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ESPAÇOS, CULTURAS URBANAS E CONTEMPORANEIDADE José Teixeira (Organização) SEPARATA O FALAR BRACARENSE: MITOS, IDENTIDADES E PALAVRÕES José Teixeira
ESPAÇOS, CULTURAS URBANAS E CONTEMPORANEIDADE Organização: José Teixeira Capa: José Teixeira Fotos :José Teixeira Foto da capa: pormenor de parede da Central de Camionagem, Braga. Foto da contracapa: banco e parede da Central de Camionagem, Braga. Edição: Centro de Estudos Lusíadas da Universidade do Minho © Autores Edições Húmus, Lda., 2018 End.Postal: Apartado 7081 4764-908 Ribeirão – V. N. Famalicão Tel. 926 375 305 [email protected] Impressão: Papelmunde – V. N. Famalicão 1.a edição: Março de 2018 Depósito Legal n.o: 438175/18 ISBN: 978-989-755-336-3
Índice 7 Em jeito de introdução José Teixeira 17 Braga: Espaços, Culturas e Contemporaneidade – Contributos para Repensar a Cidade e a Cultura Álvaro Domingues 41 A urbe social e sociológica: ou a cidade entendida como contexto e enquanto cotexto quotidianos Pedro de Andrade 57 A morfogénese como teoria da integração urbanística da alteridade e da identidade. Premissas de um dialogo entre a física e o sentido Isabel Marcos 75 Regeneração Urbana e Espaço Público: renovados desafios para o Centro Histórico de Braga Miguel Melo Bandeira e Fátima Pereira 111 Itinerários literários de Braga (séc. XIX): Camilo e outras vozes João Paulo Braga 135 Entre narrativas e entre passeios: uma aproximação à etnografia do intervalo Helena Pires e Maria da Luz Correia 159 O Falar Bracarense: mitos, identidades e palavrões José Teixeira 179 «Qu’est-ce qu’on voit?» Breve apresentação de DQ/HK, de Jérôme Game Sérgio Guimarães de Sousa
O FALAR BRACARENSE: MITOS, IDENTIDADES E PALAVRÕES José Teixeira UNIVERSIDADE DO MINHO [email protected] RESUMO Não há um espaço humano sem uma língua que o delimite. Mas também não pode haver uma língua sem um espaço físico e social. No caso do “espaço bracarense”, que especificidades podem identificar a forma de usar a língua? Não tendo, por finalidade, dirigir-se a um público de especialistas sobre dialetologia, este texto consiste apenas num conjunto de reflexões que procuram fundamentar e exemplificar, numa dimensão sociolinguística, a relação entre um espaço geográfico e as suas idiossincrasias linguísticas e vivenciais-culturais. Procurar-se-á, através de testemunhos do Projeto Perfil Sociolinguístico da Fala Bracarense (https://sites.google.com/site/projectofalabracarense/home), evidenciar a importância que alguns elementos lexicais podem ter num determinado espaço geográfico, bem assim como refletir sobre a autoconsciência que o falante bracarense tem da sua fala. Palavras chave: falar bracarense; léxico e regionalismos; língua e vivências culturais; calão; cascavelho ABSTRACT Human spaces generally have a limit established by language. And Language cannot exist outside of a physical and social space. Which linguistic specificities can then identify the way “Braga people” use their language? Citação: Teixeira, José (2018). “O Falar Bracarense: mitos, identidades e palavrões” in Teixeira, José (Org.) (2018). Espaços, Culturas Urbanas e Contemporaneidade, Centro de Estudos Lusíadas da Universidade do Minho, Braga. pp. 159-178
160 José Teixeira Although this text is not aimed at an audience of dialectology experts, it consists in a set of justifying and exemplifying thoughts, framed by sociolinguistic dimension and addressing the relationship between a geographic space and its linguistic, daily life and cultural idiosyncrasies. Instead, it will try and show the relevance of some lexical elements within a geographic space as well as to reflect upon the Braga speaker’s self-awareness of his/her own speech conditions amidst the same geographic space. The text will be supported by the testimonies provided by the Research Project Sociolinguistic profile of Braga speakers (https://sites.google.com/site/projectofalabracarense/home). Keywords: linguistic variety of Braga; lexicon and regionalisms; language and cultural heritage; slang; portuguese word “cascavelho” 1. Interconexões Espaços Humanos/Línguas Não há um espaço humano sem uma língua que lhe trace os limites. Nunca foi encontrado um grupo humano que não usasse uma linguagem articulada no sentido em que usamos o conceito de língua(1). E ao contrário do que alguma mitologia popular supõe, não há línguas simples e línguas complexas: todas as línguas são apreendidas (por um ser humana com as capacidades normais) nas mesmas fases etárias e são todas igualmente complexas, cada uma, obviamente, com a sua estrutura e as suas regras que nos vão parecer tanto mais complexas quanto mais diferentes forem da nossa língua materna(2). Portanto, desde sempre, ao encontrar-se qualquer comunidade humana, encontrou-se necessariamente o uso de uma língua complexa, ainda que a fase civilizacional da comunidade correspondesse à Idade da Pedra. Por isso, 1 Como em inglês a palavra language corresponde ao português língua, mas também a linguagem, por vezes aparece a afirmação de que os hominídeos, mesmo antes da fase homo sapiens, já usavam e dominavam línguas. Não há, contudo, provas cabais da fase do aparecimento daquilo a que chamamos línguas humanas. Não podemos dizer em que época ou em que fase da evolução é que elas apareceram. O que podemos dizer é que os hominídeos tinham linguagens que permitiam que comunicassem entre si. Tal como os animais, como os chimpanzés, as baleias, os golfinhos, as abelhas comunicam, têm as suas linguagens, também os hominídeos teriam as suas formas de comunicação (=linguagens), o que não implica que essas linguagens fossem línguas, ou seja, tivessem as propriedades articulatórias, combinatórias e recursivas que se encontram em todas as línguas humanas. 2 Teixeira 2014: 9-46.
161 O Falar Bracarense: mitos, identidades e palavrões nem imaginamos realmente uma comunidade humana que não tenha ou tivesse uma língua. Mas por outro lado, também não pode haver uma Língua sem um Espaço. Toda a língua é língua de uma comunidade que vive num determinado Espaço. E este espaço é uma (senão a principal) variável que irá influenciar e balizar a língua. Por isso, línguas com múltiplos espaços (como o português) irão ser necessariamente línguas com múltiplas variantes. E assim, ninguém se admirará que o português do Brasil não seja igual ao europeu ou este ao de Angola, Moçambique ou Timor. Mas de que se fala quando se fala em espaços da língua? A resposta imediata é a de “países”, espaços politicamente autónomos. E foi esse conceito que subjazia aos exemplos há pouco apresentados. 2. Braga e os falares regionais No entanto, só por uma simplificação grosseira é que se pode pensar que as variedades linguísticas só existem entre países com a mesma língua. Facilmente se compreende que um imenso país como o Brasil possua variedades por vezes com bastantes diferenças umas das outras. O mesmo para Portugal. A ideia de que o português (europeu) é uma língua, una, falada em todo o espaço da mesma maneira apoia-se na força implícita de uma norma padrão que todos os falantes supostamente seguem. Desde o fim do século XIX e início do XX, a Dialetologia constituiu-se com a finalidade de detalhar a variedade nas línguas, de início, das línguas europeias. Embora fosse Leite de Vasconcelos o iniciador, para Portugal, deste ramo da investigação linguística (3) , é com Paiva Boléo e Maria Helena Santos Silva (1958) que aparece um mapa mais especificamente delimitador das regiões, onde os autores distinguem os Dialetos (4) (variedades mais 3 José Leite de Vasconcelos (1858-1941) é o responsável pelo início dos estudos sobre dialetologia em Portugal. Embora tenha obras anteriores sobre esta temática (Leite de Vasconcelos 1894, 1897, 1900), a sua tese em Paris, Esquisse d’une dialectologie portugaise, em 1901, serve de marco de referência para a primeira classificação dos dialetos portugueses. 4 Esta noção (e o próprio conceito) de “dialeto” não é atualmente utilizada na literatura linguística. Por exemplo, o mirandês é uma língua e independente do português, porque é uma variante da família do leonês/asturiano.
162 José Teixeira autónomas e distintas do português, como o Guadramilês, o Rionorês, o Barranquenho e o Mirandês) e os Falares, variedades menos acentuadas do português (Falar Minhoto, Falar Transmontano, Falar Beirão, Falar do Baixo Vouga e Mondego, Falar de Castelo Branco e Portalegre e Falar Meridional). Para Paiva Boléo e M. H. S. Silva, a variedade de Braga está incluída no Minhoto. Este falar (Minhoto) não se limita, na sua classificação, à região do Minho. Vai até próximo de Aveiro e inclui as variedades indicadas na Figura 1 (Mapa [adaptado] das variedades do Minhoto segundo Paiva Boléo, 1958). Variedade do Alto Minho (1) Variedade do Minhoto Central (2) Variedade do Minhoto Oriental (3) Variedade do Baixo minhoto (4) Variedade de riba Minho (5) Variedade de Braga (6) Variedade do Porto (7) Figura 1. Mapa das Variedades do Minhoto a partir de Mapa de Boléo & Silva (1958) A delimitação tão linearmente nítida de uma suposta variedade de Braga, assim traçada, é obviamente um mito. Como se fosse possível traçar uma linha à volta da cidade ou de um espaço de Braga onde houvesse uma variedade autónoma. A linha/zona que Paiva Boléo delimita corresponde a uma área que (se virmos num mapa atual com as localidades) abrange
163 O Falar Bracarense: mitos, identidades e palavrões parte de Vila Verde, de Prado, de Amares, não engloba todas as freguesias de Braga e estende-se até algumas de Guimarães. Este mito sobre a possibilidade de traçar linhas rigorosas que delimitassem as variedades dialetais foi suavizado pela proposta apresentada por Lindley Cintra em Nova Proposta dos Dialectos Galego-Portugueses (Cintra:1971). Os dialetos portugueses são, neste estudo, divididos apenas em dois grandes grupos: dialetos portugueses setentrionais, separados em dois subgrupos (1-transmontanos e alto minhotos, 2-baixo-minhotos, durienses e beirões, onde se inclui a zona de Braga) e dialetos portugueses meridionais (também divididos em duas partes: 1-dialetos do centro-litoral; 2-dialetos do centro-interior e sul). Já não se apresentam, nesta proposta, zonas inequivocamente demarcadas, assumindo-se que a transição entre os falares é contínua e não repentina. 3. Mitos e identidades na fala bracarense O primeiro grande mito sobre os falares regionais é o de que cada região tem o “seu” falar... Obviamente que a língua não é uniforme e se pode facilmente constatar que há variedades regionais, variedades que mais ou menos demarcadamente se podem contrapor entre si. O contraste demarcativo pode atender à realização fonética (sotaque ou pronúncia, como costuma ser referido) a aspetos lexicais (para o mesmo conceito, uma palavra numa região e outra diferente em outra, como caleiro, norte de Portugal/ algeroz, no sul) ou ainda (mas mais raramente) aspetos combinatórios ou sintáticos. No entanto, é difícil estabelecer fronteiras nítidas entre as variedades. É difícil separar abruptamente umas regiões das outras, verificando-se que as transições são em contínuo e que os fenómenos de divergência não se concentram todos dentro da mesma área. Outro mito que é frequente é que o “sotaque”, a pronúncia, é o elemento mais caraterizador das variedades regionais. Pode, realmente, comprovar-se que as diferenças fonéticas (de “sotaque”) são as mais notadas. E não é difícil perceber porquê. Sendo a língua essencialmente usada através da interação oral, são os elementos sonoros
164 José Teixeira os elementos físicos que nos servem para a primeira perceção da forma de comunicar do interlocutor. E como a parte sonora de cada falante é composta por um conjunto muito restrito de sons (à volta de 30) é fácil notar algum diferente que apareça noutro falante. E assim podemos, com facilidade, encontrar algumas variações articulatórias, mais ou menos acentuadas, relativamente à forma como cada um realiza a língua. No entanto, as diferenças articulatórias são, geralmente, diferenças que não interferem muito na comunicação. O mesmo se não pode dizer das lexicais. 3.1. Regionalismos lexicais e concetualizações As diferenças lexicais (as palavras “típicas” de uma região ou regionalismos) são bastante mais importantes para a diferenciação, porque são elementos valiosos para caraterizar as vivências sociais da comunidade que as utiliza. Cada regionalismo pode ser uma prova arqueolinguística das vivências sociais da comunidade. Normalmente um termo tido como “regionalismo linguístico”, encarnado numa palavra específica do léxico de um grupo de falantes, corresponde a um conceito que retrata vivências que se estão a alterar ou que já foram alteradas, tendo deixado apenas registo no regionalismo(5) que, se não tiver uso e utilidade linguístico-cognitiva, tenderá inexoravelmente a desaparecer. Permita-se que aqui se apresente um exemplo de um regionalismo na fala bracarense e sumariamente se evidencie a sua importância sociolinguística. Trata-se de um termo encontrado no PSFB(6), usado por um falante de Braga, e que pode ser apresentado como um exemplo paradigmático de um regionalismo muito interessante da zona de Braga. 5 Os regionalismos aparecem em muitos dicionários (sobretudo mais antigos) sob a designação de “plebeísmos” ou “provincialismos”. A ideia que a norma dita culta costuma fazer passar é que são dispensáveis pela língua. Mas, como se procurará evidenciar, o regionalismo pode ser único, não traduzível pela norma, pode corresponder a uma concetualização inexistente na norma e nesse caso excluir o elemento lexical é excluir o conceito, a vivência do mundo que representa e toda a rede semântica construída a partir dele. 6 O projeto Perfil Sociolinguístico da Fala Bracarense (PSFB) foi um projeto de investigação apoiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (referência FCT PTDC/
171 O Falar Bracarense: mitos, identidades e palavrões Uma outra arte de adivinhação empregue para saber o sexo de uma criança antes dela nascer, e que se encontra difundida por toda esta região do Minho, consiste em lançar ao lume da lareira um cascavelho (ouriço) de castanha: se, passado algum tempo, acabasse por estourar, adivinharia rapaz, se apenas bufasse augurava rapariga. Em freguesias como Oliveira e Travassos, quando uma criança está para nascer, os seus familiares têm o costume de lançar ao fogo o cascavelho, cuspindo- -lhe em seguida. Com o calor do lume, o cascavelho começa a inchar e, se acaba por estourar estrepitosamente, anuncia um rapaz; se apenas produz um ligeiro sopro, pressagia uma rapariga: Noutros sítios, diz-se que é rapaz se o cascavelho arder completamente.” (Neves 1994:54) Note-se que o autor não percebeu o que era um cascavelho e identificou-o com o ouriço das castanhas. Nem sequer se deu conta da impossibilidade de tal identificação, já que os ouriços não estouram nem “bufam” quando se deitam ao lume. São as castanhas e os cascavelhos onde isso pode acontecer, porque o calor do lume faz dilatar a pele envolvente até ao possível rebentamento. No entanto, apesar de a palavra ter uma tradição secular de utilização, ter uma importância etnolinguística (14) que ainda hoje se pode comprovar, ser ainda usada por um grande grupo de falantes e ser a origem de metaforizações muito importantes, a palavra não existe em nenhum dicionário do Português Europeu ou Português Brasileiro. Ora se a palavra não deixa registo, é como que se nunca tivesse entrado no viver da comunidade. No futuro, nunca se chegará a entender a importância dos conceitos e das vivências que a palavra tinha em todo o espaço geográfico e humano em que era usada. 3.2. O “dom” dos palavrões Mas tirando os regionalismos, que identidades são autorreconhecidas na “fala bracarense”? Na realidade, uma das questões colocadas aos inquiridos do PSFB era mesmo: em Braga fala-se de forma diferente dos outros sítios? 14 É curioso que em Cabo Verde existe um local chamado Ponta Cascavelho. Nome posto por algum colonizador minhoto?
172 José Teixeira Há um entrevistado, morador na Freguesia da Sé (centro da cidade, portanto), que pode funcionar como voz representativa da perceção popular sobre a especificidade da fala de Braga(15). À pergunta se em Braga se fala de forma diferente de Lisboa (que representa a norma padrão), o entrevistado responde afirmativamente e, como não podia deixar de ser, refere a “pronúncia” diferente (Figura 7). Figura 7 Mas a “pronúncia” típica do Minho não tem só a ver com a fonética, reconhece o Sr. António: a “pronúncia do Minho” é “falar mal” ou “a pronúncia dos carvalhos acima” (Figura 8). Figura 8 Como interpretar esta caraterística “carvalhos e carvalhos acima” autorreconhecida do falar bracarense? Tradicionalmente, o calão (o chamado palavrão, o “falar mal”) é visto como identificador de baixo nível social, de má-educação e de intenção 15 A entrevista ocorreu na freguesia da Sé, Braga, em 11 de abril de 2012. O entrevistado era do sexo masculino, 59 anos, reformado e com o 9º ano de escolaridade.
173 O Falar Bracarense: mitos, identidades e palavrões ofensiva. O entrevistado manifesta a consciência social incorporada que tem desta perspetiva sobre o calão, porque se reconhece (ele e os vizinhos, porque usam o calão por hábito) como “um ordinário” como todos os outros da zona onde morava (Figura 9). Figura 9 Esta visão de que o uso do calão implica apenas “ordinarice” é bastante redutora e corre o risco de esconder a verdadeira funcionalidade que tem em certos contextos discursivos. Esta forma de expressividade linguística não pode ser apenas catalogada de uma perspetiva valorativa, na medida em que o fenómeno do calão é mais complexo do que uma análise superficial e tradicional pode fazer crer(16). Na verdade, o calão pode ser usado para veicular agressividade e ofensa (supostamente por sujeitos “ordinários”). No entanto, para além desta dimensão, o calão, mesmo o calão-tabu 16 Nas últimas duas décadas, sobretudo, o calão tem sido abordado segundo novas perspetivas. Os conhecimentos cada vez mais aprofundados que vamos tendo sobre os processos neuronais ligados à expressão da emoção permitem atualmente perceber o papel do calão na linguagem para além da visão simplista tradicional que o considerava uma forma paralinguística afastada da linguagem “normal” (começar por ver, por exemplo, Pinker 2008).
174 José Teixeira (tabuísmos) também serve para carregar o discurso de emotividade de tal modo que, por vezes em certos contextos, a vertente da emotividade é a única presente e não acarreta a ofensa ou a agressividade. Como refere Pinker (2008), os tabuísmos, embora remetam aos aspectos mais repugnantes de seus referentes, não obtêm sua força só dessas conotações. O próprio status de tabuísmo dá à palavra um vigor emocional, independentemente do referente. (Pinker 2008:406) É precisamente o que se passa maioritariamente com o uso popular do calão na fala bracarense. Ele não é usado para insultar ou agredir, mas apenas como bordão de emotividade. Isso explica o porquê de em frequentes contextos ele ter perdido o caráter de tabu(17) e passar a ser apenas um marcador de expressividade emotiva(18). O próprio entrevistado tem consciência destes valores emotivos e não ofensivos e embora se considere um “ordinário” por usar palavrões, ele garante que não são ditos por mal, mas que é (curiosa classificação) o “dom da pessoa” (Figura 10). Quando a entrevistadora pergunta se os palavrões são usados para insultar, ele garante que não significam nenhum rancor (“Não é de rancor, não é? É às vezes estar na brincadeira: - Ai o• • • tal. • • Mas mas , lá está, mas não é com aquele rancor, não é? • • Isto é que é assim mesmo”) e que é apenas o dom da pessoa (“Já é o o dom da pessoa, já é o dom da pessoa”). Ver o palavrão como um “dom da pessoa” que fala não deixa de ser curioso, na medida em que vários investigadores vêm dizendo que o calão é uma espécie de poesia concentrada pela sua dimensão de síntese de emoções: Quando usado com critério, o palavrão pode ser engraçadíssimo, pungente e incrivelmente eficiente nas descrições. Mais que qualquer outra forma de linguagem, ele convoca nossas faculdades expressivas à máxima plenitude: o poder combinatório da sintaxe; o poder de evocação da metáfora; o prazer da aliteração, da metrificação e da rima; e a carga emocional de nossas atitudes, tanto as 17 “As palavras também podem perder o caráter de tabu com o tempo.” (Pinker 2008: 374). 18 Embora se possa objetar, com razão, que a maioria dos palavrões não é nem um pouco original[...] é possível observar certa afinidade com a poesia. Em ambos os campos os termos usados têm forte carga emocional e são bastante metafóricos (Hughes 1991:22)
175 O Falar Bracarense: mitos, identidades e palavrões concebíveis como as inconcebíveis. Coloca em ação o cérebro todo: esquerdo e direito, superior e inferior, antigo e moderno. (Pinker 2008:424) Ligado ao mito que o calão é apenas “ordinarice”, está o de que era sobretudo antigamente que se empregava. Pelo contrário, o calão está hoje muito mais presente na interação social do que em tempos passados. Antigamente ele só aparecia em situações informais, enquanto hoje aparece também nos registos mais formais, como literatura, jornalismo e uso em redes sociais públicas(19). O que leva o Sr António a dizer que antigamente se usavam muitos mais palavrões (Figura 9) é o facto de nessa altura ele conhecer quase todos os moradores vizinhos na freguesia da Sé e por isso falava com eles de forma habitual, conivente com o uso do calão. Na atualidade, os vizinhos antigos já não moram lá e por isso ele já não tem a mesma familiaridade para usar calão (“Agora nem tanto, que agora • • os vizinhos, a maior parte já não moram aqui, não é? Mas antigamente, Nossa Senhora, era isto era aquilo, ma• • • Ui, Nossa Senhora! Isto, • • era geral”). É muito interessante comprovar a naturalidade do uso do calão, aliada à não consciência da respetiva utilização, neste mesma entrevista. Ao minuto 54’ 08’’, na sequência de o entrevistado ter dito que dantes, com os vizinhos, dizia muitos palavrões e por isso era “ordinário”, a entrevistadora questionou-o sobre se na entrevista que estava a terminar tinha feito um esforço para evitar usar palavrões (Entrevistadora: • • • • • Hum hum. Então o senhor agora tentou não dizer muitos palavrões). Segundo o entrevistado, ele não tinha usado nenhum! (Sr. António: sim ! Penso que evitei todos, evitei tudo.). Neste passo a entrevistadora riu-se um pouco e o entrevistado intuiu, perante isso, que talvez “algum” tivesse escapado (Sr. António: Já podia ter fugido algum. Mas se calhar disse mesmo). Fugiu mesmo, e não foi só algum, foram vários ao longo da entrevista. Vejam-se: a, pá. • • - Ai, mãe! Digo assim: - Ai o caralho ! - Que isto vai… • • Eu era quarteleir o gajo meu colega fazia: - Ó Piri, • • caralho pá, empresta-me empresta-me uma roupa d • • Eu digo: - Não, senhor guarda, • • caralho • • ainda agora/ estou agora a vir de cia na avenida, vou-lhe estourá-lo todo, caralho ! Olhe, fugiu agora uma palavra. 19 Marina Gonçalves (2016).
176 José Teixeira • - Anda aqui, mais aqui. • • - Raça do caralho ! ((incompreensível)) • • E tudo a diz E tudo a dizer que (é) raça raça raça do caralho ! Digo: - Não. • • • - Andá cá tu, ó p era? Era um polícia. • • Eu: - Fugi, caralho , que é a polícia! • • E dizia o gajo, ( reensível)) : - Quem é e tal. • • E • • caralho , mal entrámos lá… - Oh, bonita: - Anda depois os pais recebiam os contrafés: - Caralho , Rabo? - Gugunana? E rasgavam os cont E note-se que o falante está numa situação que podemos classificar como semiformal: tem de si a imagem de alguém que quando usava palavrões era “ordinário”; está perante duas jovens mulheres (na casa dos 25 anos) que não conhece e que o estão a entrevistar e a gravar a entrevista. A não consciência da utilização nada esporádica do calão demonstra como, na maior parte das vezes que o calão deste género aparece, não tem uma dimensão intencional e ofensiva. Mas se é não intencional, não ofensivo e dele o falante (no momento em que o usa) não tem a noção da marginalidade linguística, ainda podemos falar de calão na plena aceção do termo? 4. Região, falar e património cultural Já se disse que será um mito querer uma “fala bracarense” isolada de uma “fala barcelense”, “vimaranense” ou mesmo “portuense” (recorde-se que tudo era “minhoto” para Paiva Boléo). No entanto, ainda hoje é percetível que há (embora cada vez menos) algumas idiossincrasias numa região em que Braga se inclui. Querer delimitar inequivocamente, com linha e risco no mapa, essa região é tarefa não apenas impossível como inútil e nunca correspondendo à realidade. Talvez seja ao Minho (mais genericamente do que a “Braga”) que se possa atribuir alguma identidade na comunicação linguística. Que pode passar pela “pronúncia”, pela componente fonética da língua, a mais imediatamente percetível, mas que não é a mais fundamental. Os aspetos ligados ao léxico, à concetualização lexical, são muito mais importantes para se encontrarem identidades linguísticas numa zona. São eles que denotam vivências sociais passadas, vivências específicas (por vezes) de uma comunidade e que desaparecendo as palavras que as referiam, desaparecem também das
177 O Falar Bracarense: mitos, identidades e palavrões memórias sociais, muitas vezes sem deixarem qualquer rasto. Se cascavelho nunca for registado (como não foi até agora) em nenhum dicionário, corre o risco de não ficar registo do lugar que teve na forma como se falava no Minho (e não só), o que significava, o que revelava sobre a importância de uma certa forma de viver, desaparecendo também todo um conjunto de usos metafóricos que a palavra possuía (e ainda possui, para muitos falantes). Palavras como picheleiro, carolinas(20), malga por oposição a tigela são exemplos de regionalismos que não são simplesmente outro nome para a mesma coisa, como por vezes se pensa que sempre os regionalismos são. São mesmo palavras que, fora da região, não têm o conteúdo concetual que no Minho têm. Não se pede que nos sintamos obrigados a usá-los, até porque a norma padrão possui a força da uniformização social. Mas, pelo menos, que fiquem registados na oficialidade dos dicionários e possam ser testemunhas de vivências passadas, sempre dignas de memória. E é dentro desta identidade linguística da região que o “falar mal” e os palavrões devem ser enquadrados. O mito de que o calão era usado porque as pessoas eram más, “ordinárias”, não é mais do que isso mesmo, um mito muito poderoso numa sociedade que sempre quis diferenciar em mau o falar popular e em bom o dito falar das pessoas cultas. O calão não é apenas uma questão de ordinarice. Sem questionar que é uma linguagem nas margens (marginal, portanto) da linguagem padrão, é bastante mais do que isso. Pode ter múltiplas funções, uma das quais transcende completamente a ofensa ou a agressão. Pode servir apenas para, numa comunidade, expressar grande emotividade, sublinhar a emoção de determinadas partes do discurso. Pode (talvez com o escândalo de quem não percebe os valores da comunidade) servir mesmo para a manutenção da estreiteza de laços de familiaridade. Quando não possui o aspeto ofensivo, o uso do calão denota uma comunicação muito emotiva, pouco formal: uma sociedade onde as pessoas gostavam de falar umas com as outras em interação presencial, sem ser apenas por teclados ou ecrãs. Todas as idiossincrasias linguísticas (fónicas, lexicais, discursivas) regionais têm tendência à uniformização pela norma padrão. A televisão, as tecnologias da comunicação instantânea e a escolarização são poderosos mecanismos de unificação. Será quixotesco lutar contra a tendência, mas 20 “Carolinas” eram uma espécie de chinelos artesanais feitos com sola de madeira e tiras de couro.
178 José Teixeira poderá ser enriquecedor mostrar que as vivências passadas formaram as raízes das nossas vivências atuais. Que parte da língua é Património e Cultura? Apenas a norma padrão? E a forma de falar do nosso espaço (Braga/ Minho?). Reconhecer o papel passado e presente das particularidades linguísticas regionais, das nossas palavras, do falar bracarense ou minhoto, pode ser também um sinal de “defesa do património” do nosso Espaço e da nossa Cultura. Referências Boleó, P. & Silva. M. H. S. (1958). Mapa de Dialectos e Falares de Portugal Continental. Coimbra: Universidade. Cintra, L. (1971). Nova Proposta dos Dialectos Galego-Portugueses. In: Boletim de Filologia XXVI. Lisboa: Centro de Estudos Filológicos. Gonçalves, Marina da Silva, (2016). O calão no Português Europeu: tendências e utilizações. Tese de Mestrado, Universidade do Minho. Hughes, G. (1991). Swearing: Asocial history of foul language, oaths, and profanity in English. Nova York: Penguin. Neves, António Amaro, “Vir à luz – práticas e crenças associadas ao nascimento”, Revista de Guimarães, n.º 104, 1994, pp. 51-81. Pinker, Steven (2008), Do que é feito o pensamento : a língua como janela para a natureza humana, São Paulo : Companhia das Letras. Teixeira, José (2014). Como Funcionam as Línguas? –Uma iniciação às Ciências da Linguagem, Edições Húmus. Teixeira, José (2016). “Castanhas e cascavelhos – ou como um regionalismo do Minho evidencia a relação entre as vivências e a língua”, Revista de Filoloxía Galega, Universidade da Corunha. Vasconcelos, L. (1894). Carta Dialectológica de Portugal Continental. Lisboa. Vasconcelos, L. (1897). Mapa Dialetológico do Continente Português. Lisboa. Vasconcelos, L. (1900). Os Estudos de Filologia Mirandesa. Lisboa. Vasconcelos, L. (1901). Esquisse d’une dialectologie portugaise. Paris. Université.
Somos, cada um, um-ser-num-espaço, o que implica que cada comunidade humana é um conjunto de seres inseridos em espaços e respetivas interações e resultados, aos quais também se pode dar o nome de Cultura(s). [...] Será a partir do espaço vivencial concreto em que nos situamos, Braga e o Minho, que se procurará refletir sobre este e os outros espaços e respetivas vivências e culturas na contemporaneidade. (José Teixeira, “Em Jeito de Introdução”) Banco e parede na Central de Camionagem, Braga