Origens dos conflitos na escola na perspectiva de uma comunidade
Abstract
Esta investigação escrutina as origens dos confl itos numa comunidade escolar de contexto angola-no. Com base nos objectivos fi xados, recorreu-se à metodologia qualitativa, tendo sido utilizadas entrevistas grupais semi-estruturadas, com a participação de 167 elementos dentre professores, alunos e familiares, cujos dados foram analisados através do método de análise de conteúdo assistido pelo Maxqda 12. A pesqui-sa revela que os confl itos mais relevantes naquela comunidade escolar relacionam-se com o não respeito das normas ético-deontológicas por parte dos docentes, com a indisciplina e má educação familiar dos alunos e com o não acompanhamento dos alunos por parte dos seus pais e encarregados da educação.
Full text
ORIGENS DOS CONFLITOS NA ESCOLA NA PERSPECTIVA DE UMA COMUNIDADE ESCOLAR ORIGINS OF CONFLICTS AT SCHOOL FROM THE PERSPECTIVE OF SCHOOL COMMUNITY ORÍGENES DE LOS CONFLICTOS EN LA ESCUELA EN LA PERSPECTIVA DE UNA COMUNIDAD ESCOLAR Ernesto Barros André http://orcid.org/0000-0002-6948-212X Anabel Moriña http://orcid.org/0000-0002-0852-7523 Resumo: Esta investigação escrutina as origens dos confl itos numa comunidade escolar de contexto angolano. Com base nos objectivos fi xados, recorreu-se à metodologia qualitativa, tendo sido utilizadas entrevistas grupais semi-estruturadas, com a participação de 167 elementos dentre professores, alunos e familiares, cujos dados foram analisados através do método de análise de conteúdo assistido pelo Maxqda 12. A pesquisa revela que os confl itos mais relevantes naquela comunidade escolar relacionam-se com o não respeito das normas ético-deontológicas por parte dos docentes, com a indisciplina e má educação familiar dos alunos e com o não acompanhamento dos alunos por parte dos seus pais e encarregados da educação. Palavras-chave: Confl itos; origem dos confl itos; comunidade escolar. Abstract: This research monitors the origins of confl icts in a school community of Angolan context. Based on the objectives set, resorted to the qualitative methodology, having been used semi-structured interviews group, with the participation of 167 elements among teachers, students and their families, whose data were analyzed using the method content analysis assisted by Maxqda 12. The survey reveals that the most signifi cant confl icts that school community relate to non-compliance with ethical conduct on the part of teachers, with the indiscipline and bad family education of students and with no monitoring of students by part of their parents. Keywords: Confl icts; origin of the confl ict; school community. Resumen: Esta investigación escudriña los orígenes de los confl ictos en una comunidad escolar de contexto angoleño. Con base en los objetivos fi jados, se recurrió a la metodologia cualitativa, habiendo sido utilizadas entrevistas grupales semiestructuradas, com la participación de 167 elementos entre profesores, alumnos y familiares, cuyos datos fueron analizados a través del método de análisis de contenido asistido por el Maxqda 12.La investigación revela que los confl ictos más relevantes en aquella comunidad escolar se relacionan
Origens dos conflitos na escola na perspectiva de uma comunidade escolar Cadernos de Pesquisa, São Luís, v. 28, n. 3, jul./set., 2021. Disponível em: http://www.periodicoseletronicos.ufma.br/index.php/cadernosdepesquisa 270 con el no respeto de las normas ético-deontológicas por parte de los docentes, con la indisciplina y mala educación familiar de los alumnos y con el no acompañamiento de los alumnos por parte de sus padres y los encargados de la educación. Palabras clave: Conflictos; origen de los conflictos; comunidad escolar. INTRODUÇÃO Nada mais é interessante que de conhecer a origem de um dilema para se encontrar caminhos de trilhar com ele. No caso dos conflitos, não sabendo lidar com eles para produção dos aspectos positivos que possam ser aproveitados na dinamização dos grupos, torna-se imprescindível conhecer a fonte para estancar os efeitos negativos decorrentes dessas situações. Nas suas diversas formas, eles são presentes na existência humana e provêem de muitas situações que podem ser intrínsecas ou extrínsecas ao indivíduo ou grupo de indivíduos cujas fontes principais numa comunidade escolar tal como definiu a Saiti (2014) implicam questões interpessoais e organizacionais. Apesar da existência de regras de convivência entre indivíduos e o aspecto organizacional regulamentado, os atropelos à regulamentação, conjugado com o aspecto de liberdade do homem, nascem os conflitos. Ainda nos grupos, a interacção entre indivíduos, a hierarquização dos órgãos e o posicionamento dos elementos, tem produzido os conflitos que podemos chamar de conflitos de status (BENDERSKY & HAYS, 2017) cujas razões e efeitos de contingência permanecem não claras (LEE, CHOI & KIM, 2018). A literatura existente retrata o conflito intragrupo nos aspectos produtivos, relacionais e nas implicações criativas do grupo (GROYSBERG, POLZER, & ELFENBEIN, 2011; PETIT, SAUER, & LOUNT, 2014; PETIT, DOYLE, & LOUNT, 2016). As ideias criativas dos membros do grupo devem ser partilhadas para a promoção da criatividade, no entanto o conflito de estatuto inibe essas ideias e torna-se um grande problema na promoção da criatividade da equipa de trabalho (CHEN, MADILVA, CAMPBELL-BUSH, WU, & WU, 2013). A luta pelo status tornou-se mais relevante na vida humana (CHENG, TRACY, & HENRICH, 2010) com considerações evolutivas na vida social (CHENG et al., 2010). Apesar da comunidade escolar formar um todo com as suas implicações e diferenças culturais e de interesse, ainda existem subgrupos com os mesmos problemas de diferenciação, de interesse e de hierarquização social producentes de conflitos na sua interacção. Considera-se que para além dos conflitos intragrupos ainda reservam-se os conflitos intergrupos ( LU, FUNG, DOOSJE, 2017) na defesa dos interesses dos diferentes grupos ou subgrupos, na importância de cada subgrupo em relação ao outro na comunidade, mesmo tendo em comum os mesmos objectivos com vias diferentes de alcançá-los. Por ser uma questão inerente à vida do próprio homem, o tema sobre os conflitos é muito abordado em todas esferas da convivência humana. Nas escolas o que mais atrai os investigadores, prende-se com a violência e o bullyng ( HOJBOTA et al., 2014; HYMEL, & SWEARER, 2015; KOH, & WONG, 2017) dos alunos, a indisciplina e outros comportamentos indecorosos na sala de aula (BAGNALL, & NAKAR, 2017; DUARTE, ESCARIO, &
Ernesto Barros André | Anabel Moriña 271 Cadernos de Pesquisa, São Luís, v. 28, n. 3, jul./set., 2021. Disponível em: http://www.periodicoseletronicos.ufma.br/index.php/cadernosdepesquisa SANAGUSTÍN, 2017; SERVOSS, 2017), as causas e o impacto dos conflitos nas escolas (OMISORE, & ABIODUN, 2014; VASQUEZ-SALGADA, GRENFIELD, & BURGOS-CIEN- FUEGOS, 2015; GOKSOY, & ARGON, 2016; NAIRZ-WIRTH, & FELDMAN, 2017; OZGAN, 2016), as estratégias de gestão e de resolução dos conflitos escolares (SAITI, 2014;SHAHMOHAMMADI, 2014; TITREK, MARAL, & KIZULKAYA, 2015; CARTON, 2016; DOGAN, 2016; WHITESIDE, 2016). Tratando-se de estudos inerentes à vida social humana, com nível do desenvolvimento cultural de Angola, trabalhos relacionados ao comportamento e atitudes belicosas encontrariam respaldo no nosso mosaico literário com uma base de dados garantida sobre os conflitos escolares. Todavia, nessa matéria e noutras de suma importância, nada se faz sentir. Iniciativas do género, despertam o interesse em trabalhar nos domínios da ciência para se alcançar uma análise profunda da situação em destaque e receber de outras pessoas várias contribuições que nos ajudariam a desenvolver a ciência no nosso contexto. As causas dos conflitos no ambiente escolar são bem conhecidas a julgar pela importância da literatura nessa matéria nos países com cultura científica desenvolvida. No entanto, as causas das causas que podemos considerar como fontes donde emanam as causas, em certos contextos, como o nosso, não são divulgados, suponho, por inexistência de pesquisas. Daí, o propósito de contribuir para um levantamento criterioso da origem dos conflitos escolares naquele estabelecimento de ensino, sem se esquecer de debelar algumas situações e os tipos de conflitos produzidos no sentido de irmos relacionando este surgimento de desavenças numa comunidade onde tudo se quer harmónico. Ou ainda, conhecendo as fontes principais dessas situações, facilmente uma proposta de gestão pode ser desencadeada para se alcançar êxitos, aproveitando os aspectos positivos dos conflitos para dinamizar a comunidade escolar. MÉTODO A nossa investigação tem como palco de realização uma escola secundária do I ciclo de contexto angolano, situado num dos Município do interior da Província de Cabinda, em referência o Buco-Zau. A mesma tem como finalidade de escrutinar a origem da realidade de uma situação educacional vivida todos os anos lectivos. OBJECTIVO E QUESTÕES DE INVESTIGAÇÃO As situações decorrentes a nível escolar são de particular interesse dos investigadores da educação. O ambiente escolar é digno de produzir as condições favoráveis para o processo docente-educativo todavia, sobressaem também as situações que influem negativamente sobre a produção dos saberes nas crianças. Desta feita, é de nosso interesse, desvendar a origem das situações conflituosas naquele estabelecimento de ensino partindo de três questões essenciais da pesquisa: • Quais são as situações identificadas como produtoras de conflitos naquela comunidade escolar?
Origens dos conflitos na escola na perspectiva de uma comunidade escolar Cadernos de Pesquisa, São Luís, v. 28, n. 3, jul./set., 2021. Disponível em: http://www.periodicoseletronicos.ufma.br/index.php/cadernosdepesquisa 272 • Que tipos de conflitos são produzidos? • Quais são as origens das situações conflituosas na escola em referência? PARTICIPANTES A nossa amostra intencional, seleccionada a partir de um questionário, se reagrupa em três subamostras representando os três subgrupos essenciais da comunidade escolar do centro em estudo, sendo professores alunos e familiares. Dos 167 elementos seleccionados, constituiu-se 24 grupos, sendo 8 grupos por cada subgrupo da comunidade escolar. INSTRUMENTOS DE RECOLHE DE DADOS As técnicas aplicadas neste estudo consistem na realização dos guiões de entrevistas semi-estruturadas para os três subgrupos a fim de uma análise profunda das situações conflituais vividas na escola entre professores, alunos e familiares, com a tipificação e escrutínio da origem das mesmas. Uma vez elaborados, os guiões foram submetidos à apreciação e aprovação dos espertos das áreas de pedagogia, sociologia e psicologia. ANÁLISE DE DADOS O sistema de categorias estabelecido, tal como proposto por Miles e Humberman (1994), é um instrumento que nos permitiu analisar estruturalmente as diferentes respostas, classificá-las e codificá-las para a obtenção da informação precisa. Este sistema foi assistido pelo programa MAXQDA, versão 12. Os códigos estabelecidos no sistema, foram reagrupados em 3 categorias, a saber: • Situações de conflitos; • Tipos de conflitos; • Origens dos conflitos. RESULTADOS Consoante as categorias obtidas, os resultados que aqui apresentamos se situam em três eixos principais consubstanciados na apreensão dos conflitos, na tipificação dos mesmos e no estabelecimento da origem dessas situações tal como revelado pela comunidade escolar. SITUAÇÕES DE CONFLITOS Dos numerosos depoimentos sobre as situações identificadas que já produziram os conflitos na escola em estudo entre os professores, os alunos e os pais e encarregados da educação, foram extirpadas as expostas por cada elemento da comunidade, com uma comparação das exposições dos diferentes elementos numa grelha que apresentamos abaixo:
Ernesto Barros André | Anabel Moriña 273 Cadernos de Pesquisa, São Luís, v. 28, n. 3, jul./set., 2021. Disponível em: http://www.periodicoseletronicos.ufma.br/index.php/cadernosdepesquisa Familiar 1: “As situações que já levaram conflitos entre encarregados da educação e os professores…, é que os professores nunca consideraram os alunos como seus próprios filhos (…), ele não vai sempre chatear o aluno: faz isso ou vou namorar contigo. Então, quando o aluno está na escola, o professor fica a chatear o aluno: dá-me dinheiro ou vamos na minha casa e vai fazer isto. Tudo isto, o encarregado não vai gostar… Tudo isto cria conflito. Ou com as meninas, o professor que fica como pai na escola mas vai pretender a sua filha...” Como se verifica no extracto da entrevista com os professores, os mesmos reconhecem a existência desse comportamento não somente naquela escola mas em muitas outras com o agravante de se chegar a gravidezes indesejadas que certamente o docente deverá assumir. E muito desses casos passam despercebidos nos olhos da direcção da escola, quando os familiares consentem resolver o caso com o autor envolvido nessa prática duma maneira sigilosa. O mais agravante ainda é que se verifica casos de pedofilia silenciados, como revela o seguinte extracto: Professor 31: “Uma das outras situações muito indicadas que pode conduzir os professores em conflitos com os familiares, eh… o facto que tem existido, os professores namorarem com as alunas principalmente esse de menor idade. Isto quando acontece, se não haver acautela, esse professor acaba engravidando a menina. E a aluna se tiver pais e encarregados da educação muito rigorosos, na verdade pode trazer grande conflito. Como já aconteceu em várias escolas.” Muitos casos ou situações de conflitos ressentidas naquela escola, são extraídas e expostas no quadro abaixo. As diferentes situações agrupadas na grelha, foram extraídas nos relatos dos intervenientes que na maioria dos casos, expuseram as mesmas situações: Tabela 1: Situações de conflitos na escola CITADAS PELOS ALUNOS CITADAS PELOS FAMILIARES CITADAS PELOS DOCENTES - Namoro com as alunas - Namoro com as alunas - Namoro com as alunas - Rivalidade entre aluno e professor - Rivalidade entre aluno e professor - Rivalidade entre aluno e professor - Pedofilia - Pedofilia - Pedofilia - Reprovação por vingança - Reprovação por vingança - Reprovação por vingança - Penalizações generalizadas - Penalizações generalizadas - Penalizações generalizadas - Desavenças e desacatos - Desavenças e desacatos - Desavenças e desacatos - Falta de humildade nos erros apontados - Falta de humildade nos erros apontados - Falta de humildade nos erros apontados - Falha na comunicação aos pais - Falha na comunicação aos pais - Falha na comunicação aos pais - Ausências frequentes dos alunos nas salas de aulas - Ausências frequentes dos alunos nas salas de aulas - Ausências frequentes dos alunos nas salas de aulas - Comportamento e atitudes negativas - Comportamento e atitudes negativas - Comportamento e atitudes negativas
Origens dos conflitos na escola na perspectiva de uma comunidade escolar Cadernos de Pesquisa, São Luís, v. 28, n. 3, jul./set., 2021. Disponível em: http://www.periodicoseletronicos.ufma.br/index.php/cadernosdepesquisa 274 - Cumplicidade entre alunos e professores em práticas desabonatórias - Cumplicidade entre alunos e professores em práticas desabonatórias - Cumplicidade entre alunos e professores em práticas desabonatórias - Falta de colaboração entre docentes e familiares - Falta de colaboração entre docentes e familiares - Falta de colaboração entre docentes e familiares - Injustiça - Complexo de superioridade e de inferioridade - Mau comportamento - Não respeito dos direitos de outrem - Utilização do aluno como força de trabalho caseiro - Educação familiar - Falta de respeito mútuo - Desequilíbrio económico entre professor e aluno - Comunicação deficiente - Não respeito das normas estabelecidas - Ineficácia na aplicação dos normativos - Aproveitamento das falhas - Falta de sigilo profissional dos professores - Prestação de intenções por coisas infundadas - O não respeito das normas - Reprovação dos alunos - Boatos, intrigas e fofocas - Reprovação dos alunos - Boatos, fofocas e intrigas - Promessas de reprovação - Não respeito das hierarquias - Trabalhos caseiros em benefício dos professores - Desmoralização - Ameaças proferidas aos alunos - Assédio sexual - Desencorajamento - Distracção dos alunos na sala de aulas - Apreciação diferenciada da mesma situação - Falta de colaboração Indisciplina e desordem - A não aplicação das normas estabelecidas - Falta de consideração - Mentiras - Falsas promessas - Penalizações - Insinuações - Decisões mal tomadas - Maus tratos - Ameaças de reprovação - Punições descabidas - Adulteração de notas por parte dos professores nas pautas e mini-pautas Todas essas situações são favorecidas pelas atitudes incorrectas dos membros da comunidade, a saber: a insinuação, a obstinação, a arrogância, a desatenção, o fatalismo, os desafios, os desprezos, a perca do controlo, a desobediência, as atitudes belicosas, etc… TIPOS DE CONFLITOS A partir dos relatos dos membros da comunidade escolar, podemos notar que vários tipos de conflitos se expõem naquele estabelecimento, como se constata nos dois extractos dos encarregados da educação: Familiar 1: “Tipo de conflitos: (…) Vingança, rancores, ofensas…” Familiar 16: “Eu dizia que os conflitos que nós podemos encontrar dentro duma instituição… Por exemplo a agressão física, troca de palavras ….
Ernesto Barros André | Anabel Moriña 275 Cadernos de Pesquisa, São Luís, v. 28, n. 3, jul./set., 2021. Disponível em: http://www.periodicoseletronicos.ufma.br/index.php/cadernosdepesquisa Não sendo exaustivos nos dois relatos, extraímos em várias entrevistas, o que agrupamos abaixo: • As agressões físicas e verbais constituem nesse caso os resultados das situações começadas em conflitos. Os alunos como os professores sofrem agressões vindas dum lado como do outro, despoletadas por ameaças. • O fenómeno bullyng que existe entre alunos é um tipo de conflito desenvolvido que tem repercussões psicológicas no desenvolvimento da criança. Como é um caso muito frequente nas escolas, isso também pode ter repercussões nas relações entre os pais e encarregados da educação e os docentes.Ainda nessa lógica, existe o fenómeno de atribuição de nomes caricatos aos professores resultantes dos conflitos latentes ou abertos constatados entres alunos e professores. Aqui refere-se, como já dissemos, à uma consequência resultante dos conflitos que pode ser duma maneira supersticiosa, tendo o pensamento virado sobre a possível realização dum acto sobrenatural, fora do controle humano, como também pode ser duma maneira real nas comunidades onde a vida não é considerada no seu verdadeiro valor. • Ainda, assiste-se um tipo de conflito baseado no rancor e na vingança no seio escolar. • As insurreições, as revoltas são outros tipos de conflitos constatados na relação daquela comunidade escolar. Obviamente que são situações alimentadas por estímulos próprios cuja reacção corresponde às insurreições ou revoltas que significam não concordar com o tratamento dado. • Os desafios e os desprezos são formas manifestadas num conflito na obstinação das partes em conflito. ORIGENS DOS CONFLITOS • Aspectos ético-deontológicos A moral referente a postura que os profissionais observam na realização das tarefas inerentes ao cumprimento cabal do dever profissional tem sido em várias ocasiões negligenciada. Os profissionais da educação naquela escola, muitas vezes pecam sobre esses aspectos que são tão importantes a serem observados, evitando desta maneira os atritos entre elementos da escola ou colisão por não respeito das normas ético-deontológicos. • Os alunos apontam os aspectos relacionados com o namoro entre alunas e professores ou ainda a pretensão que muitos docentes têm em fazer das suas alunas presas fáceis para satisfazer os seus apetites sexuais tem sido o aspecto que mais conflitos provoca entre docentes e alunas e não só entre docentes e familiares como nesse relato abaixo:
Origens dos conflitos na escola na perspectiva de uma comunidade escolar Cadernos de Pesquisa, São Luís, v. 28, n. 3, jul./set., 2021. Disponível em: http://www.periodicoseletronicos.ufma.br/index.php/cadernosdepesquisa 276 Aluno 21: “ … quando o professor pretender uma menina dentro da sala e essa por sua vez se negar, o professor fica a quedar a aluna na sua disciplina mesmo quando esta estiver a tirar boas notas. (…) Quando a aluna reagir aquilo não tem nenhum efeito porque o professor está acima da aluna. Ele é quem dá aulas e a aluna não tem como reagir ou falar. Esses conflitos levam a que a aluna possa falar muito mal do professor. (…) Este por sua vez, quando se aperceber vai querer atribuir a falta de respeito à aluna porquanto a aluna tem a sua razão.” Os mesmos alunos alegam que alguns aspectos relacionados com a desconfiança que os professores colocam na produção de conhecimentos científicos dos alunos. Por isso, com as melhores notas numa prova, é exigida a sua defesa para merecer a mesma, mas no caso de uma negativa, ninguém é convidado a ressalvar-se da mesma, presumindo que as positivas, são fruto de uma cábula. Nesta desconfiança, revela-se a falta do profissionalismo. Isto explica que o professor ensina para outros fins, como conta o aluno a seguir: Aluno 29: “O aluno, ao entender bem uma disciplina, tendo as suas positivas e essas não sendo aceites pelo professor presumindo que tivera cabulado…” O desrespeito que se verifica na aplicação das normas sociais, aceites como sendo o padrão da condução na vida comunitária, revela por parte dos professores a falta da ética e deontologia profissional. Perante algumas situações não abonatórias, o carrancudo aparece defender-se de maneira a pôr em causa a própria moral, no seguinte: Aluno 5: “Eu lhe cumprimento na rua e ele não consegue me responder e basta chegar na escola, inventa outras coisas.” Isso, leva a certas observações constatadas pelos alunos na elaboração das provas. Neste exercício, se desprendem de todo profissionalismo querendo avaliar os alunos em matéria não vista, portanto fora dos objectivos da lição para medir a capacidade dos educandos em relação à do professor. Isso fere a própria moral e ética quando se espera resultados positivos com propósitos mal intencionados, como neste caso abaixo: Aluno 11: “Há professores quando você estiver a fazer provas você não pode olhar de lado nem atrás, não pode falar com ninguém porque se o fizer, vai ouvir só: “sai fora”, vem, tira a tua prova. … porque há alunos bem assimilados e com o aperto dos professores, o aluno não vai fazer bem as provas.” Há casos em que dentro duma turma considerada razoável de 45 alunos que não haja pelo menos uma positiva que possa glorificar os esforços dos alunos. O que se nota, em casos de certos professores, é que aparecem mais negativas do que positivas ou ainda só negativas e não positivas. É de reflectirsobre as práticas dos docentes, embora estando muitos factores em jogo.
Ernesto Barros André | Anabel Moriña 277 Cadernos de Pesquisa, São Luís, v. 28, n. 3, jul./set., 2021. Disponível em: http://www.periodicoseletronicos.ufma.br/index.php/cadernosdepesquisa A outra gangrena que enferma os nossos professores naquela escola relaciona-se com a famosa “gasosa” que é a troca de notas contra valores monetários ou contra outros favores. Aluno 17: “Normalmente, alguns dizem quando estiverem a aplicar a prova, o seguinte: “ Na minha casa quero ver cartões de saldo” porque as perguntas que eles aplicam são difíceis. (…) Para todos que vão tirar negativa, eu preciso saldo na minha casa.” Em certos casos não se nota o esforço do aluno que possa garantir o asseguramento da sua formação quando em certos casos a direcção da escola exige uma certa percentagem positiva para considerar uma avaliação de desempenho positivo da parte do docente. Por uma ou por outra razão, alguns acabam por vender em moeda barata a sua própria dignidade de ser um espelho da comunidade. Algumas situações caricatas resultantes de relações amorosas estabelecidas entre alunas e professores, revelam o nível mais baixo do instinto humano. Essas relações reprováveis a um certo nível de consciência humana e aceitáveis em certas circunstâncias da vida cujas mais vulneráveis ou permissíveis prendem-se com a pobreza e a cultura, desembocam realmente em situações mais desonráveis tais como as gravidezes precoces não assumidas pelos autores provocando dum lado abortos numa sociedade que ainda criminaliza esta prática e de outro, a fuga à responsabilização parental, como se nota aqui: Aluno 26: “Ele (professor) fazia referência de alguns que não assumem as suas responsabilidades quanto às gravidezes. E eu apanhei-lhe ali porque tinha engravidado uma moça que ele não assumiu. Tiveram que tirar a gravidez. (…) Por ter contrariado o seu pensamento e desvendado esse segredo perante os alunos, então anda chateado comigo todos os dias.” A par disso, esse comportamento indecoroso que certos docentes demonstram perante toda a sociedade não é um bom exemplo a seguir da parte de muitos que esperam do professor que seja um espelho na sociedade. As tarefas domésticas que os docentes podem fazer, não devem ser atribuídas aos alunos aproveitando a sua condição de superioridade para obrigar aqueles que estiver numa posição inferior a realizar contra a sua vontade acções lucrativas a favor de outrem. Isso se passa um pouco por todas escolas da região que conhecemos, cujos professores tiram proveito da sua posição hierárquica superior em relação aos alunos. Ainda, o caso mais caricato é que alguns dos professores se aproveitam das fraquezas dos alunos para punir os mesmos ao seu benefício. Não achamos bem que os nossos próprios trabalhos caseiros sejam atribuídos a certos “desordeiros” da turma sob pretexto que é uma forma de correcção do comportamento, sobretudo quando são misturados com alguns fortes indícios da corrupção do aluno como no caso a seguir:
Origens dos conflitos na escola na perspectiva de uma comunidade escolar Cadernos de Pesquisa, São Luís, v. 28, n. 3, jul./set., 2021. Disponível em: http://www.periodicoseletronicos.ufma.br/index.php/cadernosdepesquisa 284 Todavia, acreditamos que o nosso estudo fornece resultados significativos para continuar contribuindo na pesquisa sobre os conflitos escolares de modos a trabalhar na prevenção dos mesmos e na sua resolução plausível com vista a alcançar efeitos positivos. Faria também questão de futuras investigações a questão que se prende com a formação ético-deontológica dos professores por quanto a disciplina que é de Formação Pessoal, Social e Deontológica não der grandes efeitos esperados.
Ernesto Barros André | Anabel Moriña 285 Cadernos de Pesquisa, São Luís, v. 28, n. 3, jul./set., 2021. Disponível em: http://www.periodicoseletronicos.ufma.br/index.php/cadernosdepesquisa REFERÊNCIAS ANGOLA. Lei nº 10/2001, de 31 de Dezembro, Lei de Bases do Sistema Educativo Angolano. ANGOLA. Lei nº 17/16, de 07 de Outubro, Nova Lei de Bases do Sistema Educativo Angolano. BAGNALL, Richard G.; NAKAR, Sonal. A critical reflection of codes of conduction vocational education. Journal of Moral Education, Bermingham, v.47, n. 1, p. 78 – 90, out. 2017. Disponível em: <https://doi.org/10.1080/03057240.2017.1379964>. Acesso em: 10 jul. 2018. BALAY, Reflik. Conflict management strategies of administrators and teachers. Asian Journal of Management Cases, Pakistan,v. 3, n.1, p. 5 – 24, mar. 2006. BENDERSKY, Corinne; HAYS, Nicholas A. The positive effects of status conflicts in teams where membres perceive status hierarchies differently. Social Psychological and Personality Science, East Lansing, v.8, n. 2, p.124 – 132,mar. 2017. BRINDLEY, Sue; BOWKER, Anne. Towards na understanding of the place of ethics in school-based action research in the United Kingdom. Education Action Research, Londres, v. 21, n. 3, p. 289 – 306, set. 2013. Disponível em: <https://doi.org/10.1080/09650792.203.815037>. Acesso em: 07 jan. 2018. CARTON, Andrew M.; TEWFIK, Basima A. Perspective -A new look at conflict management in work groups. Organization Science, Pennsylvania, v. 27, p.1125-1141, out. 2016. CHEN, Gilad et al. Teams as innovative systems: Multilevel motivational antecedents of innovation in R & D teams. Journal of Applied Psychology, Maryland, v. 98, n. 6,p. 1018-1027, abr. 2013. CHENG, Jocy T.; TRACY, Jessica L.; HENRICH, Joseph. Pride, personality, and the evolutionary foundations of human social status. Evolution and Human Behavior, Washington, v. 31, n. 5, p. 334 – 347, fev. 2010. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1016/j.evolhumbehav.2010.02.004. Acesso em: 10 jul. 2018. DA SILVA, Algeless Milka Pereira Meireles; NEGREIROS, Fauston; ALBANO, Ronaldo Matos. Indiscipline at the public school: teachers’conceptions on causes and intervention. International Journal of Research in Educationand Science, Piaui, v. 3, n.1, p. 1 – 10,Winter 2017. DE SOUSA, Maria Martins; SARMENTO, Teresa. Escola – Família – Comunidade: Uma relação para um sucesso educativo. Gestão e Desenvolvimento, Lisboa v.17, n.18, p. 141 – 156 jun. 2009-2010. DOGAN, Soner. Conflicts management model in school: a mixed design study. Journal of Education and Learning, Sivas, v. 5, n. 2, p. 200 – 219, mar. 2016. DUARTE, Rosa; ESCARIO, José Julián; SANAGUSTÍN, María-Vitoria. The influence of the family, the school, and the group on the environmental attitudes of European students. Environmental Education Research, Zaragoza,v. 23, n. 1, p. 23 – 42, ago. 2017. Disponível em: <https://doi.org/1 0.1080/13504622.2015.1074660>. Acesso em: 02 mar 2018. GÖKSOY, Süleyman; ARGON, Türkan. Conflicts at school and their impact on teachers. Journal of Educationand Training Studies, Beaverton, v. 4, n. 4, p. 197 – 205, abr. 2016.
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