scieee AI-readable full text Open interactive document viewer

Extrodução: uma configuração emergente de escrita sociológica

Andrade, Pedro José de Oliveira

Abstract

Este capítulo apresenta a ideia de extrodução, uma inédita figura/atitude de escrita sociológica em rede. Consiste num texto escrito por um autor que dialoga com os primeiros autores ou editores de uma obra, não fisicamente no exterior da obra, mas no interior do seu texto. A extrodução não introduz ou apresenta a obra, mas extroduz esse texto. Um exemplo de extrodução é uma conversa escrita com uma obra, onde o autor da extrodução (isto é, o extradutor) se inclui. O extrodutor não se confunde com um revisor ou um crítico, cujo texto se pronuncia sobre uma obra já terminada/publicada. Concretamente, aqui existem dois autores-personagens de escrita: o livro (que inclui implicitamente os seus primeiros autores) e o extrodutor, o segundo autor (externo/interno), que comenta as ideias dos primeiros autores ou autores internos, eventualmente comparando-as com as suas próprias perspetivas. Nesta ótica e ética híbridas, são discutidos os seguintes conceitos: eco(socio)logia da individuação, individuação estável, transdução, pessoa pós-moderna, omni/plurimodernidades, sociedade da investigação, inter-panoptismo, cibertempo, pré/pós-livro, texto pós-seminal, hibrimédia, hibridologia, saber-dados, transcotomias, alfabeto de relações sociais, sociologia da citação, metodologia geoneológica.

Full text

81 Extrodução: uma configuração emergente de escrita sociológica Pedro AndrAde [email protected] Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (CECS), Universidade do Minho, Portugal Resumo Este capítulo apresenta a ideia de extrodução, uma inédita figura/atitude de escrita sociológica em rede. Consiste num texto escrito por um autor que dialoga com os primeiros autores ou editores de uma obra, não fisicamente no exterior da obra, mas no interior do seu texto. A extrodução não introduz ou apresenta a obra, mas extroduz esse texto. Um exemplo de extrodução é uma conversa escrita com uma obra, onde o autor da extrodução (isto é, o extradutor) se inclui. O extrodutor não se confunde com um revisor ou um crítico, cujo texto se pronuncia sobre uma obra já terminada/publicada. Concretamente, aqui existem dois autores-personagens de escrita: o livro (que inclui implicitamente os seus primeiros autores) e o extrodutor, o segundo autor (externo/interno), que comenta as ideias dos primeiros autores ou autores internos, eventualmente comparando-as com as suas próprias perspetivas. Nesta ótica e ética híbridas, são discutidos os seguintes conceitos: eco(socio)logia da individuação, individuação estável, transdução, pessoa pós-moderna, omni/plurimodernidades, sociedade da investigação, inter-panoptismo, cibertempo, pré/pós-livro, texto pós-seminal, hibrimédia, hibridologia, saber-dados, transcotomias, alfabeto de relações sociais, sociologia da citação, metodologia geoneológica. Palavras-chave escrita sociológica em rede; extrodução; autores interno/externo/ personagem; pós-livro; hibridologia 82 Extrodução: uma configuração emergente de escrita sociológica Pedro Andrade Introdução à extrodução A eco(socio)logia da individuação aqui presente e oferecida ao leitor por José Pinheiro Neves e Pedro Rodrigues Costa (2020) constitui uma postura crítica que questiona as certezas adquiridas da Sociologia convencional ou convencionada, legítima ou legitimada. Em termos epistemológicos, a eco(socio)logia da individuação utiliza heurísticas, hermenêuticas, ontologias ou outras metodologias do desassossego, que poderão conduzir à descoberta e partilha de conhecimento, de um saber se não Nobel, pelo menos novel, em novelo. Trata-se de um posicionamento ainda algo desconhecido e muito menos reconhecido. A eco(socio)logia da individuação é uma das posturas de flexão social e de reflexão sociológica que não se esgota no próprio social atual, convencido e convencional. Pelo contrário, visa estabelecer o diálogo com outras perspetivas sociais e sociológicas diferentes, e por vezes dissidentes. Um dos campos de ação e crítica destas ações e sociologias transgressivas, e por vezes progressistas, é a própria escrita sociológica. No seu seio, é preciso questionar o próprio modo de fazer e escrever Sociologia, tanto nos seus conceitos, quanto na sua metodologia. Para tal, algumas destas sociologias circunscrevem-se como sociologias dialógicas, no sentido do dialogismo delineado por Mikhail Bakhtine ou por Paulo Freire. Outras assumem-se mesmo enquanto a-sociologias. As sociologias dialógicas incidem profundamente não apenas no diálogo entre indivíduos, mas, para além de outras dimensões, investem na articulação entre o indivíduo e o social, entre o interior e o exterior do ator, entre a razão e a desrazão, entre o global e o local, entre o mesmo e o diferente. Como se verá, pretende-se, antes de mais, uma superação das dicotomias redutoras e de outras relações alienantes do pensamento e da escrita sociológicos. Assim sendo, nesta dialética entre in e out, e no seio de um experimentalismo sociológico ainda a definir, propõe-se aqui um instrumento de escrita não somente sociológica, mas textual em geral, que prolonga o conceito de paratexto forjado por Gerard Genette. Para este autor, o paratexto consiste no conjunto de instrumentos comunicativos e textuais que introduz um texto ao seu leitor, como o prefácio, o resumo, o sumário, os vários tipos de indexes, etc. Dito de outro modo, o paratexto funciona como um pretexto, um pré-texto, um cartão de visita ou um aperitivo do texto “principal”. O novo tipo de paratexto que aqui sugiro, em vista ao diálogo com os autores desta obra, é a extrodução. Trata-se de uma inédita figura e atitude 83 Extrodução: uma configuração emergente de escrita sociológica Pedro Andrade de escrita sociológica, coletiva e em rede. A escrita sociológica, hoje em intensa transformação, aplica-se não apenas à investigação, mas igualmente ao e-learning (Andrade, 2005). De um modo semelhante à lógica da individuação, a extrodução baseia-se na articulação entre o interno e o externo ao indivíduo. Parece-me que uma tal postura de ligação entre o exógeno e o endógeno é transportada, por ambas as perspetivas, para a própria produção de saber sociológico, que se pretende heuristicamente inovador. No caso da extrodução, isso ocorre especificamente através de um texto pós- -seminal em diálogo direto com o texto seminal ou originário de uma obra, mas desvelando-se ambos, por vezes, como originais ou inovadores. Ou seja, ambos podem cultivar um dialogismo ou modo dialógico diferente de outros textos mais comuns. Concretamente e de preferência, num livro, a extrodução coloca-se antes ou logo depois da Introdução, ou então no final do livro, ou ainda como anexo. Mas a extrodução pode ser praticada igualmente por múltiplos atores sociais. Por exemplo, numa rede social, a extrodução insere-se em qualquer lado do ciberespaço e do cibertempo. Repare-se que o cibertempo se define como o conjunto de temporalidades que um utilizador convoca nos cursos (tempos) dos seus percursos (espaços) através do ciberespaço (Andrade, 1996, 1997b). Por outras palavras, a extrodução desvela-se enquanto universo implícito e inconsciente, escuro mas não obscuro, da introdução e de outras partes de um livro, uma espécie de buraco negro da escrita em geral e da escrita sociológica em particular. Com efeito, a extrodução comunica reticularmente com todo o texto de uma obra escrita, mas dialoga, em especial: • por um lado, com as secções paratextuais do texto, nomeadamente os indexes e os glossários. De facto, como os paratextos precedentes, a extrodução funda-se, essencialmente, pré-visão e explicitação dos principais conceitos apresentados num texto, para melhor fazê-los falar com outros conceitos circulantes no mesmo campo sócio-semântico ou noutros campos sócio-semânticos ligados em rede aos primeiros, desde logo aqueles conceitos produzidos pelo autor da extrodução. Daí que, numa extrodução, também se inclua uma bibliografia (cf. p. 96 ), que permite consultar, em pormenor, as ideias do autor da extrodução; • por outro lado, a extrodução dialoga com as áreas metainformativas do texto ou meta-textos (ainda de acordo com Genette, 1995), como a introdução e a conclusão de uma obra. Por exemplo, a priori, a introdução de um livro é o lugar onde se anunciam e enunciam, estruturadamente, aquilo que se pretende desenvolver e alcançar na obra. Por 84 Extrodução: uma configuração emergente de escrita sociológica Pedro Andrade exemplo, os objetivos e os objetos teóricos e empíricos, as teorias, os conceitos, as questões, as hipóteses, os métodos e técnicas, os princípios argumentativos de um texto, etc. Por sua vez, a posteriori, a conclusão autoavalia o itinerário da retórica e demonstração de ideias e teses pelo autor numa dada obra, e propõe pistas de desenvolvimento futuro, por este autor ou por outros. Ou seja, onde a introdução e a conclusão se referem mais aos aspetos internos de construção do livro, em especial à visão dos autores, se bem que obviamente a partir do real exógeno, a extrodução discorre a partir de um posicionamento, em grande parte, exterior à obra. Não sendo o extrodutor um autor do texto principal, assume-se enquanto voz off que se distingue igualmente do narrador, do reviewer, do referee, ou de qualquer outra voz externa ao autor. Contudo, também se integra parcialmente numa obra, porque, tal como um prefaciador, aparece fisicamente inserido no livro concreto e material. Daí que a extrodução se desvele, antes de mais, enquanto “versão beta” de qualquer crítica cultural ou social credível a um texto. De facto, existe um pré-livro fundado ou exemplificado nos planos e esboços teóricos e metodológicos de uma obra escrita. Todavia emerge sempre, ligado em rede ao pré-livro, e após o nascimento de um livro, uma espécie de pós-livro, aquela obra fragmentária e fragmentada feita de reviews ou recensões críticas de um texto por parte de alguns dos seus leitores especializados, como um jornalista, um investigador ou um revisor (mais ou menos) perito. A extrodução, inserindo-se, física e virtualmente no livro, executa precisamente uma das mediações possíveis entre ambos o pré-livro e o pós- -livro. Assim fazendo, esta espécie cultural e textual híbrida situa-se a meio caminho entre o livro e o não-livro. A propósito, o não-livro não é aquilo que precede o livro, o que constitui tarefa do pré-livro. Também não se confunde com aquilo que se sucede ao livro, que coincide com o talento do pós-livro. Pelo contrário, o não-livro excede o livro, é tudo aquilo que o livro não é, mas que se encontra ainda em ligação com ele. Não de um modo apenas diacrónico, como no processo reticular que conecta o pré-livro ao livro e ao pós-livro. Mas igualmente no seio de um espaço-tempo social sincrónico e interdimensional, articulado àquele processo diacrónico. Assim sendo, o estatuto e natureza da própria ligação entre os atores sociais da leitura e da escrita mudam: a ligação textual e livresca não se revela um legado dinossáurico, mas ela mesma desdobra-se num conjunto de conexões reticulares e de relações sociais constantemente ligadas e desligadas, em redes, meta-redes e outras figuras reticulares complexas. 85 Extrodução: uma configuração emergente de escrita sociológica Pedro Andrade Para além disso, o extrodutor também não dialoga com o livro num prisma de citação de extratos do texto ao qual se refere. Afinal, a extrodução não cita, mas in-cita a um texto, tanto quanto ex-cita em relação a esse texto. Aliás, a este propósito, existe ainda uma Sociologia da citação a edificar (Andrade, 1999a). Nesta ótica, em seguida iremos expor alguns comentários aos principais conceitos e ideias do presente livro, numa postura in (dentro do livro, na sua extrodução), mas também out, visto que não nos assumimos nem como coautores, nem enquanto prefaciadores, nem como outras figuras tradicionais de colaborador de um livro, mas apenas nos situamos na figura de extrodutor do livro, que entabulará um diálogo sui generis com os autores da obra, no seu próprio seio, em tempo real e não diferido, como se de um chat se tratasse, uma rede social ou um telefonema escrito. Nesta figura virtual de conversa ou conversa-ação nunca dantes vista, mas herdeira do diálogo socrático, o extrodutor constituirá o livro que “extroduz” como um ator virtual ou avatar textual, com o qual estabelece uma ligação simultaneamente sociológica e ficcional. Ao fazê-lo, engendra uma figura específica da individuação, ou seja, a mediação ou hibridação que consiste na atorização dos autores do livro. O autor, que se origina num ator económico, político e cultural, transmuta-se agora em novo ator. Por outras palavras, os autores sociológicos desta obra, para além de serem atores sociais, hibridizam-se com um ator virtual, a personagem “livro”, através da extrodução, como se verá já a seguir. Assim sendo, a extrodução desvela- -se enquanto inter-escrita inerente ao inter-escrito. Define-se o inter-escrito como sendo o texto de mediação híbrida entre as várias modalidades de texto escrito em interação pelos autores envolvidos. Dito de outo modo, a inter-escrita é a prática, e o inter-escrito é o resultado dessa prática. Neste fluxo de ligações, conectam-se assim os atores sociais com os inter-tradutores dos sentidos (“sentido” entendido na dupla conotação de “significado” e “perceção”) que os primeiros agentes de escrita produzem. Um destes inter-tradutores é o sociólogo ou sociólogos autores deste livro, um outro será o extrodutor, na medida em que, através da extrodução, todos sugerem uma extradução. A extradução entende-se enquanto a tradução de sentidos (perceções) dirigidos no sentido (significado) de um espaço social e cultural externalizador da obra, isto é, o espaço público de discussão coletiva na polis. 86 Extrodução: uma configuração emergente de escrita sociológica Pedro Andrade Como extroduzIr este lIvro O extradutor diz: tu, livro editado por José Pinheiro Neves e Pedro Rodrigues Costa, entre outros, introduzes, e por esse meio também contribuis para extroduzir, algumas ideias inovadoras, seja por mérito próprio, seja na medida em que aplicas sagazmente intuições anteriores prolíficas. Apenas mencionarei aqui alguns traços de alguns dos trechos deste texto, nomeadamente aqueles que parecem poder ser mais proficuamente externalizados na forma de novos comentários, recensões críticas, referências, etc., vindos de diversos segmentos de leitores. Alguns destes leitores-autores são profissionais da crítica jornalística, outros incluem-se entre os agentes da hermenêutica sociológica, ainda outros constituem- -se como guardiões da organização biblioteconómica, e ainda, por último, mas não menos importante, emergem os meros cidadãos leitores do livro, também eles escreventes potenciais. A extrodução consiste em fazer um apelo possível que contribua para a discussão e para o debate de uma obra no espaço público, físico ou virtual. Seguindo esta ordem de ideias, não irei “citar” textualmente partes do livro, embora a citação de um texto seja interessante em certas ocasiões, como por exemplo nos casos em que se dá a voz na primeira pessoa a um autor. Com efeito, aqui, neste breve trecho extrodutório, citar literalmente seria apenas uma forma de recitar, na sua sub-forma de re-citar até à náusea. Livro: uma das questões que coloco é a articulação entre a modernidade e a pós-modernidade. Sublinho enfaticamente que não se discute esse desassossego em pormenor. Apenas afloram no meu texto algumas ideias centrais quanto a este assunto. Uma delas é a seguinte: no mundo atual pós-moderno, a individuação estável e as ligações bem definidas tendem a desaparecer. Extradutor: de acordo. Michel Foucault e outros autores insistem, intensa e extensivamente, de forma brilhante, nas transformações da subjetividade, do corpo, da sexualidade, etc., no quadro de um crepúsculo da modernidade. No entanto, talvez esta instabilidade de ligações sociais tenha a ver com uma certa indefinição generalizada que ocorre ao nível da análise. Esse facto ocorre em alguns autores de forma mais destacada do que em outros. No meu modesto entender, não acredito na veracidade total das grandes narrativas, nem subscrevo completamente a pós-modernidade. Na verdade, poder-se-ia mesmo dizer que, em termos de relações entre eras genealógicas do mundo ou no seu interior, a oposição, por parte da pós-modernidade, às dicotomias dominantes na modernidade, é ela mesma uma dicotomia. Dessa circunstância resulta que, visando superar 87 Extrodução: uma configuração emergente de escrita sociológica Pedro Andrade as contradições da era moderna, a idade pós-moderna contradiz-se a si própria. Com efeito, no que se refere às ligações possíveis que se podem estabelecer entre idades planetárias, a natureza exclusiva da oposição “moderno/pós-moderno” pode e deve ser questionada. Quero com isto defender que não ocorre necessariamente apenas uma única modernidade na história, nem só uma pós-modernidade, mas uma sucessão delas, em séries múltiplas. O que parece também existir, a meu ver, são intermodernidades, ou seja, figuras mediadoras e híbridas, de nível mais geral do que as anteriores idades da História que ligam certos paradigmas da modernidade e da pós-modernidade entre si. Um destes paradigmas é a meta-modernidade ou omnimodernidade, que vai constituir o caso geral da modernidade. Nela, para lá de outros atributos, prevalecem o racionalismo, as preocupações holísticas e as “grandes narrativas”. Dito de outro modo, a era moderna ou era clássica ocidental constitui-se, tão- -só, como um dos casos históricos possíveis e concretos no seio daquele modelo omnimoderno. Um segundo paradigma abrangente é forjado pelas plurimodernidades, “caracterizadas, em grande parte, pela diversidade eclética das atividades e de discursos e pela promoção das linguagens do desejo. Um exemplo disso é a pós-modernidade tal como Lyotard a entende e algumas pré-modernidades” (Andrade, 1997a, p. 12). Livro: outras ideias e outros conceitos importantes que sublinho vão no seguinte sentido: face ao esgotamento das promessas da modernidade existe, fruto disso mesmo, uma pessoa pós-moderna. Essa pessoa busca uma nova individuação fundada em ações de experimentação de espaços e tempos nunca antes vistos, busca experiência através da vagabundagem, por meio da fusão em novas tribos, caracteriza-se numa mescla de hibridações inéditas entre o humano e o tecnológico, entre muitos outros desejos anteriormente asfixiados, negados, reprimidos e oprimidos. Extrodutor: sim, revelam-se pertinentes essas figuras da individuação, estando elas devidamente conectadas, seja com a vagabundagem, seja com o neotribalismo, como bem refere a abordagem de Michel Maffesoli (1987, 2001, 2006, 2010). Tais figuras podem também estar ligadas com as novas excursões e incursões modernas sublinhadas brilhantemente por Georg Simmel, onde, por vezes, transparecem traços da pós-modernidade (Weinstein & Weinstein, 2010). Também assistimos à individuação muito ligada aos cyborgs, um conceito popularizado por Donna Haraway (1990). Neste sentido, podemos acrescentar e fazer referência também à transdução enquanto método da individuação, de acordo com Gilbert Simondon (1989). De resto, é possível que existam figuras da individuação infindáveis 88 Extrodução: uma configuração emergente de escrita sociológica Pedro Andrade ou mesmo incomensuráveis. Por exemplo, além de muitas outras figuras, existe uma possível individuação subjacente à pessoa pós-moderna na chamada ciberpersonagem. Esta prática e o respetivo conceito entendem-se como um modo de subjetividade construída no ciberespaço e no cibertempo, tanto no campo da ficção quanto no continente da não-ficção. Num tal espaço-tempo virtual emerge ainda uma nova configuração de ciberpersonagem que se dá a revelar no efeito pessoa. Este processo consiste na multiplicidade e hibridação de ciberpersonagens ou de personalidades prismáticas que o utilizador da internet pode construir, desconstruir e reconstruir utilizando diferentes identidades em várias caixas de correio eletrónico que ele mesmo detém, ou mesmo noutros locais do ciberespaço e do cibertempo, como por exemplo as videoconferências. Assim sendo, o infonauta produz heterónimos virtuais. O efeito pessoa foi detetado num ensaio escrito acerca de uma problemática nascente nos anos 90 do século XX, nos termos de uma inédita “Sociologia (interdimensional) da internet”, defendida por exemplo em Andrade (1996). Essa reflexão sobre os sistemas de informação já tinha sido precedida em Portugal nos anos 80, quando se caracterizaram os traços distintivos dos sistemas de informação e das redes digitais, de onde emergiu um novo regime de saber, o “saber-dados”, tal como refere Andrade (1985). Note-se que esta intuição teórica foi forjada no seio de uma hermenêutica das redes digitais, ainda antes do aparecimento da internet ou no momento da sua emergência. Pode-se afirmar que uma tal concetualização foi anunciada e enunciada mesmo 13 anos antes da tese de Lev Manovich (1998) que define a database(base de dados) como o saber característico das redes de informação, de que é exemplo de excelência a internet. É possível igualmente detetar o efeito pessoa no quadro de uma Sociologia dos congressos digitais (Andrade, 2003). Livro: na contemporaneidade, para além das novas experiências almejadas, uma das figuras da mudança consiste na metamorfose do nosso pensamento, reflexão e crítica, através da produção de modos de conhecimento e de ontologias originais ligadas entre si. Algumas destas redes ontológicas são a eco(socio)logia da individuação e a erotologia, que caracterizo amplamente através da convocação de autores clássicos e de outros mais recentes (consultar ainda os diversos capítulos da obra onde se empreende a reflexão sobre as posições de Weber, Tarde, Simmel, Schutz, Pareto, Jung e Simondon, em associação ou no quadro do processo da individuação). Extrodutor: de facto, decorrentes da desconstrução e da reconstrução do saber atual, assiste-se cada vez mais à construção, transferência 89 Extrodução: uma configuração emergente de escrita sociológica Pedro Andrade e partilha do conhecimento em figuras inéditas. Assim sendo, acrescentaria a Hibridologia a esses saberes e sociologias diferente. A Hibridologia significa um modo heurístico que reflete sobre as entidades híbridas que não só proliferam hoje, como também revelam-se um dos modos constituintes fundamentais de todo o tecido social. O híbrido é o modo de ação e de saber dos interstícios, das redes de relações, dos lugares e entidades possuindo identidades múltiplas, como sucede no “efeito pessoa”. Na verdade, se nos situamos em algum lado, será na perspetiva de outros saberes ou sociologias parentes da eco(socio)logia da individuação, como a Hibridologia. A hibridação subjaz a quase tudo o que existe, nada é puro, seja na natureza seja na sociedade. O termo “híbrido” origina-se, em parte, no latim hybrida, usado para classificar a prole originada no cruzamento de um javali selvagem e de uma porca doméstica. Adquiriu paulatinamente o significado de mistura de duas ou mais coisas de diferente natureza, em vários ramos do saber. Na Biologia, na conceção da própria vida, um filho é um híbrido de duas naturezas, o masculino e o feminino. No social, a mediação é um híbrido de duas entidades polares, sejam elas a sociedade e o indivíduo, o humano e a máquina, ou outras. Nesta ótica, as teorias mediadoras, como a própria Sociologia da individuação, revelam-se híbridos de várias teorias polares ou mesmo de várias teorias elas próprias intermediárias. Em particular, no ciberespaço e no cibertempo, para além da blogosfera, existe também hoje a hibridosfera. Este espaço virtual imersivo emergente é constituído por sites ou blogues de natureza diferente. Por exemplo, o Hybrilog é um blogue experimental publicado em 2006 e edificado a partir não apenas de meios de comunicação diversos relacionados entre si, como num mero sistema de hipermédia, mas também foi construído usando vários blogues de natureza distinta. O resultado é um espaço virtual sui generis, caracterizado pela hibridação dos média e não apenas pela simples conexão hipermediática entre eles (Andrade, 2007a). Por outras palavras, o Hybrilog significa um blogue híbrido, concretamente formado por 6 tipos diferentes de blogue: um blogue clássico de texto; outro incluindo vídeos ou vlog; um contendo vídeo-poesias ou pvilog (= poetry- -video-blog); ainda outro reunindo arte digital ou artblog; um blogue onde estão inseridas obras em hipermédia ou hyplog; e igualmente um gamelog exibindo jogos. Da mesma forma, a própria escrita sociológica adquire um caráter híbrido. Hoje, fronteiam-se e confrontam-se dois grandes modos de escrita: as escritas unívocas e as escritas híbridas. (...) [Ao 96 Extrodução: uma configuração emergente de escrita sociológica Pedro Andrade AgrAdeCImentos Este trabalho é apoiado por fundos nacionais através da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I.P., no âmbito do projeto UIDB/00736/2020. referênCIAs Andrade, P. (1985). Para uma Sociologia da documentação: sensibilização à necessidade da sua construção. In Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas (Eds.), Actas do 1º Congresso Nacional de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas ‘A informação em tempo de mudança’ (pp. 421-450). Lisboa: BAD. Andrade, P. (1991). A taberna mediática, local reticular de negociações sociais e sociológicas. Revista Crítica de Ciências Sociais, 33, 265-286. Andrade, P. (1993). As sonoridades sociais. In Actas do 2º Congresso Português de Sociologia (pp. 82-105). Lisboa: Fragmentos. Andrade, P. (1994). As tactilidades sociais: mediações sensitivas de vida e/ou de reflexão? In Actas do World Leisure Congress 92 ‘New Routes for Leisure’ (pp.111-130). Lisboa: UNL. Andrade, P. (1995). A negociação do visível: as visibilidades sociais enquanto objecto teórico ilustrativo da Sociologia interdimensional e mediadoraI. Atalaia, 1(2), 73-93. Andrade, P. (1996). Sociologia (interdimensional) da internet. In Actas do 3º Congresso Português de Sociologia. Lisboa: APS. Retirado de https://aps.pt/ wp-content/uploads/2017/08/DPR492d7e3049471_1.pdf Andrade, P. (1997a). Sociologia da intolerância: ou como transformar a sociedade no terceiro milénio. Atalaia, 3, 9-20. Andrade, P. (1997b). Navegações no cibertempo: viagens virtuais e virtualidades da ciberviagem. Atalaia, 3, 111-124. Andrade, P. (1999a). Da referenciação como referência em acção: para uma Sociologia da citação. Atalaia, 5, 83-101. Andrade, P. (1999b). A unidade e a hibridação das escritas. Atalaia, 5, 7-13. Andrade, P. (2003, maio). O efeito pessoa e a Sociologia dos congressos digitais. Comunicação apresentada no V Colóquio Internacional “Discursos e práticas alquímicas”, Lisboa. 97 Extrodução: uma configuração emergente de escrita sociológica Pedro Andrade Andrade, P. (2005). Sociologia do e-learning: uma análise de escrita sociológica. In A. Fidalgo; F. Ramos; J. P. Oliveira & Ó. Mealha (Eds.), Livro de Actas 4.º Sopcom: Repensar os Media: novos contextos da Comunicação e da Informação (pp. 425-434). Aveiro: Universidade de Aveiro. Andrade, P. (2007a). Sociologia da blogosfera: figurações do humano e do social em blogs e hibrilogs. Comunicação e Sociedade, 12, 51-65. https://doi. org/10.17231/comsoc.12(2007).1096 Andrade, P. (2007b). O alfabeto de relações universais (ARU). Comunicação e Linguagens, 38, 143-155 . Andrade, P. (2007c). A sociedade da investigação e do jornalismo: boas práticas de cidadania participativa através da internet móvel e do social bookmarking. Anuário Internacional de Comunicação Lusófona, 5, 307-312. Andrade, P. (2007d, dezembro). Imagem e web 2.0: algumas redes sócio-conceptuais mediadoras da Wikipédia. Comunicação apresentada na Conferência Internacional “Imagem e Pensamento”, Lisboa. Andrade, P. (2007e). Visibilidades artísticas e vigilâncias quotidianas: arte e sociologia no contexto dos dispositivos pós-panópticos e inter-panópticos. Comunicação e Linguagens, 37, 91-107. Andrade, P. (2008, março). Visibilidades/vigilâncias digitais e aura virtual: Walter Benjamin na web 2.0. Comunicação apresentada na Conferência Internacional Walter Benjamin, Lisboa. Andrade, P. (2009, agosto). Escrita, hipertexto e literatura na sociedade de investigação. Comunicação apresentada na Acta Media 7º Simpósio Internacional de ArteMedia e Linguagens Digitais: Imagens e culturas nas práticas cíbridas, São Paulo. Andrade, P. (2010). Geoneologic web 2.0 methods for experimentation in Art and Sociology. Comunicação apresentada na International Visual Sociological Association 2010, Thinking, Doing and Presenting Visual Research: The State of the Field, Bolonha. Benjamin, W. (2007). Walter Benjamin’s archive: images, texts, signs. Londres: Verso. Castells, M. (2009). Communication power. Oxford: Oxford University Press. Costa, P. R. (2013). Entre o ver e o olhar: ecos e ressonâncias ecrãnicas. Tese de Doutoramento, Universidade do Minho, Braga, Portugal. Retirado de http:// hdl.handle.net/1822/24492 Genette, G. (1995). Discurso da narrativa. Lisboa: Vega. 98 Extrodução: uma configuração emergente de escrita sociológica Pedro Andrade Haraway, D. (1990). Simians, cyborgs, and women: the reinvention of nature. Londres: Routledge. Maffesoli, M. (1987). O tempo das tribos: o declínio do individualismo nas sociedades de massa. Rio de Janeiro: Forense Universitária. Maffesoli, M. (2001). O eterno instante. O retorno do trágico nas sociedades pósmodernas. Lisboa: Instituto Piaget. Maffesoli, M. (2006). Du nomadisme vagabondages initiatiques. Paris: Éditions de La Table Ronde. Maffesoli, M. (2010). Matrimonium: petit traité d’écosophie. Paris: CNRS. Manovich, L. (1998). Database as a symbolic form. Cambridge: MT Press. Neves, J. P. & Costa, P. R.(2020). Eu sou tu. Uma ecossociologia da individuação. In J. P. Neves; P. R. Costa; P. de V. Mascarenhas; I. T. de Castro & V. R. Salgado (Eds.), Eu sou tu. Experiências ecocríticas (pp. 25-48). Braga: CECS. Simmel, G. (1989). Philosophie des Geldes. In G. Simmel, Gesamtausgabe, vol. 6. Frankfurt, Main: Suhrkamp. Simondon, G. (1989). L’individuation psychique et collective. Paris: Aubier. Weinstein, D. & Weinstein, M. (2010). Postmodernized Simmel. Londres: Routledge. Citação: Andrade, P. (2020). Extrodução: uma configuração emergente de escrita sociológica. In J. P. Neves; P. R. Costa; P. de V. Mascarenhas; I. T. de Castro & V. R. Salgado (Eds.), Eu sou tu. Experiências ecocríticas (pp. 81-98). Braga: CECS.