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Perceção de Violência no Trabalho – Um Estado com professores em Portugal em regime de ensino presencial e online Sara Castro UMinho | 2021 Universidade do Minho Escola de Psicologia Sara Filipa Gonçalves Castro Perceção de Violência no Trabalho – Um Estudo com professores em Portugal em regime de ensino presencial e online junho de 2021
Universidade do Minho Escola de Psicologia Sara Filipa Gonçalves Castro Perceção de Violência no Trabalho – Um Estudo com professores em Portugal em regime de ensino presencial e online junho de 2021 Dissertação de Mestrado Mestrado Integrado em Psicologia Trabalho efetuado sob a orientação da Professora Doutora Isabel Maria Soares da Silva
II DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição CC BY https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/
III Agradecimentos À professora Doutora Isabel Silva, orientadora deste trabalho, pela disponibilidade constante que demonstrou em me guiar durante este exigente percurso. Pelas observações, sugestões e críticas construtivas que contribuíram para estimular o meu pensamento crítico face às questões que se iam levantando à medida que progredia na execução desta dissertação de mestrado. A todas as minhas colegas da Unidade de Investigação de Psicologia do Trabalho e das Organizações pela partilha de conhecimentos e entreajuda. Ao meu grupo de colegas de curso por todos os momentos partilhados durante os últimos cinco anos, especialmente à Ana, Santos, Majó, Ângela, Paula e Diana. À minha família, em especial aos meus pais, por me terem proporcionado uma vida académica até aqui e por todos os esforços e sacrifícios feitos, à minha prima, Cláudia, por ter sido um exemplo direto de motivação para o envolvimento escolar desde o meu quinto ano até à universidade, aos meus avós pelo carinho e preocupação desde sempre demonstrados. Sem todos eles não seria possível ter concluído este etapa académica e pessoal da minha vida. À Lau e à Tina por toda a amizade e apoio que me derem, especialmente durante este último ano, e por todos os momentos divertidos que me permitiram relativizar os problemas nos momentos de maior angústia. Aos amigos de quatro patas, Índia, Dehli, Óscar e Nero, pela alegria constante. Dedico este trabalho a todos os professores com quem me fui cruzando durante o meu percurso académico e que, de uma forma ou de outra, contribuíram para o meu enriquecimento académico, intelectual, e, principalmente, pessoal.
IV DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. …………………………………………………………………. (Sara Filipa Gonçalves Castro)
V VIOLÊNCIA NO TRABALHO CONTRA PROFESSORES Resumo A violência no trabalho tem-se assumido como uma problemática frequente em diferentes grupos ocupacionais. Este estudo aborda o tema num grupo ocupacional pouco estudado em Portugal, os professores, e tem como principal objetivo caracterizar a perceção de violência no trabalho contra os(as) professores(as) considerando os regimes de ensino presencial e online , do ano letivo 2019/2020. Responderam a um questionário online 804 professores, maioritariamente, dos ensinos básico, secundário e profissional. Os resultados indicam que o tipo de violência mais frequentemente reportado nos dois regimes de ensino é a violência vicariante sendo a fonte mais comum destes comportamentos os(as) estudantes. A interferência dos pais foi apontada como a forma de violência mais associada ao ensino online . Verificou-se que a perceção de violência física e vicariante é mais comum nas escolas públicas, que as regiões Centro e Alentejo exibem níveis de violência psicológica superiores à região Norte e que a frequência de violência percecionada está negativamente associada à perceção de suporte dos colegas e das chefias. Palavras-chave: violência contra professores, ensino Online, suporte social
VI WORKPLACE VIOLENCE AGAINST TEACHERS Abstract Violence at work as become a frequent problem among different occupational groups. The present study addresses this theme in as occupational group that has been little studied in Portugal, teachers, and aimed to characterize the perception of violence against teachers in Portugal, considering presential and online education systems, for the past academic year 2019/2020. 804 teachers, most of them teaching in Middle, High, and Vocational School, answered an online questionnaire. The results indicate that the type of violence most frequently perceived by teachers, in both teaching systems, is vicarious violence, with students being the most common source of these behaviors. The parent´s interference was identified by the participants as the most frequently form of violence associated to online teaching. It was also found that physical and vicarious violence against teachers is more common in public schools, the Center an Alentejo regions show higher levels of psychological violence than North, and the frequency of violent events is negatively associated with organizational and colleague´s support. Keywords: violence against teachers, online teaching, social support
VII Índice Violência no trabalho em contexto de ensino ....................................................................... 10 Fatores de risco individuais e contextuais ............................................................................ 11 Consequências a nível individual e organizacional ............................................................... 12 Impacto do suporte organizacional ...................................................................................... 12 Ensino Online ..................................................................................................................... 13 Objetivos do estudo ............................................................................................................ 13 Método ................................................................................................................................... 14 Participantes....................................................................................................................... 14 Instrumentos ...................................................................................................................... 16 Questionário de Caracterização da Amostra ..................................................................... 16 Escala de Agressão e Violência no Trabalho ..................................................................... 16 Perceção do suporte social da chefia e dos colegas ......................................................... 17 Questionário de perceção de violência em regime de ensino online. ................................. 18 Procedimento ..................................................................................................................... 19 Análise de dados ................................................................................................................ 20 Resultados ............................................................................................................................. 20 Análise Fatorial Confirmatória ............................................................................................. 20 Frequência de exposição a acontecimentos violentos – Período de ensino presencial ........... 23 Relação entre a perceção de violência e variáveis individuais e do contexto laboral .............. 25 Frequência de exposição a acontecimentos violentos – Período de ensino online ................. 28 Discussão ............................................................................................................................... 31 Limitações do estudo e direções futuras .............................................................................. 34 Referências ............................................................................................................................ 36 Índice de Tabelas Tabela 1 Nível(eis) de ensino(s) lecionado(s) ........................................................................... 14 Tabela 2 Distrito ou Região Autónoma onde estava inserida a escola em que o/a profissional lecionou .............................................................................................................................................. 15 Tabela 3 Estatuto da escola em que o/a profissional lecionou ................................................. 16 Tabela 4 Índices de ajustamentos dos modelos analisados ...................................................... 21 Tabela 5 Análise da componente de medida ........................................................................... 22
VIOLÊNCIA NO TRABALHO CONTRA PROFESSORES 14 III. Analisar a relação entre a perceção de violência no trabalho e: a. as características individuais dos professores (sexo, idade, experiência profissional e nível de ensino que leciona). b. as características do contexto laboral (tipo de escola em que trabalha e meio onde está inserida). IV. Avaliar a relação entre a perceção de violência no trabalho e o suporte social das chefias e dos colegas. Método Participantes A amostra é constituída por 804 professores a trabalhar em Portugal com idades compreendidas entre os 24 e os 65 anos ( M = 44.13; DP = 7.52). A maioria dos profissionais (91%) é do sexo feminino. O tempo de experiência de ensino varia entre 1 e 59 anos ( M = 17.08; DP = 9.11). Relativamente ao(s) nível(eis) de ensino lecionado(s), poderia ser mais que um, 50.2% dos participantes referiu ter lecionado no ensino básico, 8.6% no ensino secundário e 3.1% no ensino profissional, tendo os restantes profissionais lecionado noutras combinações de níveis de ensino (Ver Tabela 1). Tabela 1 Nível(eis) de ensino(s) lecionado(s) Nível n % Básico 404 50.2 Básico e Secundário 131 16.3 Básico, Secundário e Profissional 59 7.3 Básico e Profissional 33 4.1 Secundário 69 8.6 Secundário e Profissional 35 4.4 Profissional 25 3.1 Educação Especial 8 1.0
VIOLÊNCIA NO TRABALHO CONTRA PROFESSORES 15 Outras combinações 40 5.0 Em relação à localização geográfica, estão representadas no estudo escolas dos 18 distritos de Portugal Continental, bem como das regiões autónomas da Madeira e dos Açores (Tabela 2). No ano letivo 2019/2020, a maioria dos participantes exerceu em escolas localizadas em distritos litorais como Lisboa (24.9%), Braga (16.3%), Porto (15%) ou Setúbal (6%). Os distritos do interior como Portalegre (1%), Guarda (0.6%) ou Bragança (0.2%) são os menos representados. Tabela 2 Distrito ou Região Autónoma onde estava inserida a escola em que o/a profissional lecionou Distrito ou Região Autónoma n % Açores 25 3.1 Aveiro 38 4.7 Beja 14 1.7 Braga 131 16,3 Bragança 2 0.2 Castelo Branco 9 1.1 Coimbra 22 2.7 Évora 8 1.0 Faro 29 3.6 Guarda 5 0.6 Leiria 37 4.6 Lisboa 200 24.9 Madeira 9 1.1 Portalegre 8 1.0 Porto 121 15.0 Santarém 29 3.6 Setúbal 48 6.0 Viana do Castelo 14 1.7 Vila Real 12 1.5 Viseu 19 2.4
VIOLÊNCIA NO TRABALHO CONTRA PROFESSORES 16 Sem informação 24 3.0 Quanto ao meio, 70.5% dos professores da amostra referiram ter lecionado em escolas situadas em meio urbano sendo que os restantes 29.5% fizeram-no em escolas situadas em meio rural. Note-se, ainda, que a maioria dos docentes (82.5%) referiu ter exercido em escolas públicas (Tabela 3). Tabela 3 Estatuto da escola em que o/a profissional lecionou Estatuto n % Instituições particulares de solidariedade social (IPSS) 2 0.2 Militar 1 0.1 Privada 134 16.7 Pública 663 82.5 Pública e Privada 4 0.5 Instrumentos O protocolo de investigação incluiu vários questionários e escalas, os quais são descritos de seguida. Questionário de Caracterização da Amostra Este questionário visou recolher informação com vista à caracterização da amostra, tendose obtido dados sobre: 1) características sociodemográficas (idade e o sexo) e 2) características da situação profissional (anos de experiência, nível de ensino lecionado, tipo de escola (pública ou privada), meio (urbano ou rural), e concelho onde estava inserida a escola). Escala de Agressão e Violência no Trabalho Foi usada a versão proposta por Marques & Silva, (2017) da Agression and Violence at Work Scale (Escala de Agressão e Violência no Trabalho) de Rogers & Kelloway (1997) para o contexto português com base numa amostra de profissionais de saúde. Dada a inexistência de dados desta escala para a população docente, posteriormente, foi realizada a análise fatorial confirmatória por forma a determinar o ajustamento do instrumento à amostra em estudo.
VIOLÊNCIA NO TRABALHO CONTRA PROFESSORES 17 A escala permite avaliar a perceção de frequência de acontecimentos violentos a que os participantes possam ter sido sujeitos no exercício da sua profissão durante o último ano, bem como, a natureza dos mesmos (psicológicos, físicos ou vicariantes). É constituída por 16 itens que avaliam três dimensões de violência: 1) psicológica, constituída por 3 itens, 2) física, constituída por 8 itens e 3) vicariante, constituída por 5 itens. Os itens são respondidos numa escala tipo Likert de quatro pontos: 0 (Nunca), 1 (Uma vez), 2 (Duas ou três vezes) e 3 (Quatro ou mais vezes). Quanto maior for a pontuação obtida maior é a perceção de frequência de exposição a acontecimentos violentos no exercício profissional. No estudo já citado de Marques & Silva (2017), foi observado que a “Violência física” se dividiu em duas dimensões: 1) “Violência física dirigida ao profissional” e 2) “Violência física dirigida a bens”, tendo estas exibido, respetivamente, alfas de Cronbach de 0.81 e 0.68; a dimensão vicariante apresentou um alfa de Cronbach de 0.79 e a psicológica de 0.77, indicando a fiabilidade do instrumento. Após a apresentação das escalas (i.e., dos comportamentos violentos) e por forma a identificar a fonte predominante associada aos mesmos, foi colocada a questão “Qual foi a fonte mais frequente dos comportamentos violentos que assinalou acima?” com as seguintes opções de resposta: “Alunos”, “Pais”, “Colegas”, “Outros” e “Nenhuma (assinalei “nunca” em todas as questões)”. Esta questão foi desenvolvida no âmbito do presente estudo e teve como principal objetivo permitir uma caracterização o mais detalhada possível do fenómeno junto do grupo profissional inquirido. Perceção do suporte social da chefia e dos colegas Foram usadas duas escalas para avaliar: (1) a perceção do suporte social da chefia e (2) a perceção do suporte social dos colegas. Desenvolvidas por Caplan, Cobb, French, Van Harrison e Pinneau (1975) e modificadas por Lee (2004), ambas foram adaptadas por Silva (2008), considerando o contexto português, tendo-se obtido um alfa de Cronbach de 0.91 para a escala de perceção do suporte social dos colegas e de 0.90 para a escala de perceção do suporte social da chefia. Cada escala contém 4 itens respondidos numa escala de Likert de 1 (“discordo totalmente”) a 5 (“concordo totalmente”) pontos, sendo que, maiores pontuações indicam uma maior perceção de suporte em ambas as facetas.
VIOLÊNCIA NO TRABALHO CONTRA PROFESSORES 18 Questionário de perceção de violência em regime de ensino online. Este questionário foi construído especificamente no âmbito do presente estudo com base na literatura (e.g., Li, 2012) e nos contributos de 4 professores consultados para o propósito. Especificamente, foram discutidos os principais temas que pudessem estar associados à violência contra os professores no ensino online. Desta discussão, para além da agressão verbal “Alguma vez foi agredido verbalmente durante uma aula online? “ , psicológica “Alguma vez se sentiu humilhado e/ou ridicularizado durante uma aula online?” e vicariante “Teve conhecimento de algum(a) colega que se tenha visto obrigado(a) a cancelar uma aula online devido a intrusos que acederam e perturbaram a aula sem consentimento?” , os professores ressalvaram a importância de temas como: a partilha com estranhos das senhas de acesso às aulas “ Algum(a) aluno(a) seu partilhou, sem o seu consentimento, o modo de acesso às suas aulas online?” e as críticas/mensagens abusivas que podem ser enviadas pelo chat de mensagens “Alguma vez foi alvo de comentários ou críticas agressivas escritas (por exemplo no chat de mensagens) durante uma aula online?” . O questionário é constituído por 11 itens, sendo 5 (e.g., “ Alguma vez teve uma aula sua (ou partes dela) gravada, sem o seu consentimento, a circular na internet?” ) respondidos com uma das seguintes opções: “Nunca”, “Não sei”, “Sim, uma vez”, “Sim, duas ou três vezes” e “Quatro ou mais vezes”, de forma a identificar a frequência dos acontecimentos questionados, 4 (e.g., “ Alguma vez o tentaram intimidar e/ ou foi intimidado durante uma aula online?” ) respondidos com uma das seguintes opções: “Não”, “Sim, por alunos meus”, “Sim, por pais ou familiares dos meus alunos” e “Sim, por estranhos que invadiram as minhas aulas” com o objetivo de identificar, a existir, a fonte dos comportamentos violentos. Os restantes 2 itens (e.g., “Teve conhecimento de algum(a) colega de profissão que tenha tido uma aula interrompida por estranhos?”) foram respondidos com uma das opções: “Não”, “Sim, um caso”, “Sim, dois a três casos” e “Sim, quatro ou mais casos”. Para explorar outras vertentes da violência que pudessem não estar comtempladas no questionário, foi colocada uma questão aberta sobre que outros tipos de violência poderiam estar relacionados com o ensino online .
VIOLÊNCIA NO TRABALHO CONTRA PROFESSORES 19 Procedimento Numa primeira fase, foram contactados 4 professores através de contactos informais, com o intuito de identificar questões que poderiam ser relevantes estudar no âmbito da violência em contexto de ensino online . Desta reflexão conjunta, surgiram os contributos supramencionados para construção do Questionário de perceção de violência em regime de ensino online. De seguida, foi aplicado um pré-teste do questionário a 6 professores, individualmente, adotando-se o mesmo critério de contacto da primeira fase. Foi utilizado o contacto eletrónico e telefónico para estabelecer conversas com os participantes. Do pré-teste não resultaram alterações ao questionário pelo que se considerou aceitável a compreensão/clareza do mesmo. Paralelamente, alguns aspetos na introdução dos instrumentos foram adaptados aos objetivos e contexto do estudo. Especificamente, na Escala de Agressão e Violência no Trabalho, perguntou-se a frequência com que experienciou acontecimentos violentos no local de trabalho entre setembro de 2019 a março de 2020 (período de ensino presencial) e não durante o último ano. No questionário de Perceção do suporte social da chefia e dos colegas foi feita uma menção para os participantes considerem como "chefia" a(s) pessoa(s) que desempenha(m) um papel ligado à gestão e/ou direção na escola onde lecionou. Obtida a versão final do protocolo de investigação, prosseguiu-se com a divulgação do estudo. Foram contactados sete sindicatos de professores, durante duas semanas de janeiro, com o objetivo de solicitar a colaboração na divulgação do estudo junto dos associados, não se tendo obtido qualquer resposta. Face ao constrangimento descrito, a divulgação continuou em diversos grupos privados de professores no LinkedIn e no Facebook . Os administradores destes grupos acederam a publicar o link do estudo nas respetivas páginas que permitia aos participantes responder ao questionário na plataforma Google Forms . A participação iniciou-se com a apresentação do consentimento informado, onde foram explicitados os objetivos do estudo, o carácter voluntário da participação e a garantia de confidencialidade dos dados recolhidos. O preenchimento do questionário teve uma duração média de 10 minutos. Este esteve disponível online durante um mês (de janeiro a fevereiro de 2021). Refira-se, ainda, que o projeto obteve aprovação por parte da Comissão de Ética para a Investigação em Ciências Sociais e Humanas da UMinho.
VIOLÊNCIA NO TRABALHO CONTRA PROFESSORES 20 Análise de dados Para a análise de dados recorreu-se aos programas estatísticos Statistical Package for the Social Sciences (IBM® SPSS®, versão 27.0) e IBM® SPSS®, AMOS versão 27.0. A análise iniciou-se com a obtenção das estatísticas descritivas e da verificação dos pressupostos de normalidade da amostra. Para estudar as relações entre variáveis, realizaram-se correlações de Pearson. Na análise das diferenças de médias entre as variáveis e as dimensões de violência realizaram-se testes não paramétricos ( Mann-Whitney e Kruskal Wallis ) e paramétricos ( t Student e ANOVA One-Way ). Relataram-se os resultados dos testes paramétricos quando ambos os testes concordavam nas conclusões, quando não concordavam, relataram-se os resultados dos testes não paramétricos, dado que os pressupostos de normalidade não estavam cumpridos, seguindo as recomendações de Fife – Schaw (2006). No caso dos não paramétricos para comparação de três ou mais grupos foi usada a correção de Bonferroni (Pestana & Gageiro, 2005) na identificação dos grupos que se diferenciavam. Resultados Análise Fatorial Confirmatória De forma a avaliar as propriedades psicométricas da escala de Agressão e Violência no Trabalho, considerando o grupo ocupacional alvo do presente estudo, procedeu-se à análise fatorial confirmatória (AFC). Foi analisado o modelo de 3 fatores da escala original de Rogers e Kelloway (1997) (M1) e o modelo de 4 fatores proposto por Marques e Silva (2017) (M2) num estudo com enfermeiros portugueses, tendo este dado contributos para a adaptação do instrumento ao contexto português. Para determinar a qualidade de ajustamento foram considerados índices indicados por Byrne (2013): χ2/gl (Qui-quadrado sobre Graus de Liberdade), CFI ( Comparative Fit Index ), GFI ( Goodness of Fit Index ), AGFI ( Adjusted Goodness of Fit Index ) e RMSEA ( Root Mean Square Error of Approximation ). Concluiu-se que o modelo original de 3 fatores, apesar de não ser considerado satisfatório, é o que oferece melhor ajustamento aos dados da amostra em estudo (ver tabela 4), pelo que, se optou por refiná-lo de forma a conseguir melhores índices de ajustamento.
VIOLÊNCIA NO TRABALHO CONTRA PROFESSORES 21 O ajustamento do modelo foi realizado pela análise dos pesos fatoriais dos itens por forma a avaliar se todos tinham valores superiores que .50 conforme recomendado por Pestana & Gageiro (2005). Verificou-se que os pesos fatoriais dos itens 1 (“ Alguma vez foi esbofeteado, pontapeado, amarrado ou empurrado por alguém enquanto estava a trabalhar ?”), 2 (“ Já alguém lhe cuspiu ou mordeu enquanto estava a trabalhar ?”), 5 (“ Já foi ameaçado com uma arma enquanto estava a trabalhar ?”) e 6 (“Os seus bens pessoais ou de trabalho já foram danificados por alguém no seu trabalho ?”), todos referentes à dimensão da violência física, se revelaram menores que .50 pelo que foram eliminados seguindo as recomendações dos autores citados. As alterações mencionadas conduziram ao M3 que, no geral, revela bons índices de ajustamento com valores CFI (0.941), GFI (0.943) e, AGFI (0.912) superiores a 0.90 e RMSEA (0.077) inferior a 0.080, valores que refletem, segundo Hair et al. (2010), um bom ajustamento. O valor 2 /gl (5.7) situa-se ligeiramente acima do recomendado por Wheaton et al. (1977), contudo, segundo Sahoo (2019) este quociente tende a aumentar com grandes amostras (superiores a 750). Os pesos fatoriais estandardizados situaram-se acima do ponto de corte 0.50 recomendado por Pestana & Gageiro (2005) indicando a validade fatorial (ver tabela 5). A significância dos valores dos itens foi assegurada pelos t-values superiores a 1.96 como recomendado por Byrne (2013). A consistência interna da escala foi assegurada pelos Alfas de Cronbach superiores a 0.70, como sugerido por Marôco (2010). Posto isto, resolveu-se não realizar mais modificações ao modelo, considerando-se, assim, o M3 como aquele que melhor se adequa à amostra em estudo. Tabela 4 Índices de ajustamentos dos modelos analisados Índices de Ajustamento M1 (3 fatores da escala original) M2 (4 fatores da escala adaptada) M3 (M1 Ajustado) 2 /gl 6.9 7.7 5.7 CFI 0,881 0,869 0,941 GFI 0,895 0,896 0,943 AGFI 0.859 0.856 0.912
VIOLÊNCIA NO TRABALHO CONTRA PROFESSORES 22 _ Parâmetro fixado a 1.0 na solução original; *** p < .001 Figura 1 Modelo (M3) proposto da Escala de Agressão e Violência no Trabalho para os dados da amostra. RMSEA 0,086 0,091 0,077 Tabela 5 Análise da componente de medida do modelo proposto Fator Itens Alfa de Cronbach Peso Fatorial não Estandardizado Peso Fatorial Estandardizado Erros Estandardizados t-values *** Violência Física 3 0.722 1.00 0.530 - - 4 1.443 0.661 0.115 12.592 7 1.452 0.668 0.113 12.851 8 1.611 0.647 0.129 12.448 Violência Psicológica 9 0.817 1.00 0.857 - - 10 0.886 0.838 0.033 26.445 11 0.815 0.654 0.042 19.569 Violência Vicariante 12 0.840 1.00 0.749 - - 13 1.261 0.827 0.056 22.627 14 0.860 0.706 0.045 19.314 15 1.130 0.787 0.052 21.585 16 0.579 0.503 0.043 13.580
VIOLÊNCIA NO TRABALHO CONTRA PROFESSORES 23 Frequência de exposição a acontecimentos violentos – Período de ensino presencial A tabela 6 apresenta os resultados relativos à frequência de acontecimentos violentos e agressivos percecionados pelos professores durante o período de ensino presencial. O comportamento violento mais indicado é: “Alguma vez ouviu falar se os seus colegas de trabalho/chefes experienciaram algum ato violento durante o trabalho?” pertencente ao fator “Violência Vicariante”. Especificamente, 64.4% dos professores da amostra experienciaram, pelo menos uma vez, este tipo de violência durante o referido período, tendo os restantes 35.6% indicado nunca o ter percecionado. Salienta-se, ainda, que o segundo comportamento mais frequente também integra o fator supramencionado, enquanto o terceiro e o quarto concorrem para o fator “Violência Psicológica”. Em contrapartida, 97.3% dos participantes afirmam nunca ter experienciado o acontecimento: “ Já foi ameaçado com uma arma enquanto estava a trabalhar ?”, referente ao fator “Violência Física” sendo este o menos frequente. Os restantes itens pertencentes à dimensão “Violência Física” apresentam todos eles percentagens baixas, indicando que este tipo de violência é o menos percecionado pelos professores da amostra.
VIOLÊNCIA NO TRABALHO CONTRA PROFESSORES 30 n (%) n (%) n (%) n (%) 9. Alguma vez se sentiu humilhado e/ou ridicularizado durante uma aula online ? 742 (92.3) 42 (5.2) 16 (2.0) 4 (0.5) 6. Alguma vez o tentaram intimidar e/ ou foi intimidado durante uma aula online ? 769 (95.6) 15 (1.9) 15 (1.9) 5 (0.6) 7. Alguma vez foi agredido verbalmente durante uma aula online ? 774 (96.3) 21 (2.6) 7 (0.9) 2 (0.2) 8. Alguma vez foi alvo de comentários ou críticas agressivas escritas (por exemplo no cha t de mensagens) durante uma aula online ? 777 (96.6) 14 (1.7) 10 (1.2) 3 (0.4) Não Sim, um caso Sim, dois a três casos Sim, quatro ou mais casos n (%) n (%) n (%) n (%) 10. Teve conhecimento de algum(a) colega de profissão que tenha tido uma aula interrompida por estranhos? 360 (44.8) 223 (27.7) 168 (20.9) 53 (6.6) 11. Teve conhecimento de algum(a) colega que se tenha visto obrigado(a) a cancelar uma aula online devido a intrusos que acederam e perturbaram a aula sem consentimento? 501 (62.3) 182 (22.6) 92 (11.4) 29 (3.6)
VIOLÊNCIA NO TRABALHO CONTRA PROFESSORES 31 A maioria (55.7%) refere, ainda, que os níveis de violência perpetrados não se alteraram devido ao ensino online ao passo que 29.9% defende que esses níveis aumentaram e 14.4% refere que diminuíram. Na opinião dos 164 participantes que responderam à questão aberta, comportamentos violentos como os indicados na tabela 10 (por ordem decrescente de frequência) estão associados ao regime de ensino online. Tabela 10 Comportamentos violentos associados ao ensino online Interferência negativa dos pais/encarregados de educação Ciberbullying / Bullying Violação dos direitos de imagem/identidade Falta de controlo da aula (e.g., câmaras desligadas, saídas das aulas, formas inapropriadas de assistir às aulas) Indiferença Sobrecarga de trabalho e desgaste emocional associado Violência vicariante (ambiente familiar do aluno). Assédio sexual Discussão Os resultados obtidos indicam que o tipo de violência mais frequentemente percecionado em ensino presencial é a vicariante e a menos é a física. Estas conclusões coincidem parcialmente com os dados da literatura, na medida em que concordam com Gregory et al. (2012) no tipo de violência menos frequente mas discordam de outros estudos como os de Alonso et al. (2009); Berg & Cornell (2016) e Mooij (2011), onde o tipo de violência mais frequentemente mencionado pelos docentes foi a verbal, o que também se verificou no estudo de Vizinho (2018), realizado com professores portugueses.
VIOLÊNCIA NO TRABALHO CONTRA PROFESSORES 32 Quanto à fonte perpetradora, durante o período de ensino presencial, a maioria dos professores referiu que são os alunos os autores dos atos violentos por si assinalados corroborando as conclusões de McMahon et al. (2014). Relativamente às características individuais, não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas ao nível do sexo contrariando os dados de McMahon et al. (2014), que defende que os homens tem uma probabilidade significativamente superior de sofrerem mais agressões físicas e psicológicas, de Martinez et al. (2016), que aponta para uma maior vitimização dos professores em relação às professoras, ou de Robers et al. (2015) que, contrariamente aos anteriores, indica que as mulheres têm um maior risco de vitimização. Ao nível da idade e do tempo de experiência, os dados revelam uma associação significativa positiva com a frequência de violência vicariante indicando que os professores mais velhos e mais experientes reportam significativamente mais este tipo de violência do que os professores mais jovens e menos experientes o que contraria as conclusões de Gerberich et al. (2011) e Robers et al. (2013). Estes dados podem ser explicados por duas razões, possivelmente, os professores mais velhos são mais abordados por colegas vitimizados, porque têm mais experiência em lidar com este tipo de situações (Reddy et al., 2018), e, também, devem exercer funções de coordenação de turmas ou de direção, o que lhes dará um contacto mais próximo com os relatos das situações de violência. Nas características contextuais e do meio laboral, encontraram-se diferenças estatisticamente significativas entre tipos de escolas, com as públicas a apresentarem níveis de violência física e vicariante superiores às privadas o que corrobora as conclusões de Gerberich et al. (2014) e Robers et al. (2013). Nas escolas privadas existe uma gestão mais efetiva (Martinez, 2014) e autónoma (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico [OCDE], 2011). Possivelmente, este maior controlo interno e independência na tomada de decisão poderá possibilitar uma reação mais célere das instituições face aos agressores, mitigando os casos de violência. Também se identificaram diferenças estatisticamente significativas entre regiões para a violência psicológica tendo o Centro e Alentejo apresentado médias superiores face ao Norte. Por outro lado, não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas ao nível do tipo de ensino, contrariando as descobertas de Alonso et al. (2009); Chen & Astor (2009) e Gary et al. (1998) que apontam para uma maior vitimização no ensino secundário e profissional,
VIOLÊNCIA NO TRABALHO CONTRA PROFESSORES 33 nem ao nível do meio, discordando de Berg & Cornell (2016); Gregory et al. (2012) e Robers et al. (2013) que referem a maior probabilidade de vitimização em meio urbano. Neste caso, salientase o facto de que o critério de escolha do meio coube ao participante, talvez fossem encontradas diferenças se os critérios para considerar o meio como rural ou urbano fossem explícitos como acontece no estudo de Gregory et al. (2012). Verificou-se uma associação negativa estatisticamente significativa entre o suporte social dos colegas e das chefias e a perceção de violência, indicando que os professores que não se sentem apoiados pelos seus colegas/diretores tendem a percecionar mais frequentemente acontecimentos violentos no trabalho corroborando as conclusões de Gregory et al. (2012), Martinez et al. (2016) e Reddy et al. (2018). No período de ensino online , os professores tiveram de adotar comportamentos de cibersegurança para prevenir intrusões indesejadas nas suas aulas. No fim do ano letivo, o Centro Nacional de Cibersegurança (CNS, 2021) realizou um inquérito com o objetivo de avaliar a perceção dos comportamentos de cibersegurança adotados pelos professores. Os dados do CNS revelam que 11% dos 21.126 professores da amostra sofreram intrusões de terceiros nas suas aulas online e que 3% teve uma aula sua gravada e, posteriormente, partilhada online . Por sua vez, os dados recolhidos no presente estudo demonstram que 17% dos professores da amostra tiveram as suas aulas online interrompidas, pelo menos uma vez, por estranhos, um número superior aos 11% aferidos pelo CNS. As percentagens referentes à partilha online de aulas gravadas situam-se nos 2.3%, um valor ligeiramente inferior ao obtido pelo CNS. As questões relativas à violência vicariante foram as que tiveram maiores percentagens de perceção de violência no período de ensino online . Estes dados não corroboram as conclusões de Kopecký & Szotkowski (2017) que indicam que as formas mais comuns de ciberataques aos professores são verbais (e.g., insultos, ridicularização, humilhação). Não obstante, dados do inquérito do Gewerkschaft Erziehung und Wissenschaft (GEW, 2008) destacam a relevância da violência vicariante no ensino online , apontando que mais de 30% dos professores alemães tiveram conhecimento de casos de cyberbullying entre colegas de profissão. Apesar da fonte mais frequente dos comportamentos violentos assinalados em regime online ser os alunos, nesta modalidade de ensino, os professores da amostra ressalvaram, o papel
VIOLÊNCIA NO TRABALHO CONTRA PROFESSORES 34 dos pais/encarregados de educação que se dirigiam a eles de forma abusiva e prejudicial para o decorrer das aulas. De resto, este foi mesmo o comportamento violento associado ao ensino online mais assinalado. Especificamente, foram relatados casos em que os docentes recebiam insultos, injúrias, queixas sobre outros professores, críticas pejorativas sobre a sua forma de lecionar, julgamentos, interferências que perturbavam o bom funcionamento das aulas, sugestões sobre como deveriam ser abordadas as matérias e pressão psicológica de pais que assistiam às aulas à espera de encontrar algum erro do professor. A questão do contexto familiar do aluno surge através de relatos de violência vicariante com os professores a afirmarem que presenciaram episódios de violência doméstica entre as famílias dos alunos. Outra forma de violência relacionada ao ensino online “ Sobrecarga de trabalho e desgaste emocional associado”, poderia ser interpretada como uma consequência deste regime de ensino, contudo, na perceção dos participantes, surge como uma forma de violência (eg., “Deixei de ter vida pessoal para me dedicar ao ensino online... É uma forma de violência!”). Limitações do estudo e direções futuras A principal limitação deste estudo reside no facto de se reportar a um tempo passado, (setembro de 2019 a junho de 2020). Os dados foram recolhidos em janeiro de 2021 e o viés da memória não deve ser menosprezado quando se avalia as possíveis variáveis parasitas que possam ter contaminado os resultados. Embora a maioria (77.9%) dos docentes em Portugal seja do sexo feminino (PORDATA, 2019), seria relevante diminuir a assimetria de participação entre sexos (91% dos participantes eram do sexo feminino e 9% do masculino) por forma a garantir a validade externa. A utilização da Escala de Agressão e Violência no Trabalho revelou-se pouco adequada devido à existência de 4 itens problemáticos (1,2,5, e 6), pertencentes à dimensão da violência física, que tiveram de ser eliminados, deixando a referida dimensão com metade dos itens inicialmente previstos para a avaliar. A literatura indica que o tipo de violência mais frequentemente perpetrado contra professores é a verbal (Alonso et al., 2009; Berg & Cornell, 2016; Mooij, 2011; Gregory et al., 2012), pelo que, em futuros estudos, seria desejável usar um instrumento onde as várias facetas deste tipo de violência estejam contempladas. Para isso, terão de ser adaptados ou
VIOLÊNCIA NO TRABALHO CONTRA PROFESSORES 35 criados instrumentos, dado que, em Portugal, quanto o que é do nosso conhecimento, não existem instrumentos validados para o efeito. Por outro lado, a referida escala foi usada para avaliar o período de 6 meses de ensino presencial, tendo esta sido concebida para considerar eventos durante o ano anterior àquele em que é aplicada. Nos comentários facultativos, alguns participantes referiram já terem sido vítimas dos comportamentos mencionados, mas não no período temporal indicado, ou seja, provavelmente, as taxas de vitimização seriam maiores se a referência temporal tivesse sido 1 ano. Noutros estudos podem ser desenvolvidos novos instrumentos capazes de capturar a realidade do fenómeno ou abordagens ao tema por diferentes métodos de investigação (qualitativo, focus group ) de forma a contribuir para o seu entendimento.
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