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Universidade do Minho Escola de Economia e Gestão Catarina Norinho Neves Impacto da Literacia Financeira nas Poupanças das famílias julho de 2021 Impacto da Literacia Financeira nas Poupanças das famílias Catarina Norinho Neves UMinho | 2021
Universidade do Minho Escola de Economia e Gestão Catarina Norinho Neves Impacto da Literacia Financeira na Poupança das famílias Dissertação de Mestrado em Economia Monetária, Bancária e Financeira Trabalho efetuado sob a orientação da Professora Doutora Maria João Thompson e Professor Doutor Paulo Jorge Mourão julho de 2021
i | P á g i n a DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Atribuição CC BY https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/
ii | P á g i n a AGRADECIMENTOS A conclusão desta dissertação apresenta a conquista de mais uma etapa e o encerrar de uma longa caminhada, com o contributo de diferentes pessoas. Agradecer aos meus orientadores, Professora Maria João Thompson e ao Professor Paulo Jorge Mourão, pela disponibilidade, conselhos e dedicação. Obrigada por acreditarem em mim! O meu enorme agradecimento à minha família que me acompanhou nesta jornada e me apoiou incondicionalmente a cada momento e decisão tomada. Enfrentando comigo todos os obstáculos possíveis e imagináveis. Pai, Mãe, Manuna não existem palavras que consigam expressar toda a minha gratidão por vocês! Aos meus amigos, quero agradecer pelo apoio inquestionável. Principalmente, à Duda e ao Miguel pelas palavras de encorajamento e de motivação. Por fim, mas não menos importante, a todos os meus colegas incríveis, com quem partilhei esta caminhada e que a vida académica e profissional me deu a oportunidade de conhecer, em especial à Eliane e à Suse que se tornaram amigas e que sem as palavras delas não seria igual. A todos vós, o meu mais sincero obrigada!
iii | P á g i n a Declaração de Integridade Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e declaro que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informação ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeito o Código de Conduta de Ética da Universidade do Minho.
iv | P á g i n a RESUMO A crise económica e financeira que abalou o mundo nos últimos anos da década de 2000 suscitou um aumento do interesse pela literacia e educação financeira. O facto de a iliteracia financeira dos cidadãos poder ter tido um impacto considerável nesta crise financeira, elevou os níveis de atenção de diversas entidades académicas e profissionais internacionais sobre esta questão, o que motivou o presente estudo. Este estudo incide sobre uma amostra dos países pertencentes à Organização da Nações Unidas no ano de dois mil e catorze (2014) e cuja análise tem por base um modelo econométrico com o qual se pretende analisar o impacto da literacia financeira na poupança das famílias. Deste modo, a tese começará com uma revisão literária sobre as diversas definições de literacia financeira e suas determinantes, bem como a poupança das famílias e suas determinantes, dando particular atenção à literacia financeira como potencial determinante da poupança das famílias. Tentamos focar na importância da literacia financeira para um melhor bem-estar da economia e da sociedade, elencando os fatores que não beneficiam uma economia. Por último, apresentamos os resultados da análise, os quais evidenciam uma relação positiva entre as duas principais variáveis do estudo, razão pela qual concluímos deverem os países dar elevada importância à educação financeira. Palavras-chave: Crise financeira; Literacia Financeira e Poupanças.
v | P á g i n a ABSTRACT The economic and financial crisis that shook the world in the late 2000s has sparked an increase in interest in financial literacy and education. The fact that the financial illiteracy of citizens may have had a considerable impact on this financial crisis has raised the levels of attention of several international academic and professional bodies on this issue, which has motivated the present study. This study focuses on a sample of the countries belonging to the United Nations in the year of two thousand and fourteen (2014) and whose analysis is based on an econometric model with which we intend to analyze the impact of financial literacy on household savings. Thus, the thesis will begin with a literary review of the different definitions of financial literacy and its determinants, as well as household saving and its determinants, paying particular attention to financial literacy as a potential determinant of household saving. We try to focus on the importance of financial literacy for a better well-being of the economy and society, listing the factors that do not benefit an economy. Finally, we present the results of the analysis, which show a positive relationship between the two main variables in the study, which is why we conclude that countries should give great importance to financial education. Keywords: Financial crisis; Financial Literacy and Savings.
vi | P á g i n a ÍNDICE AGRADECIMENTOS ...................................................................................................................................... II RESUMO ..................................................................................................................................................... IV ABSTRACT .................................................................................................................................................... V ÍNDICE......................................................................................................................................................... VI ÍNDICE DE FIGURAS ................................................................................................................................... VIII ÍNDICE DE TABELAS ..................................................................................................................................... IX ÍNDICE DE GRÁFICOS .................................................................................................................................... X 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................... 11 2 REVISÃO DE LITERATURA .................................................................................................................. 14 2.1 LITERACIA FINANCEIRA ............................................................................................................................. 14 2.1.1 Conceito .................................................................................................................................... 14 2.1.2 Importância da Literacia Financeira ......................................................................................... 18 2.1.3 Determinantes da Literacia Financeira ..................................................................................... 21 2.1.4 Educação Financeira ................................................................................................................. 23 2.1.5 Numeracia ................................................................................................................................ 25 2.1.6 Inclusão Financeira ................................................................................................................... 26 2.1.7 Medidas de promoção de Literacia Financeira ......................................................................... 30 2.2 POUPANÇA ............................................................................................................................................ 32 2.2.1 Conceito .................................................................................................................................... 32 2.2.2 Determinantes das Poupanças ................................................................................................. 32 3 METODOLOGIA ................................................................................................................................. 42 3.1 ANÁLISE DOS TRABALHOS EMPÍRICOS SOBRE O TEMA ...................................................................................... 42 3.1.1 Literacia Financeira Vs. Poupanças .......................................................................................... 42 3.1.2 Literacia Financeira Vs. Nível de Escolaridade .......................................................................... 43 3.1.3 Literacia Financeira Vs. Salário Médio ...................................................................................... 44 3.1.4 Literacia Financeira Vs. Inclusão Financeira ............................................................................. 45 3.1.5 Poupanças Vs. Nível de Educação ............................................................................................. 47 3.1.6 Poupanças Vs. Crédito .............................................................................................................. 48 3.2 O MODELO ............................................................................................................................................ 48 3.3 DESCRIÇÃO DOS DADOS ............................................................................................................................ 49
13 | P á g i n a variáveis independentes utilizadas no modelo, assim como os respetivos sinais esperados. Ainda neste capítulo, estão apresentados os resultados da estimação, tal como testes de robustez. Por último, no Capítulo 4 são apresentadas as conclusões.
14 | P á g i n a 2 REVISÃO DE LITERATURA 2.1 LITERACIA FINANCEIRA 2.1.1 Conceito Literacia financeira é um termo de grande abrangência e suscetível a diversas interpretações. Esta abrangência é bem visível quando se compara países desenvolvidos com países em desenvolvimento. Em países desenvolvidos, esta variável requer, como conceito, um conhecimento mais especializado de produtos financeiros como, por exemplo, códigos fiscais, requerimento de seguros ou cartões de crédito enquanto que, em países em desenvolvimento, foca-se maioritariamente em termos financeiros mais básicos como poupanças, orçamentos e empréstimos. Assim, a definição mais citada ao longo dos anos, introduzida por Schangen (1997), diz-nos que a literacia financeira é a capacidade de fazer julgamentos informados e tomar decisões concretas tendo em vista a gestão do dinheiro (Banco de Portugal, 2010). Vitt et al. (2000) fortalecem, afirmando que a alfabetização financeira baseia-se na capacidade de analisar e gerir os diversos problemas financeiros com que os cidadãos se deparam diariamente, incluindo a aptidão para diferenciar as escolhas financeiras, discutir assuntos financeiros e planear o futuro, também, ao nível financeiro. Mandel (2007) complementa as definições introduzidas anteriormente, afirmando que é a capacidade de avaliar novos e complexos instrumentos financeiros e tomar decisões informadas relativamente à seleção e utilização desses instrumentos de modo a melhor satisfazer objetivos de longo prazo. Principalmente nos tempos atuais, em que existe um crescimento acentuado do e-banking, os cidadãos têm, cada vez mais, o acesso facilitado a instrumentos financeiros de elevada complexidade, sem terem uma noção real do seu risco nem de qual o produto que melhor se adequa às suas necessidades (Rodrigues, Oliveira, Rodrigues, & Costa, 2019). Quando antes os cidadãos eram confrontados com apenas dois produtos financeiros básicos: uma conta bancária e uma conta poupança, hoje em dia são oferecidos aos cidadãos inúmeros
15 | P á g i n a produtos como, por exemplo, contas com um limite de transações por mês, contas com proteção a descoberto ou contas onde não se paga taxas ou juros. Também no mercado de capitais, os indivíduos que investem em ações deparam-se constantemente com produtos inovadores. Assim, Rodrigues et al. (2019) defendem ser fundamental que os indivíduos tenham uma compreensão da terminologia utilizada nos mercados financeiros; compreendam em que consiste o produto, isto é, em termos de riscos; e, por último, tenham acesso aos mercados financeiros para acompanharem o investimento realizado. Contudo, com o evidente crescimento, os investidores individuais fazem escolhas que não são as mais indicadas para o seu portfólio de risco. Assim, os autores defendem que os cidadãos com um maior nível de literacia financeira têm uma maior confiança financeira e, por isso, estão também mais aptos a tomar decisões financeiras acertadas e que lhes permitam obter um crescimento financeiro. Em particular, no que respeita aos comportamentos e decisões tomadas por parte dos cidadãos, que podem afetar o bem-estar e gerar efeitos “spill-over”, tal como foi o caso da crise financeira de 2008. Literacia financeira consiste no conhecimento e compreensão dos conceitos e riscos financeiros, e aplicação de tais conhecimentos de maneira a melhorar o bem-estar financeiro dos indivíduos e da sociedade, para desta forma permitir uma participação mais ativa na atividade económica (OECD, 2013). Como tal, esta é uma combinação de consciência, conhecimento, habilidade, atitude e comportamentos necessários para tomar decisões financeiras sólidas e, finalmente, alcançar o bem-estar financeiro individual. É vista segundo três parâmetros: conhecimento, comportamento e atitude financeria. Jump$tart (2011) sustenta que a literacia financeira não é um estado absoluto, mas sim um conjunto de habilidades contínuas que têm como variáveis relacionadas a idade, família, cultura e residência. Ou seja, é um estado de competência em permanente evolução que capacita os indivíduos a responder a circunstâncias pessoais e económicas em
16 | P á g i n a mudança. Nelson e Wanbugu (2008) afirmam que cidadãos com um nível de literacia financeira mais elevado são um elemento chave para a proteção efetiva do consumidor, dado que estes estabelecem uma pressão sob as instituições financeiras para que estas forneçam serviços que são, igualmente, transparentes e com um custo apropriado. Como tal, a nível individual, a literacia financeira vai beneficiar os cidadãos, dado que vão fazer escolhas financeiras enquadradas com as suas necessidades. A literacia financeira é mais do que uma “simples” reprodução do conhecimento do indivíduo. Porém, medir este conhecimento é um ponto fulcral na questão deste estudo, sendo necessário considerar várias práticas dos cidadãos que de certa maneira geram um impacto no fator em análise, capacidades essas tais como as atitudes, motivação e valores. Logo, a literacia financeira engloba não só o conhecimento de um indivíduo como também outros fatores, como a motivação do indivíduo em se manter informado sobre determinados produtos financeiros, ou a capacidade de gerir as emoções que de alguma maneira podem influenciar as suas tomadas de decisão, entre outros. A OCDE (2005) considera estas caraterísticas como pontos-chave para um nível de educação financeira mais elevado, dado possibilitarem a tomada de decisões concretas em vários contextos financeiros e a melhoria do bem-estar financeiro dos indivíduos e da sociedade. Assim, Redmund (2010), de certa forma, complementando o Program for International Student Assessment (PISA) - que visa medir as capacidades de leitura, matemática e ciência dos estudantes com mais de 15 anos -, realizam um estudo a cada 3 anos, de acordo com o qual o conceito de literacia financeira divide-se em cinco categorias: conhecimento de conceitos financeiros, capacidade de comunicar sobre os mesmos, aptidão na gestão das finanças pessoais, capacidade de tomar decisões financeiras apropriadas e confiança em planear efetivamente para necessidades financeiras futuras (poupanças).
17 | P á g i n a Contudo, alguns autores apontam algumas limitações às diversas definições de literacia financeira referidas anteriormente, considerando que um indivíduo não deve ser categorizado como financeiramente iletrado apenas por não ter conhecimentos acerca de determinado produto financeiro, visto este fator poder dever-se a diversas circunstâncias, como, por exemplo, não ter necessidade de recorrer a esses determinados produtos e, assim, não ter conhecimento de certos conceitos financeiros, como taxa de juro, taxa de crédito ou inflação. Aparecendo, assim, a expressão de iliteracia financeira que, segundo Marriot & Mellet (1996), pode apenas estar relacionada com o facto de um indivíduo não ter determinados conhecimentos financeiros, não significando que não seja capaz de tomar decisões financeiras acertadas. Desse modo, e estando cientes desta limitação, considerase que a literacia financeira apresenta uma definição aberta. Por fim, o conceito de literacia financeira tem demonstrado uma evolução ao longo dos anos e uma “adaptação” ao mundo moderno, nomeadamente, e como já referido, no que respeita aos mercados financeiros. A Tabela 1 sumariza os diversos conceitos de literacia financeira, bem como os autores que os defendem.
18 | P á g i n a Tabela 1 Conceitos de Literacia Financeira Fonte: (Potrich, Vieira, & Kirch, 2015) Conceitos Dimensões Autores O conhecimento financeiro e a aplicação desse conhecimento, com autoconfiança na tomada de decisões financeiras. Conhecimento financeiro e aplicação desse conhecimento Huston (2010) A capacidade de usar o conhecimento e as habilidades adquiridas para uma melhor gestão. Conhecimento financeiro e habilidades Hung, Parker e Young (2009) A capacidade de compreender a informação financeira e tomar decisões eficazes, utilizando essa informação. Compreensão e decisão Robb, Babiarz e Woodyard (2012) Vai além da ideia básica da educação financeira em que a influência do conhecimento financeiro sobre o comportamento é mediada pelas atitudes financeira. Conhecimento, comportamento e atitudes Norvillitis e MacLean (2010) A escolha de inúmeras alternativas para o estabelecimento dos objetivos financeiros. Escolha eficaz Criddle (2006) A tomada de decisões financeiras informadas. Decisões financeiras Remund (2010) O capital humano mais específico, medido através de questões de conhecimento financeiro. Conhecimento financeiro Robb e Sharpe (2009) Mensurada através de um conjunto de perguntas que medem conceitos financeiros básicos, tais como capitalização de jutos, inflação e diversificação de risco. Conhecimento financeiro Lusardi e Mitchell (2014) Engloba a alfabetização financeira em 3 dimensões: conhecimento, comportamento e atitude financeira. Conhecimento financeiro, comportamento financeiro e atitude financeira Atkinson e Messy (2012); OCDE (2013) 2.1.2 Importância da Literacia Financeira Os mercados financeiros apresentam uma maior volatidade desde a crise financeira de 2008 (Schwert, 2011), o que significa que os cidadãos são constantemente desafiados a estarem mais e melhor informados no momento de tomarem decisões financeiras que
19 | P á g i n a afetem os seus futuros, uma vez que fatores como a pouca informação ou os poucos conhecimentos financeiros podem ser geradores de acontecimentos adversos. Acresce-se a crescente globalização e complexidade dos mercados financeiros que requerem um maior nível de literacia financeira.Assim, a literacia financeira começou a ser alvo de uma maior preocupação por parte de diferentes entidades nacionais e internacionais. Como tal, entidades como a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico) começaram a atribuir à literacia financeira uma maior importância, através da sensibilização da opinião pública para a necessidade de as sociedades serem cada vez mais letradas em termos financeiros. Segundo Atkinson & Messy (2012), “à medida que os governos implementam estratégias para melhorar as capacidades financeiras da população, existe uma crescente necessidade de identificar subgrupos sociais que apresentem carências financeiras específicas, para desenvolver iniciativas e instrumentos para melhorar o bem-estar financeiro de todos os cidadãos”. Cidadãos que têm um maior grau de literacia financeira têm uma maior probabilidade de serem mais bem-sucedidos a resolver as suas dificuldades financeiras em caso de crise global e/ou pessoal, como é o caso de desemprego, doença ou divórcio. O Conselho Nacional de Supervisores Financeiros (2011) afirma que, cidadãos mais informados, através das suas decisões de escolha de produtos financeiros adequados ao seu perfil de risco e às suas necessidades, ajudam a monitorizar os mercados, concorrendo assim para a maior estabilidade do sistema financeiro e, consequentemente da economia. Como tal, não é passível de dúvidas que as atitudes tomadas pelos cidadãos não só têm impacto na sua vida financeira, como também na sociedade onde se inserem. Pelo que é fulcral que apresentem um nível de literacia mais elevado para, deste modo, tomarem decisões financeiras mais acertadas, sem que prejudiquem o ciclo económico mas, pelo
20 | P á g i n a contrário, que beneficiem o crescimento económico quer a nível nacional quer internacional. Assim Kozup & Hogarth (2008) asseguram que a eficácia da literacia financeira depende de diversos fatores como a educação financeira, o acesso à informação e aconselhamento financeiro. Rutledge (2010) acrescenta que para atingir uma maior eficácia financeira, é necessário focar a atenção na proteção dos utilizadores, através da permissão do acesso à informação mais clara e detalhada sobre os produtos financeiros, de um acompanhamento permanente; como, também, no desenvolvimento da literacia financeira dos cidadãos. Sendo assim visível o contributo positivo que a educação financeira tem no crescimento da literacia financeira dos indivíduos (Altintas, 2011). No entanto, os consumidores tomam muitas vezes más decisões financeiras, podendo este fator estar ou não relacionado com o facto de terem um reduzido nível de literacia financeira dado que, como já referido, estes podem apenas não ter determinados conhecimentos sobre certos produtos uma vez que nunca houve essa necessidade. Estas atitudes erradas podem gerar consequências, como por exemplo falências, endividamentos, entre outros. É portanto importante que os bancos, enquanto intermediários financeiros, principalmente os que se encontram na posição de recomendar produtos financeiros, possuam um total domínio dos mesmos para não gerarem situações adversas, isto é, para não aconselharem produtos desdequados aos clientes. A literacia financeira tem ainda mais importância quando estamos perante cidadãos que temem pelas suas poupanças e pelo futuro da sua carreira profissional, ainda para mais quando não podemos esquecer que a iliteracia financeira gerou mecanismos que levaram à crise financeira de 2008. Assim, todos estes fatores são refletidos na incapacidade de responder adequadamente a alterações na situação económica de um país (Tomaskova, Mohelska, & Nemcova, 2011).
21 | P á g i n a Como já referido anteriormente, o nível de poupanças e o endividamento estão, também, relacionados com a literacia financeira, o que comprova, uma vez mais, a importância deste fator e da sua valorização na vida dos cidadãos. A poupança das famílias relaciona-se positivamente com a literacia financeira, uma vez que se espera que indivíduos com um maior nível de alfabetização financeira, façam um melhor planeamento financeiro do seu futuro, tomando melhores decisões (Mahdazan & Tabiani, 2013). Não esquecendo que o conhecimento financeiro e programas de poupanças podem ser importantes para superar o problema da diminuição das poupanças das famílias a que se tem assistido (Clark & D'Ambrosio, 2008). 2.1.3 Determinantes da Literacia Financeira O grau de literacia financeira dos cidadãos e as atitudes dos mesmos no momento de tomar decisões financeiramente importantes podem ser, de certa forma, influenciadas por diversas variáveis socioeconómicas e demográficas, como é o caso do género, idade, nível de escolaridade, rendimento e experiência (Vieira, 2012). Em termos de género, as mulheres são significativamente menos propensas a ter um elevado nível de literacia financeira, sendo menos provável que respondam a perguntas financeiras corretamente e, também, avaliam o seu próprio nível de conhecimento financeiro de maneira mais conservadora (mais realista, talvez). Também, para além da maior dificuldade em responder às questões sobre literacia financeira, o mesmo é observado quando são feitas questões sobre numeracia, isto é, a capacidade de realizar cálculos financeiros (Lusardi, 2012) (Potrich, Vieira, & Kirch, 2015). Estas diferenças visíveis entre homens e mulheres pode resultar da falta de confiança por parte do sexo feminino ao invés de uma verdadeira falta de conhecimento. O que de alguma forma, vai ao encontro com o que Calamato (2010) afirma, “os homens tendem a ver o dinheiro como poder e
22 | P á g i n a acreditam que ter dinheiro vai torná-los socialmente mais desejáveis, enquanto que as mulheres parecem ter uma abordagem mais passiva em relação ao dinheiro”. No que respeita à idade, a literatura comprova que a alfabetização financeira tende a ser mais elevada entre os adultos e, geralmente, mais reduzida entre os jovens e idosos (Agarwal, Driscoll, & Gabaix, 2009). Os conhecimentos financeiros dos indivíduos estão, também, relacionados com o seu nível de escolaridade, querendo isto dizer que maiores níveis de alfabetização financeira são encontrados em indivíduos com maior nível de escolaridade e melhor acesso às informações financeiras (Potrich, Vieira, & Kirch, 2015). A corroborar esta afirmação, temos João Amadeu (2009) que nos diz que um maior contacto durante a graduação ou cursos especializados, com disciplinas de cunho financeiro ou económico influencia positivamente nas práticas financeiras quotidianas. Porém, Chen & Volpe (1998) afirmam que os estudantes, independentemente do seu grau escolar, possuem um nível de conhecimento inadequado, principalmente em termos de investimentos. Em termos de rendimento, diversos autores afirmam que a alfabetização financeira e a riqueza estão positivamente relacionadas. Isto é, que níveis mais elevados de literacia financeira têm impacto na riqueza das famílias (Atkinson & Messy, 2012; Monticone, 2010). Também, segundo um estudo realizado por Jonhson & Sherraden (2007), é possível constatar que estudantes de meios familiares com rendimentos mais elevados, apresentam uma maior probabilidade de terem conhecimentos financeiros mais significativos. Este fator acaba por gerar um ciclo, ou seja, indivíduos com nível mais elevado de literacia financeira, acabam por fazer escolhas financeiras mais acertadas, gerando um maior rendimento do que aqueles que apresentam um nível de literacia financeira reduzido. Por último, em relação à experiência profissional, indivíduos com maior tempo de serviço passam por mais experiências financeiras e, por esse motivo, adquirem maiores conhecimentos, facilitando-lhes, assim, a análise de informações mais complexas (Chen &
29 | P á g i n a Gráfico II Comparação de criação fundo de emergência Fonte: Elaboração própria com base em dados de Global Findex Database Os Princípios para a Proteção do Consumidor e Produtos Financeiros reconhecem que a inclusão financeira, a regulação dos mercados financeiros e a promoção da educação financeira são três pilares fundamentais para o reforço do sistema financeiro e a consequente melhoria do bem-estar dos cidadãos. O primeiro princípio faz referência à crescente necessidade de a regulação ser adequada às caraterísticas dos produtos financeiros e de reagir aos novos produtos, tecnologias e formas de prestação de serviços. Nomeadamente, ao desenvolvimento de mecanismos dirigidos a novos meios de disponibilização de serviços financeiros, como o mobile banking (OECD, Princípios do G20 para a Proteção do Consumidor de Produtos Financeiros, 2011). Os canais eletrónicos potenciam o acesso a produtos e serviços financeiros a custos mais reduzidos, contudo representam um maior nível riscos para os consumidores resultante da menor supervisão e regulação. Assim, a inclusão financeira é de elevada importância para uma maior estabilidade financeira e um maior crescimento económico. Sendo a maneira mais eficaz da sua promoção, o acompanhamento da 60% 3% 54% 33% COMING UP WITH EMERGENCY FUNDS: POSSIBLE (% AGE 15+) MAIN SOURCE OF EMERGENCY FUNDS: SAVINGS (% ABLE TO RAISE FUNDS, AGE 15+) 2014 2017
30 | P á g i n a regulação da oferta de serviços e produtos financeiros com iniciativa da qualidade desses produtos e serviços, proporcionada pela formação financeira (Banco de Portugal, 2013). 2.1.7 Medidas de promoção de Literacia Financeira Diversas organizações internacionais como o G20 (grupo das dezanove maiores economias mundias e a União Europeia), OCDE e Banco Mundial têm desenvolvido programas de formação financeira e de sensibilização para a importância da mesma. A OCDE, por exemplo, tem desempenhado um papel importante na partilha das experiências de formação financeira entre os vários países, na reflexão sobre as temáticas associadas à literacia financeira e na definição de princípios orientadores e boas práticas (Banco de Portugal, 2013). A Comissão Europeia criou o projeto On-line Consumer Education – DOLCETA, que é um portal de educação do consumidor acessível aos países pertencentes à União Europeia. Nesta plataforma estão disponíveis conteúdos sobre direitos do consumidor, serviços financeiros, segurança dos produtos, consumo sustentável e, ainda, materiais de apoio a professores como, por exemplo, artigos que promovam a literacia financeira dos mais novos. Sendo o objetivo deste portal, aumentar o nível de consciencialização e compreensão dos direitos dos consumidores europeus nos Estados-Membros e desenvolver ferramentas interativas para a educação do consumidor, a serem utilizadas por professores, associações de consumidores e órgãos governamentais com responsabilidades de consumidores (Union). No caso português, o Banco de Portugal (BdP) lançou o Portal do Cliente Bancário em 2008, com a função de disponibilizar informação clara e atual sobre os produtos e serviços bancários, dado que nesse ano foram atribuídas ao BdP funções bem precisas na regulação da conduta em mercado das instituições de crédito. Não obstante a importância
31 | P á g i n a da promoção da literacia financeira para a componente estratégica do BdP no âmbito das suas funções de supervisão comportamental dos produtos e serviços bancários a retalho. Em 2011, o BdP em conjunto com a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários - CMVM e o Instituto de Seguros de Portugal (ISP), apresentaram as linhas gerais do Plano Nacional de Formação Financeira (PNFF). Este plano foi realizado com base nas conclusões do inquérito à literacia financeira da população portuguesa e do inquérito ao perfil do investidor particular português realizado pela CMVM, percebendo-se que muitos consumidores tomavam decisões sem o adequado conhecimento financeiro. Assim, o PNFF visa melhorar os conhecimentos e atitudes financeiras; apoiar a inclusão financeira; desenvolver hábitos de poupança; promover o recurso responsável ao crédito e criar hábitos de precaução contra práticas ou situações de risco, como a pandemia do coronavírus que afeta todas as economias. As linhas de orientação para o PNFF para o período entre 2016-2020 dá continuidade e reforça a estratégia definida no período anterior de 2011 a 2015 (Financeira, 2011). A implementação das diversas medidas que fomentam a literacia financeira pode levar à diminuição de situações de endividamento excessivo e inerente risco de incumprimento, uma vez que os consumidores terão mais apetência para identificar as suas necessidades financeiras e, por outro lado, pode fomentar uma maior sensibilização dos indivíduos para a poupança (Banco de Portugal, 2011). Assim, a educação financeira pode contribuir para a estabilidade financeira ao proporcionar taxas de incumprimento mais reduzidas, reduzir o número de famílias sobre endividadas, proporcionar investimentos mais diversificados e poupanças mais seguras (Comissão Europeia, 2007).
32 | P á g i n a 2.2 POUPANÇA As poupanças desempenham diversos papéis na economia. Ponomarenko & Ponomarenko (2017) defendem que as flutuações das poupanças podem ser: (i) fundamentais para o desenvolvimento económico a longo prazo; (ii) uma indicação de um ciclo de procura agregada sustentável; ou (iii) uma fonte essencial de desequilíbrios globais. 2.2.1 Conceito O bem-estar financeiro das famílias implica saber e ter a capacidade de poupar e aplicar essa poupança. A poupança das famílias corresponde à diferença entre o rendimento disponível e os gastos de consumo; se esta diferença for negativa estamos perante um risco de endividamento. Assim, e de maneira a avaliar o nível de poupança de um indivíduo e/ou das famílias, recorre-se à taxa de poupança que mede a percentagem de rendimento disponível que não é despendida em consumo. Investimento representa uma aplicação de recursos, por norma recursos monetários, tendo em vista a obtenção de um determinado rendimento. Este rendimento corresponde aos fluxos financeiros gerados por esse investimento durante um período temporal, sendo que o mesmo pode ser através de juros, dividendos e mais-valias. Assim, existem dois conceitos essenciais relacionados com poupança e investimento: a rendibilidade e o risco. A rendibilidade é a taxa de rendimento gerada pelo investimento durante um determinado período e o risco representa a incerteza relativa à obtenção de rendibilidades futuras (CMVM, 2005). 2.2.2 Determinantes das Poupanças As poupanças, como mencionado anteriormente, desempenham um papel fundamental na economia, quer seja em termos microeconómicos como macroeconómicos.
33 | P á g i n a No que respeita ao nível microeconómico, uma diminuição no nível da poupança pode gerar uma queda no nível de vida do indivíduo. Em termos macroeconómicos, a poupança das famílias é uma importante fonte de financiamento do investimento agregado numa economia. Nesta perspetiva, a poupança das famílias desempenha um papel fundamental no que respeita à estabilidade financeira da economia e ao crescimento económico a longo prazo (Aghion, Comin, Howitt, & Tecu, 2016; Carroll, Overland, & Weil, 2000). 2.2.2.1 Determinantes Microeconómicas Existem inúmeras razões e formas pelas quais os indivíduos tomam a decisão de poupar. Recorrentemente, o nível de poupança individual e/ou das famílias é associado ao rendimento pessoal de cada agente. Sendo esta uma verdade inequívoca, existem outras variáveis que têm impacto na poupança. Browning & Lusardi (1996) identificaram oito pontos essenciais para justificar as decisões de poupança individual. São eles: a idade; a substituição intertemporal de maneira a poder usufruir de taxas de juro elevadas com retorno de cedência de capital; o improvement motive, isto é, usufruir de um aumento dos gastos gradualmente; a independência; a acumulação de riqueza para projetos de investimento e negócio; a construção de legado para gerações futuras (heranças); avareza; precaução, sendo vista com reserva de riqueza para situações futuras adversas (desemprego, doença, crise); e a acumulação de riqueza para compra de bens duráveis como casas ou carros. i. Idade Franco Modigliani & Richard Brumberg (1954) introduziram a chamada Hipótese do Ciclo de Vida, um dos pontos de partida mais comuns no estudo da poupança em termos microeconómicos, que se baseia na ideia de que os níveis de poupança individual variam ao longo da vida dos agentes, e tendem a diminuir à medida que se envelhece, de forma a
34 | P á g i n a manter um padrão intertemporal regular de consumo (Figura I). Ainda, é assumido pelos autores que as pessoas na meia-idade poupam mais, isto é, enquanto têm uma vida profissional mais ativa, de maneira a salvaguardar os seus níveis de consumo e bem-estar depois da reforma. Isto é, a propensão para poupar é mais reduzida nos jovens e nos idosos. Figura I Hipótese de Ciclo de vida (reproduzido de Economic Shelp) Contudo, a nível empírico, a evidência microeconómica tem dificuldade em suportar a hipótese do ciclo de vida, uma vez que os estudos que incidem sobre o tema não são unânimes em considerar que esta hipótese tem influência nos níveis de poupança, sendo que a relação de concavidade entre a poupança e a idade nem sempre é comprovada. Poterba (1994) conclui num estudo que incidiu em seis países da OCDE entre as décadas de 70 e 90 que, em praticamente todos os países, a taxa média de poupança é positiva muito além da reforma, o que demonstra que o estudo fornece pouca evidência que apoie o modelo do ciclo de vida. Ainda há um estudo de Douglas Bernheim (1987) com dados de 11 000 casais reformados dos Estados Unidos da América (EUA) durante o período de 10 anos, que testou a hipótese de dissaving (poupança negativa) na idade da reforma. Onde é, também, concluído que não existe uma evidência significativa da queda da poupança e do
35 | P á g i n a movimento de alienação de ativos, como é defendido pela teoria do ciclo de vida. Sendo que Bernheim (1987) afirma que uma das razões para este comportamento é a construção de um legado (heranças). ii. Educação Os comportamentos de poupança podem também ser explicados pelos níveis de educação dos cidadãos. Isto é, famílias e/ou cidadãos com maiores níveis de escolaridade vão demonstrar uma menor preferência de consumo de curto prazo, logo uma maior propensão a poupar. Lewis C. Solmon (1975) enunciou diversas razões que explicam os padrões de poupança consoante o nível de educação. Segundo o autor, a influência da educação faz sentir-se por duas vias: seu efeito no rendimento e seu valor intrínseco. Isto é, indivíduos com um nível de escolaridade mais baixo tendem a auferir rendimentos menores, enquanto têm mais dificuldade em encontrar situações profissionais estáveis, o que promove um efeito negativo sobre as poupanças. Ao contrário de indivíduos com um nível de educação mais elevado que esperam um rendimento mais alto, estimulando a poupança. Além disso, a educação tem um valor intrínseco que pode afetar as opções de poupança. A vontade de poupar por parte das famílias tem uma forte ligação com o retorno real que a poupança produz. Porém, os cidadãos mais instruídos têm uma maior capacidade de criar portfólios mais diversificados e eficientes, promovendo a criação de poupanças. Porém, tal como na idade, a evidência empírica não é absolutamente conclusiva sobre a relevância da casualidade entre educação e formação de poupança. iii. Downpayment Motive Downpayment motive ou poupança para compra de bens duráveis como casas ou carros, é explicado por diversos autores. Para Dynan & Maki (2001) o aumento do preço das casas tem um peso relevante na diminuição da taxa de poupança das famílias.
36 | P á g i n a Kim M. H. (2010) identificou um grande contributo dos empréstimos hipotecários como variável determinante para a formação das poupanças. Dado que as famílias são induzidas a poupar menos dado o acesso facilitado ao crédito, uma vez que o imobiliário pode servir de garantia colateral no acesso aos mesmos. 2.2.2.2 Determinantes Macroeconómicas O contexto macroeconómico tem, também, um papel fundamental na evolução da taxa de poupança. Em concreto, fatores que influenciam a poupança das famílias tais como o Produto Interno Bruto (PIB), a taxa de inflação e a taxa de desemprego. A literatura demonstra que existe uma relação positiva entre o nível de rendimento e a poupança agregada. Segundo um estudo que englobou mais de 150 países no período de 1965-1994, à medida que uma economia fica mais rica, a poupança agregada das famílias aumenta. No que respeita aos efeitos da variação do produto, os autores divergem nas suas conclusões. Teoricamente, a variação do produto pode impactar as poupanças das famílias de duas maneiras distintas. Por um lado, pela hipótese do ciclo de vida, num contexto de crescimento económico, a poupança da população ativa será maior que o efeito de dissaving da população aposentada, aumentado a poupança agregada. Por outro lado, a hipótese do rendimento permanente sugere que um aumento no produto implica uma expetativa de rendimentos mais elevados no futuro, o que acaba por desincentivar a poupança (Kukk & Staehr, 2015). As poupanças, como já referido anteriormente, são vitais a qualquer economia uma vez que afetam o crescimento económico através da sua canalização para o investimento e acumulação de capital e, por sua vez, o crescimento económico afeta a poupança, tornando-se num ciclo virtuoso ou vicioso. Alguns autores encontraram empiricamente uma relação positiva entre o crescimento económico e as poupanças das famílias (Athukorala & Tsai, 2003; Collins, 1991).
37 | P á g i n a Em períodos de recessão económica, constata-se um efeito contraciclo na evolução das poupanças. Como existe uma diminuição da riqueza líquida das famílias, vai existir um aumento das poupanças por motivos de precaução. Sendo que, as economias perante situações de recessão têm, por norma, uma maior dificuldade em obter financiamentos, o que gera constrangimentos em termos de disponibilidades de crédito às famílias. Como tal, esta maior rigidez no acesso ao crédito resulta num aumento da taxa de poupança forçada. Dennis Robertson (1926) afirma que a poupança forçada aparece sob duas formas, a poupança automática e a poupança induzida. A primeira, analisada a partir do conceito de restrição automática, é definida através do aumento de capital direcionado ao mercado de bens, gerando uma redução do consumo efetivo. A poupança induzida, também parte do princípio de aumento de preços, onde os indivíduos procuram manter um nível ótimo de oferta monetária através da redução do consumo. Contudo, John Keynes na sua obra “Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda” adota uma postura crítica quanto à poupança forçada, que segundo ele seria apenas viável numa situação de pleno emprego dos recursos produtivos. Keynes sugere adotar a seguinte definição, “a poupança forçada é o excedente da poupança real sobre o que se pouparia se houvesse pleno emprego numa situação de equilíbrio de longo prazo” (Keynes, 1936). i. Inflação A literatura faz sempre referência à inflação como variável determinante na poupança das famílias, uma vez que é vista como uma medida de estabilidade da economia (Banco Central Europeu, 2009), sendo que a inflação significa aumento geral dos preços de bens e serviços e não apenas o aumento dos preços de determinados artigos sobem. Taxas de inflação elevadas estão relacionadas com a volatilidade e instabilidade económica, pelo que é expectável que o seu aumento leve as famílias a pouparem mais por motivos de precaução (Ferrucci & Miralles, 2007). No entanto, a perspetiva de um aumento
38 | P á g i n a da taxa de inflação pode encorajar ao consumo de bens duradouros, uma vez que se prevê que os preços aumentem no futuro. Os estudos empíricos divergem nas suas conclusões sobre a hipótese de influência das flutuações da inflação na taxa de poupança. Schrooten & Stephan (2005) não encontram qualquer relação significativa entre as duas variáveis. Já Kukk & Staehr (2015) identificam uma relação positiva entre a inflação e a poupança das famílias. Relação também encontrada por Chowdhury (2004) e Bachmann et al. (2013) que a justificam com o facto de o nível de inflação ser um proxy de incerteza macroeconómica. ii. Taxa de desemprego Tal como acontece com a inflação, uma taxa de desemprego mais elevada pode levar as famílias a poupar mais devido à incerteza. Porém, este é um panorama que se observa a curto prazo, já que com a persistência das taxas de desemprego altas e perante níveis de elevado desemprego de longa duração, as famílias deixam de ter rendimento disponível para constituírem as suas poupanças depois de despenderem esse rendimento nos bens essenciais de consumo. Diversos autores identificaram uma relação negativa entre a taxa de desemprego e a poupança das famílias, uma vez que o impacto da queda do rendimento se sobrepõe ao efeito positivo que é proporcionado pela poupança por motivos de precaução (Cohn & Kolluri, 2003; Kolasa & Liberda, 2014). Por outo lado, pode ser encontrada evidência de uma associação positiva entre taxa de desemprego e taxa de poupança das famílias em Mody et al (2012). A importância da taxa de desemprego como proxy de instabilidade do rendimento do trabalho em situações de recessão pode levar a que se assista a um aumento circunstancial da taxa de poupança associada ao aumento do desemprego (Oliveira, 2017). iii. Taxa de juro
45 | P á g i n a Gráfico V Literacia Financeira Vs. Salário Médio ($) 2014 Fonte: Elaboração própria com base em dados de World Bank O Gráfico V, mostra que o facto de um país apresentar um salário médio mais elevado pode ter impacto nos conhecimentos financeiros dos cidadãos de determinado país, sendo que apresenta um coeficiente de correlação positiva forte de 0.7363, isto é, à medida que uma variável aumenta a outra aumenta também. 3.1.4 Literacia Financeira Vs. Inclusão Financeira Citando o Banco de Portugal (2013), um sistema financeiro inclusivo contribui para uma melhor afetação de recursos produtivos, levando à redução da pobreza e crescimento económico inclusivo. Sendo assim, este é um ponto fulcral na nossa análise, uma vez que o acesso a serviços financeiros pode criar um impacto positivo na gestão diária das finanças pessoais, ao mesmo tempo que ajuda na redução de formas ilegais de acesso a financiamentos, onde predominam os juros abusivamente elevados. (Sarma, 2012) Como tal, espera-se que países com um maior nível de literacia financeira tenham, também, um maior grau de inclusão financeira. Uma vez que, e segundo Grohman et. Al. (2018), os cidadãos mais informados vão realizar escolhas mais acertadas, quer seja a nível 0 20,000 40,000 60,000 80,000 Salário Médio $ 020 40 60 80 Lit Fin
46 | P á g i n a pessoal como profissional, e, ainda, apoiam o sistema financeiro de maneira a tornarem-no mais sofisticado e inclusivo. Gráfico VI Inclusão Financeira - Visão Global 2014 Fonte: Elaboração própria com base em dados de Global Findex Database A nível global, é possível verificar que uma grande parte dos países já possui uma inclusão financeira acima dos cinquenta por cento (50%). No Gráfico VI, destaca-se a Europa, América do Norte e Austrália como as regiões com uma maior inclusão financeira, por outro lado regiões como América do Sul e o continente asiático, apresentam um índice de inclusão financeira mais baixo, no que respeita à variável utilizada como análise. Gráfico VII Literacia Financeira Vs. Inclusão Financeira 2014 Fonte: Elaboração própria com base em dados de World Bank 020 40 60 80 100 Conta Bancária 020 40 60 80 Lit Fin
47 | P á g i n a Através da análise do Gráfico VII, conclui-se que são duas variáveis que apesar de se dispersarem um pouco, relacionam-se positivamente, tendo como coeficiente de correlação um valor de 0.6475. Isto é, países financeiramente mais inclusivos dispõem de maiores níveis de literacia financeira. 3.1.5 Poupanças Vs. Nível de Educação Segundo Lewis C. Solmon (1975), existem variadas razões que explicam os padrões de poupança consoante o nível de educação. Isto é, indivíduos com um grau de escolaridade mais reduzido tendem a auferir rendimentos mais reduzidos, dado terem mais dificuldade em encontrar situações profissionais mais estáveis, gerando um impacto negativo nas poupanças. Como tal, espera-se que países com uma elevada percentagem de licenciados, apresentem uma maior taxa de poupança. Através da análise dos dados, no Gráfico VIII verifica-se, como mencionado na revisão de literatura e segundo diversos estudos, que esta relação não é conclusiva. De facto, o coeficiente de correlação entre estas duas variáveis é de apenas 0.2414, uma correlação fraca apesar de positiva. Gráfico VIII Poupanças Vs. Nível de Educação 2014 Fonte: Elaboração própria com base em dados de World Bank 050 100 150 Educação -20 0 20 40 60 Poupanças
48 | P á g i n a 3.1.6 Poupanças Vs. Crédito Conforme referido na revisão de literatura, alguns autores defendem a influência das restrições ao crédito nas poupanças das famílias, sendo esperado que quanto maior forem as restrições maior seja a taxa de poupança. Assim, países que apresentem uma maior taxa de crédito concedido terão, segundo a literatura, uma menor taxa de poupança. A correlação da variável poupanças e do crédito ao setor privado é positiva (0.2100), apesar de fraca (Gráfico IX). No entanto, esperava-se que esta correlação fosse negativa dada a literatura. Gráfico IX Poupanças Vs. Crédito Concedido 2014 Fonte: Elaboração própria com base em dados de World Bank 3.2 O MODELO Contruímos um modelo empírico cujo objetivo é explicar o impacto da literacia financeira dos cidadãos na taxa de poupança das famílias de um país. Com base nos contributos teóricos e empíricos anteriormente revistos, o modelo explicativo – Modelo I, está estruturado da seguinte forma: 𝑆𝐹𝑖 = 𝛼0+ 𝛼1𝐿𝐹𝑖 + 𝛼2𝐼𝑁𝐹𝑖 + 𝛼3𝑈𝑖 + 𝛼4𝐸𝑋𝑃𝑖 + 𝛼5𝐸𝐷𝑈𝑖 + 𝛼6𝐶𝐵𝑖 + 𝛼7𝐹𝐸𝑆𝑖 + 𝛼8𝐶𝑅𝐸𝐷𝑖 + 𝛼9𝐸𝑇𝑖 + 𝛼10𝑌𝑖 + 𝛼11𝑃𝐼𝐵𝑝𝑐𝑖 + 𝜇 , 050 100 150 200 250 Crédito ao Setor Privado em % PIB -20 0 20 40 60 Poupanças
49 | P á g i n a onde SFi é a taxa de poupança das famílias, compreendida como a poupança bruta em termos do rendimento disponível, a LFi representa o nível de literacia financeira dos diferentes países em análise, Ui representa a taxa de desemprego, EXPi é a taxa de exportação, EDUi representa a percentagem da população com, pelo menos, o grau de licenciado, CBi representa a população que tem conta bancária, utilizada como medida de análise de inclusão financeira, FESi é o fundo de emergência, CREDi representa o crédito concedido a particulares, ETi representa a estrutura etária da população, Yi representa o salário médio de cada país em dólares, e, por último, o PIBpci representa o Produto Interno Bruto per capita que nos ajuda a analisar o grau de desenvolvimento económico de um país. Na Tabela 2, está representado o grau de correlação entre as variáveis utilizadas na análise. Tabela 2 Grau de Correlação Var. SFi LFi Infi Ui EXPi EDUi CBi FESi CREDi ETi Yi PIBpci SFi 1.000 LFi 0.3576 1.000 Infi -0.0676 -0.2347 1.000 Ui -0.1694 0.0741 -0.1491 1.000 EXPi 0.5170 0.3437 -0.1988 0.0425 1.000 EDUi 0.2414 0.4573 -0.1848 0.4267 0.1741 1.000 CBi 0.4577 0.6497 -0.1510 0.3339 0.4357 0.6326 1.000 FESi -0.1804 -0.2106 0.0700 -0.1868 -0.2203 -0.2675 -0.2864 1.000 CREDi 0.2100 0.4703 -.02427 0.2901 0.2597 0.4648 0.6404 -0.2656 1.000 ETi -0.4017 -0.2950 0.0394 -0.3050 -0.4298 -0.4766 -0.5990 0.3706 -0.4247 1.000 Yi 0.4231 0.7363 -0.1876 0.1217 0.4043 0.4700 0.7256 -0.1856 0.6012 -0.3838 1.000 PIBpci 0.4408 0.7156 -0.1955 0.1109 0.4903 0.4366 0.7102 -0.1840 0.5804 -0.3750 0.9826 1.000
50 | P á g i n a 3.3 DESCRIÇÃO DOS DADOS 3.3.1 Proxies Utilizadas Na Tabela 3 estão representadas as variáveis utilizadas como proxies no Modelo I. A variável dependente é a taxa de poupança das famílias em termos do rendimento disponível das mesmas. A literacia financeira tem como base o estudo realizado pela S&P Global FinLit Survey (2015) em mais de cento e quarenta (140) países durante o ano de 2014 (Comissão Europeia, 2007; Jorge & Ferreira, 2011). A variável inflação é medida através do Índice de Preços do Consumidor – IPC, em percentagem, que nos permite avaliar a evolução dos preços de um cabaz de bens e serviços representativo do padrão de consumos das famílias de um país ou conjunto de países (Chowdhurry, 2004; Ferrucci & Miralles, 2007; Banco Central Europeu, 2009; Bachmann, Berg, & Sims, 2013). A taxa de desemprego é calculada através do rácio da população desempregada sobre a população ativa (Cohn & Kolluri, 2003; Mody, Ohnsorge, Sandri, & D., 2012; Kolasa & Liberda, 2014; Oliveira, 2017). A taxa de exportação é medida através do valor de exportação de bens e serviços em termos do Produto Interno Bruto (PIB). Também utlizada com variável independente é a educação que é representada pela percentagem da população com, pelo menos, o grau de licenciado (Solmon, 1975). A variável conta bancária, utilizada como medida de inclusão financeira, é a percentagem da população, com mais de quinze (15) anos, que tem uma conta bancária. Assim como a variável anterior, o fundo de emergência é, também, uma medida de inclusão financeira, medida através da percentagem da população, com mais de 15 anos, que tem capacidade para criar um fundo de emergência (Banco de Portugal, 2013; Grohmann, Kluhs, & Menklhoff, 2018). Para representar o crédito é utilizado o crédito concedido a particulares em percentagem do PIB (Robertson, 1926; Callen & Thimann, 1997; Athukorala & Tsai, 2003; Kim M. H., 2010). A estrutura etária é representada pelo Índice de Dependência Total, determinado com base na relação entre a população jovem (menos de
51 | P á g i n a 15 anos) e idosa (mais de 65 anos) e a população ativa, sendo os dados representados em proporção de dependentes por cada 100 cidadãos ativos (Modigliani & Brumberg, 1954; Poterba, 1994; (Baharumshah, Thanoon, & Rashid, 2003; Deaton, 2005). Tabela 3 Proxies das variáveis Variável Proxy Fonte SFi Taxa de poupança das famílias em % do rendimento disponível World Bank LFi Nível de literacia financeira da população S&P Global FinLit Survey INFi Índice de Preços do Consumidor, % do crescimento anual World Bank Ui Taxa de desemprego (%) World Bank EXPi Taxa de exportação em % do PIB World Bank EDUi Taxa da população com, pelo menos, licenciatura World Bank CBi População (>15 anos) com conta bancária (%) Global Findex FESi População com fundo de emergência (%) Global Findex CREDi Crédito ao setor privado em % do PIB World Bank ETi Índice de dependência total World Bank Yi Salário Médio (US$) World Bank PIBpci Produto Interno Bruto per capita (US$) World Bank 3.3.2 Descrição das variáveis De forma a enquadrar o tema é importante analisar a evolução das variáveis incluídas no modelo, começando pela variável dependente e de seguida as variáveis explicativas, utilizando uma média anual das variáveis dos países em estudo durante o período de 2009 a 2019. A variável dependente considerada é a taxa de poupança (SF) o que nos permite medir o nível de poupança de um país com base no Produto Interno Bruto per capita (PIB). Esta variável é um elemento essencial para o estudo dado permitir analisar quais as
52 | P á g i n a variáveis têm um maior impacto nesta, nomeadamente a variável explicativa literacia financeira. No gráfico X é possível visualizar que, durante o período de 2009-2011 houve um aumento considerável da taxa de poupança das famílias a uma escala global, seguido de um declínio até 2015. Na sequência da crise financeira global de 2007-2008, que provocou recessão económica e elevados níveis de incerteza, deu-se a nível mundial um aumento das poupanças das famílias. Contudo, nos anos posteriores, como já referido, é visível uma queda da taxa de poupança porque e, segundo Palenzuela e Dees (2016), o aumento da taxa de poupança demonstra como, perante situações extremas de instabilidade económica, as famílias tendem a reajustar as suas opções de consumo, poupando por motivos de precaução. Porém, dada a instabilidade, e o aumento do desemprego durante um longo período, não é possível para as famílias manterem os níveis de poupança elevados, sendo assim normal a quebra dos níveis de poupança. De forma concreta, os países da análise com uma média mais reduzida de taxa de poupança são Zimbabué, Líbano e Guiné, do lado oposto temos a China, Singapura e Argélia. De mencionar que os países com menor taxa, apresentam valores negativos (descapitalização em curso). Gráfico X Evolução da Taxa de Poupança a nível mundial Fonte: Elaboração própria com base em dados de World Bank 17 17,5 18 18,5 19 19,5 20 20,5 21 21,5 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 2019 Taxa de Poupança
53 | P á g i n a Em termos das variáveis explicativas, a literacia financeira é a base da questão da investigação, sendo que o grande objetivo passa por compreender o impacto que esta tem no nível das poupanças. Como já referido anteriormente, sendo que esta se trata de uma variável de difícil mensuração, os dados utilizados têm como fonte o estudo realizado pela S&P Global FinLit Survey em mais de 140 economias durante o ano de 2014. Na Figura II, é apresenta-se o indicador de literacia financeira do grupo de países escolhidos para a investigação. Figura II Literacia Financeira a nível mundial Fonte: Elaboração própria com base em dados de S&P FinLit Survey 2014 Observa-se que a generalidade dos países nórdicos, assim como o Canadá e Austrália são os países que apresentam um nível mais elevado de literacia financeira. Do lado oposto, encontram-se os países com um maior grau de iliteracia financeira, sendo o caso, na sua generalidade, dos países em desenvolvimento, como, por exemplo, Angola que apresenta um nível de literacia financeira de 15%. Em termos de inflação, no Gráfico XI está representada a evolução da mesma a nível global entre o período de 2009 e 2019, isto é, durante e após a crise financeira. Assim, verifica-se que nos primeiros anos a taxa de inflação sofreu um aumento, atingindo o pico em 2011. Nos anos posteriores, sentiu uma queda acentuada até 2015, voltando a estabilizar nos 2%. Esta estabilização deve-se ao controlo da política monetária levada a
54 | P á g i n a cabo pelo Banco Central Europeu, que tem como objetivo principal manter a estabilidade dos preços num nível em que a taxa de inflação anual esteja num nível baixo, próximo de 2% no médio prazo. Venezuela, Irão e Bielorrússia são os países com uma maior taxa de inflação, com menor taxa temos a Suíça, Irlanda e Japão. Gráfico XI Evolução da Taxa de Inflação a nível mundial Fonte: Elaboração própria com base em dados de World Bank Seguidamente, temos a evolução da taxa de desemprego no Gráfico XII. É possível observar que nos anos em que o mundo foi mais afetado pela crise económica e financeira, a taxa de desemprego foi mais elevada. Contudo, tem vindo a decrescer ao longo dos anos. 0 1 2 3 4 5 6 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 2019 Inflação (% anual)
61 | P á g i n a nível de educação, seja positivo, por via da relação positiva que tem com a literacia financeira; (vi) α6 associado à percentagem da população com conta bancária, poderá assumir valores positivos; (vii) α7, coeficiente associado à percentagem da população com um fundo de emergência, apresente um valor positivo; (viii) α8 , associado ao acesso ao crédito, apresente um valor negativo, uma vez que o recurso ao crédito e a sua facilidade funcionam como substituto à poupança; (ix) α9, coeficiente associado ao índice de dependência total, seja negativo, dado que, pela hipótese do ciclo de vida, a propensão a poupar é menor nos jovens e nos idosos, esperando-se um maior peso destas faixas etárias na população ativa; (x) α10 associado ao salário médio, seja positivo; e, por último, (xi) α11, coeficiente associado ao PIB per capita seja igualmente positivo. 3.4 RESULTADOS Inicialmente, recorremos ao método dos Mínimos Quadrados Ordinários (MQO) para estimar o impacto da literacia financeira na taxa de poupança das famílias – Modelo I. Assim, como a Figura 3 resume, constata-se que a literacia financeira demonstra um coeficiente estimado estatisticamente significativo e que o seu impacto nas poupanças das famílias é positivo, isto é, por cada aumento percentual no nível de literacia financeira, um cidadão conseguiria poupar mais 36,62 pontos percentuais.
62 | P á g i n a Tabela 5 Resultados da Estimação Modelo base, I e II Variáveis Independentes Modelo base OLS Modelo I OLS Modelo II TSLS α 0 6.3853 (0.061) 20.5912 (0.022) -2.6114 (0.551) LFi 0.3662*** (0.000) -0.0465 (0.704) 0.4743*** (0.000) INFi -0.0188 (0.891) 0.1881 (0.268) Ui -0.8106*** (0.000) -0.4855*** (0.005) EXPi 0.1518*** (0.000) 0.1756*** (0.000) EDUi 0.0363 (0.385) CBi 0.1408** (0.034) FESi -0.1375 (0.705) CREDi -0.0411 (0.148) ETi -0.1257 (0.172) Yi 0.0003 (0.333) PIBpci -0.0001 (0.466) R2 0.1279 0.4587 0.2999**** Entre parêntesis: P-Value; ****R2 centrado * p<0.10; ** p<0.05; ***p<0.01
63 | P á g i n a Em seguida, foram adicionadas algumas variáveis com o objetivo de obter um melhor modelo explicativo e de controlar os anteriores resultados. Os resultados da estimação do Modelo II com todas as variáveis que se previa impactar as poupanças das famílias, não são concisos para a nossa análise, dado que diversos coeficientes não apresentam os sinais esperados, como é o caso da literacia financeira e, também, o facto de apenas duas variáveis se revelarem estatisticamente significativas. Assim, e sabendo que a literacia financeira tem impacto na criação de poupanças, pressupõe-se que a mesma se encontra relacionada com uma ou mais variáveis independentes, levando a uma perda de significância, sendo que nestes casos a literatura sugere a possibilidade de existirem problemas de endogeneidade, nomeadamente entre diversas variáveis explicativas e que apresentam uma maior correlação entre si. Como tal, e de maneira a ultrapassar esta questão, foi implementado o método de Two Stage Least Square (2SLS) introduzido por Henri Theil e Robert Basmann que consiste em duas aplicações sucessivas, não simultâneas, do método dos mínimos quadrados ordinários. Gujarati (2011) esclarece que a variável explicativa pode estar correlacionada com o termo de erro, originando uma variável endógena. Para tal, é necessário determinar uma variável adicional (proxy), também conhecida como variável instrumental, que apesar de semelhante não se correlaciona com o termo de erro. Assim, este método permite obter estimadores mais eficientes. Como regressão instrumental temos: 𝑳𝑭𝒊 = 𝒇( 𝑭𝑬𝑺, 𝑪𝑹𝑬𝑫, 𝑪𝑩,𝑬𝑻, 𝑬𝑫𝑼, 𝑷𝑰𝑩𝒑𝒄) Quando comparado com o Modelo II, é possível verificar mudanças significativas. Em termos de sinais esperados, os quatro coeficientes vão ao encontro dos previstos. Relativamente à inflação é verificada uma associação positiva com a taxa de poupança, que demonstra a importância da mesma como medida de dinamismo económico, assim, prevê-
64 | P á g i n a se que quanto mais elevada for a inflação, maior será a expetativa de instabilidade, o que vai contrair o nível de consumo, estimulando as poupanças, contudo esta variável não é estatisticamente significativa no nosso modelo, ao contrário das restantes variáveis que apresentam coeficientes estimados com significância estatística. No entanto, apesar de o modelo apresentar bons resultados, devemos ter a certeza quanto à validação da especificação e os instrumentos. Estes problemas podem ser avaliados através de diversos testes, contudo vamo-nos focar nos resultados obtidos aquando da introdução do método 2SLS. Obteve-se um valor de F(6, 119) de 21,31 sobre a regressão instrumental que é significativa a 5%, provando a validade dos instrumentos. Assim, podemos afirmar que o modelo proposto inicialmente (Modelo I, base da Tabela 5) não testava devidamente a nossa questão de estudo, isto porque a variável literacia financeira em conjunto com as restantes, estava a sofrer “bullying”, o que fazia com que a mesma não fosse estatisticamente significativa quando esperávamos que esta variável tivesse influência nas poupanças das famílias. Daí recorrermos ao método 2SLS que nos permitiu verificar quais as variáveis que estavam a abafar a variável literacia financeira, e verificar que esta variável tem realmente influência nas poupanças das famílias a par das exportações e do desemprego.
65 | P á g i n a 4 CONCLUSÃO Dada a crescente globalização e o facto de as decisões financeiras dos cidadãos desempenharem cada vez mais um papel relevante para o bem-estar de cada um e da sociedade, o conhecimento financeiro reveste-se de capital importância. Como tal, e tendo em conta os níveis de literacia financeira a nível mundial, este estudo teve como objetivo compreender o impacto deste indicador na poupança das famílias, fator também de elevada importância para o desenvolvimento de uma economia. Através de diferentes estimações econométricas, foi averiguado o impacto de diversas determinantes na taxa de poupança das famílias, sendo que os resultados apontam para uma influência positiva da literacia financeira, e da exportação e, por contrário, um impacto negativo do desemprego sobre a poupança das famílias. Assim, e focando na variável principal do estudo, é importante que os cidadãos conheçam os seus direitos enquanto consumidores e efetuem escolhas adequadas às suas necessidades. Além disso, cada vez mais são os programas de educação financeira a nível mundial, demonstrando a importância da literacia financeira e o impacto que um elevado grau de iliteracia financeira de uma sociedade pode gerar na economia, como mencionado no início deste estudo. Porém, existem múltiplas abordagens de literacia financeira, motivo pelo qual esta variável não é de fácil mensuração, uma vez que não só depende do conhecimento financeiro, como do nível de desenvolvimento do país, condições sociais e económicas, entre outros fatores. Portanto, compreender as características de cada país depende de cada Governo e da sua proposta de implementação de uma estratégia de literacia financeira. Também não podemos esquecer, que na análise do grau de literacia financeira temos de ter em conta questões como a inclusão financeira, que em muitos países é muito reduzida e precária.
66 | P á g i n a O presente estudo apresenta algumas limitações, como o facto de ser realizado com base em dados de um só ano (2014), não nos dando a possibilidade de análise entre anos, o que seria um ponto interessante uma vez que demonstraria o impacto dos programas de educação financeira implementados e também a relação com as poupanças tendo em conta esse possível crescimento da literacia financeira a nível mundial. Assim, estudos futuros nesta área podem conduzir a um aprofundamento do conhecimento sobre a literacia financeira e sobre o seu impacto nas poupanças, nomeadamente alargando a análise a vários anos de maneira a compreender melhor o impacto dos programas e da literacia financeira nas poupanças das famílias, bem como distinguindo certos estratos sociais.
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77 | P á g i n a Anexo 5 – Regressão Modelo II (2SLS)
78 | P á g i n a