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8 Investigação-Ação e Análise de Redes. Uma Reflexão Sobre a Pluralidade Metodológica Paulo FErrEira & HElEna SouSa [email protected]; [email protected] Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade, Instituto de Ciências Sociais, Universidade do Minho, Braga, Portugal Resumo Este artigo procura discutir as vantagens de um desenho metodológico que, recorrendo a metodologias mistas, permita perceber a forma como as desigualdades sociais desequilibram as relações de poder entre plataformas e utilizadores, designadamente aqueles que pertencem a comunidades vulneráveis. Vemos na junção entre a “epistemologia da prática” (investigação- -ação) e a escalpelização das interações sociais que ocorrem nos média sociais (análise de redes) um modo eficaz de incentivar o agenciamento dos atores sociais alvo da incivilidade digital. Colocar as ideias em ação, avaliar os desequilíbrios nas relações de poder causadas pelas desigualdades sociais e acentuar a dimensão politicamente implicada da investigação: eis os motivos por que a pluralidade metodológica suscita reflexão. Palavras-chave média sociais; investigação-ação; análise de redes; comunidades vulneráveis
9 Investigação-Ação e Análise de Redes. Uma Reflexão Sobre a Pluralidade Metodológica Paulo Ferreira & Helena Sousa introdução: daS margEnS ao CEntro Interface cujo poder e alcance não tem precedente histórico, os média sociais1 suscitaram o aparecimento de uma espécie de “lei da complexidade crescente”: ao mesmo tempo que se alarga até ao infinito a proliferação de vozes, as falas das populações desfavorecidas são empurradas para as margens e crescentemente visadas (Bem-David & Matamoros-Fernández, 2016; Cohen-Almagor, 2011; Silva, 2021; Tontodimamma et al., 2021) por uma espécie de veneno de ação lenta (Waldron, 2012), a que convencionou chamar- -se “discurso de ódio”2. Acresce que o que acontece nas redes não permanece nas redes: vagueia pelas infraestruturas eletrónicas, numa travessia com escassas barreiras regulatórias e formatada por insondáveis algoritmos que, a partir do passado, determinam apenas o presente, nunca o futuro. Incontornáveis produtores do “social”, os média sociais colocam, por isso, importantes desafios à democracia, desde logo por tocarem em vários dos seus pilares básicos: robustez do espaço público, liberdade de expressão, respeito pelos direitos dos outros, defesa das populações mais vulneráveis, intromissão da tecnologia nas nossas liberdades, desequilíbrio das relações de poder entre quem pode muito (as plataformas) e quem pouco pode (o cidadão). Interessa, portanto, no caso das comunidades mais expostas a uma crescente vulnerabilidade (e incivilidade) digital, procurar o tipo de cruzamento metodológico adequado ao entendimento de como é que as coisas acontecem, maneira de ultrapassarmos a tentação de apenas descrevermos o que está a acontecer. 1 Redes sociais podem referir-se tanto “às interações de natureza online como as baseadas na experiência observada do quotidiano. A explicação para a visão tecnicista do conceito de redes advém principalmente do facto de que, ao falar-se em redes sociais, muitos são levados a crer que estamos a falar de plataformas como Facebook, Twitter, Instagram e, por isso mesmo, atribuem uma conotação mais voltada para a tecnologia do que aquela que o termo realmente indica” (Conrado Filho & Santos, 2018, p. 184). Por isso, para ultrapassar eventuais equívocos, usaremos a expressão “média social” sempre que nos referirmos às redes sociais online. 2 Usada pela primeira vez por Mari Matsuda (1989), no seu artigo seminal “Public Response to Racist Speech: Considering the Victim’s Story” (Reação do Público a Discursos Racistas: Considerando a História da Vítima), a expressão “discurso de ódio” permanece um conceito equívoco, para o que concorre decisivamente o delicado equilíbrio entre a liberdade de expressão e a garantia dos mais básicos direitos nas sociedades democráticas. A Comissão Europeia Contra o Racismo e a Intolerância define-o assim: “o uso de um ou mais modos particulares de expressão – nomeadamente, a defesa, a promoção, ou o incitamento à discriminação, ódio ou desrespeito a uma pessoa ou grupo de pessoas, assim como qualquer forma de assédio, insulto, estereótipo, estigmatização ou ameaça a essa pessoa ou grupo de pessoas – que sejam baseados numa lista não exaustiva de características pessoais ou estatutos que incluem ‘raça’, cor, língua, religião ou crença, nacionalidade ou origem étnica ou nacional, bem como ascendência, idade, deficiência, sexo, género, identidade de género e orientação sexual” (European Commission against Racism and Intolerance, 2016, p. 16).
10 Investigação-Ação e Análise de Redes. Uma Reflexão Sobre a Pluralidade Metodológica Paulo Ferreira & Helena Sousa Os escassos cruzamentos referenciais entre a investigação-ação (I-A) e a análise de redes (AR) não eliminam, antes incentivam, o avanço para uma reflexão robusta sobre as vantagens de um desenho metodológico plural aplicado ao estudo das relações/desequilíbrios de poder entre os omnipresentes média sociais e as comunidades vulneráveis. Aparentemente distantes (a I-A tende a colocar o foco em investigações de pequena escala, recorrendo tradicionalmente a métodos qualitativos; a AR, sustentada na análise de grandes quantidades de dados, prioriza o uso de métodos quantitativos), os dois eixos, se devidamente conjugados, podem ter a virtude de nos ajudar a trazer para o centro o que foi empurrado para as margens. Sabendo embora que as metodologias são (sempre) instrumentais, interessa-nos perceber se a pluralidade metodológica é o caminho mais adequado para entender o real alcance do que nos interessa estudar. A partir do campo de discussão a que alguns autores chamam de “humanidades digitais” (Arthur & Bode, 2014), resultado do computational turn3 das ciências sociais e do social turn das ciências da computação, procuramos sublinhar o que, parecendo uma verdade insofismável, é tantas vezes esquecido: a ciência existe para provocar mudança social, ou, no mínimo, para informar e capacitar aqueles que podem ser os atores dessa mudança, conferindo sempre predominância à prática, à participação e à reflexão crítica. Este texto está dividido em três partes. Depois de assinalarmos as principais características da I-A e da AR, proporemos, de seguida, um exercício prático em que emergem as vantagens da conjugação das duas metodologias. Concluiremos propondo o recurso às metodologias mistas enquanto (poderoso) instrumento para estudar em profundidade os modos mais adequados de trazer as comunidades vulneráveis para o centro das democracias deliberativas. invEStigação-ação: do nomE ao vErbo Na exata medida em que se aplica a vários contextos de investigação, a expressão “investigação-ação”, cunhada por Kurt Lewin (1946) no artigo seminal “Action Research and Minority Problems”4 (InvestigaçãoAção e Problemas das Minorias), é incompatível com uma definição unívoca e incontestada. Ainda assim, é possível apontar-lhe um conjunto de 3 O uso de rastreadores (crawlers), software para análise de redes, APIs (application programming interfaces) e outras ferramentas e técnicas digitais para a coleta e tratamento de dados são exemplos deste computational turn (Lomborg & Bechmann, 2014). 4 Nos documentos escritos entre 1944 e 1946, Lewin já expressava uma profunda preocupação com a urgência em encontrar métodos científicos capazes de lidar com problemas sociais críticos como o fascismo, o antissemitismo, a pobreza, os conflitos intergrupais e as comunidades minoritárias (Susman & Evered, 1978).
11 Investigação-Ação e Análise de Redes. Uma Reflexão Sobre a Pluralidade Metodológica Paulo Ferreira & Helena Sousa características próprias: toda a I-A deve ser situacional (procura diagnosticar e solucionar um problema num contexto social específico), interventiva (age-se para mudar o status quo), participativa (baseia-se num processo de cocriação em que os intervenientes participam ativamente na investigação) e autoavaliativa (o movimento da investigação faz-se em espiral: as alterações detetadas em cada ciclo vão sendo avaliadas, de modo a informar e/ou alterar o rumo do projeto). Trata-se, portanto, de tirar uma primeira “fotografia” ao problema social sob investigação para, no final, percorridas todas as etapas do percurso, voltar a “fotografá-lo”, assinalando as diferenças entre os dois momentos e os resultados alcançados (mudanças sociais ocorridas). Resumidamente, o “pai-fundador” da I-A entendia esta abordagem metodológica como “uma investigação comparativa sobre as condições e efeitos de várias formas de ação social” (Lewin, 1946, pp. 202–203), que justamente reclamam a concretização de um conjunto de atividades conducentes à mudança. McNiff e Whitehead (2017) põem a questão nestes termos: olhando para o problema a partir de fora, o investigador “tradicional” tende a perguntar: “o que estão aquelas pessoas a fazer? Como devemos entender e explicar o que estão a fazer?”. Ao invés, na I-A, os investigadores veem-se como parte do contexto que estudam e, nessa medida, perguntam-se: “está o meu/ nosso trabalho a decorrer como previ/mos? Como o podemos melhorar, se necessário?”. O tipo de teoria que produzem é dinâmico, incremental e comunicado através de ações e palavras. Fazedores (Brydon-Miller et al., 2003), os investigadores entram num processo de aprendizagem contínuo em que adquirem e partilham o conhecimento alcançado com aqueles que dele podem beneficiar (Koshy et al., 2011). Não se trata de projetos bicéfalos, mas sim de conjugar/congregar duas ordens de preocupações e, muitas vezes, de agentes/atores. Assim, “a orientação de um projeto de I-A implica entrosar metodologias de investigação com praxologias de ação, sem esquecer a viabilidade da execução do projeto no seu conjunto, tendo em conta as contingências e constrangimentos inerentes a qualquer intervenção” (Almeida, 2001, p. 176). Na verdade, se as práticas sociais resultam da interação entre as pessoas, então a sua alteração é sempre um processo social que, tendo a I-A como pano de fundo, resulta de uma aprendizagem colaborativa feita por grupos de pessoas que decidem juntar-se para alterarem essas mesmas práticas. Estamos perante um processo de aprendizagem cujos frutos são alterações reais e materiais nos seguintes aspetos: o que as pessoas fazem;
12 Investigação-Ação e Análise de Redes. Uma Reflexão Sobre a Pluralidade Metodológica Paulo Ferreira & Helena Sousa como interagem com o mundo e com os outros; o que querem dizer e o que valorizam; os discursos através dos quais percebem e interpretam o mundo. (Kemmis & McTaggart, 2005, p. 279) O pessoal é político, portanto. Latorre (2005), por seu turno, centra o propósito da I-A não tanto na produção de conhecimento, mas antes na capacidade para interrogar as práticas sociais e os valores que as enformam. Usado devidamente, este poderoso instrumento permite reconstruir práticas e discursos, empoderando dessa forma os atores que participem no projeto de investigação. “A investigação-ação não é bem investigação nem ação, nem a interseção de ambas, mas antes o ciclo recursivo e retroativo da investigação e da ação” (Latorre, 2005, p. 27). Uma espécie de “vaivém” entre investigação e ação (a chamada “espiral dialética”), em que ambos os momentos se integram e/ou complementam. O processo é flexível e interativo em todas as fases do ciclo. Daqui nasce a necessidade de entabular um diálogo permanente entre o chão teórico e a ação concreta, uma espiral em que ação e reflexão se complementam num processo sequencial: planificação, ação, observação, avaliação e reflexão. Ou, como explica Rapoport (1970), naquela que é uma das definições mais citadas na literatura sobre a matéria, a I-A “visa contribuir tanto para as preocupações práticas das pessoas numa situação problemática imediata, como para os objetivos das ciências sociais, através da colaboração conjunta dentro de um quadro ético mutuamente aceitável” (p. 499). Na verdade, a I-A “não começa com o desejo de mudar os outros ‘lá fora’, embora possa eventualmente ter esse resultado; em vez disso, começa a partir de uma orientação para uma mudança com os outros” (Reason & Bradbury, 2008, p. 1). Tal orientação assenta, segundo os mesmos autores, em cinco estacas, a saber: • Um conjunto de práticas que respondem ao desejo das pessoas de agir criativamente diante de questões práticas e prementes suscitadas pelas organizações e comunidades em que trabalham e vivem; • Um apelo ao envolvimento das pessoas em relações de colaboração, abrindo novos espaços de comunicação em que o diálogo e o desenvolvimento devem florescer; • A aquisição de múltiplas formas de conhecimento, resultantes das evidências geradas pela investigação e pela sua disseminação junto de públicos mais amplos;
13 Investigação-Ação e Análise de Redes. Uma Reflexão Sobre a Pluralidade Metodológica Paulo Ferreira & Helena Sousa • A aposta nos valores, abordando questões de real importância para as pessoas, para as comunidades e para o ecossistema social em que participam; e • Um processo ativo que não pode ser predeterminado, mas que muda e se fortalece à medida que os envolvidos aprofundam a compreensão das questões abordadas e desenvolvem capacidades enquanto “coinvestigadores”, individual e coletivamente considerados. Ação e reflexão. Teoria e prática. Participação com os outros. Busca de soluções práticas. Empoderamento de indivíduos e comunidades. A I-A não é um nome — é um verbo. análiSE dE rEdES: do ContEúdo àS PESSoaS Talvez nunca como hoje tenhamos ouvido falar de forma tão constante, ubíqua quase, de redes sociais. Há para isso várias explicações, mas uma destaca-se: uma fatia bastante generosa do poder5 já não se encontra nos Estados, nas instituições que compõem a estrutura social e nas grandes corporações. Está nas redes sociais. Essa circunstância, que corre a par com o desmembramento da esfera pública tal como a conhecíamos, reclama um olhar atento sobre a estrutura das relações sociais em que a nova sociabilidade se constrói. É esse o fito da AR: descortinar os atores e as relações que entre eles se estabelecem num contexto social específico (Serrat, 2017), desde os conhecimentos casuais até aos laços mais estreitos. Trata-se de mapear e medir as relações formais e informais para perceber o que facilita, ou impede, a existência de circuitos de conhecimento que ligam unidades em interação: quem conhece quem, quem partilha com quem que tipo de informação e através de que meio de comunicação? Estamos perante uma espécie de raio-x em que, através dos conteúdos, procuramos as pessoas. Serrat (2017) assinala que uma rede social é constituída por nós de indivíduos, grupos, organizações e sistemas relacionados que se entrelaçam através de um ou mais tipos de interdependência, sejam eles valores partilhados, visões e ideias, contactos sociais, parentesco, conflito, transações comerciais, trocas, associação conjunta em organizações, participações de grupos em eventos, entre inúmeros outros aspetos das relações humanas. (p. 39) 5 Aderimos aqui ao conceito weberiano: tem poder quem é capaz de impor a sua vontade aos demais, seja pela força física, estatal, legal ou simplesmente pela autoridade que possui (Moreira, 1989).
14 Investigação-Ação e Análise de Redes. Uma Reflexão Sobre a Pluralidade Metodológica Paulo Ferreira & Helena Sousa A força deste instrumento metodológico está na construção empírica, quantitativa e qualitativa, que permite verificar padrões de comportamento (e teorizar sobre eles) a partir da observação sistemática dos fenómenos que nos propomos estudar. “Estudar redes sociais é estudar os padrões de conexões expressos no ciberespaço. É explorar uma metáfora estrutural para compreender elementos dinâmicos e de composição dos grupos sociais” (Recuero, 2011, pp. 21–22). Na verdade, não trabalhamos com atores sociais de carne e osso, mas com uma espécie de avatares que se apresentam através de tweets, perfis, weblogs… Trabalhamos com representações de atores sociais em espaços de interação, que são sempre lugares de fala, onde se expressam elementos constitutivos de personalidades e identidades, tantas vezes insuflados pelo “imperativo de visibilidade” (Sibilia, 2003, p. 5), reclamado por uma sociedade em que só existe quem aparece. “Por não ser exclusivamente um método, mas uma abordagem na visão dos grupos sociais, a opção pela análise de redes sociais pressupõe a perceção do grupo social como uma rede” (Recuero, 2017, p. 9), sendo que a posição “atores” é, simultaneamente, produto e produtora de interações. Quer dizer: a rede6 influencia e é influenciada pela posição dos seus usuários. É por isso que, para se entender a dinâmica dos grupos, o foco é colocado na estrutura social. A observação dos atores e do modo como interagem ajuda a entender não apenas o tipo de relações e de laços sociais que estruturam o grupo, mas também que posição (mais ou menos relevante, mais ou menos influente) tem cada um dos elementos dentro desse mesmo grupo. Sendo embora verdade que da AR resulta apenas uma fotografia da rede, tirada num determinado momento, não é menos certo que a soma de várias fotografias permite retratar a dinâmica da estrutura que queremos analisar. Num momento em que a aceleração dos fluxos comunicacionais, tributária da complexificação do nosso entorno social, transforma os objetos de estudo em verdadeiros alvos em permanente evolução e movimento7, poder 6 Jacob Moreno, “pai” da sociometria, foi o primeiro autor a usar, na década de 30 do século passado, o termo “redes” no livro Who Shall Survive (Quem Sobreviverá), para com isso se referir às redes de relações interpessoais entre indivíduos. Para o desenvolvimento da análise de redes foram igualmente decisivos os contributos do antropólogo Radcliffe-Brown (Scott, 1991/2000). 7 Em tempo: Amazon, Twitter, HP e Meta (dona do WhatsApp, Facebook e Instagram) anunciaram o despedimento de milhares de engenheiros de uma só vez. Só no mês de novembro de 2022, mais de 45.000 profissionais de tecnologia perderam o trabalho. “Novembro foi o pior mês de sempre até agora” (Pequenino, 2022, para. 4), partilhou com o jornal Público o programador Roger Lee, matemático de formação e criador do site Layoffs.fyi, que monitoriza despedimentos coletivos de tecnológicas globais. Na verdade, as últimas informações sobre as chamadas “big tech” não permitem ainda perceber se estamos perante uma revolução das plataformas ou uma revolução nas plataformas. Certo é que também este “alvo” está em permanente movimento.
15 Investigação-Ação e Análise de Redes. Uma Reflexão Sobre a Pluralidade Metodológica Paulo Ferreira & Helena Sousa contar com uma ferramenta de caráter tipicamente empírico é, do ponto de vista metodológico, bastante útil. Inicialmente aplicada ao estudo de pequenos grupos, a AR socorreu- -se, mais recentemente, das novas ferramentas digitais de comunicação e dos métodos computacionais cada vez mais apurados para alargar a pesquisa a grandes grupos, dando dessa forma o empurrão inicial ao já referido computational turn das ciências sociais. Interessa termos sempre presente que redes sociais e sites de redes sociais não são uma e a mesma coisa. Enquanto uma rede social “está relacionada com a perceção de um grupo social determinado pela sua estrutura (a ‘rede’), que é geralmente oculta, pois só está manifesta nas interações, as ferramentas sociais na internet são capazes de publicitar e influenciar essas estruturas sociais” (Recuero, 2017, p. 12). O Facebook, por exemplo, não tem redes sociais. Mas o modo como os utilizadores o usam, permite descobrir redes que existem ou se baseiam em estruturas sociais entretanto criadas por essas mesmas pessoas. São os utilizadores, portanto, que criam as redes posteriormente exibidas — e apropriadas — pelo Facebook. Para definir barreiras, Boyd e Ellison (2007) criaram o conceito de “site de rede social”, apontando-lhe três caraterísticas: possibilita aos usuários a criação de perfis públicos ou semipúblicos; facilita a conexão entre atores; e permite que os atores possam visualizar e/ou navegar por entre as conexões criadas. “O site de rede social é, assim, diferente da rede social, pois aquele representa esta” (Recuero, 2017, p. 13). Para o que aqui nos ocupa, interessa ter em conta, seguindo o conceito de “públicos em rede” de Boyd e Ellison (2010), as quatro mais salientes caraterísticas dos sites de redes sociais: a persistência (os conteúdos permanecem acessíveis por tempo indeterminado); a replicabilidade (estando muito tempo online, as interações entre utilizadores podem ser replicadas vezes sem conta); a escalabilidade (justamente por serem replicados, os conteúdos conseguem tornar-se virais); e a rastreabilidade (estando, potencialmente, em todo o lado e a todo o tempo, as interações podem ser captadas com bastante facilidade). Sendo as comunidades vulneráveis o foco deste texto, percebemos com relativa facilidade a importância destas caraterísticas estruturais, que, de resto, são decisivas para analisarmos as redes sociais. A título de exemplo: como circula a informação e quais são os atores mais influentes dentro de um determinado grupo que, recorrendo a uma dada rede social, propaga discursos de ódio visando comunidades vulneráveis?
16 Investigação-Ação e Análise de Redes. Uma Reflexão Sobre a Pluralidade Metodológica Paulo Ferreira & Helena Sousa Antes de avançarmos para qualquer tipo de análise de redes é fundamental assegurar a sua exequibilidade, tendo, por um lado, a certeza de que “o objeto pode ser mapeado e compreender como essa estrutura será ‘vista’ (ou seja, quais serão os nós8 e conexões da rede9)” e, por outro lado, que “o estudo em questão [se] foque em dados que possam ser acedidos pelo pesquisador” (Recuero, 2017, p. 17). É que grandes quantidades de dados não significam, por si só, melhores dados (Bruns, 2018; Bruns & Burgess, 2016). da tEoria à rEalidadE Para percebermos as potencialidades do cruzamento entre a I-A e a AR, propomos aqui um (curto) exercício prático. Suponhamos que, a partir da crescente e incontornável importância dos média sociais no nosso quotidiano, pretendemos interrogar as causas e os efeitos do desequilíbrio nas relações de poder entre as plataformas e os utilizadores que pertencem à comunidade LGBT. Como combinar as duas metodologias? Que resultados podemos esperar? É (quase) consensual, entre os vários autores com trabalho no campo da I-A, a circunstância de o trabalho se desenvolver em espiral. Ainda assim, são de índole vária os modelos possíveis. Latorre (2005) faz deles um profícuo resumo. Para este exercício, optámos pelo modelo de Susman e Evered (1978; Figura 1). No caso das plataformas, tomámos o Twitter10 como exemplo. 8 Todas as redes sociais são constituídas por nós que podem representar um indivíduo ou grupos de indivíduos. 9 As conexões, também chamadas de “arcos”, permitem perceber que tipo de relação social (interação, amizade, conversa, pertencimento) existe entre os nós. Em certo sentido, as conexões são o principal foco do estudo das redes sociais, na medida em que é a sua variabilidade que determina as estruturas dos grupos. 10 No projeto de investigação que temos em curso, no âmbito do doutoramento em ciências da comunicação, recorremos ao método de amostragem “bola de neve”, para saber em que rede social a comunidade LGBT portuguesa se move com mais frequência.
23 Investigação-Ação e Análise de Redes. Uma Reflexão Sobre a Pluralidade Metodológica Paulo Ferreira & Helena Sousa Reason, P., & Bradbury, H. (Eds.). (2008). The SAGE handbook of action research. Participative inquiry and practice. SAGE. Recuero, R. (2011). Redes sociais na internet. Sulina. Recuero, R. (2017). Introdução à análise de redes sociais na internet. EDUFBA. Scott, J. (2000). Social network analysis. A handbook. SAGE. (Trabalho original publicado em 1991) Serrat, O. (Ed.). (2017). Knowledge solutions. Springer. Sibilia, P. (2003). Os diários íntimos na internet e a crise da interioridade psicológica. In Anais do 12.º Encontro Anual da COMPÓS (pp. 1–11). Galoá. Silva, M. (Ed.). (2021). Discurso de ódio, jornalismo e participação das audiências. Almedina. Susman. G., & Evered, R. (1978). An assessement of the scientific methods of action research. Administrative Science Quarterly, 23(4), 582–603. https://doi. org/10.2307/2392581 Teddlie, C., & Tashakkori, A. (Eds.). (2003). Handbook of mixed methods in social and behavioural research. SAGE. Tontodimamma, A., Nissi, E., Sarra, A., & Fontanella, L. (2020). Thirty years of research into hate speech: Topics of interest and their evolution. Scientometrics, 126, 157–179. https://doi.org/10.1007/s11192-020-03737-6 Waldron, J. (2012). The harm in hate speech. Harvard University Press. Citação: Ferreira, P., & Sousa, H. (2023). Investigação-ação e análise de redes. Uma reflexão sobre a pluralidade metodológica. In E. C. e Silva, M. Laranjeira, P. Portela, & V. de Sousa (Eds.), Desafios metodológicos em ciências sociais. Atas das IX Jornadas Doutorais do CECS (pp. 8–23). CECS.