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A influência da religião na linha editorial e conteúdo jornalístico: o caso da Rádio Renascença

Carvalho, Maria João Castro

Abstract

Este trabalho aprofunda o papel da religião católica na comunicação social, com foco especial na Rádio Renascença, e apresenta uma reflexão crítica sobre a experiência de estágio realizado na emissora católica. É explorada a história da rádio em Portugal, a relação histórica entre a Igreja Católica e os meios de comunicação, a presença da religião nos média e os desafios do jornalismo especializado. Esta investigação contribui para uma compreensão mais profunda das dinâmicas entre a comunicação religiosa e a prática jornalística, bem como para o desenvolvimento de uma visão crítica sobre a formação prática no campo do jornalismo. Para tal, foram feitas duas entrevistas: uma a Pedro Leal (diretor de informação) e Henrique Cunha (editor de religião).

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Universidade do Minho Instituto de Ciências Sociais Maria João Castro Carvalho A influência da religião na linha editorial e conteúdo jornalístico: o caso da Rádio Renascença outubro de 2024 UMinho | 2024 Maria João Castro Carvalho A influência da religião na linha editorial e conteúdo jornalístico: o caso da Rádio Renascença Maria João Castro Carvalho A influência da religião na linha editorial e conteúdo jornalístico: o caso da Rádio Renascença Relatório de estágio Mestrado em Ciências da Comunicação Especialização em Jornalismo e Informação Trabalho efetuado sob a orientação da Professora Doutora Maria Helena Costa de Carvalho e Sousa outubro de 2024 I DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição-NãoComercial CC BY-NC https://creativecommons.org/licenses/by-nc/4.0/ II Acima de tudo, à liberdade. Por um ensino para todos, por um jornalismo livre e isento. Por todos que lutaram, que lutam e que ainda terão de lutar. III Agradecimentos Este relatório não teria sido concluído se não fosse pela insistência de várias pessoas à minha volta. Se dependesse só de mim, admito que não sei até que ponto o teria conseguido terminar. Quero deixar um agradecimento do fundo do coração aos meus pais e avó, que fizeram de tudo para que o meu caminho fosse mais fácil que o deles. Que me acompanharam em todas as etapas, me deram a mão (e o pé, se fosse preciso) e me seguraram nas várias vezes que caí. Ao meu irmão e cunhada por me acompanharem neste longo caminho que foi o ensino superior. Por ouvirem as minhas crises existenciais e me tentarem guiar sempre para onde eu sabia que precisava ir. Por me puxarem a ser melhor, porque sabiam que eu era capaz antes de eu própria chegar lá. Ao Ricardo, que, nos últimos oito anos, tem celebrado comigo todas as minhas conquistas e me acompanha, também, em todas as derrotas. Obrigada por me dares sempre a mão e caminhares comigo por onde a vida nos leva. Cátia e Nuno, sem vocês esta jornada não teria sido a mesma coisa. Graças a vocês tornei-me melhor pessoa, aluna e profissional em comunicação. De conhecidos a colegas de casa, depois amigos e, por fim, camaradas. Um obrigada à Joana não é suficiente, que me acompanha desde o ensino secundário e, mesmo que seja uma mulher das ciências exatas e engenharias e não perceba metade do que eu falo sobre a minha área, sempre me ouviu e ajudou em momentos difíceis. Um obrigado sincero à Rádio Renascença, que se tornou uma casa, e a toda equipa com que trabalhei na redação de Vila Nova de Gaia. Os três meses de estágio deram-me ferramentas que nunca vou esquecer. Deixo um obrigado especial à Daniela, que me orientou como ninguém nesse estágio; ao Eduardo, pela amizade, pela confiança no meu trabalho e por me introduzir ao mundo do jornalismo desportivo; à Ana, que me ensinou muito no terreno e me deu sempre honestidade em troca e ao André, que não hesitou em ajudar quando lhe pedi para me ensinar a dar os primeiros passos na rádio. E, por fim, agradecer à minha orientadora deste relatório de estágio, a professora Helena, que me guiou sempre na direção certa e não me deixou desistir. IV DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. V A influência da religião na linha editorial e conteúdo jornalístico: o caso da Rádio Renascença Resumo Este trabalho aprofunda o papel da religião católica na comunicação social, com foco especial na Rádio Renascença, e apresenta uma reflexão crítica sobre a experiência de estágio realizado na emissora católica. É explorada a história da rádio em Portugal, a relação histórica entre a Igreja Católica e os meios de comunicação, a presença da religião nos média e os desafios do jornalismo especializado. Esta investigação contribui para uma compreensão mais profunda das dinâmicas entre a comunicação religiosa e a prática jornalística, bem como para o desenvolvimento de uma visão crítica sobre a formação prática no campo do jornalismo. Para tal, foram feitas duas entrevistas: uma a Pedro Leal (diretor de informação) e Henrique Cunha (editor de religião). Palavras-chave: agenda-setting, financiamento, jornalismo especializado, Rádio Renascença, religião 12 História da Renascença A ideia de criação de uma emissora católica em Portugal surgiu no início da década de 1930, em diversos artigos publicados no Diário do Minho pelos padres Magalhães Costa e Domingos Bastos (Grupo Renascença Multimédia). A 1 de fevereiro de 1933, o jornalista Zuzarte Mendonça propôs, na revista "Renascença", a criação de uma rádio católica. Ainda no mesmo ano, Lopes da Cruz, outro profissional da área, avançou com o projeto. Em janeiro de 1937, começaram as emissões regulares, em onda curta e média, alcançando vários países da Europa e África. Durante quatro anos, desenvolveu-se um movimento de apoiantes a esta iniciativa para construir a Rádio. A 10 de abril de 1938, a Renascença tornou-se rádio oficial da ação católica. Em outubro de 1972, os jornalistas internos tornam-se responsáveis totais pelo conteúdo que sai. Em 1980, aparece a Bola Branca – primeiro programa direcionado para o desporto em Portugal. No início de 1987, surge a RFM, rádio musical com informação, voltada para as classes média-alta e alta, entre os 25 e os 45 anos. Onze anos depois, a 7 de setembro de 1998, nasce a Mega Hits, na Grande Lisboa. Feita por jovens e para jovens entre os 15 e os 25 anos, torna-se a preferida dos estudantes da região. Mais tarde, esta rádio expande-se para os principais polos universitários do país: Grande Porto, Coimbra, Braga, Viseu e Rio Maior. Em 1991, a RR estava pronta para abraçar outro projeto, ligado à rádio, em colaboração com mais de 60 rádios locais. A Associação de Rádios de Inspiração Cristã (ARIC) nasceu com o propósito de se ajudarem mutuamente a nível técnico e na emissão conjunta de programas. A iniciativa tornou-se conhecida a nível europeu e, em 1994, formou-se a Conferência Europeia de Rádios Cristãs (CERC) com rádios de Espanha, França, Holanda, entre outras. Na década de 90, a transmissão via satélite foi mais um passo para a RR chegar a todo o mundo e ficar mais perto dos emigrantes portugueses. “Despertar”. O programa das manhãs que foi um fenómeno de popularidade nos anos 80 e 90 juntava António Sala, em Lisboa, e Olga Cardoso, no Porto, entre as 7 e as 10 horas. O programa teve várias emissões especiais, feitas no estrangeiro ou em locais menos habituais, como um cruzeiro ou uma prisão, para além de encher praças e salas de espetáculos por todo o país com o “Despertar ao Vivo”. Foi no “Despertar” que nasceu o primeiro serviço de trânsito da rádio, com José Relvas. 13 O jingle do programa também ficou bastante conhecido, com letra de António Sala e as vozes de Nuno da Câmara Pereira, José Cid, Rodrigo, Raul Indipwo, Ana Faria, Luís Filipe Aguiar, Dina, Paulo de Carvalho, Paco Bandeira, Marco Paulo, Simone de Oliveira e Marina Mota. O primeiro website da RR nasce em outubro de 1997 com o endereço www.radiorenascença.pt. Dois anos depois muda para o ainda atual rr.pt. Em 2001, a Renascença destaca-se ao ser a primeira rádio a utilizar edição de som digital em operações de informação, capacitando os jornalistas de editar os seus trabalhos sem qualquer apoio técnico. A guerra no Afeganistão, nesse mesmo ano, marca a primeira vez em que essas tecnologias foram utilizadas. A inovação continua e, em 2007, a Renascença lança um projeto único em Portugal: um jornal diário online, com formato em PDF, para imprimir ou ler no computador, denominado "página 1". Em 2008, abre a mais recente estação do grupo, destinada ao público acima dos 55 anos: a Rádio Sim, que passa música entre a década de 1950 e os anos 80. A Renascença cresceu e tornou-se no Grupo Renascença Multimédia em 2010, do qual fazem parte quatro estações de rádio (Renascença, RFM, Mega Hits e Rádio Sim), a produtora de entretenimento e formação, Genius y Meios, e a empresa de publicidade, Intervoz. Em 2011 nasce a Renascença V+, uma webtv com produção de vídeos assente na comunicação multimédia. No mesmo ano, sai o primeiro noticiário vídeo online – V+ Informação – para consumo nas redes sociais, no online e no telemóvel. Joana Marques junta-se à RR em 2018 com o “Extremamente Desagradável”, tornando-se o podcast mais ouvido do país. O Grupo Renascença Multimédia conta, atualmente, com dois grandes acionistas da hierarquia da Igreja Católica: o Patriarcado de Lisboa, com 60% do capital, e a Conferência Episcopal Portuguesa, com os restantes 40%. Em 2023, destacaram-se: a distinção da Superbrands como Marca de Excelência em Portugal; variadíssimas distinções do seu Jornalismo como o relatório do Reuters Digital News Report que colocou a Renascença na liderança das rádios informativas em Portugal e também as distinções dos seus profissionais com os seus trabalhos jornalísticos como o Prémio de Rádio Artur Agostinho do Clube Nacional de Imprensa Desportiva atribuído ao editor de Desporto, Carlos Dias, a menção 14 Honrosa do Prémio de Jornalismo “Os Direitos das Crianças” do Fórum sobre os Direitos das Crianças e Jovens atribuído à Jornalista Daniela Espírito Santo pela Reportagem “Nos Bastidores do Tik Tok” e a Investigação “Pegada Digital” de Inês Rocha que recebeu a menção Honrosa do Prémio Jornalismo que Marca, da Centromarca. O papel da Rádio Renascença na Revolução dos Cravos No contexto histórico, a Rádio Renascença colaborou na introdução progressiva de autonomia e independência informativas, sendo decisiva na transição revolucionária ao enfrentar a tentativa de nacionalização da comunicação social, marcando a viragem política rumo à democracia e liberdade de expressão. A RR foi a estação de radiodifusão escolhida para a emissão da senha que viria a pôr em marcha as unidades militares que participaram no 25 de Abril. De acordo com Ribeiro (2000), o significado da senha era totalmente desconhecido pelos responsáveis da emissora católica. O alinhamento para a emissão de 25 de Abril incluía a leitura da primeira quadra de "Grândola, Vila Morena", a transmissão da canção na íntegra, novamente a leitura da primeira quadra, poema "Geografia", poema "Revolução Solar" e a canção “Coro de Primavera”. O dia 25 de Abril foi de uma certa normalidade na RR, que continuou as suas emissões habituais. A nível de informação, os diretores colocaram a hipótese de ignorar o que se passava, dada a incerteza dos acontecimentos. Porém, a opção tomada foi a de acompanhar os vários momentos da revolução nos seus noticiários, ainda que com a difusão da programação habitual. Com reportagem do exterior foram acompanhadas as diversas movimentações, nomeadamente no Largo do Carmo e na sede da PIDE-DGS (Ribeiro, 2000). Figura 1 - Grupo Renascença Multimédia 15 Capítulo 2 O estágio: uma análise crítica e fundamentada Como é que cheguei à Renascença? A Rádio Renascença foi a minha escolha uma vez que gosto bastante de jornalismo multimédia e a RR tem bastante abertura e interesse nesse tipo de trabalhos. O órgão de comunicação social aceitou o meu pedido de estágio e, a partir daí, foram três meses a acordar às cinco da manhã, com muito trabalho, esforço, aprendizagem e evolução à mistura. A 4 de setembro, por volta das 7h05, estava a tocar à campainha da pequena entrada da redação da RR. A minha orientadora de estágio, Daniela Espírito Santo, veio-me buscar à porta e fez questão de rapidamente me apresentar a toda a gente que estava a trabalhar e fazer uma visita guiada pelo espaço. Facilmente fiquei ambientada. Durante esse dia foram-me fornecidas as minhas credenciais de acesso ao computador e ao e-mail institucional da rádio. Estava entusiasmada, queria fazer coisas, mas ninguém me apressou. Conversaram comigo, deixaram-me ficar a ver para me familiarizar com os programas e o ritmo de trabalho e aprendi a trabalhar com o BackOffice para colocar artigos/fotos/vídeos no website e deramme algumas noções do software que utilizam para o alinhamento do noticiário da rádio, cortar sons e escrever as peças – RCS News . Antes de começar o estágio estava bastante receosa de chegar a um órgão de comunicação social e não saber fazer o que era preciso. A síndrome de impostor andou bem preso à minha mente nas semanas anteriores. Como qualquer jovem que quer ser jornalista, queria fazer um bom trabalho, aprender com os jornalistas da casa e com os erros que, inevitavelmente, iriam acontecer. Deu-se todo um processo de continuar a andar em frente, enquanto a mente e o medo inerente me queriam deixar parada no mesmo sítio. “Daqui Maria Carvalho, da Rádio Renascença” Gosto de dizer que a RR se tornou como uma casa para mim. Todos os dias saía do turno com vontade de fazer mais, encontrar novos temas de reportagens e atualizar-me sobre o que se passava no mundo. 16 Comecei no dia 4 de setembro e dois dias depois fui com a jornalista Ana Fernandes ao Hospital São João devido à greve dos médicos. O objetivo passava por encontrar pessoas que tivessem consultas ou exames marcados que haviam sido adiados por causa da greve e fazer um direto para a rádio. Ainda na primeira semana ofereci-me para editar vídeos e fazer conteúdo para as redes sociais. A minha orientadora colocou-me em contacto com a jornalista Beatriz Pereira, da redação de Lisboa, e, a partir daí, trocamos ideias quase todos os dias de coisas que eu pudesse fazer. Em simultâneo também estive em contacto com a coordenadora de multimédia, Catarina Santos, que me deu feedbacks muito importantes no que toca à gravação e edição de vídeo. “Faz-me aí umas Lusas”, foi que ouvi mais nos primeiros tempos. Antes do estágio tinha uma pequena ideia do que era “fazer (ou puxar) uma Lusa”, mas só na Renascença é que compreendi inteiramente o que significava. Tentei aprender a fazer de tudo um pouco e uma das tarefas que se tornou minha enquanto estagiei foi colocar o Explicador da manhã no website e fazer a capa do mesmo depois de este sair na rádio às 7h40. Ao entrar para a Rádio Renascença não tinha ideia de trabalhar na parte da rádio, mas nem uma semana havia passado e já estava a trabalhar em tudo. Comecei por fazer telefonemas que eram necessários para clarificar informações, fazer pequenas entrevistas e arranjar comentários para o noticiário da hora que se seguia e a cortar os melhores segundos para passarem na rádio. Outra tarefa que se tornou “minha” foi montar tripés e câmaras no estúdio principal para entrevistas, podcasts ou outros momentos radiofónicos que a RR precisava de ter gravados a partir do Porto. Na primeira vez, a Marta Mixão, jornalista multimédia da redação de Lisboa, veio explicar-me como fazer e certificar-se de que tudo ficava bem gravado. Após isso, confiaram-me o trabalho de montagem e gravação sem mais ajuda. Ainda que sem supervisão, o Paulo Teixeira, assistente de informação que comanda tudo o que tem a ver com a rádio, vinha sempre ajudar-me e oferecer uma mão amiga (e experiente) quando tinha alguma dúvida ou problema. A minha lista de contactos rapidamente foi aumentando. De psicólogos a assessores de imprensa, de cientistas a meteorologistas, o meu caderno de anotações tornou-se uma lista telefónica. Tive sempre abertura para fazer e trabalhar no que mais queria. Num dia podia estar mais virada para as redes sociais e no outro passar o turno todo num serviço exterior. 17 Organização interna e modo de funcionamento É importante destacar alguns aspetos fundamentais que caraterizam e identificam a organização interna e o modo de funcionamento da estação, sobretudo quanto ao trabalho desenvolvido pela equipa da redação (chefe de redação, editores e jornalistas). Os estúdios da RR-Porto estão sediados em Vila Nova de Gaia numas instalações feitas de raiz em 2008. Há estúdios de emissão, ilhas de gravação, gabinetes técnicos, comerciais e de direção, um bar/refeitório e uma capela. A redação é um espaço amplo, onde trabalham os jornalistas (inclusive a chefe de redação, Maria João Cunha, e o diretor de informação, Pedro Leal). De momento, a RR Porto é responsável pelos noticiários da rádio das 6h00 às 15h00. Na parte da tarde, esse trabalho passa para a redação de Lisboa. Os noticiários são dados de hora em hora. Quanto aos conteúdos programáticos, a rádio contempla passatempos, música, informação desportiva, noticiários e debate sobre temas da atualidade. A estação transmite ainda, inserida na programação de cariz religioso, as orações do Angelus (ou toque das Avé-Marias), diariamente ao meio-dia, que relembram aos católicos o momento da Anunciação, feita pelo Anjo Gabriel a Maria. A recitação do terço é emitida às 20h30 de segunda a domingo. Aos Domingos, é transmitida, também, a celebração da Eucaristia, a partir de uma igreja portuguesa. No online, dois dos quatro editores estão na equipa do Porto (Daniela Espírito Santo e Raúl Paula Santos) a assegurar entre si que tudo é publicado a tempo e com qualidade. Na secção do desporto, mais conhecida por Bola Branca, três jornalistas (Inês Sampaio, Eduardo Soares da Silva e Luís Aresta) tomam conta de tudo que é relacionado com desporto, para além de ajudarem com o online quando é necessário. Na rádio, o editor-coordenador Sérgio Costa comanda as tropas: André Rodrigues, Ana Fernandes, Hugo Monteiro, Pedro Mesquita, Vítor Mesquita e Henrique Cunha (também existe a Teresa Almeida, mas esta esteve de baixa médica durante todo o meu estágio). É de salientar que, mesmo que estes jornalistas trabalhem mais para a rádio, não deixam de escrever para o online quando necessário. Na RR, o jornalista de rádio faz as próprias peças para o site também sempre que pode. 18 Tarefas desenvolvidas e seus envolventes Ao longo dos três meses de estágio, foram publicados cerca de 250 artigos meus no site da Renascença, assinados como “Redação”. Destes 250, inclui-se “lusas”, reportagens feitas de raiz, cobertura noticiosa de eventos, peças de rádio transformadas para o site, entre outras. No meio destes trabalhos, destacaram-se alguns, por exigirem mais responsabilidade, pesquisa, entrevistas e deslocações. Foram estes trabalhos que me fizeram entender realmente o que é ser jornalista e como é que devemos agir perante as dificuldades. 50 anos da Leica em Portugal Foi-me proposto ir cobrir o aniversário da empresa Leica a Vila Nova de Famalicão. Só estava no estágio há uma semana, tinha receio de ir sozinha e não conseguir trazer uma notícia ou boas fotografias. Aceitei o desafio. Ensinaram-me a gravar som através do Marantz, deram-me uma máquina fotográfica e uma mochila com outros equipamentos e dia 14 de setembro desloquei-me para a Leica. Quando cheguei pensei em começar a procurar colegas de outros órgãos de comunicação que me pudessem auxiliar caso me surgissem dúvidas. Rapidamente juntei-me a uma dupla do Porto Canal que me acompanhou até ao fim do evento. Este trabalho correu tudo menos bem: não levei tripé e os vídeos que tentei gravar ficaram tremidos; era um evento corporativo e não havia grande história para contar. Durante o dia tive a ideia de tentar entrevistar um trabalhador da empresa para ter informação mais pessoal, para explicar se vale a pena trabalhar na Leica e porquê. Consegui falar com Maria Conceição Oliveira, uma trabalhadora que somava 44 anos de casa. De volta à redação, mostrei à coordenadora de multimédia, Catarina Santos, o que tinha gravado e as fotografias que tinha tirado. A falta do tripé foi demasiado grande para ter um vídeo de qualidade. A ideia tinha ido por água abaixo. A ideia voltou a ser possível graças à chefe de redação, Maria João Cunha. Estivemos a debater como é que contornávamos a situação para usar o material que tinha e acabou por sair o artigo “Meio século da Leica em Famalicão. “Portugal foi a chave para o sucesso mundial””. 19 Dificuldade dos estudantes de Psicologia exercerem na área Quando procurava ideias para trabalhos, reparei que o Dia Mundial da Saúde Mental se celebrava anualmente a 10 de outubro. Como a saúde, e mais especificamente a saúde mental, foi um tema que me pareceu relevante, decidi fazer uma reportagem para sair no site nesse dia. Em conversa com a minha orientadora de estágio, cheguei ao tema: as dificuldades que os estudantes de psicologia encontram quando chega ao momento de procurar trabalho. Para este trabalho encontrei duas mulheres formadas em Psicologia que tiveram muitas dificuldades em entrar para o mundo do trabalho, falei com o presidente da Associação Nacional dos Estudantes de Psicologia (ANEP) e com um membro da direção da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP). Em complemento, procurei dados que mostrassem a realidade deste assunto em Portugal. Este foi o primeiro trabalho mais independente que fiz, desde a escolha das fontes à decisão de como escrever e que material usar. Com todas as entrevistas e dados que tinha, acabei por conseguir fazer dois artigos complementares. O consumo de droga no Porto No início do estágio, o jornalista André Rodrigues estava a desenvolver uma reportagem sobre a evolução do consumo de droga no Porto. Em conversa com o André, perguntei se o podia acompanhar no terreno quando fosse gravar planos de corte para o vídeo. Dia 29 de setembro saí da redação com o André e com a Catarina Santos, primeiro deslocamo-nos ao bairro do Aleixo e depois ao da Pasteleira. Conversar com as pessoas toxicodependentes e ouvir as suas histórias foi uma experiência bastante marcante. Consegui perceber que, como jornalista, é preciso saber distanciarmos-mos enquanto continuamos a ser empáticos. É preciso ser mais humano, olhar para o outro como uma pessoa que teve escolhas de vida diferentes das nossas. A forma como o André elaborou a peça foi muito interessante e impactante. Contou as histórias, juntou factos e dados e conseguiu que o lado pessoal não se perdesse. O encerramento da Galp em Leça Quando se soube do início do processo de desmantelamento da refinaria da Galp em Leça da Palmeira, a chefe de redação, Maria João Cunha, falou comigo para fazer algum trabalho acerca do 20 assunto. Falou-se em tentar visitar, gravar vídeo e falar com trabalhadores, mas a Galp não permitiu a entrada na refinaria de nenhum órgão de comunicação social por razões de segurança. Desta forma, pensei em cobrir a manifestação dos trabalhadores no dia do início do desmantelamento e fazer artigos a contar a história da refinaria. Através de um dos assessores de comunicação da Galp, consegui falar com uma pessoa da Associação dos Reformados da Galp Energia (ARGE) que, consequentemente, me fez chegar a Luís Artur – um reformado que trabalhou 42 anos na refinaria e estava disposto a contar a sua história. Marquei a entrevista para o primeiro dia do fecho da refinaria e desloquei-me até Leça da Palmeira com a jornalista Ana Fernandes que ia cobrir a manifestação dos trabalhadores para a rádio. Com esta entrevista, pude mostrar a realidade por detrás do encerramento e o lado dos trabalhadores que perderam o seu emprego sem poder contestar. Inteirei-me de toda a história e marcos importantes deste processo para poder escrever uma reportagem verdadeira, coesa e imparcial, nunca esquecendo o lado humano da história. A chefe de redação ficou bastante contente com o trabalho final, tanto com o texto como com a vídeoreportagem que gravei e editei. Foi um trabalho muito interessante e recompensador. E se o Celta de Vigo jogasse na Liga portuguesa? Numa conversa casual num momento de pausa, o jornalista da Bola Branca, Eduardo Soares da Silva, falou-me de uma situação caricata que se andava a falar no futebol espanhol – e se o Celta de Vigo mudasse para a liga portuguesa? Tudo “começa com a indignação dos jogadores, as bancadas ressuscitam a ideia, as redes sociais servem de megafone e o tema rapidamente chega à imprensa local. O jornal “NÒS Diário” – o único da região ainda a imprimir em galego – faz um inquérito aos seus leitores”. “ Apoiaria que o Celta jogasse na liga portuguesa? ”. 90% respondeu que sim. Eduardo conta-me que vai propor ir a Vigo fazer uma reportagem sobre o assunto, entrevistando adeptos, jornalistas de desporto e quem mais aparecesse no caminho do tema. O que eu não esperava era ser convidada para o acompanhar e tratar da gravação do vídeo das entrevistas, de tirar fotografias para o artigo e gravar vários planos pela cidade. Lembro-me bem da troca de palavras depois do convite: “Tens a certeza, Eduardo? Se queres ter a certeza de que vais ter o material que precisas, leva o Miguel Ribeiro”, ao qual Eduardo responde “Cala-te, estou a apostar em ti”. E assim ficou. 21 Carreguei baterias, peguei nas lentes necessárias e preparei os tripés. A 23 de novembro arrancamos de Vila Nova de Gaia às 7h30 da manhã rumo a Vigo. Tínhamos apenas esse dia para gravar tudo e, por isso, as entrevistas estavam bem calendarizadas para conseguirmos fazer tudo o que precisávamos. Infelizmente o meu estágio terminou pouco depois e não tive oportunidade de ajudar na parte da edição dos brutos. No entanto, quando o vídeo saiu, o meu nome estava nos créditos como a responsável pelo vídeo. Admito que fiquei muito feliz pelo Eduardo ter tido essa consideração, mesmo quando eu já nem era estagiária da RR. Aprendizagens e balanços É fácil afirmar que aprendi muito durante o estágio. Ganhei competências a nível profissional, mas também a nível pessoal e social. Graças aos quase cinco anos de estudos na área das Ciências da comunicação na Universidade do Minho e às atividades extracurriculares que fui fazendo, sei que fui preparada para dar um bom contributo ao órgão que me acolhesse. No entanto, apercebi-me que algumas coisas que aprendemos sobre jornalismo nas aulas, não são necessariamente iguais no mundo do trabalho, e variam, até, de órgão para órgão. Por exemplo, o que é considerado ou não relevante para a agenda é muito mais subjetivo do que outrora pensava. Cada chefe de redação, coordenador de informação ou editor tem a sua maneira de pensar e isso influencia diariamente os temas que os jornalistas vão trabalhar ou não. Focando-me um pouco na rádio, existem algumas aprendizagens que levo comigo graças à mentoria do André Rodrigues. Achava que falar na rádio e/ou apresentar o noticiário era mais fácil do que o que realmente é, subestimei a tarefa e fui “posta no meu lugar”. Treinei todos os dias que conseguia, gravava um ou dois noticiários e, ainda que sempre atarefado, o André arranjou sempre tempo para ir para uma cabine ouvir o que eu gravei, falar comigo e dar-me sugestões. “Não está mau. Consegues melhor, continua”, ouvi muitas vezes. Com o André e a sua óbvia paixão pela profissão que faz, aprendi a importância que a nossa voz pode ter. Uma vez que na rádio não existe imagens, só conseguimos conquistar o ouvinte com a nossa voz. Para o conquistarmos, precisamos ter confiança no que dizemos e na informação que estamos a dar; é necessário trabalhar a respiração e entender as pausas que devemos dar ao ler o texto, sendo crucial adaptar a notícia à nossa forma de ler. Ninguém vai ser igual nesta parte. O sotaque não é problemático desde que a leitura seja clara, eloquente e transmita confiança. 28 para a sua própria comunicação como em ferramentas de informação” (Douyère, 2017). O autor destaca o portal news.va, o site oficial do Vaticano, a Rádio Vaticano ou o L’Osservatore romano. Num estudo realizado por António Marujo (2009), “(na"o) há# espaço nos media para o religioso”, o jornalista mostra que, em 2008, a Agência Lusa produzira 166 140 peças jornalísticas, das quais apenas 1157 eram sobre questões religiosas — o equivalente a 0,71%. Especializado em assuntos religiosos, o autor alerta que “a abordagem jornalística se fica muitas vezes pelo lado mais institucional (...) e raramente pelo lado mediaticamente mais inesperado ou aprofundado” (2009, p. 16). Outros autores, como Maria José Pou Amérigo (2008), alertam para as dificuldades de relacionamento entre o jornalismo e a religião. Os acontecimentos religiosos englobam ligações a um mundo de ideias e noções abstratas, que convocam a existência de um ser divino. Muitas das vezes, não se trata de matérias factuais ou palpáveis – aquilo com que os jornalistas mais estão habituados a lidar. Foi ao colo da comunicação que as religiões tornaram esses aspetos mais abstratos em “aceitáveis” para os crentes (Douyère, 2017). Jornalismo especializado Pedro Orive e Concha Fagoaga, autores considerados pioneiros dos estudos em jornalismo especializado em Espanha, afirmaram, em meados da década de 1970, que a especialização jornalística visa diagnosticar os problemas da sociedade atual segundo certa área de interesse, discutindo possíveis soluções e servindo para formar nos leitores uma consciência mais crítica. Segundo os autores, a presença do jornalista na sociedade: “suscita problemas de interpretação sociológica, moral ou filosófica, tal como a presença dos média suscita problemas de técnica, estilo ou estética.” (Orive e Fagoaga, 1974, p. 65). A especialização poderia ser uma “coluna vertebral” para um novo jornalismo que servisse melhor os interesses da sociedade e, simultaneamente, um espaço fundador de uma nova concepção de empresa informativa.” (Orive e Fagoaga, 1974) Em 2003, Seijas Candelas segue um raciocínio próximo ao definir a especialização “como a estrutura que analisa a realidade, fornecendo aos destinatários uma visão tão completa quanto possível do mundo, adaptando a linguagem utilizada ao nível do público do meio e aprofundando os interesses e as necessidades desse público. Em suma, é um serviço à sociedade, baseado na reflexão contínua dos diferentes estados da opinião pública”. 29 Historicamente, a especialização está associada, na sua maioria, à evolução dos meios de comunicação e a formação de grupos sociais consumidores de média cada vez mais distintos (Tavares, 2009). Sobre esta questão, Berganza Conde (2005, p.39) acredita que a especialização jornalística resulta, em grande parte, das exigências de um público cada vez mais diversificado, que exige conteúdos específicos e de acordo com os seus interesses pessoais, e que esses conteúdos sejam tratados com profundidade e rigor. Em complementaridade com a ideia de Conde, Quesada Pérez (1998, p. 26) diz que a atual heterogeneidade das atividades sociais, a par de uma crescente especialização científica e profissional, exige que os cidadãos disponham de informações completas e precisas sobre as suas áreas de interesse – jornalismo especializado. Jornalismo especializado em religião “A religião mexe com coisas muito profundas da pessoa. Naturalmente, quando estão em jogo essas questões é mais difícil, é mais delicado falar. Tratando-se das convicções íntimas de cada um, é preciso mais cuidado, mais sensibilidade, mais rigor” (Cabral, 2002, p. 106) Cabral (2002) carateriza as religiões como fenómenos humanos e sociais e que, como tal, são factos que podem e devem ser objeto de notícia. O autor considera necessário estar sempre atento ao “jornalismo competente” e ao “jornalismo pouco competente” e que o aparecimento de jornalistas especializados em assuntos de religião foi “uma das boas evoluções do jornalismo português”. Francisco Sarsfield Cabral não vê diferenças em relação aos outros tipos de especialização, como em educação, ensino, saúde ou economia. O jornalista diz que, “se o jornalismo for competente em Portugal, o catolicismo pode ser relativamente bem tratado”. Não falando apenas da religião católica, Cabral salienta o facto de outras religiões serem ignoradas e injustiçadas. Admite haver religiões minoritárias em Portugal que têm “especiais razões de queixa da ignorância dos jornalistas e da maior parte dos órgãos de comunicação”. Sobre a Rádio Renascença em particular, o autor diz que esta conseguiu, em particular na área da informação, “um razoável grau de êxito”, e que transmite informação “bastante independente”. Citando Cabral, “tanto se ouve o Partido Comunista como partidos de direita”. A Renascença não esconde ser uma rádio confessional e católica – uma opção que Cabral aprecia, uma vez que “a pior coisa dos meios de comunicação é quando não são transparentes na propriedade do seu capital e nas suas opções de fundo”. 30 António Marujo (2002) também reflete sobre o tema e seleciona quatro palavras para descrever a prática jornalística e as religiões: tempo, medo, ignorância e comunicação. Sobre o tempo, Marujo admite que os jornalistas não usam o tempo da mesma forma que os agentes religiosos, conduzindo a um “choque”: “o que por vezes para nós, jornalistas, é urgentíssimo, para os agentes religiosos é uma coisa que pode vir “a seu tempo””. Sobre o medo, há um receio do que os jornalistas possam fazer com o sagrado. Sem fugir do rigor do que se quer comunicar, a linguagem jornalística tem de traduzir qualquer facto, também o religioso, de modo que as pessoas entendam. Paralelamente ao “medo religioso da dessacralização”, há# o medo dos profissionais de comunicação perante o desafio que o discurso religioso contém: o apelo a pensar para lá do imediato, do quotidiano. A tentação de o jornalismo se ficar por aquilo que acabou de acontecer pode ser contrariada por algumas provocações do discurso religioso. Como jornalista, António Marujo confessa algum desencanto com a comunicação religiosa. Para o autor, “as religiões continuam a ignorar algumas regras básicas de funcionamento da comunicação social: a informação sobre o que se faz não passa para os jornais; continua a ignorar-se a importância de ter porta-vozes, de haver serviços profissionais bem-dotados; os documentos não são muitas vezes enviados com embargo de modo a dar possibilidade aos jornalistas de os trabalhar com mais profundidade; descura-se, enfim, a importância de tornar o facto religioso, uma notícia”. Ainda assim, a dita ignorância não existe só num dos lados - também existe do lado dos jornalistas. “Não se conhecem as diferentes vozes internas, movimentos ou opiniões dentro das comunidades religiosas. Não se sabe valorizar o que é, de facto, notícia”. “Mais importante do que ter páginas especiais ou programas específicos de carácter religioso, era que a comunidade e os agentes religiosos assumissem o religioso como um facto, um acontecimento a par das questões da saúde, da política, da economia, do desporto, da cultura” (Marujo, 2002, p.114) Agenda-setting e gatekeeping A teoria do agenda-setting sugere que os meios de comunicação têm a capacidade de determinar, aos olhos do público, o que é considerado importante ou não. Embora haja debates em torno dessa teoria, incluindo discordâncias sobre se é uma ideia estabelecida (teoria) ou apenas uma crença nos impactos no jornalismo (hipótese) (Mendonça & Temer, 2015), a nossa atenção concentra-se nos efeitos práticos dessa teoria nos estudos de jornalismo. 31 McCombs (citado em Mendonça & Temer, 2015, p. 199) destaca que "a agenda dos meios de comunicação se torna, em grande parte, a agenda do público". Em outras palavras, as pessoas tendem a considerar como temas importantes aquilo que os meios de comunicação noticiam. Como afirmado por Carlos Eduardo Franciscato, "o produto jornalístico funciona (...) para o leitor, como um indicador relativamente seguro dos factos sociais mais recentes, oferecendo um sentido de imediatidade dos fatos" (Franciscato, 2000, p. 13). Ao definir a agenda pública e atuar como uma "presentificação de um futuro próximo", a atividade jornalística representa a situação em que os leitores dependem dos conteúdos jornalísticos como ‘guias’ de questões ou formas de sua abordagem para se envolverem com as questões e processos sociais propriamente ditos" (Franciscato, 2000, p. 15). Embora a correlação entre a agenda dos meios de comunicação e a agenda do público seja amplamente aceite, e o debate sobre o tema ainda esteja em curso, a única incerteza restante, segundo Formiga (2015, p. 200), é a definição dos limites do agenda-setting . Para além da teoria do agenda-setting , o processo de construção de notícias está relacionado com a teoria do gate-keeping . Estas duas teorias não se excluem, pelo contrário, complementam-se. A teoria do gate-keeping surgiu pela primeira vez em 1947 (Correia, 2011), estabelecendo um paralelo entre o conceito e o processo noticioso. Esse conceito envolve a "sucessão de escolhas processadas ao longo de várias fases, desde a receção dos takes das agências, passando pelo processo de decisão editorial" (Correia, 2011, p. 81), onde os critérios editoriais de cada meio de comunicação têm impacto. Cada participante pelo qual a notícia passa funciona como um juiz, decidindo se a notícia deve ou não ser publicada - uma espécie de segurança com poder de veto sobre quem passa pelo portão. Condicionantes da produção noticiosa A teoria organizacional de Warren Breed, citada por Traquina (2001, p.71), “sublinha a importância dos constrangimentos organizacionais sobre a atividade profissional do jornalista”, considerando que o profissional “conforma-se mais com as normas editoriais da política editorial da organização do que com quaisquer crenças pessoais que ele ou ela tivesse trazido consigo.” Portanto, as decisões do jornalista vão além do gatekeeper e têm em conta múltiplos fatores ligados com o órgão de comunicação social onde trabalham. O fator económico e a publicidade são dois exemplos referidos como condicionantes. “O jornal é também um negócio. Todas as empresas 32 jornalísticas (...) enfrentam mais tarde ou mais cedo a tirania do balanço económico final, ou seja, a comparação entre os custos e as receitas.” (2001, p.78) Eduardo Meditsch acrescenta que “o orçamento costuma ser um campo de tensão permanente entre os valores do profissionalismo e a orientação das organizações em função do lucro” (1999, p.78, 79). 33 Capítulo 4 Entrevistas A escolha da entrevista para a recolha de informação deve-se ao facto de que “as entrevistas proporcionam um espaço para conversas prolongadas que permitem ao investigador conhecer a forma como as pessoas pensam e aquilo em que acreditam” (Knott et al., 2022, p. 1) e, portanto, possibilitam “a obtenção de informação que nunca seria conseguida através de um questionário” (Coutinho, 2015, p. 141). A escolha dos participantes nas entrevistas semiestruturadas foi feita através de uma amostragem nãoprobabilística, por casos típicos. Segundo Coutinho (2015), neste tipo de seriação “o investigador seleciona segmentos da população para o seu estudo segundo um critério pré-definido” (p. 95). Escolhi elementos da Rádio Renascença que tivessem poder de decisão relacionado com a agenda do órgão. Ao todo foram realizadas duas entrevistas, uma a Pedro Leal (diretor de informação) (Anexo 1) e a Henrique Cunha (jornalista e editor da secção de religião) (Anexo 2). A opção por entrevistas semiestruturadas deveu-se ao facto de, neste tipo de entrevistas, o entrevistado ter liberdade para debater o tema (Fraser & Gondim, 2004). Além disso, permitem combinar perguntas abertas e fechadas (Boni & Quaresma, 2005). Foi realizado um guião para a entrevista (Anexo 3), contudo, realça-se que, como se tratou de uma entrevista semiestruturada, outras perguntas surgiram no decorrer da conversa. As entrevistas foram realizadas a 17 e 30 de setembro de 2024, na plataforma mais conveniente para os entrevistados, tendo a do Pedro Leal sido feita por videochamada, na plataforma Zoom , e a do Henrique Cunha no serviço online Cleanfeed . Os entrevistados foram informados e esclarecidos em relação à investigação em causa, assim como sobre as condições de utilização da informação. Como tal, foi preparado um Termo de Consentimento Informado (Anexo 4). As duas entrevistas foram gravadas. Quanto à análise das entrevistas, uma vez que se trata da dimensão da metodologia com uma natureza mais qualitativa, optei por realizar uma análise de conteúdo. De acordo com Guerra (2014, p. 162), a análise de conteúdo pretende, através de uma forma descritiva, “dar conta do que foi narrado” ao investigador. Esta é uma análise com uma dimensão interpretativa porque “decorre das interpretações do analista face a um objeto de estudo”. 34 Inicialmente, transcrevi na totalidade as entrevistas a partir das gravações de áudio. Após a transcrição, foi realizada uma segunda escuta para corrigir possíveis erros e confirmar que aquilo que foi transcrito corresponde aquilo que foi verbalizado. Após a transcrição efetuei uma leitura das entrevistas de modo a aumentar a familiaridade com os dados. Tanto o diretor de informação da Renascença, Pedro Leal, como o editor da secção de religião, Henrique Cunha, concordam que há temas que poderão exigir um maior cuidado para serem tratados, mas que nunca lhes foi imposto não falarem ou abordarem determinado assunto. Como Pedro Leal referiu, “o que é pedido aos jornalistas em todo o mundo é que falem a verdade, que digam verdadeiramente o que viram, testemunharam, investigaram e perceberam. (...) há uma separação clara na Renascença entre o que é opinião, que é de determinada pessoa”. Henrique Cunha admite ser natural que a Rádio Renascença dedique mais tempo e espaço a cobrir eventos religiosos. “Se é uma rádio católica, de inspiração cristã, tem de ter, naturalmente, espaços dedicados à informação daquilo que habitualmente faz a informação de caráter religioso. É fundamental que haja espaço dedicado para esse tipo de acontecimentos”, explicou. O diretor de informação reitera a ideia de Henrique Cunha, afirmando que “é evidente que, se é uma rádio da Igreja, é quase que natural que haja mais notícias sobre a estrutura. Por exemplo, o patriarca fala e para muitos órgãos de informação pode não ser importante. Normalmente, para a Renascença, é importante, não por ele ser o patrão, mas por ser o patriarca de Lisboa”. “Acho que eu, enquanto católico, olho para as notícias de uma determinada forma, tenho uma determinada visão da realidade, mas isso não quer dizer que eu manipule ou que me sinta coagido a fazer determinadas coisas ou não”, reitera Henrique Cunha quando questionado se sente que a religião poderá, de alguma forma, influenciar o trabalho jornalístico. 35 Capítulo 5 Considerações finais Os três meses de estágio Rádio Renascença foram essenciais para o meu desenvolvimento profissional e pessoal. Foi um período marcado por diversos desafios e aventuras, como foi demonstrado ao longo deste relatório, mas, ainda assim, faço uma avaliação positiva da minha experiência, uma vez que consegui observar o dia a dia e a organização de uma rádio nacional. A forma como a equipa me recebeu e me guiou de semana em semana foi fundamental para ganhar mais confiança e fazer trabalhos mais desafiantes. Consequentemente, no decorrer do estágio, senti uma evolução enorme na forma como conseguia abordar e desenvolver o meu trabalho e na forma como olhava para a informação. Tive a possibilidade de cruzar múltiplas áreas do conhecimento que aprendi na universidade, desde o jornalismo multimédia à ética e deontologia no jornalismo. Este estágio permitiu-me entender a profissional que ambiciono ser. Este trabalho permitiu-me aprofundar a compreensão do papel da Rádio Renascença como um meio de comunicação social influenciado pelos valores e pela tradição da Igreja Católica, bem como refletir criticamente sobre a minha experiência de estágio nesta emissora. A imersão no ambiente profissional da Renascença permitiu não só o desenvolvimento e consolidação de competências jornalísticas, como a observação direta dos desafios inerentes ao jornalismo. As interações com profissionais experientes em ligação com as entrevistas realizadas para este relatório revelaram-se cruciais para a compreensão do processo de agenda-setting e gatekeeping na cobertura de temas religiosos, destacando a complexidade de equilibrar objetividade jornalística com a sensibilidade cultural e religiosa do públicoalvo. A Rádio Renascença, como meio de comunicação católico, desempenha um papel de mediador entre a Igreja e a sociedade, oferecendo uma plataforma que promove o diálogo entre os valores cristãos e as questões contemporâneas da sociedade portuguesa. A relação histórica entre a Igreja Católica e os média demonstram como a instituição adaptou as suas estratégias comunicacionais ao longo do tempo, à medida que os meios de comunicação se tornaram mais diversificados e complexos. A análise do jornalismo especializado no contexto religioso mostrou a 36 relevância crescente de uma abordagem mais focada, que vá além da cobertura generalista, oferecendo uma leitura crítica e informada das questões religiosas na sociedade. Por fim, este trabalho contribuiu para o debate académico sobre a presença da religião nos média e a formação de jornalistas especializados, realçando a importância de formar profissionais capazes de compreender as diversas dinâmicas da prática jornalística. A reflexão aqui apresentada abre portas para futuros estudos que poderão continuar a explorar o impacto dos média católicos em Portugal e a influência da Igreja Católica na formação da agenda pública. O jornalismo especializado, particularmente o religioso, revela-se uma área que merece mais atenção académica e prática, especialmente num mundo cada vez mais plural e mediado pela comunicação digital. 37 Referências Braga da Cruz, M. (2012). Citado em Magalhães Crespo, F. (2012). Os meus 31 anos na Rádio Renascença: Apresentação (Vol. 1, 1974-1990). Principia. http://www.snpcultura.org/os_meus_31_anos_na_radio_renascenca.html Boni, V., & Quaresma, S. J. (2005). Aprendendo a entrevistar: como fazer entrevistas em ciências sociais. Em Tese , 2 (1), 68-80. Cabral, F. (2002). A prática jornalística e as religiões. Revista Portuguesa de Ciência das Religiões , 105-107. Correia, J. C. (2011). O admirável mundo das notícias: Teorias e métodos . Covilhã: Livros LabCom. Coutinho, C. P. (2015). Metodologia de investigação em ciências sociais e humanas: Teoria e prática . Almedina. Fraser, C., & Gondim, S. M. G. (2004). A técnica de entrevista na pesquisa qualitativa. Revista Psicologia: Reflexão e Crítica , 17 (2), 207-214. Fundação Portuguesa das Comunicações. (2022, 13 de fevereiro). A rádio, um percurso com mais de 100 anos . https://www.fpc.pt/pt/a-radio-um-percurso-com-mais-de-100-anos/ Guerra, I. (2014). 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O newsmaking da Rádio Renascença: A influência da Igreja Católica nos critérios de noticiabilidade. http://repositorium.sdum.uminho.pt/bitstream/1822/64567/1/3_RelatorioEstagio_p g34183_Eduardo%2BMiranda.pdf Moreira, L. (2019). A relação da Igreja Católica com a mídia: dos meios de comunicação de massa ao Instagram do Papa Francisco. Revista Passagens , 10(1), 120137. https://doi.org/10.60543/rlcr.v0i2.4660 Pou Amérigo, M. J. (2008). El hecho religioso y su tratamiento periodístico: Limitaciones y dificultades. Estudios sobre el Mensaje Periodístico , 561-573. Puntel, J. (2011). A Igreja a caminho na comunicação. Telecomunicação , 2, 221242. http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/teo/article/viewFile/9755/6685 44 Anexo 3 - Guião base de entrevista aos jornalistas da Rádio Renascença 1. Influência da religião na linha editorial e conteúdo jornalístico • De que forma a religião influencia a linha editorial da Rádio Renascença? • Como é que a identidade católica da Rádio Renascença molda o tratamento de temas religiosos em comparação com outros órgãos de comunicação? • A religião tem um impacto direto nas notícias que escolhem publicar? Se sim, como? • Sente que há temas sensíveis ou limites na cobertura de questões religiosas devido à afiliação da rádio à Igreja Católica?!!! 2. Dinâmicas de trabalho e jornalismo religioso • No seu dia a dia, como jornalista que cobre temas religiosos, sente que há uma pressão ou expectativa em manter uma determinada postura sobre a religião?! • Como é que os jornalistas da Rádio Renascença equilibram a cobertura de temas religiosos com a necessidade de imparcialidade e objetividade?! • Já enfrentou dilemas éticos na cobertura de temas religiosos? Como lidou com isso? 3. Impacto do financiamento e da independência editorial • A Rádio Renascença recebe financiamento de entidades religiosas? Como isso afeta (ou não) a independência editorial?! • Como é que o financiamento influencia a forma como os temas religiosos são abordados na rádio?! • Acha que o financiamento tem algum impacto na qualidade e objetividade do jornalismo na Rádio Renascença?!! 4. Perspetiva sobre a relação entre religião e jornalismo • Acha que a ligação entre a religião e o jornalismo é benéfica ou pode criar conflitos de interesse?! • Como vê o papel da religião nos media em Portugal, especialmente no contexto atual de pluralidade religiosa?! • Qual é a sua opinião sobre o futuro do jornalismo religioso, especialmente em órgãos de comunicação com raízes religiosas como a Rádio Renascença? 45 Anexo 4 – Termo de Consentimento Informado TERMO DE CONSENTIMENTO INFORMADO A influência da religião na linha editorial e conteúdo jornalístico: o caso da Rádio Renascença Mestrado em Ciências da Comunicação na Universidade do Minho Atendendo à informação que lhe foi fornecida sobre o estudo em causa, pedimos que responda às seguintes questões: Compreendi todas as informações que me foram fornecidas pela pessoa que abaixo assina sobre os objetivos do estudo Sim Não Não aplicável Foi-me concedida oportunidade para colocar questões relacionadas com o estudo Sim Não Não aplicável Obtive resposta a todas as questões que coloquei sobre o projeto Sim Não Não aplicável Foi-me garantida a possibilidade de, em qualquer altura, recusar participar neste estudo sem qualquer tipo de consequências Sim Não Não aplicável Aceito participar neste estudo, permitindo a gravação áudio da entrevista solicitada, e a utilização dos dados que forneço de forma voluntária, confiando em que apenas serão utilizados para esta investigação Sim Não Não aplicável Nome e contacto do investigador: Assinatura: Nome e assinatura do participante: Assinatura: Data: ESTE DOCUMENTO É COMPOSTO DE 1 PÁGINA E FEITO EM DUPLICADO: UMA VIA PARA O INVESTIGADOR, OUTRA PARA A PESSOA QUE CONSENTE 46 Anexo 5 – Estatuto Editorial da Rádio Renascença 1 – A RÁDIO RENASCENÇA, LDA – EMISSORA CATÓLICA PORTUGUESA, é um operador de radiodifusão sonora privado e independente de quaisquer poderes políticos, económicos ou sociais, inspirando a sua actividade no Humanismo Cristão. 2 – São fins primordiais da sua actividade “a comunhão e o progresso da convivência humana” (Instrução Pastoral Communio et Progressio, 1), promovendo um “mais profundo conhecimento e a maior simpatia entre os homens, bem como cooperando no trabalho criador” (Communio et Progressio, 18). 3 – Assim, a Rádio Renascença está ao serviço da comunidade em que se insere, procurando: - em obediência «à lei fundamental da sinceridade, da honestidade e da verdade” (Communio et Progressio 17) - no respeito do rigor e do pluralismo informativos e dos princípios da ética e da deontologia profissional e da boa fé dos ouvintes. (Artº 8º nº 4 da Lei nº 2/97 de 18 de Janeiro) - assumir em todos os seus canais de emissão - Renascença, RFM e Mega Fm - a defesa dos Direitos do Homem e dos valores fundamentais da Pessoa Humana, em particular: - o combate contra a injustiça, a desigualdade e o racismo; - o respeito pelas diferenças; - uma atitude activa de tolerância; - a solidariedade com os mais fracos e mais pobres; - responder às suas necessidades de Informação, Formação, Entretenimento e Intervenção. 4 – Tendo por objectivo o serviço da população portuguesa, a Rádio Renascença desenvolverá a sua actividade, especialmente, nas seguintes áreas: - INFORMAÇÃO - Procurar o esclarecimento completo dos factos da actualidade e do seu impacto na vida do todo nacional, sem esquecer os interesses e necessidades das comunidades locais e regionais; - Proporcionar o debate entre as diversas correntes de opinião; - Actuar de acordo com critérios jornalísticos e deontológicos que garantam uma actividade informativa completa, objectiva e honesta. - FORMAÇÃO - Difundir, através da sua programação, a mensagem cristã de forma clara e ligada à realidade do quotidiano da comunidade, às questões, dificuldades e problemas concretos que atingem o homem em toda a sua dimensão, nomeadamente: 47 - favorecer o desenvolvimento de relações com base na igualdade e dignidade da pessoa humana; - promover a Justiça e a Paz; - reprovar a exclusão resultante de iniquidades; - dizer não à violência, aos guetos e à marginalidade; - fomentar a importância da preservação do ambiente, da saúde física, mental e emocional; - desenvolver o gosto pela música, promover as artes, a literatura e a cultura popular; - fazer compreender a harmonia entre as tecnologias e o desenvolvimento humano; - promover o reforço da coesão nacional, valorizando os símbolos nacionais, encorajando a cooperação e a solidariedade entre as comunidades locais e regionais e estimulando a sentimento de pertença à nação portuguesa; - contribuir para a reflexão sobre o valor e o sentido da vida, na perspectiva cristã. - ENTRETENIMENTO Testemunhar a Alegria de viver própria do cristão, proporcionando a todos os seus ouvintes uma companhia amiga. - INTERVENÇÃO Fazer intervenções críticas sempre que a Justiça, o Bem Comum ou o respeito da Pessoa Humana o exijam.”