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Os determinantes do investimento direto estrangeiro na Turquia

Fernandes, Rui Pedro Bastos

Abstract

O IDE (Investimento Direto Estrangeiro) tem-se revelado um fator crucial para o desenvolvimento das economias. Com o reconhecimento das suas vantagens, tem-se observado, por parte dos governos, uma crescente tentativa para atrair IDE. Neste sentido, considerando o potencial efeito positivo do IDE sobre as economias em desenvolvimento foram, nesta dissertação, analisados os principais determinantes deste tipo de investimento na Turquia. Assim, neste trabalho, foram analisados alguns fatores que a literatura reconhece como passíveis de afetar o IDE e procurou-se elencar quais as vantagens e os potenciais constrangimentos desses investimentos na Turquia. Deste modo, considerada a literatura existente sobre o tópico, foi elaborado um modelo de regressão linear considerando várias variáveis determinantes do IDE, como a dimensão da empresa, exportações, financiamento, política, escolaridade, impostos, experiência dos gestores, localização, corrupção e energia, e cujos dados – relativos aos anos de 2008 e 2013 - foram obtidos através da base de dados Enterprise Surveys do Banco Mundial. Dos resultados obtidos nesta análise foi possível retirar algumas ilações sobre as várias vantagens do investimento na Turquia, advindas da sua localização, dimensão do seu mercado, acordos comerciais e mudanças legislativas que o país tem implementado para atrair IDE. Além disso, a análise estatística demonstrou que fatores como instabilidade política, corrupção e até os impostos não se mostram significativos sobre o IDE na Turquia. Por outro lado, como constrangimentos ao IDE na Turquia, foi observada a dificuldade na obtenção de financiamento e na disponibilidade de recursos (energia).

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Universidade do Minho Escola de Economia e Gestão Rui Pedro Bastos Fernandes Os Determinantes do Investimento Direto Estrangeiro na Turquia julho de 2021 UMinho | 2021 Rui Pedro Bastos Fernandes Os Determinantes do Investimento Direto Estrangeiro na Turquia Universidade do Minho Escola de Economia e Gestão Rui Pedro Bastos Fernandes Os Determinantes do Investimento Direto Estrangeiro na Turquia Dissertação de Mestrado Mestrado em Economia Industrial e da Empresa Trabalho efetuado sob a orientação do Professor Doutor Jorge Cerdeira Braga, Julho de 2021 2 DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concebida aos utilizadores deste trabalho Atribuição-NãoComercial-SemDerivações CC BY-NC-ND https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/ ii 3 Agradecimentos A elaboração do presente trabalho teve um enorme impacto no crescimento do meu conhecimento e espírito critico, contribuindo para a minha evolução pessoal e profissional. No entanto, este não teria chegado a bom fim sem o apoio, incentivo e participação esclarecida e fundamental de algumas pessoas. Assim, cabe-me enunciar o apoio mais relevante das pessoas que estiveram presentes durante esta fase. Em primeiro lugar ao Professor Doutor Jorge Cerdeira pela sua disponibilidade em orientar este trabalho e por todo o conhecimento transmitido ao longo do meu percurso académico. Saliento ainda, a inspiração para evoluir ao nível desta área de estudo, a sua paciência, o acompanhamento ao longo de todas as etapas, as sugestões feitas ao longo dos vários capítulos e as palavras de incentivo. Aos meus amigos pelo apoio e incentivo durante esta longa etapa, fundamentais para aumentar o ânimo para a conclusão deste estudo. À minha família por todo apoio prestado durante a minha formação, tal como pela sua compreensão, paciência, incentivo e sugestões. “A dúvida é o princípio da sabedoria” Aristóteles iii 4 DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. iv 5 Resumo O IDE (Investimento Direto Estrangeiro) tem-se revelado um fator crucial para o desenvolvimento das economias. Com o reconhecimento das suas vantagens, tem-se observado, por parte dos governos, uma crescente tentativa para atrair IDE. Neste sentido, considerando o potencial efeito positivo do IDE sobre as economias em desenvolvimento foram, nesta dissertação, analisados os principais determinantes deste tipo de investimento na Turquia. Assim, neste trabalho, foram analisados alguns fatores que a literatura reconhece como passíveis de afetar o IDE e procurou-se elencar quais as vantagens e os potenciais constrangimentos desses investimentos na Turquia. Deste modo, considerada a literatura existente sobre o tópico, foi elaborado um modelo de regressão linear considerando várias variáveis determinantes do IDE, como a dimensão da empresa, exportações, financiamento, política, escolaridade, impostos, experiência dos gestores, localização, corrupção e energia, e cujos dados – relativos aos anos de 2008 e 2013 - foram obtidos através da base de dados Enterprise Surveys do Banco Mundial. Dos resultados obtidos nesta análise foi possível retirar algumas ilações sobre as várias vantagens do investimento na Turquia, advindas da sua localização, dimensão do seu mercado, acordos comerciais e mudanças legislativas que o país tem implementado para atrair IDE. Além disso, a análise estatística demonstrou que fatores como instabilidade política, corrupção e até os impostos não se mostram significativos sobre o IDE na Turquia. Por outro lado, como constrangimentos ao IDE na Turquia, foi observada a dificuldade na obtenção de financiamento e na disponibilidade de recursos (energia). Palavras-chave: Constrangimentos, Determinantes do IDE, IDE, Turquia, Vantagens v 6 The Determinants of Foreign Direct Investment in Turkey Abstract The FDI (Foreign Direct Investment) has proven to be a crucial factor for the development of economies. With the recognition of its advantages, there has been an increasing attempt by governments to attract FDI. In this sense, considering the positive potentials of FDI over developing economies, were analyzed in this dissertation the main determinants of this type of investment in Turkey. Thus, in this work, we analyzed some factors that the literature recognizes as likely to affect FDI, trying to list the main advantages and potential constraints to these investments in Turkey. Furthermore, considering the existing literature on the topic, it was developed a linear regression model, based on variables recognized as FDI determinants (described later in table 1), whose data were obtained through the World Bank's Enterprise Surveys database, related to the years 2008 and 2013. From the results obtained in this analysis, it was possible to draw some conclusions about the various advantages from investments in Turkey, arising from its location, market size, trade agreements and legislative changes that the country has implemented to attract FDI. In addition, the statistical analysis has shown that factors such as political instability, corruption and, at some degree, taxes are not significant on FDI in Turkey. On the other hand, as constraints to FDI in Turkey, it was noted the difficulty in obtaining financing and access to resources (energy). Keywords: Advantages, Constrains, FDI, FDI determinants, Turkey vi 7 Índice 1. Introdução ..................................................................................................................................... 9 2. Turquia .........................................................................................................................................12 2.1 IDE e a Turquia ........................................................................................................................13 2.2 Motivações para investir na Turquia ..................................................................................15 3. Revisão de literatura .................................................................................................................19 3.1 Teorias explicativas do IDE ...................................................................................................20 3.2 Variáveis determinantes do IDE ..........................................................................................25 4. Estudo Empírico .........................................................................................................................30 4.1 Variáveis incluídas na análise ...............................................................................................31 4.2 Estatísticas descritivas ...........................................................................................................34 4.3 Modelo e Hipóteses de Investigação ...................................................................................36 4.4 Método de estimação ..............................................................................................................37 4.5 Análise de resultados..............................................................................................................39 5. Conclusão .....................................................................................................................................43 6. Referências ..................................................................................................................................46 7. Anexo A.........................................................................................................................................53 8. Anexo B .........................................................................................................................................56 vii 8 Índice de Tabelas Tabela 1 - Descrição das Variáveis…………………………………………………………………………...…33 Tabela 2 - Estatística descritiva……………………………………………………………………………...…..34 Tabela 3 - Modelo de regressão Linear………………………………………………………………………..39 Tabela 4 - Modelo de regressão linear com a adição da variável regulamentações...............53 Tabela 5 - Modelo de regressão linear (com a utilização da variável Bancos)…………………54 Tabela 6 - Correlação das variáveis explicativas com o IDE…………………………………………..56 viii 15 2.2 Motivações para investir na Turquia 2.2.1 A Turquia como um local para o investimento direto estrangeiro à procura de mercado Existem muitos fatores que justificam o investimento direto estrangeiro focado na procura de mercados na Turquia. A Turquia é um grande mercado onde existem mais de 80 milhões de consumidores e, em termos de desempenho, apresenta um crescimento significativo, considerando que, de 2003 até 2019, a Turquia apresentou uma taxa de crescimento real do produto interno bruto (PIB) anual com valores que variaram entre os 1% e 11%, registando apenas um valor negativo em 2009 de -4,8% (World Bank, 2020). A decisão do Conselho da União Europeia (UE) de iniciar negociações com a Turquia referentes à sua possível adesão à UE, em dezembro de 2004, pode ter ajudado a Turquia a atrair investimento direto estrangeiro (IDE), pois foi um forte indicador da convergência da Turquia com os padrões da UE, o que possibilitou um aumento do investimento no país com o objetivo de financiar o processo de convergência económica. O investimento direto estrangeiro (IDE) é também motivado pelo desejo de atender os mercados regionais. Como referido anteriormente, a Turquia tem uma excelente localização geográfica, pois situa-se entre 3 continentes (Europa, África e Ásia), onde existem mais de mil milhões de consumidores. Segundo o Instituto Francês de Relações Internacionais (FIIR – French Institute of International Relations), os países asiáticos vão formar o maior mercado da economia mundial até 2050, contando que o peso da União Europeia (UE) poderá diminuir consideravelmente. Para tentar evitar este cenário, a alternativa seria uma integração maior por parte da UE com a Rússia e com alguns países do mediterrâneo. Tendo isto em consideração, a Turquia pode tornar-se num país crucial para os investidores europeus. A sua adesão à União Europeia possibilitaria um grande aumento do investimento na Turquia, aumentando assim o volume em termos de comércio realizado no país, e permitiria um melhor acesso das empresas europeias aos mercados asiáticos e do Médio Oriente. A União Europeia é atualmente o principal parceiro comercial da Turquia. No entanto, apesar de ser argumentado que a integração da Turquia na UE seria vantajosa, 16 Ülgen e Zahariadis (2004) afirmam que, em termos de comércio, não haveria mudanças substanciais, uma vez que a Turquia já está parcialmente integrada no Mercado Único devido ao acordo de união aduaneira. 2.2.2 Turquia como um local para investimento direto estrangeiro à procura de recursos O investimento direto estrangeiro à procura de recursos surge da disponibilidade abundante de recursos materiais ou imateriais atrativos para as empresas numa determinada localidade. Este tipo de investimento é um dos mais relevantes no que concerne ao IDE (Pedroso, 2015), uma vez que possibilita o acesso a recursos a menores custos, ou até, em maior abundância do que seria possível no local onde as empresas estão sediadas. Até ao final do século XX, a presença da Turquia nos mercados internacionais através de exportações baseava-se, na sua maioria, na oferta de bens originários de produções intensivas em trabalho. Este fator advinha da abundância de mão-de-obra barata no país comparativamente aos seus principais parceiros comerciais, como é exemplo a União Europeia. Este fator, juntamente com a sua localização, levou a que a Turquia se tornasse apelativa para empresas estrangeiras que pretendiam servir novos mercados. É de salientar que, apesar do aumento do custo da mão-de-obra no país nas últimas décadas, este fator continua a ser um potencial motivador para o IDE na Turquia, uma vez que, como sugerido por Esiyok, em 2011, as empresas que optam pelo IDE na Turquia pretendem, na sua maioria, servir o mercado local de forma a reduzir os potenciais riscos que poderiam surgir aquando a realização de exportações para a Turquia. O aumento do custo da mão-de-obra no país foi motivado pela elevada carga tributária sobre os salários, onde podem ser destacadas as taxas de segurança social. Consequentemente, este aumento nas cargas tributárias gerou um problema de tentativa de fuga aos impostos na Turquia, que se refletiu no crescimento da economia informal. Como tentativa de mitigação do problema gerado pelas altas cargas tributárias e consequente aumento da economia informal, em 2003, o governo turco aprovou um novo 17 Código do Trabalho, mas este não se mostrou eficaz na resolução do problema gerado pelos impostos elevados e encargos sociais sobre o trabalho. Considerando a relevância dos custos de mão-de-obra num país, aquando a realização de IDE, é importante referir que, apesar do aumento dos custos de mão-de-obra, em termos salariais a Turquia ainda possui salários relativamente inferiores aos da maioria dos países europeus. A título de exemplo, em 2021, o ordenado mínimo na Turquia é de cerca de 400 euros, valor inferior ao observado na maioria dos países europeus, apenas próximo dos valores observados nos países de leste do continente europeu, como a Hungria, Roménia, Letónia e Bulgária cujos ordenados mínimos são de cerca de 490 euros, 470 euros, 500 euros e 340 euros, respetivamente. Comparativamente aos restantes países europeus, a Turquia possui um ordenado mínimo consideravelmente inferior, uma vez que nestes países, são observados salários mínimos que vão dos cerca de 580 euros, na Estónia e na República Checa, a salários mínimos que excedem os 1500 euros, dos quais são exemplo países como Luxemburgo, Holanda, França, Alemanha e Bélgica (CountryEconomy, 2021). 2.2.3 Turquia como um local para investimento direto estrangeiro à procura de eficiência O investimento em busca de eficiência é motivado, na sua maioria, pela possibilidade de criar economias de escala e gama, ou pela tentativa das empresas tirarem proveito dos custos e/ou da disponibilidade dos fatores de produção num país estrangeiro (Dunning, 1993). Assim sendo, considerando a informação referida no tópico referente à realização de IDE na procura de recursos, podemos afirmar que o acordo de união aduaneira entre a União Europeia (UE) e a Turquia é um bom motivador do investimento direto estrangeiro (IDE) orientado para a eficiência na Turquia. Com efeito, para as empresas que desejam entrar no mercado europeu, a Turquia pode tornar-se uma boa base de produção e, consequentemente, de exportação para estes países. No entanto, existem diversos outros fatores que afetam a decisão dos investidores e que podem justificar o facto das empresas internacionais não optarem, tão frequentemente, pelo investimento na Turquia apesar deste potencial de mais-valia para as empresas que pretendem operar no mercado europeu. Bevan e Estrin (2001) defendem que a perspetiva 18 de uma futura adesão à UE torna os países candidatos mais atrativos para os investidores estrangeiros que procuram eficiência, devido à possibilidade de estabelecer redes corporativas. Assim, a perspetiva de uma futura adesão à UE, combinada com algumas alterações legislativas, pode, futuramente, ajudar a Turquia a atrair investidores à procura de eficiência. 19 3. Revisão de literatura A literatura relativa aos determinantes do investimento direto estrangeiro (IDE) é extensa e variada. Devido a esta variedade, Wheeler e Mody (1992) agruparam as diversas literaturas em 3 categorias: pelos benefícios de aglomeração, os fatores geopolíticos e as variáveis clássicas. Nas variáveis clássicas, os autores agrupam como determinantes do IDE fatores como os custos laborais, a dimensão dos mercados e o nível de impostos. Nos benefícios de aglomeração é destacada a importância de fatores como a qualidade das infraestruturas, fluxos de IDE já existentes e grau de industrialização dos países. Por último, na categoria dos fatores geopolíticos são destacados fatores como as relações políticas e económicas com o exterior, abertura ao exterior do país de acolhimento e o risco de conflitos. Segundo Wheeler e Mody (1992, p. 71), “o retorno esperado da participação em mercados internacionais depende do equilíbrio entre os benefícios de aglomeração e a combinação entre os fatores geopolíticos e as variáveis clássicas”. Assunção et al. (2013) considera teorias mais recentes para categorizar os determinantes do IDE agrupando as diversas teorias consoante a abordagem que melhor os explora. Assim, a categorização dos determinantes é, primordialmente, orientada pelos fatores do paradigma eclético como o capital humano, os custos de produção e a estabilidade económica. Depois, pelos fatores institucionais que englobam variáveis como a estabilidade política, corrupção e os incentivos fiscais e financeiros. Por último, são considerados fatores como a dimensão do mercado, o seu crescimento e sua abertura ao exterior destacados na New Trade Theory (Krugman, 1983). Contudo, é importante referir, que a literatura referente às determinantes do investimento direto estrageiro é ampla, não devendo ser observada e/ou analisada tendo em conta apenas os grupos sugeridos por Wheeler e Mody (1992) ou a categorização teórica sugerida por Assunção et al. (2013). Dunning (1979) explica que o processo de internacionalização é demasiado complexo para ser explicado apenas por uma única teoria, sustentando que os modelos teóricos como o da abordagem eclética, desenvolvida por si, apenas retratam de forma abrangente este processo. Tendo isto em consideração, serão referidas neste segmento 20 algumas das principais teorias explicativas do IDE e algumas das variáveis usualmente referidas como determinantes do investimento estrangeiro. 3.1 Teorias explicativas do IDE Paradigma Eclético No final dos anos 70, Dunning conceptualizou uma abordagem que procurava explicar de forma geral a decisão das empresas para a produção internacional. Esta abordagem, conhecida como paradigma eclético ou abordagem OLI (ownership, location and internalization), continua a manter uma posição forte nos estudos relativos ao IDE, onde realça a importância de as empresas possuírem vantagens especificas sobre os seus concorrentes quando decidem produzir no estrangeiro (Dunning e Lundan, 2008). De acordo com esta abordagem, no momento de decisão, as empresas têm 3 fatores que se podem traduzir em vantagens sobre os demais concorrentes, a propriedade, a localização e a internalização. Os investimentos diretos de capital motivam as vantagens de propriedade (ownership), as quais se relacionam com as vantagens competitivas da empresa (por exemplo, a detenção de marcas ou tecnologia, a estrutura financeira, a reputação junto dos clientes e o aproveitamento de economias de escala). As vantagens de localização (location) referem-se aos recursos existentes no país, ao tamanho do seu mercado e à atratividade de investimento em economias com custos reduzidos, como os de energia, força de trabalho e impostos. Estas caraterísticas dos países podem fazer com que as empresas estejam interessadas em localizar-se no país de destino em vez de exportar a partir do país de origem. As vantagens de internalização (internalization) referem-se à possibilidade de criação e exploração das competências essenciais das empresas, na medida em que a empresa opta por internalizar atividades em vez de recorrer ao mercado. Neste sentido, se houver benefícios de internalização, as empresas devem optar por ter produção própria noutro pais em vez de externalizar. 21 Abordagem institucional A perspetiva institucional do investimento direto estrangeiro (IDE) considera que as empresas estrangeiras operam num ambiente complexo, arriscado e, muitas vezes, conflituoso (Francis et al. 2009). De acordo com esta abordagem, Faeth (2009) considera o investimento direto estrangeiro como um jogo onde existem dois jogadores, a empresa estrangeira e o governo do país anfitrião, ou como uma competição entre os países anfitriões que competem para atrair investimento. Tendo em conta o impacto do ambiente institucional do país recetor, Wilhelms e Witter (1998) desenvolveram uma teoria institucional, com base na capacidade de um país atrair IDE. Os autores argumentam que a teoria é importante para examinar os determinantes macro e microeconómicos do IDE. Além disso, salientam o importante papel que o governo do país anfitrião tem para atrair fluxos de investimento direto estrangeiro. Com base neste estudo, chegaram à conclusão que o IDE é fortemente impulsionado pelos fatores institucionais e não só pelos fatores/abordagens tradicionais, centrando-se em quatro tipos de estruturas– governo; mercados; educação e cultura social, que são representadas por: abertura económica, domínio por parte dos governos, níveis de corrupção, impostos, créditos e disponibilidade de energia, volume do mercado, acesso a capital humano e grau de recetividade. Com base na teoria institucional desenvolvida por estes autores, Wilhelms e Witter (1998), entre 1978 e 1995, analisaram os determinantes de fluxos de IDE em 67 economias emergentes. O estudo teve como base a aptidão das 67 economias focando-se exclusivamente em fatores específicos de cada país, tendo concluído, através da utilização de modelos econométricos, que as variáveis referentes ao governo e ao mercado são as determinantes mais significativas para o IDE. Quando se fala na aptidão do governo, os autores referem-se a economias abertas, com controlo mínimo sobre o comércio, forte domínio da lei vigente e baixa corrupção. A aptidão do mercado é, por sua vez, caracterizada pela disponibilidade ao crédito e energia, impostos baixos, volumes comerciais elevados e alto nível de urbanização. Youssef et al. (2001) investigou os determinantes dos fluxos de investimento direto estrangeiro (IDE) para 36 países em desenvolvimento entre 1980 e 1994. O 22 objetivo do estudo foi destacar o papel do capital humano, da abertura comercial, da estabilidade económica e da disponibilidade de energia e do fator trabalho na determinação dos fluxos de IDE. Com base na análise destes 36 países, Mohamed e Sidiropoulos (2010) observaram que os fatores institucionais são um fator muito significativo na determinação dos fluxos de IDE. Através de uma metodologia de dados em painel, recolhidos entre 1975 e 2006, os investigadores concluíram que o tamanho do mercado, o tamanho do governo, os recursos naturais existentes no país e os fatores institucionais eram as principais determinantes de IDE nestes países. Assim, como forma de os países em desenvolvimento atraírem IDE, estes devem remover as suas barreiras comerciais, minimizar o nível de corrupção, melhorar o ambiente político e construir estruturas apropriadas. Modelo de Heckscher-Ohlin Uma relevante abordagem teórica referente ao comércio internacional foi o modelo de Heckscher-Ohlin, onde foi explicado como as diferentes dotações fatoriais dotam as economias de vantagens competitivas. Como Faeth (2009) explica, este modelo é baseado num estudo em que existem 2 países, 2 fatores de produção e 2 bens/custos perfeitamente competitivos. Segundo este modelo, a taxa de retorno de capital é menor quando existe abundância relativa e maior quando há escassez relativa. Com o comércio internacional, a abundância e a escassez podem ser reduzidos, através da exportação (por parte dos países abundantes) e importação (por parte dos países com escassez), levando a uma igualdade no preço dos fatores. Na ausência de comércio internacional, o capital deve ser transferido para o exterior pois os seus retornos são, por norma, superiores àqueles provenientes apenas do fator trabalho, com o intuito de que a igualdade do fator preço seja alcançada. 23 A hipótese de Hymer-Kindleberger Hymer (1976) foi um dos primeiros críticos ao modelo acima mencionado (modelo de Heckscher-Ohlin) devido à sua insuficiência para explicar os fluxos de investimento direto estrangeiro. Ele desenvolveu uma teoria de industrialização do investimento direto estrangeiro (IDE) com base nas imperfeições de mercado. Tendo a teoria de Hymer como base, Kindleberger (1969) desenvolveu uma teoria baseada na vantagem monopolística. Nos seus estudos, ambos os autores afirmam que ao realizar investimentos no exterior, as empresas estrangeiras enfrentam algumas desvantagens comparativamente às empresas rivais domésticas, como por exemplo, pela falta de informação detalhada sobre os consumidores, sobre o sistema legal e sobre as características institucionais do país anfitrião. Essas desvantagens devem, porém, ser compensadas após o investimento, por exemplo, através da posse de vantagens de propriedade (especificas à empresa) como a capacidade superior de gestão e marketing, o reconhecimento da marca e/ou a tecnologia não comerciável, que possibilitam economias de escala e acesso a capital mais barato (Kindleberger, 1969). IDE baseado na teoria da internalização Buckley e Casson, em 1976, afirmaram que os mercados, por norma, apresentam imperfeições transacionais o que incentiva as empresas a internalizarem as diversas funções necessárias para o seu desenvolvimento. Segundo os autores, ao adquirir bens e serviços a outras empresas, existem riscos e um certo grau de incerteza que pode causar custos de transação significativos. Assim sendo, estes riscos e os possíveis custos associados podem ser reduzidos se as empresas optarem por internalizar os seus processos. Faeth (2009, p.168) explica que as empresas, quando os custos de coordenação são inferiores aos custos de transação, optam pela realização de IDE, decidindo internalizar as atividades. É de salientar, que a decisão de internalizar funções tem, 24 independentemente do modo escolhido, custos para as empresas (Ietto-Gillies, 2014). Deste modo, as multinacionais devem ponderar os custos associados à distância geográfica, cultural e ao risco de operar em ambientes desconhecidos. Só posteriormente a uma análise das possíveis vantagens e desvantagens é que uma empresa deve decidir de que forma quer internalizar, ou mesmo se é vantajoso optar pela internalização. New Trade Theory (Nova teoria do comércio) A nova teoria do comércio surgiu em meados dos anos 80 com o principal objetivo explicar a complexidade do novo modelo de comércio internacional consequente dos avanços tecnológicos e do aumento/crescimento das empresas multinacionais (Krugman, 2009). Num artigo publicado em 1979, Krugman apresentou uma nova perspetiva relativa ao comércio internacional, onde evidencia a relevância referente às economias de escala e ao desejo por parte dos consumidores da existência de variedade no momento de consumo. Este artigo, veio introduzir novas variáveis explicativas do comércio internacional que não eram discutidas anteriormente, uma vez que o modelo tradicional de comércio internacional, baseado na teoria de vantagens comparativas, não conseguia explicar alguns comportamentos do mercado internacional, como é exemplo, a importação e exportação simultânea de bens idênticos/substitutos num país (troca intraramo). Tendo em consideração teorias anteriores, como a teoria de internalização e o paradigma eclético, a nova teoria do comércio surge como uma nova forma de analisar o investimento direto estrangeiro (IDE) e o funcionamento das multinacionais. Assim, esta teoria combina as vantagens de localização e as vantagens de propriedade com as características específicas dos países (Faeth, 2009). Da análise desta teoria surgiram 2 modelos de investimento, o IDE vertical (Helpman, 1984) e IDE horizontal (Horstman & Markusen, 1992 e Brainard, 1993). Forte (2004) afirma que a análise do modelo de IDE vertical é útil para explicar os investimentos realizados em países que apresentam características diferenciadas ou especificas desse 31 4.1 Variáveis incluídas na análise A escolha das variáveis acima referidas deve-se à sua potencial importância descrita na literatura e à sua disponibilidade na base de dados ES do Banco Mundial. A região de estabelecimento está intimamente relacionada com os fatores de localização e mercado potencial existente nesses locais. Como referido no paradigma eclético, as empresas são muitas vezes atraídas pelas vantagens de localização devido, por exemplo, aos recursos existentes num país/região, custos reduzidos e/ou até pela dimensão do seu mercado. De acordo com a literatura, muitas vezes o investimento direto estrangeiro (IDE) tem como foco as exportações a partir do país alvo. A importância desta variável está, novamente, relacionada com o fácil acesso ao mercado europeu e a outros mercados. Além disso, esta variável permite perceber se o investimento realizado na Turquia tem como objetivo a redução de custos e o acesso facilitado a mercados internacionais, ou apenas o acesso ao mercado turco. A realização de investimentos no estrangeiro implica custos, deste modo é relevante incluir outras variáveis como o acesso ao financiamento e o nível de impostos. Nem sempre um país aparentemente atrativo é benéfico para as empresas que procuram investir no estrangeiro, impostos elevados e custos elevados para uma operação num país pode ser o suficiente para afastar os investidores. Como referido por autores como Hartman (1984) e Kemsley (1998), o IDE reage, normalmente, negativamente aos impostos. Assim, a análise destas variáveis serve como medição de potenciais barreiras ao IDE na Turquia. A utilização da variável referente à qualificação da mão-de-obra existente tem como objetivo analisar se a escolha da Turquia se deve ou não a um investimento que vise a procura de recursos. Além disso, uma vez que o custo e qualificação de mão-de-obra estão interligadas (Sethi, Guisinger, Phelan & Berg, 2003), a análise desta variável também revela um pouco sobre o motivo para o IDE na Turquia, ou seja, se os investidores procuram trabalhadores qualificados ou se apenas pretendem produzir com custos inferiores, empregando trabalhadores menos escolarizados. Por outro lado, o acesso a recursos essenciais para uma operação num novo país também deve ser analisado, daí ser 32 importante observar se as empresas têm acesso facilitado a estes recursos, nomeadamente, o acesso a energia. Considerando os riscos inerentes a um investimento no estrangeiro, é essencial analisar a situação política de um país antes da realização do mesmo. Variáveis como a instabilidade política e corrupção poderão ser fatores essenciais e determinantes para a realização de um estudo sobre investimento direto estrangeiro. Apesar de alguns autores mostrarem nos seus trabalhos que nem sempre estas variáveis são significativas na análise do IDE, autores como Júlio et al. (2013) e Cuervo-Cazurra (2006), concluíram que estas variáveis não só estão interligadas ao grau de incidência de IDE como têm um efeito negativo sobre ele. A tentativa de mitigação dos riscos na realização de investimentos diretos estrangeiros é fulcral para as empresas. Assim, foi introduzido neste modelo a variável experiência da equipa gestora. Esta variável visa a mitigação de potenciais riscos no momento posterior ao investimento e o aumento de ganhos a médio/longo prazo. Para uma melhor compreensão das variáveis presentes no modelo realizado, foi elaborada uma descrição sintética das variáveis em análise e a estatística descritiva das mesmas. A descrição das variáveis incluídas no modelo pode ser observada na Tabela 1. 33 Tabela 1 – Descrição das Variáveis Variável Descrição Variável dependente Investimento direto estrangeiro (IDE) Proporção de propriedade privada estrangeira numa empresa (%). Variáveis independentes Dimensão Dimensão da Empresa (nº de trabalhadores). Localização Região de estabelecimento. Variável dicotómica que assume o valor 1 caso a empresa pertença à região e 0 caso contrário. São consideradas 6 regiões distintas no território turco. Exportações Proporção das vendas que são exportadas direta ou indiretamente (em percentagem). Impostos Taxas de impostos. Variável dicotómica que assume o valor 1 se os impostos forem percecionados pela empresa como um obstáculo significativo à sua atividade ou 0 caso contrário. Política Grau de instabilidade política. Variável dicotómica que assume o valor 1 se a situação política for considerada pela empresa como um obstáculo significativo à sua atividade ou 0 caso contrário. Corrupção Nível de corrupção percecionado. Variável dicotómica que assume o valor 1 se a corrupção for percecionada pela empresa como um obstáculo significativo à sua atividade ou 0 caso contrário. Escolaridade Variável dicotómica que assume o valor 1 se a empresa considera que os trabalhadores não possuem a escolaridade adequada. Gestores Anos de experiência como gestor a trabalhar em empresas do mesmo setor. Financiamento Acesso a financiamento. Variável dicotómica que assume o valor 1 se a empresa considerar o acesso a financiamento como um obstáculo significativo ou 0 caso contrário. Energia Variável dicotómica que assume o valor 1 se a empresa tem acesso a energia e 0 caso contrário. 34 É importante salientar que as variáveis enunciadas, como política, corrupção, escolaridade, financiamento e energia são variáveis cujos valores resultam de perceções/opiniões ou até de experiências vivenciadas pelos indivíduos entrevistados. Assim, para afirmarem se tais variáveis impactam de alguma maneira as empresas que representam, estes indivíduos recorrem à ideia que possuem sobre a situação do país e, principalmente, da forma como estas variáveis afetaram ou não as suas empresas no decorrer da sua atividade. 4.2 Estatísticas descritivas A estatística descritiva das variáveis, onde são apresentadas as médias, os desviospadrão e os valores mínimos e máximos das variáveis em análise, está representada na tabela 2. Tabela 2 – Estatística descritiva Variável Obs. Média Desvio Padrão Min Máx IDE 2,469 2.199676 12.2459 0 100 Dimensão 2,472 140.5034 576.7834 1 20843 Exportações 2,424 0.2745338 0.3641781 0 1 Financiamento 2,181 0.1792756 0.3836709 0 1 Impostos 2,181 0.2223751 0.4159372 0 1 Escolaridade 2,462 0.1807474 0.3848869 0 1 Política 2,181 0.1480972 0.3552778 0 1 Gestores 2,417 22.9789 11.71905 1 60 Localização 1 2,496 0.3161058 0.4650479 0 1 2 2,496 0.1899038 0.3923035 0 1 3 2,496 0.1454327 0.3526072 0 1 4 2,496 0.193109 0.3948169 0 1 5 2,496 0.0969551 0.2959559 0 1 6 2,496 0.0584936 0.2347215 0 1 Corrupção 2,438 0.2493847 0.4327457 0 1 Energia 2,451 0.2146063 0.4106327 0 1 35 Analisando os valores expressos na tabela 2, podemos retirar algumas conclusões sobre as variáveis. Por exemplo, analisando o valor dos desvios padrão comparativamente ao valor das respetivas médias podemos perceber se as informações obtidas nas entrevistas realizadas pela Enterprise Survey são, de certa forma, uniformes e próximas dos valores médios ou se divergem consideravelmente. Um desvio padrão elevado mostra-nos que os valores podem divergir de forma ampla face ao valor médio da variável. Por outro lado, um desvio padrão baixo significa que o valor da variável observado nas entrevistas não varia muito, estando na sua maioria próximo do valor médio. Assim, de acordo com os valores da tabela 2, podemos afirmar que existe uma elevada dispersão nos dados obtidos por parte da Enterprise Surveys uma vez que, à exceção da variável gestores, que possuiu um desvio padrão consideravelmente baixo e inferior à média, todas as variáveis apresentam um desvio padrão significativamente superior ao valor médio. Ainda com base na tabela 2, podem ser retiradas as seguintes ilações: - A média de funcionários das empresas entrevistadas é de, aproximadamente, 141. Como referido anteriormente, existe grande dispersão de valores existentes na amostra uma vez que nas entrevistas foram incluídas empresas de pequena (com menos de 20 funcionários), média (de 20 a 99 funcionários) e grande dimensão (com mais de 99 funcionários). - As empresas entrevistadas exportam em média cerca de 27% da sua vendas. Considerando que 47,4% das empresas entrevistadas não são empresas exportadoras, este valor advém do número elevado de empresas cuja atividade se dedica, numa elevada percentagem, às exportações. A título de exemplo, na análise a esta variável foi observado que cerca de 30% das empresas entrevistadas exportam 40% ou mais da sua produção. - No que concerne aos constrangimentos que as empresas entrevistadas se deparam no decorrer da sua atividade, foi observado que, em média cerca de 18% consideram o acesso a financiamento e o nível de escolaridade dos trabalhadores como um obstáculo à sua atividade, cerca de 22% afirmam que os impostos e o acesso a energia são um constrangimento ao operar na Turquia, cerca de 25% indicam a corrupção como 36 um constrangimento à sua atividade e cerca de 15% consideram a instabilidade política como um motivo causador de incerteza ao operar no país. - Relativamente à variável referente à experiência dos gestores, foi observado que em média os gestores das empresas entrevistadas têm cerca de 23 anos de experiência no mercado em análise. Apesar desta variável ter valores que variam entre o 1 ano de experiência até aos 60, esta média de anos de experiência provém do facto de 80% dos gestores das empresas entrevistadas possuir menos de 30 anos de experiência. Para os restantes 20%, e cujos valores variam entre os 30 e os 60 anos de experiência, foi observado que, na sua maioria, os gestores pertencentes a este segmento possuem entre 30 e 40 anos de experiência. 4.3 Modelo e Hipóteses de Investigação Consideradas as informações expressas ao longo desta dissertação, foi formulado um modelo de regressão linear que permitisse identificar quais das variáveis, referidas anteriormente, influenciam o investimento direto estrangeiro na Turquia. Assim, o modelo realizado para perceber quais os principais determinantes do IDE na Turquia foi o seguinte: IDEᵢ = α + β₁Dimensãoᵢ + β₂Localizaçãoᵢ + β₃Exportaçõesᵢ + β₄Impostosᵢ + β₅Políticaᵢ + β₆Corrupçãoᵢ + β₇Escolaridadeᵢ + β₈Gestoresᵢ + β₉Financiamentoᵢ + β₁₀Energiaᵢ + uᵢ Considerando as variáveis descritas no modelo, pretende-se neste capítulo encontrar resposta às seguintes hipóteses: Hipótese 1: Empresas de maior dimensão implicam níveis de investimento direto estrangeiro (IDE) mais elevados. Hipótese 2: As empresas exportadoras têm índices mais elevados de IDE. 37 Hipótese 3: O acesso a financiamento influencia positivamente o IDE. Hipótese 4: A instabilidade política tem um impacto negativo sobre o IDE. Hipótese 5: Níveis mais elevados de escolaridade têm um impacto positivo sobre o IDE na Turquia. Hipótese 6: Os impostos afetam negativamente o IDE. Hipótese 7: A experiência da equipa gestora afeta positivamente o IDE. Hipótese 8: O IDE é negativamente influenciado pela corrupção. Hipótese 9: A dificuldade de acesso a recursos (energia) influencia negativamente o IDE. 4.4 Método de estimação Para a realização da análise estatística foi utilizado o método dos mínimos quadrados (Ordinary Least Squares, OLS), uma vez que foi elaborado um modelo de regressão linear múltipla. O método OLS é uma técnica utilizada para procurar o melhor ajustamento possível para os dados. Este estimador procura minimizar a soma dos quadrados dos resíduos de forma a ajustar os dados observados de um modelo. A utilização do método dos mínimos quadrados torna-se também necessária quando pretendemos determinar as estimativas dos coeficientes de cada variável. Considerando o modelo Yi=β1+β2X2i+…+βkXki+ui, a utilização deste método assume que se verificam várias hipóteses. Estas hipóteses são conhecidas como hipóteses clássicas do modelo de regressão linear, apresentando-se da seguinte forma: Hipótese 1: O valor esperado dos erros é igual a zero, E(u)=0. A utilização da variável u no modelo deve-se ao facto de não serem incluídos num modelo todos os fatores explicativos de Y. Desta forma, considera-se que a média dos efeitos destes fatores explicativos não incluídos é 0, uma vez que uns fatores têm efeitos positivos sobre Y e outros efeitos negativos. 38 Hipótese 2: A variância dos erros é constante em todas as observações, V(uᵢ)=σ²,∀ᵢ. (Hipótese de homoscedasticidade) Hipótese 3: Fatores aleatórios influenciadores de Y relativos a um determinado individuo não se correlacionam com fatores que influenciam outros indivíduos, Cov(uᵢ,uₗ)=0 para uᵢ≠uₗ. (Hipótese de ausência de autocorrelação entre termos de erro) Hipótese 4: A equação é linear nos parâmetros, Y = Xβ + u. Só assim se pode utilizar o método OLS, uma vez que para a sua utilização é estritamente necessário que uma equação seja linear nos parâmetros. Hipótese 5: A característica da matriz é igual a K que, por sua vez, é menor que N, (K<N). Esta característica corresponde ao número máximo de colunas linearmente independentes. Afirmamos que estamos perante um caso de colinearidade perfeita se a característica da matriz for inferior a K, ou seja, se for inferior ao número de parâmetros. Hipótese 6: Num modelo, X é fixo para amostras repetidas, ou seja, a matriz é não estocástica. Hipótese 7: U~N(0, σ²Iᵢ), onde Iᵢ corresponde à matriz identidade. Hipótese adicional para inferência estatística, também conhecida como hipótese da normalidade. De acordo com o Teorema de Gauss-Markov, os estimadores OLS são os Melhores Estimadores Lineares e cêntricos, mais conhecidos por BLUE (Best Linear Unbiased Estimator). Assim, uma vez satisfeitas estas hipóteses, podemos estimar o modelo de regressão linear. Com recurso ao programa Stata, foi então estimado o modelo formulado, que se enuncia novamente abaixo. IDEᵢ = α + β₁Dimensãoᵢ + β₂Localizaçãoᵢ + β₃Exportaçõesᵢ + β₄Impostosᵢ + β₅Políticaᵢ + β₆Corrupçãoᵢ + β₇Escolaridadeᵢ + β₈Gestoresᵢ + β₉Financiamentoᵢ + β₁₀Energiaᵢ + uᵢ 39 4.5 Análise de resultados Como pode ser observado na tabela 3, da estimativa do modelo de regressão linear foram obtidos os seguintes dados. Tabela 3 - Modelo de regressão Linear IDE Coef. Erro Padrão t p-value Dimensão 0.0039721 0.0007492 5.30 0.000 Exportações 2.8625 0.7716152 3.71 0.000 Financiamento -1.641471 0.7344279 -2.24 0.026 Impostos -1.341128 0.6947009 -1.93 0.054 Escolaridade -0.7882113 0.6904771 -1.14 0.254 Política 0.9994501 0.7907465 1.26 0.206 Gestores -0.0750346 0.0226444 -3.31 0.001 Localização 2 -0.973842 0.7632852 -1.28 0.202 3 -0.2399962 0.810524 -0.30 0.767 4 -1.468476 0.7766962 -1.89 0.059 5 -2.458101 0.9660186 -2.54 0.011 6 -1.165951 1.368255 -0.85 0.394 Corrupção -0.7515516 0.621574 -1.21 0.227 Energia 1.32196 0.6467004 2.04 0.041 Constante 3.833567 0.8801651 4.36 0.000 Através da análise estatística realizada podemos agora retirar algumas conclusões. Em primeiro lugar é importante referir que na vasta literatura, os fatores institucionais/políticos, como a instabilidade política e a corrupção, são considerados por alguns autores como fatores que podem ser barreiras ao investimento direto estrangeiro (IDE). Porém, neste estudo, o modelo de regressão linear mostra que tanto a corrupção como a instabilidade política não são estatisticamente significativas. Para estas variáveis o modelo mostra-se, de certa forma, divergente da literatura uma vez que a Turquia não se encontra bem posicionada nos rankings relativos à corrupção, pois ocupava o 75º lugar em 2016, tendo chegado a posições mais desfavoráveis nos anos seguintes, como 40 observado em 2020 onde a Turquia ocupava o 86º lugar no ranking de corrupção (Corruption Perceptions Index 2020, 2021). Além disso, o índice de risco político também não favorece o país aos olhos dos investidores estrangeiros, pois possui apenas um índice compreendido entre 55 e 57 (índice que varia de 0 a 100), sendo que este índice afirma que quanto mais próximo o valor de um país é de 100 mais estável politicamente é esse país (Marsh, mapa de risco político, 2020). O modelo também mostrou que o nível de escolaridade dos trabalhadores não é determinante para o IDE na Turquia, rejeitando a hipótese 5. A Turquia é um país com elevada taxa de alfabetização (superior a 96%) e com índices relativos à educação positivos. A título de exemplo, podemos referir o índice de educação do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas onde a Turquia possui uma avaliação de 0.731 (valores de 0 a 1), valor apenas ligeiramente inferior aos 0.768, valor do mesmo índice para Portugal (United Nations Development Programme, 2019). Os impostos são um importante fator a analisar quando se pretende integrar o mercado de um país estrangeiro. Através da análise do modelo, foi observado que os impostos apenas se mostram significativos para o IDE na Turquia admitindo um nível de significância relativamente elevado (por exemplo, de 10%), tendo um p-value de 5.4%. Deste modo, apesar do valor ser superior a 5% (o nível de significância habitualmente considerado na análise estatística da significância das variáveis), podemos concluir que existe alguma evidência estatística que aponta para o facto de os impostos constituírem uma das barreiras com que a sua empresa se depara ao operar na Turquia. Na análise do modelo foram identificadas algumas variáveis cujo p-value é inferior ao nível de significância de 5% o que significa que a estatística realizada sugere que estas são, de facto, variáveis estatisticamente significativas enquanto fatores explicativos do IDE na Turquia. A dimensão da empresa é uma variável de controlo, o seu p-value próximo de zero informa-nos que existe uma relação positiva entre a dimensão da empresa e o IDE. De facto, através de uma comparação da incidência de IDE à dimensão das empresas, foi concluído que as empresas de maior dimensão são recetoras de percentagens superiores de investimento estrangeiro (Tabela 6, em anexo). 47 Cuervo-Cazurra, A. (2006). “Who cares about corruption?” Journal of International Business Studies, 37(6): 803-822. Demirhan, E. & Masca, M. (2008). “Determinants of foreign direct investment flows to developing countries: A cross-sectional analysis”. Prague Economic Papers, 4, 356-369. Dunning, J. H. & Lundan, S. M. (2008). “Theories of foreign direct investment”, in J. Dunning & S. Lundan, Multinational enterprises and the global economy (2º Edição, 79-115). Cheltenham: Edward Elgar Publishing Limited. Dunning, J. H. (1979). “Explaining changing patterns of inter-national production: In defense of the eclectic theory”, Oxford Bulletin of Economics and Statistics, Oxford, v. 41, n. 4, p. 269295. Dunning, J. H. 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Esta variável, descrita como regulação, trata-se de uma variável dicotómica que assume o valor 1 se as empresas considerarem a regulação alfandegária e comercial como um obstáculo significativo à sua atividade e zero no caso contrário. Desta forma, foi estimado um modelo de regressão linear similar ao estudado no texto principal da dissertação, tendo sido acrescentada esta variável. A hipótese adicional que se pretende testar é se a regulação alfandegária e comercial tem um impacto negativo sobre o IDE na Turquia. Da estimação deste novo modelo foram obtidos os seguintes resultados, observáveis na tabela 4. Tabela 4 – Modelo de regressão linear com a adição da variável regulamentações. IDE Coef. Erro Padrão t p-value Dimensão 0.0039581 0.0007495 5.28 0.000 Exportações 2.90637 0.7743533 3.75 0.000 Financiamento -1.693844 0.738467 -2.29 0.022 Impostos -1.390327 0.6984705 -1.99 0.047 Escolaridade -0.8021834 0.6908697 -1.16 0.246 Política 0.9454072 0.7947505 1.19 0.234 Gestores -0.0748041 0.0226499 -3.30 0.001 Localização 2 -1.019297 0.7662463 -1.33 0.184 3 -.2631485 0.8113331 -0.32 0.746 4 -1.51015 0.7791628 -1.94 0.053 5 -2.505831 0.9686406 -2.59 0.010 6 -1.226916 1.371311 -0.89 0.371 54 Corrupção -0.7388284 0.6219337 -1.19 0.235 Energia 1.32137 1.32137 2.04 0.041 Regulação -1.578344 -1.578344 -0.69 0.492 Constante 3.896789 0.8850743 4.40 0.000 Os dados obtidos mostram que a variável regulação não é significativa sobre o IDE. No entanto, como comentado anteriormente neste trabalho, a variável impostos pode constituir um obstáculo ao IDE na Turquia mesmo não tendo apresentado significância estatística a 5% no modelo realizado no estudo empírico. Deste modo, a introdução desta variável, e considerando que esta possui uma ligação com a variável impostos, foi o suficiente para tornar os impostos numa variável significativa sobre o IDE. Outra variável referida anteriormente nesta dissertação, está ligada ao estudo do acesso a financiamento para a realização de investimentos. Assim, foi elaborado um novo modelo onde foi adicionada a variável dicotómica Bancos, de forma a analisar se existe alguma relação entre a utilização de bancos para a obtenção de financiamento e o IDE. Como variável dicotómica, esta variável pode assumir o valor 1 se as empresas tiverem a necessidade de acesso ao crédito para financiar os seus investimentos e zero no caso contrário. A hipótese adicional que se pretende analisar na elaboração deste modelo é se a necessidade de acesso a linhas de crédito provenientes dos bancos para a realização de investimentos tem um impacto negativo sobre o IDE. Da estimativa deste novo modelo obtivemos os resultados observados na tabela 5. Tabela 5 – Modelo de regressão linear (com a utilização da variável Bancos) IDE Coef. Erro Padrão t p-value Dimensão 0.0040154 0.0010288 3.90 0.000 Exportações 2.719517 1.247606 2.18 0.030 Bancos -2.057363 -2.057363 -2.33 0.020 Impostos -1.837266 1.180608 -1.56 0.120 Escolaridade -0.9150549 1.096592 -0.83 0.404 Política 1.670195 1.29665 1.29 0.198 Gestores -0.0983361 0.0363894 -2.70 0.007 55 Corrupção -1.933272 0.990581 -1.95 0.051 Energia 1.531711 1.029842 1.49 0.137 Regulamentação 1.475776 3.441353 0.43 0.668 Constante 5.080772 1.252999 4.05 0.000 Dos resultados da tabela 5, podemos tirar a seguinte conclusão relativamente ao acesso ao crédito: Uma vez que o p-value da variável bancos é de 2%, é confirmada a hipótese que a utilização de bancos para o financiamento de investimentos tem um impacto negativo sobre o IDE, uma vez que esta variável se demonstra estatisticamente significativa. 56 8. Anexo B Para perceber de que forma as diversas variáveis em estudo se relacionam com o IDE foi realizada uma matriz de correlações. Desta matriz de correlações foram obtidos os segundos dados, apresentados na tabela 6. Tabela 6 – Correlação das variáveis explicativas com o IDE IDE Dimensão 0.1296 Exportações 0.0918 Financiamento -0.0462 Impostos -0.0731 Escolaridade -0.0350 Política 0.0516 Gestores -0.0800 Corrupção -0.0667 Energia 0.0558 Regulamentação 0.0132 Bancos -0.0890 A partir da tabela 6 pode observar-se de que forma as variáveis em estudo se relacionam com o nível de IDE numa empresa. Assim, da tabela 6 podemos retirar algumas conclusões, como por exemplo: a dimensão da empresa tem uma correlação positiva com o IDE e este tem uma correlação negativa com os impostos e o acesso a financiamento.