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A relação entre a inteligência espiritual e a resiliência emocional na gestão

Gomes, Vanessa Avelino

Abstract

A presente pesquisa tem como propósito analisar a relação existente entre a inteligência espiritual e a resiliência emocional na gestão, duas temáticas que têm atraído a atenção de académicos e práticos nas organizações. Com vista à orientação desta investigação, formulou-se a seguinte questão: Qual a relação entre a inteligência espiritual (IE) e a resiliência emocional (RE) em gestores? Para responder à questão de investigação realizou-se um inquérito por questionário composto por duas escalas: uma de inteligência espiritual (Inventário de autoavaliação de inteligência espiritual – IAIE com 16 itens, versão portuguesa da escala SISRI-24) e outra de resiliência emocional (Connor and Davidson Resilience Scale with 10 itens – CD-RISC-10), além de um conjunto de variáveis sociodemográficas. Esta pesquisa contou com a participação de 104 gestores portugueses. Para analisar os dados foi utilizado o programa SPSS versão 26. As pontuações dos respondentes na escala IAIE e suas dimensões apontam para níveis médios de inteligência espiritual, o mesmo se verificando na escala de resiliência emocional. Os testes de comparação de médias revelam a existência de diferenças estatisticamente significativas nas escalas de inteligência espiritual e resiliência emocional em função de algumas variáveis demográficas e profissionais. No que concerne a relação entre a inteligência espiritual e a resiliência emocional na gestão, encontrou-se uma correlação positiva, embora baixa.

Full text

Universidade do Minho Escola de Economia e Gestão Vanessa Avelino Gomes A Relação entre a Inteligência Espiritual e a Resiliência Emocional na Gestão Maio 2020 VANESSA AVELINO GOMES A Relação entre a Inteligência Espiritual e a Resiliência Emocional na Gestão UMinho|2020 Universidade do Minho Escola de Economia e Gestão Vanessa Avelino Gomes A Relação entre a Inteligência Espiritual e a Resiliência Emocional na Gestão Dissertação de Mestrado Mestrado em Gestão de Recursos Humanos Trabalho efetuado sob a orientação da Professora Doutora Regina Maria Oliveira Leite Maio de 2020 ii Direitos de autor e condições de utilização do trabalho por terceiros Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. indicada. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição-SemDerivações CC BY-ND h tt p s : // c r ea t i v e c o mm o n s . o rg / li c e n s e s / b y - nd / 4 . 0 / iii Declaração de integridade Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. iv Epígrafe “Divina é a natureza do mundo em que vivemos, com suas alegrias e seus sofrimentos.” Gottifried Wilhelm von Leibniz “Ser você mesmo é tudo o que você pode fazer” Audioslave v Dedicatória Dedico este trabalho aos meus pais por terem-me dado a vida, à minha avó fonte de toda doçura e paciência e a mim mesma por tudo aquilo que sou, por tudo aquilo que me tornei ao longo dos anos e por tudo aquilo que enfrentei. vi Agradecimentos vida. Sou grata primeiramente à Deusa Mãe e a Deus Pai. A mim mesma, aos meus pais, à minha avó materna e outros antepassados, pela graça da A toda a equipa da ATUPO, aos meus guias espirituais e familiares pelo suporte nos momentos de dificuldades, encorajamento e motivação. À Professora Doutora Regina Maria Oliveira Leite, minha orientadora, pela indispensável e sapiente orientação nos vários aspetos desta dissertação, pela amabilidade, paciência, disponibilidade, pela análise minuciosa, extremamente detalhada e crítica. Ao Professor Doutor Roque Rodrigues Antunes, por ter disponibilizado a versão em português da SISRI-24, pela disponibilidade, amabilidade, paciência, encorajamento, por acreditar no meu potencial como ser humano e profissional e pela indicação de bons livros e artigos. Ao Professor Doutor Ricardo Abreu, pelo valioso contributo científico e técnico, pela orientação especializada dos procedimentos estatísticos deste trabalho, pela paciência e pela inestimável ajuda e colaboração no processo de tratamento estatístico dos dados empíricos e indicação de bons materiais de estatística. À Dr.ª Melissa Matias Silva, pela solidariedade revelada e pelo apoio técnico na revisão e formatação desta dissertação. Aos meus 104 respondentes em Portugal pela oportunidade que proporcionaram de se disponibilizarem na participação da minha pesquisa, apesar do turbulento ambiente organizacional de que fazem parte, ao que sem eles seria inviável o desenvolvimento desta dissertação. Aos meus colegas, em especial, ao amigo de anos, Doutor Kaíque Dias Bento pelas dicas e materiais disponibilizados para o sucesso desta pesquisa. Aos autores das escalas originais, SISRI-24 e CD-RISC-10, por a terem disponibilizado para o meu estudo. Aos outros professores e autores que disponibilizaram algum artigo seu de revistas e jornais que estava fechado ao público. A todos vocês, sou eternamente grata! vii Resumo A presente pesquisa tem como propósito analisar a relação existente entre a inteligência espiritual e a resiliência emocional na gestão, duas temáticas que têm atraído a atenção de académicos e práticos nas organizações. Com vista à orientação desta investigação, formulou-se a seguinte questão: Qual a relação entre a inteligência espiritual (IE) e a resiliência emocional (RE) em gestores? Para responder à questão de investigação realizou-se um inquérito por questionário composto por duas escalas: uma de inteligência espiritual (Inventário de autoavaliação de inteligência espiritual – IAIE com 16 itens, versão portuguesa da escala SISRI-24) e outra de resiliência emocional (Connor and Davidson Resilience Scale with 10 itens – CD-RISC-10), além de um conjunto de variáveis sociodemográficas. Esta pesquisa contou com a participação de 104 gestores portugueses. Para analisar os dados foi utilizado o programa SPSS versão 26. As pontuações dos respondentes na escala IAIE e suas dimensões apontam para níveis médios de inteligência espiritual, o mesmo se verificando na escala de resiliência emocional. Os testes de comparação de médias revelam a existência de diferenças estatisticamente significativas nas escalas de inteligência espiritual e resiliência emocional em função de algumas variáveis demográficas e profissionais. No que concerne a relação entre a inteligência espiritual e a resiliência emocional na gestão, encontrou-se uma correlação positiva, embora baixa. Palavras-chave: Gestores; Inteligência Espiritual; Resiliência Emocional. viii Abstract This research aims to analyze the correlation between spiritual intelligence and emotional resilience in management, two subjects that.have attracted the attention of academics and practitioners in organizations. The following question was asked in order to guide this investigation: What is the relationship between spiritual intelligence (SI) and emotional resilience (ER) in managers? To answer the research question, a correlational study was carried out compouding two scales: the first is about spiritual intelligence (The Portuguese version of the Self-Assessment Inventory of Spiritual Intelligence – SISRI-24) and the other of emotional resilience (Connor and Davidson Resilience Scale with 10 items – CD-RISC-10), in addition to a set of sociodemographic variables. This survey was attended by 104 Portuguese managers. To analyse the data the SPSS version 26 was carried out. Respondents' scores on the IAIE scale and their dimensions point to average levels of spiritual intelligence, as do the emotional resilience scale. The means comparison tests reveal the existence of statistically significant differences in the scales of spiritual intelligence and emotional resilience due to some demographic and professional variables. Concerning the relationship between spiritual intelligence and emotional resilience in management, a positive, albeit low, correlation was found. Keywords: Managers; Spiritual Intelligence; Emotional Resilience. 15 compreensão mútua, o serviço caracterizado pela alegria, humor, entusiasmo, as relações de cooperação assentes numa lógica de «ganha-ganha». Conforme Amram (2007), inteligência espiritual pode ser definida como a capacidade de aplicar e usar recursos espirituais para promover um melhor funcionamento diário e de bem-estar das pessoas no seu dia-a-dia. Emmons (2000) acredita que as competências espirituais poderão ser adquiridas e desenvolvidas. Para King (2008), autor da escala de inteligência espiritual adotada nesta pesquisa, The Spiritual Intelligence Self-Report Inventory-24 (SISRI-24), a inteligência espiritual é o conjunto de capacidades mentais que contribuem para a consciência, integração e aplicação adaptativa dos aspetos não materiais e transcendentes da existência de um sujeito, levando a resultados como uma reflexão existencial profunda, aumento de significado, reconhecimento de um self transcendente e domínio de estados espirituais. Trata-se de uma escala multidimensional, que integra quatro dimensões denominadas pelo autor como Pensamento Existencial Crítico, Produção de Significado Pessoal, Conhecimento Transcendental e Expansão do Estado de Consciência. Para Fry et al. (2011), as organizações que não incorporarem a espiritualidade no local de trabalho fracassarão em fazer as mudanças para o paradigma da organização aprendente necessária ao sucesso no século XXI. Os gestores bem-sucedidos no século XXI serão líderes espiritualmente inteligentes, argumenta Cacciope (2000). Serão ainda mais bem-sucedidos do que outros gestores por desempenharem a sua função com paixão; e por isso, em momentos de decisões difíceis, possuirão força interior que os tornam mais eficientes e eficazes (Rego & Cunha, 2013). Segundo Branco (2017), quando os fatores externos faltam ao indivíduo para enfrentar dificuldades, resta-lhe acionar os fatores internos. A espiritualidade, que a inteligência espiritual operacionaliza, no sentido da construção de valores que tornem a vida coletiva mais humana e na busca de sentido, para o autor, é também um dos componentes constituintes da resiliência emocional que permite o enfrentamento das dificuldades existentes. A importância da resiliência emocional no ambiente de trabalho está no facto de gestores e colaboradores resilientes possuírem hábitos que auxiliam a suportar momentos de stress, além de ter um aumento na sua produtividade (Lloyd et al., 2016). Além disso, permite que as pessoas se sintam mais estimuladas e fortalecidas a serem mais empreendedoras, o que colabora com o crescimento da organização (Moraes, Resende & Leite, 2007). Para Connor e Davidson (2003), autor da escala de resiliência emocional utilizada nesta pesquisa, The Connor and Davidson Resilience Scale (CD-RISC) , a resiliência pode ser um meio importante para tratamento de reações de stress e ansiedade. Conforme 16 B a kk e r , R o d r í g u e z - M uñ o z e D e r k s ( 2012 ) , a r e s ili ê n c i a é um d o s o b j e t i v o s 1 i mp o r t a n t e s c a p a z e s d e explicar a variância em scores de engajamento no trabalho. Para os autores, a resiliência é um recurso pessoal capaz de facilitar este engajamento, capaz de ajudar a controlar e de ter um impacto sobre o sucesso no seu ambiente de trabalho, e de conquistar sucesso na carreira, ou seja, de realizar-se profissionalmente. A atitude de resiliência por parte de gestores e colaboradores permite que as empresas respondam com maior eficiência a períodos de recessão, e se adaptem positivamente diante de condições desafiadoras, aproveitando oportunidades e oferecendo melhoria de desempenho sustentável (Denyer, 2017). É, assim, essencial tanto para a sobrevivência da empresa, quanto para a saúde emocional, física e mental do colaborador no dia-a-dia (Bakker et al., 2012). Neste sentido, o bem-estar proveniente de uma boa gestão das emoções dos colaboradores é uma parte importante a ser considerada em qualquer organização (Bakker & Demerouti, 2008). Para Moraes, Resende e Leite (2007), enquanto gestores resilientes procuram várias saídas para as crises diárias da economia e dos mercados, os colaboradores resilientes procuram aprimorar os seus comportamentos para que sirvam de suporte aos gestores nas tomadas de decisões, sendo que a inteligência espiritual auxilia o indivíduo a lidar com questões de sentido e de valor (Silva, 2001). A relação entre a inteligência espiritual e a resiliência emocional, até onde se tenha conhecimento, tem sido estudada por investigadores de alguns países como no Irão (Dodman & Moradi, 2015; Hatami et al., 2019; Kesthegar & Jenaabadi, 2015; Partovi & Boland, 2016; Saboori & Mohammadi, 2017; Salmabadi et al., 2016; Sogolitappeh, 2018), no Paquistão (Khosravi & Nikmanesh, 2014) e na Índia (Sood & Bakhshi, 2013). Em Portugal, em especial no contexto de trabalho português, não foram encontradas, até o presente momento, investigações acerca das temáticas expostas tratadas de maneira conjunta. Assim, tendo em consideração a lacuna investigativa dos temas expostos, esta dissertação pretende dar um contributo para futuras pesquisas, suscitando novos questionamentos, debates e reflexões sobre a temática da resiliência emocional e da inteligência espiritual. Pretende-se, com isso, enriquecer o campo científico português das ciências sociais, conduzindo investigação sobre estas novas problemáticas no campo da gestão. Assim, a questão de partida que orientou esta investigação é: Qual a relação entre a inteligência espiritual (IE) e a resiliência emocional (RE) em profissionais com cargos de gestão de empresas? 1 Os outros fatores segundo Bakker et al. (2012) são: Otimismo, Autoeficácia, Autoestima e Enfrentamento. 17 Consequentemente, esta dissertação tem como objetivo geral: Analisar a relação entre a inteligência espiritual (IE) e a resiliência emocional (RE) em cargos de gestão de empresas. Os objetivos específicos são: • Identificar o nível geral de inteligência espiritual (IE) dos gestores, bem como os níveis em cada uma das principais dimensões; • Identificar o nível de resiliência emocional (RE) dos gestores; • Analisar eventuais diferenças nos níveis de inteligência espiritual e resiliência emocional motivadas por variáveis individuais e profissionais; • Avaliar o tipo de relação entre a escala geral de IE e RE, e entre as dimensões de IE e RE. Conforme referido, esta pesquisa visa analisar a relação entre a inteligência espiritual e a resiliência emocional em gestores empresariais portugueses, pelo que se optou por uma metodologia do tipo quantitativo, descritivo, comparativo e correlacional, atendendo às questões e objetivos definidos para o estudo. Este trabalho apresenta uma estrutura que se divide em duas partes. Na Parte I é apresentada a revisão e fundamentação teórica das variáveis envolvidas no estudo: a inteligência espiritual e a resiliência emocional. Esta revisão da literatura visa fornecer os quadros teóricos e fundamentos para o estudo empírico. Na Parte II, apresenta-se a investigação empírica na qual é abordada a metodologia usada no estudo, os dados empíricos e a sua análise e discussão. Primeiramente, é feita a Introdução que sistematiza os principais aspetos desta investigação, nomeadamente a temática e sua justificação, a questão de partida, os objetivos e contributos esperados. No Capítulo 1 é feita a revisão da literatura da variável inteligência espiritual. São analisados os principais estudos existentes sobre o conceito de inteligência e inteligência espiritual, diferença entre espiritualidade e religiosidade e escalas elaboradas para medir a inteligência espiritual. No Capítulo 2 analisa-se a outra variável do estudo, ou seja, a resiliência emocional. Começase com a definição da resiliência emocional, aborda-se a relação existente entre a resiliência emocional e o stress, o coping , as emoções positivas e a resiliência nas organizações e, por fim, são apresentadas as medidas de resiliência emocional. O Capítulo 3 apresenta a metodologia usada no estudo, nomeadamente os procedimentos investigativos, a amostragem, o instrumento de recolha de dados e as escalas escolhidas para utilização neste estudo, bem como o método de análise de dados. 18 No Capítulo 4 são apresentados e analisados os dados e resultados da investigação empírica, resultantes da aplicação do inquérito por questionário a gestores empresariais portugueses. Os resultados empíricos são discutidos à luz de outros estudos existentes na literatura. Este trabalho termina com o Capítulo 5, onde se apresenta a Conclusão, que sistematiza as diversas vertentes deste estudo. São ainda apresentadas as principais limitações do estudo e sugeridas algumas pistas para investigação futura. O trabalho termina com a lista final de referências bibliográficas usadas na presente dissertação. Tem também alguns Apêndices e Anexos que possibilitam a melhor compreensão do percurso seguido nesta pesquisa. 19 Parte I – Enquadramento Teórico 20 Capítulo 1 – Inteligência Espiritual 21 1.1 Inteligência: definição geral Embora este capítulo seja dedicado à problemática da inteligência espiritual, começamos por definir o conceito de inteligência, para uma melhor compreensão daquela. O conceito de inteligência tem sido amplamente estudado há muitas décadas, e existem diversas teorias e estudos que procuram elucidar o que é inteligência e como ela se caracteriza em seres humanos (Sousa & Salgado, 2015). O seu conceito e significado têm gerado grande controvérsia, continuando ainda no presente a não ser consensual entre os investigadores (Sternberg, 2005). Na língua portuguesa, o termo inteligência define-se como: “a faculdade de conhecer, compreender e aprender” (Houaiss, 2001, p. 1630). É igualmente entendida como informação de alto nível, p r o c e ss a d a e e x p l o r a d a 2 . O c o n c e i t o a p a r e c e a i nd a r e l a c i o n a d o c o m a a p t i d ão d e c o mp r ee nd e r e resolver novos problemas e conflitos, bem como a capacidade de se adequar a novas situações (Houaiss, 2009). A inteligência é estudada há muitos anos por diversos campos da ciência. Seja do ponto de vista biológico, filosófico ou cognitivo (Teixeira, Ghedin & Correia, 2009). Antunes (2016, 2019), sistematizando as diferentes perspectivas de vários autores, propõe a seguinte caracterização de inteligência: “capacidade de resolução de problemas práticos e abstratos que nos permite compreender com a experiência e efetuar uma adaptação ao meio bem-sucedida, enfrentando de modo eficaz os desafios que este apresenta” (Antunes, 2016, p. 84). 1.2 Inteligência espiritual e outros conceitos próximos Gostaríamos de começar por abordar dois conceitos nem sempre convenientemente clarificados quando abordamos a problemática da inteligência espiritual: espiritualidade e religiosidade que, por serem constructos com algumas semelhanças, são por vezes confundidos. 1.2.1 Espiritualidade e religiosidade Espiritualidade advém de espírito e esta palavra espírito deriva do latim “ spiritus ”, que significa o que dá vida, sopro ou alento de vida, àquilo que dá vitalidade ao sistema (Sousa, 1992; Zohar, 1997). A espiritualidade, por conseguinte, é o ato do espírito (Zohar, 1997). Sob a visão filosófica de Foucault (2006, p.19-21), a espiritualidade traduz o conjunto de buscas, práticas e experiências tais como as purificações, as asceses, as renúncias, as conversões do olhar, as 2 I n t e llig en c e i s h ig h - l e v e l , p r o c e ss ed , e x p l o i t a b l e I n f o r m a t i on . h tt p : // www . i n s t i t u t e - f o r - c o mp e t i t i v e i n t e llig en c e . c o m / do w n l oad / I n t e llig en c e % 20 G l o ss a r y % 20_U S _ . p d f. C on s u l t ado e m 09 de s e t e mb r o de 2019 22 modificações de existência, entre outros; que constituem não para o conhecimento, mas para o sujeito, o preço a pagar para se ter acesso à verdade. Ainda conforme (Foucault, 2006, p. 21): “há a necessidade de que o sujeito se torne em certa medida e até certo ponto, outro que não ele mesmo, para ter direito ao acesso à verdade”. Mitroff e Denton (1999) acreditam que a espiritualidade pode ser definida como o desejo de encontrar um propósito final para a vida, e viver em conformidade com esse propósito. Cavanagh e Bandsuch (2002) complementam inferindo que a espiritualidade é aquilo que fornece o sentido para o indivíduo e o mundo em que ele vive. É o processo de movimentação de poderosas forças universais que jazem no íntimo do ser humano em direção ao mundo exterior. É estar engajado em algo maior do que nós, estar e trabalhar com o que nos preocupamos, sendo esse um constructo vital (Vasconcelos, 2007). Para Solomon (2003), a espiritualidade é uma noção de nós estarmos identificados com outras pessoas e com o mundo. Ela implica a busca de significado para a vida, de forma a ligar o ser humano com o seu “eu” e com os outros, oferecendo um sentido de conexão, descobrimento e propósito pessoal (Bruce, 2000). Dessa maneira, espiritualidade simboliza a busca do ser humano por significado, profundidade e valores, descrevendo como uma pessoa se transcende, orientando as suas ações em direção aos outros, a si próprio, ao seu ser, aos seus valores e práticas fundamentais (Albertini, 2012; Antunes, 2016, 2019; Tomlinson, Glenn, Paine & Sandage, 2016). King et al. (2012) afirmam que a espiritualidade envolve o sentido de uma pessoa, de um relacionamento ou a conexão com um certo poder ou força no universo que vai além do contexto atual da realidade. No contexto do trabalho, a espiritualidade implica em externar plenamente todo o arsenal de virtudes e qualidades intelectuais que já possuímos com vistas à construção de experiências mais enriquecedoras e realizadoras para nós e para os que nos cercam ou dependem do nosso esforço. (Vasconcelos, 2007, p. 17) Ashmos e Duchon (2000) analisados a partir de Rotili et al. (2017) compartilham desta mesma visão, referindo a espiritualidade não como uma crença religiosa, porém como a busca de propósito e significado para a atividade do indivíduo, bem como experimentar uma conexão com o outro e com a sua comunidade. Ainda conforme Ashmos e Duchon (2000), a espiritualidade no trabalho traduz o “reconhecimento que os empregados têm de uma vida interior que alimenta e é alimentada pelo trabalho com significado o qual ocorre em um contexto de comunidade (Ashmos & Duchon, 2000, p. 137)”. 23 Para Rego, Souto e Cunha (2007), a quantidade de informações que relacionam o comportamento organizacional positivo com a espiritualidade no local de trabalho é escassa. Dias (2004) complementa dizendo que a espiritualidade em toda a organização é um desafio para a gestão em relação às pessoas no presente século, para o ambiente organizacional e para a administração estratégica. A religião, por outro lado, é um sistema de crenças, rituais e símbolos organizados na busca de aproximar ao sagrado (Moreira-Almeida, Neto & Koenig, 2006; Rotili et al., 2017). A própria raiz da palavra parece indicar para o facto da palavra religião ter surgido do latim religare , que significa religar, “unir”, “atar”, neste caso, o ser humano a um ser divino, sobrenatural (Araújo et al., 2008; Dicionário Etimológico, 2018; Pais-Ribeiro & Pombeiro, 2004; Sousa, 1992). Assim como a espiritualidade, também fornece um sentido de conexão, descobrimento e propósito pessoal, sendo que a religião se serve de espaços sagrados, preces e/ou orações, mantras, cerimónias de cultos, entre outras práticas (Araújo et al., 2008). Partilham dessa opinião também Bierly, Kessler e Christensen (2000), referindo a religião como um conjunto de princípios e crenças específicas baseada em textos considerados sagrados que reúnem os seus seguidores em centros específicos, como igrejas ou templos para consecução desta fé, constituindo deste modo um sistema organizado de rituais e cerimónias. Ainda conforme os autores, a espiritualidade possui uma natureza moral e emocional que envolve um entendimento e apreciação da posição da pessoa no universo, da sua alma e de tudo relativo ao conceito de Deus. Segundo Kale (2004), a pessoa que vive a sua vida na perspetiva da espiritualidade o faz independente de qualquer tipo de religião; enquanto que a religiosidade praticada por determinada pessoa é apenas uma forma de nutrir, compreender e explicar a espiritualidade na ótica da crença num Ser Superior. Pode-se notar essa mesma visão em Gutz e Camargo (2013) e em P. Sharma, Charak e V. Sharma (2009) que definem a espiritualidade como não dependente de sistemas religiosos, por estar mais voltada para o espaço interno do sujeito – notar que estes últimos conceitos são contrariamente ao apresentado por Focault, onde a definição de espiritualidade é igual a definição de religiosidade para Kale (2004); Gutz e Camargo (2013). 1.2.2 Inteligência espiritual (IE) A inteligência espiritual ou coeficiente espiritual (do Inglês, Spiritual Quotient ou SQ) apareceu pela primeira vez com a conceção de inteligência existencial, nos estudos do psicólogo cognitivo e educacional Howard Gardner em meados do século XX. Gardner não tinha o intuito de criar um novo tipo de inteligência. O mesmo divulgou seu primeiro livro sobre a teoria das inteligências em 1983, 24 intitulado “Estruturas da Mente”. A sua teoria sobre as inteligências considera que o ser humano possui múltiplas inteligências e não apenas a inteligência racional como se pensava nos séculos anteriores. A sua primeira obra contém a descrição de 7 dimensões da inteligência que estão descritas abaixo, no Quadro 1. Quadro 1. Teoria das Múltiplas Inteligências de Howard Gardner Lógico-matemática É a capacidade de realizar operações numéricas e de fazer deduções. Linguística É a habilidade de aprender idiomas e de usar a fala e a escrita para atingir objetivos. Espacial É a disposição para reconhecer e manipular situações que envolvam apreensões visuais. Físico-cinestésica É o potencial para usar o corpo com o fim de resolver problemas ou fabricar produtos. Interpessoal É a capacidade de entender as intenções e os desejos dos outros e consequentemente de se relacionar bem em sociedade. Intrapessoal É a inclinação para se conhecer e usar o entendimento de si mesmo para alcançar certos fins. Musical É a aptidão para tocar, apreciar e compor padrões musicais. Fonte : Gardner (1983) Entretanto, foi somente em 1995 que o mesmo incluiu a existência de mais dois tipos de i n t e li g ê n c i a : A i n t e li g ê n c i a n a t u r a l 3 e a i n t e li g ê n c i a e x i s t e n c i a l . O c o n c e i t o d e i n t e li g ê n c i a e x i s t e n c i a l trazido pela primeira vez por Gardner como a capacidade de o indivíduo refletir sobre questões fundamentais da vida (Gardner, 1995) é o primeiro a relatar sobre a Inteligência Espiritual da maneira como se conhece atualmente, tendo dado margens para que outros investigadores pudessem aprofundar este novo tipo de inteligência. O autor considera, todavia, na sua teoria que cada ser humano possui alguns desses nove tipos de inteligência mais desenvolvidos do que outros. Desta maneira, a inteligência existencial pode ser mais desenvolvida em alguns indivíduos do que em outros. Alguém que possua um alto nível de coeficiente racional, por exemplo, pode não necessariamente ter um alto coeficiente existencial e isso é perfeitamente aceitável e entendido se se considerar que cada indivíduo desenvolve talentos diferentes. Apesar de Gardner ter apresentado o conceito sobre inteligência existencial, o mesmo não considera a espiritualidade um tipo de inteligência. Não obstante, é através dos estudos de Gardner (1995) que Robert Emmons, professor e neuropsicólogo da Universidade da Califórnia, publicou seu livro em 1999 intitulado: “A psicologia da preocupação última: motivações e espiritualidade na personalidade”. O livro de Robert Emmons é o primeiro a explorar a espiritualidade como um tipo novo de inteligência e tornou-se um “divisor de 3 É a capacidade para reconhecer e classificar espécies da natureza (Gardner, 1995). 31 Apesar da consideração das autoras sobre a adversidade como algo que pode variar de um indivíduo para o outro, deve-se levar em consideração que existe uma parcela de eventos consideráveis que podem ser considerados universalmente traumáticos, de risco ou adversos, mesmo que haja exceções à regra. Deve ser levado em consideração o impacto de uma guerra na vida daqueles que a vivenciaram, o impacto de um abuso físico, psicológico ou emocional, de uma perda de um ente querido, entre outros (Brandão & Nascimento, 2019). Masten e Garmezy (1990) distinguem o fenómeno da resiliência em 3 grupos: (1) aqueles que mostram melhores resultados do que o esperado quando em situações de risco; (2) aqueles que apresentam a manutenção de uma positiva adaptação apesar da ocorrência de eventos stressantes; (3) e por fim, aqueles que são bons em se recuperarem de traumas. A psicologia e a psiquiatria têm desenvolvido alguns estudos iniciais sobre resiliência em crianças com algum tipo de patologia e esquizofrenia (Garmezy 1974, 1984, 1985) ou mesmo com fatores de risco (Luthar, 2006). Na área de gestão existem estudos recentes desenvolvidos sobre a resiliência emocional no ambiente de trabalho (Branco, 2017; Denyer, 2017; Lloyd et al., 2016; Loiola, 2015; Park et al., 2013). Para Connor e Davidson (2003), a resiliência pode ser vista como uma medida da capacidade para lidar com o stress e, como tal, pode ser um alvo importante no tratamento da ansiedade, depressão e reações ao stress. Antunes (2016) define a resiliência como sendo a capacidade de uma pessoa ou de um grupo de pessoas se levantar e seguir em frente com sucesso na vida apesar de sofrer experiências traumáticas, dificuldades ou doenças graves. Esta forma de definir resiliência assemelha-se à de outros autores (Luthar 2006; Poletto & Koller, 2008; Rooke & Pereira-Silva, 2012; Rutter, 1985) quando se referem à faculdade de uma pessoa de passar por uma situação adversa conseguindo superá-la e sair daí fortalecida. Trindade (2011) vai mais além no que se refere ao conceito de resiliência e diz ser esta a capacidade que um indivíduo tem de administrar de maneira tática/estratégica as suas emoções a fim de enfrentar obstáculos e dificuldades. Segundo a autora, a resiliência é um componente importante i n e r e n t e à i n t e li g ê n c i a e m o c i o n a l 5 . Podemos considerar que a inteligência emocional está intimamente ligada às bases neurológicas e, consequentemente relacionada com a dimensão cognitiva do sujeito. Assim, quanto mais elevado for o nível de inteligência emocional no indivíduo, mais 5 A inteligência emocional, conforme (Goleman, 1995), é a forma como as pessoas reconhecem e avaliam seus próprios sentimentos e o dos outros, além disso, é a forma como as pessoas lidam com esses sentimentos próprios e dos outros, nas mais diversas situações. 32 facilidade o mesmo terá na elaboração das suas tomadas de decisão e, portanto, mais facilmente possuirá comportamentos resilientes. (Trindade, 2011, p. 62) 2.2 Resiliência, stress, coping e emoções positivas Segundo Branco (2017), não é possível estudar o conceito de resiliência sem estudar o conceito de stress. Nesta linha, Margis et al. (2003, p. 65) definem o stress como: o estado gerado pela perceção de estímulos que provocam excitação emocional e, ao perturbarem a homeostasia, disparam um processo de adaptação caracterizado, entre outras alterações, pelo aumento de secreção de adrenalina produzindo diversas manifestações sistémicas, com distúrbios fisiológico e psicológico. Para Taboada, Legal e Machado (2006), o stress de um modo geral não encerra em si atributos de valor (positivo ou negativo), a menos que algo específico tenha gerado uma situação distinta. Um certo nível de stress pode ser saudável, se estimula e prepara a pessoa para as respostas do dia-a-dia, desde que não seja por muito tempo, ao que pode gerar um efeito reverso de esgotamento e desgaste (Branco, 2017). Ainda nesta linha, Branco (2017) crê que a relação estabelecida entre o indivíduo e o evento é o que irá determinar se o stress é saudável ou não. Entretanto, para o autor, no que se refere a resiliência emocional, o stress é normalmente visto numa perspetiva negativa e patológica. Já relativo ao coping , para Busnello, Schaefer e Kristensen (2009), as estratégias de coping são uma das variáveis que contribuem para uma maior resiliência, que correspondem a esforços empreendidos pelo indivíduo na tentativa de lidar com situações percebidas como stressoras. Estas ideias estão na linha de pensamento de Machado (2010). Assim, as estratégias de coping funcionam como um pré-requisito primordial para uma adaptação com sucesso, enquanto variáveis mediadoras dos efeitos do stress (Lima, Lemos & Guerra, 2002). É considerado ainda, como um conjunto de esforços despendidos pelo indivíduo para fazer face a situações stressantes, crónicas ou agudas (Moreira, 2012). O coping engloba todo o conjunto de estratégias utilizadas pelo mesmo no sentido de se adaptar a circunstâncias adversas (Antoniazzi, Dell’Aglio & Bandeira, 1998). Relativamente às emoções positivas, os benefícios das emoções positivas de uma maneira geral receberam muita atenção nos últimos anos (Bonnano & Diminish, 2013). Segundo Antunes (2016), as emoções positivas são um importante campo da psicologia positiva sendo parte essencial de um elemento significativo para o bom funcionamento dos níveis psicológico e social do bem-estar. 33 Para Fredrickson (2013), as emoções positivas protegem-nos do stress negativo e elevam as nossas capacidades de pensar e agir diante das situações difíceis com as quais somos confrontados. Ainda segundo esta investigadora de renome mundial, as emoções positivas têm relação com a resiliência por aumentar a capacidade humana de resistência e resiliência frente aos acontecimentos diários. 2.3 Resiliência nas organizações Tavares (2002) considera que as organizações mais democráticas, eficazes e persistentes são aquelas cujos gestores e colaboradores têm níveis elevados de resiliência emocional, sendo assim mais bem capacitados a responder aos novos desafios da atualidade. A resiliência emocional é a senha para uma vida agradável e para o sucesso no trabalho (Reivich & Shatté, 2002). Para os autores, todas as pessoas são capazes de ter um nível de resiliência elevada, desde que modifiquem a maneira como pensam sobre as dificuldades da vida e desenvolvam comportamentos e atitudes de resiliência. Luthans e Youssef (2007) veem a resiliência dentro das organizações como sendo uma atitude proativa no sentido que as adversidades sejam vistas como oportunidades de aprendizagem, crescimento e desenvolvimento. Para Hamel e Välikangas (citado em Branco, 2017, p. 36), as organizações de hoje procuram profissionais de alta performance “que prosperem no caos, que apreendam pró-ativamente, que cresçam através das adversidades e que progridam quaisquer que sejam as contrariedades”. Neste contexto, para Branco (2017), as adversidades podem contribuir para dar sentido à vida e levar a designar objetivos e prioridades de grande relevância no contexto organizacional. Para Teixeira e Santana (2015), líderes e gerentes resilientes são também pessoas automotivadas na medida que desenvolvem habilidades de controlo das emoções e uma boa relação com todos os membros da organização, desde a presidência até a linha de frente, pois incorporam a indispensabilidade de ser um modelo e inspirar confiança nos demais. A resiliência destes líderes e gestores gera nos seus subordinados um alto desempenho nas atividades quotidianas, com elevados índices de satisfação no trabalho e comprometimento organizacional (Tedeschi, Park & Calhoun, 1998). Há que considerar ainda os fatores de risco – ameaça a adaptação positiva (Barlach, 2005) – e proteção – àquilo que opera como “amortecedores” entre o indivíduo e os fatores de risco relativos ao bem-estar e desenvolvimento da pessoa (Barlach, 2005). Job (2003) define os fatores de risco 34 como tensões provenientes de profusos acontecimentos stressantes ou de tensões reunidas mediante uma variedade de outras causas. Os fatores de riscos capazes de originar sofrimento no ambiente de trabalho mais enfatizados pelo autor podem ser vistos no Quadro 3 abaixo: Quadro 3. Fatores de Riscos Capazes de Originar Sofrimento no Ambiente de Trabalho 1. Pressão sentida pelos indivíduos nas suas atividades 2. Sobrecarga de responsabilidade que possuem 3. Negação da realidade 4. Não aceitação dos próprios lapsos 5. Ausência de tempo para estar com a família 6. Ausência de apoio por parte dos colegas de trabalho e por parte dos gestores 7. Ausência de reconhecimento pelo trabalho desempenhado 8. Frustração pela imprevisibilidade do tempo futuro 9. Pouca liberdade de criação 10. Falta de autonomia no desempenho das atividades 11. Medo de perder o emprego 12. Assédio moral 13. Obrigação de ter de efetuar cortes no quadro de trabalhadores. Fonte : Job (2003) Já no tocante aos fatores de proteção, o autor define como redutores das influências negativas de se aceitar o risco e buscar formas adaptativas e criativas de enfrentar uma dificuldade. O mesmo cita como fatores de proteção a um colaborador dentro do contexto de trabalho adverso: a autonomia, a autoestima, o respeito, o reconhecimento, a participação da família e dos amigos e o apoio dos pares e das chefias. Para Coutu (2002), as pessoas que possuem capacidade de resiliência dentro das organizações têm ainda como fatores de proteção: a) a capacidade de aceitar e enfrentar a realidade como ela se apresenta. Ou seja, o gestor e o colaborador resilientes são aqueles que veem as coisas de maneira realística. Nem de modo pessimista, nem de modo demasiado otimista. Eles preparam-se para a situação sem nutrirem expetativas irreais com consequências nefastas, aguardando o momento em que elas ocorrerem, sabendo que medidas adequadas tomar. Concordam com este ponto de vista Teixeira e Santana (2015) complementando que o gestor resiliente, por ser acima de tudo realista, inspira a confiança de todos os seus liderados. O gestor resiliente é encorajador quando precisa ser; sabe que a vitória depende da diferença que cada colaborador tem e pode pôr ao serviço da organização e ao serviço de si próprio; e é sincero, ao controlar o empolgamento quando as coisas não estão saindo como gostaria. b) um propósito para a vida. A vida tem um significado. Profissionais resilientes conseguem buscar constantemente por esse propósito de vida. Realizam reflexões sobre o seu sofrimento a fim de criar 35 um significado para si e para os que estão a sua volta. O fato de criar um significado para àquilo que estão a enfrentar naquele momento o aptam de forças para suportar os acontecimentos imprevisíveis da vida. c) uma capacidade natural para o improviso. Profissionais resilientes são capazes de se redescobrir, reinventar, de usar as suas habilidades e potencialidades para criar. A habilidade para improvisar dotao de capacidade para transpor períodos de maiores dificuldades. 2.4 Medidas de avaliação de resiliência emocional As medidas existentes para aferir a resiliência emocional (RE) requerem que se leve em consideração diferentes aspetos. Enquanto uns defendem a existência de escalas relevantes para o tipo de estudos em causa, outros, como Hoge, Austin e Pollack (2007), acreditam que apesar do grande número de escalas existentes para aferir a resiliência emocional (RE), existe pouco consenso em relação a qual delas melhor capta e quantifica aquilo que se compreende por resiliência. Para Reppold (2012), as escalas existentes de RE omitem alguns aspectos relevantes para caracterizar adequadamente a resiliência emocional. Por esta razão, em alguns dos estudos há a utilização de escalas para avaliar outros critérios que podem fazer parte de forma direta ou indireta da resiliência. Um exemplo pode ser visto na utilização das escalas de Perceção de Stresse, de Bem-Estar Subjetivo, de Qualidade de Vida e tantas outras a depender do tipo de público e finalidade pretendida. Para Infurna e Luthar (2016, 2017), os inquiridos deviam ser avaliados por mais do que um critério (escala) como ter enfrentado dificuldades ou por satisfação de vida, de modo a evitar resultados superestimados ou distorcidos. Os autores acreditam que para se averiguar melhor a resiliência deveria haver mais de um critério, como analisar o stresse, o bem-estar, ver o momento de vida que a pessoa está passando, a fim de evitar que haja um enviesamento da análise. Para eles, existem outros aspetos a serem considerados e qualquer escala sozinha de resiliência irá medir apenas uma parte da resiliência, porém não a resiliência como um todo. Connor e Davidson (2003) são do mesmo parecer. No primeiro artigo publicado sobre a CD-RISC argumentam que a escala consegue captar alguns aspetos da resiliência emocional, mas não todos. Para Infurna e Jayawickreme (2019), avaliar a resiliência, por exemplo, com uma escala unidimensional poderá conduzir a resultados que não contemplem diversos aspetos constituintes da resiliência. Para estes autores a resiliência é um constructo multidimensional e como tal será mais bem avaliado com uma escala que inclua o maior número de itens que contemplem os diversos aspetos da resiliência. Assim, baseados em pesquisas recentes de Infurna e Luthar (2017) sobre a 36 trajetória da perda conjugal, estes referem existir divergências nos resultados em 5 dimensões diferentes e que por isso a resiliência não pode ser considerada um constructo unidimensional. São estas dimensões: satisfação com a vida; afeto negativo; afeto positivo; saúde geral e funcionamento físico. Somente após estas cinco dimensões serem contabilizadas puderam encontrar uma resposta positiva ou negativa para a resiliência. Os instrumentos de avaliação da resiliência emocional (RE) existem para os mais diversos fins. São normalmente utilizados em pesquisas científicas na área da psicologia (Bonnano & Diminich, 2013; Moreira, 2012) e psiquiatria (Campbell-Sills. Forde & Stein, 2009; Connor & Davidson, 2003). As escalas usadas para medir o constructo de resiliência variam no número de itens, havendo escalas com 33 itens (Escala de Resiliência para Adultos – ERA), 25 itens (CD-RISC-25) ou até mesmo 2 itens (CD-RISC-2). Tem-se procurado buscar uma escala que corresponda inteiramente aos interesses das pessoas que respondem e normalmente possuem pouco tempo para responder a estes estudos e aos interesses dos investigadores tendo em vista recolher o máximo de informações fiáveis. 37 Parte II – Investigação Empírica 38 Capítulo 3 – Metodologia 39 3.1 Tipo de estudo A pesquisa em questão é de cariz quantitativo e correlacional transversal. Para Collis e Hussey (2005), uma das finalidades da investigação quantitativa poderá ser estabelecer correlações entre variáveis, mensurando fenómenos. Esta envolve a coleta, análise de dados e aplicação de testes. A pesquisa quantitativa lida com fatos; o evento é bem delimitado e mensurável (Martins & Bicudo, 2003). O estudo correlacional visa avaliar a relação entre duas ou mais variáveis e saber como uma variável se comporta conhecendo o comportamento de outra variável. A sua importância está em compreender eventos complexos e construir uma teoria acerca de um fenómeno comportamental (Martella, Nelson & Marchand-Martella, 1999). No estudo correlacional, quando duas variáveis se encontram relacionadas, diz-se que há correlação (Arnal, Rincón & Latorre, 1992). Para Fortin, Côté e Filion (2009), a correlação que é medida pode ser positiva, negativa ou neutra, variando de +1,00 (correlação positiva perfeita) a -1,00 (correlação negativa perfeita). Neste estudo, as variáveis apresentadas são inteligência espiritual e resiliência emocional. O coeficiente utilizado nesta pesquisa é o coeficiente de Spearman. No estudo transversal, a frequência de aparição de um acontecimento ou problema é medido num dado momento; ao contrário do estudo longitudinal onde se recolhe dados de forma periódica junto aos mesmos grupos (Fortin et al., 2009). 3.2 Amostragem Pode-se no âmbito da investigação científica optar tanto pelo universo total da pesquisa ou por uma parte (amostra) que pode ser ou não representativa dos indivíduos do universo a que se refere o estudo. Nem sempre há possibilidade de pesquisar todos os indivíduos do grupo ou da comunidade que se deseja estudar, devido à escassez de recursos ou à falta de tempo. Nesse caso, utiliza-se o método da amostragem que consiste em obter um juízo sobre o total (universo) mediante a compilação e exame de apenas uma parte, a amostra, com base em procedimentos científicos (Marconi & Lakatos, 2009). Assim, tem-se que a amostra é uma parcela do universo (população), ou seja, é um subconjunto do universo estudado (Marconi & Lakatos, 2009). Para Kauark (2010), a amostra pode ser de dois tipos: probabilística e não-probabilística. Vamos nos deter na amostra não-probabilística, que foi a escolhida para esta pesquisa. Segundo o autor, na amostra não-probabilística a probabilidade de um determinado elemento pertencer à amostra não é igual à dos restantes elementos. As amostras não-probabilísticas podem ser: i. acidentais (com pessoas que vão aparecendo, compostas por acaso); ii. por quota (onde existem diversos elementos constantes da população/universo, elementos na mesma proporção) ou iii. racional (quando o 40 investigador escolhe casos para a amostra que para ele signifique o “bom julgamento” da população/universo). Há ainda a amostra não probabilística por redes «snow ball» que, segundo Fortin et. al (2009), é um tipo de amostra intencional, em que o investigador pede a cada indivíduo que envie os questionários para outros indivíduos, sendo utilizada para a inclusão na amostra de uma população pouco acessível ao pesquisador. Nesta pesquisa, a amostra adoptada é não-probabilística do tipo snow ball , pela facilidade de propagação do questionário, diante da dificuldade encontrada para aceder o público alvo e ainda mais em aceder uma amostra considerável de indivíduos para o estudo. Assim, o questionário foi aplicado on-line mediante link do google forms para contactos da autora gestores e de contactos não-gestores que pudessem ter conhecimentos de gestores. Também foi solicitado aos contactos diretos para que seus contactos divulgassem o link do questionário a outros gestores caso possuíssem conhecimento, e que este questionário fosse respondido apenas uma única vez, a fim de cumprir os pré-requisitos desta pesquisa. 3.3 Participantes do estudo Os participantes deste estudo foram gestores portugueses de diferentes ramos e sectores (indústria, serviços/comércio, dos sectores privado e público). A decisão de optar por essa população é devida à importância da gestão na organização e à influência dos gestores sobre os trabalhadores e sobre o impacto causado nas suas equipas, organizações, e nos respetivos sectores de atividade de uma maneira geral. 3.4 Método de recolha de dados Como método de recolha de dados foi criado um questionário composto por escalas da literatura da especialidade para medir os constructos de inteligência espiritual e resiliência emocional. Para Marconi e Lakatos (2009), o questionário é um instrumento de coleta de dados, constituído por uma série ordenada de perguntas/questões, respondidas sem a presença do investigador. Optou-se por este método pela possibilidade de conhecer melhor os respondentes, em um curto intervalo de tempo e abrangendo uma área geográfica mais variada e mais ampla. Para Fortin et al. (2009), as escalas são definidas como medidas de autoavaliação, constituídas por vários enunciados ou itens, lógica e empiricamente ligados entre si e que são destinados a medir um conceito ou uma característica do indivíduo. No caso do nosso estudo, as escalas de inteligência espiritual e de resiliência emocional são os instrumentos mais utilizados e fiáveis para medir as duas variáveis e já foram utilizadas em muitos outros estudos ao redor do mundo. 47 Quando inquiridos acerca da religiosidade (Quadro 6), 59 gestores (56,70%) declaram possuir algum tipo de religião e são praticantes, 20 indivíduos (19,20%) dos gestores declaram possuir religião, mas não praticá-la, 6 (5,80%) revelam não possuir religião e 19 (18,30%) indivíduos afirmam possuir outras crenças de vida. Quadro 6. Religiosidade (n= 104). Variável n (%) Religiosidade Possui religião / pratica 59 (56,70%) Possui religião / não pratica 20 (19,20%) Não possui religião 6 (5,80%) Possui outras crenças de vida 19 (18,30%) 4.2 Apresentação, análise e discussão dos resultados Os dados recolhidos junto dos gestores portugueses foram alvo de um conjunto de procedimentos estatísticos para atingir os objetivos (geral e específicos) definidos. Relembrando, o objetivo geral consiste em perceber qual a relação entre a IE e a RE. Os objetivos específicos são: • Identificar o nível geral de inteligência espiritual (IE) dos gestores, bem como os níveis em cada uma das principais dimensões; • Identificar o nível de resiliência emocional (RE) dos gestores; • Analisar eventuais diferenças nos níveis de IE e RE motivadas por variáveis individuais e profissionais; • Avaliar o tipo de relação entre a escala geral de IE e RE, e entre as dimensões de IE e RE. Depois de computados os valores médios das escalas globais e das dimensões no caso da escala de IE, procedeu-se à análise dos níveis de confiabilidade mediante o Alfa de Cronbach. Depois procedeu-se à avaliação da normalidade dos dados. Na etapa seguinte, estes foram tratados por meio de estatística descritiva. Na última etapa, foi utilizado o teste de Spearman para avaliar a existência de correlações entre as medidas globais de IE e RE e as dimensões de IE e RE. 48 4.2.1 Análise de consistência interna Avaliou-se a fidelidade do instrumento, pela análise de consistência interna às escalas e dimensões, através do método alfa de Cronbach e buscou-se comparar os resultados com os encontrados nos estudos realizados pelos autores que desenvolveram ou usaram aquelas medidas. Referente a escala de inteligência espiritual, a análise de confiabilidade da escala global demonstrou Alfa de Cronbach igual a 0,94. Concernente a dimensão Pensamento Existencial Crítico (PEC) obteve-se um resultado de alfa= 0,87. No estudo de Antunes (2016, 2018), a mesma dimensão obteve um Alfa de Cronbach igual a 0,84. Relativamente a dimensão Produção de Significado Pessoal (PSP), obteve-se um alfa= 0,88, enquanto que no estudo de Antunes (2016, 2018) o valor foi ligeiramente inferior (alfa= 0,84). Na dimensão Expansão do Estado de Consciência (EEC) da escala de IE, obteve-se alfa= 0,89, enquanto que na análise realizada por Antunes (2016, 2018) o coeficiente de alfa= 0,86. Os resultados revelam uma elevada consistência interna da escala de inteligência espiritual e dimensões, conforme pode ser visto no Quadro 7. Quadro 7. Estatística de Confiabilidade da Escala Total e Dimensões de Inteligência Espiritual Fatores Alfa de Cronbach Nº de itens Dimensão PEC 0,867 6 Dimensão PSP 0,878 5 Dimensão EEC 0,888 5 Escala Total de IE 0,940 16 PEC – Pensamento Existencial Crítico; PSP – Produção de Significado Pessoal; EEC – Expansão do Estado de Consciência. No que se refere a escala de resiliência emocional, obtivemos coeficiente de alfa= 0,89 (Quadro 8), enquanto que no estudo original desenvolvido pelos autores Campbell-Sills e Stein (2007) encontrou-se um Alfa de Cronbach de valor igual a 0,85, sendo de boa propriedade psicométrica. Relembra-se que a escala usada no presente estudo é uma versão portuguesa com permissão de uso pelos autores, visto a escala CD-RISC-10, na altura em que se procedeu à recolha de dados, não ter sido traduzida e validada para o contexto português. A pesquisa mais próxima encontrada na época de utilização desta escala é a validada por Lopes e Martins (2011) para o português (Brasil), aplicada a população brasileira, onde se encontrou um Alfa Cronbach de 0,82. Muito recentemente, no presente ano de 2020, foi publicado um estudo de validação da CD-RISC-10 para a população portuguesa (Almeida et al., 2020). 49 Quadro 8. Estatística de Confiabilidade da Escala de Resiliência Emocional Alfa de Cronbach Nº de itens CD-RISC 0,886 10 CD-RISC: Connor and Davidson Resilience Scale 4.2.2 Avaliação da normalidade dos dados Para avaliar a normalidade dos dados, foi utilizado o teste de Kolmogorov-Smirnov, visto a quantidade de respondentes ser superior a 100 (Marôco, 2018). Encontrou-se valor de significância de 0,00, tanto para a escala de inteligência espiritual, quanto para a escala de resiliência emocional. Assim, rejeita-se a hipótese nula de que as escalas possuem distribuição normal (p≥0,05). 4.2.3 Estatísticas descritivas das escalas de inteligência espiritual e resiliência emocional Para responder aos objetivos específicos, os dados foram submetidos a análise descritiva para analisar os níveis de IE e suas dimensões (objetivo específico 1), os níveis de RE (objetivo específico 2), bem como eventuais diferenças decorrentes de variáveis individuais e profissionais (objetivo específico 3). A média global observada para a escala IAIE foi de 42,26 pontos (DP= 12,85; EP= 1,26), variando entre 13,00 e 64,00. A mediana foi de 42,50, sendo que 75% dos participantes obteve 52,75 pontos e 25% obteve 33,50 pontos. Podemos com isso inferir que, de acordo com a tabela de pontuações do IAIE-16, a maior parte dos gestores possuem um nível de inteligência espiritual médio (entre 33 e 45 pontos). No estudo de Antunes (2016) os seus respondentes também apresentam um nível de inteligência espiritual médio, onde o valor global observado para o IAIE foi de 37,55 pontos, variando entre 6 e 64 pontos. A média para a dimensão PEC foi de 15,90 pontos (DP= 5,418; EP= 0,531), variando entre 3 e 24 pontos. A mediana foi de 16,00 (Q1= 12,00; Q3= 21,00). No estudo de Antunes (2016) os respondentes pontuaram na dimensão PEC com valores ligeiramente mais baixos do que no presente estudo, com média de 14,22, com mínimo de 1,00 e máximo de 20,00 pontos. A média para a dimensão PSP foi de 14,34 (DP= 4,24; EP= 0,41), variando entre 4 e 20 pontos. A mediana foi de 15,00 (Q1= 12,00; Q= 17,00). No estudo de Antunes (2016) os respondentes pontuaram na dimensão PSP valores ligeiramente mais baixos com média de 13,38, variando entre 1 e 20,00. A média para a dimensão EEC foi de 12,02 (DP= 4,61; EP= 0,45), variando entre 3 e 20 pontos. A mediana foi de 12,00 (Q1= 8,00; Q3= 15,00). No estudo de Antunes (2016) os respondentes pontuaram na dimensão EEC valor mais baixo com média de 9,94, variando entre 0 e 20,00. De acordo com os dados recolhidos, os gestores aqui inquiridos apresentam níveis de IE médios, mas ligeiramente mais 50 elevados quando comparados com o estudo de Antunes (2016), a quem se deve a adaptação da escala de IE para o contexto português. Para a escala de resiliência emocional, CD-RISC-10, a média observada no presente estudo é de 28,07 pontos (DP= 6,90; EP= 0,67), variando entre 4 e 40 pontos. Pontuações mais elevadas representam alto nível de resiliência (Almeida et al., 2020; Campbell-sills et al., 2009; Connor & Davidson, 2003; Lopes & Martins, 2011). Sendo assim, tem-se que as pessoas que obtiveram 4 ou valores próximos apresentam um nível de resiliência baixo comparado ao daquelas que apresentaram 40 ou valores próximos de 40, que traduzem níveis superiores de resiliência emocional. Assim, podemos observar que a média está mais próxima de um elevado nível de resiliência emocional para os gestores participantes do estudo. A mediana foi de 29,00, sendo que 75% dos participantes obteve 33,00 pontos, enquanto 25% dos participantes obteve 25,25 pontos. Marselle, Warber e Irvine (2019), no seu estudo com sobre o aumento da resiliência decorrente da interação com a natureza (caminhadas de grupo na natureza), realizado com 1081 pessoas no Reino Unido, obtiveram uma pontuação média semelhante de 28,60 pontos. Na pesquisa de Houpy et al. (2017), baseada em estudantes de terceiro e quarto ano de medicina nos Estados Unidos, a pontuação média de resiliência emocional foi semelhante, de 28,20 pontos. No estudo de Lopes e Martins (2011), a pontuação média encontrada foi de 29,07. Almeida et al. (2020) dividiram seu estudo em duas amostras, onde a primeira apresentou pontuação de 25,94 e a segunda de 25,93. O Quadro 9 apresenta as pontuações totais das escalas IAIE e suas dimensões e da escala unidimensional CD-RISC-10. Quadro 9. Estatísticas descritivas para a escala IAIE e respetivas dimensões e escala CD-RISC (n= 104) IAIE PEC PSP EEC CD-RISC Média 42,26 15,90 14,34 12,02 28,07 Erro Padrão 1,261 0,531 0,416 0,453 0,677 Mediana 42,50 16,00 15,00 12,00 29,00 Desvio Padrão 12,859 5,418 4,242 4,617 6,902 Mínimo 13 3 4 3 4 Máximo 64 24 20 20 40 Percentis 25 33,50 12,00 12,00 8,00 25,25 75 52,75 21,00 17,00 15,00 33,00 IAIE= Inventário de Autoavaliação de Inteligência Espiritual; CD-RISC= Connor and Davidson Resilience Scale; PEC= pensamento existencial crítico; PSP= produção de significado pessoal; EEC= expansão do estado de consciência. 51 Seguidamente, analisou-se a distribuição das respostas (frequência e percentagem) por níveis de inteligência: baixo, médio e elevado. Foi possível verificar que 44,20% dos participantes apresentam uma inteligência espiritual classificada como alta, 31,80% situam-se no nível médio e 24,00% relevam um nível de inteligência espiritual classificado como nível baixo. O Quadro 10 apresenta as frequências dos níveis baixo, médio ou elevado dos valores obtidos na escala IAIE. Quadro 10. Classificação em Níveis Baixo, Médio e Elevado – IAIE-16 Classificação Frequência Percentagem Válida Baixo 25 24,00 Médio 33 31,80 Alto 46 44,20 Total 104 100,00 Seguidamente, foram analisadas as pontuações médias para as escalas de inteligência espiritual e resiliência emocional de acordo com as características sociodemográficas dos participantes/gestores. Recorreu-se à utilização dos testes não paramétricos U de Mann-Whitney e H de Kruskal-Wallis com nível de significância de 5%, sendo considerados significativos os resultados com valor de p <0,05, uma vez que os dados não revelaram normalidade na sua distribuição. Foram realizados testes de comparações múltiplas ( post-hoc ) para comparar as médias nas diferentes categorias das variáveis sociodemográficas e verificar qual ou quais os pares de médias apresentam diferenças significativas. Através do teste U de Mann-Whitney, verificou-se que as pontuações da escala de inteligência espiritual, por género, revelam níveis de IE superiores nas mulheres comparativamente aos dos homens, todavia a diferença não é estatisticamente significativa. Também não se encontraram diferenças estatisticamente significativas nas pontuações das dimensões de inteligência espiritual em função do género. Pode-se considerar que para ambos os géneros o nível de inteligência espiritual é médio. No estudo de King (2008), autor da escala em inglês que deu origem a escala validada IAIE, verificou-se não existir diferença significativa entre o nível de inteligência espiritual, suas dimensões e o género. Já no estudo de Antunes (2016) existe diferença significativa no nível de inteligência espiritual, e das dimensões da escala, sendo que o género feminino possui pontuação mais elevada que o masculino. No teste U de Man-Whitney para a resiliência emocional também não se encontrou uma diferença significativa na variável género. 52 No estudo de Lopes e Martins (2011) também não foram encontradas diferenças significativas entre os géneros para a resiliência emocional. Igual resultado foi encontrado por Bonanno et al. (2007). Já no estudo de Campbell-sills et al. (2009) os indivíduos do sexo masculino da pesquisa revelaram possuir um nível de resiliência emocional mais elevada do que as participantes do sexo feminino, sendo a diferença estatisticamente significativa. O mesmo resultado foi encontrado por Almeida et al. (2020), onde o género feminino pontuou menos na escala CD-RISC. Realizou-se o teste H de Kruskal-Wallis para analisar a relação entre a variável idade e a escala de inteligência espiritual (e suas dimensões), e a escala de resiliência emocional. No presente estudo não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas (p>0,05) nos grupos etários, tanto na escala IAIE-16 e suas dimensões como na escala de resiliência emocional. Na pesquisa de King (2008) foi encontrada uma correlação positiva entre a idade e a inteligência espiritual e suas dimensões, com p<0,01, todavia o autor não analisou que grupos etários apresentam diferenças significativas, sugerindo que outros estudos deveriam ser efetuados para observar em quais intervalos há essa diferença. No estudo de Antunes (2016), os participantes mais jovens revelaram um nível de inteligência espiritual inferior aos mais velhos. Resultado idêntico foi encontrado para as dimensões da escala IAIE-16. Relativamente à escala CD-RISC, segundo o estudo de Bonanno et al. (2007), a idade aparece positivamente associada à resiliência emocional, ou seja, quanto mais velhos, mais resilientes do ponto de vista emocional. Ainda para Bonanno et al. (2007), pessoas que têm 65 anos ou mais são três vezes mais resilientes do que àquelas que possuem entre 18 e 24 anos. Resultado semelhante foi encontrado nos estudos de Campbell-Sills et al. (2009), Lundman et al. (2007), Gillespie et al. (2009), Rosenberg et al. (2015), Terrill et al. (2016), Böell, da Silva e Hegadoren (2016), Lee et al. (2017), Seib et al. (2018) e por Lopes e Martins (2011), muito embora neste último caso a correlação encontrada seja baixa. Jorgensen e Seedat (2008), Lamond et al. (2008), Yu et al. (2011) e Wu et al. (2016) encontraram uma baixa correlação entre a idade e a resiliência emocional em adolescentes. Ao contrário dos estudos anteriores, Connor e Davidson (2003), Huang (2009), Gucciardi et al. (2011), Derakhshanrad et al. (2014) e Bozikas et al. (2016) não encontraram correlação significativa entre a idade e a resiliência emocional. Para Liu et al. (2015), a idade não é um fator relevante para a resiliência emocional. Através do teste H de Kruskal-Wallis, verificou-se não existirem diferenças estatisticamente significativas em função do estado civil para a escala global de inteligência espiritual e suas dimensões. Todavia, a escala de resiliência emocional apresenta diferenças significativas (p<0,05). Os participantes 53 viúvos apresentam o valor médio mais baixo na escala de resiliência emocional, ou seja, 15,33 (DP= 11,84; EP= 6,83) e os solteiros o mais elevado: 29,97 (DP= 5,18; EP= 0,91), seguidos dos casados: 29,20 (DP= 5,56; EP= 0,86). Os gestores em união de facto apresentam um valor médio de resiliência emocional de 26,62 (DP= 6,78; EP= 1,88). Os resultados podem ser vistos no Quadro 11. Quadro 11. Estatística Descritiva para escala IAIE e Respetivas Dimensões e CD-RISC e Análise Comparativa em Função do Estado Civil (n= 104) IAIE PEC PSP EEC CD-RISC Solteiro (a) (n= 32) Média 43,69 16,69 14,72 12,28 29,97 Erro Padrão 2,161 0,969 0,654 0,752 0,916 Mediana 46,00 17,50 15,00 12,00 30,00 Desvio Padrão 12,225 5,480 3,700 4,252 5,184 Mínimo 13 3 5 4 17 Máximo 64 24 20 20 40 Percentis 25 35,25 13,00 13,00 9,25 27,00 75 51,50 22,00 17,00 15,00 33,75 União de Facto (n= 13) Média 43,38 17,15 14,23 12,00 26,62 Erro Padrão 3,832 1,632 1,139 1,540 1,883 Mediana 43 18 14 11 27 Desvio Padrão 13,817 5,886 4,106 5,553 6,789 Mínimo 18 6 5 3 10 Máximo 64 24 20 20 35 Percentis 25 33,50 12,00 12,00 8,00 23,50 75 57,00 22,50 17,50 17,00 32,00 Casado (a) (n= 41) Média 41,44 15,12 14,46 11,85 29,2 Erro Padrão 1,978 0,826 0,673 0,703 0,869 Mediana 40 15 15 12 29 Desvio Padrão 12,667 5,288 4,308 4,503 5,564 Mínimo 16 4 5 5 10 Máximo 64 24 20 20 38 Percentis 25 32,00 11,50 11,50 7,00 26,00 75 53,00 19,50 17,50 15,00 33,00 Divorciado (a) (n= 15) Média 41,60 15,33 14,00 12,27 24,73 Erro Padrão 3,540 1,279 1,287 1,325 2,343 Mediana 43 15 14 14 24 Desvio Padrão 13,710 4,952 4,986 5,133 9,075 Mínimo 14 6 4 4 4 Máximo 59 24 20 20 37 Percentis 25 30,00 12,00 11,00 7,00 21,00 75 53,00 18,00 18,00 17,00 33,00 Viúvo (a) (n= 3) Média 36,67 15,67 10,67 10,33 15,33 Erro Padrão 11,893 4,910 3,844 3,480 6,839 Mediana 39 19 9 11 9 Desvio Padrão 20,599 8,505 6,658 6,028 11,846 54 IAIE PEC PSP EEC CD-RISC Mínimo 15 6 5 4 8 Máximo 56 22 18 16 29 Percentis 25 15,00 6,00 5,00 4,00 8,00 75 . . . . . Significância (p)* 0,931 0,606 0,807 0,966 0,050 *A diferença média é significativa no nível p<0,05. O teste post-hoc , que compara as médias nas diferentes categorias de resposta da variável independente, demonstra diferenças significativas em termos de resiliência emocional entre os grupos “solteiros”, onde se verifica o nível de resiliência emocional mais elevado, e “divorciados” (p= 0,047) e os grupos “solteiros” e “viúvos” (p= 0,038). No estudo de Antunes (2016), os viúvos pontuaram mais do que as restantes categorias da variável estado civil para a escala de inteligência espiritual, sendo a diferença entre os grupos ”solteiros” e “viúvos”significativa do ponto de vista estatístico. No estudo de King (2008) esta análise comparativa não foi apresentada. Em várias pesquisas, a relação entre a CD-RISC e o estado civil revelou-se inconsistente. É o caso dos estudos conduzidos por Connor e Davidson (2003), Wilks (2006), Lamond et al. (2008), Jowkar et al. (2010) e Derakhshanrad et al. (2014). Para Wu et al. (2016) não existe relação entre a resiliência emocional e o estado civil. Outras pesquisas, porém, revelam diferenças significativas no nível de resiliência emocional em função do estado civil (Campbell-Sills et al., 2009; Yu et al., 2011; Levasseur et al., 2017). Nestes estudos, as pessoas viúvas apresentavam nível de resiliência emocional mais baixos do que aqueles que estavam casados ou divorciados. Através do teste U de Man-Whitney, verificou-se que não há diferenças significativas em função da variável ter ou não ter filhos e a escala global de inteligência espiritual (e suas dimensões), e a escala de resiliência emocional. Realizou-se o teste H de Kruskal-Wallis para analisar a relação entre a variável nível académico e a escala de inteligência espiritual (e suas dimensões), e a escala de resiliência emocional. No presente estudo não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas nos grupos correspondentes aos vários graus académicos, tanto na escala IAIE-16 e suas dimensões como na escala de resiliência emocional. Noutros estudos, porém, foram encontradas diferenças decorrentes do grau académico. Relativamente à inteligência espiritual, Antunes (2016) concluiu que os indivíduos com grau de mestrado revelam um nível de inteligência espiritual mais alto do que os que possuem outros graus 55 académicos. Já para King (2008), as categorias estudadas são para estudantes do primeiro, segundo e terceiro grau estudado, encontrando uma baixa correlação entre a inteligência espiritual e os estudantes do pós-secundário. Referente à resiliência emocional, os valores médios nos grupos estudados (segundo o nível académico) se assemelham aos resultados encontrados nos estudos de Lamond et al. (2008) e Böell, da Silva e Hegadoren (2016). Entretanto, foi encontrada uma significante relação positiva com o nível de escolaridade, onde a medida que a resiliência aumenta, o nível de escolaridade crescia na mesma proporção por Campbell-Sills et al. (2009), Wu et al. (2016), Marwitz et al. (2017) e Brown et al. (2018). Através do teste H de Kruskal-Wallis, verificou-se não existirem diferenças estatisticamente significativas em função do nível de gestão para a escala global de inteligência espiritual (e suas dimensões) e a escala de resiliência emocional. Realizou-se o teste H de Kruskal-Wallis para analisar a existência de diferenças nos níveis de inteligência espiritual (e suas dimensões), bem como de resiliência emocional em função da experiência profissional. Foram encontradas diferenças estatisticamente significativas no nível de inteligência espiritual global e em duas dimensões de IE (Produção de Significado Pessoal e Expansão do Estado de Consciência) consoante o número de anos de experiência profissional. Para identificar quais os grupos da variável “experiência profissional” que demonstram diferenças significativas, procedeu-se ao teste de comparações múltiplas ( post-hoc ). Existem diferenças em matéria de inteligência espiritual (p= 0,002) nos grupos “entre 16 e 20 anos de experiência profissional”, que regista o valor médio mais elevado, ou seja, 46,56 (DP= 12,36; EP= 2,91) e “5 anos ou menos de experiência profissional”, que apresenta o valor mais baixo de 34,25 (DP= 8,18; EP= 2,36). As diferenças são também estatisticamente significativas (p= 0,028) nos grupos “entre 6 e 10 anos de experiência profissional”, com uma pontuação de 44,83 (DP= 12,99; EP= 3,06), e “5 anos ou menos”. E ainda nos grupos “entre 11 e 15 anos de experiência profissional”, com um valor de 44,96 (DP= 12,52; EP= 2,55) e “5 anos ou menos de experiência profissional”, com um p= 0,004. Existem diferenças para a dimensão PSP (p= 0,00) nos grupos “5 anos ou menos”, que obtiveram o valor médio mais baixo de 11,25 (DP= 2,89; EP= 0,83) e “entre 16 e 20 anos de experiência profissional”, com valor médio mais elevado de 15,89 (DP= 5,71; EP= 1,34). E ainda nos grupos “entre 6 e 10 anos de experiência profissional”, com uma pontuação de 15,17 (DP= 3,94; EP= 0,93) e “5 anos ou menos”, com um p= 0,004. Já o grupo “entre 11 e 15 anos” pontuou 15,29 (DP= 3,85; EP= 0,78) e possuem diferença significativa (p= 0,001) em relação ao grupo “5 anos ou menos”. 56 Em relação a dimensão EEC o valor médio mais baixo foi de 9,42 (DP= 2,31; EP= 0,66) para o grupo “5 anos ou menos de experiência profissional”, enquanto o valor médio mais elevado foi o do grupo “entre 11 e 15 anos” de 13,46 (DP= 4,37; EP= 0,89), sendo a diferença significativa (p= 0,005). O grupo “21 anos de experiência profissional ou mais”, com pontuação de 10,97 (DP= 4,12; EP= 0,72) apresenta diferença significativa (p= 0,038) com o grupo “entre 11 e 15 anos”. Os resultados podem ser encontrados no Quadro 12. Quadro 12. Estatística Descritiva para escala IAIE e Respetivas Dimensões e CD-RISC e Análise Comparativa em Função da Experiência Profissional (n= 104) IAIE PEC PSP EEC CD-RISC <=5 anos (n= 12) Média 34,25 13,58 11,25 9,42 24,33 Erro Padrão 2,362 1,276 0,836 0,668 1,936 Mediana 35,00 14,50 11,00 10,00 26,50 Desvio Padrão 8,181 4,420 2,896 2,314 6,706 Mínimo 16 6 5 5 10 Máximo 48 22 16 13 33 Percentis 25 30,50 9,75 10,00 7,25 18,25 75 39,25 15,75 13,00 11,00 29,50 6-10 anos (n= 18) Média 44,83 16,94 15,17 12,72 29,06 Erro Padrão 3,064 1,211 0,930 1,174 1,130 Mediana 47,50 16,50 15,00 13,50 29,00 Desvio Padrão 12,999 5,139 3,944 4,980 4,795 Mínimo 18 9 5 4 19 Máximo 64 24 20 20 40 Percentis 25 32,00 12,50 12,00 7,75 25,75 75 55,75 21,50 19,25 15,50 33,00 11-15 anos (n= 24) Média 44,96 16,21 15,29 13,46 30,42 Erro Padrão 2,556 1,183 0,786 0,893 1,207 Mediana 45,50 17,00 16,00 13,50 31,50 Desvio Padrão 12,523 5,793 3,850 4,374 5,912 Mínimo 13 3 5 5 19 Máximo 64 24 20 20 38 Percentis 25 37,75 12,00 14,25 11,00 26,25 75 55,75 21,50 18,00 17,75 36,00 16-20 anos (n= 18) Média 46,56 17,67 15,89 13,00 28,00 Erro Padrão 2,914 1,140 0,783 1,348 1,555 Mediana 49,00 18,50 16,00 14,00 28,00 Desvio Padrão 12,363 4,839 3,324 5,719 6,598 Mínimo 18 7 6 3 10 Máximo 64 24 20 20 39 Percentis 25 38,00 14,00 14,00 7,75 25,75 75 56,25 22,00 18,25 18,25 33,00 21 anos ou + (n= 32) Média 39,38 14,97 13,44 10,97 27,19 Erro Padrão 2,366 1,014 0,869 0,729 1,467 Mediana 41,00 15,50 14,00 11,50 29,00 63 5.1 Conclusão Este capítulo tem por objetivo destacar as principais descobertas desta pesquisa e limitações, assim como apresentar sugestões para posteriores estudos na área e os contributos trazidos. A presente dissertação teve como premissa elucidar sobre a relação existente entre a inteligência espiritual e a resiliência emocional numa amostra de gestores portugueses. Para responder aos objetivos específicos, começou-se por analisar o nível de inteligência espiritual e resiliência emocional nos gestores participantes do estudo. Os resultados encontrados revelam que as pontuações dos participantes, em ambas as escalas, podem ser enquadradas como de nível médio. O outro objetivo específico visava identificar eventuais diferenças nos níveis de inteligência espiritual e resiliência emocional em função de variáveis sociodemográficas. Os resultados sugerem que o nível global de inteligência espiritual e os níveis nas dimensões Produção de Significado Pessoal e Expansão do Estado de Consciência diferem consoante a experiência profissional. Os gestores que possuem entre 6 e 10 anos de experiência profissional e entre 11 e 15 anos obtiveram pontuação mais elevada do que os restantes grupos. Segundo a literatura da especialidade, a inteligência espiritual é aquela que dá sentido a vida e a existência e os resultados aqui encontrados levam a crer que os gestores que possuem mais experiência também são aqueles que sentem que a sua vida possui sentido na carreira que escolheram. Obviamente outros estudos mais específicos sobre o estilo de vida destes indivíduos precisam ser conduzidos a fim de comprovar esta teoria. Foram ainda encontradas diferenças estatisticamente significativas decorrentes da antiguidade na função, tanto na escala global de inteligência espiritual como nas dimensões Produção de Significado Pessoal e Expansão do Estado de Consciência. Os participantes que têm entre 11 e 15 anos de antiguidade na função apresentam pontuações mais elevadas comparativamente aos gestores nos outros intervalos (número de anos na função). Apenas a dimensão Pensamento Existencial Crítico registou diferenças significativas em função da variável religiosidade, sendo que o nível global de inteligência espiritual e nas outras duas dimensões não parece diferir consoante o ter ou não religião ou ter outras crenças. Foi nos grupos que revelaram “não possuir religião” ou “possuir outras crenças de vida” que as pontuações são mais elevadas em relação às demais categorias. Os níveis de inteligência espiritual (geral e nas respetivas dimensões) não apresentam diferenças com significado estatístico nas variáveis idade, gênero, estado civil, número de filhos, nível de habilitações académicas, antiguidade na organização e nível de gestão. 64 Relativamente à resiliência emocional, verificou-se que os participantes nas categorias de resposta “solteiros” obtiveram pontuações mais elevadas do que o grupo de divorciados e viúvos, sendo as diferenças estatisticamente significativas. O nível de resiliência emocional de “viúvos” nos estudos de Campbell-Sills et al. (2009), Yu et al. (2011) e Levasseur et al. (2017) revelou-se mais baixo do que o dos participantes que estavam casados ou divorciados. Também não há evidências sobre alterações significativas na resiliência emocional dos gestores onde o tipo de credo é distinto. Finalmente, o último objetivo específico (e objetivo central deste estudo) propunha estudar a relação entre a inteligência espiritual e resiliência emocional. A análise bivariada revelou a existência de uma correlação positiva entre a inteligência espiritual e a resiliência emocional, embora baixa. Ou seja, esta associação positiva sugere que quanto mais elevada a inteligência espiritual, maior a resiliência emocional. Duas dimensões da inteligência espiritual também aparecem positivamente correlacionadas com a resiliência emocional. São elas a «Produção de Significado Pessoal» e a «Expansão do Estado de Consciência». Apesar de terem significado estatístico, os valores encontrados sugerem correlações fracas. 5.2 Limitações e sugestões O presente estudo apresenta limitações, algumas das quais podem ser aperfeiçoadas em futuros estudos. O número de respondentes resultou numa amostra de tamanho inferior ao que se esperava. Encontrar pessoas que se predispusessem a responder ao questionário foi um desafio. E daquelas que resolveram participar do estudo, algumas recusaram-se a responder pelo seu tamanho. Embora nos objetivos esteja muito claro que o que se pretendeu foi estudar algumas dimensões da resiliência, uma vez que para estudar a resiliência como um todo exigiria outros recursos, a extensão do questionário e a complexidade das temáticas poderá ter dissuado alguns indivíduos de participarem no estudo. Dimensões como autoestima, stress e traumas, por exemplo, podem ser interessantes de serem trabalhadas junto às escalas de resiliência a fim de averiguar a relação com a inteligência espiritual. Sugere-se ainda a realização de estudos do tipo qualitativo, com recurso a entrevistas com estes gestores e com outros profissionais. Deste modo, seria possível explorar em maior detalhe alguns aspetos menos conseguidos com o inquérito por questionário. 65 5.3 Contributos A presente dissertação dá um contributo à comunidade académica no domínio da relação entre inteligência espiritual e resiliência emocional, ainda pautado pela escassez de estudos. Para os gestores nas organizações, espera-se que o estudo sensibilize para outras abordagens na gestão das pessoas, chamando a atenção para outro tipo de inteligência (espiritual) para além das mais convencionais: inteligência racional e a inteligência emocional. O estudo revela que quanto mais elevada a inteligência espiritual maior a resiliência emocional. Na prática, sugere que a utilização e o bom uso da inteligência espiritual no dia a dia podem fazer com que as pessoas enfrentem os seus problemas da melhor maneira possível, tornandose resilientes emocionalmente frente aos desafios que aparecem em todos os aspetos da vida, e claro, dentro das organizações que fazem parte. É um chamado de uma nova era em que as pessoas não sejam apenas consideradas recursos e sim seres humanos competentes e conscientes não só a nível intelectual, mas também espiritual. Um chamado em que as pessoas sejam suficientemente fortes, resilientes para suportar os encargos das mudanças constantes que o mercado e os negócios à escala mundial impõem. Espera-se, com este estudo, que mais e mais pessoas possam aprender, entender e praticar no dia a dia uma nova forma de inteligência e desenvolver a capacidade de serem mais e mais resilientes emocionalmente. 66 Referências Bibliográficas Albertini , E. (2012). Integrating spirituality into leadership development . 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My target audience is very busy and I am afraid to receive few answerings for my research as I need it as soon as possible. My Master’s advisor and I will be very thankful to you! I am looking forward to hear from you. Yours sincerely, JOFtOSSO Student lD• PC3428O Escola de Economia e Gestâo Universidade do Minho - Campus de Gualtar, Rua da L/niv’ersi€far/e, 4710-057 Braga, Portugal. My contacts: vanassa.gomes18[email protected] - +351 935 370 303 David King <david[email protected]om> Para: Vanessa Gomes <[email protected]> Hi Vanessa, 1 de julho de 2019 15:12 Yes you’re welcome to use the scale. And I wouldn’t see any issues with using only certain subscales. All the best, David David King, PhD Instructor, Department of Psychology / Researcher, Centre for Health & Coping Studies Univeraity of British Columbia - located on the traditional, ancasf/a/, and unceded fe/7ifo/y of the Aft/squeam people. Visit my website: davidbking.net / Blog: thestateofus.net {Texio das mensagens anteriores oculto] Vanessa Gomes <[email protected]> Para: David King <davidking231[email protected]> 1 de julho de 2019 18:42 Now I see... My thesis is about The Relationship Between Spiritual Intelligence and Emotional Resilience In Management. In the first email I sent I'd wrote quickly and put Emotional Intelligence. Just correcting. Thank you for all |Texto das mensagens anteriores oculto] 80 Apêndice III – Permissão de utilização da escala SISRI-24 validada para o português (PT), IAIE-16 81 Apêndice IV – Permissão de utilização da escala CD-RISC-10 82 Anexos 83 Anexo 1 – Questionário sociodemográfico QUESTIONÁRIO SOCIODEMOGRÁFICO 1. Idade Menos de 25 anos de 26 a 35 anos de 36 a 45 anos de 46 a 55 anos de 56 a 65 anos Acima de 66 anos 2. Gênero Masculino Feminino 3. Estado Civil Solteiro(a) União de Facto Casado(a) Divorciado(a) Viúvo(a) 4. Quais são suas habilitações acadêmicas? Até o 9º Ano de Escolaridade 12º Ano de Escolaridade Especialização ou Grau Técnico Licenciatura Mestrado Doutoramento / Pós-Doutoramento 5. Em que nível da gestão se encontra? Gestão de Topo (Cargos estratégicos dentro da organização) Gestão de Intermédio (Gestão tática ou de divisão. Faz a supervisão da Gestão de Linha colocando em prática as decisões tomadas pela gestão de topo) Gestão de Linha (Gestão operacional. Responsável por lidar diretamente com a Linha de frente ou funcionários operacionais da organização) 84 QUESTIONÁRIO SOCIODEMOGRÁFICO 6. Qual o seu tempo de experiência profissional? Inferior a 5 anos Entre 6 a 10 anos Entre 11 a 15 anos Entre 16 a 20 anos 21 anos ou mais 7. Qual sua antiguidade na organização? Inferior a 5 anos Entre 6 a 10 anos Entre 11 a 15 anos Entre 16 a 20 anos 21 anos ou mais 8. Qual sua antiguidade na função? Inferior a 5 anos Entre 6 a 10 anos Entre 11 a 15 anos Entre 16 a 20 anos 21 anos ou mais 9. Religiosidade Possui religião / pratica Possui religião / não pratica Não possui religião Possui outras crenças de vida 85 Anexo 2 – Escala de IE: The spiritual intelligence self-report inventory (SISRI-24) The following statements are designed to measure various behaviours, thought processes, and mental characteristics. Read each statement carefully and choose which one of the five possible responses best reflects you by circling the corresponding number. If you are not sure, or if a statement does not seem to apply to you, choose the answer that seems the best. Please answer honestly and make responses based on how you actually are rather than how you would like to be. The five possible responses are: 0 – Not at all true of me | 1 – Not very true of me | 2 – Somewhat true of me | 3 – Very true of me | 4 – Completely true of me For each item, circle the one response that most accurately describes you . 1. I have often questioned or pondered the nature of reality. 0 1 2 3 4 2. I recognize aspects of myself that are deeper than my physical body. 0 1 2 3 4 3. I have spent time contemplating the purpose or reason for my existence. 0 1 2 3 4 4. I am able to enter higher states of consciousness or awareness. 0 1 2 3 4 5. I am able to deeply contemplate what happens after death. 0 1 2 3 4 6. It is difficult for me to sense anything other than the physical and material. 0 1 2 3 4 7. My ability to find meaning and purpose in life helps me adapt to stressful 0 1 2 3 4 situations. 8. I can control when i enter higher states of consciousness or awareness. 0 1 2 3 4 9. I have developed my own theories about such things as life, death, reality, 0 1 2 3 4 and existence. 10. I am aware of a deeper connection between myself and other people. 0 1 2 3 4 11. I am able to define a purpose or reason for my life. 0 1 2 3 4 12. I am able to move freely between levels of consciousness or awareness. 0 1 2 3 4 13. I frequently contemplate the meaning of events in my life. 0 1 2 3 4 14. I define myself by my deeper, non-physical self. 0 1 2 3 4 15. When i experience a failure, i am still able to find meaning in it. 0 1 2 3 4 16. I often see issues and choices more clearly while in higher states of 0 1 2 3 4 consciousness/awareness. 86 17. I have often contemplated the relationship between human beings and the 0 1 2 3 4 rest of the universe. 18. I am highly aware of the nonmaterial aspects of life. 0 1 2 3 4 19. I am able to make decisions according to my purpose in life. 0 1 2 3 4 20. I recognize qualities in people which are more meaningful than their body, 0 1 2 3 4 personality or emotions. 21. I have deeply contemplated whether or not there is some greater power or 0 1 2 3 4 force (e.g., god, goddess, divine being, higher energy, etc.). 0 1 2 3 4 22. Recognizing the nonmaterial aspects of life helps me feel centered. 0 1 2 3 4 23. I am able to find meaning and purpose in my everyday experiences. 0 1 2 3 4 24. I have developed my own techniques for entering higher states of consciousness or awareness. 0 1 2 3 4 Total Spiritual Intelligence (SI) Score: Sum all item responses or subscale scores (after accounting for *reverse-coded item). 24 items in total; range: 0 – 96 4 Factors/Subscales: I. Critical Existential Thinking (CET): Sum items 1, 3, 5, 9, 13, 17, and 21. 7 items in total; range: 0 – 28 II. Personal Meaning Production (PMP): Sum items 7, 11, 15, 19, and 23. 5 items in total; range: 0 – 20 III. Transcendental Awareness (TA): Sum items 2, 6*, 10, 14, 18, 20, and 22. 7 items in total; range: 0 – 28 87 IV. Conscious State Expansion (CSE): Sum items 4, 8, 12, 16, and 24. 5 items in total; range: 0 – 20 *Reverse Coding: Item # 6 (response must be reversed prior to summing scores). Higher scores represent higher levels of spiritual intelligence and/or each capacity. 88 Anexo 3 – Inventário de autoavaliação de inteligência espiritual, IAIE, versão validada para o português (PT) da SISRI-24 As afirmações que se seguem são concebidas para medir vários comportamentos, processos de pensamento e características mentais. Leia cuidadosamente cada afirmação e escolha qual das 5 respostas possíveis se adequa melhor a si, selecionando o número correspondente. Se não tiver a certeza, ou se a afirmação lhe parecer não se aplicar a si, escolha a resposta que lhe parecer melhor. Por favor responda honestamente e dê respostas baseadas em como você é de facto e não como gostaria de ser. As 5 respostas possíveis são: 0 – Não tem nada a ver comigo | 1 – não tem muito a ver comigo | 2 – tem alguma coisa a ver comigo | 3 – tem muito a ver comigo | 4 – tem tudo a ver comigo 1. Interrogo-me ou reflito muitas vezes sobre a natureza da realidade. 0 1 2 3 4 2. Dedico tempo a refletir sobre o propósito ou a razão de ser da minha 0 1 2 3 4 existência. 3. Sou capaz de atingir níveis elevados de consciência ou de consciencialização. 0 1 2 3 4 4. Sou capaz de refletir profundamente sobre o que acontece após a morte. 0 1 2 3 4 5. A minha capacidade para encontrar significado e propósito na vida ajuda-me a 0 1 2 3 4 adaptar-me a situações estressantes. 6. Consigo controlar quando é que entro em estados elevados de consciência ou 0 1 2 3 4 de consciencialização. 7. Tenho desenvolvido as minhas próprias teorias acerca da vida, da morte, da 0 1 2 3 4 realidade e da existência. 8. Sou capaz de definir um propósito ou uma razão de ser para a minha vida. 0 1 2 3 4