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Universidade do Minho Escola de Psicologia Matilde Balão Barbosa Gomes A Experiência Ótima de Lazer nos Jovens: Interação entre as experiências de Florescimento e de Aborrecimento junho de 2024 A Experiência Ótima de Lazer nos Jovens: Interação entre as experiências de Florescimento e de Aborrecimento Matilde Balão Barbosa Gomes UMinho | 2024
Universidade do Minho Escola de Psicologia Matilde Balão Barbosa Gomes A Experiência Ótima de Lazer nos Jovens: Interação entre as experiências de Florescimento e Aborrecimento Dissertação de Mestrado Mestrado em Psicologia Clínica na Infância e Adolescência Trabalho efetuado sob a orientação da Professora Doutora Teresa Freire Professora Doutora Dionísia Tavares junho de 2024
ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição-Não Comercial-Sem Derivações CC BY-NC-ND https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0
iii Agradecimentos Com o fim da realização desta dissertação, não posso deixar de agradecer a algumas pessoas que foram essenciais na concretização deste projeto. Em primeiro lugar, quero agradecer à família por estarem sempre presentes e dispostos a ajudar! Obrigada por me apoiarem sempre, em especial nos momentos mais desafiadores e por acreditarem sempre em mim. Agradeço aos meus amigos pelo suporte dado sempre! Por fazer dos momentos mais difíceis os mais engraçados, sempre com as palavras certas nas horas certas e por me motivarem sempre a fazer melhor. Obrigada à minha orientadora, Professora Doutora Teresa Freire e à minha coorientadora Professora Doutora Dionísia Tavares por orientarem todo este processo e por toda a partilha de conhecimento. Obrigada por toda a exigência e rigor que me permitiu evoluir! Obrigada a toda a Equipa de Investigação em Desenvolvimento Positivo e Funcionamento Ótimo, por todos os conselhos e por todo o apoio ao longo deste projeto! Muito obrigada a todos ! (…) Recomeça... Se puderes Sem angústia E sem pressa. E os passos que deres, Nesse caminho duro Do futuro Dá-os em liberdade. Enquanto não alcances Não descanses. De nenhum fruto queiras só metade. (…) Miguel Torga
iv DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. Universidade do Minho, 7 de junho de 2024 Matilde Balão Barbosa Gomes
v A Experiência Ótima de Lazer nos Jovens: Interação entre as experiências de Florescimento e Aborrecimento Resumo No presente estudo testou-se o modelo conceptual proposto por Freire et al., 2021, que cruza o florescimento e o aborrecimento para entender a Experiência Ótima de Lazer nos adultos emergentes (18-25 anos). A amostra é constituída por 150 estudantes universitários. A análise de clusters permitiu identificar 4 clusters, correspondentes a diferentes tipos de experiência de lazer propostas pelo modelo conceptual. A comparação de médias entre clusters mostrou diferenças significativas sobretudo, entre o cluster relativo à Experiência de Lazer de Risco e os clusters correspondentes à Experiência Ótima de Lazer e à Experiência de Lazer de Desafio, ao nível das atitudes, satisfação, motivação, afeto positivo e afeto negativo. Quando comparadas, a Experiência Ótima de Lazer e a Experiência de Lazer de Desafio apenas registaram diferenças significativas ao nível do afeto negativo. Palavras-chave : Aborrecimento, florescimento, lazer, adultos emergentes.
vi The Optimal Leisure Experience in Young People: Interaction between the experiences of Flourishing and Boredom Abstract In the present study, the conceptual model proposed by Freire et al., 2021 was tested, which crosses flourishing and boredom to understand the Optimal Leisure Experience in emerging adults (1825 years old). The sample consists of 150 university students. Cluster analysis allowed the identification of 4 clusters, corresponding to different types of leisure experience proposed by the conceptual model. The comparison of means between clusters showed significant differences, especially between the cluster relating to the Risky Leisure Experience and the clusters corresponding to the Optimal Leisure Experience and the Challenge Leisure Experience, in terms of attitudes…satisfaction, motivation, positive affect and negative affect. When compared, the Optimal Leisure Experience and the Challenging Leisure Experience only registered significant differences in terms of negative affect. Keywords : Boredom, flourishing, leisure, emerging adults
vii Índice Introdução .......................................................................................................................................... 9 1. Experiência de lazer .................................................................................................................. 11 2. Aborrecimento .......................................................................................................................... 12 3. Florescimento ........................................................................................................................... 13 4. A interação entre o aborrecimento e o florescimento nas experiências de lazer .......................... 14 4.1 Experiência Ótima de Lazer ................................................................................................. 15 4.2 Experiência de Lazer de Risco ............................................................................................. 15 4.3 Experiência de Lazer de Desafio .......................................................................................... 16 4.4 Experiência de Lazer de Apatia ............................................................................................ 16 5. Objetivos .................................................................................................................................. 16 Método ............................................................................................................................................. 17 1. Participantes ........................................................................................................................ 17 2. Instrumentos/medidas ......................................................................................................... 18 3. Procedimento ...................................................................................................................... 20 4. Análises Estatísticas ............................................................................................................. 20 Resultados ....................................................................................................................................... 21 Discussão ......................................................................................................................................... 26 1. Limitações e investigações futuras ........................................................................................ 29 Conclusões ....................................................................................................................................... 29 Referências ...................................................................................................................................... 31
14 (Vittersø, 2004). Ter uma vida plena inclui ter oportunidades para desenvolver e explorar os potenciais e forças, beneficiando quer o próprio indivíduo quer a sociedade em geral (Waterman, 2008). A perspetiva hedónica refere-se ao bem-estar subjetivo, ou seja, se as atividades são experimentadas como agradáveis ou associadas a sentimentos de felicidade e onde há um equilíbrio entre o afeto positivo e o afeto negativo (Kern & Wehmeyer, 2021). O conceito de florescimento é entendido como a procura de uma vida autêntica que visa alcançar os níveis mais elevados possíveis de bem-estar hedónico, ou seja, sentir-se bem e eudaimónico, ou seja, funcionar eficazmente (Huppert & So, 2013). Assim o florescimento pode ser interpretado como a conquista de um estado em que todos os aspetos da vida são favoráveis, incluindo o contexto em que o indivíduo está inserido, enquanto o bemestar depreende alcançar um estado em que todos os aspetos da vida de uma pessoa são positivos independentemente dos contextos (VanderWeele et al., 2022). 4. A interação entre o aborrecimento e o florescimento nas experiências de lazer A Psicologia Positiva passou de uma perspetiva dicotomizada sobre o que é positivo e negativo para uma perspetiva integrada, onde positivo ou negativo passam a ser considerados em conjunto de forma a entender trajetórias de desenvolvimento ao longo da vida (Freire, 2018). Neste sentido, também o aborrecimento e florescimento parecem seguir sentidos opostos em relação às consequências desenvolvimentais, estando o aborrecimento mais relacionado a consequências negativas e o florescimento a consequências positivas. Contudo, tendo por base uma perspetiva ecológica e o modelo conceptual em estudo podemos considerar o florescimento e o aborrecimento como duas experiências relacionadas e integradas em busca do caminho para as experiências ótimas de lazer. O lazer integra tanto experiências positivas como negativas, assim é necessário entender como o florescimento e o aborrecimento se comportam e entender que estas podem coexistir ou surgir de forma alternada resultando em diferentes experiências de lazer. Considerando ambos os constructos ao nível experiencial, a presença e a intensidade, ou seja, o florescimento baixo-alto e o aborrecimento baixo-alto, poderá traduzir-se numa experiência de lazer diferente tal como preconizado pelo modelo de Freire e colaboradores (2021).
15 Figura 1. A Experiência Ótima de Lazer: interação entre o florescimento e o aborrecimento Deste modo, o modelo de Freire e colaboradores (2021) apresenta quatro estilos de experiências, sendo estas a experiência de lazer de apatia, experiência de lazer de risco, experiência ótima de lazer e experiência de lazer de desafio, que serão definidas de seguida. Estes quatros estilos de experiências constituem as variáveis dependentes do estudo. 4.1 Experiência Ótima de Lazer A experiência ótima de lazer é definida como uma experiência na qual existe um nível de florescimento alto e um nível de aborrecimento baixo, sendo este o nível mais alto de qualidade de experiência de lazer que se pode alcançar. Neste tipo de experiência de lazer os indivíduos revelam sentimentos de eficácia, satisfação e significado (Freire et al., 2021). Durante as atividades de lazer, os jovens têm oportunidades de serem bons e/ou sentirem-se bem em alguma coisa, podendo ainda desenvolver as suas competências (Fredricks et al 2002). A consciência de oportunidades de lazer está associada à satisfação no lazer e a níveis mais baixos de aborrecimento (Barnett, 2005). Neste tipo de experiência de lazer está associada uma alta satisfação e motivação, atitudes, sentimentos e emoções positivas (afeto positivo)(Freire & Fonte, 2007). 4.2 Experiência de Lazer de Risco Quando o nível florescimento é baixo, mas existem altos níveis de aborrecimento, estamos perante uma experiência de lazer de risco. Esse tipo de experiência é o oposto da experiência ótima de lazer, podendo traduzir-se numa experiência de desenvolvimento negativa, uma vez que, nesta experiência de lazer os jovens podem envolver-se em comportamentos delinquentes e de risco, como o
16 consumo de substâncias e relatar sentimentos e emoções negativas (afeto negativo) (Spruyt et al., 2018; Weybright, et al., 2020). Neste tipo de experiência não há satisfação durante as atividades de lazer e o alto nível de aborrecimento pode ser entendido como um indicador da insatisfação do indivíduo na forma como ocupa o seu tempo. O desafio e o significado no decorrer desta experiência são ainda insuficientes (Spruyt et al., 2018; Weybright, et al., 2020, Schwartze et al., 2021). Este tipo de experiência pode ainda ser definido como uma consequência provável de perceções conflitantes e sentimentos de desconforto entre ter muito tempo disponível e muito pouco para fazer (Barnett, 2005; Leung, 2015). 4.3 Experiência de Lazer de Desafio O alto florescimento pode ocorrer com altos níveis de aborrecimento, levando ao aparecimento da experiência de lazer de desafio (Freire et al., 2021). Neste caso, os jovens procuram ativamente novas atividades de lazer entrando na criatividade e na novidade de forma a escapar ao aborrecimento sentido (Caldwell & Faulk, 2013). Os adultos emergentes podem ainda envolver-se em experiências de lazer desafiantes como forma de autodescoberta e autoaperfeiçoamento (Hartman & Anderson, 2021).Esse processo facilita o processo de florescimento, evitando um estado negativo permanente de aborrecimento (Freire et al., 2021). O desafio é uma dimensão que tem sido apontada como uma das qualidades salientes de muitas experiências de lazer, a procura do desafio funciona como fator motivador que permite manter o interesse contínuo (Barnett, 2005). Assim, neste tipo de experiência existem altos níveis de desafio e de motivação associados. 4.4 Experiência de Lazer de Apatia Por fim, experiência de lazer de apatia resulta de níveis baixos de florescimento e de aborrecimento. Esta experiência será o oposto da experiência de lazer de desafio. Nesta experiência os indivíduos relatam desconexão, ou indiferença e desmotivação para o lazer, o que faz com que não se consigam envolver de forma significativa nas atividades de lazer e retirar os benefícios das mesmas, o que se traduz pelo baixo florescimento (Freire et al., 2021). 5. Objetivos Tendo em conta a revisão de literatura apresentada podemos definir que o objetivo principal desta investigação é testar o modelo conceptual proposto por Freire e colaboradores (2021) que cruza o florescimento e o aborrecimento para entender a experiência ótima de lazer. Mais especificamente este
17 estudo pretende caracterizar e compreender as condições ótimas de lazer nos adultos emergentes, explorando como as variáveis florescimento e aborrecimento podem afetar esta experiência. Assim, irá ser verificado como as quatro experiências de lazer que são propostas no modelo conceptual: a experiência ótima de lazer, a experiência de lazer de risco, a experiência de lazer de desafio e a experiência de lazer de apatia se relacionam com o nível alto ou baixo de florescimento e de aborrecimento. Pretende-se ainda caracterizar estas experiências de lazer relativamente aos níveis de satisfação no lazer, atitudes face ao lazer, motivação no lazer e ao afeto positivo e negativo, verificando se existem diferenças entre elas ao nível destas variáveis. Método O presente estudo adota uma metodologia quantitativa com um desenho de investigação transversal. Assim sendo, a recolha de dados é efetuada num momento único no tempo, permitindo a realização de análises ao nível inter-sujeitos. Com base no modelo conceptual, apresentam-se as seguintes hipóteses: H1: Jovens que relatam níveis mais elevados de florescimento e níveis mais baixos de aborrecimento terão maior probabilidade de ter experiências ótimas de lazer. H2: Jovens que relatam níveis mais baixos de florescimento e níveis mais altos de aborrecimento terão maior probabilidade de ter experiências de lazer de risco. H3: Jovens que relatam níveis mais baixos de florescimento e de aborrecimento terão maior probabilidade de ter experiências de lazer de apatia. H4: Jovens que relatam níveis mais elevados de florescimento e de aborrecimento terão maior probabilidade de ter experiências de lazer de desafio. H5: Jovens que tenham experiências ótimas de lazer relatam níveis mais elevados de satisfação no lazer, motivação para o lazer, atitudes face ao lazer e de afeto positivo. H6: Jovens que tenham experiências de lazer de risco relatam níveis mais baixos de satisfação no lazer e mais elevados de afeto negativo. H7: Jovens que tenham experiências de lazer de desafio relatam níveis mais altos de motivação para o lazer. H8: Jovens que tenham experiências de lazer de apatia relatam níveis mais baixos de motivação para o lazer. 1. Participantes O estudo foi realizado em formato online, através da plataforma Qualtrics , no qual foi divulgado um link de acesso ao mesmo. A amostra é formada por 150 participantes, dos quais 41 são do sexo masculino e 109 do sexo feminino, com idades compreendidas entre os 18 e os 25 anos ( M =21.3, DP =2.12), estudantes de diversos cursos e de diversas universidades, predominantemente da
18 Universidade do Minho (57%), com os restantes participantes a representarem 29 instituições de ensino superior (43%). 2. Instrumentos/medidas Questionário Sociodemográfico: com perguntas acerca do sexo, idade, ano, curso e universidade que frequenta. Foram também incluídas neste questionário duas questões relacionadas com o lazer: i) Defina numa palavra o que é para si o lazer ii) Avalie a resposta anterior numa escala de 1-5. A palavra enunciada tem uma conotação: 1-muito negativa, 2-negativa, 3nem positiva nem negativa, 4positiva, 5muito positiva. Escala de Propensão para o Aborrecimento foi desenvolvida por Farmer e Sundberg (1986) e validada para a população portuguesa por Martins (2012). Esta escala é composta por 30 itens. De forma a controlar tendências sistemáticas de resposta os itens 1, 7, 8, 11, 13, 15, 18, 22, 23 e 24 encontram-se invertidos. As respostas são dadas numa escala de Likert de 7 pontos (1=discordo totalmente) a 7=concordo totalmente). Quanto maior for a pontuação obtida, ou seja, quanto mais a média se aproxima de 7, maior a propensão para o aborrecimento do indivíduo. A escala validada para a população portuguesa apresentou uma boa consistência interna (α = .833) (Martins, 2012). No presente estudo a consistência interna também se verificou boa α = .854. Escala de Florescimento - versão portuguesa de Silva & Caetano (2013), originalmente desenvolvida por Diener et al., 2010. Esta escala avalia de forma geral o funcionamento psicológico, sendo composta por 8 itens formulados no sentido positivo e avaliados numa escala de 7 pontos, que varia entre “discordo completamente” a “concordo completamente”. A pontuação da escala é obtida através da média das pontuações, quanto mais próxima de 7 maiores os recursos psicológicos e melhor funcionamento psicológico do indivíduo (Diener et al., 2010). A escala original obteve uma boa consistência interna (α = .87). No presente estudo a consistência interna foi boa, com um α =.891. Escala de Satisfação no Lazer - é composta por 24 itens, com respostas classificadas numa escala de Likert de 5 pontos (1- “nunca verdadeiro” a 5- “sempre verdadeiro”). Esta escala foi formulada por Ragheb & Beard (1980) e a validação portuguesa foi realizada por Teixeira (2013).Valores elevados nos resultados correspondem a um nível mais elevado de satisfação com o lazer. Esta escala está dividida em seis dimensões da perceção de satisfação com o lazer, psicológica (itens 1 a 4), educacional (5-8); social (9-12); relaxamento (13-16); fisiológica (1720); e centrada no ambiente (21-24). O valor da escala total e subescalas é calculado a partir da média dos itens referidos anteriormente, quanto mais próxima de 5 for mais satisfação no lazer os indivíduos têm. Na versão validada para a população portuguesa o
19 coeficiente de alpha da escala total e subescalas demonstram uma boa consistência interna (Teixeira, 2013). No presente estudo a consistência interna para a escala total foi muito boa α=.926, na subescala psicológico a consistência interna foi boa (α =.839), na educacional a consistência foi razoável (α =.792), na social a consistência foi boa (α =.825), na do relaxamento também foi boa (α =.873), na fisiológica a consistência foi muito boa (α =.923) e por fim na ambiental foi boa (α =.823). Escala de Atitudes Face ao Lazer - versão Reduzida (EAFL) de Ragheb & Beard (1982) e validada para a população portuguesa por Teixeira & Freire (2013). É uma escala de autorrelato composta por 18 itens. A resposta aos itens é realizada através de uma escala de tipo likert que varia de 1-5. Esta escala é constituída por três subescalas: cognitiva (1-6), afetiva (7-12) e comportamental (13-18). A pontuação total obtém-se através da média das pontuações das respostas aos itens, tanto para a escala total, como para as subescalas. Os resultados elevados nesta escala e subescalas demonstram atitudes positivas face ao lazer. O coeficiente alpha de Cronbach para as subescalas varia entre .76 e .87 e para a escala total .88 (Teixeira & Freire, 2013). No presente estudo a consistência interna para a escala total foi boa (α =.887), na subescala cognitiva a consistência foi muito boa (α = .933), na afetiva a consistência foi boa (α =.880) e por fim na comportamental foi razoável (α =.741). Escala de Motivação para o Lazer originalmente desenvolvida por Ragheb & Beard, 1983 e validada por Teixeira (2013) é constituída por 32 itens, com resposta tipo Likert de 5 pontos (1 “nunca verdadeiro” a 5 “sempre verdadeiro”). A motivação para o lazer é avaliada em cinco dimensões: a intelectual (itens 1 a 8); a social (9-16); a competência (17-24); o evitamento de estímulo (25-32) e a procura de estímulo (1-24). A pontuação total da escala e das subescalas é obtida através da média, valores mais próximos de 5 revelam uma maior motivação para o lazer. Os coeficientes de alpha de Cronbach para a escala total é de .93 e das subescalas varia variando entre .82-.92, revelando uma boa consistência interna (Teixeira, 2013). No presente estudo a consistência interna da escala total foi muito boa (α =.917), na subescala intelectual a consistência interna foi boa (α = .873), na social a consistência foi muito boa (α =.911), na intelectual na social a consistência foi muito boa (α =.930), no evitamento ao estímulo foi boa (α =0.846) e por fim na procura de estímulo foi muito boa (α =.926). Escala de Afeto Positivo e Negativo – versão reduzida portuguesa (PANAS-VRP) foi traduzida e validada por Galinha & Ribeiro (2005) e originalmente desenvolvida por Watson e colaboradores (1988). Esta é uma escala de autorrelato composta por 10 itens e a resposta é dada através de uma escala tipo likert de 1-5 pontos que varia entre “nada ou muito ligeiramente” a “extremamente”. Este instrumento tem como objetivo avaliar o afeto positivo e negativo, sendo, desta forma, constituído por duas subescalas: o afeto positivo (“Interessado(a)”, “Entusiasmado(a)”, “Inspirado(a)”, “Ativo(a)” e
20 “Determinado(a)”) e o afeto negativo (“Nervoso(a)”, “Amedrontado(a)”, “Assustado(a)”, “Culpado(a)” e “Atormentado(a)”). O valor da escala é obtido através da média dos valores. O PANAS-VRP para a população portuguesa apresentou um valor de alpha de Cronbach igual a .86 na escala de afeto positivo e .89 na escala de afeto negativo (Galinha et al., 2014). No presente estudo a consistência interna foi boa tanto para a escala do afeto positivo α =.807, quanto para a escala do afeto negativo α =.868. 3. Procedimento Numa primeira fase, a investigação foi aprovada pela Comissão de Ética para as Ciências Sociais e Humanas da Universidade do Minho (CEICSH 019/2024). A recolha de dados foi realizada entre março e abril de 2024, através de um questionário que foi disponibilizado e respondido online, numa única vez, num link gerado na plataforma Qualtrics. Após os participantes acederem ao link foram sujeitos a um consentimento informado e só após aceitarem o mesmo seguiam para as fases seguintes, às quais corresponde o preenchimento dos seguintes instrumentos: questionário sociodemográfico, a Escala de Propensão para o Aborrecimento, a Escala de Florescimento, a Escala de Satisfação no Lazer, a Escala de Atitudes face ao Lazer, a Escala de Motivação no Lazer e a PANAS-VRP. A investigação foi divulgada através do email institucional da Universidade onde foi realizado o estudo e das redes sociais e contactos entre colegas. 4. Análises Estatísticas A análise dos resultados envolveu a realização de diferentes testes estatísticos de forma a se poder testar as hipóteses do presente estudo. Numa primeira fase, as análises estatísticas foram realizadas com recurso ao programa SPSS v.28, sendo que o nível de significância estatístico adotado foi de 5% ( =0.05). A análise exploratória de dados foi efetuada com a frequência absoluta (n) e relativa (%) para as variáveis qualitativas, e com a média ( M ), desvio-padrão ( DP ), valores mínimos (Mín) e máximo (Máx) para as variáveis quantitativas, para além disto também foi realizada uma análise de correlação entre as escalas utilizando-se o teste de correlação de Pearson de forma a analisar as relações entre as variáveis do estudo. Numa segunda fase, a análise estatística dos dados e a construção dos gráficos foram realizadas utilizando a linguagem de programação R. Nesta análise, aplicou-se a classificação não supervisionada, particular designadamente o clustering usando o método k-means . Este método de classificação não supervisionada tem sido amplamente utilizado para tentar identificar grupos de unidades estatísticas semelhantes com base em certas variáveis estudadas (Wu, 2012). Os clusters foram formados utilizando os construtos Florescimento (EFL) e Propensão para o Aborrecimento (EPA). O método k-means foi
21 aplicado com o número de clusters igual a 4. Este número foi escolhido com base em pesquisas anteriores. Cada observação foi atribuída a um dos quatro clusters , permitindo identificar agrupamentos distintos dentro dos dados. Os clusters resultantes foram visualizados usando um gráfico de dispersão, onde cada ponto representa uma observação colorida de acordo com o cluster a que pertence. As diferenças entre os clusters ao nível da satisfação no lazer (ESL), das atitudes face ao lazer (EAFL), da motivação no lazer (EML), do afeto positivo (PANAS+) e do afeto negativo (PANAS-) foram avaliadas recorrendo ao teste de Kruskal-Wallis , seguido da análise post-hoc com o teste de Wilcoxon signed rank . Resultados Descritivas Da análise das respostas dos participantes quanto à definição de lazer numa palavra e à respetiva conotação atribuída, os resultados mostram que a maioria dos participantes relaciona o lazer com diversão (19.2%), descanso (17.9%), relaxar (13.2%) e prazer (6.6%). Para a maior parte dos participantes, a conotação da palavra escolhida para definir lazer é “muito positiva” (65.6%), seguindo-se “positiva” (29.8%). A Tabela 1 apresenta a média, desvio-padrão, valores mínimo e máximo das escalas e subescalas em estudo. Os resultados mostram que os participantes apresentam médias moderadas no afeto negativo e na propensão para o aborrecimento e elevadas nas atitudes face ao lazer, na satisfação no lazer e na motivação para o lazer. Tabela 1 Média, desvio-padrão, valores mínimo e máximo das escalas em estudo (n=150) Escalas M DP Mín Máx Atitudes face ao lazer Cognitiva 4.58 0.55 1 5 Afetiva 4.17 0.59 1 5 Comportamental 3.44 0.59 1 5 EAFL (Total) 4.06 0.47 1 5 Motivação para o lazer Intelectual 3.75 0.62 1 5
22 Social 3.21 0.82 1 5 Competência 3.54 0.81 1 5 Evitamento de Estímulo 3.88 0.66 1 5 Procura de Estímulo 3.50 0.59 1 5 EML (Total) 3.59 0.51 1 5 Satisfação no lazer Psicológico 3.84 0.66 1 5 Educacional 3.63 0.69 1 5 Social 3.57 0.74 1 5 Relaxamento 4.23 0.61 1 5 Fisiológica 3.24 0.95 1 5 Ambiental 3.41 0.70 1 5 ESL (Total) 3.65 0.53 1 5 Afeto PANAS (+) 3.59 0.63 1 5 PANAS (–) 2.59 0.94 1 5 Aborrecimento - EPA (Total) 3.51 0.76 1 7 Florescimento - EFL (Total) 5.46 0.97 1 7 Notas: EAFL: escala de atitudes face ao lazer; EML: escala de motivação para o lazer; ESL: escala de satisfação no lazer; PANAS (+): Afeto positivo; PANAS (-): Afeto negativo; EPA: escala de propensão para o aborrecimento; EFL: escala de florescimento; Min: mínimo; Máx: máximo; M : média; DP : desvio padrão. Correlações entre as variáveis em estudo A Tabela 2 apresenta a matriz de correlações de Pearson entre os totais das escalas em estudo. Apenas a correlação entre os resultados das escalas EAFL e ESL é de forte magnitude. As correlações de menor intensidade ocorrem com as escalas PANAS (–) e EPA, sendo que entre as restantes escalas as correlações são de moderada magnitude. A maior parte das correlações tem orientação positiva e são estatisticamente significativas, contudo, algumas correlações são negativas, na sua maioria com uma magnitude fraca. De destacar, a escala EPA com correlações positivas e estatisticamente significativas com a escala PANAS(-) e negativa com PANAS (+), EFL, ESL. Já relativamente à escala EFL esta
23 apresenta correlação positiva e estatisticamente significativa com as escalas EAFL, EML, ESL, PANAS (+), e negativa com PANAS (-) e EPA. Tabela 2 Matriz de correlações entres os totais de cada escala em estudo (n=150) EAFL EML ESL PANAS + PANAS – EPA EFL EAFL --- 0.557** 0.756** 0.547** 0.040 -0.148 0.579** EML --- --- 0.662** 0.524** 0.001 0.015 0.466** ESL --- --- --- 0.608** -0.052 -0.195* 0.599** PANAS + --- --- --- --- 0.100 0.256** 0.619** PANAS – --- --- --- --- --- 0.378** -0.199* EPA --- --- --- --- --- --- -0.502** EFL --- --- --- --- --- --- --- Notas :** p<0.01 * p<0.05; EAFL: escala de atitudes face ao lazer; EML: escala de motivação para o lazer; ESL: escala de satisfação no lazer; PANAS (+): Afeto positivo; PANAS (-): Afeto negativo; EPA: escala de propensão para o aborrecimento; EFL: escala de florescimento Analise de Clusters Os clusters foram formados utilizando os construtos de Florescimento e Aborrecimento representados na Figura 2. O método k-means foi aplicado com o número de clusters igual a 4. O Cluster 1 (n=33) , representado na cor vermelha (Figura 2), apresenta alto florescimento ( M= 5,36) e médio/alto aborrecimento ( M= 4,32), correspondendo ao quadrante da Experiência de Lazer de Desfio do modelo conceptual apresentado previamente (Figura 1). O Cluster 2 (n=36) , representado na cor verde, apresenta alto florescimento ( M= 6,53) e baixo aborrecimento ( M= 2,75) correspondendo ao quadrante da Experiência Ótima de Lazer do modelo. O Cluster 3 (n=57) , representado na cor azul, apresenta alto florescimento ( M= 5,53) e médio aborrecimento ( M= 3,23), não corresponde a nenhum quadrante do modelo conceptual. O Cluster 4 (n=24) , representado na cor lilás, apresenta baixo/médio florescimento ( M= 3,97) e médio/alto aborrecimento ( M= 4,24), correspondendo ao quadrante da Experiência de Lazer de Risco do modelo conceptual.
30 diminuam o aborrecimento dos mesmos. Ainda assim, vale destacar que o aborrecimento também pôde ter um impacto positivo, uma vez que, pode levar a ação e a busca de estímulo, desta forma, mais do que adotarmos uma perspetiva de eliminar o aborrecimento e promover o florescimento devemos tentar a integrar ambas as experiências tentando alcançar um equilíbrio.
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