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Os equívocos paradoxais da transparência

Ferreira, Marcelino

Abstract

[Excerto] O volume acentuado de informação e de comunicação não é garantia automática de um adequado esclarecimento sobre a realidade. Há até quem sustente que “quanto maior é a informação que se mobiliza, mais intrincado se torna o mundo” (p. 62). É nesta posição que se situa Byung-Chul Han, um crítico da sociedade contemporânea. “Está demonstrado que mais informação não leva necessariamente a melhores decisões” (p. 15). Algo semelhante havia sido explanado pelo filósofo italiano Gianni Vattimo, em 1989, numa obra com título semelhante, A Sociedade Transparente. Estranha-se a falta de referência, quer pela proximidade do título, quer pelos pensadores citados por ambos. Vattimo (1989/1992) preconiza que a preponderância dos meios de comunicação não caracteriza a sociedade como “mais ‘transparente’, mais consciente de si, mais ‘iluminada’, mas como uma sociedade mais complexa, até caótica” (p. 10).

Full text

Os Equívocos Paradoxais da Transparência The Paradoxical Misconceptions of Transparency Marcelino Ferreira Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade, Instituto de Ciências Sociais, Universidade do Minho, Braga, Portugal Han, B.-C. (2014). A sociedade da transparência (M. S. Pereira, Trad.). Relógio D’Água. (Trabalho original publicado em 2012) O volume acentuado de informação e de comunicação não é garantia automática de um adequado esclarecimento sobre a realidade. Há até quem sustente que “quanto maior é a informação que se mobiliza, mais intrincado se torna o mundo” (p. 62). É nesta posição que se situa Byung-Chul Han, um crítico da sociedade contemporânea. “Está demonstrado que mais informação não leva necessariamente a melhores decisões” (p. 15). Algo semelhante havia sido explanado pelo filósofo italiano Gianni Vattimo, em 1989, numa obra com título semelhante, A Sociedade Transparente. Estranha-se a falta de referência, quer pela proximidade do título, quer pelos pensadores citados por ambos. Vattimo (1989/1992) preconiza que a preponderância dos meios de comunicação não caracteriza a sociedade como “mais ‘transparente’, mais consciente de si, mais ‘iluminada’, mas como uma sociedade mais complexa, até caótica” (p. 10). A Sociedade da Transparência é um ensaio breve (73 páginas), na linha de outras obras do autor já publicadas, em Portugal, na coleção Antropos da Relógio D’Água. A versão portuguesa do original alemão (publicado em 2012) está disponível desde setembro de 2014, com tradução de Miguel Serras Pereira. Desde então, mais de 20 ensaios estão traduzidos e publicados em Portugal, alguns dos quais dedicados a temáticas próximas da comunicação, como: A Crise da Narração (original alemão de 2023, publicado em 2024), Infocracia e Não-Coisas (originais de 2021, publicados em 2022), No Enxame (original de 2013, publicado em 2016). Com A Sociedade da Transparência, foram lançados em Portugal, na mesma data, dois ensaios: A Sociedade do Cansaço e A Agonia de Eros. Podemos dizer que se trata de uma “trilogia” de iniciação ao pensamento do autor. É tal a ligação entre elas que, sendo curtas e retiradas as afirmações enfáticas repetidas como soundbite, poderíamos ter apenas uma publicação com a mesma perspetiva crítica sobre a sociedade. A repetição entre capítulos também acontece em obras diferentes, como neste exemplo: “o explorador é, ao mesmo tempo, o explorado. O ator e a vítima coincidem. A exploração por si mesmo é mais eficaz do que a exploração alheia, porque é acompanhada por um sentimento de liberdade” (p. 71); “o explorador é o explorado. O sujeito é, ao mesmo tempo, ator e vítima. A exploração de si mesmo é muito mais eficaz do que a alheia, porque é acompanhada pelo sentimento de liberdade” (Han, 2012/2014a, p. 17). Comunicação e Sociedade, vol. 46, 2024, e024017 https://doi.org/10.17231/comsoc.46(2024).5706 Comunicação e Sociedade, vol. 46, 2024 2 Os Equívocos Paradoxais da Transparência . Marcelino Ferreira Byung-Chul Han é um filósofo sul-coreano (Seul, 1959), radicado na Alemanha desde o final dos anos 80 do século passado, país onde iniciou a formação filosófica e teológica, cujo pensamento vai partilhando em pequenos ensaios, desde 2010, ano em que lançou o original A Sociedade do Cansaço, o primeiro da “trilogia”. Fez os estudos filosóficos na Universidade de Friburgo e formação em Literatura e Teologia na Universidade de Munique. Nesta universidade, o jovem estudante de metalurgia, que, pouco depois dos 20 anos, emigrou da Coreia do Sul para a Alemanha, completou o doutoramento, em 1994, com uma tese sobre Martin Heidegger, autor convocado, com frequência, nas suas obras. Pensador transdisciplinar, as suas reflexões são também inspiradas pela Escola de Frankfurt. Tornou-se, entretanto, um dos mais famosos filósofos da contemporaneidade. Entre as razões do sucesso, pode-se apontar um estilo próprio potenciado pela brevidade das obras, com “frases ágeis e incisivas, por vezes extremamente assertivas, que parecem surgir do papel como rajadas de uma metralhadora” (Sibilia, 2018, para. 9). Este ensaio aborda o tema da transparência, antes de mais associada à liberdade de informação, agora uma característica que perpassa todos os âmbitos da sociedade, sobre a qual exerce um poder transformador. De tal modo assim é que a transparência se torna um atributo qualificativo da sociedade. Hoje, é tal a violência exercida pela transparência que o ser humano se torna “elemento funcional de um sistema” (p. 13). Não se esgota na liberdade de informação ou no combate à corrupção, a transparência altera a velocidade da comunicação e uniformiza as dinâmicas sociais, a “exigência omnipresente da transparência” (p. 11) transforma a sociedade num “inferno do igual” (p. 17), procura a “eliminação de todas as relações assimétricas” (p. 32). Na medida em que elimina o estranho (diferente), a transparência acelera a comunicação, porque o outro, não igual, transporta consigo a negatividade e a ambivalência que se opõe à transparência. Do mesmo modo, porque não podem tornar-se operacionais, a transparência elimina todos os rituais e cerimónias “porque são um obstáculo à aceleração dos ciclos da informação, da comunicação e da produção” (p. 48). A partir da teoria do panóptico de Bentham, formula a sua teoria do panóptico digital, que anula “a distinção entre centro e periferia, distinção constitutiva do panóptico de Bentham” (p. 67). Agora, “cada um e todos controlam todos e cada um” (p. 69), coincidem o ator e a vítima, o explorador e o explorado, não há separação entre o interior (dentro) e o exterior (fora). Carente de perspetiva, a vigilância deixa de estar ancorada num único ponto, mas em todos os vigiados que, note-se o paradoxo, controlados uns pelos outros, “creem estar em liberdade” (p. 68), porque, ao contrário do que se supõe, “a vigilância não se realiza como ataque à liberdade” (p. 72). Voluntários e ativos são os mesmos vigiados que colaboraram na construção e na conservação do panóptico digital, “na medida em que eles próprios se exibem e se desnundam” (p. 69). Han mostra-se determinado em assinalar os equívocos paradoxais da transparência. Primeiro, “o homem nem sequer para si mesmo é transparente” (pp. 13–14), como também “é impossível a instauração da transparência interpessoal” (p. 14). Outros malefícios são a aniquilação da espontaneidade e da intuição, do pensamento e da espiritualidade, do prazer, da fantasia e do encanto, da confiança, da alteridade e da distância, Comunicação e Sociedade, vol. 46, 2024 3 Os Equívocos Paradoxais da Transparência . Marcelino Ferreira da narratividade e da memória, do aroma das coisas e do tempo, da contemplação e da transcendência. De tanto buscar a transparência, torna-se uma sociedade “diáfana sem luz. ( ... ) O meio da transparência não é uma luz, é antes uma radiação sem luz, que, em vez de esclarecer, tudo penetra e tudo torna transparente” (pp. 59–60). Outro paradoxo reside na eliminação da distância sem, contudo, promover a proximidade, porque “a transparência desdistancia tudo até o tornar uniformidade desprovida de distância – nem próxima nem longínqua” (p. 27). A sociedade da transparência é uma sociedade caracterizada pelo excesso de exposição e de exploração, desenvergonhada e despida, pornográfica, monocromática e despolitizada, desconfiada e anestésica, obscura e obscena, desprovida de metamorfose e de sedução, de verdade e de aparência, de poesia e de música, de sentido e de santidade. Apesar de ter, no elenco dos seus principais valores, a produção e o rendimento, é uma sociedade vazia e morta: “só o vazio é completamente transparente” (p. 61); “só o que está morto é totalmente transparente” (p. 15). Os nove capítulos, através dos quais denuncia os múltiplos equívocos da transparência e nos quais se percebe o esforço de encadeamento entre eles, acrescentam outras tantas declinações próprias da sociedade hodierna: a sociedade positiva, a sociedade da exposição, a sociedade da evidência, a sociedade porno, a sociedade da aceleração, a sociedade íntima, a sociedade da informação, a sociedade da revelação, a sociedade do controlo. O excesso de positividade é o ponto de partida que sustenta os principais equívocos desta sociedade da transparência. Ela “manifesta-se, em primeiro lugar, como uma sociedade positiva” (p. 11), desprovida de negatividade e de pensamento. O pensamento não é transparente, “o interior do pensamento é habitado por uma negatividade, que permite fazer experiências que o transformam” (p. 48). Do mesmo modo, o tempo fica “destituído de todo o destino e de todo o acontecimento” (p. 11) e as imagens tornam-se “pornográficas”, desprovidas de “amplitude temporal” (p. 45), de silêncio e de contemplação. Ao contrário do que aparenta, “torna o homem incapaz de fazer alguma coisa” (Han, 2010/2014b, p. 55), a positividade é uma das causas do cansaço próprio desta sociedade: “um cansaço da potência positiva” (p. 55). Este ponto de partida no ensaio A Sociedade do Cansaço é assinalado de novo nesta segunda parte da “trilogia”, A Sociedade da Transparência: “as perturbações psíquicas, como o esgotamento, o cansaço e a depressão, que teremos de atribuir ao excesso de positividade” (p. 17). Com frases curtas, muitas delas paradoxais, a exigir uma pausa na cadência de leitura, Byung-Chul Han convoca diversos autores para sustentar ou contrapor os seus pontos de vista: Heidegger, Hegel, Nietzsche, Humboldt, Baudrillard, Simmel, Benjamin, Schmitt, Barthes, Lacan, Foucault, Agamben, Sennett, Platão, Rousseau, Bentham, entre outros. A facilidade com que Han convoca tão diversos pensadores torna evidente a falta de outros, por exemplo: conclui o quarto capítulo com a convicção de que “a sociedade porno é uma sociedade do espetáculo” (p. 45), sem referir la société du spectacle (a sociedade do espetáculo), termo cunhado por Guy Debord (1967/2012) na obra do mesmo nome, cujo original remonta a 1967 e publicada em Portugal em abril de 2012; o último capítulo intitula-se “A Sociedade do Controlo” sem referir Gilles Deleuze que, em 1990, celebrizou o referido termo (Sibilia, 2018). Comunicação e Sociedade, vol. 46, 2024 4 Os Equívocos Paradoxais da Transparência . Marcelino Ferreira Apoiado nas provocações que despertam a reflexão do leitor, Byung-Chul Han esboça caminhos alternativos, a percorrer em sentido inverso aos da sociedade da transparência. A denúncia dos malefícios é, em simultâneo, uma tentativa de apontar uma espécie de antídoto capaz de purificar o excesso provocado pela ideologia da transparência. Agradecimentos Este trabalho é financiado por fundos nacionais através da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I.P., no âmbito do projeto UIDB/00736/2020 (financiamento base) e UIDP/00736/2020 (financiamento programático). Referências Debord, G. (2012). A sociedade do espectáculo (A. Monteiro & F. Alves, Trads.). Antígona. (Trabalho original publicado em 1967) Han, B.-C. (2014a). A agonia de eros (M. S. Pereira, Trad.). Relógio D’Água. (Trabalho original publicado em 2012) Han, B.-C. (2014b). A sociedade do cansaço (G. L. Encarnação, Trad.). Relógio D’Água. (Trabalho original publicado em 2010) Sibilia, P. (2018, 10 de abril). Ensaísta feroz. Quatro Cinco Um. https://www.quatrocincoum.com.br/br/resenhas/ filosofia/ensaista-feroz Vattimo, G. (1992). A sociedade transparente (H. Shooja & I. Santos, Trads.). Relógio D’Água. (Trabalho original publicado em 1989) Nota Biográfica Marcelino Ferreira é aluno de doutoramento em Ciências da Comunicação, no Instituto de Ciências Sociais, Universidade do Minho. ORCID: https://orcid.org/0009-0008-9359-8983 Email: [email protected] Morada: Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade, Instituto de Ciências Sociais, Universidade do Minho, 4710-057 Gualtar, Braga, Portugal Submetido: 25/03/2024 | Aceite: 07/05/2024 Este trabalho encontra-se publicado com a Licença Internacional Creative Commons Atribuição 4.0.