É Outono e chapéus há muitos...
Abstract
Artigo de opinião mensal no Correio do Minho
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correiodominho.pt 28 de Setembro 2023 23 24 23 de Novembro 2023 correiodominho.pt Mais uma crónica em que me inspiro no Outono que se sente lá fora (no hemisfério norte, claro!) e que caminha a passos largos para o Inverno. O Outono como período de recolhimento que convida à reflexão, à introspecção, ao adormecimento do ambiente natural e que, juntamente com o Inverno, prepara a exuberância explosiva de cores na Primavera e de sabores do Verão. É importante referir as quatro estações do ano, não esquecer nenhuma (pergunto sempre aos meus botões “Então e o Inverno?” quando oiço a Mariza cantar “Quem me dera / Abraçar-te no Outono, Verão e Primavera / Quiçá viver além uma quimera...) pois não as queremos mais baralhadas do que já estão. Parece que as estações de solstício (Verão e Inverno) andam a espraiar-se para além da conta e a conquistar tempo às outras duas, as de equinócio... Estamos no Outono, um período de comedimento, de armazenar na despensa para o Inverno parco em recursos. Só que vamos com calma, porque para alguns seres vivos este é, verdadeiramente, o período de festa. É altura de abrir a “boca” e encher a “barriga”. E é tal o banquete que a folhada permite, que esses seres aparecem de um dia para o outro como cogumelos. Que o são! Mas em que consistem os cogumelos? Nascem da terra e não são plantas. Alimentam-se de outros seres vivos e não são animais. Na cadeia alimentar encontram-se mesmo no fim decompondo a matéria orgânica, reciclando-a e viabilizando um novo princípio, um recomeço. São a porta que fecha um ciclo e, simultaneamente, a chave que permite abrir a porta de uma nova volta nesta espiral sem fim. Vemo-los na terra em campos abertos sem árvores (cogumelos saprófitas) e também os podemos encontrar à volta de árvores específicas com quem estabelecem relações benéficas a nível das raízes (cogumelos simbióticos), sobre troncos e ramos de árvores mortas (cogumelos saprófitas), ou vivas mas que para lá caminham a passos mais ou menos largos (cogumelos parasitas). Em qualquer destas situações prestam serviços ambientais importantes e parecem ter sido pousados por mãos habilidosas, sem ligação profunda às superfícies em que se encontram. Nada mais falso. Na verdade, estão bem presos por filamentos, as hifas a que há quem erradamente chame raízes (os cogumelos não são plantas, lembramse?). Hifas estas que em conjunto formam o micélio, uma rede subterrânea funcional, complexa e vasta, capaz de rivalizar com a internet. Os cogumelos são fungos e como tal estudam-se na micologia. Mais concretamente, consistem na parte “frutífera” de certos bolores. A maioria é composta por um chapéu e um pé ou estipe onde alguns exibem um anel. Chapéus há muitos... e para todos os gostos. Variam em cores, formas, texturas e padrões. A parte inferior do chapéu (a que se dá o nome de himénio) apresenta detalhes que vão das lâminas, às pregas e aos poros. Todas as estruturas que referi inventaram, ao longo da história evolutiva, uma multiplicidade de alternativas que torna cada espécie única, tal como somos únicos nas nossas impressões digitais. Chapéus há muitos. Cogumelos também. Os cogumelos são dos seres vivos que despertam sentimentos mais contraditórios. Por um lado, há quem sinta um verdadeiro fascínio por eles, quase uma aura sagrada (emoji dedo no ar) e por isso os “coloque” na terra, ali quase onde começa o céu. Outros há que os detestam, experimentam mesmo aversão a esta “coisa do demo”, atirando-os, a pontapé, da terra para as profundezes do inferno. Os primeiros são micófilos (mico de fungo + phílos do grego “amigo de”), os segundos micófobos (mico de fungo + phobos do grego “medo de”). E de onde vem este medo? Em parte, da ideia errada de que a maioria dos cogumelos é venenosa e que até o toque com a pontinha do dedo pode ser mortal. Há cogumelos letais. O melhor exemplo, de ampla distribuição geográfica no nosso país e responsável anualmente pelo número mais elevado de mortes por ingestão de cogumelos é o caso da imagem, de nome científico Amanita phalloides trivialmente conhecido como cicuta-verde, chapéu-da-morte, anjo-destruidor ou cogumelo-rebenta-bois. “Vaderetro”, o nome diz tudo! Meio chapéu tem a dose de amanitina (toxina causadora de insuficiência hepática aguda) capaz de matar um adulto. Dizia eu que há cogumelos venenosos (alguns capazes de causar a morte, outros apenas indisposições variáveis), mas são apenas cerca de 1 a 2% de todos os cogumelos existentes. Há mitos que se perpetuam como heranças genéticas e que é importante desconstruir. Vamos a factos? Vamos! Mas numa próxima crónica que esta já vai longa. Ensino Opinião ALEXANDRA NOBRE Bióloga e docente do Departamento de Biologia da Universidade do Minho (A autora não escreve segundo o Acordo Ortográfico 1990) É Outono e chapéus há muitos...