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Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar

Faria, Ana Amália Gomes de Barros Torres

Abstract

Ao longo das últimas décadas, aumentou a investigação em torno da adaptação e sucesso acadêmico no ensino superior. Um maior número e diversidade de estudantes ingressa neste nIvel de ensino, justificando maiores preocupações com o seu desempenho acadêmico e consequente conclusão das formações. A coleta de dados ocorreu longitudinalmente no Instituto Federal de Alagoas- Ifal (Campus Maceió) e contemplou três estudos com amostras distintas, entre 317 a 420 estudantes oriundos dos diversos cursos, distribuídos entre licenciaturas ou bacharelados. Num primeiro momento, ainda antes da pandemia fizemos a aplicação dos questionários de forma presencial. Posteriormente, com a pandemia de Covid- 19 e a passagem das atividades para o Ensino Remoto Emergencial (ERE), toda a pesquisa foi feita a partir de contatos e aplicação de questionários online. O estudo considerou as seguintes etapas: a primeira aconteceu no momento da matrícula, entre a 1ª e a 3ª semana após o ingresso, onde os estudantes eram convidados a participar do estudo e a fornecer informações referentes às características sociodemográficas; seu percurso acadêmico anterior; bem como as expectativas e dificuldades antecipadas relativas ao curso escolhido. A segunda etapa aconteceu entre a 6ª e a 8ª semana de aulas desde o início do curso. Nesta fase foram recolhidas informações relacionadas às vivências acadêmicas destes estudantes; e inseridas perguntas sobre o impacto socioemocional da pandemia de Covid-19. Na terceira etapa, já ao final do ano letivo, foi avaliado como se deu o processo de adaptação dos estudantes em seus cursos e sua intenção de abandono do curso. A tese compila quatro artigos, incluindo uma introdução, um capítulo de referencial teórico e percurso metodológico e uma conclusão. Os artigos que integraram a tese foram: 1- “Adaptação Acadêmica de Estudantes do 1º Ano: Promovendo o Sucesso e a Permanência na Universidade”; 2- “Expectativas e Dificuldades acadêmicas em ingressantes no Ensino Superior: Análise em função do gênero e sistema de cotas”; 3- “Efeitos da Aprendizagem Remota em estudantes do Ensino Superior”; 4- “Dificuldades na adaptação acadêmica dos estudantes de Ensino Superior em tempos de pandemia”. Os resultados apontam para a complexidade da convergência de variáveis pessoais e contextuais no processo de sucesso acadêmico e evasão escolar. Destacam-se nesse processo, a necessidade de políticas públicas buscando a diminuição gradativa nos índices de retenção e evasão escolares, bem como o delineamento de estratégias institucionais de apoio ao desenvolvimento de carreira destes estudantes, principalmente através de atividades de integração e de serviços de apoio especializados.

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outubro de 2022 UMinho|2022 Ana Amália Gomes de Barros Torres Faria Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar Ana Amália Gomes de Barros Torres Faria Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar Universidade do Minho Instituto de Educação Trabalho efetuado sob a orientação do Professor Doutor Leandro da Silva Almeida Tese de Doutoramento Doutoramento em Ciências da Educação Especialidade em Psicologia da Educação outubro de 2022 Ana Amália Gomes de Barros Torres Faria Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar Universidade do Minho Instituto de Educação ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição-Não Comercial CC BY-NC https://creativecommons.org/licenses/by-nc/4.0/ iii AGRADECIMENTOS Nesta reta final do Doutoramento, que é marcada pelo término da presente tese, não posso deixar de agradecer a algumas pessoas que, direta ou indiretamente, contribuíram para a conclusão desta etapa tão importante para a minha vida profissional e pessoal e a elas gostaria de deixar uma palavra de sincero agradecimento. Ao meu orientador Prof.ª Doutor Leandro Almeida, pela atenção, paciência, apoio e disponibilidade ao longo dos últimos 3 anos. É uma pessoa essencial e muito especial, que para sempre marcará a minha vida. Sem dúvidas um grande privilégio tê-lo comigo nessa jornada. Muito Obrigada. Devo também uma palavra de agradecimento aos estudantes que aceitaram colaborar no estudo e que despenderam tempo das suas aulas e outras atividades, para que a coleta de dados fosse possível. Aos educadores e gestores do Instituto Federal de Alagoas - Campus Maceió, que colaboraram de diferentes formas para que este estudo fosse realizado. Retribuo com minha admiração e respeito. Obrigada aos meus amigos, por me ouvirem, me distraírem quando era preciso e por festejarem comigo cada conquista e por nunca me terem deixado duvidar que eu era capaz. Não posso deixar de mencionar aqueles que são os principais responsáveis por tudo isto se tornar realidade, a minha família, a eles eu digo obrigada. Obrigada a minha mãe por sempre acreditar em mim e ao meu esposo e filhos obrigada pela compreensão em alguns momentos de ausência. Obrigada por serem quem são e obrigada por estarem sempre presentes na minha vida! iv DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. v Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar Resumo Ao longo das últimas décadas, aumentou a investigação em torno da adaptação e sucesso acadêmico no ensino superior. Um maior número e diversidade de estudantes ingressa neste nIvel de ensino, justificando maiores preocupações com o seu desempenho acadêmico e consequente conclusão das formações. A coleta de dados ocorreu longitudinalmente no Instituto Federal de AlagoasIfal (Campus Maceió) e contemplou três estudos com amostras distintas, entre 317 a 420 estudantes oriundos dos diversos cursos, distribuídos entre licenciaturas ou bacharelados. Num primeiro momento, ainda antes da pandemia fizemos a aplicação dos questionários de forma presencial. Posteriormente, com a pandemia de Covid19 e a passagem das atividades para o Ensino Remoto Emergencial (ERE), toda a pesquisa foi feita a partir de contatos e aplicação de questionários online. O estudo considerou as seguintes etapas: a primeira aconteceu no momento da matrícula, entre a 1ª e a 3ª semana após o ingresso, onde os estudantes eram convidados a participar do estudo e a fornecer informações referentes às características sociodemográficas; seu percurso acadêmico anterior; bem como as expectativas e dificuldades antecipadas relativas ao curso escolhido. A segunda etapa aconteceu entre a 6ª e a 8ª semana de aulas desde o início do curso. Nesta fase foram recolhidas informações relacionadas às vivências acadêmicas destes estudantes; e inseridas perguntas sobre o impacto socioemocional da pandemia de Covid-19. Na terceira etapa, já ao final do ano letivo, foi avaliado como se deu o processo de adaptação dos estudantes em seus cursos e sua intenção de abandono do curso. A tese compila quatro artigos, incluindo uma introdução, um capítulo de referencial teórico e percurso metodológico e uma conclusão. Os artigos que integraram a tese foram: 1- “Adaptação Acadêmica de Estudantes do 1º Ano: Promovendo o Sucesso e a Permanência na Universidade”; 2- “Expectativas e Dificuldades acadêmicas em ingressantes no Ensino Superior: Análise em função do gênero e sistema de cotas”; 3- “Efeitos da Aprendizagem Remota em estudantes do Ensino Superior”; 4- “Dificuldades na adaptação acadêmica dos estudantes de Ensino Superior em tempos de pandemia”. Os resultados apontam para a complexidade da convergência de variáveis pessoais e contextuais no processo de sucesso acadêmico e evasão escolar. Destacam-se nesse processo, a necessidade de políticas públicas buscando a diminuição gradativa nos índices de retenção e evasão escolares, bem como o delineamento de estratégias institucionais de apoio ao desenvolvimento de carreira destes estudantes, principalmente através de atividades de integração e de serviços de apoio especializados. Palavras-chave: Adaptação Acadêmica; Ensino Superior; Evasão; Sucesso Acadêmico. vi Higher Education Students: personal and contextual variables related to academic failure and school dropout Abstract Over the past few decades, research around adaptation and academic success in higher education has increased. A greater number and diversity of students enter this level of education, justifying greater concerns about their academic performance and consequent completion of training. Data collection took place longitudinally at the Instituto Federal de Alagoas-Ifal (Campus Maceió) and included three studies with different samples, between 317 and 420 students from different courses, distributed between degrees or bachelors. At first, even before the pandemic, we applied the questionnaires in person. Subsequently, with the Covid-19 pandemic and the transition of activities to Emergency Remote Teaching (ERE), all the research was done from contacts and the application of online questionnaires. The study considered the following steps: the first took place at the time of enrollment, between the 1st and 3rd week after admission, where students were invited to participate in the study and provide information regarding sociodemographic characteristics; your previous academic career; as well as expectations and anticipated difficulties related to the chosen course. The second stage took place between the 6th and 8th week of classes since the beginning of the course. In this phase, information related to the academic experiences of these students was collected; and inserted questions about the socio-emotional impact of the Covid-19 pandemic. In the third stage, at the end of the school year, the process of adapting students to their courses and their intention to drop out of the course was evaluated. The thesis compiles four articles, including an introduction, a theoretical reference chapter and methodological course and a conclusion. The articles that made up the thesis were: 1- “Academic Adaptation of 1st Year Students: Promoting Success and Permanence at the University”; 2- “Academic Expectations and Difficulties in Higher Education Entrants: Analysis in Function of Gender and Quota System”; 3- “Effects of Remote Learning on Higher Education students”; 4-"Difficulties in the academic adaptation of higher education students in times of a pandemic". The results point to the complexity of the convergence of personal and contextual variables in the process of academic success and school dropout. In this process, the need for public policies to gradually decrease the retention and dropout rates stands out, as well as the design of institutional strategies to support the career development of these students, mainly through integration activities and support services. specialized. Keywords: Academic Adaptation; Academic Success; Dropout; Higher Education. vii ÍNDICE INTRODUÇÃO ................................................................................................................... 1 CAPÍTULO 1 – VARIÁVEIS INTERVENIENTES DA TRANSIÇÃO PARA O ENSINO SUPERIOR 6 1.1 A expansão do Ensino Superior no Brasil ............................................................................... 6 1.2 Transição, Adaptação e Sucesso acadêmicos ........................................................................ 8 1.3 A problemática da evasão escolar ....................................................................................... 13 1.4 O impacto da pandemia de Covid19 nos estudantes .......................................................... 18 1.5 Apresentação dos objetivos e do percurso metodológico da tese .......................................... 22 1.6 Apresentação dos artigos da Tese ....................................................................................... 24 ARTIGOS PUBLICADOS ................................................................................................... 27 Artigo 1. Adaptação Acadêmica de Estudantes do 1º Ano: Promovendo o Sucesso e a Permanência na Universidade ................................................................................................... 28 Artigo 2. Expectativas e Dificuldades acadêmicas em ingressantes no Ensino Superior: Análise em função do gênero e sistema de cotas ......................................................................................... 46 Artigo 3. Efeitos da Aprendizagem Remota em estudantes do Ensino Superior ........................... 69 Artigo 4. Dificuldades na adaptação acadêmica dos estudantes de Ensino Superior em tempos de pandemia ................................................................................................................................. 85 CONCLUSÃO ................................................................................................................. 109 Principais Conclusões ............................................................................................................. 109 Ganhos Teóricos e Empíricos .................................................................................................. 111 Limitações e Futuras Investigações.......................................................................................... 116 Implicações para a Prática ...................................................................................................... 117 REFERÊNCIAS .............................................................................................................. 120 Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 4 aulas presenciais. Posteriormente, com a Portaria n.º 343 do Ministério da Educação (MEC), alterada pelas Portarias n.º 345/2020 e n.º 395/2020 e Medida Provisória n.º 934/2020, houve a substituição por aulas on-line , a fim de ajustar as atividades acadêmicas e o cumprimento do calendário escolar, enquanto durasse a pandemia. Por fim, acadêmica e socialmente, a presente Tese apresenta-se como contribuição teóricoprática para um melhor entendimento das variáveis facilitadoras da transição e acolhimento do corpo discente por parte dos gestores e demais membros da comunidade educativa do IFAL – Campus Maceió. Importa conhecer a realidade e implementar medidas de apoio à trajetória destes estudantes, visando seu engajamento, adaptação e permanência no ES, principalmente nesta fase em que se fazem sentir os efeitos da pandemia. Um exemplo de medidas seriam atividades de integração e serviços de apoio virtual aos estudantes – na perspectiva psicossocial – com o propósito de prevenir o insucesso e evasão no contexto acadêmico durante o ensino remoto emergencial. O ensino e a aprendizagem remota justificam uma atenção a outros aspectos da vida e desenvolvimento psicossocial dos jovens e jovens-adultos que frequentam o ES. Antes de adentrar mais concretamente nos estudos produzidos durante o doutoramento, é importante reconhecermos outros estudos e contribuições acadêmicas relevantes produzidos ao longo destes 3 (três) anos de realização do doutoramento. Foram dezenas de cursos realizados e de eventos participando como ouvinte ou como palestrante. Destes, produzimos relatórios, manuscritos e comunicações, dentre outros, que contribuíram para o embasamento teórico e metodológico desta tese. São eles: 1. Comunicação intitulada “Ensino Remoto Emergencial e as mudanças no processo ensinoaprendizagem: desafios e possibilidades”, apresentada no III Congresso Internacional de Inovação Docente e Investigação em Educação (online, 15 a 20 de novembro de 2021, Universidade do Minho). 2. Comunicação Intitulada “O impacto da pandemia de Covid-19 na vivência dos estudantes de Ensino Superior”, apresentada no Congresso Internacional GalegoPortuguês de Psicopedagogia (online, 1 a 3 de setembro de 2021, Universidade do Minho). 3. Participação no Seminário SunStAR – Suporte aos estudantes universitários em risco de abandono/evasão, no âmbito de Projeto Europeu do programa Erasmus+ (março de 2020, Universidade do Minho). 4. Comunicação Intitulada “Expectativas e dificuldades acadêmicas em ingressantes no ensino superior: Análise em função do gênero e sistema de cotas, apresentada no I Seminário Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 5 Internacional: Os estudantes do Ensino Superior (online, 24 e 25 de julho de 2020, Universidade do Minho). Sendo esta tese apresentada no formato de compilação de artigos, formato aprovado pelo Conselho Científico da UMinho (Ofício nº IE-099/2022), no final do Capítulo 1 elencar-se-á a ordem dos artigos a serem descritos. Antecipamos que se seguem 3 (três) artigos com dados empíricos no quadro do objetivo central da tese: compreender variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar no Ensino Superior do Instituto Federal de Alagoas (IFAL), Campus Maceió, a partir da relação existente entre transição, adaptação e sucesso acadêmico. Além de um artigo na modalidade revisão de literatura. Neste sentido, buscou-se mais concretamente identificar as variáveis relacionadas à evasão do estudante nos cursos superiores do IFAL durante o período pandêmico; testar se um conjunto específico de variáveis pessoais e contextuais influenciam no sucesso acadêmico dos estudantes, para a partir destes resultados apontar medidas de intervenção institucional no apoio à adaptação, sucesso acadêmico e evasão (em sentido amplo) dos estudantes. Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 6 CAPÍTULO 1 – VARIÁVEIS INTERVENIENTES DA TRANSIÇÃO PARA O ENSINO SUPERIOR 1.1 A expansão do Ensino Superior no Brasil A expansão no ensino superior no Brasil se deve, em muito, a implementação de políticas públicas de incentivo a criação de novas vagas, de expansão das universidades, de programas de financiamento, da oferta de bolsas de estudo e pesquisa, da valorização dos docentes, dentre outros investimentos que vem refletindo no maior número de diplomados. Entre os programas, destaca-se o Fundo de Financiamento Estudantil (FIES), o Programa Universidade para Todos (PROUNI), ambos criados para estimular o acesso à educação na rede privada, o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais e o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), que passou a ser adotado pelo Sistema de Seleção Unificada (SISU), como forma de ingresso nas instituições de Ensino Superior Federais. Desde 2012, a exigência da reserva de vagas para cotas sociais e raciais permitiu a inclusão de uma parcela da população até então excluída do ensino superior. Cabe ressaltar também, o fortalecimento da educação profissional, com a criação dos Institutos Federais de Educação Tecnológica, a partir da Lei 11.892; e da educação à distância, especialmente por meio da criação da Universidade Aberta do Brasil-UAB (Bardagi & Hutz, 2009; Fior, 2017b; Paula, 2017) Esta modalidade de ensino é determinante para a mobilidade social e profissional das pessoas, assim como para o desenvolvimento econômico e social de um país. As estatísticas nacionais e internacionais apontam que o primeiro ano deste nível de ensino é crítico em relação a estudantes que provêm de camadas sociais de menores recursos culturais e econômicos, sendo marcado por um período probatório muito significativo. Estes estudantes desconhecem a realidade do ES, sendo por vezes os primeiros membros da família a frequentar este grau de ensino e tendencialmente não possuem os recursos pessoais suficientes para responderem autonomamente aos desafios, merecendo uma maior atenção por parte das instituições, dos professores e dos serviços de apoio (Almeida, 2007; Andrade & Teixeira, 2017; Bernardo et al., 2016; Reppold et al., 2019). Com efeito, a entrada destes estudantes provenientes de contextos socioeconômicos desfavorecidos e de um ensino médio deteriorado, faz lançar um desafio importante aos gestores das instituições de ensino superior, pois as peculiaridades da experiência universitária destes indivíduos precisam ser acompanhadas e investigadas em profundidade, já que nessa população as interrupções e reprovações são mais frequentes Com a progressiva democratização e massificação do acesso ao Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 7 ES, verifica-se, também, maior diversidade étnica e etária de estudantes à medida que se generaliza o acesso a porcentagens crescentes da população (Almeida et al., 2019; Ambiel et al., 2016). A investigação na área revela que, apesar da vontade e entusiasmo com que os estudantes pretendem frequentar o ES, vários deles sentem dificuldades e alguma desilusão nos seus projetos iniciais diante dos desafios e exigências encontrados na transição para o ES, entre elas podemos mencionar a adaptação a uma nova cidade de residência, o afastamento da família e dos colegas de infância ou as necessidades de recursos financeiros para atender as solicitações da nova vida acadêmica. Neste último caso, tendo que manter ou iniciar uma atividade profissional, estes estudantes relatam dificuldades por terem que conciliar horários e responsabilidades do trabalho e estudo, para estabelecer novas amizades ou para enfrentarem as exigências das matérias de estudo, principalmente quando o seu histórico escolar anterior não se adequa às exigências curriculares do ES. Estudantes que apresentam baixo rendimento acadêmico logo nas primeiras avaliações, sentem níveis mais elevados de stress e de insatisfação, muitas vezes pelo fato de os resultados não expressarem o esforço levado por eles. Quando as dificuldades experienciadas não são superadas, os estudantes podem desenvolver níveis mais baixos de desempenho e de autoeficácia, menor satisfação, ou até níveis mais elevados de exaustão emocional ao enfrentar essas dificuldades (Almeida et al., 2008a; Casanova et al., 2021; de Besa Gutiérrez et al., 2019; Farias et al., 2021). Desta maneira, organismos internacionais destacam a relevância do ES para a economia e o desenvolvimento de cada país. A competição hoje existente em âmbito mundial, requer um maior número de quadros superiores nas várias áreas da vida social e econômica. Nesta orientação, o aumento do investimento público e familiar no ES decorre da importância da formação acadêmica, num mundo social e empresarial em constante evolução. Do mesmo modo, a complexidade e a imprevisibilidade do mercado são cada vez mais crescentes. Nesse sentido, também se requer das instituições maior preocupação com a qualidade da formação assegurada e taxas mais elevadas de estudantes concluintes. Essa formação, não apenas técnica e científica, tem o dever de ser hoje, mais abrangente e proporcionar aos indivíduos ferramentas para um processo de formação permanente ao longo da vida. As elevadas taxas de reprovação e abandono logo no primeiro ano do curso superior, demandam medidas institucionais de promoção de sucesso acadêmico (A. M. Araújo et al., 2016; A. M. Araújo, 2017; J. Casanova et al., 2021; Pérez, 2018). São inúmeras as buscas por soluções estratégicas para os problemas que ocasionam a evasão escolar, bem como a garantia da qualidade dos projetos educativos. Embora o Brasil oportunize oferta de vagas com uma duplicação de matrículas que continuam a se expandir, essas medidas ainda Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 8 são incipientes para atender à demanda de estudantes aptos a usufruírem da formação a esse nível, ou também à demanda de colocação de profissionais no mercado de trabalho. Desta maneira, tenta-se traçar uma maior eficiência formativa, considerando a multiplicidade de fatores que nela intervêm, as estruturas de governo, os ciclos de estudos, os recursos humanos e materiais a eles associados, os ambientes de aprendizagem e de desenvolvimento psicossocial proporcionados (Núcleo de informação e coordenação do ponto BR, 2020). Com efeito, o que se percebe nessa perspectiva de inclusão e acesso dos estudantes nas universidades é que o aumento de vagas e o número de ingressantes, não tem sido acompanhado da permanência dos estudantes no sistema e conclusão dos seus cursos. Com taxas de diplomação e de conclusão dos cursos de graduação decrescentes, os últimos anos demonstraram que os fenômenos da inclusão, exclusão, permanência e evasão devem ser analisados conjuntamente (Casanova, 2018). Nessa linha, problematizar a inclusão desses novos perfis no atual modelo de universidade, significa apontar desafios para um futuro próximo. Sendo assim, as universidades devem se reestruturar internamente e estar abertas para as novas possibilidades de recepção e acolhimento desse novo público, o qual, durante décadas, foi excluído desse nível de ensino. As instituições devem romper preconceitos e abandonar sistemas pedagógicos já enfraquecidos, ao mesmo tempo que os docentes precisam atender à diversidade de estudantes que frequentam as suas turmas. Longe dos tempos em que os seus cursos eram acedidos por uma elite populacional, hoje o ES é procurado por setores mais amplos da população, incluindo aqui os grupos socioeconômicos menos favorecidos. Nesta altura, podemos antecipar que são diversos os projetos de vida, as expectativas e as competências acadêmicas dos estudantes que hoje frequentam o ES e que os professores têm presentes nas suas salas de aula (Bauth et al., 2019; Casanova & Almeida, 2016; Vargas Carneiro & Bridi, 2020). 1.2 Transição, Adaptação e Sucesso acadêmicos Ao entrar no Ensino Superior, o aluno enfrenta situações desafiadoras e novas do ponto de vista acadêmico. Essa transição nem sempre ocorre de maneira satisfatória. Os estudantes podem revelar problemas na adaptação acadêmica, que se relacionam tanto com a aprendizagem, como com a gestão de tempo, provocando alto nível de stress, ansiedade e/ou depressão, abuso de substâncias, problemas relacionais, indecisão de carreira e dificuldades financeiras. Os recursos pessoais, principalmente de autonomia e autoeficácia aparecem como relevantes neste período, bem como uma boa rede de suporte social disponível. A depender destas variáveis, os estudantes podem antecipar dificuldades nos domínios de adaptação acadêmica e integração social. Os estudantes com percepções Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 9 positivas de autoeficácia, apresentam níveis superiores de autorregulação no estudo e abordagens mais profundas na sua aprendizagem. A Autoeficácia está relacionada com a definição de metas e objetivos de rendimento, sendo igualmente variável decisiva no enfrentamento das dificuldades na adaptação e na superação dos níveis de ansiedade associados as mesmas. Está ainda relacionada com a adaptação acadêmica e a intenção ou mesmo concretização do abandono (Fior & Mercuri, 2018; Santos et al., 2016). Desde muito cedo, o estudante pode ponderar a sua motivação para continuar a estudar, analisando os custos e benefícios que existem ao frequentar o ES e o que isso representa para si mesmo. Neste período, os estudantes enfrentam situações potencialmente estressantes, perante as quais terão de repensar as suas formas habituais de funcionamento e mobilizar recursos com vista a desenvolver novas formas de resolução de problemas, com vista ao sucesso da sua adaptação ao novo contexto acadêmico. As primeiras semanas serão decisivas para a necessária mobilização de recursos pessoais, seja para gerir as adversidades, seja para tomar decisões que permitam uma aproximação ao projeto de vida pessoal e vocacional dos estudantes (Almeida et al., 2008b; Araújo & Almeida, 2015; Casanova et al., 2020; Fernández et al., 2017). Além disso, as vivências ao longo do 1.º semestre serão decisivas para a decisão de abandonar ou não seus estudos e podem diferir em função de características pessoais dos estudantes e de características do próprio contexto, sendo um preditor significativo de risco e intenção de evasão. Também as características das instituições têm um importante papel, por exemplo as condições dos espaços físicos ou as oportunidades acadêmicas e sociais de crescimento dos estudantes, vão influenciar a forma como é avaliado o ambiente acadêmico. Se os estudantes não se identificam com o ambiente em que estão inseridos, podem experimentar estados emocionais negativos ou ansiosos, tristeza ou ansiedade, ou até sintomas físicos como dores ou cansaço (Costa et al., 2014; Kuh et al., 2008; Marinho-Araujo et al., 2015; Osti et al., 2020; Santos et al., 2016). A adaptação acadêmica é compreendida como uma variável associada ao bem-estar do estudante, seu engajamento e consequente realização pessoal e profissional. É o processo pelo qual ele vivencia quando se vê diante de novas exigências do ensino superior, tais como desempenho, ajustamento às novas regras da instituição de ensino e convívio social. Um processo dinâmico ou interativo entre recursos pessoais dos estudantes e desafios ou exigências colocadas pelo novo contexto acadêmico de vida e de aprendizagem que representa o ES (Almeida et al., 2016; Araújo & Almeida, 2015; Sousa & Almeida, 2018). Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 10 Comparativamente ao Ensino Médio, no ES as atividades curriculares são menos sequenciadas e menos apoiadas num livro de texto ou manual, os horários são mais flexíveis, os professores são mais distantes e novas amizades terão que ser construídas numa perspectiva heterogênea de colegas desconhecidos. Os desafios da transição e integração acadêmica colocam algumas exigências, requerendo níveis adequados de autonomia e maturidade dos estudantes, para garantir a sua adaptação e sucesso acadêmico. O desenvolvimento humano, ocorre em resposta aos desafios dos novos contextos de vida, em particular nas transições desenvolvimentais. Neste sentido, alguns autores relacionam as dificuldades de adaptação dos alunos ao Ensino Superior com os seus níveis de desenvolvimento psicossocial. (L. S. Almeida, 2007; A. M. Araújo et al., 2016; Granado et al., 2005; Nunes Caldeira et al., 2020; A. B. Soares, Monteiro, Souza, et al., 2019). Dentre as variáveis estudadas nessa transição e adaptação acadêmica, destacam-se as expectativas dos estudantes que são entendidas como cognições, motivações e afetos com que chegam e investem no Ensino Superior. Essas expectativas são moldadas pelas suas experiências acadêmicas anteriores e seus projetos de futuro, sendo influenciadas pelas experiências educacionais, fatores familiares, sociais e econômicos ou, ainda, pela informação oferecida pela instituição de ensino aos seus candidatos (Almeida et al., 2008a; Chickering & Reisser, 1993; Kuh et al., 2008; Pascarella, 2006). As dimensões associadas a adaptação acadêmica, referem-se à adaptação ao estudo; adaptação social, adaptação pessoal-emocional, adaptação institucional, adaptação ao curso e desenvolvimento de carreira. A adaptação ao estudo está relacionada aos comportamentos de estudo, a gestão e organização de horários e um maior investimento na compreensão dos assuntos dados e a realização de trabalhos dentro do prazo, que só é possível quando o aluno tem a percepção de eficácia na aprendizagem e comportamento autorregulado nos estudos. Ao nível de adaptação social, dizemos que ela é satisfatória quando os estudantes conseguem formar vínculos com os colegas e se sentem confiantes e autênticos para expressarem suas opiniões. Já a adaptação pessoal/emocional inclui um sentimento de estima por si próprio, autocontrole, autonomia e bem-estar. A adaptação institucional envolve o reconhecimento que o estudante faz da instituição, de sua infraestrutura e serviços existentes, valorizando-a. Por último, a adaptação vocacional ou de carreira, implica níveis mais elevados de objetivos pessoais e uma maior clareza sobre a carreira escolhida. Consequentemente o estudante passa a envolver-se em atividades que aumentam o seu perfil de competências e adaptabilidade (Igue et al., 2008; Nunes Caldeira et al., 2020; A. B. Soares, Monteiro, Maia, et al., 2019). Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 11 As expectativas acadêmicas iniciais dos estudantes tendem a influenciar a sua adaptação, persistência e sucesso acadêmico. Muitas vezes, os ingressantes apresentam expectativas bastante elevadas, por vezes pouco realistas, em relação às suas vivências interpessoais, curso, carreira e futuro profissional. Nessa altura, possíveis discrepâncias, entre as expectativas que os estudantes possuem acerca do Ensino Superior no momento do seu ingresso e o que a instituição oferece e espera dos seus alunos, podem gerar frustrações e diminuição do envolvimento acadêmico. Nem sempre os colegas estão disponíveis para novas amizades e suporte social, nem a experiência de menor controle familiar ou de maior liberdade de iniciativa é positivamente vivenciada. Estas situações podem fragilizar emocionalmente o estudante, que muitas vezes não encontrará os recursos e competências pessoais para enfrentar as demandas do ambiente universitário (Almeida et al., 2008a; Almeida et al., 2003; Casanova et al., 2019; Granado et al., 2005; Kuh et al., 2008). Diante disto, o ingresso no ES pode significar desilusão ou frustração, o que não favorece o envolvimento acadêmico do estudante e o seu respectivo sucesso acadêmico. Já as expectativas mais realistas dos universitários sobre o curso e a instituição podem ajudar na sua permanência nas instituições e na conclusão dos seus cursos. A experiência de Ensino Superior favorece progressivamente a adaptação de expectativas e a qualidade das vivências acadêmicas, assim como o desenvolvimento psicossocial dos universitários. As dificuldades na adaptação acadêmica tendem a estar justificada nos números de alunos que abandonam o Ensino Superior logo nos primeiros meses de seu ingresso. Estudantes com percursos prévios mais fragilizados, a que habitualmente estão associadas situações de insucesso e retenção e abandono, podem sentir mais dificuldades na superação dos desafios (Dias et al., 2018; Marinho-Araujo et al., 2015). Sendo certo que a entrada neste nível de ensino, sempre traduz desafios e exigências para os estudantes que nele ingressam, também é verdade que as instituições deveriam ter consciência da heterogeneidade de alunos que recebem e da necessidade de reunir serviços de apoio à integração dos ingressantes. Essa necessidade evidencia-se com a nova demanda do Ensino Superior brasileiro, que antes era caracterizado por atender a uma elite social e passou a ter alunos bem diversos em relação a origem social, competências e motivações. Enfatiza-se, portanto, o olhar atento por parte das IES, à diversidade e complexidade das vivências dos estudantes a fim de promover recursos que disponibilize aos novos públicos sua integração, aprendizagem e desenvolvimento psicossocial (Casanova et al., 2018a; Coulon, 2017; Monteiro et al., 2020). Para além de um conjunto de fatores apontados na literatura internacional sobre as questões da transição, adaptação acadêmica e insucesso podemos estar atentos a outras particularidades, como Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 12 as dificuldades enfrentadas pelos alunos de baixa renda, muitas vezes portadores de deficiências na formação básica, devido ao nível insuficiente no ensino fundamental e médio, a dificuldade de adaptação à vida universitária em função do contraste entre o nível de exigência da escola pública e uma universidade federal e até mesmo dificuldades financeiras para custear os estudos. A integração do jovem no Ensino Superior é um processo progressivo de adaptação, multidimensional e complexo, fortemente dependente de fatores pessoais e contextuais, tais como a autoconfiança, a percepção de competência social, o relacionamento com os colegas e o envolvimento em atividades extracurriculares. O bom andamento deste processo depende da qualidade de condições pessoais, características institucionais e grupos de interação. As variáveis incluídas neste processo, condicionam o investimento do aluno no seu curso e instituição, e consequentemente a sua permanência e sucesso acadêmico (J. Casanova et al., 2021; A. Soares et al., 2019). Um outro constructo importante diz respeito a preocupação com o sucesso dos estudantes em sua vivência acadêmica e tem requerido uma maior preocupação por parte das IES. Não raro e com alguma frequência, verifica-se um desajustamento entre a preparação dos estudantes e seu background; e a complexidade de desafios que eles irão enfrentar no ES, o que pode ser muito bem exemplificado nas altas taxas de reprovação e abandono neste nível de ensino. O desalinhamento entre as expectativas dos estudantes sobre o seu ingresso e as reais condições de vida acadêmica que as instituições oferecem, podem provocar muitas desilusões, insatisfações e frustrações. O sucesso acadêmico traz uma natureza multivariada, sendo um conjunto composto das variáveis dos estudantes, do curso e da instituição escolhida (Ferreira et al., 2001b; Monteiro et al., 2020). A literatura na área aponta que rendimento acadêmico, permanência e conclusão do curso vai além de eficácia curricular ou médias nas classificações e indicadores do curso. O conceito de sucesso acadêmico vai além; envolve a perspectiva de desenvolvimento de competências transversais, que vai aprofundar a aprendizagem muito mais do que as aprendizagens curriculares. Esta definição integra a aprendizagem de conhecimentos e desenvolvimento de competências, relacionando às experiências acadêmicas dos estudantes. Nesta perspectiva o sucesso acadêmico ultrapassa aquisições técnicas e científicas de um curso, passando a incluir atitudes e valores como por exemplo, o trabalho em equipe, a responsabilidade, o pensamento crítico, a formação contínua, empreendedorismo e criatividade. Também acrescenta-se as variáveis não cognitivas como a personalidade, as expectativas e as atitudes dos estudantes diante da aprendizagem e do ambiente educacional (Araújo et al., 2016; Coulon, 2017; Dias et al., 2018; Pérez, 2018). Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 13 Esta definição abre uma nova perspectiva sobre a forma de avaliar o sucesso do estudante em seu período de formação na educação superior. Sai de uma lógica quantitativa, em que o estudante era medido pelas notas nas avaliações e passa-se a um outro viés, dessa vez avaliado sobre a empregabilidade e qualidade do emprego dos que concluem seus cursos no ES, os diplomados. Uma outra forma de avaliar o sucesso acadêmico está relacionada à satisfação do estudante, que se dá de forma subjetiva, com a sua experiência de formação e o contexto acadêmico em que ela ocorreu, como a infraestrutura e recursos da instituição, à qualidade do processo de ensino-aprendizagem, à organização e estrutura do curso, ao relacionamento com colegas e professores, à gestão de problemas administrativos e aos serviços de apoio psico-socioeducativos disponibilizados a eles. Dito isso, podemos enfatizar que a satisfação dos estudantes com a sua trajetória acadêmica é determinante no seu envolvimento, permanência e posterior conclusão do curso. A ausência dela, atrapalha a vinculação do estudante a IES e seus sentimentos de pertencimento a ela, já que é indicadora de qualidade das universidades e de sua capacidade de atrair novos estudantes (Araújo, 2017; Casanova et al., 2021) . 1.3 A problemática da evasão escolar Com o crescente índice de ingresso ao ensino superior, tendencialmente aumentam as dificuldades com a sua frequência e sucesso. Esta expansão conduziu ao aparecimento e consolidação de novas instituições públicas e privadas, com o aumento do número de cursos nos subsistemas público e privado, universitário e politécnico. Socialmente, este incremento das IES decorre de preocupações com a formação superior de quadros para suporte ao desenvolvimento econômico e social, bem como aos esforços de maior democratização do acesso ao ES. Esta expansão beneficiou, igualmente, com as políticas de reforço de bolsas de apoio, aos estudantes de famílias com menos recursos econômicos, da extensão da escolaridade obrigatória, da valorização social da formação acadêmica e consequente melhoria das condições de vida das famílias brasileiras (L. S. (org. . Almeida & Castro, 2016; J. R. Casanova, Fernandez-Castañon, et al., 2018; Farias, 2021; Ferreira et al., 2001a; Marinho-Araujo et al., 2015). Esta situação é simultaneamente interessante e desafiante. Sabemos que nem sempre a democratização do acesso está efetivamente garantida, havendo uma diferenciação socioeconômica dos estudantes, em função do nível de ensino universitário e politécnico, e dentro de cada um deles em função da natureza e prestígio social dos cursos. Por outro lado, esta expansão do acesso não tem sido acompanhada do sucesso generalizado dos estudantes, havendo subgrupos específicos com maior Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 20 considerar, o impacto das notícias acerca do número de infectados e mortos no país. A suspensão de aulas presenciais, a falta de interação com colegas e professores e questões voltadas ao autogerenciamento de seus estudos, exigiram maior autonomia do estudante diante de sua vida acadêmica, uma vez que os cursos presenciais utilizam uma série de medidas e rituais que, ainda que não sejam suficientes, ajudam o estudante a se organizar (Lee, 2020; Severo et al., 2021). A partir desse levantamento, foi possível compreender as principais necessidades dos estudantes durante esse período de pandemia da COVID-19, destacando-se as dificuldades relacionadas à gestão do tempo, à organização da rotina, à procrastinação, aos estudos. Ademais, a percepção de que existe um interesse institucional pelos alunos, pode auxiliar na manutenção da motivação em relação aos estudos e à própria universidade, sendo um fator potencialmente preventivo à evasão quando houver a retomada das atividades acadêmicas, seja de maneira remota ou presencial. Adotar o ERE está configurando as respostas institucionais assumidas pelas universidades públicas brasileiras à semelhança de várias outras instituições similares em todo o mundo, em resposta aos desafios e às necessidades impostas pela pandemia da Covid-19. As questões relativas à criação de soluções para o desenvolvimento do ERE dependem do acesso dos sujeitos à internet em suas moradias, onde estão convivendo com as dificuldades individuais e familiares, laborais e culturais relativas às diversas políticas de isolamento social (Osti, Junior & Almeida, 2021; Severo et al., 2021). Assim, essa mudança no formato das aulas trouxe impactos para toda a comunidade acadêmica, uma vez que as IES usavam, até então, plataformas digitais apenas como apoio extraclasse e não como veículos principais de ensino, fazendo com que a conectividade com a internet fosse um ponto crucial nesse cenário. Segundo a pesquisa TIC Domicílios, divulgada em 2019, apenas 44% dos domicílios da zona rural brasileira tinham acesso à internet. Na área urbana, o índice era maior, com 70% dos lares conectados. Desse total, a maior quantidade de casas conectadas encontrava-se na Região Sudeste, entre 69,9% e 73,0%, enquanto a menor quantidade ocorria na Região Nordeste, entre 57,0% e 60,2%. (Núcleo de informação e coordenação do ponto BR, 2020). Essas diferenças ficam ainda mais evidentes ao se analisar cada classe social. Entre os mais ricos (classes A e B), 96,5% apontaram ter sinal de internet em casa, enquanto, nos patamares mais baixos (classes D e E), 59% relataram não possuir esse sinal. No tocante à população cuja renda familiar é inferior a um salário-mínimo, 78% das pessoas com acesso à internet usam exclusivamente o celular. Para os domicílios que atualmente não têm acesso à internet, a dificuldade mais apontada é o alto custo (27%), seguido do fato de os moradores não saberem usar a internet (18%) (Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR, 2020; Nascimento et al . , 2020). Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 21 Além dessas questões, o ERE impôs aos estudantes uma adaptação brusca a esse novo modelo de ensino-aprendizagem e uma nova forma de relacionamento entre colegas e professores. Privados de seu convívio diário e restritos a comunidades em redes sociais e grupos de mensagens, essa situação refletiu em muitos a impotência em relação a planos pessoais e profissionais, trazendo frustrações e incertezas sobre o futuro. Somam-se a isso as dificuldades enfrentadas quanto às condições sanitárias e econômicas. Esses elementos também impactam na qualidade da adaptação acadêmica dos estudantes, no seu sucesso e rendimento (Ambiel et al., 2020; Crick et al., 2020; Jacobo-Galicia et al., 2021; Saccaro et al., 2019). Deste modo, acredita-se que seria importante estimular que as universidades criem canais de comunicação efetivos com seus alunos, para abordar dúvidas e questões referentes à vida acadêmica durante a suspensão das aulas. Mais do que apenas disponibilizar e-mail para comunicação, é importante a criação de espaços para encontros virtuais, nos quais alunos possam interagir sincronamente com alguém que possa ouvir e dar algum encaminhamento às demandas que surgirem. A criação de canais virtuais de acolhimento e orientação para dificuldades de caráter mais psicológico psicopedagógico ou de assistência social é também uma alternativa. Esses canais de comunicação poderiam ser centralizados e serviriam também para ar ao estudante a percepção de suporte institucional. Ainda, entende-se que, na iminência de um retorno às aulas, mesmo que na modalidade remota, para além de oferecer capacitação adequada aos docentes e técnicos das universidades, é preciso levar em conta as dificuldades relatadas pelos estudantes, principalmente, as relacionadas a questões econômicas, ao gerenciamento do tempo, à falta de motivação para estudar e à saúde mental. Sendo assim, deve-se atentar também, à adaptação dos estudantes a essa nova modalidade, enquanto as aulas não podem ser retomadas, tanto em questões técnicas de informática quanto na sua autogestão de estudos, pois eram oriundos de cursos presenciais (Ambiel, et al., 2020; JacoboGalicia et al., 2021; Lee, 2020). Para Saccaro (2019), as questões que conduzirão as políticas educacionais para a Educação Superior, tendem a incorporar o aprendizado de tudo o que foi criado no enfrentamento à pandemia da Covid-19 e nos aguardam novas investigações sobre como o ensino presencial não prescindirá de tudo o que foi aprendido na fase do ERE, na construção de novas metodologias e práticas voltadas para o ensino híbrido, tendo como central a figura do discente como sujeito ativo do processo de ensinoaprendizagem. Ademais, é necessário criar e diversificar formas de auxílio aos estudantes que não têm condições financeiras, de aderirem a um ensino remoto para que não sejam prejudicados em sua vida acadêmica, evitando gerar uma exclusão social dentro da própria instituição. Isso aponta para a Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 22 possibilidade de que, no retorno às atividades remotas ou presenciais, as demandas dos estudantes por apoio a questões de aprendizagem, saúde mental, carreira e de adaptação à universidade sejam ainda mais pronunciadas, o que precisa ser considerado nas instituições de educação superior para que se possa apoiar a permanência dos estudantes nas universidades. 1.5 Apresentação dos objetivos e do percurso metodológico da tese Antes de apresentar os artigos realizados no âmbito do doutoramento, faz-se necessário conhecer a questão norteadora da tese, os objetivos centrais da investigação, bem como o percurso metodológico inerente aos estudos realizados e aos aspectos éticos envolvidos na pesquisa. Diante do contexto acima, o estudo busca responder a seguinte questão norteadora da investigação: quais são as variáveis pessoais e contextuais que compreendem a trajetória acadêmica dos estudantes de ES em um Instituto Federal e os fatores associados à transição, adaptação e permanência que promovem o insucesso e consequente evasão acadêmica? Nos últimos anos, vários estudos têm sido dedicados a influência e o papel das Instituições de Ensino Superior (IES), na aprendizagem e no desenvolvimento pessoal e social do aluno. As pesquisas têm revelado que o insucesso acadêmico e a evasão são amplamente determinados principalmente, pelas experiências dos estudantes no decorrer do 1º ano no Ensino Superior. Os primeiros meses na Universidade geralmente têm, para o estudante, um sabor de conquista e vitória ao conseguirem o tão esperado ingresso no curso desejado. No entanto, ao invés de parecerem agradáveis aos jovens alunos, podem se tornar bastante difíceis quando estes não conseguem se adaptar, de forma satisfatória, aos novos modos de aprendizagem e socialização (Almeida et al., 2008a; Araújo et al., 2014; Casanova et al., 2021; Ferreira et al., 2001; Fior & Mercuri, 2018; Paula, 2017). Importante destacar que os jovens estudantes provenientes de camadas socioculturais menos favorecidas podem apresentar na transição, menos recursos pessoais para o enfrentamento desta etapa e precisariam, portanto, de maior apoio, através de monitoria e acompanhamento psicopedagógico adequado, além do acolhimento institucional. Neste sentido, a crescente diversificação dos estudantes ingressantes tem-se configurado um desafio para as instituições, as quais buscam, cada vez mais, estabelecer medidas institucionais de acolhimento estudantil e de promoção do sucesso acadêmico, a partir das especificidades do perfil dos estudantes, em termos de características, expectativas e motivação (Farias, 2021; Fior, 2017a; Marinho-Araujo et al., 2015; Osti et al., 2021). Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 23 Tomamos o percurso dessa pesquisa, considerando o grupo de estudantes que ingressaram nos cursos superiores do Instituto Federal de Alagoas (Ifal – Campus Maceió), no ano de 2019/2020. Também foram extraídos dados de documentos institucionais, do sistema de informação acadêmica do IFAL (Campus Maceió) e de outros dados secundários como relatórios formais do Ministério da Educação, para complementação de informações referentes à particularidade dos IFs frente às Universidades e as informações coletadas com 317 estudantes na primeira amostra e 420 estudantes nas amostras respectivas, nas modalidades presenciais (antes da pandemia de Covid-19) e online (durante a pandemia de Covid-19), com entrada no ano letivo de 2019. Assim, os estudantes participantes foram oriundos de 11 cursos superiores do Campus Maceió, do IFAL. Os cursos investigados foram: 2 (dois) de Bacharelado (Sistema de Informação e Engenharia Civil); 5 (cinco) cursos de Licenciatura (Ciências Biológicas, Física, Letras, Matemática e Química); e,4 (quatro) cursos tecnológicos (Alimentos, Design de Interiores, Gestão de Turismo e Hotelaria). Para este estudo, consideram-se as seguintes variáveis e instrumentos de avaliação: (i) Dados pessoais (idade, gênero, ano de escolaridade, reprovações prévias, opção do curso e da instituição frequentada, ingresso por meio de ação afirmativacotas e não cotas). Esta avaliação ocorreu na primeira semana de aulas e contou como recurso, um questionário sociodemográfico que constituía entre outras coisas, com os dados sociofamiliares dos estudantes (habilitações e profissões dos pais, renda, situação profissional, mudança de residência para frequentar o ES). Também foi utilizado nesse estudo a Escala Brasileira de Expectativas Acadêmicas para ingressantes na Educação Superior (Marinho-Araújo et al., 2015) e o Questionário de Dificuldades Antecipadas de adaptação ao ensino superior - versão abreviada para o Brasil (Pereira-Neto et al., 2020). A Escala Brasileira de Expectativas Acadêmicas para Ingressantes na Educação Superior - Versão abreviada para o Brasil é formada por 28 itens, com respostas no formato tipo Likert de 6 pontos, oscilando entre 1 (Discordo totalmente) e 6 (Concordo totalmente), onde os estudantes pontuam as suas expectativas nos seguintes domínios ou dimensões de expectativas: (1) formação acadêmica de qualidade; (2) compromisso social e acadêmico; (3) ampliação das relações interpessoais; (4) oportunidade de internacionalização e intercâmbio; (5) perspectiva de sucesso profissional; (6) preocupação com a autoimagem; e (7) desenvolvimento de competências transversais. Utilizou-se também o Questionário Brasileiro de Dificuldades Antecipadas de Adaptação ao Ensino Superior (Pereira-Neto et al., 2020), composta de 12 itens, com padrão de resposta em uma escala com valores de 1 a 5, variando entre 1 (nenhuma dificuldade) e 5 (muita dificuldade). Esta lista Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 24 de dificuldades agrupa-as em três domínios ou dimensões: (1) dificuldades acadêmicas; (2) dificuldades de autonomia; e (3) dificuldades de suporte social. Foi aplicado o Questionário de Adaptação ao Ensino Superior Remoto (QAES-R), adaptado por Ferraz et al. (2020), onde foram inseridas algumas perguntas complementares visando compreender os impactos socioemocionais decorrentes da pandemia de covid-19 na vida dos estudantes. Como por exemplo se: “Durante o período/isolamento social, você pensou em abandonar seu curso?” e “Em decorrência da pandemia, a renda familiar sofreu algum impacto financeiro?” Nestes dois casos, solicitava-se aos alunos uma breve descrição das ocorrências ou sentimentos envolvidos em suas respostas. E por fim, foi utilizado o Questionário de Adaptação ao Ensino Superior Remoto (QAES-R), adaptado à modalidade de ensino remoto emergencial-ERE dos estudantes brasileiros do ES (PereiraNeto et al., 2021). Este questionário é composto por 32 itens repartidos por cinco dimensões: (1) Adaptação pessoal/emocional – com 8 itens descreve o estado emocional dos estudantes (exemplo: “Ultimamente tenho me sentido triste ou abatido/a”); (2) Desenvolvimento de carreira – com 7 itens reporta a situações de integração da experiência em contexto de ensino superior remoto nos planos futuros e exploração de carreira (exemplo: “Sinto que estou num curso que corresponde aos meus interesses e capacidades”); (3) Adaptação ao ensino remoto - com 7 itens aponta o nível de adaptação dos estudantes à mudança do ensino presencial para o remoto (exemplo; “Considero adequadas as propostas de adaptação das disciplinas práticas para as aulas on-line”); (4) Adaptação social/interpessoal - com 5 itens relaciona as atividades de integração social do estudante no contexto do ensino remoto (exemplo: “Mesmo de forma remota, tenho um grupo de amigos da Universidade a quem posso recorrer sempre que necessitar”); (5) Adaptação acadêmica/autorregulação - com 5 itens descreve as relações dos estudantes com a organização dos estudos e a regulação dos comportamentos de aprendizagem durante o ensino remoto (exemplo: “Depois das aulas, organizo e sistematizo a informação para estudar melhor. 1.6 Apresentação dos artigos da Tese A publicação de artigos científicos foi um fator motivador para a prossecução do próprio doutoramento, visto a escolha da tese se deu a partir do modelo de compilação de artigos publicados ou aceites para publicação, proposta prevista no Despacho nº IE-099/2022, cuja aprovação pelo Conselho Científico ocorreu em 25 de outubro de 2021, mediante Ofício nº IE-345/2021. Destacamos que os artigos publicados ou aceites foram publicados em revistas de circulação internacional Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 25 indexados em distintas bases de dados. Assim, descreveremos a seguir os 4 (quatro) artigos que retratam o trabalho de investigação científica realizado ao longo dos 3 (três) anos de atividades doutorais, cujas atividades se diferenciam em etapas complementares e correlacionadas. O artigo 1 intitula-se “Adaptação Acadêmica de Estudantes do 1º Ano: Promovendo o Sucesso e a Permanência na Universidade”, foi submetido e aprovado para a Revista Internacional de Educação Superior – Riesup (2446-9424), em maio de 2020 e aceito para publicação em julho de 2020. Trata-se de uma reflexão teórica a partir da compreensão dos fenômenos multifacetados que estão presentes no ingresso dos estudantes no Ensino Superior, suas expectativas com o novo contexto e o impacto das primeiras vivências adaptativas no êxito e permanência do estudante na universidade. O estudo possibilitou um olhar sobre novas práticas formativas nesse nível de ensino, assim como algumas vulnerabilidades ou dificuldades que os estudantes potencialmente vivenciam no seu processo de transição e adaptação ao ES. O artigo 2, intitulado “Expectativas e dificuldades acadêmicas em ingressantes no ensino superior: Análise em função do gênero e sistema de cotas”, foi submetido e aprovado pela Revista Amazônica – Revista de Psicopedagogia, Psicologia Escolar e Educação (ISSN 2558 –1441 - Versão digital). Este artigo faz parte de um número temático sobre ES e cuja demanda surgiu a partir do Seminário Internacional realizado pelo Grupo de Investigação em Cognição, Aprendizagem e Desempenho (GICAD) e do Centro de Investigação em Educação (CIED). Objetivamente, buscamos investigar a diferença nas expectativas e dificuldades acadêmicas dos estudantes que ingressam no primeiro ano do ensino superior, em função do gênero e sistema de cotas. Participaram desta pesquisa 317 estudantes matriculados no Instituto Federal de Alagoas (IFAL – Campus Maceió). Foi aplicado um questionário sociodemográfico, a Escala Brasileira de Expectativas Acadêmicas para ingressantes na Educação Superior (Marinho-Araújo et al., 2015) e a Escala de Dificuldades Antecipadas, versão para o Brasil (Pereira-Neto; Faria & Almeida, 2021). Os resultados sugerem diferenças relacionadas ao gênero, nomeadamente expectativas mais elevadas por parte das mulheres nas dimensões de compromisso social e de sucesso profissional. Os dados desta investigação podem subsidiar o delineamento de estratégias institucionais de apoio nas trajetórias acadêmicas destes subgrupos de estudantes. O artigo 3, intitulado “Efeitos da Aprendizagem Remota em Estudantes do ensino superior”, foi submetido e aprovado para publicação pela Revista Educação em Debate (ISSN 0102-1117). O estudo objetivou analisar os efeitos do Ensino Remoto Emergencial (ERE) na vivência dos estudantes. Foi aplicado o Questionário de Adaptação ao Ensino Superior Remoto (QAES-R), adaptado por Ferraz e Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 26 colaboradores (2020). Participaram 420 estudantes do Instituto Federal de Alagoas (IFAL), com idades entre 17 e 67 anos. Os resultados mostraram que o ERE trouxe impactos para os estudantes, principalmente os mais novos, com menos condições, evidenciando desmotivação, intenção de abandono e um menor índice de adaptação aos seus cursos. Os achados desta pesquisa podem contribuir com futuras linhas de investigação que visem à promoção de adequações institucionais para um maior engajamento dos estudantes, sua adaptação e permanência na universidade, durante e após a pandemia. O artigo 4 intitulado “Dificuldades na adaptação acadêmica dos estudantes de ensino superior em tempos de pandemia”, (aceite, em publicação), objetiva analisar as variáveis psicossociais que impactaram a adaptação acadêmica dos estudantes do Instituto Federal de AlagoasIFAL (Campus Maceió), durante o ERE. Foi aplicado um Questionário de Adaptação ao Ensino Superior Remoto (QAES-R), versão adaptada para o Brasil (no prelo), em que participaram 420 estudantes, com idades entre 17 e 67 anos. A maioria dos participantes trabalha e estuda apresentando renda igual ou inferior a 1.5 salários-mínimos. Os resultados apontam que os estudantes foram impactados nas dimensões pessoal/emocional, acadêmico e interpessoal das suas vivências, refletindo na qualidade da sua adaptação ao ensino superior. Esses achados revelam a necessidade de discussão dos determinantes envolvidos na experiência acadêmica e adequações institucionais visando um maior engajamento dos estudantes de forma a garantir a sua permanência e conclusão do curso, durante e após a pandemia. Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 27 ARTIGOS PUBLICADOS Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 28 Artigo 1. Adaptação Acadêmica de Estudantes do 1º Ano: Promovendo o Sucesso e a Permanência na Universidade Faria, A. A. G.B. T. & Almeida, L. S. (2021). Adaptação acadêmica de estudantes do 1º ano: promovendo o sucesso e a permanência na Universidade. Revista Internacional de Educação Superior , 7 ,e021024-e021024. https://doi.org/10.20396/riesup.v7i0.8659797 Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 29 Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 36 Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 37 Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 38 Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 39 Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 40 Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 41 Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 42 Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 43 Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 44 Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 45 Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 52 Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 53 Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 54 Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 55 Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 56 Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 57 Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 58 Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 59 Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 60 Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 61 Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 68 Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 69 Artigo 3. Efeitos da Aprendizagem Remota em estudantes do Ensino Superior Faria, A. A. G. B. T., Pereira-Neto, L. L., Almeida, L. S. (2021). Efeitos da aprendizagem remota em estudantes do ensino superior. Educação em Debate, 43 (86),136-150. https://doi.org/10.24882/eemd.v43i86.77985 Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 70 Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 71 Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 72 Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 73 Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 74 Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 75 Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 76 Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 77 Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 84 Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 85 Artigo 4. Dificuldades na adaptação acadêmica dos estudantes de Ensino Superior em tempos de pandemia Faria, A. A. G. B. T., PereiraNeto, L. L., Almeida, L. S. (aceite, em publicação). Dificuldades na adaptação acadêmica dos estudantes de ensino superior em tempos de pandemia. Educação em Revista (UFMG) . Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 86 Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 87 Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 88 Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 89 Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 90 Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 91 Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 92 Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 93 Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 100 Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 101 Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 102 Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 103 Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 104 Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 105 Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 106 Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 107 Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 108 Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 109 CONCLUSÃO Os estudos realizados e os artigos publicados pretenderam dar resposta aos objetivos centrais da presente tese de doutoramento: (i) Compreender a trajetória que envolve o ingresso do estudante no ensino superior (ES), analisando as suas expectativas em relação aos recursos pessoais que utilizam frente à instituição de ensino e identificando os fatores que influenciam o seu êxito ou fracasso escolar, bem como a permanência ou evasão; (ii) Conhecer o perfil dos estudantes que ingressam no ES do Instituto Federal de AlagoasIFAL – Campus Maceió, dando particular atenção às suas expectativas acadêmicas iniciais e origem sociocultural; (iii)Compreender como estes estudantes lidam com as situações de sucesso e de insucesso no ES, em particular avaliando os seus níveis de satisfação acadêmica; (iv) Identificar os motivos, na perspectiva dos estudantes, que os levam a abandonar os estudos ou neles permanecer; (v) Entender como um conjunto de variáveis pessoais e contextuais dos estudantes do ES, impactam no seu rendimento acadêmico e evasão. Dos quatro artigos, o primeiro situou-se na clarificação de conceitos e revisão da literatura, os três seguintes procuraram avaliar a convergência de variáveis pessoais e contextuais na perspectiva da transição, adaptação acadêmica e evasão do ES. Neste capítulo da tese, apresentaremos as conclusões principais da nossa investigação, algumas limitações e possíveis implicações para a investigação e para a prática tomando a informação recolhida e analisada ao longo dos vários estudos e artigos publicados, entendidas como contribuições desta investigação. Principais Conclusões O artigo 1 intitula-se “Adaptação Acadêmica de Estudantes do 1º Ano: Promovendo o Sucesso e a Permanência na Universidade”, foi submetido e aprovado para publicação na Revista Internacional de Educação Superior – RIESUP. Trata-se de uma reflexão teórica a partir da compreensão dos fenômenos dinâmicos e multifacetados que estão presentes no ingresso dos estudantes no ES, suas expectativas com o novo contexto de formação e o impacto das primeiras vivências adaptativas no êxito e permanência do estudante na universidade (Almeida, 2007; Fior, 2017; Teixeira et al., 2008). O estudo possibilitou um olhar sobre novas práticas formativas nesse nível de ensino, podendo os estudantes apresentar-se potencialmente vulneráveis face aos níveis de autonomia e das competências desenvolvidas. Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 116 respondam às dificuldades assinaladas. Assim, podemos vislumbrar uma perspectiva educacional, que possibilite às instituições e estudantes buscarem estratégias que viabilizem uma discussão crítica do momento que estamos vivendo, propondo alternativas e mudanças, apoiando a formação de professores para aulas a distância e dos alunos para aprenderem nessas circunstâncias. Limitações e Futuras Investigações Apesar dos objetivos centrais da tese terem sido atingidos, existem algumas limitações a serem consideradas, já descritas ao longo dos estudos, mas que cabe aqui reflexão. A primeira delas é referente à amostra ser exclusiva de uma única instituição pública de ES. Mesmo sendo uma IES que abraça diversas áreas de cursos, não contempla outros contextos sociais e acadêmicos da realidade brasileira, sem a consequente tomada de resultados provenientes de outras instituições de ES, públicas e privadas ou universidades e politécnicos, de forma a captar a influência de outras variáveis, por exemplo, contextuais, pois são específicos para estudantes do ES do IFAL - Campus Maceió. Espera-se que pesquisas futuras possam ampliar a coleta de resultados junto a amostras de outras IES (públicas e privadas; estaduais, municipais e federais) e, inclusive, em diferentes regiões geográficas do Brasil, complexificando os resultados em análise e favorecendo a sua generalização. Tendo em vista uma melhor compreensão do fenômeno do insucesso e da evasão, sua explicação e pistas para a sua prevenção, em futuros estudos seria pertinente a realização de um estudo longitudinal de maior alcance, ao longo da duração do curso ou todo o percurso formativo dos estudantes. Tal perspectiva permitiria analisar a frequência de abandono ao longo da formação e verificar o poder preditivo das variáveis a médio prazo. Também a continuidade do estudo ao longo da trajetória acadêmica dos estudantes, pode permitir identificar e diferenciar variáveis com mais impacto tanto no 1.º ano do curso, como também no percurso dos outros anos. A literatura aponta para motivos diversos quando o abandono ocorre no início e no final da formação acadêmica, por exemplo o impacto dos recursos pessoais para responder às exigências da adaptação acadêmicas versus dificuldades de entrada no mercado de trabalho, pelas poucas competências de empregabilidade desenvolvidas. Vale salientar, ainda, a importância de incluir estudantes em vários momentos da sua graduação buscando conhecer suas vivências a partir da experiência com o ensino remoto, bem como as variáveis pessoais e contextuais implicadas em suas dinâmicas, durante e após a pandemia. A identificação precoce de perfis de estudantes em risco na sua adaptação, permitirá às instituições a implementação de medidas de combate ao insucesso e ao abandono tomando por referência certos subgrupos de estudantes. Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 117 Seria pertinente, por último, incluir diferentes fontes de informação acerca da adaptação e percurso dos estudantes no 1.º ano, buscando também a avaliação sob o ponto de vista dos professores e dos profissionais que apoiam os estudantes nos Serviços de apoio criados pelas instituições. A identificação precoce por parte dos professores e outros profissionais de estudantes em risco de abandono, permitirá às instituições a implementação de medidas de combate ao insucesso e a evasão. Se estes professores (sobretudo os que lecionam no 1º ano) e profissionais estiverem mais atentos às necessidades dos estudantes, seguramente estarão também mais disponíveis e capacitados para intervir na superação das dificuldades vivenciadas e promoção de competências de maior autonomia e resiliência por parte dos ingressantes. Implicações para a Prática Considerando que a frequência no ES assume hoje muitos significados, principalmente no que diz respeito a obtenção do diploma, empregabilidade, possibilidade de melhor remuneração e melhor perspectiva de evolução na carreira, essa experiência não se esgota nesses aspectos somente ou, menos ainda, apenas nas vertentes curriculares da formação. Ingressar numa IES é também uma experiência enriquecedora do ponto de vista do desenvolvimento pessoal e social do estudante. Neste contexto, o sucesso não se define apenas com as notas obtidas, mas também pela integração, ajustamento e satisfação com as diferentes pessoas, atividades e contextos que formam a cultura e a realidade acadêmica. Esta multiplicidade de tarefas, por exemplo, requer que o estudante desenvolva e aplique continuamente um conjunto de competências, desde logo tornando-se mais autônomo, autorregulado e resiliente face a dificuldades (Almeida, 2007; Fior, 2017; Marinho, 2015). Entre tais tarefas, uma referência particular para as orientadas à promoção da aprendizagem de conteúdos e outras mais centradas no desenvolvimento e relacionamento com pares e instituição. Vale salientar que estas competências e seu pleno desenvolvimento, só será atingido quando os estudantes se encontram devidamente envolvidos nas atividades da instituição, nelas participando de forma ativa e responsável. Os estudantes que ingressam neste nível de ensino são diversificados em seus percursos escolares e familiares, nas suas capacidades, nos seus interesses e projetos acadêmicos e futuros. As experiências, problemas, estratégias ou recursos não serão generalizáveis na sua forma e intensidade para todos os estudantes, numa situação de indiferenciação. O fenômeno da evasão é um processo complexo, dinâmico e multideterminado, mas sempre com um componente pessoal que o diferencia de estudante para estudante. As intervenções até agora, tendem a ser pouco eficazes e implicam no máximo, um contato de sondagem dos estudantes após estes se terem desvinculado da instituição, por Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 118 forma a motivá-los a retomar projetos interrompidos e a assumir novamente a tentativa de prosseguir os seus estudos. Como vimos, tomando a síntese da literatura e os nossos dados empíricos, na decisão de permanecer ou abandonar a formação superior (determinado curso) impactam fortemente as variáveis pessoais dos estudantes, principalmente as competências possuídas, seus níveis de maturidade e autonomia e seus projetos vocacionais (Bernardo et al., 2016; Casanova, 2018; Tinto, 2017). Do ponto de vista institucional, espera-se algumas linhas de intervenção e ações concretas a fim de minorar as taxas de insucesso e de evasão, assumindo que situações prévias de insucesso por norma, vão desencadear a decisão de abandono. Esta intervenção deve assumir medidas de promoção, prevenção e remediação, estratégias de acompanhamento e de intervenção ao longo dos percursos acadêmicos dos estudantes, ou seja, ao longo de todo o curso de formação. Para isso, tornase vantajosa a definição de indicadores de insucesso acadêmico e de risco de evasão, para a sinalização precoce de estudantes em situação de maior vulnerabilidade ou risco de abandono. Esta ação poderá minorar o impacto de percursos escolares prévios menos consolidados e facilitar a aquisição de competências pessoais e acadêmicas que promovam o sucesso acadêmico e o desenvolvimento de um projeto de carreira satisfatório para esses estudantes. Sendo o ES exigente pela sua natureza e missão, importa acolher os estudantes e lutar para criar condições para que eles possam ultrapassar com sucesso os desafios sentidos. Um exemplo será com práticas diferenciadas de acolhimento, monitoramento pelos serviços de apoio dos estudantes em situação de risco por vulnerabilidade social e financeira (Bardagi & Hutz, 2009; Feitosa et al., 2020; Matta et al., 2017). Também é importante pensar em uma intervenção no âmbito do processo de ensino-aprendizagem, especialmente no contexto de sala de aula, nomeadamente tornando os estudantes mais autorregulados nas suas aprendizagens. Estas iniciativas mais estruturadas, também promoverão a interação entre os estudantes, que é de extrema importância nas primeiras semanas no ES, por permitirem a exploração e a criação de novas redes de suporte social. Também destacar o papel dos professores com maior disponibilidade para lecionar aos estudantes do 1.º ano e que tenham maior sensibilidade para os desafios que os estudantes experienciam nesta etapa, a fim de facilitar o envolvimento deles e motivá-los para as aprendizagens em contexto de sala de aula, pois os modelos interpessoais de aprendizagem, valorizam a dimensão social que pode prevenir o abandono, assim como a participação em atividades extracurriculares (projetos de extensão ou voluntariado, experiências de trabalho ou pequenos estágios) e de investigação. Desde logo, estes professores que lecionam no 1º ano, devem tomar consciência das dificuldades inerentes a níveis baixos de autonomia Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 119 e de competências acadêmicas de vários estudantes, assim como conhecerem as culturas juvenis da atualidade, pois diferem bastante das culturas dominantes uma dezena de anos atrás, aliás por vezes pouco em consonância com o esperado por parte das IES em termos de esforço, participação e responsabilidade dos seus estudantes. A disponibilização de programas de desenvolvimento vocacional e de carreira para os estudantes, beneficiariam a exploração e desenvolvimento da motivação necessária para a persistência acadêmica, pois o ES enquanto contexto de vivência, estimula o desenvolvimento psicossocial dos estudantes, que vão sendo desafiados pela diversidade de experiências, tanto em nível acadêmico, como em nível social. Muitas vezes na educação básica, no ensino médio e nas interações com os familiares e amigos, os estudantes não tiveram oportunidades suficientes de seu desenvolvimento na área vocacional e interpessoal, por exemplo fazer novos amigos e mostrar confiança nas relações interpessoais. Assim, as Instituições devem promover atividades que permitam aos estudantes a criação e manutenção de uma rede de suporte social de qualidade, em particular os do 1.º ano, de mais recursos e competências para enfrentarem as necessidades e exigências do seu cotidiano acadêmico ( Pascarella, 2006; Polydoro, 2000). O ES é cada vez mais uma oportunidade relevante de formação e de desenvolvimento psicossocial dos estudantes, devendo haver alguma prioridade na implementação de políticas e medidas nacionais e institucionais que favoreçam o sentido educacional de tais oportunidades. As mudanças desenvolvimentais dos estudantes que frequentam o ES não parecem ser determinadas apenas por características intrapessoais, mas decorrem também incentivadas pelos estímulos ambientais. Dessa forma, cabe às IES atender ao maior volume e diversidade de estudantes ingressantes. A sua responsabilidade não se situa apenas ao nível deste ingresso. Mas também, sua maior democratização nos deve traduzir-se numa maior preocupação em criar condições efetivas de adaptação e sucesso acadêmico por parte dos estudantes. Apenas desta forma se democratizam, também, o sucesso acadêmico, a permanência e as taxas de conclusão dos cursos. Estudantes do Ensino Superior: variáveis pessoais e contextuais relacionadas ao insucesso acadêmico e evasão escolar 120 REFERÊNCIAS Almeida, L. S. (2007). Transiçâo, adaptaçâo académica e éxito escolar no ensino superior. Revista Galego-Portuguesa de Psicoloxía e Educación , 15 (2), 203–215. https://core.ac.uk/download/pdf/61900707.pdf Almeida, L. 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