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Universidade do Minho Escola de Psicologia Sara Raquel Martins de Figueiredo Tráfico de Pessoas: Perceção dos Profissionais de Saúde Junho de 2019 Tráfico de Pessoas: Perceção dos Profissionais de Saúde Sara Figueiredo UMinho | 2019
Junho de 2019 Escola de Psicologia Sara Raquel Martins de Figueiredo Tráfico de Pessoas: Perceção dos Profissionais de saúde Dissertação de Mestrado Mestrado Integrado em Psicologia Trabalho realizado sob a orientação da Professora Doutora Marlene Matos e da Doutora Mariana Gonçalves Universidade do Minho
ii Direitos de autor e condições de utilização do trabalho por terceiros Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição-NãoComercial-SemDerivações CC BY-NC-ND https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/
iii Agradecimentos Ao finalizar mais uma etapa, gostaria de agradecer a todos aqueles que de alguma forma contribuíram para que tudo isto fosse possível. À Professora Marlene Matos gostaria de agradecer pela orientação e persistência no desenvolvimento deste trabalho. Á Doutora Mariana Gonçalves muito, muito obrigada!! Agradeço o carinho, o enorme apoio e a grande partilha de conhecimentos durante estes últimos anos. Sem dúvida que a levo no meu coração. À minha equipa de investigação, muito obrigada! Agradeço todas as ideias que me foram dando e que contribuíram em muito para que esta investigação se possível. Aos meus pais agradeço todo o apoio que me deram ao longo destes cinco anos. Nem sempre foi fácil, mas conseguimos. Muito obrigado por tudo! Conseguimos Avô!! Aqui está o que tanto sonhávamos os dois juntos. Obrigado por seres a minha estrelinha da sorte que nunca me deixou desistir. Ao meu namorado, agradeço o apoio, atenção e paciência. Obrigado por teres acreditado sempre em mim! Aos meus amigos, obrigada!! Foram incansáveis ao longo destes anos. Por fim, gostaria de agradecer a todos os profissionais de saúde que contribuíram nesta investigação e a ajudaram a tornar possível. A vocês o meu muitíssimo obrigada!!
iv Declaração de Integridade Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho
v Tráfico de Pessoas: Perceção dos Profissionais de Saúde Resumo O Tráfico de Pessoas é um fenómeno à escala mundial que provoca nas vítimas grande impacto ao nível social, psicológico e físico. Os profissionais de saúde desempenham um papel importantíssimo na identificação, avaliação e encaminhamento destas vítimas sendo que as perceções que estes possuem influencia diretamente o seu comportamento e, consequentemente, a forma como atuam. Este estudo tem como objetivo analisar e identificar as perceções dos profissionais de saúde relativamente ao Tráfico de Pessoas. Participaram nesta investigação 130 profissionais de saúde, 98 mulheres (75.40%) e 32 homens (24.6 %) com uma média de idades de 39.64 anos. Os resultados mostraram que os profissionais de saúde tinham perceções mais elevadas nos clusters Tráfico Infantil e Características do Ofensor, sendo as suas perceções mais adequadas naqueles que realizaram atendimento prévio a vítimas de TP, que possuíam um nível académico mais elevado e quando tinham algum tipo de contacto com o fenómeno (formal, informal ou ambos). O contacto formal revelou-se um aspeto preponderante na aquisição de perceções mais adequadas relativamente ao fenómeno. Contudo, ainda existem aspetos que podem ser melhorados, um dos quais é a necessidade de que ações de sensibilização e formação para este grupo profissional seja aumentada. Palavras-Chave : Perceções, Práticas, Profissionais de Saúde, Tráfico de Pessoas.
vi Trafficking in Persons: Perception of Health Professionals Abstract Human trafficking is a world scale phenomenon which greatly impacts its victims at the physical, psychological and social levels. Health professionals play a huge role on identifying, evaluating and accompanying said victims. The perception of health professionals influences the way they behave and consequently the way they accompany these victims. The main goal of this study consists in identifying and analyzing the perception of health professionals towards Human Trafficking. The study consisted of 130 health professionals of which 98 were women (75.40%) and 32 were men (24.6%), with an average of 39.64 years of age. Results showed higher perception from health professionals on Child Traffic and Offender’s Characteristics clusters. However, perception showed more adequate in cases where they’d already attended human trafficking victims, in cases of higher academic degree from the professional and when they’d had previous contact with said phenomenon (be it formal, informal or both). The formal contact was a preponderant aspect in the acquisition of more adequate perceptions regarding the phenomenon. Nevertheless, there are still aspects which can be improved, such as the need for an increase in both training and awareness for this group of professionals, towards this matter. Keywords : Perceptions, Practices, Health Professionals, Human Trafficking
vii Índice Direitos de autor e condições de utilização do trabalho por terceiros ..................................................... ii Agradecimentos .................................................................................................................................. iii Declaração de Integridade .................................................................................................................. iv Resumo............................................................................................................................................... v Abstract.............................................................................................................................................. vi Tráfico de Pessoas: Perceção dos Profissionais de Saúde .................................................................... 8 Metodologia ...................................................................................................................................... 13 Amostra ....................................................................................................................................... 13 Instrumento .................................................................................................................................. 15 Procedimento ............................................................................................................................... 16 Análise de Dados .......................................................................................................................... 17 Resultados ....................................................................................................................................... 17 Discussão......................................................................................................................................... 26 Conclusão ........................................................................................................................................ 29 Referências ...................................................................................................................................... 31 Anexos ............................................................................................................................................. 35 Índice das Tabelas Tabela 1. Características sociodemográficas da amostra…………………………………………………………..13 Tabela 2. Adequação das perceções sobre o TP por itens……………………………………………………..….18 Tabela 3. Diferenças da perceção em clusters: Com/sem experiência profissional no atendimento de vítimas de TP……………………………………………………………..…………………………………………………….23 Tabela 4. Regressão Linear hierárquica para predizer as perceções relativamente ao TP…………….….24
PROFISSIONAIS DE SAÚDE E TRÁFICO DE PESSOAS 14 Baixo Médio-Baixo Médio Médio-Alto Habilitações Literárias Licenciatura Mestrado Doutoramento 1 13 104 12 93 36 1 0.80 10.00 80.00 9.20 71.50 27.70 0.80 Situação Profissional Em exercício profissional Desempregado Estágio Profissional Reformado 127 1 1 1 97.60 0.80 0.80 0.80 Formação Base Ciências Farmacêuticas Medicina Psicologia Enfermagem Outros 4 14 21 88 3 3.10 10.80 16.20 67.75 2.40 Tipo de Instituição Hospital Público e Clínica Privada Clínica Privada Hospital Privado IPSS Centro de Saúde Hospital Público Idade Anos de experiência Profissional 3 15 15 20 22 55 M 39.64 15.68 2.40 11.50 11.50 14.70 17.10 42.80 DP 10.28 9.94
PROFISSIONAIS DE SAÚDE E TRÁFICO DE PESSOAS 15 Do número total de participantes, a maioria (94.60%, n = 123) referiu nunca ter atendido vítimas de TP. Dos restantes, 7 (5.40%) referiram já ter atendido vítimas de TP sendo que 6 (4.60%) já atendeu entre [1-5] vítimas e apenas 1 (0.80%) refere ter atendido entre [11-15] vítimas. Relativamente ao conhecimento da existência de um protocolo de atuação para encaminhamento de vítimas de TP nas instituições onde trabalhavam, 97.70% ( n = 127) dos participantes revelaram não ter qualquer conhecimento e apenas 2.30% ( n = 3) revelaram ter conhecimento da existência desse protocolo. Adicionalmente, 118 (90.80%) dos participantes revelaram ter tido contacto prévio com o fenómeno do TP (através de fontes formais, informais ou ambas) mas 12 (9.20%) revelaram nunca ter tido qualquer tipo de contacto. Do total de participantes que tiveram contacto prévio, 91 (79.20%) revelaram ter contacto através de fontes informais, 16 (12.30%) através de fontes formais e 11 (8.50%) de ambas as formas. Instrumento Os dados foram recolhidos através do instrumento de “ Perceção sobre Tráfico de Pessoas ” (S. Figueiredo, M. Gonçalves, & M. Matos, 2018, adaptado de N. Lourenço, M. Gonçalves, & M. Matos, 2017). Este instrumento tem como principal objetivo captar as perceções dos profissionais de saúde relativamente ao Tráfico de Pessoas e encontra-se dividido em três partes. A primeira parte avalia os dados sociodemográficos dos participantes (por exemplo, sexo, idade, anos de experiência profissional, nível socioeconómico, tipo de instituição em que trabalha, formação base, etc.). A segunda parte é constituída por um conjunto de questões relativas ao contacto dos profissionais de saúde com o fenómeno (por exemplo, Já atendeu casos que envolviam Tráfico de Pessoas (TP)?; De que outras formas já estabeleceu contato com a temática do TP? ), bem como por um conjunto de 52 afirmações relativas ao TP, classificadas numa escala de Likert de 5 pontos (“discordo totalmente”, “discordo”, “nem discordo, nem concordo”, “concordo”, “concordo totalmente”). De acordo com a literatura, as afirmações foram agrupadas em sete domínios: (i) Caracterização do problema (por exemplo, O TP é um problema à escala mundial ); (ii) Fenómeno em Portugal (por exemplo, O TP é um fenómeno que existe em Portugal ); (iii) Legislação em Portugal (por exemplo, O TP é um crime reconhecido e punido pela lei portuguesa ); (iv) Características da vítima (por exemplo, As vítimas de TP falam espontaneamente sobre a sua situação de vitimação ); (v) Características do ofensor (por exemplo, Os traficantes são normalmente pessoas desconhecidas das vítimas ); (vi) Tráfico infantil (por exemplo, Somente a exploração sexual de
PROFISSIONAIS DE SAÚDE E TRÁFICO DE PESSOAS 16 uma criança configura tráfico de crianças ) e (vii) Conhecimentos da Temática e Mecanismos de Atuação (por exemplo, O meu percurso profissional preparou-me para trabalhar com as vítimas de TP ). Por fim, a terceira parte é constituída por três questões de resposta breve, que focam os conhecimentos dos profissionais de saúde relativamente ao atendimento das vítimas de TP ( Na sua opinião, é possível identificar sinais de alerta face a uma situação potencial de Tráfico de Pessoas? Se sim, quais ; Qual é o procedimento que adota/adotaria face a uma situação potencial de Tráfico de Pessoas? ; Sente necessidade de saber mais sobre como reconhecer e atuar face a uma vítima de Tráfico de Pessoas?). Esta última parte não será analisada nesta tese sendo utilizada numa investigação posterior. O instrumento de Perceção sobre Tráfico de Pessoas era composto por afirmações verdadeiras (por exemplo, Portugal é um dos países que tem políticas de combate ao TP ) e falsas (por exemplo, Os homens não podem ser vítimas de exploração laboral ). Do número total de afirmações, 21 eram consideradas verdadeiras, sendo-lhes atribuído o valor 5 caso o participante se posicionasse em “Concordo Totalmente” e 1 caso se posicionasse em “Discordo Totalmente”. As restantes afirmações, eram consideradas falsas, sendo atribuído o valor 5 caso o participante se posicionasse em “Discordo Totalmente” e 1 caso se posicionasse em “Concordo Totalmente”. O valor 3 era atribuído quando o profissional de saúde posicionava a sua opinião em “Não Concordo Nem Discordo”. A pontuação total do questionário varia entre 1 e 260 pontos, uma vez que a pontuação de cada item poderia variar entre 1 e 5 pontos. Procedimento O projeto foi submetido à Subcomissão de Ética para as Ciências Sociais e Humanas (SECSH 052/2018), tendo sido obtido o parecer positivo por parte da SECSH, no dia 07.09.2018 (em anexo). Obtida a autorização, foi elaborada uma pesquisa na literatura de forma a proceder à adaptação do instrumento existente para a população alvo deste estudo, os profissionais de saúde. Finalizadas as adaptações, efetuou-se o envio do instrumento de investigação para três profissionais de saúde com o intuito de obter os seus pareceres relativamente ao questionário, nomeadamente, o conteúdo, a estrutura, extensão do instrumento e clareza das afirmações. Obtido o parecer positivo dos profissionais de saúde, foram contactadas várias entidades de saúde (nomeadamente, Direção-Geral de Saúde, Ordem dos Médicos, Sindicato dos Médicos, Sindicato dos Enfermeiros) a pedir a sua colaboração na divulgação do questionário. Este contacto foi efetuado via email, no qual seguiu uma breve explicação do estudo, o
PROFISSIONAIS DE SAÚDE E TRÁFICO DE PESSOAS 17 seu principal objetivo, a autorização do projeto pela SECSH e o link para posterior divulgação. Em simultâneo, foi realizado um contacto informal com os profissionais de saúde, por exemplo, através das redes sociais. Anteriormente ao momento de preenchimento dos questionários, foi apresentado aos profissionais de saúde o consentimento informado onde eram informados relativamente ao objetivo do estudo, o caráter voluntário de participação assim como a confidencialidade na recolha e tratamento dos dados. O preenchimento do questionário envolvia aproximadamente dez minutos sendo que os dados foram recolhidos entre os meses de Dezembro a Março. Análise de Dados A análise foi realizada com recurso ao programa informático Statistical Package for the Social Sciences (SPSS), versão 22. Inicialmente, foi realizada uma análise descritiva, com o intuito de obter informação sobre a caracterização da amostra, nomeadamente, idade, sexo, estado civil, etc. Testest para amostras independentes foram realizados para verificar se as perceções dos participantes estavam relacionadas com o sexo, as habilitações literárias e o contacto prévio com o TP. O coeficiente de Pearson foi utilizado para analisar a associação entre idade, anos de experiência e as perceções dos participantes. A ANOVA Unifatorial foi utilizada para verificar se houve ou não diferenças nas perceções dos diferentes grupos de profissionais, em função do tipo de contacto que os participantes tiveram com o fenómeno (formal, informal ou ambos). Por fim, foi realizada uma Regressão Linear Hierárquica com o intuito de verificar as variáveis associadas às perceções mais adequadas sobre o TP. De forma a comparar os resultados obtidos em cada cluster, foi calculada a média ponderada de cada um deles, de forma a que os valores variassem entre 1 e 5. Resultados Os participantes tiveram uma pontuação média de 189.43 ( DP = 11.77), variável entre 162 e 220. Em geral, o posicionamento destes profissionais encontra-se no intervalo entre o “Não me posiciono” e “Concordo/Concordo Totalmente”. Relativamente aos itens que reuniram maior consenso, os participantes revelaram uma perceção maioritariamente adequada na afirmação “As mulheres não são vítimas de exploração laboral” (96.90%)
PROFISSIONAIS DE SAÚDE E TRÁFICO DE PESSOAS 18 e uma perceção maioritariamente desadequada em “As vítimas costumam pedir ajuda ou assistência” (75.20%). A maioria dos profissionais de saúde (87.60%) não se posicionou face à afirmação “Pessoas com deficiência têm uma maior probabilidade de ser vítimas de TP”. A Tabela 2 apresenta, de forma mais detalhada, a percentagem de respostas obtida em cada afirmação. Tabela 2 Adequação das Perceções sobre o TP, por itens Itens Perceção Desadequada % Não concordo nem Discordo % Perceção Adequada % Cluster 1: Caracterização do Problema O TP é um problema à escala mundial. O TP envolve sempre algum tipo de viagem, transporte ou circulação de pessoas para outro país.* O TP é um problema exclusivo dos países designados “terceiro mundo”.* As causas do TP são sobretudo a pobreza e a exclusão social.* O TP só ocorre ligado a atividades ilegais.* O TP envolve redes organizadas de criminalidade. O TP envolve sempre violência física contra as vítimas.* Prostituição e exploração sexual são sinónimos.* Cluster 2: Fenómeno em Portugal O TP é um fenómeno que existe em Portugal. O TP é um crime reconhecido e punido pela lei portuguesa. - 30.00 3.00 50.70 25.40 8.50 16.10 10.70 1.60 3.90 3.80 16.90 10.80 22.30 27.70 10.80 19.20 12.30 18.50 27.70 96.20 53.10 86.20 27.00 46.90 80.70 64.70 77.00 79.90 68.40
PROFISSIONAIS DE SAÚDE E TRÁFICO DE PESSOAS 19 As vítimas de TP, em Portugal, são maioritariamente oriundas da África e Europa de Leste. Portugal tem instituições especializadas para apoiar e acolher vítimas de TP. Cluster 3: Legislação em Portugal O TP é um crime público (isto é, qualquer pessoa pode denunciar). O mercado ilegal de órgãos é uma forma de TP. A servidão doméstica é uma forma de TP. Portugal é um dos países que tem políticas de combate ao TP. Cluster 4: Características da vítima O TP quando envolve vítimas que são mulheres visa, na maioria das vezes, a sua exploração sexual. As vítimas de tráfico são exclusivamente cidadãos estrangeiros e /ou imigrantes.* As vítimas de TP costumam pedir ajuda ou assistência. As vítimas de TP reconhecem-se como vítimas de um crime.* As mulheres não são vítimas de exploração laboral.* O TP atinge sobretudo mulheres e crianças.* Os homens não podem ser vítimas de exploração sexual.* As vítimas de TP falam espontaneamente sobre a sua situação de vitimação.* As mulheres que voluntariamente emigram para trabalhar na prostituição não podem ser consideradas vítimas de TP.* 19.20 17.70 0.80 2.30 12.30 18.40 0.80 19.20 75.40 24.60 - 60.00 9.30 0.80 17.00 36.90 56.20 9.20 25.40 35.40 52.30 3.10 20.80 16.90 30.80 3.10 17.70 3.10 5.40 21.50 43.90 26.10 90.00 72.30 52.30 29.30 96.10 60.00 7.70 44.60 96.90 22.30 87.60 93.80 61.50
PROFISSIONAIS DE SAÚDE E TRÁFICO DE PESSOAS 20 Pessoas com deficiência têm uma maior probabilidade de sofrerem de TP. Entre os grupos mais vulneráveis para o tráfico estão os refugiados. As vítimas de TP são maioritariamente recrutadas através da coerção e violência.* A exploração sexual e a exploração laboral são as únicas formas de TP.* As vítimas de TP aceitam falsas propostas de emprego com o objetivo de melhorar as suas condições de vida. A maior parte das vítimas de TP é identificada e resgatada.* Os homens são sobretudo vítimas de exploração laboral. Cluster 5: Características do Ofensor Os traficantes são normalmente pessoas desconhecidas das suas vítimas.* Os traficantes são sempre do sexo masculino.* Os traficantes operam sempre dentro do seu próprio país.* Cluster 6: Tráfico Infantil Somente a exploração sexual de uma criança configura tráfico de crianças.* Algumas crianças traficadas são vendidas pelos próprios pais. Crianças que trabalham para familiares não podem ser consideradas vítimas de TP.* A adoção ilegal não é uma forma de TP.* As crianças não podem ser vítimas de exploração laboral.* 7.70 9.30 51.50 12.30 6.20 1.50 11.50 17.70 1.50 2.30 0.80 3.80 5.40 6.20 22.30 36.90 25.40 18.50 20.00 14.60 23.10 37.70 33.10 10.00 13.10 6.20 11.50 20.00 16.90 6.20 55.40 65.30 30.00 67.70 79.20 75.40 50.80 49.20 88.50 84.60 93.00 84.70 74.60 76.90 71.50 Cluster 7: Conhecimento da temática e Mecanismos de Atuação
PROFISSIONAIS DE SAÚDE E TRÁFICO DE PESSOAS 21 O meu percurso profissional preparou-me para trabalhar com as vítimas de TP.* O meu percurso académico preparou-me adequadamente para trabalhar com as vítimas de TP.* Tenho conhecimento suficiente para sinalizar e encaminhar uma criança vítima de TP.* Considero ter conhecimento suficiente para sinalizar e encaminhar um homem vítima de TP.* Tenho conhecimento suficiente para sinalizar e encaminhar uma mulher vítima de TP.* Devo chamar imediatamente a polícia se suspeitar que uma pessoa está a ser vítima de TP.* Há sinais evidentes de que uma pessoa está a sofrer de TP. Chamar a polícia em casos de suspeita de tráfico, pode colocar a vítima numa situação de risco elevado. É pouco provável que tenha contacto com uma vítima de TP no meu local de trabalho.* A sintomatologia depressiva está relacionada ao TP. A perturbação de stress pós-traumático não está relacionada ao TP.* As doenças sexualmente transmissíveis são prevalentes nas vítimas de TP para fins de exploração sexual. 5.40 3.10 16.10 18.50 23.00 61.60 62.30 43.90 24.60 13.80 10.80 13.90 11.50 9.20 14.80 13.10 16.20 21.50 27.70 17.70 26.90 33.10 22.30 32.30 83.10 87.70 69.10 68.40 60.80 16.90 10.00 38.40 48.50 53.10 66.90 53.80 *Estes itens são considerados falsos. O cluster em que os participantes tiveram uma perceção mais adequada é “Tráfico infantil” ( M = 4.08; DP = 0.47) seguido de “Características do ofensor” ( M = 3.91; DP = 0.51), “Legislação em Portugal” ( M = 3.74; DP = 0.42), “Caracterização do problema” ( M = 3.70; DP = 0.40), “Características
PROFISSIONAIS DE SAÚDE E TRÁFICO DE PESSOAS 22 da vítima” ( M = 3.59; DP = 0.28), “Fenómeno em Portugal” ( M = 3.54; DP = 0.46) e, finalmente, “Conhecimento da temática e mecanismos de atuação” ( M = 3.42; DP = 0.35). Sexo, Idade e Anos de Experiência Não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas entre os sexos ao nível das perceções dos Profissionais de Saúde face ao TP, t (128) = 1.02, p = .311. Também não se verificou correlação entre as idades dos participantes ( r = -.052, p = .560) e os anos de experiência ( r = -.013, p = .881) ao nível das perceções. Habilitações Académicas Através de um Teste - t para amostras independentes verificou-se que há diferenças entre os grupos de participantes que possuíam Licenciatura e os que possuíam Mestrado/Doutoramento ao nível das perceções face ao TP, t (128) = - 2.58, p = .001, d = 0.50, revelando-se este efeito moderado. Assim, os profissionais que possuíam Mestrado/Doutoramento apresentaram perceções mais adequadas ( M = 193.57; DP = 11.79) quando comparados com os Profissionais de Saúde que possuíam como habilitação académica Licenciatura ( M = 187.78; DP = 11.41). Grupos Profissionais Os médicos obtiveram, em média, respostas mais adequadas ao questionário ( M = 194.43; DP = 10.87), seguindo-se o grupo de farmacêuticos ( M = 191.25; DP = 3.30), o dos psicólogos ( M = 189.29; DP = 12.40) e o dos enfermeiros ( M = 189.05; DP = 11.75). No entanto, não se verificaram diferenças estatisticamente significativas entre os grupos ao nível das perceções face ao TP, F (6,123) = 1.50, p = .183, eta² = 0.07. Tipo de instituição Quando comparamos profissionais de saúde que trabalhavam em IPSS com aqueles que trabalham em instituições de saúde, verificou-se que existiam diferenças significativas ao nível das perceções, t (128) = -3.160, p = .002, d = 0.74, com um efeito de tamanho alto. Os participantes que trabalham em IPSS revelaram perceções mais adequadas ( M = 197.05; DP = 12.78) do que aqueles que trabalham em instituições de saúde ( M = 188.13; DP = 11.13).
PROFISSIONAIS DE SAÚDE E TRÁFICO DE PESSOAS 23 Atendimento e contacto prévio com o TP Quando comparamos profissionais de saúde com experiência profissional no atendimento de vítimas de TP e aqueles que não tinham experiência, verificou-se que existem diferenças significativas ao nível das perceções, t (128) = 2.038, p = .044, d = 0.97, com um efeito de tamanho alto. Os participantes com experiência profissional no atendimento destas vítimas revelaram perceções mais adequadas ( M = 198.14; DP = 6.36) do que aqueles que não tinham experiência a este nível ( M = 188.94; DP = 11.83). Ao avaliar a influência que a experiência profissional teve nas perceções dos participantes sobre todos os clusters, observamos que “Legislação em Portugal”, “Características do ofensor” e “Tráfico infantil” foram aqueles significativamente influenciados pela experiência profissional originando assim perceções mais adequadas (Tabela 3). Tabela 3 Diferenças da Perceção em clusters: Com/Sem Experiência Profissional no atendimento de vítimas de TP Com experiência Profissional ( n = 7) M (DP ) Sem experiência Profissional ( n = 123) M ( DP ) t (128) Caracterização do Problema 3.90 (0.41) 3.69 (0.40) 1.35 Legislação em Portugal 4.14 (0.32) 3.72 (0.41) 2.71* Fenómeno em Portugal 3.61 (0.52) 3.54 (0.27) 0.38 Características da vítima 3.71 (0.34) 3.60 (0.50) 1.20 Características do ofensor 4.30 (0.59) 3.90 (0.50) 2.01* Tráfico infantil 4.54 (0.36) 4.06 (0.46) 2.74* Conhecimento da temática e mecanismos de atuação 3.42 (0.40) 3.42 (0.35) - .05 * p < .05 Existem também diferenças significativas entre os participantes que tiveram contacto com a temática do TP por outros meios que não a experiência profissional, isto é, por via formal, informal ou ambos, e aqueles que não tiveram contacto, F (3.126) = 4.45, p = .005, eta² = 0.10 revelando este ser um efeito de tamanho baixo.
PROFISSIONAIS DE SAÚDE E TRÁFICO DE PESSOAS 30 principais lacunas da atualidade (Konstantopoulos, et al., 2013; Leone, Kim & Morrison, 2017) e elaborar um estudo relativamente às perceções dos auxiliares de saúde relativamente ao fenómeno do TP, uma vez que estes estabelecem contactos mais prolongados com os doentes, nomeadamente na realização de transportes e acompanhamento. Assim sendo, este estudo mostra que os Profissionais de Saúde têm revelado um elevado interesse relativamente ao fenómeno do TP, verificado pelo interesse existente na informação via informal, sendo, portanto, crucial aumentar a informação dirigida a este grupo de profissionais de forma a poder aumentar o seu conhecimento e consequentemente adequar as suas perceções.
PROFISSIONAIS DE SAÚDE E TRÁFICO DE PESSOAS 31 Referências Associação Portuguesa de Apoio à Vítima. (2017). Tráfico de Seres Humanos. Consultado em https://apav.pt/uavmd/index.php/pt/intervencao/trafico-de-seres-humanos Ahn, R., Alpert, E. J., Purcell, G., Konstantopoulos, W. M., McGahan, A., Cafferty, E., ... & Burke, T. F. (2013). Human trafficking: review of educational resources for health professionals. American journal of preventive medicine, 44(3), 283-289 Beck, M. E., Lineer, M. M., Melzer-Lange, M., Simpson, P., Nugent, M., & Rabbitt, A. (2015). Medical providers’ understanding of sex trafficking and their experience with at-risk patients. Pediatrics, 135(4), e895-e902. Becker, H. J., & Bechtel, K. (2015). Recognizing victims of human trafficking in the pediatric emergency department. Pediatric emergency care, 31(2), 144-147. CIG. (2019). Tráfico de Seres Humanos – III Plano Nacional de Prevenção e Combate ao Tráfico de Seres Humanos, 2014-2017. Retirado de https://www.cig.gov.pt/planos-nacionais-areas/trafico-deseres-humanos/ Clawson H., Small K., Go E. & Myles B. (2003). Needs Assessment for Service Providers and Trafficking Victims. Caliber. Virginia. Clawson, H. J., Dutch, N., Solomon, A., & Grace, L. G. (2009). Human trafficking into and within the United States: A review of the literature. Retirado de https://aspe.hhs.gov/basic-report/humantrafficking-and-within-unitedstatesreviewliterature Clydette Powell, Kirsten Dickins & Hanni Stoklosa (2017) Training US health care professionals on human trafficking: where do we go from here?, MedicalEducation Online,22:1, 1267980, DOI: 10.1080/10872981.2017.1267980 Couto, D. L. M. (2012). Tráfico de seres humanos: Perceções sociais, percursos de vitimação e sobrevivência. Tese de doutoramento, Universidade do Minho, Braga, Portugal. Coppola, J. S., & Cantwell, R. (2016). Health professional role in identifying and assessing victims of human labor trafficking. The Journal for Nurse Practitioners, 12(5), e193-e200. Chisolm-Straker, M., Baldwin, S., Gaïgbé-Togbé, B., Ndukwe, N., Johnson, P. N., & Richardson, L. D. (2016). Health care and human trafficking: we are seeing the unseen. Journal of health care for the poor and underserved, 27(3), 1220-1233. Crawford, M., & Kaufman, M. R. (2008). Sex trafficking in Nepal: Survivor characteristics and long-term outcomes. Violence against women, 14(8), 905-916.
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PROFISSIONAIS DE SAÚDE E TRÁFICO DE PESSOAS 34 Recknor, F. H., Gemeinhardt, G., & Selwyn, B. J. (2017). Health-care provider challenges to the identification of human trafficking in health-care settings: A qualitative study. Journal of Human Trafficking, 4(3), 213-230. Titchen, K. E., Loo, D., Berdan, E., Rysavy, M. B., Ng, J. J., & Sharif, I. (2015). Domestic sex trafficking of minors: Medical student and physician awareness. Journal of Pediatric and Adolescent Gynecology. Advance online publication. doi:10.1016/j.jpag.2015.05.006 Wangsnes, G. R. (2014). A Quantitative Study: On Social Worker's Awareness in Identifying Human Trafficked Victims (Masters Dissertation). California State University, San Bernardino, California, United States of America. Zimmerman, C., Hossain, M., & Watts, C. (2011). Human trafficking and health: A conceptual model to inform policy, intervention and research. Social Science & Medicine , 73(2), 327-335. doi: 10.1016/j.socscimed.2011.05.028 Zimmerman, C., Yun, K., Shvab, I., Watts, C., Trappolin, L., Treppete, M., … Regan, L. (2003). The health risks and consequences of trafficking in women and adolescents. Findings from a European study . London: London School of Hygiene & Tropical Medicine. Retirado de http://www.lshtm.ac.uk/php/ghd/docs/traffickingfinal.pdf
35 Anexos
PROFISSIONAIS DE SAÚDE E TRÁFICO DE PESSOAS 36 Anexo 1. Parecer do Conselho de Ética da Universidade do Minho