O legado de Craveirinha: das lutas da geração de 50 aos leitores do século XXI
Abstract
O artigo propõe uma revisitação de vários aspetos da vida e obra de Craveirinha, incluindo a sua intervenção na imprensa, a sua influência na vida cultural moçambicana e o enquadramento da escrita de Craveirinha face a outras vozes da sua geração, de língua portuguesa ou não. Também se exploram duas das principais linhas temáticas da sua poesia de 50 argumentando-se que esses textos não são obras datadas na medida em que a sua mensagem mantém pertinência e validade atuais.
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-113O legado de Craveirinha: das lutas da geração de 50 aos leitores do século XXI* Joana Passos CEHUM / GAPS [email protected]minho.pt Resumo: O artigo propõe uma revisitação de vários aspetos da vida e obra de Craveirinha, incluindo a sua intervenção na imprensa, a sua influência na vida cultural moçambicana e o enquadramento da escrita de Craveirinha face a outras vozes da sua geração, de língua portuguesa ou não. Também se exploram duas das principais linhas temáticas da sua poesia de 50 argumentando-se que esses textos não são obras datadas na medida em que a sua mensagem mantém pertinência e validade atuais. Palavras-chave: Geração de (19)50 nas literaturas africanas de língua portuguesa; literatura moçambicana; o legado de Craveirinha; releituras pós-coloniais. Abstract: This article suggests a contemporary reviewing of various aspects of Craveirinha’s life and work, including his intervention as a journalist, his influence on Mozambican cultural life, and the framing of Craveirinha’s writing in relation to other voices of his generation, whether Portuguese speaking or not. Besides, two of the main thematic lines of his 1950s poetry are explored, arguing that these texts are not dated works, as their message maintains current relevance and validity. Keywords: The (19)50s generation in African literatures in Portuguese; Literature from Mozambique; Craveirinha’s legacy; postcolonial reviewing. No seu tempo, Craveirinha muito contribuiu para se afirmar a autonomia da literatura moçambicana em relação a modelos importados do ocidente (via colonialismo) ao dar voz e expressão a referências culturais locais específicas, enaltecendo-as. Por outro lado, ao projetar pela sua escrita comprometida com a luta de independência o ideal da nação moçambicana, as suas pala- * Esta investigação foi financiada com o apoio da FCT, no âmbito do financiamento ao Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho (FCT: 10.54499/UIDB/ 00305/2020) e do contrato de trabalho CTTI -60/21– CEHUM (1).
Joana Passos -114vras encorajaram um sentimento de identidade coletiva, orgulhoso de si, e politicamente consciente. Só por si, estas credenciais seriam mais do que suficientes para se revisitar, sempre, a obra de tão importante poeta. Mas hoje, neste artigo, queria ler a dimensão política da obra de Craveirinha de um ângulo mais atualizado para provar que apesar de ter desempenhado uma importante função no seu tempo, a obra de Craveirinha não é uma leitura ‘datada’, que só pode ser entendida e valorizada em função das circunstâncias históricas em que nasceu. A importância de se ler Craveirinha com renovadas perspetivas críticas quase setenta anos depois da escrita de alguns dos seus poemas pode medir- -se pela forma como nos parece desatualizada a crítica da época, essa sim, datada, ideologicamente comprometida com o ideário Marxista, e segundo a qual o valor de um autor era medido pela sua intervenção política na construção de um projeto nacional 1 . O que não coincidisse com a agenda do partido era anátema: literatura burguesa. Ora o que subsiste no tempo literário não são os autores que melhor repetiram os slogans esperados. São os que de facto escreveram literatura – a arte escrita. Numa entrevista que me concedeu em 2010, dizia Luandino Vieira sobre a capacidade da literatura de transcender o seu tempo de escrita: O tempo é o grande recolhedor de lixo, que anda de noite, a apanhar tudo, e nem sabe o que é que leva; mas o tempo irá ajudar nessa distinção da literatura de combate, que era literatura feita expressamente pelos seus autores com um fim político. Se os autores tinham na verdade algum talento, esse talento ficava expresso, e passada a urgência da época, se algum talento havia na construção literária, esse talento está lá. E se está lá, deve ser avaliado e reavaliado… e incluído ou não… Quanto aos estudos académicos, devem tomar por objecto tudo o que for relevante… tudo o que ajuda a manter vivo um sistema literário, que se revitaliza ao ser problematizado. (BRUGIONI, 2010: 193) Estas palavras são fundamentais para se pensar o lugar de um poeta como Craveirinha na atualidade, porque “se (…) talento havia”, então, continua a ser importante ler Craveirinha para além do tempo da luta de independência e 1 Veja-se a propósito a introdução de Gilberto MATUSSE (1998). Aí se referem, entre outros, os comentários de Alfredo Margarido e Ilídio Rocha, que me parecem ler a obra literária em função dos parâmetros utilitários e comprometidos do realismo socialista.
O legado de Craveirinha: das lutas da geração de 50 aos leitores do século XXI -115do desafio inicial da construção da nação moçambicana. Pelo contrário, muitos outros autores da época, a meu ver, só têm lugar na aula de história, como forma de se compreender e documentar um dado momento do passado. A nível internacional, o interesse pela obra de Craveirinha insere-se no âmbito do estudo da literatura moçambicana, ou, num plano mais alargado, no estudo das literaturas africanas de língua portuguesa. Por um lado, a academia brasileira tem sido ativo membro da comunidade que se debruça sobre estas literaturas, sendo de saudar a crescente produtividade e a qualidade do trabalho realizado. Por outro lado, em Portugal, já existem décadas de investigação sobre estas literaturas 2 , um robusto corpo teórico consolidado, várias teses desenvolvidas e é igualmente de realçar o sucesso de vendas de vários autores africanos, muito populares junto do público português. No entanto, o estudo das literaturas africanas é muitas vezes opcional e reúnem-se várias nacionalidades e culturas numa única unidade curricular, a qual tem de ser necessariamente abrangente, e logo, menos profunda e detalhada. Também não podemos esquecer a rede internacional de departamentos de português espalhados pelo mundo, que sempre contemplam na sua formação a componente africana da escrita em língua portuguesa, e, por via do desenvolvimento dos Estudos Comparativos, autores como Craveirinha podem ser objeto de investigação face a autores de outras línguas. Nas academias europeias, desde os anos oitenta do século XX tem-se afirmado um percurso crítico de abertura, reconhecimento e interesse internacional pelas artes e escrita africanas, em parte devido ao impacto dos estudos pós-coloniais, campo de conhecimento que provocou uma profunda reforma na maneira de os europeus se verem, pensarem o seu lugar face a outros povos, e compreenderem a necessidade de ouvir “as vozes do Sul” (para parafrasear a mudança epistemológica proposta por Maria Paula Meneses e Sousa Santos, 2018). Ora Craveirinha é uma voz fundamental para se descolonizar o pensamento num mundo global, e por isso deve ser lido, conhecido e estudado. E creio que é preciso insistir na relevância dos estudos pós- -coloniais como forma de combater o crescente racismo dentro da Europa, 2 A título de exemplo refira-se que, segundo Salvato Trigo, o estudo das literaturas africanas de língua portuguesa foi instituído na Universidade do Porto no ano letivo 1976-1977. Para mais detalhes ver TOPA, 2017. A Universidade de Lisboa oferece a única licenciatura em Estudos Africanos em Portugal.
Joana Passos -116exacerbado pela atual crise de refugiados e massivo número de imigrantes ilegais. A nível nacional, em Moçambique, Craveirinha é também fundamental espelho para se conhecer a cultura deste país e a afirmação da sua literatura moderna, escrita. Isto porque, através da sua obra, as mais jovens gerações compreendem as lutas do passado, mas, para além disso, aprendem a refletir sobre Moçambique, os sentidos de identidade coletiva que alberga e os desafios que enfrenta. Para além de ser uma figura fundadora enquanto poeta nacional, Craveirinha, quando necessário, também se fazia prosador, como o próprio afirma na introdução à antologia Hamina e outros Contos (1997), onde diz que muitas vezes improvisava textos 3 – “esgalhava” essa “qualquer coisa” (1997: 16) – para ocupar espaços vazios do jornal O Brado Africano, onde era colaborador assíduo. Uma das causas para esses “espaços vazios” seriam os imprevisíveis cortes da censura, vigente durante o Estado Novo português (19331974), e para os quais Craveirinha providenciava uma solução. No entanto, apesar dessa declaração humilde, de obra improvisada, acredito que, como Ana Mafalda Leite (2006) demonstrou, alguns desses contos seriam textos mais amadurecidos, e teriam necessariamente de o ser, pois, como diz a crítica, as ilustrações que os acompanharam não se improvisavam. A propósito, refira-se que a edição dos contos reunidos na antologia reproduz as ilustrações de autores como Rui Nogar, Nuno A. de Sousa, António Bronze, Luís Polanah e Maria da Luz, e cito os nomes porque também é importante manter a memória do trabalho destes artistas visuais, que tiveram na imprensa a galeria possível para expor os seus trabalhos. Começo por evocar estes contos e as circunstâncias da sua criação porque me interessa a componente de formação jornalística no autor que se tornou Craveirinha, e que começa por colaborar com um jornal como O Brado Africano, periódico que sempre foi uma voz em defesa das populações locais e dos seus direitos. E sublinho também a apaixonada entrega que se adivinha em alguém que se presta a “esgalhar qualquer coisa” para salvar a situação. 3 Ana Margarida Fonseca, num estudo que integra o presente volume, defende que o género dos textos reunidos na antologia Hamina e outros contos (1997) está entre o conto e a crónica. Subscrevo inteiramente essa reflexão.
O legado de Craveirinha: das lutas da geração de 50 aos leitores do século XXI -117José Craveirinha foi colaborador de vários jornais moçambicanos, desde O Brado Africano, onde estava no final dos anos 40 (e onde foi contemporâneo de Noémia de Sousa, de quem era amigo), ao jornal Notícias, a partir de 1958, e mais tarde do jornal A Tribuna, isto para referir só alguns exemplos das suas múltiplas colaborações. Também é importante dizer-se que foi membro da FRELIMO, Frente da Libertação de Moçambique, assumindo o seu compromisso com a luta de libertação na componente da intervenção cultural 4 , através da sua voz literária. Esta ligação à imprensa enquadra o perfil de Craveirinha como alguém atento à realidade, e que acompanhava os debates do tempo em que viveu. No entanto, o lado comprometido da sua obra não implicou a marginalização da expressão de sentimentos subjetivos e pessoais em nome de uma ideologia ou da suprema necessidade de se fazer propaganda. Muito pelo contrário, o compromisso político do poeta nunca foi um limite à sua criatividade, e encaro esta articulação entre a arte e a política como (mais) uma camada de significados contida no seu trabalho, que só torna mais rica a descoberta da sua obra para os públicos da atualidade. A componente jornalística da intervenção de Craveirinha, que em parte se materializa nos seus contos / crónicas publicados em 1997, e que se encontra também documentada em Contacto e outras crónicas (1999), mostra ao leitor de hoje o esforço em trazer para a ‘cidade de betão’ o conhecimento de – e se possível, a identificação com – os bairros suburbanos de Maputo, onde pulsava uma vida mais africana, para além do “frio verniz da civilização” (CRAVEIRINHA, 1999: 16). Portanto, pela colaboração de Craveirinha com a imprensa local encontra-se de uma forma clara a matriz que cruza a identificação e elogio da cultura moçambicana, africana, rica nas sua tradições e estilos de vida, com a constante preocupação em dar visibilidade aos que nunca eram “protagonistas de coisa nenhuma” (parafraseando um comentário que ouvi a Luís Carlos Patraquim, sobre o valor do cinema em Moçambique e a sua representação das populações locais). Neste artigo, vou partir da intervenção jornalística de Craveirinha para definir um ponto de vista a partir 4 Quando me refiro a ‘intervenção cultural’, faço-o no sentido definido por Amílcar Cabral, de contributo útil para a resistência ao imperialismo (CABRAL, 2008: 209). No entanto, não concordo com a sugestão de que a arte tenha de ser útil. Pode sê-lo, mas a liberdade criativa e as preocupações estéticas são indissociáveis do ser de qualquer forma de arte. E bem o reconhecemos na obra de Craveirinha, espírito rebelde, que traçou o seu próprio caminho.
Joana Passos -118do qual analisarei um pequeno conjunto de poemas selecionados, que tomo como casos exemplares para se abordar o seu legado. Esta abordagem serve para sublinhar o entrecruzamento de questões de classe e identidade cultural, presentes na sua poesia, com a procura de um caminho para a moderna cultura moçambicana, processo que começa com a geração de 50, mas que está em aberto num Moçambique independente, e que possivelmente passará por um mais ativo diálogo com outras culturas da região. Pelos problemas sociais que a geração de 50 nas literaturas africanas de língua portuguesa expôs, e os quais em grande parte permanecem sem solução no mundo global da atualidade, considero que Craveirinha fez parte de uma geração fundadora e interventiva cuja relevância não ficou presa ao seu tempo visto que, mesmo com toda a carga histórica que as suas palavras transportam, Craveirinha e os seus companheiros mantêm-se vozes pertinentes para problemas que confrontam os leitores do século XXI. Ao falar-se dos companheiros de Craveirinha, vários são os nomes que se podem referir nesse projeto coletivo que foi a consolidação de um sistema literário e artístico Moçambicano, nos anos 50 e 60. Destacaria os escritores, Luís Bernardo Honwana, Noémia de Sousa, Rui Nogar, Rui Knofli, e os pintores Malangantana e Bertina Lopes. Se em Lisboa existiu o meio da Casa dos Estudantes do Império, onde jovens autores se formaram mutuamente, em termos estéticos e políticos, em Moçambique, Craveirinha tornou-se das vozes mais presentes e contundentes neste meio intelectual local, do qual fazia parte. Como ponto de partida para a minha abordagem à sua obra, queria citar aqui uma série de comentários reunidos no livro de Alda Costa, Arte em Moçambique (2013), onde encontramos Craveirinha no papel de crítico de arte, em 1962, a partir das páginas do jornal A Tribuna. Escrevia o autor a propósito de uma obra da pintora Bertina Lopes: Foste o único artista de Moçambique inteiramente moçambicano na obra que apresentaste. É muito importante (…) Eu sei que a arte não tem fronteiras. Mas tem características. Tem individualismo. (CRAVEIRINHA, apud COSTA, 2013: 148. Citação de um artigo de A Tribuna, de 11 de novembro de 1962)
O legado de Craveirinha: das lutas da geração de 50 aos leitores do século XXI -119Este elogio ao quadro de Bertina Lopes que representava uma cerimónia de “lobolo” – uma cerimónia tradicional em Moçambique, relativa ao casamento e dote da noiva – torna-se mais claro nas suas intenções e alcance, se comparado com os comentários de Craveirinha à pintura de João Ayres (1921-2001), pintor português chagado a Moçambique em 1946, e professor no Núcleo de Arte de Maputo (então Lourenço Marques) desde o final dos anos 40. Diz Craveirinha, em 1963, a respeito dos quadros do português João Ayres: As tuas exposições, João, agora já não prestam porque já não ligas aos guindastes e aos tipos que andam lá em baixo a carregar sacos. Agora pintas barcos e cenas de toiros (…) Pois eu acho que nunca foste tão artista como agora que não andas a pintar aquilo que os outros querem. Pintas o que sentes, o que mais te seduz e tudo quanto te inspira mais. (…) Mas como não são os sinais de cá, a coisa está errada, dizem eles. Mas está errada porquê se tu vives aqui mas não és de cá? (CRAVEIRINHA, apud COSTA, 2013: 195, “Carta para o João”, A Tribuna, 20 de junho de 1963) Esta evocação do papel de Craveirinha como crítico de arte, com toda a sua ironia e frontalidade, prova que a sua voz no meio intelectual da então Lourenço Marques extravasava o universo da escrita literária, num continuum entre as várias artes que procuravam um caminho para afirmar a cultura local de Moçambique, como parte do processo de autoafirmação nacional e coletiva, que fazia parte das estratégias da luta de libertação. Na procura do caminho artístico para as artes visuais moçambicanas, proclamado através das páginas da imprensa, podemos identificar nestes dois excertos jornalísticos, alguns dos tópicos que iremos abaixo reencontrar em exemplos concretos da poesia de Craveirinha, nomeadamente: 1) a urgência na representação literária da vida cultural moçambicana (por isso Bertina Lopes é elogiada); 2) a importância de escrever a vida da classe operária (os “tipos que andam lá em baixo a carregar sacos”; 3) o uso da ironia, como forma de expor as fraquezas de quem se rejeita ou critica; 4) o desenhar de utopias e a identificação com um forte sentimento nacionalista, que o relaciona com os outros autores e intelectuais da geração de 50, aquela que preparou a luta armada pela independência, a acompanhou de 1964 até 1974, e se viu amargamente confrontada com a guerra civil que se seguiu. Por isso, se parte da obra de Craveirinha dá voz ao lutador (veja-se sobretudo a antologia Cela 1, 1980), aos projetos para o futuro e à vontade de fazer e construir, também encontramos na sua obra desilusão e amargura.
Joana Passos -120Fotografia de Craveirinha numa rua de Maputo / Lourenço Marques, s/d, com um grupo de amigos. (FMSMB 5 / Arquivo Malangatana Valente Ngwenya) A um nível transnacional, mas ainda de língua portuguesa, Craveirinha teve por companheiros de geração os angolanos Luandino Vieira, Alda Lara, Mário Pinto de Andrade, António Jacinto, as santomenses Alda do Espírito Santo e Manuela Margarido, e, inevitavelmente, da Guiné-Bissau e Cabo Verde, a voz de Amílcar Cabral. Para além desta fantástica geração de língua portuguesa, gostaria de recordar que também é nos anos 50 que Frantz Fanon publica Peau Noire Masques Blancs (1952), o nigeriano Wole Soyinca (que viria a ser o primeiro africano a receber o prémio Nobel, em 1986) leva as suas primeiras peças ao palco, e Chinua Achebe, também nigeriano, publica Things Fall Apart (1958). Também nesta mesma década, a sul-africana Nadine Gordimer começa a publicar coleções de contos, iniciando-se assim o percurso literário daquela que seria a primeira mulher africana a receber um prémio Nobel da literatura, em 1991. Recordo estes nomes e o seu impacto internacional para enquadrar a escrita de Craveirinha não só nos debates da cena cultural moçambicana, como acima vimos, mas também numa sintonia com debates mais amplos, que se desenrolavam em várias regiões africanas, 5 Agradeço à Fundação Mário Soares e Maria Barroso a autorização para o uso desta e da outra foto incluída mais adiante.
O legado de Craveirinha: das lutas da geração de 50 aos leitores do século XXI -121com ligações aos meios estudantis na Europa, e em outras línguas que não a língua portuguesa. Nos anos 50 e 60, viviam-se tempos de mudança, e abria- -se ao escritor africano o desafio de contribuir para essa mesma mudança. Craveirinha assumiu esse desafio e também pagou um preço. Foi preso pelo estado português sob a acusação de atividades subversivas, e foi companheiro de cela de Luís Bernardo Honwana 6 , tendo também conhecido o pintor Malangatana na prisão 7 . Este encontro na prisão entre três nomes fundamentais na arte e na escrita moçambicana é revelador da forma como o Estado Novo tratava os artistas e intelectuais, e recorde-se que também em Portugal os escritores eram perseguidos e censurados. Para ilustrar esta dimensão de colaboração internacional contra um opressor comum – que era o estado fascista português – apresento aqui uma pequena fotografia, tirada em Moçambique, onde se vê Craveirinha com o seu amigo Malangatana e o angolano Mário Pinto de Andrade, este último, um ativista fundamental na articulação das lutas de libertação dos vários países africanos de língua portuguesa. Pinto de Andrade viveu exilado em Paris por muitos anos, onde colaborou com a revista Présence Africaine. A fotografia representa três amigos, mas representa também as muitas cumplicidades que terão existido entre os intelectuais situados em diferentes e distantes geografias, que então se uniram numa causa comum. Craveirinha, Malangatana e Mário Pinto de Andrade, em Maputo, no atelier de Malangatana s/d (FMSMB / Arquivo Malangatana Valente Ngwenya) 6 Segundo obituário de Craveirinha no jornal Público, 7 de fevereiro de 2003. 7 A este respeito ver referência de Francisco NOA (2016: 217).
Joana Passos -128associa ao operário negro e descalço. A tomada de consciência na diferença de vida entre uns e outros é o ponto de reflexão que o poeta deixa ao leitor, focando, pedagogicamente, a atenção do seu público em detalhes que não podem passar desapercebidos na nossa perceção do mundo, e em relação aos quais não podemos ser indiferentes. Em toda a Obra Poética I, a exploração dos pobres e a falta de condições nas suas vidas é tema recorrente, e podemos agrupar nessa única isotopia, por exemplo, os poemas “3 dimensões”, “Mulata Margarida” (sobre exploração sexual), “Gado Mamparra-Magaíza”, sobre os trabalhadores contratados, transportados de comboio em condições sub-humanas, “Um céu sem anjos de África”, onde se denuncia a morte das crianças africanas por falta de cuidados de saúde, ou ainda “Ode a uma carga perdida”, referindo-se aos trabalhadores que morreram no porão de um navio incendiado, e de quem se fala como “a carga”, como no tempo da escravatura. Por fim, ainda dentro desta linha temática, referiria os poemas “Cântico a um Deus de Alcatrão” e “Grito Negro”, com a diferença que nestes dois últimos casos já aparece a semente da revolta, respetivamente nos versos “(…) máquina está a trabalhar / até um dia enraivar / com farinha de pilão” (1999: 44) – sendo que “enraivar” é aqui a palavra chave, estando ligada a algo que vai acontecer no futuro, um dia. No caso do segundo poema, vejam-se os versos: “Eu sou carvão! / Tenho que arder / E queimar tudo com a minha combustão. // Sim! / Eu serei o teu carvão / Patrão!” (1999: 12) – versos que contêm uma ameaça implícita. Ao mesmo tempo que se foca nas grandes diferenças sociais entre as classes que compõem a sociedade moçambicana, diferenças essas que subsistem, Craveirinha, com o seu olhar atento do jornalista, também compreende a importância de se focar nos detalhes que fazem das desvantagens uma força. É preciso escrever palavras de alento, de encorajamento, e hoje, como antes, elas fazem falta a um país (e a um continente) em reconstrução: Fábula Menino Gordo comprou um balão E assoprou Assoprou com força o balão amarelo Menino gordo assoprou assoprou