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A procura de alimentos biológicos

Alves, Beatriz Santos

Abstract

Esta dissertação tem como objetivo estudar o mercado dos alimentos biológicos em Portugal, mais concretamente estudar a procura deste tipo de produtos, nomeadamente ao nível da caracterização do consumidor, da sua frequência de compra de alimentos biológicos e do reconhecimento ou não por parte do consumidor do logótipo biológico. Para tal, procedeu-se a uma revisão da literatura sobre o tema, na qual foram inventariados os aspetos fundamentais para a realização desta dissertação e a partir deles foram definidas as questões de investigação para averiguar a procura e a definição do mercado da alimentação biológica. Como método de recolha de dados, utilizou-se um questionário, aplicando os conhecimentos obtidos da revisão de leitura. Os dados provenientes deste inquérito foram utilizados em testes estatísticos e na abordagem econométrica com recurso ao programa SPSS. Os resultados foram relativamente satisfatórios, uma vez que se conseguiu obter evidência da relação entre algumas das variáveis em estudo, nomeadamente que os consumidores que estão dispostos a pagar o prémio de preço da alimentação biológica são os que têm maior probabilidade de comprar frequentemente este tipo de produtos e de reconhecer o símbolo de produto biológico. Também foi possível identificar que os consumidores com um rendimento líquido mensal superior tendem a reconhecer mais facilmente o logótipo biológico do que os outros. No entanto, não se conseguiu provar a relação de algumas variáveis interessantes e expectáveis como a aversão ao risco e as habilitações académicas, pelo que carecem de uma investigação mais aprofundada. É de salientar que 58% dos inquiridos que compram frequentemente alimentos biológicos estarão dispostos a pagar um prémio de preço para este tipo de produtos, enquanto em relação aos outros inquiridos apenas 27% estariam dispostos a fazê-lo. Finalmente, podemos observar que 45% dos inquiridos do segmento de rendimentos mais elevados são consumidores frequentes de alimentos biológicos, enquanto para os outros inquiridos, esta percentagem desce para 27%.

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Universidade do Minho Escola de Economia e Gestão Beatriz Santos Alves A Procura de Alimentos Biológicos Dissertação de Mestrado Mestrado em Economia Industrial e da Empresa Trabalho efetuado sob a orientação da Professora Doutora Maria Lurdes Castro Martins dezembro de 2021 A Procura de Alimentos Biológicos I Beatriz Alves ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição-NãoComercial-SemDerivações CC BY-NC-ND https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/ A Procura de Alimentos Biológicos I Beatriz Alves iii AGRADECIMENTOS A realização desta Dissertação de Mestrado contou com o apoio imprescindível de algumas pessoas, sem as quais, esta não teria sido uma realidade e as quais estarei eternamente grata pela confiança e, principalmente, companheirismo. Nem todos os momentos foram fáceis, este ano foi um ano de luta constante, pelo que tenho que agradecer a quem esteve sempre lá para me apoiar, dando-me um suporte emocional crucial para conseguir concluir esta etapa. Aos meus pais, Filipe e Célia o meu muito obrigada por todo o apoio e amor que regem a nossa relação familiar e sem os quais não seria o que sou hoje, obrigada por toda a preocupação e carinho, vocês são cruciais para manter a minha estabilidade nas fases menos boas. Ao Luís, o meu companheiro de todas as horas, o meu obrigada por toda a paciência, amor e companheirismo que fizeram com que as horas menos boas, fossem boas também, sem ti, nada disto seria possível. Por último, tenho que agradecer infinitamente à professora doutora Lurdes Martins, por ter aceitado ser minha orientadora, pela colaboração, pelo apoio incansável e principalmente pela paciência nas horas menos boas. Sem vocês este desafio seria ainda maior. Obrigada por terem acreditado em mim! A Procura de Alimentos Biológicos I Beatriz Alves iv DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. A Procura de Alimentos Biológicos I Beatriz Alves v RESUMO Esta dissertação tem como objetivo estudar o mercado dos alimentos biológicos em Portugal, mais concretamente estudar a procura deste tipo de produtos, nomeadamente ao nível da caracterização do consumidor, da sua frequência de compra de alimentos biológicos e do reconhecimento ou não por parte do consumidor do logótipo biológico. Para tal, procedeu-se a uma revisão da literatura sobre o tema, na qual foram inventariados os aspetos fundamentais para a realização desta dissertação e a partir deles foram definidas as questões de investigação para averiguar a procura e a definição do mercado da alimentação biológica. Como método de recolha de dados, utilizou-se um questionário, aplicando os conhecimentos obtidos da revisão de leitura. Os dados provenientes deste inquérito foram utilizados em testes estatísticos e na abordagem econométrica com recurso ao programa SPSS. Os resultados foram relativamente satisfatórios, uma vez que se conseguiu obter evidência da relação entre algumas das variáveis em estudo, nomeadamente que os consumidores que estão dispostos a pagar o prémio de preço da alimentação biológica são os que têm maior probabilidade de comprar frequentemente este tipo de produtos e de reconhecer o símbolo de produto biológico. Também foi possível identificar que os consumidores com um rendimento líquido mensal superior tendem a reconhecer mais facilmente o logótipo biológico do que os outros. No entanto, não se conseguiu provar a relação de algumas variáveis interessantes e expectáveis como a aversão ao risco e as habilitações académicas, pelo que carecem de uma investigação mais aprofundada. É de salientar que 58% dos inquiridos que compram frequentemente alimentos biológicos estarão dispostos a pagar um prémio de preço para este tipo de produtos, enquanto em relação aos outros inquiridos apenas 27% estariam dispostos a fazê-lo. Finalmente, podemos observar que 45% dos inquiridos do segmento de rendimentos mais elevados são consumidores frequentes de alimentos biológicos, enquanto para os outros inquiridos, esta percentagem desce para 27%. Palavras-chave: Biológico, frequência de compra, prémio biológico e rendimento. A Procura de Alimentos Biológicos I Beatriz Alves vi ABSTRACT This dissertation aims to study the organic food market in Portugal, more specifically to study the demand for this type of products, namely in terms of consumer characterization, frequency of organic food purchase and consumer recognition or not of the organic logo. To this end, a literature review on the theme was carried out, in which the fundamental aspects for the realization of this dissertation were inventoried and from them the research questions to investigate the demand and the market definition of organic food were defined. As a method of data collection, a questionnaire was used and developed, applying the knowledge obtained from the literature review. The data from this survey were used in statistical tests and econometric approach using the SPSS program. The results were relatively satisfactory, since it was possible to obtain evidence of the relationship between some of the variables under study, namely that consumers who are willing to pay the price premium for biological food are the ones who are more likely to frequently buy this type of products and to recognise the biological product symbol. It was also possible to identify that consumer with a higher monthly net yield tend to recognise the organic logo more easily than others. However, it wasn´t possible to prove the relationship of some interesting and expected variables such as risk aversion and academic qualifications, so they need further research. It is noteworthy that 58% of the respondents who frequently buy organic food would be willing to pay a price premium for this type of products, while for the other respondents only 27% would be willing to do so. Finally, we can observe that 45% of the respondents from the higher income segment are frequent organic food consumers, while for the other respondents this percentage drops to 27%. Keywords: Biological, biological premium, yield and purchase frequency. A Procura de Alimentos Biológicos I Beatriz Alves vii ÍNDICE GERAL DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS ............. ii AGRADECIMENTOS .................................................................................................................. iii DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE .............................................................................................. iv RESUMO ................................................................................................................................... v ABSTRACT ................................................................................................................................ vi CAPÍTULO I - INTRODUÇÃO .................................................................................................... 13 1.1 Enquadramento ............................................................................................................ 13 1.2 Motivação e Justificação do trabalho ........................................................................... 14 1.3 Objetivos ....................................................................................................................... 15 CAPÍTULO II - O MERCADO DOS PRODUTOS DE ALIMENTAÇÃO BIOLÓGICA ........................ 15 2.1 Definição de produto de alimentação biológica .......................................................... 16 2.2 A oferta de produtos de alimentação biológica ........................................................... 17 2.3 Evolução e disparidades regionais em Portugal ........................................................... 18 2.4. Evolução e disparidades regionais na União Europeia ................................................ 21 2.5 A regulação europeia dos produtos de alimentação biológica .................................... 25 2.6 Logótipo Biológico ........................................................................................................ 27 2.7 A procura de produtos de alimentação biológica ........................................................ 33 CAPÍTULO III – O FUTURO DA PRODUÇÃO BIOLÓGICA .......................................................... 37 3.1 Nova legislação a partir de 2022 .................................................................................. 37 3.2 Plano de ação para a produção biológica da EU .......................................................... 38 3.3 Investigação e inovação na produção biológica ........................................................... 40 CAPÍTULO IV – DADOS E METODOLOGIA ............................................................................... 41 4.1 Modelos e variáveis empíricas ..................................................................................... 43 CAPÍTULO V – ESTUDO EMPIRICO SOBRE A PROCURA DE PRODUTOS BIOLÓGICOS ............ 46 A Procura de Alimentos Biológicos I Beatriz Alves viii 5.1 População, método de recolha de dados e amostra .................................................... 46 5.2 Análise das características que originam o consumo de produtos biológicos ............. 52 CAPÍTULO VI – ANÁLISE E DISCUSSÃO DE RESULTADOS ........................................................ 55 6.1 – Caracterização da amostra ........................................................................................ 55 CAPÍTULO VII – CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................... 60 7.1 Principais resultados ..................................................................................................... 60 7.2 Limitações e recomendações ....................................................................................... 62 APÊNDICE ............................................................................................................................... 69 APÊNDICE I – QUESTIONÁRIO ............................................................................................. 69 A Procura de Alimentos Biológicos I Beatriz Alves ix ÍNDICE DE GRÁFICOS Gráfico 1 - Hectares utilizados pelos países da Europa para agricultura biológica em 2016. 22 Gráfico 2 -Caracterização da amostra quando ao género. ..................................................... 48 Gráfico 3 - Caracterização da amostra por classes de idades. ................................................ 49 Gráfico 4 - Caracterização da amostra pelo número total do agregado familiar. .................. 49 Gráfico 5 - Caracterização da amostra relativamente ao estado civil dos inquiridos............. 50 Gráfico 6 - Caracterização da amostra quanto às habilitações literárias do inquerido. ......... 50 Gráfico 7 - Caracterização da amostra pela zona de residência. ............................................ 51 Gráfico 8 - Caracterização da amostra pelo estilo de vida. ..................................................... 51 Gráfico 9 - Caracterização da amostra de rendimento mensal do agregado familiar. ........... 52 Gráfico 10 - Significado de alimento biológico para os inquiridos. ......................................... 53 Gráfico 11 - Motivos de compra de produtos biológicos. ....................................................... 54 Gráfico 12 - Local de compra de alimentos biológicos. .......................................................... 55 A Procura de Alimentos Biológicos I Beatriz Alves 16 comparando aspetos de alimentos biológicos e de produção convencional. Desta forma, o futuro da agricultura biológica dependerá, em grande parte, da procura do consumidor, pelo que é importante por si só, uma abordagem orientada para o consumidor de forma a entender a agricultura biológica, mas também numa perspetiva de resposta à mudança da dinâmica do mercado dos bens alimentares. De modo geral, embora haja algum conhecimento acerca de produtos biológicos, os consumidores não são unânimes na definição deste tipo de produtos, apesar de alguns entenderem as questões mais amplas deste tipo de alimentos, a maior parte não entende os aspetos mais específicos e complexos deste tipo de alimentos. Talvez, a incerteza quanto aos verdadeiros atributos dos produtos biológicos e o ceticismo quanto aos rótulos deste tipo de produtos, impeça os consumidores de adquirirem produtos desta categoria mais regularmente. De igual forma, há também considerações do lado da oferta que serão exploradas nas seções que se seguem. Começa-se por esclarecer o conceito de produto biológico. 2.1 Definição de produto de alimentação biológica As definições mais comuns de um alimento produzido biologicamente, enfatizam a tecnologia ou práticas e princípios de produção utilizados (Bourn e Prescott, 2002). Desta forma, enquanto algumas definições destacam dimensões como “sistemas biológicos” ou “sistemas naturais de produção” (Klonsky e Tourte, 1998), outras enfatizam a limitação do uso de produtos químicos artificiais na produção biológica. No entanto, há autores que colocam a questão de maneira mais pungente, como Vindigni (2002) que argumenta que o termo biológico se refere a uma “reivindicação de processo” e não uma “reivindicação de produto”. Produção biológica é um sistema geral de gestão agrícola e produção de alimentos que procura, a agricultura sustentável, produtos de elevada qualidade e uso de processos que não prejudiquem o meio ambiente, a saúde e o bem-estar humano. “Bio”, “eco” e “orgânico” são alguns dos termos usados para referir produtos biológicos. No entanto, alimentos cultivados biologicamente não devem ser confundidos com alimentos vendidos como “naturais”. Os alimentos biológicos têm uma variedade de definições, no entanto em todas elas a base é A Procura de Alimentos Biológicos I Beatriz Alves 17 mesma, ou seja, alimentos minimamente processados e cujos ingredientes são produtos naturais. Na língua inglesa é utilizado principalmente o termo orgânico, enquanto nas línguas latinas e germânicas, o termo bio/ biológico prevalece. Nos Estados Unidos, o termo “orgânico”, pode ser usado para produtos biológicos certificados, enquanto “natural” é uma expressão que legalmente não está regulamentada. 2.2 A oferta de produtos de alimentação biológica Conforme referido anteriormente, o mercado biológico, está em constante evolução, os consumidores europeus gastaram cerca de 22 biliões de euros no mercado de produtos biológicos em 2013 (segundo dados do Parlamento europeu, publicados no relatório “Organic production and the European Union” em maio de 2015) 1 , e, segundo a mesma fonte, os produtores europeus representam 1/8 dos produtores mundiais e usam terrenos cuja área será de aproximadamente 10 milhões de hectares. Os consumidores estão dispostos a pagar um preço premium (ou prémio de preço) pelos alimentos biológicos, que segundo alguns autores pode chegar a cerca de 10% mais quando comprando com o preço dos alimentos convencionais (Winter e Davis, 2006). No entanto, por outro lado, apesar do potencial do prémio de preço, os produtores biológicos geralmente enfrentam rendimentos mais baixos e custos de produção mais altos do que os produtores convencionais. Por exemplo, Seufert, Ramankutty e Foley (2012) usam uma meta-análise abrangente para examinar o desempenho relativo da rentabilidade dos sistemas de agricultura biológica e convencional e defendem que a rentabilidade dos produtos biológicos é tipicamente entre 5% e 34% inferior aos produtos convencionais, desta forma os custos de produção de alimentos biológicos geralmente são mais altos devido à restrição do uso de certos pesticidas e fertilizantes na agricultura, o que significa que, será necessário mais trabalho e gastos adicionais com a substituição dos pesticidas e fertilizantes, controle de ervas daninhas, pragas e doenças. Os alimentos biológicos pertencem ao grupo dos bens credenciados, o que significa que 1 “Organic production and the European Union” https://www.europarl.europa.eu/RegData/etudes/IDAN/2015/548989/EPRS_IDA%282015%29548989_EN.pdf A Procura de Alimentos Biológicos I Beatriz Alves 18 os clientes não podem verificar as características biológicas, mesmo após a compra e o consumo (Nuttavuthisit e Togersen, 2015), desta forma muitos clientes temem ser enganados ao comprar estes alimentos, mesmo que estes produtos estejam rotulados, assim para criar a confiança dos clientes nestes produtos, muitos produtores investem no seu próprio sistema de credibilidade, por exemplo, usando um sistema de rastreabilidade (Choe, Chung e Moon, 2008). 2.3 Evolução e disparidades regionais em Portugal De acordo com Silva (2000) a agricultura biológica é uma atividade antiga em Portugal. Tendo as primeiras atividades começado em 1976 e a primeira associação “Associação Portuguesa de Agricultura Biológica (AGROBIO)” ser constituída no ano de 1985. Verificou-se um aumento lento do número de produtores até o ano de 1990, começando este número a aumentar a partir desta data. De acordo com a Eurostat, em Portugal Continental, a área agrícola em MPB (modo de produção biológico), aumentou significativamente desde 1994 a 2007. Neste ano verificou-se uma quebra da tendência de crescimento do número de produtores e na área explorada, motivada pela transição dos programas de apoio ao desenvolvimento rural, que se reverteu posteriormente no ano de 2010, mas voltando a crescer no ano de 2014, com o contributo da nova PAC (2014-2020), onde foi definida uma distribuição mais equilibrada de apoios financeiros, quer na agricultura sustentável, quer no modo biológico. De acordo com a Direção Geral da Agricultura e Desenvolvimento, nos últimos oito anos, a área em MPB apresentou uma evolução positiva, situando-se em 2017 nos 252 812 hectares, o que corresponde a cerca de 6,9% do valor da SAL (superfície agrícola utilizada) de 2013 e a um aumento de 25,8% face a 2010. O número de produtores em MPB também tem vindo a aumentar nos últimos anos, atingindo em 2017 os 4 267, o que representa um aumento de 13,8% face ao ano anterior. A Procura de Alimentos Biológicos I Beatriz Alves 19 Figura 1 - Área em MPB e produtores em Portugal Continental, em 2018 (DGADR, 2021) Figura 2 - Distribuição da área em MPB por tipo de cultura, em Portugal continental, em 2017 (DGADR, 2021) Na figura abaixo apresenta-se a distribuição por tipo de cultura das explorações MPB, no continente, em 2017, predominando as pastagens com 58,0%, seguindo-se das culturas forrageiras com (14,9%) e por fim os frutos secos com 9,7%. Entre 1985 e 2012, o número de agricultores de produtos biológicos era de 1651 com 157179 hectares (Ferreira, 2012). Em 2012, as pastagens, os olivais e plantas aromáticas ocupavam as maiores áreas em produção biológica. Na pecuária, o gado ovino era o mais A Procura de Alimentos Biológicos I Beatriz Alves 20 representado, seguido do bovino e aves. A procura em Portugal, de acordo com Ferreira, (2012), presidente da Direção da AGROBIO, é superior à oferta, incidindo esta, principalmente, nas frutas e legumes, o autor refere ainda, que Portugal tem condições ótimas de desenvolvimento de produção hortofrutícola, plantas aromáticas e medicinais, vinho e azeite. No ano de 2004 foi publicado pelo Ministério da Agricultura do Desenvolvimento Rural e das Pescas um plano nacional para o desenvolvimento da agricultura biológica, este plano teve como finalidade aumentar o mercado de produtos biológicos e consequentemente aumentar a quota do consumo desses produtos. O plano incluiu 73 medidas integrando toda a cadeia de valor desde a produção até ao consumidor, sendo os objetivos principais aumentar a área cultivada em modo de produção biológica de 3,2% em 2004 para 7% até o final de 2007 e aumentar o número de agricultores de 1.174 em 2004 para 4.700 em 2007. Desta forma, a “Estratégia Nacional para o Desenvolvimento Sustentável – 2015” aprovada em 2007, reafirmava a importância da agricultura biológica e pretende estender a superfície agrícola utilizada (SAU) em agricultura biológica dos 3,2% em 2003 para 10% em 2013. O mercado biológico em Portugal é pequeno quando comparado com outros países da UE. Há alguns anos atrás , os produtos biológicos eram vendidos para um mercado específico em que associações de produtores a nível regional se responsabilizavam pela comercialização dos produtos, por exemplo a Biocoop na grande Lisboa e a Naturocoop na região do Porto que são cooperativas de consumidores de produtos de agricultura biológica. Os produtos biológicos que antes eram vendidos apenas por cooperativas, diretamente nas explorações e em lojas especializadas (produtos dietéticos, naturais), hoje em dia, estão a venda nas grandes superfícies, feiras, e também apresentam uma nova tipologia de venda com distribuição ao domicílio, os “cabazes” com produtos biológicos. O mercado nacional assim como o internacional apresenta uma procura crescente e insuficientemente satisfeita (Gomes e Castelo-Branco, 2005). Apesar da produção local ter aumentado ao longo dos anos, ainda se registam 50% de importações de países como Alemanha, França e Reino Unido. A Procura de Alimentos Biológicos I Beatriz Alves 21 Figura 3 - Percentagem da área em MPB, em relação à SAU, em 2016 e 2017 (DGAR, 2021) Como se verifica no gráfico 2, comparando Portugal com os restantes países da União Europeia a 28 (UE-28), verifica-se que entre 2016 e 2017, a área agrícola em modo de produção biológica (MPB) assumiu uma maior importância em países como a Áustria, Suécia e Itália, encontrando-se Portugal (com 7,04% de área em MPB face à SAU, em 2017) com valores semelhantes à média da UE – 28 (7,03%, em 2017). 2.4. Evolução e disparidades regionais na União Europeia De acordo com a European Comission, (2014), o regime europeu de produção e controlo biológicos, foi criado no ano de 1991, para um número limitado de consumidores e produtores. Expandir e responder à procura de produtos biológicos e da sua qualidade, sem colocar em risco o consumidor é um dos grandes desafios deste tipo de agricultura. Tentando responder a estas necessidades do consumidor, com produtos com qualidade, sem o uso de substâncias químicas e organismos geneticamente modificados (OGM), exige um especial esforço por parte dos produtores mais pequenos, devido à regulamentação deste tipo de agricultura. Nos últimos anos, devido à crescente procura, o mercado biológico tem evoluído significativamente. Na primeira década do século XXI, o número de produtores biológicos, bem como a sua superfície de produção cresceu rapidamente. A cada ano, são convertidos em média mais 500 mil hectares para produção biológica. Entre 2000 e 2012, a área de A Procura de Alimentos Biológicos I Beatriz Alves 22 Top 10 dos países europeus com mais hectares utilizados para agricultura biológica 2500000 2000000 1500000 1000000 500000 0 Hectares utilizados pelos países europeus para a agricultura biológica Gráfico 1 - Hectares utilizados pelos países da Europa para agricultura biológica em 2016. Fonte: FIBL – AMI (2018) baseado nos dados da Eurostat. Elaborado pela autora produção biológica aumentou cerca de 6,7% em cada ano de acordo com a European Commission, (2014). No gráfico seguinte podemos observar os 10 países europeus com mais hectares utilizados, para a agricultura biológica no ano de 2016. Neste, verifica-se que a Espanha é o país que mais disponibiliza hectares para este tipo de agricultura tendo um total de hectares utilizados de 2018802. A agricultura do modo de produção biológica tem sido um setor de crescimento na Europa. No início do século XX, a agricultura biológica desenvolveu-se muito por iniciativa particular, no entanto por volta de 1990, esta situação modificou-se quando as preocupações ambientais se tornaram fundamentais para a política agrícola da UE. Paralelamente a esta, uma outra preocupação da UE, era a proteção do termo “produtos biológicos”, uma vez que muitos produtores e retalhistas, utilizavam este termo de maneira incorreta, para promoverem os seus produtos. Sendo assim, de acordo com Offermannan et al., (2009) a partir de 1992, a Comissão Europeia através da Regulamentação CEE no 2092/91 incentivou a orientação de marketing para a agricultura biológica e formalmente e protegeu o termo “biológico” na agricultura. Para além disto, desde 1994, a Política Agrícola Comum (PAC) incentiva e apoia financeiramente medidas agroambientais menos agressivas para o meio A Procura de Alimentos Biológicos I Beatriz Alves 23 ambiente, resultando num aumento considerável de produção biológica na década de 90. Comparando o rendimento dos dois tipos de agricultura (convencional e biológica), conclui-se que em 2001, a UE-15 investiu cerca de 500 milhões de euros em hectares para este tipo de agricultura, sendo que a agricultura biológica recebeu entre 183 a 186 euros por hectare, enquanto a agricultura convencional, recebeu cerca de 89 euros por hectare, de acordo com Dimitri e Oberholtzer, (2005). Esta discrepância no nível de subsidiação, justifica-se pela diferença de produtividade entre os dois tipos de agricultura. Em 2003/2004 com a reforma da PAC e o Plano europeu de Ação para Alimentos e Agricultura Biológica (“European Action Plan for Organic Food and Farming”), a Comissão Europeia implementou uma política mais voltada para o comércio, convertendo o sistema de pagamento direto por pagamento por unidade produtiva independentemente do volume de produção (Dimitri e Oberholtzer, 2005). Nos anos seguintes legislou-se no sentido de aprofundar a regulamentação do modo de produção biológica e a certificação. A resposta à regulamentação estabelecida e à atribuição de subsídios foi forte e imediata. A área de produção biológica é uma das que tem tido maior desenvolvimento no sector alimentar Europeu (Hughner et al, 2007 e Chen, 2007). O valor do mercado europeu de alimentos biológicos é estimado em 14,4 mil milhões de euros, e é considerado o maior do mundo, sendo que, os países com os mercados mais desenvolvidos de produção biológica são a Alemanha, o Reino Unido, a França e a Itália. No entanto, o mercado na UE de alimentos biológicos não é uniforme, o consumo per capita varia muito de acordo com o país, nomeadamente em relação ao consumo médio de produtos biológicos por consumidor, a Áustria, Luxemburgo e a Dinamarca são os países mais destacados. Desta forma, um dos principais pontos críticos para o desenvolvimento do mercado é a consciencialização dos consumidores em relação aos alimentos biológicos e o poder de compra dos consumidores. A crise económica de 2008 não afetou os países com mercado mais desenvolvidos, permanecendo estáveis, ao contrário do mercado do Reino Unido que foi o único afetado, de acordo com a European Commission Agriculture and Rural Development, (2021). A expansão da comercialização dos alimentos biológicos nos últimos 10 anos deve-se muito à disponibilidade desses produtos nas cadeias retalhistas não especializadas como os supermercados e os hipermercados um pouco por toda a União Europeia, ocorrendo A Procura de Alimentos Biológicos I Beatriz Alves 24 principalmente nos países do norte da europa (Suécia, Dinamarca, Finlândia e Reino Unido). Nos países mediterrâneos como a Itália e a Espanha, os produtos biológicos são vendidos principalmente nas lojas especializadas, sendo a procura superior por produtos como as frutas e os vegetais com vendas entre 15-36% (nos maiores mercados da UE), seguindo-se dos lacticínios com 16-24% das vendas, e por fim em terceiro lugar as carnes com 10%. Segundo dados da Comissão Europeia (2021), quase um terço das importações biológicas para a UE em 2019 dizem respeito aos Países Baixos com cerca de 32%, e a outros estados-membros que se destacam na importação de produtos biológicos como a Alemanha (13%), o Reino Unido (12%) e a Bélgica (11%). As importações biológicas nos EstadosMembros que aderiram à UE após 2004 continuam a ser ligeiramente superiores a 3%. Para algumas das categorias de produtos, estima-se que as importações biológicas representem uma parte significativa das importações totais, aproximadamente 20% das importações são biológicas. Para as outras categorias de produtos, as importações biológicas representam até um máximo de 10% do total das importações e, para a grande maioria, inferiores a 5%. Globalmente, estima-se que as importações agroalimentares biológicas representem cerca de 2% do volume total das importações agroalimentares. Na União Europeia, o mel é o principal produto animal biológico importado, as importações em 2019 mantiveram-se estáveis face ao ano anterior, cerca de 18 mil toneladas. Além do mel, as importações de produtos biológicos de origem animal na UE são insignificantes e representam em conjunto menos de 1000 toneladas (t) em 2019. Ao nível da exportação, A China, o México e o Brasil são os principais países exportadores de ovos e mel de produção biológica para a UE. A carne bovina e os produtos animais não comestíveis de produção biológica são importados principalmente do Uruguai. Importações (2018) Importações (2019) Mel e ovos 17808 18032 Dos quais mel 17693 17901 Carne de bovino, fresca, refrigerada e congelada 666 486 Produtos animais não comestíveis 453 233 Carne de ovelha e cabra fresca, refrigerada e congelada 132 71 A Procura de Alimentos Biológicos I Beatriz Alves 25 2.5 A regulação europeia dos produtos de alimentação biológica A certificação dos produtos biológicos é um processo no qual uma entidade terceira (entidade de controlo e certificação) garante que o produto foi cultivado, processado, e distribuído apropriadamente e que segue os regulamentos do sector biológico, todas as explorações agrícolas biológicas passam por um período de conversão antes de poderem vender os seus produtos como biológicos. Segundo dados da Direção Geral da Agricultura e Desenvolvimento (2021), o sistema de inspeção é feito pelo menos uma vez por ano, para garantir o cumprimento das obrigações estabelecidas pelo regulamento do sector biológico. Em Portugal, de 1985 a 1996 a AGROBIO era responsável pela certificação e controlo da agricultura biológica, no entanto a partir de 1996 em nome da transparência do sistema de certificação este passou a ser desenvolvido por entidades experientes e exclusivamente dedicadas à regulamentação. Desta forma a AGROBIO passou a ser considerada apenas como associação de produtos biológicos, tendo-se criado entidades certificadoras diferenciadas. A primeira a ser constituída foi a SOCERT-PORTUGAL, que anos mais tarde passou a ser denominada ECOCERT PORTUGAL. O Grupo ECOCERT é um organismo privado, líder no controlo e certificação do modo de produção biológico a nível mundial, que permite, para além de usufruir da sua capacidade e “know how”, utilizar o seu logótipo, garantia adicional da qualidade do serviço prestado e mais-valia para o reconhecimento, em confiança, dos produtos dos seus operadores por milhões de consumidores. Na União Europeia, a produção biológica tem sido regulada desde 1991, segundo o Regulamento (CE) 834/2007 do Conselho, de 28 de junho de 2007, relativo à produção Queijo 0 1 Carne de porco, fresca, refrigerada e congelada 19 0 Manteiga 0,2 o Total 19079 18823 Tabela 1 - Volumes biológicos relativos à importação de produtos animais por categoria de produto, 2018 e 2019 (t). Elaborada pela autora A Procura de Alimentos Biológicos I Beatriz Alves 32 Figura 10 - Exemplo de utilização incorreta do logótipo biológico da UE Fonte: Comissão Europeia 2021 No local de aplicação do logótipo, a indicação do local de cultivo das matérias-primas agrícolas que compõem o produto deve ser colocadas da seguinte forma: • “Agricultura da UE”, sempre que a matéria-prima agrícola tenha sido produzida na União Europeia, • “Agricultura fora da UE”, sempre que a matéria-prima agrícola tenha sido produzida em países terceiros; • “Agricultura da UE/fora da UE”, sempre que uma parte das matérias-primas agrícolas tenha sido produzida na Comunidade e outra parte num país terceiro. A indicação “UE” ou “fora da UE” acima referida pode ser substituída ou completada pelo nome de um país, caso todas as matérias-primas agrícolas que compõem o produto nele tenham sido produzidas, no entanto não pode figurar numa cor, num tamanho nem em caracteres mais destacados do que a denominação de venda do produto. O Logótipo Biológico da UE deverá considerado um símbolo inalterável, sendo que desta forma não é permitida a adição de qualquer tipo de texto, logótipo, símbolo ou outros elementos na área em branco, conforme demonstrado na figura 7. A Procura de Alimentos Biológicos I Beatriz Alves 33 2.7 A procura de produtos de alimentação biológica Embora as perspetivas acima sobre alimentos produzidos biologicamente sejam úteis de várias maneiras, elas fornecem relevância limitada para a conceção de tomada de decisão do consumidor e, consequentemente no entendimento das preferências e atitudes do consumidor em relação aos alimentos biológicos. Na realidade, a escolha da decisão do consumidor a favor do biológico é feita pela comparação de um conjunto de características (observáveis e não observáveis) do bem. Características estas, que nos remetem a uma perspetiva económica desenvolvida por Nelson (1970), a saber, características de credibilidade. As características de credibilidade de um bem, são qualidades que são difíceis, ou em alguns casos, impossíveis de detetar, mas que desempenham um papel importante para o comprador (Andersen e Philipsen, 1998). Segundo estes autores, um bem de credibilidade é aquele pelo qual a decisão de compra é dominada por perceções sobre características de credibilidade do produto. Segundo Hansen (2001), as características dos alimentos biológicos podem entrar na função utilidade do consumidor e podem ser agrupadas em atributos gerais e específicos dos alimentos. Atributos gerais são aqueles que se referem à segurança alimentar, à saúde humana, a efeitos ambientais e a aspetos de bem-estar dos animais. Atributos específicos de Figura 11 - Exemplo da correta utilização do logótipo biológico da UE Fonte: Comissão Europeia 2021 A Procura de Alimentos Biológicos I Beatriz Alves 34 mercadorias são os que incluem variáveis como apelo visual, valor nutricional, sabor, frescura, entre outros. Em contrapartida, Caswell (2000) identificou cinco atributos da qualidade dos alimentos (segurança, nutrição, valor, embalagem e processo de produção). Embora os consumidores possam não distinguir adequadamente entre produtos biológicos e convencionais em relação aos seus atributos gerais, eles podem reconhecer o sabor único, o apelo visual ou a frescura de produtos específicos, no entanto, estas características sensoriais podem não ser suficientes para determinar se um produto é biológico ou não. Consequentemente, sinais de qualidade, como rótulos de produtos, ajudam a transformar características de credibilidade em atributos de pesquisa, permitindo que os compradores avaliem com mais clareza a qualidade do produto. Os produtos biológicos competem com as alternativas convencionais do mercado, embora este tipo de produtos obtenha um preço mais alto em comparação com as suas alternativas convencionais, alguns consumidores continuam a preferi-los. Esta observação e outras relacionadas levaram Lancaster (1966) a argumentar que a teoria tradicional da procura do consumidor é inadequada para explicar por que os consumidores compram, por exemplo, produtos biológicos em vez de alternativas cultivadas convencionalmente, uma vez que esta nada diz sobre as características intrínsecas da mercadoria. Adicionalmente, esta também fornece explicações limitadas sobre como a procura muda quando se altera uma ou mais das características ou quando um novo bem introduzido no mercado se encaixa no padrão de preferência dos consumidores em relação aos bens já existentes (Lancaster, 1991). Segundo Lancaster (1971), a omissão de informações sobre as características inerentes aos bens de consumo na teoria tradicional do consumidor torna a teoria incapaz de lidar com alguns aspetos importantes da procura do consumidor no mundo de hoje. A saúde, qualidade do produto e a preocupação com a degradação natural do meio ambiente são vistos como os principais motivos que influenciam os consumidores a comprar alimentos biológicos. Embora haja variações na priorização dos motivos, a “saúde”, que surgiu como o principal ponto de consideração na compra de alimentos biológicos parece não ter igual protagonismo nos resultados empíricos obtidos na literatura sobre o tema (Shafi e Madavaiah, 2013). Os alimentos biológicos também estão associados ao bem-estar, desta forma a crença do consumidor sobre os efeitos sobre a saúde e as consequências que os alimentos biológicos A Procura de Alimentos Biológicos I Beatriz Alves 35 podem ter nela, faz com que ele se sinta melhor, com a sensação de que estes têm nutrientes saudáveis e trazem satisfação uma vez que as suas escolhas saudáveis levam ao seu bem-estar emocional (Apaolaza, Hartmann, D'Souza, e López, 2018). Pelo contrário o estudo realizado por Testa, Sarti e Frey (2019) também indica que a consciência da saúde não é o único fator que determina a atitude positiva do comportamento do consumidor em relação aos alimentos biológicos, mas existem outros fatores, que influenciam a sua intenção de comprar, como a preocupação com a qualidade e o meio ambiente natural. No entanto o motivo da saúde domina o motivo do meio ambiente (Magnusson, Arvola, Koivisto Hursti, Aberg e Sjoden, 2003; Wandel e Bugge, 1997), uma vez que o benefício da saúde está intimamente associado aos indivíduos e à família, enquanto a consciência ambiental é mais benéfica para a sociedade, portanto, indivíduos com consciência da saúde provavelmente tomarão decisões que melhorarão a sua saúde por estarem conscientes e mais atentos a si, estão motivados a comprar produtos que são bons para si e a melhorar o seu estilo de vida, desta forma tornamse autoconscientes e tentam melhorar sua imunidade. Alguns consumidores preferem produtos biológicos uma vez que acreditam que estes são mais saudáveis e menos prejudicais que os convencionais, com melhor qualidade sensorial. Alguns autores têm também vindo a indicar que os consumidores preferem alimentos biológicos quando as diferenças percebidas entre alimentos biológicos e convencionais são maiores, sendo isto especialmente verdade ao integrar características objetivas e subjetivas do produto (Chryssochoidis, 2000). A diferença é avaliada de acordo com os recursos caracterizados pelos atributos de pesquisa, experiência e credibilidade (Gracia e Magistris, 2008). Atributos de pesquisa e experiência são aqueles que os consumidores descobrem num produto antes e depois do consumo, respetivamente. Atributos de credibilidade são aqueles que os consumidores não podem julgar mesmo após a compra ou o consumo (Caswell, 1998; Darby e Karni, 1973; Nelson 1970). Os fatores de credibilidade foram considerados fundamentais na procura por produtos biológicos (Fernqvist e Ekelund, 2014; Gracia e Magistris, 2008; Lee e Hwang, 2016), uma vez que estes atributos incluem benefícios de saúde, segurança alimentar, valor nutricional, qualidade dos alimentos, benefícios ambientais, bem-estar animal e práticas sustentáveis de produção. Os atributos de pesquisa incluem preço, disponibilidade e aparência. Os atributos de experiência incluem sabor e frescura, uma vez que num contexto de compra de produtos é A Procura de Alimentos Biológicos I Beatriz Alves 36 pressuposto que os consumidores possam avaliar a frescura do produto durante ou após a compra e consumo. Autor/autores Fatores explicativos da procura Variável correspondente no estudo empírico Nelson (1970) / Andersen e Philipsen, 1998 Características de credibilidade Motivo de compra Hansen (2001) Atributos gerais e específicos dos alimentos (segurança alimentar e à saúde humana) Aversão ao risco; Estado atual de saúde Caswell (2000) Atributos de qualidade: segurança, nutrição, valor, embalagem e processo de produção Motivo de compra Estado atual de saúde Shafi e Madavaiah, 2013 A saúde, qualidade do produto e a preocupação com a degradação natural do meio ambiente Padece de algum problema de saúde crónico Motivo de compra Apaolaza, Hartmann, D'Souza, e López, 2018 Bem-estar associado a este tipo de produtos Motivo de compra Testa, Sarti e Frey (2019) Preocupação com a qualidade e o meio ambiente natural Motivo de compra Magnusson, Arvola, Koivisto Hursti, Aberg e Sjoden, 2003; Wandel e Bugge, 1997 Motivo saúde é superior à preocupação com o meio ambiente Motivo de compra Estado de saúde Aversão ao risco Chryssochoidis, 2000 Características objetivas e subjetivas do produto Motivo de compra A Procura de Alimentos Biológicos I Beatriz Alves 37 CAPÍTULO III – O FUTURO DA PRODUÇÃO BIOLÓGICA 3.1 Nova legislação a partir de 2022 A partir do novo regulamento da UE 2018/848 de 30 de maio de 2018 relativo à produção biológica e à rotulagem dos produtos biológicos, e do regulamento 2020/1693, de 11 de novembro de 2020, que altera o regulamento 2018/48 que entrará em vigor em 2022, a nova legislação que entrará em vigor no 1 de janeiro de 2022, após o adiamento da sua aplicação por um ano, prevê novas regras que refletirão a evolução deste setor em rápido crescimento. Desta forma a UE visa aplicar novas regras de forma a garantir condições de concorrência leal aos agricultores, evitar a fraude e manter a confiança dos consumidores através da simplificação das regras de produção graças à suspensão progressiva de várias exceções e autoexclusões, nomeadamente: ▪ Através do reforço do sistema de controlo graças a medidas de precaução mais restritivas e a controlos eficazes ao longo de toda a cadeia de abastecimento; ▪ Através da aplicação, aos produtos de países terceiros das mesmas regras aplicáveis aos produtores da EU; ▪ Através do aumento da lista de produtos abrangidos pelas regras de produção biológica e introdução de regras de produção adicionais; ▪ Através da facilitação da certificação para os pequenos agricultores graças a um novo sistema de certificação de grupos; ▪ Através da harmonização da abordagem para reduzir o risco de contaminação acidental com pesticidas; ▪ Através da supressão progressiva das isenções relativas à produção em canteiros em estufas. Gracia e Magistris, 2008 Atributos de pesquisa Frequência de compra Disponibilidade a pagar Tabela 2 – Fatores explicativos da procura, na literatura e no presente estudo empírico Elaborado pela autora A Procura de Alimentos Biológicos I Beatriz Alves 38 3.2 Plano de ação para a produção biológica da EU A Comissão Europeia estabeleceu um plano de ação biológico abrangente para a União Europeia. Através do plano de ação, a Comissão pretende alcançar a meta do Acordo Verde Europeu de 25% das terras agrícolas sob agricultura biológica até 2030. O novo plano de ação biológica baseia-se nos resultados do plano de ação de 2014-20 e leva em conta o resultado de uma consulta pública sobre os biológicos, realizada entre setembro e novembro de 2020. O plano de ação é dividido em três eixos interligados que refletem a estrutura da cadeia de fornecimento de alimentos e as ambições dos objetivos de sustentabilidade do Green Deal, nomeadamente, eixo 1 estimular a procura e garantir a confiança do consumidor, eixo 2 estimular a conversão e reforçar toda a cadeia de valor, e por fim, eixo 3 biológicos liderados pelo exemplo, nomeadamente em melhorar a contribuição da agricultura biológica para a sustentabilidade ambiental. Os três eixos serão apoiados por 23 ações, dando continuidade a algumas das ações bem-sucedidas de 2014-20, além de apresentar uma série de novas ações e mobilizar diferentes fontes de financiamento. 3.2.1 Eixo 1: Estimular a procura e garantir a confiança do consumidor Com base na pesquisa Eurobarómetro de 2020, sobre agricultura da UE e o PAC, os cidadãos acreditam que os produtos biológicos são mais propensos a cumprir regras específicas sobre pesticidas, fertilizantes e antibióticos, são mais ecológicos e são produzidos com maior respeito pelo bem-estar animal. Segundo esta pesquisa, 56% dos cidadãos reconhecem o logótipo biológico, contra 27% em 2017. As vendas de produtos biológicos aumentaram mais de 128% nos últimos anos, passando aproximadamente de 18 bilhões de euros em 2009 para 41 bilhões de euros em 2019. Concluiu-se assim, em média cada europeu gasta cerca de 84€ por ano em produtos biológicos. Assim sendo, aumentar o consumo de produtos biológicos e fortalecer a confiança dos consumidores em produtos biológicos são elementos vitais para incentivar os agricultores a converterem as suas produções em produções biológicas para apoiar o crescimento contínuo e manter o mercado rentável para os operadores biológicos, desta forma, a Comissão Europeia realizará ações como, promover a agricultura biológica e o logótipo da UE, promover A Procura de Alimentos Biológicos I Beatriz Alves 39 cantinas biológicas e aumentar o uso de compras públicas verdes, reforçar esquemas escolares biológicos, prevenir fraudes alimentares e fortalecer a confiança do consumidor, melhorar a rastreabilidade e facilitar a contribuição do setor privado. 3.2.2 Eixo 2: Estimular a conversão e reforçar toda a cadeia de valor No sentido de aumentar a participação das terras cultivadas sob práticas biológicas, é necessário mais desenvolvimento em todas as etapas da cadeia de suprimentos. Desta forma, as estruturas adequadas devem ser colocadas em prática para incentivar a produção local e canais de distribuição curtas, o que permitiria aos agricultores de beneficiar plenamente do valor do agregado dos produtos biológicos. Segundo dados da Comissão Europeia (2021), a área de agricultura biológica atualmente representa 8,5% da “área agrícola utilizada” total da UE. Assim, para continuar o progresso na produção e processamento, o plano de ação será incentivar a conversão, investimentos e trocas de melhores práticas, desenvolver análises setoriais para aumentar a transparência do mercado, apoiar a organização da cadeia alimentar, reforçar o processamento local e de pequeno valor e fomentar curtos. Circuitos de comércio e por fim, melhorar a nutrição animal de acordo com as regras biológicas. 3.2.3 Eixo 3: Biológicos liderando pelo exemplo: melhorar a contribuição da agricultura biológica para a sustentabilidade A agricultura biológica contribui para a proteção do meio ambiente e do clima, a fertilidade a longo prazo do solo, altos níveis de biodiversidade, um ambiente não tóxico e altos padrões de bem-estar animal. A terra cultivada biologicamente tem cerca de 30% mais biodiversidade do que as terras cultivadas convencionalmente, a agricultura biológica é, por exemplo, benéfica para os polinizadores, uma vez que os agricultores biológicos não podem usar pesticidas químicos e fertilizantes sintéticos. Além disso, o uso de OGM e radiação ionizante é proibido e o uso de antibióticos é severamente restrito. No entanto, é importante explorar novas e aprimoradas formas de agricultura biológica para diminuir seu impacto ambiental. Desta forma a Comissão Europeia melhorará ainda mais a contribuição do setor A Procura de Alimentos Biológicos I Beatriz Alves 40 biológica para a sustentabilidade e os desafios ambientais por meio de ações focadas em reduzir a pegada climática e ambiental, aumentar a biodiversidade genética e aumento dos rendimentos, desenvolver alternativas para insumos contenciosos e outros produtos de proteção vegetal, melhorar o bem-estar animal e utilizar mais eficientemente os recursos. 3.2.4 Apoio mais forte na nova política agrícola comum A política agrícola comum (PAC) será totalmente mobilizada para apoiar a implementação do plano de ação. Desta forma, o apoio financeiro aos produtores continuará a ser oferecido por meio de compromissos de desenvolvimento rural, com um fluxo adicional de financiamento disponibilizado por meio de eco esquemas. O apoio da PAC também incluirá assistência técnica e troca de melhores práticas e inovações em produção biológica. Os serviços de assessoria agrícola serão reforçados, notadamente como parte dos Sistemas de Conhecimento Agrícola e Inovação (AKIS), para promover o intercâmbio de conhecimento relevante. 3.2.5 Foco em pesquisa e inovação A agricultura biológica é intensiva em conhecimento, no entanto, ainda há uma clara necessidade de aprimorar ainda mais o conhecimento para que a agricultura biológica se possa tornar ainda mais sustentável e também mais produtiva. Para apoiar as ambições do plano de ação, a Comissão pretende destinar pelo menos 30% do orçamento para ações de pesquisa e inovação no campo da agricultura, silvicultura e áreas rurais a temas específicos ou relevantes para o setor orgânico, como aumento da produtividade das culturas, biodiversidade genética e alternativas a produtos contenciosos. 3.3 Investigação e inovação na produção biológica A investigação e a inovação ocupam um lugar de destaque na agenda da Comissão Europeia e a agricultura não é exceção. A UE financia vários projetos de investigação no âmbito da legislação Horizonte 2020. A Procura de Alimentos Biológicos I Beatriz Alves 41 Com o objetivo de impulsionar o crescimento e a criação de emprego, os programas de trabalho plurianuais elaborados pela Comissão Europeia, em consulta com as partes interessadas, combinam investimento privado com fundos da UE para financiar a investigação, o que terá vantagens tangíveis. O programa Horizonte 2020 para a agricultura dá especial atenção ao aumento da eficiência da produção e, simultaneamente, à prevenção dos danos causados ao ambiente natural. Vários destes projetos dizem diretamente respeito à produção biológica. A parceria europeia de inovação para a produtividade e a sustentabilidade agrícolas (PEIAGRI) põe em contacto agricultores e investigadores de forma a acelerar a inovação. A PEIAGRI conta com um grupo de reflexão que estuda novas abordagens à agricultura biológica, este grupo trabalhou na otimização do rendimento das culturas arvenses, tendo resumido algumas práticas no seu relatório final. A UE também criou o Instituto Europeu de Inovação e Tecnologia (EIT) para impulsionar a inovação. O EIT-Food concentra-se em questões relacionadas com o empreendedorismo e a inovação no setor alimentar. CAPÍTULO IV – DADOS E METODOLOGIA A metodologia utilizada assentou na realização de um inquérito por questionário, este inquérito tem como objetivo caracterizar as características dos consumidores de produtos biológicos seguindo uma visão próxima do que foi feito por outros autores na literatura. Pretende-se assim estudar a procura de alimentos biológicos, mais precisamente analisar a frequência de compra de produtos alimentação biológica e a sua relação com as características dos consumidores, retiradas da revisão de literatura, nomeadamente o rendimento dos consumidores. Para isso, foi lançado um inquérito constituídos por 29 questões 2 , via e-mail e redes socias aos consumidores do Porto, Viana do Castelo, Lisboa, Braga e Stuttgart (Alemanha), relativo às suas características sociodemográficas bem como à evolução recente das suas decisões de consumo de produtos biológicos. Recorrer-se-á assim, a preferências declaradas por estes consumidores para explorar os aspetos associados à procura de produtos biológicos, que o atual estado do mercado pode ainda não permitir 2 O inquérito encontra-se no apêndice desta dissertação. A Procura de Alimentos Biológicos I Beatriz Alves 48 nas GS Produtor Local 111 0 1 0,98 0,134 Referência ao país de origem 111 0 1 0,94 0,244 Aversão ao Risco 109 0 1 0,58 0,496 Tabela 4 - Estatística descritiva das variáveis (SPSS). Elaborado pela autora Dos dados apresentados, verifica-se que na amostra obtida, o sexo feminino, representa a maioria dos consumidores inquiridos, uma vez que 67% são do género feminino e 33% são do sexo masculino, como pode ser validado no gráfico 2. Gráfico 2 -Caracterização da amostra quando ao género. Elaborado pela autora Relativamente à variável idade, as informações apresentadas na tabela 4, sintetizam os resultados obtidos a partir das respostas do inquérito e apresentados no gráfico 3. Ou seja, afirma-se que 55,9% dos inquiridos apresentam idades entre os 35 e 65 anos de idade, cerca de 25% dos inquiridos possuem idades inferiores a 25 anos, 13,5% dos inquiridos têm idades entre os 25 e 34 anos e cerca de 5% dos inquiridos têm menos de 65 anos, pelo que se conclui que dos 111 inquiridos cerca de 62 consumidores possuem idades entre os 35 e 65 anos. 67% 33% Género Feminino Masculino A Procura de Alimentos Biológicos I Beatriz Alves 49 Gráfico 3 - Caracterização da amostra por classes de idades. Elaborado pela autora No gráfico 4 está representada a frequência relativa do número de indivíduos do agregado familiar dos inquiridos. Estando em maioria famílias com cerca de 2 e 3 indivíduos, respetivamente com 30,6% e 32,4% pelo que se afirma que a maior parte dos inquiridos não possui famílias numerosas, cerca de 3 indivíduos por agregado, conforme espectável dado os resultados obtidos relativamente à variável idade, ou seja, seguindo o padrão geral da sociedade, é possível prever que consumidores cuja faixa etária se situa entre os 35 e 65 anos, já sejam casados com pelo menos um dependente, o que torna o resultado obtido expectável. Gráfico 4 - Caracterização da amostra pelo número total do agregado familiar. Elaborado pela autora Relativamente à frequência relativa referente ao estado civil dos inquiridos, conforme apresentado no gráfico abaixo e validado pelos resultados obtidos na tabela 4, a maioria dos inquiridos é casado (58%), seguindo-se dos solteiros (34,8%), aqui, seguindo a mesma linha de pensamento da análise do gráfico 4 este resultado também se torna expectável, se a 25,20% 13,50% 55,90% 5,40% 0,00% 20,00% 40,00% 60,00% Menos de 25 anos Entre os 25 e 34 anos Entre 35 e 65 anos Mais de 65 anos Idade 6,30% 30,60% 32,40% 26,10% 4,50% 0,00% 5,00% 10,00% 15,00% 20,00% 25,00% 30,00% 35,00% 12345 Composição do agregado familiar Composição do agregado familiar A Procura de Alimentos Biológicos I Beatriz Alves 50 maioria dos inquiridos possui agregados familiar constituídos por 2/3 pessoas, assume-se que a grande maioria seja casado/a. Gráfico 5 - Caracterização da amostra relativamente ao estado civil dos inquiridos. Elaborado pela autora Relativamente às habilitações literárias, a maioria dos inqueridos é detentor de licenciatura (ou superior) com cerca de 43,10% e apenas 0,9% possui apenas o 1º ciclo de escolaridade. No entanto, não se verifica uma diferença significativa entre os indivíduos com as habilitações superiores e com habilitações secundárias, tendo uma diferença mínima de cerca de 10 pontos percentuais entre ambos. Gráfico 6 - Caracterização da amostra quanto às habilitações literárias do inquerido. Elaborado pela autora No que diz respeito à zona de residência, a maior parte dos inquiridos, é residente no distrito do Porto (62%), seguindo-se de Viana do Castelo (17%), Stuttgart (9%), Braga, Aveiro, Inglaterra e França (3%) e por último Lisboa com 2%. 58% 35% 6% 1% Estado civil Casado Solteiro Divorciado Viúvo 0,90% 8,30% 5,50% 9,20% 33% 43,10% 0,00% 20,00% 40,00% 60,00% Sem habilitações Básico 1º ciclo Básico 2º ciclo Básico 3º ciclo Secundário ou Técnico Profissional Bacherelato, licenciatura ou superior Habilitações Literárias A Procura de Alimentos Biológicos I Beatriz Alves 51 Gráfico 7 - Caracterização da amostra pela zona de residência. Elaborado pela autora Do total da amostra, 82,9% dos inquiridos não padece de nenhum problema crónico que necessite de cuidados com a alimentação, como a diabetes, no entanto 17,1% dos inquiridos padece de problemas que implicam ter cuidados com a alimentação e saúde, como diabetes e tensão arterial alta. É possível afirmar que a maior parte dos inquiridos tem atenção e preocupação com a sua saúde, uma vez que 73,5% dos inquiridos afirma que tem preocupação com o impacto da dieta na sua saúde. Cerca de 71,2% dos inquiridos encontra-se empregado, sendo que a maioria dos inquiridos possui um rendimento líquido baixo situado entre 971€ a 1940€, representando cerca de 33,6% da amostra. Viana do Castelo Porto Lisboa França 010 20 30 40 50 60 70 80 Zona de residência Viana do Castelo Aveiro Porto Braga Lisboa Alemanha França Inglaterra 84,10% 73,50% 53,10% 48,70% 47,80% 56,60% Como frutas e legumes regularmente Precupo-me com o impacto da dieta na minha… Preocupo-me com o impacto dos alimentos… Sigo uma dieta saudável Pratico desporto regularmente Tenho gosto pela cozinha Estilo de vida Gráfico 8 - Caracterização da amostra pelo estilo de vida. Elaborado pela autora A Procura de Alimentos Biológicos I Beatriz Alves 52 Gráfico 9 - Caracterização da amostra de rendimento mensal do agregado familiar. Elaborado pela autora 5.2 Análise das características que originam o consumo de produtos biológicos Após a descrição das características selecionadas para estudar os consumidores de produtos biológicos, vamos agora apresentar os resultados relativos à perceção/ reconhecimento do que é um produto biológico e quais as suas principais características, a disponibilidade e acessibilidade a produtos biológicos. Como referido anteriormente, 99,19% dos inquiridos conhece ou ouviu falar de produtos biológicos, sendo que 95,5% dos inquiridos assume-se comprador, admitindo uma frequência de compra de 76,1%, no entanto apenas 67% conhece o símbolo de produto biológico, e 38,5% o considera uma garantia de qualidade. Para vários autores como é o caso de Williams (2002) e Wier et. al, (2008), os consumidores distinguem os produtos biológicos porque estes são mais saudáveis em comparação com os tradicionais, uma vez que incluem menores níveis de pesticidas e fertilizantes e serem nutricionalmente mais ricos, os resultados do presente inquérito corroboram com este pensamento, uma vez que cerca de 73,3% dos inquiridos segue este ponto de vista. Hugner et. Al (2007), afirma que os consumidores acreditam que os métodos de produção biológica são mais seguros do que os métodos de produção tradicionais, este pensamento também corroborado de acordo com as respostas apresentadas, uma vez que 33,6% dos consumidores afirma que a segurança é um dos motivos de compra dos produtos biológicos. 0,90% 17,30% 33,60% 20,90% 14,50% 0% 12,70% Até 485€ De 486€ a 970€ De 971€ a 1940€ De 1941€ a 2910€ De 2911€ a 4850€ Mais de 4850€ Não quero reponder Rendimento Líquido mensal do agregado familiar Rendimento Líquido mensal do agregado familiar A Procura de Alimentos Biológicos I Beatriz Alves 53 Gráfico 10 - Significado de alimento biológico para os inquiridos. Elaborado pela autora De entre os vários motivos pelos quais os consumidores possam preferir comprar produtos biológicos em detrimento dos restantes, os que mais de destacam é a saúde (86,4%), seguindo-se do sabor (75,5%) e da nutrição (49,10%), sendo o que o preço é o motivo que menos se destaca com apenas 2,7%. O motivo saúde já havia sido colocado como principal por vários autores estudados anteriormente, como Chen (2007), que afirma que a principal motivação de compra de produtos biológicos é a saúde e Magnusson, Arvola, Koivisto Hursti, Aberg e Sjoden, (2003) e Wandel e Bugge, (1997) que assumem que o motivo saúde é o principal motivo de procura destes alimentos, uma vez que o benefício saúde está intimamente ligado aos indivíduos e às famílias. No entanto, para além do motivo saúde, o motivo ambiente também é defendido, como é o caso de Sangkumchaliang et. Al (2012) e Basha et. Al (2015), que para além da saúde considerem a preocupação com o meio ambiente e a qualidade dos produtos dois dos principais fatores que levam à compra destes produtos e Testa, Sarti e Frey (2019) que indicam que a consciência da saúde não é o único fator que determina a atitude positiva do comportamento do consumidor em relação aos alimentos biológicos, mas que existem outros fatores, que influenciam a sua intenção de comprar, como a preocupação com a qualidade e o meio ambiente natural. Perosa et. Al (2009) admite como motivo de compra os atributos de qualidade, como 78,80% 25,70% 18,60% 71,70% 16,80% 27,40% 31% Produto alimentar produzido de forma natural Produtos alimentares produzido por processos tradicionais ligados à região de onde são ordinários Produtos alimentares que respeitam o bem estar animal Produtos alimentares cuja produção não recorre a químicos Produtos alimentares cuja produção e comercialização é regulamentada e certificada por entidades independentes Produtos alimentares enriquecidos que traz benificio à sua saúde e reduz o risco de doença Produtos alimentares que oferece maiores garantias de controlo de qualidade de segurança alimentar Significado de alimento biológico A Procura de Alimentos Biológicos I Beatriz Alves 54 o sabor. Desta forma, os resultados obtidos corroboram com os estudos de Chen (2007), Magnusson, Arvola, Koivisto Hursti, Aberg e Sjoden, (2003), Wandel e Bugge, (1997) e Perosa et. Al (2009), no entanto, no caso de Sangkumchaliang et. Al (2012) e Basha et. Al (2015), os resultados não corroboram com o defendido por estes autores, uma vez que apenas 30,9% dos consumidores coloca o ambiente como motivo de compra deste tipo de alimentos. Gráfico 11 - Motivos de compra de produtos biológicos. Elaborado pela autora De acordo com Pitt et. Al (2017), a disponibilidade e acessibilidade dos produtos alimentares, são definidos como fatores importantes nas escolhas alimentares, no que diz respeito à disponibilização de alternativas alimentares saudáveis, à localização dos mercados e ao custo monetário dos produtos alimentares. 97,2% dos inquiridos consideram que os hipermercados deveriam disponibilizar uma quantidade superior de produtos biológicos, no entanto, apenas 32% dos consumidores adquire este tipo de produtos nestas superfícies, uma vez que a grande maioria adquire estes alimentos diretamente ao produtor na exploração agrícola (36%), resultado já expectável, uma vez que segundo a tabela 3, 98,2% dos inquiridos consideram importante adquirir este tipo de produtos nas localidades. 86,40% 30,90% 75,50% 20% 49,10% 25,50% 20,90% 12,70% 43,60% 2,70% 33,60% 3,60% São melhores para a saúde São melhores para o ambiente São mais saborosos São mais respeitadores do bem estar animal São mais nutritivos Têm um aspeto mais natural São embalados em embalagens menos poluentes Estão sempre disponiveis nos locais onde faço… São mais frescos São mais caros São mais seguros Outro Motivo de compra de produtos biológicos A Procura de Alimentos Biológicos I Beatriz Alves 55 CAPÍTULO VI – ANÁLISE E DISCUSSÃO DE RESULTADOS Neste capítulo pretende-se, após realizada a recolha e tratamento de dados, apresentar as tabelas que foram geradas pelo SPSS e, consequentemente, os seus resultados com vista a averiguar que variáveis afetam na frequência de compra, no rendimento mensal do agregado familiar e no reconhecimento do logótipo biológico, para desta forma, conseguir ter uma resposta empírica que vá ao encontro das questões de investigação. 6.1 – Caracterização da amostra Nesta investigação, a base de dados utilizada é composta por 20 variáveis que surgiram do questionário, estas variáveis foram modificadas para efeitos de apresentação e conveniência para efeitos de especificação do modelo a estudar. No seguimento da descrição da amostra efetuada nas seções anteriores, passarei agora à análise dos resultados obtidos para as questões de investigação colocadas neste estudo. Para este estudo, foi importante comparar os dois grupos de consumidores: os que adquirem produtos biológicos regularmente (Freq. Compra=1) e os outros, os consumidores que adquirem estes produtos raramente (Freq. Compra = 0). Em seguida apresentam-se as tabelas correspondentes às estatísticas descritivas destes dois grupos de consumidores. Para facilitar a análise, foi realizado um teste simples às diferenças das médias dos dois grupos considerados. 32% 9% 20% 36% 2% 1% Local de compra Nos hipermercados e/ou supermercados Em lojas especializadas na venda de produtos biológicos Em feiras ou mercados locais de produtos biológicos Diretamente ao produtor na exploração agrícola Gráfico 12 - Local de compra de alimentos biológicos. Elaborado pela autora A Procura de Alimentos Biológicos I Beatriz Alves 56 Freq. Compra = 1 Freq. Compra = 0 Teste (PValue) Género 0,66 0,69 0,510 Menos de 25 anos 0,22 0,35 0,031 Entre 25 e 34 anos 0,12 0,19 0,066 Entre 35 e 65 anos 0,60 0,42 0,700 Mais de 65 anos 0,06 0,04 0,420 Casado/a 0,61 0,46 0,318 Nível académico superior 0,40 0,50 0,305 Nível académico secundário 0,33 0,31 0,673 Rendimento 0,45 0,27 0,001 Empregabilidade 0,72 0,69 0,633 Problemas de saúde 0,15 0,23 0,086 Símbolo 0,68 0,58 0,117 Elasticidade 0,06 0,07 0,751 Disponibilização do OF 0,89 0,65 0,001 Prémio Biológico 0,58 0,27 0,001 Disponibilidade nas grandes superfícies 0,95 0,92 0,250 Produtor local 0,98 1 0,111 Referência ao país de origem 0,94 0,92 0,515 Aversão ao Risco 0,61 0,46 0,303 Tabela 5 - Equiparação dos resultados entre ambas as frequências - Teste às diferenças nas médias dos dois grupos de consumidores (P-value). Elaborado pela autora Segundo, os resultados apresentados na tabela 5, pode-se afirmar que ao comparar ambas as frequências de compra nas diversas variáveis descritas na tabela, foi possível encontrar diferenças estatisticamente significativas, segundo o teste t, nas variáveis, “menos de 25 anos”, “rendimento”, “disponibilização do orçamento familiar” e “prémio biológico”, uma vez que: A Procura de Alimentos Biológicos I Beatriz Alves 57 • Menos de 25 anos: T(37,138)= 1,163, p< 0,05 • Rendimento: T(37,367)= - 1,529; p < 0,05 • Disponibilização do OF: T(31, 467)= 2, 381; p < 0,05 • Prémio biológico: T(47,229)= 2,937; p < 0,05 Relativamente às restantes variáveis é possível afirmar que há evidência de que não se pode rejeitar que as médias sejam iguais para os dois grupos considerados. Desta forma, afirma-se que 22% dos indivíduos cujas idades são inferiores a 25 anos, assumem uma frequência de compra regular e 35% assume uma frequência de compra rara. Relativamente aos indivíduos que obtêm um rendimento mensal superior à soma de dois salários mínimos nacionais, 45% assume uma frequência de compra regular enquanto 27% assume uma frequência de compra rara. 89% dos indivíduos que estão dispostos a dispensar mais do seu orçamento familiar para adquirir um produto biológico, assumem uma frequência de compra regular. Para além disso, 58% dos indivíduos que estão dispostos a pagar um prémio de preço para adquirir um cabaz de produtos biológicos assume uma frequência de compra regular. Relativamente à aversão ao risco, o resultado obtido torna-se interessante, uma vez que 61% dos consumidores que se assume com receio de correr riscos, assume uma frequência de compra regular, em detrimento dos 46% que assume uma frequência de compra rara. Após observação dos resultados obtidos através da tabela 5, definiu-se dois modelos, para obter evidência sobre a associação que podemos estabelecer entre as diferentes variáveis selecionadas e a decisão de consumo de produtos biológicos, seguindo o modelo de regressão logística binária, um modelo adequado para o caso em que a variável dependente é binária, como é o caso do presente estudo. As variáveis selecionadas incluem as características sociodemográficas e económicas, importantes para descrever o perfil do consumidor, como “habilitações superiores”, “género”, “aversão ao risco” e “problemas de saúde”, uma vez que destas haverá a possibilidade de se obter resultados interessantes, para o estudo económico que se está a efetuar. Dado o objetivo ser de comparar os resultados obtidos nos dois modelos distintos, realizou-se uma tabela, na qual as variáveis independentes utilizadas serão as mesmas, diferenciando-se apenas as variáveis dependentes nos dois modelos, existe uma diferente por cada modelo efetuado. Desta forma, cada modelo tem como objetivo o seguinte: A Procura de Alimentos Biológicos I Beatriz Alves 64 REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICAS Apaolaza, V., Hartmann, P., D'Souza, C. e López, C. M. (2018). Eat organic - Feel good the relationship between organic food consumption, health concern and subjective wellbeing. Food Quality and Preference, 63, 5-62. Andersen, E.S. e Philipsen, K. (1998). The Evolution of Credence Goods in Customer Markets - Exchanging ‘Pigs in Pokes’. Department of Business Studies, Aalborg University, Denmark. Barbosa, L. (2009.) Tendências da Alimentação Contemporânea. Porto Alegre, ESPM. Basha, M., Mason, C., Shamsudin, M., Hussain, H., & Salem, H. (2015). 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