scieee AI-readable full text Open interactive document viewer

Compreender e prevenir o erro: contributos para a aprendizagem da competência ortográfica (um estudo no 2.º ano do 1.º ciclo do Ensino Básico)

Ribeiro, Diana Areias; Silva, Carlos Manuel Ribeiro da

Abstract

Este trabalho apresenta todo o percurso investigativo realizado durante um projeto de intervenção pedagógica desenvolvido numa turma do 2.º ano de escolaridade do Ensino Básico. Configurando-se como um projeto de investigação-ação, este teve finalidades, quer de natureza pedagógica, quer de natureza investigativa. Desta forma, o objetivo central deste projeto formaliza-se pelo interesse em conhecer o impacto de estratégias de intervenção no âmbito da promoção da competência ortográfica e da aprendizagem dos processos de escrita de textos. Nesse sentido, teve se também como objetivo compreender, aperfeiçoar e avaliar as práticas pedagógicas nas áreas em estudo, permitindo, assim, o desenvolvimento de competências profissionais. A intervenção pedagógica foi desenvolvida através da metodologia de Projeto Curricular Integrado, no qual se destaca a atividade integradora “Caça ao erro para melhor escrever!”, que é o objeto de estudo central da investigação. Esta intervenção consistiu na implementação de diferentes atividades e estratégias, mobilizadas em torno da ortografia e da escrita de textos, promovendo as habilidades metacognitivas dos alunos, para tornar as aprendizagens significativas e enriquecedoras. Para isso, recorre-se a diversas estratégias e instrumentos de recolha de informação que permitiram sustentar a avaliação do projeto. A análise dos dados recolhidos foi predominantemente qualitativa e pontualmente quantitativa. Os resultados obtidos revelam que os alunos evoluíram nos seus saberes relativamente às convenções da ortografia e aos processos de escrita de textos, nos quais se evidenciou igualmente a revisão ortográfica. Especificamente tendo em conta a competência ortográfica, os alunos compreenderam as estratégias recorrentes das duas vias utilizadas no acesso à escrita ortográfica das palavras do português: a via fonológica (unidades e regras de correspondência entre sons e unidades sonoras) e a via lexical (memorização da forma ortográfica da palavra). Do mesmo modo, os alunos demonstraram ter aprendido explicitamente estratégias que podem mobilizar para futuras situações de escrita, tanto ao nível da questão ortográfica, como de outros aspetos em jogo numa produção textual. A análise deste projeto finaliza-se com uma reflexão sobre os contributos do Projeto Curricular Integrado no desenvolvimento do currículo da educação básica, assim como no impacto do trabalho realizado no desenvolvimento de competências do perfil profissional da educação básica, das quais se salienta as capacidades de investigação, colaboração e reflexão.

Full text

ORGANIZADORES INTRODUÇÃO COMISSÃO ORGANIZADORA COMISSÃO CIENTÍFICA COMISSÃO HONRA ÍNDICE VOLTAR AO ÍNCIO Organizadores MARIA JOÃO DE CARVALHO UNIVERSIDADE TRÁS-OS-MONTES E ALTO DOURO ARMANDO LOUREIRO UNIVERSIDADE TRÁS-OS-MONTES E ALTO DOURO CARLOS ALBERTO FERREIRA UNIVERSIDADE TRÁS-OS-MONTES E ALTO DOURO ISBN: 978-989-704-188-4 DESIGN DE FACTO EDITORES ATAS DO XII CONGRESSO DA SPCE. VILA REAL, UTAD, 2014 ESPAÇOS DE INVESTIGAÇÃO, REFLEXÃO E AÇÃO INTERDISCIPLINAR VILA REAL, UNIVERSIDADE DE TRÁS-OS-MONTES E ALTO DOURO (UTAD), 11 A 13 DE SETEMBRO DE 2014 ATAS DO XII CONGRESSO DA SPCE, 2014 1 COMPREENDER E PREVENIR O ERRO: CONTRIBUTOS PARA A APRENDIZAGEM DA COMPETÊNCIA ORTOGRÁFICA (UM ESTUDO NO 2.º ANO DO 1.º CICLO DO ENSINO BÁSICO) i Diana Areias Ribeiro [1] & Carlos Manuel Ribeiro da Silva [2] [1] Instituto da Educação, Universidade do Minho, Braga, [email protected] [2] Departamento de Estudos Curriculares e Tecnologia Educativa do Instituto da Educação, Universidade do Minho, Braga, [email protected] Resumo A comunicação apresenta de forma resumida o percurso investigativo realizado durante uma intervenção pedagógica desenvolvida numa turma do 2.º ano de escolaridade. Configurou-se como um projeto de investigação-ação, tendo como objetivo central o interesse em conhecer o impacto de estratégias de intervenção no âmbito da promoção da competência ortográfica e da aprendizagem dos processos de escrita de textos. Assim, foi possível compreender, aperfeiçoar e avaliar as práticas pedagógicas nas áreas em estudo, permitindo também o desenvolvimento de competências profissionais. A intervenção pedagógica desenvolveu-se através da metodologia de Projeto Curricular Integrado, evidenciando-se a sua articulação com o desenvolvimento da competência ortográfica. 1. Introdução O Colégio do Ave foi o contexto selecionado para a intervenção pedagógica aqui descrita e analisada, sendo que este se caracteriza como uma instituição privada, que se situa na Rua do Alto da Bandeira, em Creixomil, Guimarães. É uma instituição cujas infraestruturas permitem garantir um acompanhamento pedagógico ajustado às crianças dos diferentes níveis etários, e que, por isso, possuí as valências de Creche, Pré-escolar, 1.º, 2.º e 3.º Ciclos do Ensino Básico. O meio socioeconómico e a diversidade sociocultural da população escolar situam-se num nível de médio-alto. A turma B do 2.º Ano, na qual foi desenvolvida a intervenção pedagógica, era constituída por quinze alunos, sendo sete do sexo masculino e oito do sexo feminino, integrando uma aluna com Necessidades Educativas Especiais (NEE), que tinha um Programa Educativo Individual e um Currículo Específico Individual e, por isso, acompanhava a turma apenas nas aulas coadjuvadas. Era um grupo muito heterogéneo, mas que revelava vontade de aprender, entusiasmo e motivação nas experiências de aprendizagem das diferentes áreas curriculares. Contudo, o seu entusiasmo era maior aquando da realização de atividades lúdico-didáticas e/ou com recurso a materiais diversificados, mostrando maior envolvimento e compreensão das aprendizagens que se iam desenvolvendo. Todos eles eram participativos, empenhados e muito criativos, dando preferência aos trabalhos de grupo, à audição de histórias e à construção de textos. Demonstravam afeição pelos livros e pelos seus escritores e gostavam de viver esse “mundo maravilhoso”. Referindo particularmente a Língua Portuguesa, foi observável, no geral, que existiam ainda algumas dúvidas significativas quanto à componente da escrita, mais concretamente ao nível da ortografia. Constantemente, os alunos preocupados em não “cometer” erros ortográficos, questionavam sobre qual a maneira correta de escreverem determinadas palavras. E, quando não questionavam, verificavam-se frequentemente erros ortográficos. Era evidente, tanto a dificuldade ao nível da ortografia, como Compreender e Prevenir o Erro: Contributos para a Aprendizagem da Competência Ortográfica (Um estudo no 2.º ano do 1.º Ciclo do Ensino Básico) Diana Ribeiro, Carlos Silva 1464 VOLTAR AO ÍNCIO ATAS DO XII CONGRESSO DA SPCE, 2014 2 também a falta de autonomia na procura de soluções para a escrita correta das palavras. Igualmente observou-se que os alunos falhavam algumas etapas fundamentais na construção de um texto escrito. Por outro lado, a partir da observação e do diálogo com os alunos, estes revelaram possuírem poucos conhecimentos sobre a história/cultura local, do contexto onde o Colégio se encontra inserido. O interesse e a curiosidade dos alunos por este tipo de temáticas evidenciava-se quando partilhavam o gosto de saber mais acerca da cultura da cidade de Guimarães e de outros aspetos característicos da mesma. Neste sentido, revelava-se uma falha numa das funções essenciais da educação e da escola, a função cultural, que é explorar e dar a conhecer o meio local. Após a compreensão da importância do estudo e da intervenção nestas temáticas, na turma em questão, foi delineada juntamente com os alunos o Projeto Curricular Integrado (PCI), cujo Núcleo Globalizador intitulou-se “Voar à Descoberta da Cultura de Guimarães”, desenvolvido em conjunto com uma colega de estágio ii . Neste estiveram incluídas três Atividades Integradoras: “Ao encontro dos museus de Guimarães”, “A gastronomia típica Vimaranense” e “Caça ao erro para melhor escrever!”. Estas três Atividades Integradoras complementaram-se, seguindo uma perspetiva transversal, onde todas as áreas curriculares foram aproveitadas para trabalhar a Língua Portuguesa, dando sentido a uma aprendizagem integrada e significativa por parte dos alunos. Sendo assim, foi possível promover um trabalho em equipa, interligado e integrado, o que constituiu uma mais-valia, já que através de um PCI, a interdisciplinaridade é fomentada naturalmente, potenciando todas as competências da Língua Portuguesa. A partir das diferentes atividades integradoras do PCI, desenvolveu-se uma prática educativa integrada, que incorporou as intenções de dois projetos de investigação, cada um respetivamente com os seus objetivos investigativos. Relativamente ao presente estudo, este foca-se maioritariamente na descrição e reflexão dos resultados da Atividade Integradora “Caça ao erro para melhor escrever”, que permitiu desenvolver este projeto de investigação. 2. Metodologias Do ponto de vista do enquadramento metodológico, a intervenção pedagógica desenvolveu-se segundo a metodologia de PCI, onde o currículo é entendido e orientado numa perspetiva de projeto e os problemas/temas a investigar são organizados em torno da planificação, desenvolvimento e avaliação sequencializadas e interligadas de Atividades Integradoras. Estas atividades são globalizadoras, significativas e contextualizadas na experiência e nas conceções prévias dos alunos (Alonso, 2001). Logo, permite-se, assim, que os alunos adquiram uma visão global da realidade, “através da conjugação dos diferentes olhares das disciplinas num olhar integrado, capaz de utilizar uma metodologia globalizadora na aproximação da realidade e na resolução dos seus problemas, que são, por natureza, complexos e globais” (Alonso, 2002, p.66). Como pudemos verificar, essa interdisciplinaridade permitiu potencializar o desenvolvimento de todas as competências de Língua Portuguesa, nomeadamente, na escrita, da competência ortográfica e da elaboração de textos, dois aspetos focalizados na Atividade Integradora “Caça ao erro para melhor escrever!”. Relativamente ao processo investigativo, o desenvolvimento deste projeto sustentou-se nas principais linhas orientadoras da metodologia de investigação-ação 1465 VOLTAR AO ÍNCIO ATAS DO XII CONGRESSO DA SPCE, 2014 3 (Cohen & Manion, 1989), constituindo um processo que se caracteriza pelo seu caráter cíclico e envolve as seguintes fases: planificar, agir, observar e refletir (Latorre, 2003). A referida metodologia revela-se uma mais-valia para o professor, uma vez que através da reflexão constante e da interação entre a teoria e a prática, este será capaz de compreender, alterar e produzir melhorias no processo educativo e no ambiente da sala de aula. É importante referir também que foram utilizadas diversas estratégias e instrumentos de recolha de informação para sustentar a avaliação da implementação deste projeto. O investigador precisa de recolher informação sobre a intervenção, para constatar que consequências ou efeitos a sua prática está a apresentar. 3. Objetivos Atendendo à caracterização do contexto e à identificação da questão que suscitou a intervenção pedagógica, o projeto “Compreender e Prevenir o Erro: Contributos para a Aprendizagem da Competência Ortográfica (Um estudo no 2.º ano do 1.º Ciclo do Ensino Básico)” propôs-se a criar momentos enriquecedores no desenvolvimento da competência ortográfica e na escrita de textos. Assim sendo, traçaram-se alguns objetivos gerais que sustentaram todo o processo de intervenção pedagógica e, também, objetivos mais específicos relacionados com o processo investigativo. Os objetivos apresentados seguem esta lógica do mais específico para o mais abrangente:  Promover a aprendizagem consciente das características da ortografia e das suas convenções;  Promover a aprendizagem dos processos de escrita de textos;  Possibilitar, na medida do possível, diminuir a incidência de algumas incorreções ortográficas;  Mobilizar estratégias apropriadas na monitorização da expressão escrita (“aprender a aprender”, autonomia na deteção e correção dos erros);  Compreender o impacto das estratégias de intervenção pedagógica na promoção da competência ortográfica e dos processos de escrita de textos;  Promover situações que despertem o interesse pela escrita e o gosto pelo uso correto e adequado da língua portuguesa;  Contribuir para a compreensão da utilidade dessas aprendizagens em todas as áreas curriculares e para o quotidiano;  Fomentar a curiosidade, o espírito crítico e a construção do conhecimento/saberes;  Promover a articulação das diferentes áreas curriculares;  Contribuir para a abertura da escola ao meio envolvente, potencializando recursos e valorizando a cultural local como fonte privilegiada de aprendizagens motivadoras e significativas;  Valorizar a comunidade educativa e a cultural local como meios pertinentes para a adequação e pertinência dos processos de desenvolvimento curricular;  Avaliar o impacto desta experiência de investigação-ação, no desenvolvimento profissional do estagiário. 4. “Caça ao erro para melhor escrever!” Assim, tal como já foi referido, partindo da contextualização das características e necessidades da turma, prosseguiu-se para a definição da temática do projeto de investigação. Após refletir e pesquisar sobre esta problemática em torno da ortografia, foi possível compreender que se trata de uma situação natural e característica do 2.º ano 1466 VOLTAR AO ÍNCIO ATAS DO XII CONGRESSO DA SPCE, 2014 4 de escolaridade, já que é nesta etapa que os alunos começam por dar um uso mais significativo à escrita e a aplicar todas as regras que foram aprendendo. Porém, considerou-se pertinente desenvolver uma intervenção nesta área, primando por uma ação pedagógica essencialmente preventiva, isto é, atuar desde cedo para que as dúvidas já existentes não persistissem, pois a ortografia pode exercer uma grande influência na vida escolar e pessoal dos alunos. De facto, o erro deve ser evitado e prevenido ao invés de remediado, sendo esta uma máxima de grande valor no ensino-aprendizagem da ortografia. Se os erros são cometidos, eles devem ser corrigidos o mais rápido possível, de forma individual e com um espírito positivo (Barberá, Collado, Morató, Pellicer & Rizo, 2004). Por outro lado, para além de se propor uma melhoria ao nível da competência ortográfica, este projeto de investigação desenvolveu-se também no sentido de promover uma melhoria significativa na aprendizagem dos processos de escrita de textos, através do conhecimento de metodologias para esse efeito. Isto porque, segundo Azevedo (2000, p.223), “há consenso entre vários especialistas que a aprendizagem da ortografia deve surgir integrada na compreensão e na produção de textos, na prática de actividades comunicativas e globais”. Quadro 1 – Plano de tarefas/atividades da Atividade Integradora “Caça ao erro para melhor escrever!”. Para além destes aspetos, é de salientar que se promoveu o desenvolvimento de diversas capacidades curricularmente previstas. Assim, no Quadro 1, realiza-se uma sistematização de todas as tarefas concretizadas durante o desenvolvimento deste projeto de investigação, proporcionadas pela Atividade Integradora “Caça ao erro para melhor escrever!”, no âmbito da competência ortográfica e da escrita de textos, 1467 VOLTAR AO ÍNCIO ATAS DO XII CONGRESSO DA SPCE, 2014 5 organizadas em torno de vários momentos e respetivas Questões Geradoras. Sendo assim, é importante voltar a referir que o processo de intervenção educativa se inicia com a observação. Nesta fase utilizaram-se várias técnicas de observação que permitiram caracterizar o contexto educativo da intervenção pedagógica. Esta fase é de extrema importância, pois consegue-se perspetivar quais os interesses e necessidades dos alunos da Turma B, do 2.º Ano. A esta fase seguiu-se a planificação, tendo sido esta baseada nos aspetos observados anteriormente, pois só assim foi possível desenvolver uma intervenção ajustada à turma e ao contexto em questão. Além disso, a planificação deve conter objetivos viáveis de serem atingidos, deve estar de acordo com as orientações descritas nos documentos oficiais e deve integrar estratégias de avaliação adequadas aos objetivos propostos. Seguindo-se a fase da intervenção, começa-se por expor que este estudo se subdividiu em três etapas. Na primeira, concretizaram-se duas atividades de diagnóstico, relacionadas com a competência ortográfica, com o intuito de perceber quais são os conhecimentos prévios acerca da temática. Através destas tarefas tornou-se possível recolher dados para planear as atividades seguintes. Na segunda etapa, foram desenvolvidas diversas atividades que visaram promover nos alunos a competência ortográfica e também uma melhoria na tarefa de escrita de um texto, onde a ortografia tem lugar tanto na sua elaboração, como na revisão dos mesmos. No final desta etapa, realizaram-se três momentos de avaliação, contemplando estes aspetos relacionados com o PCI em geral e outros focando as questões da ortografia e da escrita de textos. Com estes momentos de avaliação pretendia-se verificar em que medida os objetivos propostos foram alcançados e que aprendizagens os alunos construíram. Na terceira etapa, promoveu-se a divulgação do PCI e da Atividade Integradora, através da construção de um placard que foi afixado à porta da sala, para que a comunidade educativa pudesse tomar conhecimento do trabalho realizado pelos alunos. 5. Resultados Com efeito, é importante realçar que para se concluir este projeto de investigação, foi necessário percorrer um processo de pesquisa, discussão e reflexão constante. Neste ponto apresenta-se alguns resultados provenientes de atividades que constituíram momentos de avaliação muito significativos. Num momento de diagnóstico inicial, os alunos realizaram um ditado, que possibilitou um contacto direto com as palavras em que sentiam mais dificuldade a escrever. Para além disso, o ditado permitiu avaliar com maior precisão o grau de dificuldades ortográficas e aprofundar o conhecimento da lógica dos alunos ao cometerem esses erros. Do mesmo modo, enriqueceu a classificação dos erros ortográficos que já vinha a ser completada de outras atividades. Tal como foi dito, perante esta tarefa de ditado e considerando os erros que já vinham a ser recolhidos noutras atividades, conseguiu-se analisar, como mostra o Gráfico 1, de que forma estes se distribuíam pelas diferentes categorias da tipologia adaptada de Barbeiro (2007) e, posteriormente, selecionar quais se iriam priorizar na Atividade Integradora. Convém salientar que a norma ortográfica é complexa e muitas das suas questões devem ser tratadas sistematicamente ao longo de vários anos escolares 1468 VOLTAR AO ÍNCIO ATAS DO XII CONGRESSO DA SPCE, 2014 6 (Silva & Morais, 2007). Por isso, os alunos não aprendem logo a escrever sem erros, muito menos deve existir a ideia que se deve ensinar tudo de uma vez. Estes instrumentos de diagnóstico tiveram aqui um papel fundamental, pois permitiram selecionar as questões ortográficas a serem trabalhadas na turma, ao constatar quais eram as maiores fontes de dificuldades dos alunos ao escreverem. Gráfico 1 – Classificação dos erros ortográficos da turma. Após uma breve análise dos erros da Turma B, do 2.º ano, foi possível verificar que os erros mais frequentes se encontravam na categoria três, correspondendo às incorreções por inobservância de regras ortográficas de base fonológica, e na categoria cinco, correspondendo às incorreções quanto à forma ortográfica específica das palavras. Os erros da categoria três demonstravam que os alunos ainda não conseguiam analisar as situações de forma mais precisa, aplicar e generalizar as regras de ortografia. É também possível que ainda conhecessem poucas dessas regras. Os erros da categoria cinco demonstraram que os alunos necessitavam de treinar e aumentar os seus léxicos mentais ou a memória visual de palavras, para poderem decidir entre as formas de grafar uma palavra à qual não correspondiam regras de ortografia. Assim, para este projeto de investigação teve-se em conta o que Gomes (1989, citado por Azevedo 2000, pp.78-79) recomenda quanto aos erros de ortografia, isto é, “que se trate em primeiro lugar os erros mais frequentes, visto que, resolvidos estes, se notarão progressos imediatos na expressão escrita. Se há um tipo de erros que é dominante na turma, poder-se-á optar por um tratamento colectivo desse tipo de erros”. Posto isto, as duas categorias referidas acima foram selecionadas para se concretizar um ensino sistemático e reflexivo da ortografia, sendo este organizado de modo a favorecer sobretudo a compreensão dos casos regulares da norma ortográfica e, paralelamente, a memorização de palavras que têm irregularidades, mas que são frequentemente utilizadas pelos alunos na língua escrita. Segundo Silva e Morais (2007, p.74), os “critérios regularidade (irregularidade) e frequência de uso das palavras na língua escrita são bastante pertinentes para orientar a organização do ensino de ortografia na escola”. No final do projeto, para se verificar de maneira mais concreta eventuais evoluções, a partir do momento em que o trabalho em torno da Atividade Integradora “Caça ao erro para melhor escrever!” se iniciou, os alunos foram convidados a 1469 VOLTAR AO ÍNCIO ATAS DO XII CONGRESSO DA SPCE, 2014 7 confrontarem-se com os seus ditados iniciais de diagnóstico e a identificarem o maior número de erros possível. Neste momento, os alunos tinham oportunidade de reconhecerem a maioria dos erros dados no ditado, escreverem as palavras corretamente e aplicarem e mobilizarem algumas regras de ortografia. [A] análise de incorreções ortográficas por parte do aluno constitui uma estratégia que o fará tomar consciência da existência da incorreção e da forma correta de escrever a palavra, para além de o alertar para o tipo de erros que comete com mais frequência. (Baptista et al., 2011, p.89) A maior parte das palavras que constavam no ditado foram sendo trabalhadas em diversas atividades ao longo da intervenção, tanto ao nível das regras de ortografia, como da via visual. Ao analisar os ditados, que nos permitiu construir o Gráfico 2, percebeu-se que metade da turma conseguiu corrigir mais de 50% dos erros ortográficos que constavam nos ditados, aspeto que nos agradou particularmente, já que esta Atividade Integradora se desenvolveu em pouco tempo e não era esperado que os alunos fizessem progressos tão significativos de um momento para o outro. Gráfico 2 – Análise dos erros ortográficos no ditado e respetiva correção dos mesmos. Igualmente foram avaliadas algumas aprendizagens relevantes, através da realização de um Peddy-Paper, com questões relativas à temática da ortografia e da construção textual, de forma a verificar que conhecimentos foram adquiridos pelos alunos. Nesta atividade também foram integradas perguntas associadas às diferentes Atividades Integradoras do PCI, bem como aos conteúdos abordados nas diferentes áreas curriculares. A análise do Quadro 2, relativa à Atividade Integradora “Caça ao erro para melhor escrever!”, revela que as crianças tiveram mais dificuldades nas questões número 12 e 13. Estas relacionaram-se, respetivamente, com as fases do processo de escrita e com as partes constituintes de um texto. Perante estas dificuldades, concluiu-se que mais importante do que saber denominá-las, a intenção era despertar a consciência dos alunos para a sua existência e aplicação. Assim, essa consciencialização foi bem-sucedida e isso verificou-se nas várias tarefas de escrita de textos realizadas ao longo da Atividade Integradora. Já em relação à sua denominação específica, os alunos tiveram mais dificuldade em assimilar, pois tratava-se de vocábulos novos e recentes, que não necessitavam de um uso integral e constante. 1470 VOLTAR AO ÍNCIO