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Universidade do Minho Escola de Letras, Artes e Ciências Humanas Maria Francisca Machado Olim Marote Henriques Ensino de Chinês Língua Estrangeira: estratégias utilizadas nos Cursos Livres no Instituto Confúcio da Universidade do Minho abril de 2024 Maria Henriques Ensino de Chinês Língua Estrangeira: estratégias utilizadas UMinho | 2024 nos Cursos Livres no Instituto Confúcio da Universidade do Minho
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Universidade do Minho Escola de Letras, Artes e Ciências Humanas Maria Francisca Machado Olim Marote Henriques Ensino de Chinês Língua Estrangeira: estratégias utilizadas nos Cursos Livres no Instituto Confúcio da Universidade do Minho Relatório de Estágio Mestrado em Estudos Interculturais Português/Chinês: Tradução, Formação e Comunicação Empresarial Trabalho efetuado sob a orientação da Professora Doutora Bruna Patrícia Cardoso Peixoto abril de 2024
ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual CC BY-NC-SA https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/4.0/
iii Agradecimentos À Professora Doutora Bruna Peixoto o meu agradecimento por todo o auxílio prestado ao longo do meu percurso académico e por me tranquilizar em todos os momentos do mesmo. Ao Instituto Confúcio da Universidade do Minho e à Professora Bárbara um sincero obrigado pela oportunidade de viver o meu sonho de trabalhar na área do ensino. A todos os docentes que me acompanharam durante o meu percurso académico, obrigada por acreditarem em mim e no meu potencial. À minha família, obrigada por todo o apoio, amor e carinho. Aos meus incansáveis avós que estiveram lá para me confortar nos momentos mais difíceis, aplaudir todas as minhas conquistas e pequenos treinos de apresentações em chinês e ouvir atenta e entusiasticamente os meus relatos sobre o meu percurso. Aos meus pais que apoiaram desde sempre o meu sonho e escolhas e me deram confiança para encarar todas as adversidades. À minha irmã por ser um exemplo de força e superação para mim. À minha avó que, mesmo não estando cá, é a minha maior inspiração e influência na área do ensino. Esta vitória também é deles. A todos os meus amigos e colegas.
iv DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho.
v Ensino de Chinês Língua Estrangeira: métodos utilizados nos Cursos Livres no Instituto Confúcio da Universidade do Minho Resumo Atualmente, o interesse na aprendizagem de chinês tem vindo a tomar grandes proporções, sendo cada vez maior a procura de instituições de ensino da língua chinesa não só por parte de jovens, como também por parte de adultos. O Instituto Confúcio da Universidade do Minho constitui uma referência no ensino de chinês, na medida em que disponibiliza opções para todo o tipo de aprendentes, em escolas básicas, bem como em cursos livres para adultos. O presente relatório aborda o funcionamento dos últimos ao longo dos três capítulos que o constituem, e tem como objetivo a análise das diversas estratégias utilizadas no ensino de Chinês Língua Estrangeira a adultos. Primeiramente, é feita uma apresentação ao Instituto Confúcio da Universidade do Minho, bem como das tarefas desempenhadas ao longo dos quatro meses de estágio na instituição. No segundo capítulo, faz-se a diferenciação entre aprendentes jovens e adultos e, posteriormente, uma abordagem sobre estratégias de ensino e o significado do estudo da cultura e acompanhamento de um professor que partilhe a mesma língua materna que os aprendentes durante o início da aprendizagem de uma língua estrangeira. Por fim, apresenta-se o desenvolvimento de conteúdos em formato PowerPoint para o ensino de chinês a cursos livres para adultos realizado ao longo do estágio. Palavras-Chave: Chinês como língua estrangeira; Cursos Livres; Ensino de chinês; PowerPoint
vi Teaching Chinese as a Foreign Language: strategies used in open courses at University of Minho’s Confucius Institute Abstract Currently, the interest in learning Chinese has reached great proportions, with an increasing demand for Chinese language teaching institutions not only by young people, but also by adults. The Confucius Institute of University of Minho is a reference in the Chinese teaching area, as it offers options for all types of learners, in basic schools, as well as in open courses for adults. This report addresses the functioning of the latter throughout the three chapters that constitute it. First, an introduction of University of Minho’s Confucius Institute is made, as well as the tasks performed during the four months of internship at the institution. In the second chapter, a distinction is made between young and adult learners and, later, an approach to teaching strategies, and the significance of the study of culture and presence of a teacher who shares the same mother tongue as the learners during the beginning of learning a foreign language. Lastly, the development of content in PowerPoint format for Chinese teaching in courses for adult learners is discussed. Keywords: Chinese as a foreign language; Chinese teaching; Open courses; PowerPoint
vii 对外汉语教学: 米尼奥大学孔子学院汉语公开课的教学策略 摘要 近年来,人们对学习汉语的兴趣越来越浓厚,越来越多的年轻人和成年人开始寻求汉语 教学服务。米尼奥大学孔子学院是汉语教学领域的知名机构,它为有不同需求的学习者 提供选择,包括基础教育和成人自选课程。本报告介绍了米尼奥大学孔子学院成人汉语 课程的运作方式,分为三部分,旨在分析成人汉语作为外语教学的各种策略。首先,介 绍了米尼奥大学孔子学院以及本人在该机构四个月的实习期间所承担的任务。第二章分 析了年轻学习者和成年学习者的差异,并探讨了相应的教学策略以及文化教学的重要性, 并提出了在初始学习外语阶段为学生配备母语相同的汉语教师的重要性。最后,还介绍 了作者在实习期间为成人自由课程开发的汉语教学课件的内容。 关键词: 对外汉语; 汉语教学; 课程; 教学课件
4 Outros exemplos de ações incluem atividades culturais, tais como worskshops (de gastronomia, caligrafia, jogos tradicionais, entre outros), celebrações de festividades chinesas, conferências, cursos breves e semanas temáticas com dinâmicas de cultura chinesa. O Instituto Confúcio desempenha também um relevante papel a respeito do concurso Chinese Bridge, uma competição para estudantes estrangeiros sobre o domínio da língua e cultura chinesas, organizada pelo Instituto Confúcio Central, com o objetivo de promover o chinês a um nível global. O Instituto Confúcio da Universidade do Minho atua disponibilizando professores responsáveis por auxiliar e preparar alunos interessados no mesmo, havendo já histórias de sucesso com alunos de ensino secundário e universitário. Os participantes que chegam à fase final do concurso têm oportunidade de viajar para a China, para disputar o primeiro lugar na competição. Além das atividades previamente mencionadas, o Instituto Confúcio da Universidade do Minho aloja a realização dos exames oficiais de língua chinesa, nomeadamente o Teste de Chinês para Jovens 1 (YCT, Youth Chinese Test ), o Exame de Nível de Chinês 2 (HSK, Hanyu Shuiping Kaoshi), que compreende seis níveis de língua, e o Teste de Chinês Comercial 3 (BCT, Business Chinese Test ), providenciando aos participantes o único certificado oficial que prova o nível de língua do aprendente. Estes exames estão divididos em seis, quatro e dois níveis, respetivamente. Nas atividades letivas acima descritas, é feita preparação para certificação do nível de língua durante as aulas. Também no âmbito do nível de proficiência na língua chinesa, é fornecida ajuda aos alunos do Instituto na sua candidatura a bolsas de estudo do Instituto Confúcio Central. A ponte feita entre os dois Institutos facilita o sucesso na aquisição de bolsa e garante uma maior probabilidade de estudar numa universidade chinesa. 1.3. Tarefas No decorrer do estágio, foram desenvolvidas várias tarefas relacionadas com a preparação de materiais para o ensino de Chinês Língua Estrangeira, bem como aulas e exames oficiais de proficiência de língua. 1.3.1. Desenvolvimento de material didático para Cursos Livres de Nível Básico I 1 中小学生汉语考试( zh ō ng xi ǎ oxuésh ē ng hàny ǔ k ǎ oshì ) 2 汉语水平考试( hàny ǔ shu ǐ píng k ǎ oshì ) 3 商务汉语考试( sh ā ngwù hàny ǔ k ǎ oshì )
5 Durante o primeiro mês de estágio foi estipulado um acompanhamento de aulas de língua chinesa com um máximo de 10 horas semanais. Estas 10 horas foram distribuídas por escolas do distrito de Braga e cursos livres ministrados na Universidade do Minho, sendo dada prioridade às aulas com relação com o tipo de conteúdos a desenvolver, no caso, cursos livres para adultos podendo, no entanto, assistir a qualquer tipo de aulas e níveis de ensino que fossem do meu interesse, uma vez que poderia, desta forma, acostumar-me com as diferentes vertentes do ensino da língua chinesa. Esta observação teve como objetivo a familiarização com as atividades letivas e turmas, para aprendizagem e posterior seleção de cursos/turmas para uma experiência de lecionação. Ao frequentar as escolas onde o Instituto Confúcio atua e cursos livres que disponibiliza, criou-se oportunidade de observar métodos utilizados pelos docentes e os conteúdos desenvolvidos pelos mesmos, algo fulcral à criação dos meus próprios conteúdos (objetivo final de estágio). Para além disso, foi-me possível analisar as diferentes turmas, a heterogeneidade existente entre si, e as dinâmicas inerentes às mesmas, bem como as estratégias adotadas pelos docentes para lecionar em cada uma delas. Esta heterogeneidade está também presente ao nível dos docentes e, portanto, o acompanhamento de aulas serviu, também, como oportunidade para explorar as diferenças fundamentais entre o ensino ministrado por portugueses e por chineses. Apesar de haver já experienciado ensino não só por parte de professores portugueses, como também chineses e japoneses, as conclusões retiradas de um ponto de vista externo, como estagiária, diferem daquelas retiradas como aprendente, uma vez que o meu foco se encontrou no método propriamente dito e nos seus resultados a um nível global, ao invés de a um nível individual. Com as noções retiradas a partir desta observação e com base nos exemplos e materiais que me foram sendo providenciados pelos diversos docentes do Instituto Confúcio durante este primeiro mês, pude começar a trabalhar no objetivo final do estágio: o desenvolvimento de material didático para Cursos Livres de Nível Básico I, correspondentes ao grau de HSK 1. Devo mencionar que outro grande apoio ao desenvolvimento destes materiais teve por base um momento formativo que teve lugar aquando do início do estágio. Para além de uma apresentação sobre o Instituto Confúcio e os seus projetos e objetivos, foi-me dada uma formação onde pude ter uma noção prévia daquilo que seria a estrutura de uma aula de língua chinesa lecionada por um docente da instituição e, também, de como poderia criar aulas e materiais com recurso a algumas ferramentas complexas do Powerpoint. A importância deste momento deve-se
6 ao facto de, no mundo do ensino, ser de extrema relevância proporcionar aos alunos aulas e conteúdos dinâmicos, com inúmeras animações e estímulos para prender a atenção dos mesmos e alimentar a sua motivação. Nos três meses que se seguiram, fiquei responsável por cinco lições por mês com base no manual de HSK1. O desenvolvimento de materiais foi feito “a pares”, em simultâneo, uma vez que o seu propósito é serem utilizados em aulas de oralidade e de escrita, cujo ritmo tem de estar sincronizado, para que o avanço na língua e lições do manual coincida semana após semana no decorrer dos cursos livres. Para assegurar que tal estava a ser concretizado, realizaram-se reuniões semanais com a orientadora e com o meu par de estágio, a minha colega Dong Sijia, que estava encarregue do desenvolvimento de materiais de oralidade e audição, para que fosse feita revisão de conteúdos e aconselhamento. Estes materiais, desenhados à semelhança daqueles que são utilizados por professores no ativo, têm a finalidade de ser padronizados para uso de qualquer docente que necessite, em qualquer turma de nível HSK1, de utilizar os mesmos para aulas no Instituto Confúcio. Em situação real, cada docente poderá fazer as suas próprias alterações aos materiais, de acordo com as necessidades da turma e o ritmo a que estas progridem no ensino. 1.3.2. Preparação e lecionação de aulas em escolas e cursos livres Na primeira semana de abril, e no seguimento da entrada da primavera, o Instituto organizou aulas culturais em todas as escolas onde atua, bem como cursos livres para jovens que têm lugar na universidade ou decorrem em regime online. Durante estas aulas, tive oportunidade de auxiliar os alunos na aprendizagem do nó e recortes chineses. A importância desta iniciativa deve-se ao facto de, para envolver os alunos de forma mais eficaz na aprendizagem da língua, ser essencial o recurso a outros estímulos, como por exemplo, atividades com base em trabalhos manuais. Estas emergem também os aprendentes na cultura chinesa, aumentando o seu conhecimento sobre a mesma e sobre diversos costumes e o modo como o povo chinês age, o que é muito proveitoso para os aprendentes, sendo que uma compreensão profunda da cultura é um forte pilar ao exercício da língua. No caso, os alunos tiveram a oportunidade de experienciar em primeira pessoa algumas das atividades que têm lugar aquando da celebração do Festival da Primavera, enquanto eu, como estagiária, tive a possibilidade de trabalhar com turmas de diferentes dimensões e faixas etárias.
7 A importância do nó chinês remonta a festividades como a celebração do Ano Novo Chinês ou comemoração do Festival da Primavera. O nó ensinado nestas aulas foi o “nó Wan” (万字结, wànzì jié ), um nó simples, ainda assim bastante importante na arte, que simboliza fortuna, longevidade e a reunião de ideias e virtudes auspiciosas. Numa tentativa de fortalecer laços intraturma, foi dada uma introdução ao nó, onde foi utilizada uma analogia sobre a nossa força (menor quando sozinhos, maior quando acompanhados), uma vez que o caracter de “nó” (结, jié ) possui, também, significados como “ligar”, “conectar” ou “solidificar”. Foi, desta forma, explicitada a importância que este símbolo de fortuna e boa sorte transporta consigo. No caso do recorte, o caracter escolhido foi “春” ( ch ū n , Primavera), adequado à época da entrada da primavera, que coincidiu com a realização destas aulas. Este caracter tem associados a si diferentes significados: primavera, jovialidade, vitalidade. A sua explicação trouxe aos alunos uma perspetiva diferente sobre a complexidade e versatilidade dos caracteres chineses, que adquirem diferentes sentidos consoante o contexto em que estão inseridos. Se a realização de atividades culturais for “apenas para animar o ambiente de sala de aula e por pura diversão, então terá pouca significância. Se for possível combinar cultura com diversão, matamos dois coelhos com uma cajadada só” 4 (Ren, 2016, p.9). Por este motivo, é importante fornecer aos alunos explicações sobre as atividades desenvolvidas. Após o primeiro mês de estágio, o qual foi dedicado à observação de aulas do Instituto Confúcio, foi feita a seleção de escolas e cursos a visitar para experiência de ensino. Neste âmbito, foi importante a escolha não só de uma escola básica, como também de um curso livre para adultos, para que pudesse usufruir da oportunidade de experimentar dois contextos de ensino diferentes, desenvolver conteúdo seguindo modelos apropriados a ambos e, por fim, ter uma perspetiva sobre aquele que se adequa melhor a mim como potencial futura docente. O objetivo principal desta experiência foi, assim, pôr em prática e à prova aquilo que absorvi durante o primeiro mês de estágio e, para a minha orientadora, avaliar a minha aptidão na execução desta tarefa. Aquando da planificação, entrei em contacto com a docente que, por norma, dirige as aulas nas escolas e cursos de interesse, para delinear datas e conteúdos a lecionar, uma vez que poderia escolher de entre várias componentes, sendo estas vocabulário, gramática, exercícios e/ou jogos. 4 “如果只是活跃课堂气氛,纯粹为了玩,那它的意义就不大。而如果能“寓文化于乐”则会一举两 得.” TdA.
8 Após definição dos cursos e turmas, comecei o desenvolvimento de slides para a porção de aula que me seria disponibilizada (com duração de 15 minutos), tendo em conta a componente escolhida, no caso, gramática. 1.3.4. Outras atividades Ao longo do estágio prestei o meu auxílio a algumas iniciativas do Instituto, que destaco de seguida. É pertinente mencionar a organização de materiais para a realização dos exames oficiais de língua chinesa HSK e YCT, com lugar na Universidade do Minho. Estes materiais incluíram, com base na listagem dos participantes, a organização de folhas de participação, materiais a serem dispostos na mesa de cada aluno inscrito, material de escritório obrigatório à realização do exame, posters informativos, sinais de orientação com o objetivo de ajudar os alunos a encontrar o local de exame, entre outros. Esta atividade proporcionou-me uma noção diferente daquilo que são os exames oficiais de chinês, pois foi apresentada a perspetiva daquele que exerce a função de docente, ao invés da perspetiva que já havia experienciado como aluna, à data da realização dos meus exames oficiais de língua. Uma das funções que compete aos professores é a preparação de momentos de avaliação e, ainda que os exames de HSK constituam um método de avaliação de nível de língua, distinguindo-se, por este motivo, da avaliação em sala de aula, cujo objetivo é a averiguação da evolução da aprendizagem dos alunos, esta foi uma experiência enriquecedora. A segunda atividade a destacar relaciona-se com o Concurso Chinese Bridge. Todos os anos o Instituto Confúcio da Universidade do Minho encoraja os seus alunos de nível secundário e universitário a participar no concurso Chinese Bridge, concurso este promovido pelo Instituto Confúcio Central e destinado a estudantes estrangeiros, onde é posta à prova a sua proficiência na língua chinesa e, caso assegurado um lugar nos dois finalistas, dada a oportunidade de viajar para a China e competir na etapa final. No âmbito da preparação para participação no concurso, o Instituto Confúcio disponibiliza professores para acompanhar e auxiliar os interessados. No caso dos estagiários, estes ficaram encarregues de traduzir os materiais (originalmente em chinês) com informações pertinentes para os participantes. Estes materiais foram distribuídos por pares de estagiários com um membro de origem portuguesa e um membro de origem chinesa, para que a tradução fosse o mais precisa
9 possível, bem como natural e polida na língua de chegada, no caso, o português. A mim, bem como ao meu par, a minha colega chinesa Dong Sijia, foram atribuídos materiais destinados aos alunos de ensinado secundário. 1.4. Ferramentas utilizadas durante o estágio Durante o estágio foram utilizadas duas ferramentas principais para o desenvolvimento de material didático para Cursos Livres de Nível Básico I. A primeira delas foi o programa Microsoft PowerPoint. Apesar de ter trabalhado com o mesmo durante todo o meu percurso académico, desconhecia algumas das suas ferramentas para a criação de exercícios animados ou jogos didáticos, as quais tive oportunidade de explorar com a ajuda de uma das docentes do Instituto num momento formativo previamente mencionado. Num contexto de aula, diapositivos representam uma grande ajuda no ensino e aprendizagem das matérias, servindo de base para a apresentação simplificada e acessível de material, conteúdo audiovisual, exercícios para toda a turma em simultâneo, jogos, entre outros. Este programa constitui, desta forma, não só uma muleta para o professor, como também para o aluno, e os documentos que foram sendo criados puderam ser facilmente partilhados e editados entre mim, a minha orientadora na instituição e os demais docentes. A segunda ferramenta utilizada durante o estágio foi um manual de língua chinesa disponibilizado pelo Instituto Confúcio para servir de apoio à criação dos documentos PowerPoint: o livro HSK Standard Course 1. Este livro foi desenvolvido para iniciantes que precisem de adquirir noções e competências básicas de língua chinesa, com o objetivo de preparar os mesmos para a realização do primeiro nível do exame official de chinês, o HSK I (汉语水平考试一级, Hàny ǔ shu ǐ píng k ǎ oshì y ī jí ). Para tal, o manual oferece, ao longo de 15 lições, materiais e propostas de atividades ao nível da escrita, leitura e gramática, bem como ao nível da oralidade e audição. Cada uma das 15 lições presentes no manual aborda um tema diferente e segue a seguinte estrutura: 1. Palavras novas; 2. Três diálogos; 3. Pontos gramaticais e exemplos; 4. Exercícios; 5. Pinyin (拼音 5 , p ī ny ī n ); 6. Caracteres chineses; 7. Atividades de par/grupo; 8. Curiosidades culturais. Com recurso a estas duas ferramentas, fiquei encarregue do desenvolvimento de materiais em formato de slides . Foi designado que deveria seguir a estrutura e conteúdos gerais do manual, 5 Sistema de romanização do mandarim padrão, desenvolvido pelo governo chinês.
10 no entanto, foi-me dada total liberdade para abordar os últimos da forma que achasse adequada ao tipo de alunos a que o material se destinava. Pude, desta forma, explorar formas variadas de navegar e expor os conteúdos de língua, bem como criar exercícios e materiais diferentes daqueles que são propostos pelo livro, para que os alunos pudessem ter acesso a diferentes tipos de abordagem e aplicação de conhecimento. Uma vez que o manual que serve de base às aulas se encontra em inglês, este material constitui também um instrumento de ensino e aprendizagem mais acessível a docentes e aprendentes que tenham como língua materna o português. Por fim, relativo a questões de comunicação interna, foi estipulado que todo o contacto com docentes e a direção dos projetos de ensino fosse feito através do aplicativo Whatsapp e/ou via email, caso fosse necessário anexar documentos.
11 Capítulo II: Ensino de Chinês Língua Estrangeira: Métodos Utilizados com Aprendentes Adultos nos Cursos Livres do Instituto Confúcio da Universidade do Minho 2. Os aprendentes Os aprendentes a que se refere este capítulo dividem-se em duas categorias, jovens e adultos, sendo os últimos todos aqueles com idade igual ou superior a 18 anos. Segue-se uma análise das suas motivações, métodos de estudo, diferenças comportamentais e possíveis dificuldades a enfrentar na sua instrução. 2.1. Breve comparação entre aprendentes jovens e adultos Previamente à análise dos métodos utilizados com aprendentes adultos no ensino de Chinês Língua Estrangeira (LE), é importante não só analisar aquilo que caracteriza este grupo, como também aquilo que o distingue dos lecionandos jovens. Segundo Papa-Gusho e Biçaku-Çekrezi (2014, p. 63-64), “um aluno adulto é produto de uma cultura e determinadas circunstâncias políticas, sociais e económicas”. 6 Assim sendo, estes poderão apresentar uma grande variedade de competências, experiências pessoais e profissionais, ocupações, backgrounds culturais e personalidades, moldadas pelos contextos onde se desenvolveram e/ou encontram. Por este motivo, estes poderão, por norma, mostrar-se mais motivados na aprendizagem de matérias que possam ter relação com ou relevância nestes enquadramentos. Por sua vez, os aprendentes jovens carecem ainda de uma influência mais profunda dos fatores externos previamente mencionados e os mesmos, por norma, não diferem drasticamente de criança para criança. Outra das distinções fundamentais que pode ser estabelecida entre aprendentes jovens e adultos diz respeito ao papel da aprendizagem nas suas vidas e as suas motivações para aquisição de conhecimentos. A prontidão dos jovens para aprender diz respeito ao seu desenvolvimento académico e biológico e ao facto de, nesta fase das suas vidas, o seu principal dever ser o estudo. No caso dos aprendentes adultos, “(…) esta [aprendizagem] está mais diretamente ligada a necessidades, quer sejam de cumprimento dos seus papéis como trabalhadores, cônjuges, pais, entre outros, ou gestão de mudanças nas suas vidas, como separações, reformas ou luto” (PapaGusho & Biçaku-Çekrezi, 2014, p. 70). Estes fatores limitam o tempo disponível para o estudo e 6 Todas as traduções de obras não portuguesas são tradução do autor (TdA).
12 revisão de matérias e obrigam a uma triagem da apuração dos conteúdos que serão apresentados a cada um dos grupos, de forma a garantir que os mesmos vão ao encontro dos seus objetivos e necessidades. É também importante sublinhar que a decisão de um adulto quanto ao ingresso na aprendizagem de uma nova língua concerne-lhe, por norma, unicamente a si, enquanto é comum, no caso das crianças e jovens, que a escolha parta dos seus pais ou responsáveis legais. Fang (2018, p. 655) sublinha a importância de ter em atenção as “características próprias dos adultos na aprendizagem de línguas”. O autor reforça a necessidade de determinar o objetivo da aprendizagem e a direção que esta deverá seguir, contruindo um sistema de treino de língua e diz-nos que “existem fatores limitantes da eficácia na aprendizagem de línguas, como estrutura cognitiva, inteligência e não inteligência. Como um grupo de aprendizagem distinto, os alunos adultos têm um nível cognitivo especial, características e diferenças de personalidade, e singularidade ao aprender línguas” (Fang, p. 655). Com base nestes fatores, conclui que o ensino terá de ser adaptado àqueles a quem se destina, pois cada aluno poderá responder de forma distinta a métodos, técnicas e atividades diferentes. O Instituto Confúcio da Universidade do Minho atua, essencialmente, a dois níveis: escolas básicas do distrito de Braga e cursos livres com lugar no campus de Gualtar da Universidade. Ao longo do primeiro mês de estágio, o denominado mês de observação, tive oportunidade de frequentar aulas dadas em várias destas escolas e cursos e recolher informação pertinente para o estabelecimento da comparação mencionada. De uma forma geral, as turmas de ensino básico que visitei eram multiculturais, com alunos de diferentes nacionalidades, e por norma compostas por alunos de turmas diferentes do mesmo ano escolar. A primeira escola que visitei foi a EB 1,2 de Lamaçães, onde a língua chinesa é lecionada em turmas numerosas nas quais se verifica, por consequência, alguma agitação. No entanto, os alunos mostram-se bastante concentrados e entusiasmados na realização de jogos e atividades semelhantes. Em segundo lugar, visitei a EB 2,3 André Soares, onde a turma de nível I é bastante numerosa, multicultural e com vários tipos de aluno (mais e menos participativos). A turma de nível II não tem tantos alunos quanto a de nível I, o que torna mais fácil motivar cada aluno individualmente a sentir-se à vontade para colaborar com as atividades da aula. Assisti, também, com regularidade às aulas do Colégio Teresiano, onde a turma tem uma dimensão bastante reduzida em comparação com as anteriores. A turma é, consequentemente, mais calma e cooperativa, uma vez que é possível chegar a todos os alunos e apelar à sua atenção. Na EB 2,3
13 Gualtar a turma é relativamente numerosa, mas os alunos mostraram-se sempre participativos e ordeiros. Pude verificar que, neste nível de ensino, na sua maioria, os alunos sentem-se bastante entusiasmados no ato de participar e ir ao quadro pois veem o seu empenho reconhecido. Há também uma mudança de postura quando são introduzidas canções, jogos, competições de grupos ou a pares, entre outros, tornando-se mais visível a motivação e vontade de participar dos alunos. Quando as aulas se baseiam apenas na transmissão de matéria do professor para os alunos, estas tornam-se monótonas para os últimos, o que abre espaço para mais distração entre os mesmos. Relativamente aos Cursos Livres do Instituto Confúcio, frequentei as aulas de três deles: Básico I e Intermédio I de Língua e Cultura Chinesas e Chinês Turístico e Comercial Básico I. Abordarei, agora, com mais pormenor cada uma delas. A turma de Língua e Cultura Chinesas Básico I é jovem, constituída maioritariamente por alunos universitários, alunos estes que pedem que as professoras expliquem de novo, que escrevam caracteres no quadro, mostram vontade de saber e aprender mais, não tendo medo de errar e pedir clarificações. A turma de nível Intermédio I, por sua vez, é constituída por trabalhadores de diversas áreas, que manifestam grande vontade de aprender, sendo bastante diligentes na realização das tarefas de aula e de casa. É notório que estes se mostram muito curiosos sobre factos e anotações sobre cultura chinesa e esta é a chave para dinamizar a aula. Em Chinês Turístico e Comercial Básico I, comparativamente com outras turmas de curso livre, a turma não se demonstra, no geral, tão entusiástica, o que pode ter que ver com a dinâmica interna da turma, influência de fatores externos, tais como trabalho, ou o facto de, no caso deste curso, as duas aulas semanais de língua chinesa se encontrarem condensadas no mesmo dia. As turmas de curso livre são bastante heterógenas não apenas no sentido em que podemos encontrar indivíduos provenientes de diferentes backgrounds culturais, como também na medida em que se trata de alunos universitários e/ou trabalhadores de diversas áreas que, consequentemente, adotam diferentes posturas e possuem diferentes objetivos de aprendizagem. Quando em comparação com as turmas de ensino básico, nos cursos livres, verifica-se um maior à vontade nos alunos para interagir entre si. No entanto, quando o foco é reservado a um aluno, este sente-se, por norma, mais constrangido. São exemplo disso situações de resposta em voz alta ou ida ao quadro. Este fenómeno de inibição diverge daquele presenciado em turmas
20 apresentadas. Um aprendente de chinês de língua materna portuguesa, por exemplo, dificilmente poderá, quando num primeiro contacto com a língua chinesa, compreender aquilo que lhe é apresentado se não houver recurso à língua com a qual está familiarizado. No caso do chinês, Halliday (2014), com base na sua experiência de ensino da língua, defende ainda que os melhores professores para alunos adultos no início do seu estudo são aqueles que falam a sua língua materna, ao invés de nativos chineses, uma vez que “iniciantes maduros são mais bem ensinados por pessoas que aprenderam o idioma de uma perspetiva externa, como eles próprios estão a fazer” (Halliday, 2014, p. 3). Acrescenta também que os mesmos precisam de explicações genuínas dos padrões e princípios da língua e que, só num estágio mais tardio, deverão ser introduzidos os falantes nativos, quando os aprendentes tiverem dominado as noções básicas da língua chinesa. Professores não-chineses poderão, através das suas experiências, antecipar as potenciais dificuldades dos aprendentes, uma vez que não se encontram equipados com aquilo que muitas vezes são, na verdade, mitos sobre a língua. Isto é, um professor de origem chinesa poderá considerar erroneamente um elemento da língua como o mais difícil de assimilar e dominar por parte dos alunos estrangeiros e enfatizá-lo durantes as suas aulas, falhando na identificação dos elementos que merecem, de facto, mais atenção e reforço. Outros autores apoiam esta posição, afirmando que “é necessário desenvolvimento profissional para que os professores (nativos) desenvolvam pedagogia intercultural num contexto global” (Du et al., 2017, p. 8), uma vez que existe, de facto, uma tendência para estes tornarem Chinês Língua Estrangeira uma tarefa mais árdua. Xiong e Eamoraphan (2020, p. 243) consideram que os “professores não-nativos têm expectativas mais realistas dos estudantes”, o que pode deixar iniciantes mais confortáveis durante a aprendizagem da língua. Uma vez seguros, estes sentir-seão mais confiantes para empregar os novos conhecimentos adquiridos. Wang (2010) estudou o uso do inglês como língua franca no ensino de chinês para falantes de outras línguas e defende que o seu uso durante a aprendizagem de uma nova língua serve três propósitos: o metodológico, o social e o cognitivo. Enquanto o metodológico diz respeito ao esclarecimento de significados e matérias para assegurar compreensão dos conteúdos, o social tem relação com o uso da língua materna para elogiar, encorajar ou instruir os aprendentes. Por fim, “os benefícios cognitivos podem ser especialmente relevantes em contextos de aprendizagem onde a carga cognitiva de muitas tarefas é pesada e as habilidades na língua-alvo dos alunos são limitadas” (Wang, 2010, p. 14). O recurso a uma língua com a qual os alunos estão familiarizados e se encontram confortáveis a comunicar beneficiará não só as práticas de instrução dos
21 professores, como também o processo de aquisição dos aprendentes. Um outro estudo referente ao uso da língua materna para o ensino de chinês a estudantes do Sri Lanka conclui que “a maioria dos alunos prefere instrução bilingue ou trilíngue na sala de aula, onde se espera que a sua língua materna, cingalês ou inglês, envolva instruções, descrições e esclarecimentos de elementos linguísticos da língua-alvo” (Dassanayake, 2021, p. 27). Deste modo, “a função mais proeminente do uso da L1 é envolver os alunos com menor proficiência e os introvertidos nas atividades de sala de aula. Como resultado, estes verão uma melhoria significativa na sua motivação” (Jalaluddin, 2022, p. 26). A motivação constitui um dos maiores motores para aprendizagem e, através do uso da primeira língua dos alunos, o professor poderá maximizar a eficiência das suas atividades educativas. Jalaluddin (2022, p. 25-26) destaca, ainda, num estudo que compreende a visão de três professores de língua, outras vantagens deste uso. Estas incluem criar conexões mais próximas entre professores e alunos, facilitar a partilha de feedback , acelerar o processo de aprendizagem, uma vez que este deixará de estar dependente apenas da língua-alvo, ou promover a compreensão intercultural por comparação de aspetos culturais ou explicação de conceitos inexistentes na primeira língua dos alunos. Por fim, Brooks-Lewis (2009, p. 234), considera o recurso à língua materna dos alunos “uma metodologia centrada nos aprendentes que não apenas permite, mas convida os mesmos a envolver-se ativa e conscientemente na experiência de aprendizagem da língua”, uma vez que as suas experiências e conhecimentos são colocados no centro do processo pedagógico. Assim sendo, e ainda que uma exposição contínua à língua-alvo constitua uma das melhores ferramentas para familiarizar os alunos com a mesma e motivá-los a desenvolver competências comunicacionais na língua, não podemos ignorar a importância da criação de um contexto de aprendizagem confortável para os aprendentes, para que possam maximizar as potencialidades do seu estudo. Tal poderá passar pelo auxílio da sua língua materna uma vez que com “a ativação apropriada do seu uso durante aulas de língua, os alunos não se irão sentir perdidos, inibidos ou desorientados” (Şenel, 2010, p. 114). O ideal para uma aprendizagem completa e efetiva a longo prazo passaria, assim, por atingir um equilíbrio entre abordagens, de forma a combater as lacunas do método tradicional, focado na vertente escrita da língua, e as lacunas da abordagem direta, a qual defende a criação de um contexto linguístico sem intervenção da língua veicular ou explicitação de regra, uma vez que, num nível inicial, este seria um desafio demasiado paralisante para os aprendentes.
22 Posteriormente, a língua veicular deverá ser gradualmente abandonada, para que os alunos possam ser doutrinados num contexto com recurso exclusivo à língua estrangeira. No caso dos Cursos Livres do Instituto Confúcio da Universidade do Minho, o ensino é repartido em dois tipos de aula: gramática e escrita, e oralidade e audição. As primeiras são sempre dirigidas por docentes portugueses e, por norma, são as primeiras a ser lecionadas. Isto é, aquando da aprendizagem de uma lição, é sempre dada a componente gramatical primeiro, partindo-se, depois, para a oral. Desta forma, os alunos consolidam os conhecimentos-base a absorver, apoiados de explicações em português, para poderem, então, partir para desafios de natureza oral. As aulas de oralidade e audição, em contrapartida, são conduzidas por docentes chineses. Por um lado, os alunos, já cientes dos conteúdos, terão mais facilidade em aplicá-los nos exercícios deste tipo de aula, por outro, poderão ser orientados por alguém dotado de uma pronunciação nativa, que os poderá ajudar na correção de erros de pronunciação, envolvê-los num ambiente cultural mais autêntico e habituá-los ao uso exclusivo de chinês no contexto de sala de aula, abrindo espaço para a eliminação da dependência na língua materna para a comunicação. 2.4. O papel da cultura no ensino de Chinês Língua Estrangeira A cultura é a bagagem intrínseca a nós, que carregamos diariamente, a todo o momento e para qualquer parte, sem nos apercebermos de tal. Um conhecimento sobre a mesma ajudanos a compreender um povo e o seu modo de interagir, trabalhar, liderar, se organizar, se relacionar, e de ver o mundo. Consequentemente, diferentes culturas têm inerentes a si diferentes estilos sociais e comunicacionais, o que nos transporta para a dimensão linguística. A língua e cultura são conceitos indissociáveis. A cultura “é tão central para o sistema de ensino de línguas que dificilmente é possível falar sobre esse sistema sem que a palavra cultura apareça nas primeiras frases” (Gaeini & Basirizadeh, 2011, p. 1). Por um lado, a língua é veículo da cultura, uma vez que é através da primeira que a segunda se dissipa. Por outro, a língua é um elemento da cultura e foi gerada e sofreu alterações de acordo com o contexto cultural em que está inserida. Há, portanto, uma relação de interdependência entre os dois conceitos, uma influência mútua entre estas duas noções que se moldam entre si. O estudo da cultura revela-se, assim, imprescindível quando se aprende uma língua estrangeira. As muitas propriedades da linguagem não são independentes, mas interpenetram-se umas com as outras, pelo que, o domínio das ferramentas básicas da língua:
23 Será inevitavelmente acompanhado pela introdução e exportação de cultura. Para a mesma cultura, tratase mais de herança e troca [cultural], mas, para culturas diferentes, trata-se mais de choque e progresso. Atribuo esta função da língua à sua natureza cultural, que pretende expressar os fatores culturais transportados pela língua. Se os aspetos instrumentais e culturais da língua estão maioritariamente integrados na vida quotidiana das pessoas comuns, a sua importância reflete-se em todos os aspetos, desde a conversação e o entretenimento folclórico até aos choques culturais internacionais. 8 (Qiao, 2019, p. 47) Segundo Liu (2009), a aprendizagem e aquisição de uma cultura é tão importante quanto aprender a língua propriamente dita uma vez que, a partir desta compreensão, poderemos aprofundar o estudo, encorajá-lo a longo prazo e resolver possíveis mal-entendidos na língua. Liu defende, também, que a evolução no estudo da língua chinesa caminha paralelamente ao aprofundamento das noções sobre a cultura do país. Num mundo moderno e multicultural, os falantes de línguas estrangeiras devem ser capazes de usar a língua de acordo com as normas da respetiva comunidade, e têm de estar cientes do que pode ou não ser dito como parte do seu comportamento linguístico. Os falantes devem ter em consideração a situação, as circunstâncias, o tópico, o nível de formalidade esperado, o nível de conhecimento do seu parceiro e os cenários culturalmente sensíveis. (Kovács, 2017, p. 77) A par da oralidade, audição, leitura e escrita, “tradicionalmente, os professores de línguas listaram a cultura como um dos cinco principais objetivos do estudo de uma segunda língua” (Gaeini & Basirizadeh, 2011, p. 3). No entanto, o ensino da dimensão cultural não é, por norma, tratado com tanta atenção e urgência quanto os demais elementos o que, anexado à sua complexidade, pode resultar em limitações e conflitos quando o falante der o salto para um contexto real. Deste modo, “embora alguns livros forneçam exemplos autênticos de situações da vida real, sem conhecimento cultural de base, essas situações dificilmente são compreendidas pelos alunos. Quando tentam comunicar com estrangeiros usando o conhecimento que possuem, podem cometer inúmeros erros” (Feng & Eamoraphan, 2020, p. 265). O Confucionismo, conhecido por influenciar ainda nos dias de hoje o pensamento chinês, considera o equilíbrio e harmonia das relações humanas como sendo a base de uma sociedade. 8 “必将伴随着文化的传入和输出,对于同一文化而言更多的是传承和交流、而对于不同文化中更多 的是碰撞和完善。我将语言的这一作用归纳于语言的文化性,意在表达语言承载着的文化因素。如 果说语言里的工具性和文化性大多融入了普通民众的日常生活中,小到说话交谈、民俗娱乐大到国 际之间的文化碰撞在方方面面都体现着它的重要性”. TdA.
24 A comunicação apresenta-se como um processo interpretativo constante, no qual todas as partes procuram desenvolver e manter relações sociais, designando-se comunicação para relação, ao invés de comunicação para informação. Por este motivo, a forma como o povo chinês comunica será particular e deverá ser tida em conta quando comunicamos na língua. A comunicação não depende apenas de gramática correta, mas também de dizer a coisa acertada no contexto. No entanto, um aprendente de uma língua estrangeira, que deseja ser adotado numa outra sociedade, já possui o seu próprio background cultural original e também tem certos objetivos específicos nas comunicações; de modo que manter um equilíbrio entre as culturas será um desafio. Consequentemente, as pessoas têm de decidir o que dizer e a quem, como se expressar e aceitar o que as pessoas dizem dentro de um contexto cultural. (Liu, 2009, p. 16) Feng e Eamoraphan (2020) evidenciam o exemplo dos cumprimentos na cultura chinesa. Em português, a regra, quando cumprimentamos alguém, será dirigir-lhe um “Olá!” ou “Tudo bem?”. No entanto, na China é comum dizer-se “你去哪儿?” ( Nǐ qù nǎ'er?, “Onde vais?”) ou “你吃饭了吗?” ( Nǐ chī fàn le ma? , “Já comeste?”) em jeito de saudação, ao invés de “你好” ( Nǐ hǎo! , “Olá!”). Os autores reconhecem que estas saudações visam mostrar preocupação e cuidado. No entanto, uma vez que “alguns ocidentais têm um forte senso de privacidade, a mesma saudação poderá ser vista como rude para eles” (Feng & Eamoraphan, 2020, p. 269-270). Um exemplo que funciona em sentido contrário diz respeito ao significado de “cão” na cultura chinesa em contraste com a perspetiva ocidental. Se, por um lado, estabelecer comparações com um cão na cultura ocidental, no que diz respeito a relações interpessoais, remete para um elogio, uma observação sobre lealdade, uma vez que “o cão é o melhor amigo do homem”, na China a expressão, muitas vezes, carrega consigo uma conotação negativa. No Ocidente comummente ouvimos a expressão “leal como um cão”, no entanto, na China podemos encontrar a expressão “猪朋狗友” ( zhū péng gǒu yǒu , amigos porcos e cães), que significa “camaradas dissolutos”. A falta de conhecimento sobre tais diferenças culturais poderá gerar conflitos num contexto comunicativo. Li (2021), num estudo sobre estudantes internacionais de chinês, descobriu que estes, ainda que possam dominar vocabulário suficiente à comunicação, cometem erros na utilização do mesmo, e apontou alguns deles como erros culturais. Li defende que no dia-a-dia “podemos tolerar alguns erros de pronúncia ou gramática, mas se percebermos que, durante o processo de
25 comunicação, a outra parte viola as nomas [culturais], poderão ocorrer conflitos culturais sérios, o que fará com que as pessoas se sintam infelizes” 9 (Li, 2021, p. 27). Para uma comunicação eficiente, é necessária prática não só em comunicação linguística, como também cultural. Durante a mesma “os alunos entendem a conotação cultural por trás da língua. Essa conotação é o que não pode ser expresso por palavras. A verdadeira conotação só poderá ser revelada através do choque e comparação entre diferentes culturas” 10 (Li, 2021, p. 27). Segundo Kovács (2017, p. 82-83), a prevenção de tais conflitos por parte dos professores de língua poderá passar por estratégias como: o recurso a materiais de fontes autênticas, tais como revistas, jornais, menus, entre outros; encenações e simulações, com a inclusão de objetos com bagagem cultural; e a introdução de idiomas e provérbios. Através destas atividades, os aprendentes poderão não só refletir sobre a sua própria cultura, como também estabelecer comparações entre a sua língua materna e a língua-alvo e adquirir noções mais profundas sobre a última que os poderão ajudar de um ponto de vista orientado para a prática e exercício da língua em circunstâncias reais. Uma metáfora frequentemente usada para descrever a língua e cultura é o iceberg , em que a língua e uma pequena porção da cultura constituem a parte visível e a parte invisível é atribuída aos restantes aspetos culturais. Jiang (2000, p. 328-329) propõe três novas metáforas para esta relação, com base em três pontos de vista diferentes: filosófico, comunicativo e pragmático. Filosoficamente, para o autor, a cultura seria o sangue que dá vida à carne (a língua); numa abordagem comunicativa, a comunicação é o ato de nadar, apenas possível através da habilidade de nadar (língua) num corpo de água (cultura); de um prisma pragmático, a cultura é o semáforo que regula a circulação do veículo (língua), promovendo ou impedindo a transportação (comunicação). Para um aprendente será importante perceber os níveis de cultura relativos ao país de origem da língua a ser estudada, para que consiga perceber o seu povo, as suas mensagens, e, assim, comunicar eficientemente. Estes níveis englobam comportamentos e artefactos (visíveis, assumidos, tendencialmente situados no plano consciente), convicções e valores (balizas de valor, por outras palavras, “o que se diz”), e premissas básicas (invisíveis, tendencialmente localizadas no plano pré-consciente, sendo “aquilo que se crê e pratica”). O domínio de um repertório destes 9 “在日常的交流中,我们可以容忍对方出现一些语音或是语法上面的错误,但是如果在交流的过 程中发现对方违反常规,严重的甚至出现文化冲突,这就让人感到不愉快”. TdA. 10 “在训练的过程中,学生明白语言背后所代表的文化内涵,这种文化内涵是用语言表达不出来 的,只有通过不同文化之间的碰撞、对比,方能显示出其中真正的内涵”. TdA.
26 conhecimentos, bem como capacidades inatas e comportamentos adotados permitem-nos lidar de forma eficaz com outra cultura. Tendo uma noção profunda destes níveis, conseguiremos fazer ajustes comportamentais e ao nível da comunicação e interação para evitar situações complexas e confusas. Perante o exposto, percebe-se que um profundo conhecimento sobre a cultura chinesa é indispensável no ensino e aprendizagem da língua, tendo em conta que a descodificação é feita segundo o contexto, contexto este proveniente do enquadramento cultural. Só é atingida proficiência quando há compreensão dos diversos elementos, traços e rituais culturais da China. Para Martins (2007, p. 2), “aprender uma língua estrangeira vai muito além do simples contato e conhecimento da língua-alvo, são processos comunicativos e educativos que abarcam questões políticas e ideológicas, culturais e sociais”. As autoras Aires e Mozzillo (2018, p. 207) acrescentam que “aprender uma língua, além de ser o desenvolvimento do domínio funcional de um novo código linguístico, é também a construção da capacidade de interpretar e relacionar-se com uma realidade sociocultural diferente”. Por este motivo, no manual de língua adotado nos Cursos Livres do Instituto Confúcio da Universidade do Minho, existem secções dedicadas exclusivamente ao ensino de elementos culturais, que auxiliam no estudo das componentes das lições. Apresento alguns exemplos: Figura 2 Componente cultural, lição 5 (versão chinesa e tradução inglesa) Nota . Excerto sobre a idade na cultura chinesa. Liping, J. (2014). Standard Course HSK 1 . Beijing Language and Culture University Press.
27 Quando o aluno aprende a perguntar a idade a alguém em chinês, aprende um ou vários modelos para o fazer, tais como os apresentados na Figura 2. No entanto, na ausência de uma explicação sobre a cultura chinesa no que tem que ver com a idade, o aluno não sabe em que contexto usar estes modelos. Com recurso aos conhecimentos de cultura que constam no livro, este poderá concluir que colocar uma questão sobre a idade em chinês irá adotar as seguintes formas, consoante o respeito a ser demonstrado ao recetor. Figura 3 Componente cultural, lição 15 (versão chinesa e tradução inglesa) Nota. Explicação sobre os digítos dos números de telefone chineses. Liping, J. (2014). Standard Course HSK 1 . Beijing Language and Culture University Press. O número “um” (1) em chinês escreve-se “一” e pronuncia-se “ y ī”. Apesar de poder assumir diferentes tons consoante o caracter que o segue, o número um é, por norma, lido como “yi” em qualquer situação. Os números de telefone constituem uma exceção.
28 Um aluno que esteja a aprender chinês, ao ler os dígitos que constituem um número de telefone, instintivamente terá tendência a ler o número em questão da mesma forma que aprendeu a ler o numeral 1. No entanto, neste caso, como podemos observar na Figura 3, ele adquire uma leitura diferente: y ā o . Na falta de uma explicação sobre a cultura chinesa no que diz respeito a esta questão, o aluno não teria conhecimento sobre o funcionamento da língua numa situação desta natureza. Estes pequenos exemplos enfatizam a importância de um ensino que englobe não só elementos linguísticos, como também elementos culturais, pois as duas dimensões mostram-se indissociáveis, já que sem uma, não se percebe a outra.
29 Capítulo III: Lecionação de aulas e desenvolvimento de materiais didáticos para o ensino de chinês 3. Lecionação de aulas A experiência de ensino, repartida em aulas de cultura chinesa e aulas de HSK1, será descrita ao longo do presente capítulo. Em simultâneo, será feita a ligação entre os conteúdos desenvolvidos, as aulas lecionadas e a teoria presente no capítulo II do presente relatório, a qual atuou como base para as opções tomadas no decorrer do estágio. 3.1. Aulas Culturais Ao contrário daquilo que havia sido planeado, não foi possível lecionar a aula de Chinês prevista para ser dada a alunos do ensino básico. Ainda assim, a experiência de guiar a aprendizagem deste tipo de alunos deu-se na forma de aulas práticas de índole cultural, onde tive oportunidade de orientar, ao nível do ensino do nó chinês, diversas turmas de alunos entre os 11 e 16 anos. Ainda que se trate de uma componente de natureza não-teórica, foi possível perspetivar as dinâmicas que têm lugar entre os docentes e as turmas em questão. No total, participei em seis aulas culturais, tendo estas tido lugar nas Escolas Básicas de Nogueira, Lamaçães e Palmeira, no Colégio Teresiano, e nos Níveis III e IV no Instituto Confúcio da Universidade do Minho. Como representado na Figura 4, em algumas destas aulas auxiliei a professora Maria Emília Dias no ensino do nó chinês, tendo posteriormente ensinado também de forma autónoma. A atividade baseou-se primeiramente na distribuição de materiais para a realização do nó, nomeadamente placas de cortiça, alfinetes e linha. Depois, demonstrei, a par da professora, os Figura 4 Aulas culturais no Instituto Confúcio
36 Depois de confirmar que os alunos haviam compreendido o propósito e o modo de uso do ponto gramatical, passei para algo mais desafiante: a negativa de “是······的”, apresentada na Figura 10. Assim, à semelhança do que havia feito inicialmente, apresentei uma frase simples, em chinês, que seriam facilmente capazes de traduzir. Depois, esta foi transformada numa frase com “是······的” e descodificado o seu sentido. Por fim, foi feita a negativa e analisada a diferença entre os dois usos. No caso da afirmativa, a frase mantém o seu significado e resulta com ou sem recurso à estrutura. Pelo contrário, no caso da negativa, para negar que determinada ação ocorreu de certo modo ou em determinado tempo ou local, é imprescindível o uso da estrutura “不 是······的”. Depois da explicação e como via de diagnóstico, coloquei um pequeno exercício no rodapé do diapositivo, onde os alunos puderam traduzir (neste caso de português para chinês) uma frase “不是······的”. Não só se deu o salto para um exercício mais desafiante na medida em que os alunos tiveram de fazer uma construção frásica em chinês, como também na medida em que se tratava da forma negativa do ponto gramatical. Figura 11 Sétimo slide da aula sobre “是······的”
37 Lecionadas as formas afirmativa, negativa e interrogativa (de forma indutiva) da gramática da lição, partimos para a sua aplicação. O exercício que criei, demonstrado na Figura 11, tinha por base três perguntas, cada uma delas acompanhada por um conjunto de imagens que iria auxiliar os alunos a chegar às suas respostas. Uma vez que, caso contrário, os alunos teriam de convocar demasiados conteúdos, o que poderia dificultar a aprendizagem do ponto, decidi disponibilizar as questões, nas quais estão presentes alguns pronomes interrogativos diferentes (“怎么 e 什么时候”, como e quando). É importante desafiar os alunos para que o ensino não seja monótono, todavia, é mais importante ainda ter noção de quando um desafio poderá ser paralisante para a turma e nível de ensino a si associado. Requerer dos alunos a capacidade de formular perguntas com vários pronomes e formas interrogativas seria o caso. O objetivo tornou-se então, simplesmente, formular respostas com base nas imagens expostas e com recurso à estrutura “是······的”. Neste exercício, os alunos não só puderam rever vocabulário previamente lecionado, bem como aprender uma palavra nova, o verbo “毕业” ( bìyè , licenciar-se). É crucial garantir que a turma deixa a sala da aula com a certeza de que aprendeu algo de novo, uma vez que a motivação da mesma para aprender depende de elementos como este. Para que houvesse uma maior cooperação da turma, a terceira alínea do exercício apresentava duas opções de resposta, e apenas uma delas apareceria no diapositivo após a resolução do exercício, sendo que a segunda seria dada em voz alta coletivamente. A questão colocada foi “你是在 Porto 大学学汉语的?” (Aprendes/aprendeste chinês na Universidade do Porto?). A primeira opção baseava-se em negar a questão colocada, dizendo “我不是在 Porto 大学学汉语的” (Eu não aprendo/aprendi chinês na Universidade do Porto). A segunda solução, mais apelativa para os alunos pois dizia respeito à sua situação pessoal, seria “我是在米尼奥 大学学汉语的” (Eu aprendo/aprendi chinês na Universidade do Minho). Como esperado, toda a turma respondeu entusiasticamente à última questão. Ao longo da resolução do exercício surgiram algumas dúvidas que foram sendo esclarecidas. No final, todos os alunos haviam respondido de forma correta às alíneas apresentadas. Por último, a fim de dinamizar a aula, apresentei à turma um vídeo cómico. Neste vídeo estava presente um casal, o qual dialogava acerca de um filme que a namorada está a ver. Na
38 totalidade do diálogo, para realizar perguntas e formular respostas, os participantes recorriam ao ponto gramatical aprendido “是······的”. Após a visualização do mesmo, pedi aos alunos que respondessem a algumas questões sobre o diálogo (nome do filme, com quem foi visto, quando) e em que ocasiões havia sido usada a gramática da aula. Todos os alunos participaram livremente e viram na atividade uma oportunidade de contacto com a matéria de forma relaxada. 3.3. Desenvolvimento de materiais didáticos para o ensino de chinês Após o primeiro mês de estágio, e tendo sido este dedicado à observação de aulas e materiais, deu-se início ao objetivo final do mesmo: o desenvolvimento de material didático para Cursos Livres de Nível Básico I. O plano para este desenvolvimento teve por base a entrega de 5 apresentações Powerpoint por mês, sendo que cada uma correspondia a uma lição do livro de HSK1 e, ao final de três meses, correspondendo este prazo com o final do estágio, estariam concluídas as 15 lições presentes no livro. Para assegurar o sucesso na preparação destas lições foi inicialmente lançado o desafio de criar uma apresentação de introdução à língua chinesa, com factos, curiosidades e pequenas frases como saudações. Este material foi, depois, sujeito a avaliação e revisão por parte da orientadora no estágio, para que esta pudesse discutir sugestões para melhoria do mesmo. Com base nas orientações e sugestões recebidas, partiu-se para a elaboração das lições acima mencionadas, tendo em conta que, posteriormente a cada entrega, se realizou uma reunião online para que houvesse troca constante de feedback , esclarecimento de dúvidas e auxílio por parte da orientadora. Após cada reunião, as lições poderiam ser alteradas e adaptadas aos comentários recebidos.
39 3.3.1. A formatação e estética dos slides Ainda que slides não constituam o centro do ensino, estes compõem uma valiosa ferramenta de apoio ao mesmo. Para que se atinja o potencial máximo da utilidade de apresentações PowerPoint, é importante que se cumpram alguns critérios, não só ao nível de conteúdo presente nos mesmos, como também ao nível da sua estética e dinâmica. De uma forma geral, há um conjunto de elementos considerados eficazes ou ineficazes no auxílio do ensino/aprendizagem. Aqueles que facilitam a tarefa do professor e dos aprendentes podem passar por gráficos para melhorar a compreensão, organização de slides que dê forma e estrutura à lição a que se refere, ou foco em explicações orais ao invés de clarificações escritas dos conteúdos, pois as últimas serão lidas e é muito improvável que sejam interiorizadas pela turma. Dentro daquelas que poderão dificultar o ensino/aprendizagem, encontram-se a presença de corpo de texto abundante por slide, templates com demasiadas cores, texto com tipos de letra rebuscados, e transições desnecessárias que possam quebrar o ritmo da apresentação e/ou ser motivo de distração para os aprendentes. Estes fatores foram tidos em conta para a criação do padrão a ser utilizado nos slides a desenvolver. A definição de um padrão é importante uma vez que a consistência é benéfica para os aprendentes. Figura 12 Fundo dos slides desenvolvidos
40 A base escolhida foi uma cor pastel, como se pode verificar na Figura 12, para que não fosse agressiva ao olho ou tornasse a aprendizagem visualmente exaustiva. Figura 13 Tipo de letra dos slides desenvolvidos O tipo de letra escolhido, tendo em conta que muito do conteúdo teria de ser escrito em chinês, foi DengXian, representado na Figura 13, pela sua simplicidade e legibilidade. Os destaques foram feitos alternando entre diferentes tamanhos de letra ou formatação de texto (negrito, sublinhado, itálico), chamando mais ou menos a atenção para aspetos, respetivamente, mais ou menos relevantes. O conteúdo propriamente dito foi disposto em frases curtas, de fácil compreensão, ao invés de parágrafos extensos, pois tal escolha obrigaria o aluno a perder grande parte da aula a ler, em vez de acompanhar atentamente as explicações orais do docente, que deverão ser o foco central da aula. Todas estas explicações foram escritas na língua materna dos alunos, para que fosse de fácil compreensão. Caso fizesse sentido, foram sendo adicionadas imagens relevantes à matéria a ser abordada. É importante que se adicione conteúdo visual apenas caso este seja pertinente, caso contrário constituirá motivo de distração para a turma. A par com este possível problema, encontram-se os áudios, efeitos sonoros, animações ou imagens de fundo visualmente ruidosas, que, usados desnecessariamente, distraem o aprendente. No entanto, todos estes estímulos, quando usados de forma apropriada, constituem uma excelente ferramenta ao aprofundamento dos conteúdos de aula.
41 3.3.2. A estrutura e conteúdo dos slides Como sabemos, as aulas de Gramática e Escrita dos Cursos Livres do Instituto Confúcio da Universidade do Minho são lecionadas, por norma, por docentes portugueses. Por este motivo, e por se tratar de um nível de iniciação, os slides encontram-se em português, com pequenas anotações e termos que achei pertinente acrescentar em chinês, tais como “复习” (revisão) ou “跟我读” (lê comigo). Como constatei no capítulo anterior, o modelo adotado inclina-se mais para uma abordagem tradicional, e foi com base neste facto que desenvolvi os meus materiais com breves explicações e descrições escritas, explicitações de regra e traduções, em concordância com os conteúdos presentes nas lições do manual HSK I. As matérias expostas pelo docente serão muito pragmáticas e resumir e esquematizá-las pode servir de apoio não só para o mesmo enquanto ensina, como também para os alunos. Ao longo da elaboração dos diapositivos inspirei-me, ainda, em alguns dos Princípios de Instrução descritos por Barak Rosenshine em 2010, os quais irei mencionar ao longo do capítulo. 3.3.2.1. Revisão O ato de fazer revisão em contexto de sala de aula apresenta benefícios não só para o professor e o aprendente, como também para a relação entre os mesmos. Para o primeiro, a importância dá-se ao nível da avaliação diagnóstica, uma vez que o docente compreende quais as dificuldades da turma, sabendo o que deverá reforçar e explicar novamente. Para o aluno, uma revisão é relevante pois este consegue perceber quais os conteúdos que esqueceu ou precisa de praticar e tem oportunidade de colocar dúvidas depois de ter já aprendido, revisto e praticado em casa, sendo que há um espaço dedicado para tal. O ato de rever é, também, importante para a relação entre professor/aluno e para a dinâmica de aula dado que a comunicação é bidirecional, ao contrário de grande parte da aula em que, enquanto são lecionados novos conteúdos, o professor é detentor da palavra, mesmo que busque interação por parte dos aprendentes, que confrontados pela primeira vez com matéria nova podem sentir-se mais apreensivos e menos dispostos a participar. É erróneo considerar que a função principal da revisão tem que ver com o período de avaliações. Ainda para mais, o sistema da língua chinesa dista do nosso, portanto, é preciso memorizar e normalizar na nossa cabeça as matérias para as automatizar.
42 Para além destes fatores, é importante mencionar que rever com regularidade o conteúdo que vai sendo aprendido é essencial para que este seja retido a longo prazo. Para evitar que este se perca ao longo do tempo, por falta de uso, e garantir que se mantém de fácil acesso na nossa mente, é crucial, ao longo das lições, convocar elementos das lições anteriores. Figura 14 Primeiro Princípio de Instrução de Rosenshine Nota . Primeiro Princípio de Instrução de Rosenshine, por Oliver Caviglioli. Tom Sherrington’s division of Rosenshine’s principles of instruction into strands - CIRL . (s.d.). CIRL. https://cirl.etoncollege.com/tom-sherringtons-division-of-rosenshines-principles-of-instruction-intostrands/ De acordo com Rosenshine (2010, p. 13), autor do princípio de instrução apresentado na Figura 14, se não for feita revisão, os indivíduos terão de fazer um esforço especial para recordar material antigo ao mesmo tempo que aprendem novo material, o que dificulta esta última tarefa. De uma forma geral, neste processo, é também fornecida informação sobre as perspetivas dos diferentes membros da turma, desenvolvem-se as competências comunicacionais dos mesmos, o ensino é mais efetivo, pois há esclarecimento de dúvidas, e fortalece-se a comunicação entre o professor e alunos. No início da cada lição, decidi, por este motivo, criar slides de revisão. Estes são, por norma, compostos por uma tabela de vocabulário constituída por palavras da lição anterior, resumos dos seus pontos gramaticais mais importantes e exercícios com os quais os alunos já estão familiarizados. Os conteúdos, uma vez que não estão a ser apresentados pela primeira vez, são expostos de forma menos extensa, sendo que o foco será a participação ativa dos alunos em convocá-los e não uma nova exposição dos mesmos por parte do docente. Seguem-se exemplos desenvolvidos para o ensino da lição número 12 do manual HSK1.
43 Figura 15 Tabela de vocabulário A revisão, tal como demonstrado na Figura 15, é sempre iniciada pelas palavras novas da lição anterior. No primeiro slide de cada lição coloquei uma tabela com vocabulário, a sua leitura e significado, para que os alunos possam recapitular de forma breve os conceitos aprendidos. Em todas as lições são lecionadas cerca de uma dezena de palavras novas, e é comum que algumas delas, principalmente aquelas que são menos usadas, caiam em esquecimento. Figura 16 Slide de revisão de pontos gramaticais 1
44 Figura 17 Slide de revisão de pontos gramaticais 2 Depois do vocabulário, incluí um resumo dos pontos gramaticais da lição anterior. No caso das Figuras 16 e 17, a gramática aprendida foi a expressão de tempo, nomeadamente a pergunta “Que horas são?” (现在几点?) e a estrutura a seguir para expressar tempo em chinês. Figura 18 Slide de revisão de exercícios 1
45 Figura 19 Slide de revisão de exercícios 2 Para concluir a revisão, acrescentei em todas as lições alguns slides com exercícios de aplicação dos pontos gramaticais principais da lição ou lições anteriores. Não só é conveniente que os alunos se recordem das estruturas aprendidas, como também de como as aplicar. O primeiro exercício, presente na Figura 18, é bastante simples, e trata-se de uma aplicação direta dos conteúdos aprendidos. É feita a pergunta “Que horas são?” e o aluno, analisando os relógios apresentados, tem apenas de expressar os tempos em questão. O segundo exercício, apresentado na Figura 19, é já uma conjugação da expressão de tempo com construção frásica e exige noções sobre a língua chinesa. Neste, o aluno, com base nas imagens e horas apresentadas, constrói frases que incluam os sujeitos, ações e horas a que estas são desempenhadas. 3.3.2.2. Oralidade Depois da revisão, incluí em todas as lições uma tabela com sons e tons chineses a ser aprendidos e praticados em cada uma delas. Apesar de os slides que desenvolvi se destinarem ao ensino da Gramática e Escrita, é importante, num nível inicial, estabelecer a ponte entre os diferentes aspetos da língua, e abordar estes conteúdos com frequência. A língua portuguesa é muito diferente da chinesa e não é possível encontrar nela os tons e sons da última. Com contacto prévio com as especificidades da componente oral da língua, os alunos terão mais facilidade nas
52 Figura 29 Ensino dos números com lanternas chinesas O ensino acompanhado de elementos culturais desperta a curiosidade e interesse dos aprendentes e considerei, assim, pertinente a sua inclusão nos meus materiais, como demonstrado na Figura 29. Figura 30 Ensino dos números com música Materiais de índole musical à semelhança daqueles apresentados na Figura 30 podem constituir uma ferramenta para a memorização de novas palavras e expressões.
53 Figura 31 Jogo sobre os números Como demonstrado na Figura 31, neste jogo, os alunos podem escolher um número e dizê-lo em chinês, acionando uma animação que desvenda um bloco com a solução. Pode ser, desta forma, feita uma competição por grupos, com sistema de pontos por cada resposta correta. Figura 32 Vídeo sobre a expressão “请问” A Figura 32 apresenta uma explicação acompanhada de ilustrações e movimento, capaz de quebrar a monotonia associada a um ensino que carece deste tipo de estímulo e auxiliar a solidificação do conteúdo apresentado. No exemplo acima, o vídeo inclui uma falante chinesa, para garantir contacto com a perspetiva nativa da língua.
54 Figura 33 Exemplo de diálogo a pares A realização de diálogos a pares semelhantes àquele demonstrado na Figura 33 pode, por um lado, dinamizar a aula e, por outro lado, contribuir para um bom ambiente intraturma uma vez que os alunos não só têm de formular respostas segundo os pontos gramaticais aprendidos, como também interagir entre si. No exemplo apresentado, os colegas ficam a conhecer a nacionalidade do seu par. 3.3.2.6. Exercícios-Resumo Figura 34 Exemplo de exercício de final de aula
55 Antes do término de cada lição, como se pode verificar na Figura 34, procedi à inclusão de um exercício à semelhança daqueles presentes no manual de apoio. Estes exercícios incluem vocabulário novo e/ou pontos gramaticais da lição em questão. O objetivo é que os alunos consigam recordar-se dos diversos temas aprendidos e aplicá-los de forma rápida no fim da aula em forma de revisão geral. 3.3.2.7. Trabalho para casa Por fim, incluí em todas as lições slides com exercícios para trabalho de casa. Por norma, estes são de composição escrita, uma vez que, durante as aulas os alunos não têm muito espaço para praticar esta componente. Em cada lição, o trabalho de casa a realizar era feito de acordo com as temáticas abordadas e de forma a incluir os pontos gramaticais aprendidos. Figura 35 Exemplo de trabalho para casa 1 Depois de aprender termos que dizem respeito a tipos de comida e alimentos, e noções de como funciona um diálogo em contexto de estabelecimento de restauração, os aprendentes têm, como demonstrado na Figura 35, neste trabalho de casa, a tarefa de aplicar o que aprenderam de forma escrita e independente, com o apoio de uma tabela com possíveis conceitos a incluir no diálogo.
56 Figura 36 Exemplo de trabalho para casa 2 No trabalho de casa representado na Figura 36, espera-se dos aprendentes uma escrita mais extensa. As diretrizes são acompanhadas de um exemplo para os mesmos terem um molde a seguir e, tratando-se da descrição da situação própria e pessoal da vida de cada um, a tarefa é facilitada pois é uma temática com a qual estão familiarizados. Na lição em questão, os alunos aprendem a expressão de tempo e palavras para a formulação de sequências, sendo esperada a sua aplicação e consolidação. 3.4. Principais dificuldades A minha experiência no ensino dividiu-se em duas vertentes: a cultural, com alunos do ensino básico, e a do chinês, com aprendentes adultos. Na primeira, a principal dificuldade teve que ver com o desafio de chegar a todos os alunos e captar a sua atenção, dada a idade dos mesmos e a dimensão das turmas que visitei. É difícil, num primeiro contacto, encontrar estratégias e aprender a fazer uma adaptação rápida a uma diversidade tão grande de alunos e dinâmicas de turma. Na segunda, no entanto, posso afirmar que não encontrei quaisquer obstáculos ao sucesso da experiência de lecionação, uma vez que pude contar com a colaboração de toda a turma, que me recebeu de forma calorosa e contribuiu para um bom ambiente em sala de aula, onde todos puderam participar, aprender e esclarecer as dúvidas que foram surgindo ao longo do
57 ensino. Apesar de ter sido a minha primeira experiência formal na área, todos os alunos fizeram questão de me tranquilizar, deixando de lado toda a ansiedade que a situação pudesse trazer. No que diz respeito ao desenvolvimento de materiais didáticos, as maiores dificuldades surgiram ao nível dos estímulos. Ciente de que o conteúdo era destinado a aprendentes adultos, foi, por vezes, complicado encontrar uma forma de diversificar as aulas sem as infantilizar, uma vez que maior parte do material com o qual tive contacto durante a observação era destinado a crianças ou aprendentes jovens. Assim, os jogos, atividades e materiais audiovisuais tiveram de ser escolhidos e/ou desenvolvidos de raiz tendo em conta este fator. Outra das grandes dificuldades foi, para mim, criar materiais que pudessem ser utilizados por qualquer docente. O material tem de ser simples, a forma como este se utiliza tem de ser clara e tem de cobrir todos os conteúdos abordados no manual HSK 1 que os docentes possam querer referenciar e explorar. Ultrapassados estes obstáculos, e tendo a opção de consultar um manual para me orientar, os restantes aspetos do desenvolvimento dos materiais tornaram-se bastante alcançáveis.
58 Conclusão Ao longo dos quatro meses de estágio no Instituto Confúcio da Universidade do Minho, tive a oportunidade de experienciar um pouco daquilo que significa ser um professor de chinês como língua estrangeira. Quando ingressei na licenciatura de Estudos Orientais: Estudos Chineses e Japoneses da Universidade do Minho, e posteriormente no Mestrado em Estudos Interculturais Português/Chinês: Tradução, Formação e Comunicação Empresarial, tinha como objetivo principal tornar-me proficiente na língua chinesa com a finalidade de seguir a via do seu ensino no meu futuro profissional e, por este motivo, esta oportunidade de estágio mostrou-se bastante proveitosa para o meu percurso. Durante a realização do estágio, os conhecimentos adquiridos ao longo do mestrado constituíram uma mais-valia à execução das tarefas que me foram propostas, nomeadamente as temáticas abordadas no âmbito das unidades curriculares de Fundamentos de Ensino de Português e Chinês Línguas Estrangeiras e Aspetos Sociolinguísticos da Escrita Chinesa e Tradução Intercultural. O tipo de materiais que desenvolvi era destinado a aprendentes de Nível Básico I, pelo que o recurso às noções adquiridas durante o mestrado foi crucial para perspetivar a tarefa de um ponto de vista do docente, ao invés do ponto de vista de um aprendente que já possui um nível de proficiência mais elevado na língua a ser ensinada. Na elaboração do relatório confrontei-me com algumas dificuldades, principalmente ao nível procura de informação que sustentasse as estratégias utilizadas no Instituto Confúcio da Universidade do Minho, nomeadamente conhecimento sobre a eficácia das estratégias de ensino na área do chinês como língua estrangeira, bem como conhecimento sobre o papel de professores que partilhem a mesma língua materna que os aprendentes no ensino de chinês. Destaco, ainda, a pesquisa por fontes integralmente redigidas em chinês. Alguns destes obstáculos foram contornados não só com base da minha experiência pessoal como aprendente de chinês, como também através das noções arrecadadas durante o primeiro mês de estágio curricular na observação de aulas do Instituto Confúcio. Uma das principais dificuldades encontradas ao longo deste período foi, também, a busca por estratégias que pudessem apresentar bons resultados no ensino de aprendentes adultos, uma vez que os materiais que desenvolvi teriam de ser passíveis de ser utilizados tanto em turmas com jovens universitários, como em turmas compostas por alunos de faixas etárias mais avançadas. Estando familiarizada com conteúdos destinados maioritariamente a crianças e jovens, tive de me distanciar daquilo que considerava normativo.
59 Por outro lado, também foi bastante desafiante contactar com turmas de diferentes idades e contextos socioculturais e tentar adaptar-me ao ambiente e dinâmicas presentes nas mesmas, sendo que, em tais contextos, é imperativo assumir posturas e abordagens diferentes para chegar a todos os alunos e cativar a sua atenção, de forma a conseguir gerir a atividade da turma. Por este motivo, gostaria que o contacto tivesse sido suficientemente prolongado para poder tirar conclusões sólidas sobre o funcionamento dos diversos tipos de turmas existentes. Como maior ponto positivo, aponto aquilo que considero um sucesso na experiência de lecionação. Foi bastante gratificante ter a oportunidade de ensinar a língua e cultura chinesas e sentir que fui bem recebida e que o ensino foi efetivo. Este trabalho contribuiu, em suma, para o enriquecimento do meu conhecimento sobre o ensino de chinês como língua estrangeira e diferentes abordagens de que é possível tirar partido aquando deste ensino.
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