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Relação entre a responsividade do terapeuta e a prosódia da sua intervenção

Pimenta, Eva Raquel de Brito

Abstract

O propósito do presente estudo consistiu em compreender e caracterizar a prosódia das intervenções do terapeuta que são validadas ou invalidadas pelo cliente, e, portanto, averiguar possíveis padrões prosódicos associados à responsividade do terapeuta. Foi seguida uma metodologia de estudo de caso, que permitiu a microanálise da interação terapêutica de um caso clínico de sucesso, com diagnóstico de Perturbação Depressiva Major e cuja intervenção seguiu o modelo psicoterapêutico cognitivocomportamental. De forma a analisar o fenómeno de interesse deste estudo, recorreu-se a uma base de dados com as sessões do caso gravadas e previamente codificadas com o Sistema de Codificação da Colaboração Terapêutica. A prosódia da intervenção do terapeuta foi analisada, através do PRAAT, com base em 3 variáveis: pitch médio, pitch mínimo e pitch máximo. Os resultados deste estudo sugerem que, neste caso clínico, não existem diferenças nas variáveis analisadas entre intervenções do terapeuta responsivas às necessidades do cliente e, portanto, validadas e intervenções do terapeuta não responsivas às necessidades do cliente e, portanto, invalidadas. No contexto específico deste caso, não se verificaram padrões prosódicos associados à responsividade do terapeuta.

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Universidade do Minho Escola de Psicologia Eva Raquel de Brito Pimenta Relação entre a responsividade do terapeuta e a prosódia da sua intervenção outubro de 2024 UMinho | 2024 Eva Pimenta Relação entre a responsividade do terapeuta e a prosódia da sua intervenção Eva Raquel de Brito Pimenta Relação entre a responsividade do terapeuta e a prosódia da sua intervenção Dissertação de Mestrado Mestrado em Psicologia Clínica e Psicoterapia de Adultos Trabalho efetuado sob a orientação da Professora Doutora Eugénia Ribeiro Universidade do Minho Escola de Psicologia outubro de 2024 ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Atribuição-NãoComercial-SemDerivações CC BY-NC-ND https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/ iii Agradecimentos Foram várias as figuras que promoveram o meu desenvolvimento pessoal e profissional e que foram essenciais para a realização deste projeto. Gostaria de agradecer à Professora Doutora Eugénia Ribeiro, pela partilha de conhecimento, pela disponibilidade e orientação. Agradeço também ao Grupo de Investigação em Relação Terapêutica, cujo ambiente de entreajuda e cooperação me proporcionou novas aprendizagens e contribuiu para melhorar este trabalho. Não posso deixar de agradecer particularmente à Cátia, pela ajuda e paciência, à Laura, pela amizade, companheirismo e disponibilidade, e ao João, pelo apoio e dedicação. O trabalho conducente a esta dissertação insere-se no projeto de investigação ColPsi - "Como a colaboração em psicoterapia se torna terapêutica: um estudo dos processos interativos e psicofisiológicos em casos de sucesso e casos de insucesso terapêutico”, financiado pela Fundação BIAL com a Bolsa 178/2012. Um agradecimento à Fundação Bial, sem cujo financiamento este trabalho não seria possível. iv DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. Universidade do Minho, 21 de outubro ____________________________________________ (Eva Raquel de Brito Pimenta) Assinado por: Eva Raquel de Brito Pimenta Num. de Identificação: 15484552 Data: 2024.10.02 12:45:38 +0100 v Relação entre a responsividade do terapeuta e a prosódia da sua intervenção Resumo O propósito do presente estudo consistiu em compreender e caracterizar a prosódia das intervenções do terapeuta que são validadas ou invalidadas pelo cliente, e, portanto, averiguar possíveis padrões prosódicos associados à responsividade do terapeuta. Foi seguida uma metodologia de estudo de caso, que permitiu a microanálise da interação terapêutica de um caso clínico de sucesso, com diagnóstico de Perturbação Depressiva Major e cuja intervenção seguiu o modelo psicoterapêutico cognitivocomportamental. De forma a analisar o fenómeno de interesse deste estudo, recorreu-se a uma base de dados com as sessões do caso gravadas e previamente codificadas com o Sistema de Codificação da Colaboração Terapêutica. A prosódia da intervenção do terapeuta foi analisada, através do PRAAT, com base em 3 variáveis: pitch médio, pitch mínimo e pitch máximo. Os resultados deste estudo sugerem que, neste caso clínico, não existem diferenças nas variáveis analisadas entre intervenções do terapeuta responsivas às necessidades do cliente e, portanto, validadas e intervenções do terapeuta não responsivas às necessidades do cliente e, portanto, invalidadas. No contexto específico deste caso, não se verificaram padrões prosódicos associados à responsividade do terapeuta. Palavras-chave : prosódia, responsividade do terapeuta, colaboração terapêutica, pitch vi Relationship between the therapist's responsiveness and the prosody of his intervention Abstract This study aimed to comprehend and characterize the prosody of the therapist's interventions that are validated or invalidated by the client, and, therefore, to investigate possible prosodic patterns associated with the therapist's responsiveness. A case study methodology was followed, which allowed an in-depth microanalysis of the therapeutic interaction of a successful clinical case, diagnosed with Major Depressive Disorder and whose intervention followed the cognitive-behavioral psychotherapeutic model. To analyze the phenomenon of interest in this study, we used a database with recorded case sessions, previously coded with the Therapeutic Collaboration Coding System. The prosody of the therapist's intervention was analyzed, using PRAAT, based on 3 variables: mean pitch, minimum pitch and maximum pitch. The results of this study suggest that, in this clinical case, there are no differences in the variables analyzed between therapist interventions that are responsive to the client's needs and, therefore, validated and therapist interventions that are not responsive to the client's needs and, therefore, invalidated. In the specific context of this case, there were no prosodic patterns associated with the therapist's responsiveness. Keywords : prosody, responsiveness, therapeutic collaboration, pitch vii Índice Relação entre a responsividade do terapeuta e a prosódia da sua intervenção ....................................8 Metodologia .....................................................................................................................................14 Resultados .......................................................................................................................................17 Discussão ........................................................................................................................................22 Referências ......................................................................................................................................27 Índice de figuras Figura 1. Maiores valores de pitch ......................................................................................................8 Figura 2. Menores valores de pitch .....................................................................................................9 Figura 3. Intervenções do terapeuta (SCCT) ......................................................................................17 Figura 4. Respostas do cliente (SCCT) ..............................................................................................17 Figura 5. Número de tipos de quebras da colaboração por sessão ....................................................18 Figura 6. Proporções de tipos de quebras da colaboração por sessão ..................................................19 Figura 7. Proporção de tipos de desafio ..............................................................................................20 Figura 8. Respostas do cliente às intervenções de desafio ...................................................................20 Figura 9. Tipos de respostas de invalidação do cliente às intervenções de desafio .................................21 Índice de tabelas Tabela 1. Medidas descritivas ............................................................................................................21 Tabela 2. Diferenças nas medidas prosódicas entre as intervenções de desafio validadas e invalidadas ..22 RELAÇÃO ENTRE A RESPONSIVIDADE DO TERAPEUTA E A PROSÓDIA DA SUA INTERVENÇÃO 14 Metodologia Participantes Neste estudo foi analisado um caso clínico, cujo(a) cliente, com cerca de 30 anos, iniciou o processo terapêutico por apresentar medo recorrente de ser rejeitado ou abandonado, reativado após uma rutura amorosa por traição. Tal medo desencadeou no cliente a necessidade de ser forte, perfeito e afetiva e financeiramente independente. A problemática deste caso centrou-se na vulnerabilidade que o cliente relatou sentir após terminar um relacionamento amoroso, mas também no desejo de encontrar um companheiro estável. Ao longo das sessões, o cliente demonstrou sentimentos de raiva e irritabilidade em relação ao ex-companheiro e relatou sentir-se estagnado e com reduzido interesse em atividades anteriormente prazerosas. Os objetivos terapêuticos foram colaborativamente definidos nas primeiras sessões: o cliente ser capaz de regular as suas emoções de raiva e ansiedade e de voltar a sentir interesse em atividades que considerava prazerosas. O diagnóstico atribuído foi de Perturbação Depressiva Major, de acordo com a SCID-I. O caso analisado foi classificado como um caso de sucesso, uma vez que apresentou uma melhoria significativa dos sintomas, avaliada a partir da comparação entre os valores obtidos no Outcome Questionaire 45.2 (versão portuguesa do OQ-45.2; Machado & Fassnacht, 2015) na sessão de pré-tratamento e na última sessão da terapia. Os ganhos terapêuticos foram clinicamente significativos considerando os critérios definidos por Jacobson e Truax (1991) para mudança clinicamente significativa. Por um lado, a diferença de pontuação na avaliação pré- (i.e., 119 pontos) e pós-tratamento (i.e., 34 pontos) foi de 85 pontos, satisfazendo o critério para o Reliable Change Index (RCI) de 15 pontos, e, por outro lado, o valor póstratamento do OQ45.2 situa o caso numa população não clínica, considerando o ponto de corte de 62 pontos, conforme a adaptação para a versão portuguesa do OQ-45 (Machado & Fassnacht, 2015). O terapeuta deste caso clínico era doutorado, tinha 49 anos de idade e 22 anos de experiência em psicoterapia. A terapia seguiu o modelo psicoterapêutico cognitivo-comportamental e o processo dividiu-se em 16 sessões semanais (com exceção da 10 para a 11, que ocorreu com um mês de intervalo) e duas sessões de follow-up . Material e instrumentos Os dados utilizados neste estudo foram previamente recolhidos no âmbito do projeto ColPsi, financiado pela Fundação Bial (Bolsa 178/2012) e realizado no Centro de Investigação em Psicologia da Universidade do Minho (CIPsi-UMinho). Este projeto foi aprovado pela Comissão de Ética (CA-CIPsi072012) e o terapeuta e o cliente assinaram um consentimento informado, aceitando os procedimentos RELAÇÃO ENTRE A RESPONSIVIDADE DO TERAPEUTA E A PROSÓDIA DA SUA INTERVENÇÃO 15 de recolha de dados, nomeadamente o preenchimento de questionários e a gravação das sessões em vídeo. O caso selecionado foi previamente transcrito e codificado com recurso ao SCCT por codificadores, membros da equipa do Grupo de Investigação em Relação Terapêutica da Universidade do Minho, que seguiram todos os passos descritos por Ribeiro e colaboradores (2013). A sessão 12 do caso não foi transcrita, uma vez que o vídeo se encontrava inaudível. Portanto, para o presente estudo foram usadas as codificações do SCCT e as gravações das 15 sessões do caso clínico para a análise da prosódia. Como já mencionado, o SCCT é um instrumento que permite identificar e caracterizar as intervenções do terapeuta e do cliente, permitindo uma análise aprofundada de como a díade gere o diálogo terapêutico ao longo do processo. A versão inicial deste instrumento apresentou valores elevados de confiabilidade (Ribeiro et al., 2013) - valores de kappa de Cohen de 0,92 para as intervenções dos terapeutas e de 0,93 para as respostas dos clientes, que foram posteriormente consolidados em estudos com recurso ao SCCT. Os softwares utilizados foram o Reaper e o Audacity (edição de áudio), o PRAAT (análise de acústica vocal), um website de aleatorização de dados (i.e., Research Randomizer ) e o SPSS (análise estatística). Procedimento O processo de codificação realizado antes do presente estudo iniciou-se pela definição do problema apresentado pelo cliente e pelo estabelecimento dos objetivos a alcançar durante o processo terapêutico. Após definido o problema por consenso entre as juízas, a codificação foi realizada individualmente. Duas juízas codificaram 30% das sessões e foi calculado o acordo entre-juízas, de 85,5% para as respostas do cliente e de 86,4% para as intervenções do terapeuta. Depois de identificados e resolvidos os desacordos entre-juízas, os restantes 70% das sessões foram codificados apenas por uma delas, sendo que as codificações finais foram auditadas por uma terceira juíza. Para este estudo, e de forma a responder à questão de investigação proposta, foram selecionadas e analisadas as intervenções do terapeuta de desafio que levaram a respostas de validação e de invalidação por parte do cliente, ao longo das 15 sessões. Esta seleção foi realizada a partir da base de dados que integra a codificação (a partir do SCCT) de todas as sessões deste caso. Identificação e seleção dos momentos para análise Tendo em conta que o interesse deste estudo foi comparar intervenções do terapeuta de desafio validadas (responsivas) e invalidadas (não responsivas), apenas foram analisados os desafios que RELAÇÃO ENTRE A RESPONSIVIDADE DO TERAPEUTA E A PROSÓDIA DA SUA INTERVENÇÃO 16 antecediam respostas do cliente codificadas como validação e invalidação , pelo que desafios seguidos por respostas de ambivalência não foram considerados. Para além disso, considerando que a análise acústica do software PRAAT é afetada por perturbações sonoras, foram eliminados excertos de áudio cujo som não estava claro (e.g., áudio com barulho de fundo ou que incluía falas breves e não codificadas do cliente). Depois de estabelecidos e cumpridos os critérios de exclusão deste estudo, restaram 223 excertos de áudio de interesse, que foram tratados e analisados. Preparação dos dados para análise Após a seleção dos momentos de interesse para este estudo, a preparação dos dados para a análise da prosódia envolveu: (1) cortar os momentos de cada sessão através do Reaper , extrair o excerto de áudio em formato .wav, incluindo os momentos de silêncio, que foram tratados posteriormente e (2) tratar o áudio no Audacity – normalizar o volume [remover a compensação DC, ou seja, centrar o áudio em 0.0 (verticalmente) e normalizar a amplitude do pico para -1.0dB]; reduzir o ruído [selecionar intervalos do excerto de áudio em que não se verifica nenhuma intervenção do terapeuta ou cliente, apenas o ruído de fundo isolado – desta forma, o software filtra o ruído selecionado ao longo do excerto, reduzindo-o em 20dB, com sensibilidade 1 e suavizando a sua frequência em 3Hz]; ajustar o áudio para integrar apenas a intervenção do terapeuta, cortando os momentos de silêncio imediatamente antes e após da sua intervenção; e extrair o excerto de áudio, mais uma vez, em formato .wav. O próximo passo consistiu em analisar as características vocais de interesse nos momentos extraídos, nomeadamente o pitch médio, mínimo e máximo, recorrendo ao PRAAT. A partir dos valores extraídos do software, foi contruída a base de dados que permitiu a realização da análise estatística. Estratégia analítica Recorrendo ao SPSS, e tendo em conta que os pressupostos de normalidade, homocedasticidade e linearidade foram cumpridos, realizou-se um Teste-T para perceber se existiam diferenças significativas entre o pitch médio das intervenções de desafio validadas e invalidadas . Já para analisar as diferenças entre o pitch mínimo das intervenções de desafio validadas e invalidadas , e tendo em conta que os pressupostos de normalidade, homocedasticidade e linearidade não foram cumpridos, foi realizado um Teste de Mann-Whitney U . As diferenças entre o pitch máximo das intervenções de desafio validadas e invalidadas foram também analisadas utilizando um Teste de Mann-Whitney U . RELAÇÃO ENTRE A RESPONSIVIDADE DO TERAPEUTA E A PROSÓDIA DA SUA INTERVENÇÃO 17 Resultados Tendo em conta a importância de perceber como evolui a colaboração terapêutica ao longo deste caso, a Figura 3 demonstra a evolução das intervenções do terapeuta e a Figura 4 demonstra a evolução das respostas do cliente, ao longo das sessões do processo terapêutico. Ambas as figuras apresentam a proporção das intervenções e das respostas, respetivamente. Figura 3 Intervenções do terapeuta (SCCT) Figura 4 Respostas do cliente (SCCT) 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% S1 S2 S3 S4 S5 S6 S7 S8 S9 S10 S11 S13 S14 S15 S16 SUPPORTING PROBLEM SUPPORTING INOVATION CHALLENGING 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 100% S1 S2 S3 S4 S5 S6 S7 S8 S9 S10 S11 S13 S14 S15 S16 VALIDATION INVALIDATION AMBIVALENCE RELAÇÃO ENTRE A RESPONSIVIDADE DO TERAPEUTA E A PROSÓDIA DA SUA INTERVENÇÃO 18 A partir do gráfico da Figura 3, pode-se afirmar que as intervenções do terapeuta consistiram, maioritariamente, em intervenções de desafio ( challenging ), exceto na S1, em que intervenções de suporte no problema ( supporting problem ) foram mais frequentes. Ao longo das 15 sessões, as intervenções de suporte na inovação ( supporting inovation ) foram as menos frequentes. A evolução apresentada sugere uma diminuição de intervenções de suporte no problema e uma manutenção/aumento de intervenções de desafio . Relativamente às respostas do cliente, o gráfico da Figura 4 revela que as respostas de validação ( validation ) foram as mais frequentes, em todas as sessões. As respostas de invalidação ( invalidation ) e de ambivalência ( ambivalence ) foram menos frequentes. De forma a aprofundar a compreensão deste caso, foram analisadas as quebras da colaboração ao longo das sessões. Não foram registadas respostas de invalidação após intervenções de suporte na inovação , portanto as Figuras 5 e 6 representam, respetivamente, a frequência e a proporção das quebras da colaboração divididas em 4 tipos segundo a intervenção do terapeuta (de desafio ou de suporte no problema ) e o tipo de resposta de invalidação do cliente (por risco intolerável ou por desinteresse ): challenging – intolerable risk ; challenging – disinterest ; supporting – intolerable risk ; supporting – disinterest . Figura 5 Tipos de quebras da colaboração por sessão (frequência) 0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 S1 S2 S3 S4 S5 S6 S7 S8 S9 S10 S11 S13 S14 S15 S16 CHALLENGING - INTOLERABLE RISK SUPPORTING - INTOLERABLE RISK CHALLENGING - DISINTEREST SUPPORTING - DISINTEREST RELAÇÃO ENTRE A RESPONSIVIDADE DO TERAPEUTA E A PROSÓDIA DA SUA INTERVENÇÃO 19 Figura 6 Tipos de quebras da colaboração por sessão (proporção) Com base nos gráficos das Figuras 5 e 6, é possível afirmar que as intervenções do terapeuta que mais frequentemente levaram a respostas do cliente de invalidação por risco intolerável foram intervenções de desafio ( challenging – intolerable Risk ). Nas S11 e S14, pode-se verificar uma elevada proporção de respostas do cliente de invalidação por desinteresse , ao contrário do que se verifica nas restantes sessões. Na verdade, a S11 acaba por se distinguir de todas as outras, na medida em que apresenta uma maior proporção de respostas do cliente de invalidação por desinteresse (independentemente da intervenção do terapeuta) relativamente a respostas de invalidação por risco intolerável . Já a S14 apresenta a mesma proporção de intervenções de desafio que levaram a respostas do cliente de invalidação por risco intolerável e por desinteresse ( challenging – intolerable risk = c hallenging – disinterest ), o que também não acontece em mais nenhuma sessão. Tendo em conta que os momentos de interesse deste estudo consistiram em intervenções do terapeuta de desafio , tornou-se relevante saber mais sobre os tipos de desafio presentes neste caso e sobre as diferentes respostas do cliente a essas intervenções. Por isso, a Figura 7 apresenta a proporção dos diferentes tipos de intervenções de desafio ao longo do caso, sendo que as respostas do cliente a estas intervenções encontram-se representadas na Figura 8. A Figura 9 representa os tipos de resposta do cliente de invalidação às intervenções de desafio. 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 100% S1 S2 S3 S4 S5 S6 S7 S8 S9 S10 S11 S13 S14 S15 CHALLENGING - INTOLERABLE RISK SUPPORTING - INTOLERABLE RISK CHALLENGING - DISINTEREST SUPPORTING - DISINTEREST RELAÇÃO ENTRE A RESPONSIVIDADE DO TERAPEUTA E A PROSÓDIA DA SUA INTERVENÇÃO 20 Figura 7 Tipos de desafio (proporção) Pode-se verificar, através do gráfico da Figura 7, que as intervenções de desafio por interpretação ( interpreting ) são as mais frequentes ao longo de todo o caso, representando 20% das intervenções. Pelo contrário, as intervenções de desafio por procura de evidência de mudança ( tracking change evidence ) são as menos frequentes, representando apenas 2% do total de intervenções de desafio . Figura 8 Respostas do cliente às intervenções de desafio 0% 5% 10% 15% 20% 25% INTERPRETING CONFRONTIG INVITING TO EXPLORE AN HYPOTHETICAL SCENARIO CHANGING THE LEVEL OF ANALYSIS EMPHASIZING NOVELTY/REINFORCING CLARIFYING THE PREVIOUS INTERVENTION GUIDING TRACKING CHANGE EVIDENCE INVITING TO ADOPT A NEW ACTION 0 20 40 60 80 100 120 140 160 180 S1 S2 S3 S4 S5 S6 S7 S8 S9 S10 S11 S13 S14 S15 S16 VALIDATION INVALIDATION RELAÇÃO ENTRE A RESPONSIVIDADE DO TERAPEUTA E A PROSÓDIA DA SUA INTERVENÇÃO 21 Figura 9 Tipos de respostas de invalidação do cliente às intervenções de desafio O gráfico da Figura 8 evidencia que, tendencialmente, as intervenções de desafio foram mais validadas do que invalidadas ( validation > invalidation ) ao longo de todas as sessões. Quando invalidadas, e segundo o gráfico da Figura 9, corresponderam mais frequentemente a experiências de risco intolerável do que de desinteresse ( intolerable risk > disinterest ), exceto nas S11 e S14. Com o objetivo de explorar padrões na prosódia do terapeuta associados à sua responsividade, procedeu-se à análise estatística da prosódia nos dois grupos de interesse: intervenções de desafio validadas e intervenções de desafio invalidadas . A Tabela 1 apresenta as medidas descritivas das variáveis analisadas no presente estudo e a Tabela 2 integra os resultados dos testes estatísticos (TesteT e Testes de Mann-Whitney U ). Tabela 1 Medidas descritivas 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 100% S1 S2 S3 S4 S5 S6 S7 S8 S9 S10 S11 S13 S14 S15 S16 INTOLERABLE RISK DISINTEREST Intervenções de desafio validadas (n=174) Intervenções de desafio invalidadas (n=49) Medida prosódica Md DP Md DP Pitch médio 214.90 16.21 212.81 15.56 Pitch mínimo 186.21 17.24 188.20 14.97 Pitch máximo 260.10 38.89 254.47 41.91 RELAÇÃO ENTRE A RESPONSIVIDADE DO TERAPEUTA E A PROSÓDIA DA SUA INTERVENÇÃO 22 Tabela 2 Diferenças nas medidas prosódicas entre as intervenções de desafio validadas e invalidadas Variável Intervenções de desafio validadas (n=174) Intervenções de desafio invalidadas (n=49) t U p Mean rank Mean rank Pitch médio (Hz) 0,803 0,423 Pitch mínimo (Hz) 110,00 119,09 4610,5 0,384 Pitch máximo (Hz) 114,56 102,91 3817,5 0,264 O Teste-T que se realizou para perceber se existiam diferenças significativas entre o pitch médio das intervenções de desafio validadas e invalidadas revelou-se não significativo ( t = 0,803, p = 0,423). Os dois Testes de Mann-Whitney U realizados para analisar as diferenças entre (1) o pitch mínimo das intervenções de desafio validadas e invalidadas e (2) o pitch máximo das intervenções de desafio validadas e invalidadas mostraram-se também não significativos ( p > .05). Pode-se concluir que não existem diferenças estatisticamente significativas entre o pitch médio, mínimo e máximo das intervenções de desafio validadas e invalidadas . Discussão O presente estudo centrou-se em explorar possíveis padrões prosódicos nas intervenções de desafio por parte do terapeuta associados à sua responsividade, num caso clínico de sucesso. A partir da análise dos dados, foi possível perceber como evoluiu a colaboração terapêutica ao longo do caso – as intervenções do terapeuta foram mais frequentemente seguidas de respostas de validação do que de invalidação , o que indica uma resposta positiva do cliente à abordagem terapêutica e à dinâmica relacional estabelecida com o terapeuta. Ao ser responsivo e ajustar a maior parte das suas intervenções às necessidades do cliente em cada momento, o terapeuta permitiu que, ao longo do processo, o trabalho terapêutico ocorresse, maioritariamente, de forma colaborativa, dentro da ZDPT do cliente e que se aproximasse mais vezes do seu nível de desenvolvimento potencial do que atual, tendo em conta que Nota . N = 223 RELAÇÃO ENTRE A RESPONSIVIDADE DO TERAPEUTA E A PROSÓDIA DA SUA INTERVENÇÃO 23 intervenções de desafio foram mais frequentes do que intervenções de suporte no problema ou na inovação . Para além de mais frequentes, as intervenções de desafio , que convidam o cliente a adotar uma nova perspetiva, foram mais validadas do que invalidadas, possivelmente desempenhando um papel central nos ganhos terapêuticos. Ao longo do caso, foram também observadas quebras da colaboração terapêutica, que corresponderam mais frequentemente a experiências de risco intolerável associadas a intervenções de desafio , que excederam os limites da ZDPT do cliente. Essas respostas de invalidação por risco intolerável refletem a complexidade do processo terapêutico e indicam que o terapeuta, ao desafiar e propor a mudança de perspetiva do cliente, não foi responsivo às suas necessidades imediatas e à sua prontidão para a mudança, o que fez com que o cliente discordasse da proposta do terapeuta e defendesse a sua perspetiva habitual. Tendo em conta (1) que os momentos de interesse deste estudo foram as intervenções de desafio validadas e invalidadas e (2) que as intervenções do terapeuta percebidas como mais empáticas e amigáveis são caracterizadas por um pitch médio mais baixo (Kykyri et al., 2016; Tao et al., 2022), o que se esperava é que as intervenções de desafio validadas , que se pressupõem como mais empáticas e responsivas às necessidades do cliente, apresentassem um pitch médio mais baixo do que as intervenções de desafio invalidadas , menos empáticas e responsivas, o que não se verificou neste caso. O que os resultados da análise deste estudo sugerem é que a prosódia das intervenções do terapeuta de desafio não varia de acordo com a sua responsividade. Estes resultados devem ser compreendidos no contexto do caso clínico específico em estudo, não se pretendendo generalizar a outros casos. A ausência de diferenças estatisticamente significativas pode indicar que é preciso ter em atenção outras variáveis da interação e comunicação terapêuticas, como as competências interpessoais do terapeuta e a sua experiência profissional, que influenciam a resposta do cliente (Hatcher, 2015). Hipotetiza-se que um terapeuta mais experiente, como o deste caso – com 22 anos de prática clínica, poderá apresentar uma menor variabilidade na prosódia em função do tipo de intervenção, associada à sua capacidade para regular o seu pitch de forma adequada, como Buchholz & Reich (2015) sugerem, fazendo com que a resposta do cliente de validação ou de invalidação não dependa tanto da forma como o terapeuta intervém, mas mais do conteúdo verbal da sua proposta. Esta capacidade do terapeuta para ajustar a sua comunicação de forma eficaz ao longo do processo terapêutico poderá estar associada ao desenvolvimento de um clima de confiança, segurança e colaboração, que permitiu que o cliente validasse ou invalidasse a intervenção do terapeuta, sem que isso dependesse da sua prosódia. RELAÇÃO ENTRE A RESPONSIVIDADE DO TERAPEUTA E A PROSÓDIA DA SUA INTERVENÇÃO 30 Ribeiro, E., Ribeiro, A. P., Gonçalves, M. M., Horvath, A. O., & Stiles, W. B. (2013). How collaboration in therapy becomes therapeutic: The therapeutic collaboration coding system. Psychology and Psychotherapy: Theory, Research and Practice , 86 (3), 294–314. https://doi.org/10.1111/j.2044-8341.2012.02066.x Ribeiro, E., Gonçalves, M. M., & Pinto, D. (2021). Therapeutic collaboration in narrative therapy. In Watson, J., & Wiseman, H. (Eds.), Psychotherapy and therapeutic collaboration (pp. 195-218). Guilford Press. Rochman, D., Diamond, G. M., & Amir, O. (2008). 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