 23.61 2 2.78 26.39 A utilização das novas tecnologias torna as pessoas mais isoladas. 3 4.17 15 20.83 24 33.33 30 41.67 0 0.00 41.67 Se a introdução de tecnologia me obrigar, estou disposto a alterar os meus métodos de trabalho. 11 15.28 16 22.22 17 23.61 22 30.56 6 8.33 38.89 Fonte: Autor Legenda: 1Discordo Totalmente, 2Discordo, 3Não discordo nem concordo, 4-Concordo, 5 - Concordo Totalmente. * O índice de concordância é obtido através da soma da percentagem das respostas assinaladas com Concordo e Concordo Totalmente. 41 Através dos dados apresentados anteriormente, constata-se que 55.56% dos respondentes concordam que é importante aceder informação on-line e 51.39% ter acesso à internet a qualquer altura do dia. 54.17% dos respondentes concordam que é importante ter acesso à internet para se manterem ao corrente das últimas tendências em tecnologia. Dos responsáveis inquiridos, somente 50% ficam ansiosos quando se esquece do telemóvel e nem metade afirma que depende da tecnologia e acredita que esta poderá trazer soluções para muitos dos problemas. Somente 16.67% acredita que com a tecnologia tudo é possível e 38.89% dos inquiridos estariam dispostos a alterar os métodos de trabalho, caso a introdução de tecnologia assim o obrigasse. Figura 7 – Atitudes positivas perante a utilização da tecnologia Fonte: Autor 42 Figura 8 – Atitudes negativas perante a utilização da tecnologia Fonte: Autor 5.3 Nível de utilização de internet para as finalidades indicadas Com a resposta à questão 11 do questionário foi possível verificar qual o nível de utilização de internet de acordo com finalidades indicadas: transações bancárias; pesquisa de informações acerca de fornecedores, mercados e concorrência; relacionamento com o estado e formação on-line. Auferiu-se ainda o nível de utilização de internet com finalidades na ótica de B2B (vendas on-line para clientes empresariais, compras on-line de fornecedores) e B2C (divulgação de produtos e serviços no site da empresa, venda on-line para clientes consumidores finais). De seguida apresenta-se o gráfico representativo dos resultados obtidos. 43 Figura 9 – Nível de utilização da internet Fonte: Autor 44 Pela análise do gráfico anterior, pode referir-se que a utilização da internet é muito baixa no que se remete às finalidades relacionadas com B2B e B2C. O mesmo se evidencia no que concerne a formação on-line. Nota-se um aumento na utilização da internet referente à utilização de e-mail, homebanking , pesquisas várias e relacionamentos com o estado. Contudo, mesmo a sua utilização, nestes pontos, é baixa (50 % ou mais utilizam pouco ou muito pouco a internet). 5.4 TIC e áreas de utilização A partir da questão 8 do questionário foi possível determinar que tecnologias são aplicadas nas empresas agropecuárias por área de utilização. Figura 10 – Utilização de software de apoio à gestão organizacional Fonte: Autor No que se remete à utilização de software de apoio à gestão organizacional é possível verificar que 62% das empresas ou mais não utilizam qualquer software nesta área. 51 seria rejeitada, se o nível de significância fosse inferior a 5% (𝑝 < 0,05) conforme tabela indicada. Em caso de rejeição de H0 aceitar-se-ia H1. Tabela 18 – Relação variáveis habilitações literárias e grau de informatização Grau de Informatização (GI) Habilitações Literárias Kendall Coeficiente de Correlação .450** Sig. (bilateral) .000 Spearman Coeficiente de Correlação .489** Sig. (bilateral) .000 ** a correlação é significativa no nível 0,01 (bilateral) Fonte: Autor É possível constatar que existe correlação positiva entre as habilitações literárias do responsável da exploração e o grau de informatização, isto é, à medida que as habilitações literárias aumentam o grau de informatização das explorações aumenta. 6.4 Volume de vendas e grau de informatização O quarto teste realizado teve como objetivo verificar a relação entre o Volume de Vendas em 2019 e o GI das Explorações. Para este teste definiu-se H0 como “não há relação entre as variáveis” e H1 como “existe relação entre o volume de vendas em 2019 e o grau de informatização das explorações”. Para se aceitar ou rejeitar H0 recorreu-se aos coeficientes de correlação de Spearman e Kendall. H0 seria rejeitada, se o nível de significância fosse inferior a 5% (𝑝 < 0,05) conforme tabela indicada. Em caso de rejeição de H0 aceitar-se-ia H1. Tabela 19 – Relação variáveis volume devendas e grau de informatização Grau de Informatização (GI) Volume de Vendas Kendall Coeficiente de Correlação .652** Sig. (bilateral) .000 Spearman Coeficiente de Correlação .700** Sig. (bilateral) .000 ** a correlação é significativa no nível 0,01 (bilateral) Fonte: Autor 52 É possível constatar que existe correlação positiva entre o volume de vendas e o grau de informatização, isto é, nas explorações em que o volume de vendas em 2019 foi maior, o grau de informatização das explorações é maior e sendo bilateral a inferência oposta também é válida. 6.5 Tipos de produção e grau de informatização Este último teste realizado visa determinar a existência de correlação entre as varáveis nominais Tipos de Produção e Grau de Informatização. Para tal recorreu-se ao teste QuiQuadrado. Para este teste definiu-se H0 como “não há relação entre as variáveis” e H1 como “existe relação entre os Tipos de Produção e o grau de informatização das explorações”. H0 seria rejeitada, se o nível de significância fosse inferior a 5% (𝑝 < 0,05) conforme tabela indicada. Em caso de rejeição de H0 aceitar-se-ia H1. Tabela 20 – Relação variáveis tipos de produção e grau de informatização Teste Qui-Quadrado Valor df Sig. (bilateral) Pearson Chi-Square 28.958 3 .000 Likelihood Ratio 34.432 3 .000 Linear-by-Linear Association 22.289 1 .000 N 72 Fonte: Autor Como o nível de significância é inferior a 5% H0 é rejeitada pelo que se pode auferir que existe correlação entre o Tipo de Produção e o Grau de Informatização. De acordo com a tabulação cruzada que a seguir se apresenta, é possível constatar que somente 25% das explorações de bovinos de carne não são informatizadas e 75% têm grau de informatização baixo. No que concerne às explorações afetas à produção de leite 100% têm grau de informatização baixo. Das explorações que se dedicam à produção de roedores, 100% tem grau de informatização baixo. Por último, as explorações dedicadas à produção de carne de aves 77,27% não têm não apresentam informatização e 22.73% tem grau de informatização baixo. 53 Tabela 21 – Tabulação cruzada (tipos de produção e GI) Grau de Informatização Tipo de Produção Sem (%) Baixo (%) Medio (%) Elevado (%) Muito Elevado (%) Bovinos de Carne 25 75 0 0 0 25 100 100 100 100 Bovinos de Leite 0 100 0 0 100 0 100 100 100 100 Roedores 0 100 0 0 0 0 100 100 100 100 Aves - Carne 77.27 22.73 0 0 0 77.27 100 100 100 100.00 Fonte: Autor 54 7 Conclusão No decurso destes capítulos serão apresentadas as principais conclusões obtidas com o desenvolvimento do estudo. As conclusões serão apresentadas ao longo de três secções: principais conclusões, contributos do estudo e limitações do estudo e considerações futuras. Na primeira secção serão apresentadas as principais conclusões do trabalho. Segue-se a abordagem das limitações e recomendações para trabalho futuro e, por último, as considerações finais do trabalho. 7.1 Principais conclusões No decurso do trabalho desenvolvido pretendia-se responder aos seguintes objetivos gerais: compreender a analisar a adoção de tecnologias da informação e comunicação no setor; posicionar as empresas do setor de acordo com o seu grau de informatização. Para a concretização dos objetivos gerais foram identificados os seguintes objetivos específicos: identificar as tecnologias de informação adotadas pelas empresas; identificar fatores que influenciam a adoção de tecnologia; identificar atitudes das empresas face à adoção de tecnologias da informação e comunicação; identificar de que forma é que as empresas do setor pecuário usam as TIC e determinar o grau de informatização das empresas de produção animal. A partir dos quatro primeiros objetivos específicos procurou-se responder ao primeiro objetivo geral. O último objetivo específico possibilitou posicionar as empresas de acordo com o seu grau de informatização permitindo assim a concretização do segundo objetivo geral. No que se remete ao primeiro objetivo geral, foi possível constatar que, há um baixo nível de informatização do setor agropecuário que se caracteriza por um baixo grau de informatização das empresas do setor. Mais de 60% das explorações não utiliza ferramentas tecnológicas relacionadas com o apoio à gestão organizacional, mais de 75% das explorações não utiliza ferramentas tecnológicas para controlo de produção e 86% ou mais não utilizam as TIC na preparação do produto final. A utilização de Internet é baixa. Ao auferir-se o nível de utilização de internet, de acordo com finalidades específicas, constatou-se que este é muito baixo no que se remete às finalidades 55 relacionadas com B2B e B2C. O mesmo se evidencia no que concerne a formação on-line. Notase, no entanto, um aumento na utilização da internet referente à utilização de e-mail, homebanking , pesquisas várias e relacionamentos com o estado. Contudo, mesmo a sua utilização, nestes pontos, é baixa (50 % ou mais utilizam pouco ou muito pouco a internet). Há ainda um baixo investimento em TIC, por parte das empresas. Das empresas inquiridas, 91.67% investem, anualmente, menos de cinco mil euros em TIC e nenhuma das empresas investe mais que dez mil euros. Foi possível constatar que 84.73% dos responsáveis das empresas têm idades compreendidas entre os 35 e os 64 anos e 68.06% têm idades superiores a 45 anos. Constatouse ainda que a uma idade maior corresponde a um menor grau de informatização das explorações. A idade elevada dos responsáveis das explorações não contribui, portanto, positivamente para a adoção de tecnologia nas empresas do setor. Verificou-se ainda que 66.67% dos responsáveis das explorações têm habilitação igual ou inferior ao ensino básico (nono ano de escolaridade), dos quais 13.98% não detém qualquer habilitação. De acordo com as correlações estudadas, à medida que as habilitações literárias aumentam o grau de informatização das explorações aumenta. A baixa escolarização dos responsáveis das empresas deste setor não contribui, portanto, para a adoção de tecnologias no setor agropecuário. Sendo notória a correlação positiva de atitudes positivas face à adoção de tecnologias e o maior grau de informatização das explorações, foi possível constatar que, em média, só metade dos respondentes é que evidenciam atitudes positivas face a esta adoção, o que não facilita a integração de tecnologias no setor. Verificou-se ainda que somente 25% das explorações de bovinos de carne não são informatizadas e 75% têm grau de informatização baixo. No que concerne às explorações afetas à produção de leite 100% têm grau de informatização baixo. Das explorações que se dedicam à produção de roedores, 100% tem grau de informatização baixo. Por último, as explorações dedicadas à produção de carne de aves 77,27% não têm informatização e 22.73% tem grau de informatização baixo. A adoção de tecnologias é, portanto, determinada pelo tipo de produção subjacente à empresa agropecuária. Ainda que, detendo grau de informatização baixo, é notória a diferença 56 na adoção de tecnologias em empresas que se dedicam à produção de bovinos (carne ou leite) ou de roedores comparativamente com as empresas que se dedicam à produção de aves. Foi ainda possível constatar uma relação positiva bilateral entre o volume de vendas e o grau de informatização, isto é, nas empresas com maior grau de informatização o desempenho (volume de vendas) é maior. Por sua vez sendo bilateral é possível referir que havendo um maior volume de vendas é também maior o grau de informatização das empresas. No que concerne ao segundo objetivo geral, foi possível constatar que o Grau de Informatização de 52,78% das empresas é zero (Sem Informatização) e 47.22% possuem Baixo Grau de Informatização. A totalidade das empresas inquiridas têm, portanto, GI baixo ou nulo. É possível referir que o baixo nível de escolarização e a elevada faixa etária evidentes nos responsáveis do setor pecuário condicionam negativamente a adoção de tecnologias no setor. De um modo geral, há um baixo investimento em TIC, mas quando este existe há um aumento do volume de vendas, isto é, uma melhoria no desempenho das empresas. Por sua vez, em empresas com melhor desempenho há um maior investimento em tecnologia. Metade ou menos dos inquiridos evidenciam atitudes positivas face à adoção de TIC. Há, no entanto, evidências que a uma maior atitude positiva corresponde um aumento na adoção de TIC. Logo, a atitude negativa face à adoção de TIC, por parte de metade dos responsáveis do setor influencia negativamente a adoção de TIC no setor. O setor pecuário, em Portugal, é, portanto, caracterizado, por um conjunto de fatores que não jogam a favor da adoção das TIC. 7.2 Contributos do estudo Ao longo dos primeiros capítulos, nomeadamente nos que se remetem à introdução e revisão bibliográfica (capítulos 1 e 2) foram apontados os benefícios da adoção de tecnologias por parte das empresas e em particular das empresas do setor agropecuário. Sendo o setor agropecuário um setor de grande importância para o nosso país (conforme capítulo 3), dada a importância da adoção de tecnologias por parte das empresas e a ideia de que possivelmente a sua adoção era parca pelas empresas deste setor, em Portugal, após pesquisa de estudos que poderiam abordar estes três aspetos em simultâneo, e devido à sua inexistência, optou-se então por desenvolver um estudo, neste sentido. Sendo então inexistentes 57 os estudos que se remetem ao estudo da adoção de tecnologias no setor agropecuário em Portugal, este trabalho serviu o propósito de contribuir para a bibliografia existente. Na aplicação do inquérito, as empresas tomaram conhecimento das tecnologias que existem no mercado e que lhes podem ser úteis. Na divulgação do trabalho realizado, que será remetida às empresas, as empresas vão poder posicionar-se de acordo com o seu grau de informatização e perceber que empresas com maior grau de informatização são as que apresentam melhores resultados no volume de vendas. A divulgação destes resultados pela equipa técnica-comercial, responsável pela distribuição dos inquéritos, permitirá que esta encontre meios e argumentos para auxiliarem na potenciação das empresas do setor. A divulgação destes resultados por empresas na área tecnológica poderá potenciar o desenvolvimento e/ou a divulgação de tecnologias pelas empresas do setor. O estudo pode ainda, ter utilidade, para as Software Houses compreenderem que existe um segmento de mercado a potenciar e compreenderem fatores que limitam a adoção de tecnologias no sector pecuário em Portugal. Este trabalho contribuirá, então, para a divulgação das tecnologias da informação e comunicação nas empresas agropecuárias em Portugal, para a possível potenciação da sua utilização e para a tomada de consciência que ainda há um caminho longo a percorrer para se potenciar o setor agropecuário com a aplicação de tecnologias que já existem no mercado ou a partir do desenvolvimento de novas tecnologias. A evidente atitude negativa face à adoção de tecnologia pelos responsáveis das empresas do setor pecuária, constitui um grande problema. Torna-se urgente a mudança de mentalidades. Sendo um setor que é sujeito a forte regulamentação e muito suportado por quadros comunitários faria, então, sentido o desenvolvimento de políticas governamentais, direcionadas ao setor que fossem incentivadoras da adoção de tecnologia. 7.3 Limitações do estudo e considerações futuras A recolha de dados deste estudo foi efetuada a partir da aplicação de um inquérito, entregue em mão, aos responsáveis das empresas. Tal entrega foi dificultada pela situação que se vive em 2020. O aparecimento do coronavírus da síndrome respiratória aguda grave 2 (SARS- 58 CoV-2) e todo o contexto que se viveu no nosso país desde março deste ano, em nada facilitou a entrega e mais tarde a recolha dos inquéritos. O início da entrega dos inquéritos coincidiu com a primeira fase de isolamento e com momentos de teletrabalho da equipa que estava responsável pela entrega dos mesmos. A calma que se registou nos meses de verão permitiu a entrega e a recolha do inquérito, em 72 empresas, ficando o número aquém do desejável pelo autor do trabalho. Optou-se pela realização de um estudo quantitativo. Tal limitou as respostas dadas pelas empresas inquiridas. Possivelmente ao aplicar-se questões de natureza qualitativa de resposta aberta ou entrevistas a empresas iria-se recolher uma maior quantidade de informação e, essencialmente, informação significativa, que não foi possível recolher com a aplicação deste inquérito. De futuro, pode-se analisar a evolução dos resultados obtidos e verificar se os mesmos sofreram alteração, bem como alargar o mesmo a empresas agrícolas e não o aplicar, somente, a empresas do setor agropecuário. Ao longo deste estudo, evidenciou-se uma relação entre atitudes positivas e adoção de TIC. Constatou-se que a baixa atitude positiva face à adoção de tecnologia, por parte dos responsáveis das empresas do setor pecuário, é fator que condiciona negativamente a adoção de tecnologia. Estudos futuros poderão, por exemplo, analisar de que forma será possível criar uma atitude mais favorável a esta adoção e de que forma as políticas governamentais poderão ter um papel relevante nesta mudança. 59 Apêndice - Questionário Questionário A aplicação deste questionário visa determinar o grau de informatização de uma empresa agropecuária em função do nível de utilização de tecnologias de informação e comunicação. Os dados recolhidos servirão apenas para fins de investigação e é garantida a total confidencialidade dos mesmos. A sua resposta é importante! Após análise e tratamento de dados, receberá, caso pretenda, os resultados agregados! 1. Responda S (sim) ou N (não) às questões colocadas: Características do responsável pela gestão da empresa S/N O trabalho na exploração constitui a sua atividade profissional principal? Os seus ascendentes já trabalhavam na agricultura? Os subsídios comunitários e nacionais são indispensáveis para a sua atividade? Sente-se capaz de integrar tecnologias de informação na atividade que realiza na sua exploração? O Investimento em tecnologias da informação e comunicação, é nos dias de hoje fundamental para tornar o seu negócio mais competitivo? 2. Como encara a utilização das tecnologias de informação e comunicação quando desenvolve a sua atividade? (assinale com um X a opção que melhor se adequa à sua situação) Atitudes perante a utilização de tecnologias de informação Discordo Totalmente Discordo Não discordo nem concordo Concordo Concordo totalmente É importante aceder a informação, on-line. É importante ter acesso à internet a qualquer hora. É importante ter acesso à internet para me manter ao corrente das últimas tendências em tecnologia. Fico ansioso quando me esqueço do telemóvel. Fico ansioso quando não tenho Internet disponível. Dependo da tecnologia (smartphone, tablet, portátil, etc.) A tecnologia irá fornecer soluções para muitos dos problemas. Com recurso à tecnologia tudo é possível. A utilização das novas tecnologias faz com que as pessoas desperdicem muito tempo. A utilização das novas tecnologias torna a vida mais complicada. A utilização das novas tecnologias torna as pessoas mais isoladas. Se a introdução de tecnologia me obrigar, estou disposto a alterar os meus métodos de trabalho. 3. Quais são os principais tipos de produção da empresa? Tipos de Produção Peso () Bovinos de Carne Bovinos de Leite Ovinos de Carne Ovinos de Leite Caprinos de Carne Caprinos de Leite Suínos Roedores Aves - Carne Aves - Ovos Outros 1 ____________________________________ Outros 2 ____________________________________ 60 4. Qual o ano de início de atividade da empresa? _________ 5. Quantos colaboradores trabalham na empresa? ______________________________________ 6. Qual o volume de vendas em 2019 (milhares de euros)? menos de 50: ☐ entre 51 e 100:☐ entre 101 e 200: ☐ entre 201 e 500: ☐ mais de 500:☐ 7. Qual o seu ano de nascimento? ______________________________________ 8. Que ferramentas TIC utiliza na sua atividade? (assinale com um X a opção que melhor se adequa à sua situação) Apoio à Gestão e Produção Não utiliza Só informa Informa e Analisa Propõe decisão Decide Gestão Organizacional Sistema de gestão financeira incluindo módulos de tesouraria, contabilidade analítica, etc. Sistema de gestão comercial incluindo processos de compra e venda com vendas a dinheiro, faturas, recibos, notas de crédito, notas de débito, etc. Sistemas de apoio à gestão técnica para a produção animal Programa de preenchimento de registo de existências e deslocação (RED). Sistema para controlo detalhado de todos os fatores de produção e centros de custo, nomeadamente: consumíveis, serviços, produtos, equipamentos, mãode-obra Controlo de Produção Estações meteorológicas Sistemas de controlo com sensores ligados a aplicações informáticas. Sistemas de localização eletrónica dos animais dentro da exploração. Sistemas que contemplem maneio administrativo (deslocações dos animais, medicamentos ministrados, etc). Sistemas que contemplem maneiro técnico (controlo de parições, cobrições, diagnósticos de gestação, etc.) Sistemas que contemplem maneio nutricional. Preparação do Produto Final Utilização da robotização na recolha da produção Sistema deteção automática de características do produto Sistemas de controlo de refrigeração com gestão de armazenagem dos produtos Gestão das operações de transformação (embalamento, lavagem, armazenamento, etc) Sistemas de emissão de etiquetas de identificação de paletes e outras Sistema de registo de cada lote de produto rececionado que permite diferente valorização de acordo com classificação atribuída aao produto (data, lote, nº guia, pavilhão, análise da qualidade do produto, definição do destino, etc.) Outro 1:________________________________ Outro 2: _______________________________ 67 Parasuraman, R., Wickens, C. D. & Sheridan, T. B..(2000). A model for types and levels of human interaction with automation. IEEE Trans. Syst. Man Cybern. Part A Syst. Hum . 30(3), 286-297 Patil, V.V., Gaadi, K., Biradar, D.P. & Rangaswamy, M.. 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