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Universidade do Minho Escola de Economia e Gestão Liliana Daniela Machado de Almeida Discriminação de Género na Arbitragem de Futebol: Um contributo empírico para a realidade portuguesa outubro de 2024 UMinho|2024 Discriminação de Género na Arbitragem de Futebol: Um contributo empírico para a realidade portuguesa Liliana Daniela Machado de Almeida
i Universidade do Minho Escola de Economia e Gestão Liliana Daniela Machado de Almeida Discriminação de Género na Arbitragem de Futebol: Um contributo empírico para a realidade portuguesa Dissertação Mestrado em Gestão de Recursos Humanos Trabalho efetuado sob a orientação da Professora Doutora Regina Maria De Oliveira Leite Outubro 2024
ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição CC BY https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/
iii AGRADECIMENTOS Para a realização desta dissertação contei com o apoio e incentivo de várias pessoas e entidades, sem as quais teria sido muito mais difícil atingir o objetivo final, o culminar desta etapa. À Professora Doutora Regina Leite, pela persistência, apoio, motivação e compreensão evidenciados ao longo de todo este percurso, assim como por todo o conhecimento que partilhou comigo. A ela devo-lhe a conclusão desta etapa, pois sempre acreditou que seria possível. Ao conselho de arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol pela disponibilidade e abertura ao permitir que as árbitras de futebol fossem entrevistadas e em momento algum colocar qualquer entrave ao meu trabalho, mostrando-se sempre disponível para colaborar com este estudo. A todos os conselhos de arbitragem que prontamente responderam afirmativamente ao pedido de autorização para entrevistar as árbitras a eles associadas. A todas as árbitras entrevistadas, pela prontidão e vontade em colaborar com este estudo, por disponibilizarem parte do seu tempo para partilharem as suas experiências e opiniões. A todas elas e a quem se dedica à causa da arbitragem feminina, dedico este trabalho, pois apenas quem sente de perto esta realidade, entende o quanto necessita de ser apoiada. Por último, e mais importante, à minha família, em especial aos meus pais, ao meu irmão e ao meu marido, aos meus amigos e aos meus colegas de trabalho por todo o apoio, sacrifícios e disponibilidade para me ajudarem, sempre.
iv DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho.
v Discriminação de género na arbitragem de futebol: um contributo empírico para a realidade portuguesa RESUMO O estudo e a análise sobre a discriminação de género têm assumido grande relevância ao longo dos anos em áreas como direitos humanos, justiça social, desenvolvimento económico, saúde e bem-estar, educação e participação política. De forma a promover a igualdade de oportunidades entre indivíduos do género feminino e masculino no contexto desportivo, mais especificamente na arbitragem de futebol, é fundamental uma análise contínua e eficaz da situação atual, visando implementar práticas que corrijam desigualdades enraizadas. Este estudo procura refletir sobre a perceção das árbitras relativamente à temática da discriminação, identificando os principais desafios e obstáculos que as mulheres enfrentam atualmente na arbitragem de futebol em Portugal. Pretende-se ainda perceber quais as motivações das mulheres para enveredar por esta carreira e as expectativas que têm para o futuro. Através de uma investigação qualitativa, a informação recolhida reflete a predominância de discursos paradoxais sobre a temática da discriminação de género. De forma geral, verifica-se que ainda existem alguns fatores e comportamentos que promovem a discriminação de género. Concomitantemente, de acordo com os dados obtidos nas entrevistas, verifica-se uma tendência para maior abertura de mentalidades e aceitação das mulheres no futebol, também muito devido às instituições que gerem o futebol Português. O estudo permite concluir que a discriminação de género ainda está presente no “mundo” do futebol em Portugal, mas em claro decréscimo, sobretudo nos últimos anos. Palavras-chave: Discriminação de género; Futebol; Arbitragem feminina em Portugal
vi Gender discrimination in football refereeing: an empirical contribution to the portuguese reality ABSTRACT The study and analysis of gender discrimination have gained significant relevance over the years in areas such as human rights, social justice, economic development, health and well-being, education, and political participation. To promote equal opportunities between males and females in sports, particularly in football refereeing, conducting a continuous and practical analysis of the current situation is essential, aiming to implement practices that address entrenched inequalities. This study seeks to reflect on women referees' perceptions regarding the issue of discrimination, identifying the main challenges and obstacles that women currently face in football refereeing in Portugal. Additionally, it aims to understand the motivations that drive women to pursue this career and their expectations for the future. Through qualitative research, the information gathered reflects the predominance of paradoxical discourses on gender discrimination. Overall, it is evident that some factors and behaviours still promote gender discrimination. Simultaneously, according to data obtained from interviews, there is a tendency toward more open-mindedness and acceptance of women in football, mainly due to the efforts of the institutions managing portuguese football. The study concludes that gender discrimination remains present in the "world" of football in Portugal, although it has clearly decreased, especially in recent years. Keywords: Gender discrimination; Football; Women’s Refereeing in Portugal
vii ÍNDICE ÍNDICE DE TABELAS ........................................................................................................... x 1. INTRODUÇÃO ........................................................................................................... 1 1.1 Justificação e Pertinência do Tema ...................................................................... 1 1.2 Objetivos e Questões de Partida .......................................................................... 2 1.3 Estrutura da Dissertação ...................................................................................... 3 2. REVISÃO DA LITERATURA ......................................................................................... 4 2.1 Género .................................................................................................................. 4 2.2 Discriminação de Género ..................................................................................... 6 2.3 Desporto: Futebol ................................................................................................ 8 2.4 Discriminação de Género no Desporto ................................................................ 9 2.5 Arbitragem de Futebol ....................................................................................... 10 2.6 Mulheres no Desporto e na Arbitragem de Futebol .......................................... 14 3. METODOLOGIA DE INVESTIGAÇÃO ........................................................................ 16 3.1 Posicionamento Metodológico .......................................................................... 16 3.2 Estudo qualitativo com recurso a entrevistas semiestruturadas ...................... 17 3.3 Procedimentos na recolha de dados .................................................................. 18 3.4 Tratamento e análise dos dados ........................................................................ 20 3.5 Caracterização das Participantes ....................................................................... 22 4. ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS ............................................................. 25 4.1 Motivos que levam as mulheres a ingressarem, continuarem e/ou abandonarem a carreira de árbitra de futebol ............................................................................................ 27 4.2 Desafios e obstáculos das mulheres árbitras em Portugal ................................ 32 4.2.1 Conciliação da carreira de árbitra com a vida pessoal e profissional ......... 33 4.2.2 Progressão de carreira na arbitragem e valorização do mérito: comparação com os homens árbitros ................................................................................................... 36
4 2. REVISÃO DA LITERATURA Na presente secção é apresentada a revisão da literatura existente acerca do tema em estudo, para uma melhor compreensão da temática, esclarecendo conceitos e tomando conhecimento das investigações desenvolvidas neste âmbito. Para tal, em primeiro lugar será efetuada a análise e definição dos conceitos de género e discriminação de género. Posteriormente será abordado o conceito de desporto, sobre o qual incide o estudo: o futebol e a arbitragem de futebol. Por fim, será efetuada uma análise da literatura relativa à discriminação de género no desporto, na arbitragem de futebol, e às mulheres no desporto e na arbitragem de futebol, uma vez que esta dissertação tem por base as mulheres árbitras e as suas perceções. 2.1 Género A perceção da forma como os homens e as mulheres obtêm as caraterísticas específicas do seu género não é consensual, encontrando-se duas perspetivas diferenciadas na literatura: as perspetivas essencialistas e as perspetivas construtivistas (Pomar, 2006). Nas perspetivas essencialistas a norma que diferencia o género é o critério biológico pressupondo-se que são as diferenças biológicas entre homens e mulheres que irão determinar as diferenças a nível psicológico e comportamental. Esta corrente sugere que os comportamentos sociais são influenciados diretamente pelo sexo biológico com que se nasce, ou seja, as pessoas nascem com uma “predeterminação comportamental, um comportamento padronizado da parte de cada um dos sexos biológicos existentes (Vicente, 2019, p. 130). Com a mesma cadeia de pensamento, Deutsch (2007) afirma que o género está sempre em construção à luz das conceções normativas sobre mulheres e homens. Indicando ainda que o género não é aquilo que o ser humano é, mas sim aquilo que o ser humano faz. Sendo assim, uma caracterização “simplista” do género, de ordem unicamente biológica, que leva constantemente a que o ser humano justifique comportamentos individuais atribuindo características ditas “normais” diferentes para homens e mulheres.
5 Por outro lado, as perspetivas construtivistas defendem que “o género se refere aos papeis construídos socialmente e aos comportamentos, atividades e atributos que uma determinada sociedade considera adequados a homens ou a mulheres (Instituto Português de Apoio e Desenvolvimento, 2012, p. 55). No contexto da União Europeia, no Glossário de Termos para a Igualdade de Género (EIGE, 2017), percebe-se que o género é um conceito relacional, por isso, não se refere apenas a mulheres ou a homens, mas sim às relações que ocorrem entre ambos e ao modo como essas relações vão sendo socialmente construídas. Como instrumento de análise, remete para as diferenças sociais (por oposição às biológicas) entre mulheres e homens, tradicionalmente inculcadas pela socialização, mutáveis ao longo do tempo e que apresentam grandes variações entre e intra culturas. Através do mesmo documento, podemos ainda entender que a representação social do sexo biológico é determinada pela ideia das tarefas, funções e papéis atribuídos às mulheres e aos homens na sociedade e na vida pública e privada. Cada vez mais se reconhece que o conceito de género deve também ser considerado no plano político e institucional. As políticas e as estruturas desempenham um papel primordial na modelização das condições de vida e, por isso, institucionalizam muitas vezes a manutenção e a produção da construção social de género. Segundo Ribeiro e Soares (2013) o conceito de género ocorre a partir de construções culturais, produzidas historicamente com princípio nas características de natureza biológica dos corpos, em que “há uma multiplicidade de construções do ser masculino e do ser feminino, pois diversificados modelos ideais, padrões e imagens, de diferentes contextos (classes, raças, etnias, nacionalidade, religião) configuram o processo de formação do homem e da mulher.” (Ribeiro & Soares, 2013, p. 26) Por outro lado, numa vertente contraditória, Silva e Magalhães (2013) consideram o género como uma construção cultural, não existindo uma única forma de viver o “ser feminino” e o “ser masculino”, existem 73 pessoas que aprenderam a ser de um determinado jeito e apresentam características e valores de determinado grupo social, características essas que podem ser insignificantes noutros grupos. Para estas autoras, aprendemos a viver o género e a sexualidade na cultura, (...). No mesmo seguimento de pensamento para Louro (2008), as muitas formas de experimentar prazeres e desejos, de dar e de receber afeto, de amar e de ser amada/o são ensaiadas e ensinadas na cultura, são diferentes de uma cultura para outra, de uma época ou de uma
6 geração para outra. E hoje, mais do que nunca, essas formas são múltiplas. As possibilidades de viver os géneros e as sexualidades ampliaram-se. 2.2 Discriminação de Género O artigo 23.º da Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia (2016), estipula que "deve ser garantida a igualdade entre homens e mulheres em todos os domínios, incluindo em matéria de emprego, trabalho e remuneração." Segundo a Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as Formas de Discriminação Racial (1965), tem-se por discriminação "qualquer distinção, exclusão, restrição ou preferência baseadas em raça, cor, descendência ou origem nacional ou étnica que tem por objetivo ou efeito anular ou restringir o reconhecimento, gozo ou exercício num mesmo plano, ( em igualdade de condição), de direitos humanos e liberdades fundamentais no domínio político económico, social, cultural ou em qualquer outro domínio de vida pública”. A esta definição, acrescenta-se a lista de critérios proibidos de discriminação, que atenta para manifestações específicas de discriminação, tais como género, raça e etnia, religião, orientação sexual, deficiência e idade (Fredman, 2011, p. 38). Para Mestre (2015), o conceito de discriminação tem subjacente uma conceção profundamente individualista do ser humano; visa combater os estereótipos associados com determinados grupos sociais (por exemplo, minorias sexuais, minorias étnicas, grupos etários). Torna-se fundamental mencionar que existe uma intrínseca relação entre os conceitos de igualdade e discriminação, pois, a primeira traduz um reconhecimento de uma mesma medida de dignidade humana para todos os sujeitos; “por seu turno, a discriminação ao realizar uma distinção de forma injusta para uma relação de determinados indivíduos e grupos, considerando não apenas as diferenças mas também tratando-os de forma inferior, seja por motivo de religião, raça, sexualidade ou género, passa a ser um grande obstáculo para que essa dignidade seja alcançada.” (Ballesteros Moreno, 2015, p. 24). Os estereótipos de género estão na base das discriminações em função do sexo, que impedem a igualdade entre mulheres e homens, legitimando e perpetuando modelos de discriminação estruturais e históricos (Diário da República, 2018).
7 Segundo o ponto número 1 do artigo II da Declaração Universal dos Direitos Humanos, todos os seres humanos podem invocar direitos e liberdades, sem distinção alguma, nomeadamente de raça, de cor, de sexo, de língua, de religião, de opinião política ou outra, de origem nacional ou social, de fortuna, de nascimento ou de qualquer outra situação (ONU, 2009). De forma semelhante, a Constituição da República Portuguesa menciona que “ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual.” (art. 13º, Constituição da República Portuguesa, 2005, p. 4). As questões da discriminação de género podem ser explicadas através das diferenças entre os homens e as mulheres como um sistema social onde os homens têm acesso privilegiado às várias áreas da sociedade, detendo mais poder que a mulher e tendo supremacia sobre tudo (Vicente, 2019). Segundo Jacinto et al. (2015), a realidade das mulheres ainda se distancia do conceito de cidadania presente no catálogo dos direitos humanos. Para Vicente (2019), todas as pessoas são prejudicadas com a existência de estereótipos, homens e mulheres, apesar de os estereótipos terem por base o poder e o privilégio, podendo, ainda hoje, observar-se que a percentagem de mulheres que chegam a cargos de decisão ou cargos políticos é muito inferior à percentagem de homens nos mesmos cargos, apesar de se saber que há mais mulheres com o ensino superior do que homens. No Glossário de Termos para a Igualdade de Género é mencionada a definição de discriminação contra as mulheres segundo a Convenção das Nações Unidas para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra as Mulheres (1979), em que no seu art.º1, pode ler-se que a “discriminação contra as mulheres é qualquer distinção, exclusão ou restrição baseada no sexo, que tenha como efeito ou como objetivo comprometer ou destruir o reconhecimento, o gozo ou o exercício pelas mulheres, seja qual for o seu estado civil, com base na igualdade dos homens e das mulheres, dos direitos humanos e das liberdades fundamentais nos domínios político, económico, social, cultural e civil ou em qualquer outro domínio. Quando a “categoria sexo” é ativada, os estereótipos associados são também ativados, sendo os homens vistos de forma automática, como sendo mais competentes, sendo-lhes atribuídas algumas vantagens (Deutsch, 2007). Segundo o mesmo autor, são as próprias pessoas que agem de acordo com a noção de que irão ser julgadas por aquilo que é suposto ser um comportamento feminino ou masculino.
8 Segundo Vargas (2022) no seu estudo sobre os estereótipos de género, a dimensão do “comportamento” associado ao género está relacionada com uma cultura patriarcal profundamente enraizada nas pessoas, que define comportamentos aceitáveis ou inaceitáveis para um ou outro sexo/género e que, evidentemente, contribui para o desenvolvimento de comportamentos estereotipados. O mesmo autor, no que concerne à dimensão da “expressão de emoções e sentimentos” descreve os estereótipos de género relativamente às manifestações emocionais e afetivas evidenciando um elevado nível de internalização dos estereótipos de género. 2.3 Desporto: Futebol A Carta Europeia do Desporto (1992), no seu art.2º, define desporto como sendo “todas as formas de atividades físicas que, através de uma participação organizada ou não, têm por objetivo a expressão ou o melhoramento da condição física e psíquica, o desenvolvimento das relações sociais ou a obtenção de resultados na competição a todos os níveis”. Nesta definição, são reconhecidas três formas diferentes de fazer desporto: na primeira forma, o desporto é visto com o propósito de melhorar a “condição física e psíquica”, isto é, qualquer exercício físico que seja direcionado para a melhoria dos índices físicos e também psicológicos. Na segunda, o desporto tem como objetivo “o desenvolvimento das relações sociais”, isto é, qualquer tipo de atividade física praticada com alguém, regendo-se por regras, ou não, que auxilie na componente social da pessoa. Na terceira e última forma de prática do desporto, este tem como objetivo “a obtenção de resultados na competição a todos os níveis”, ou seja, a prática do desporto em contexto de jogo com regras, normas e com intuito competitivo. Segundo a International Football Association Board (2023), o futebol é o principal desporto no planeta. É jogado em todos os países e a muitos níveis diferentes. As Leis do Jogo são as mesmas para todo o futebol pelo mundo todo, desde o Campeonato do Mundo da FIFA até ao jogo disputado por crianças numa aldeia remota, é uma força considerável que deverá continuar a ser aproveitada para o bem do futebol em toda a parte. O futebol tem de ter leis que garantam que o jogo é ‘correto’, já que a base da beleza do ‘jogo bonito’ é uma caraterística vital para o ‘espírito de jogo’. Os melhores jogos são aqueles em que o árbitro raramente é necessário porque os jogadores jogam com respeito uns pelos outros, pela equipa de arbitragem e pelas leis (The International Football Association Board, 2023).
9 Para a The International Football Association Board (2023), o futebol tem de ser atrativo e trazer satisfação aos jogadores, equipa de arbitragem, treinadores, bem como aos espectadores, adeptos, administradores, independentemente da idade, raça, religião, cultura, origem étnica, género, orientação sexual, deficiência, que queiram fazer parte e divertir-se com o seu envolvimento no futebol. 2.4 Discriminação de Género no Desporto Ao analisar a questão da igualdade de género no desporto, percebemos que o desporto tem sido, tradicionalmente, dominado pelos homens quer em termos de participação nalgumas modalidades como nos órgãos de administração e governo (EIGE, 2017). Atualmente, é possível encontrar indivíduos de diferentes classes sociais, idade, etnia, raça e género que jogam futebol em todos os lugares da sociedade, em ambientes informais e formais, como no quintal de casa, nas ruas, escolas, clubes e escolas de futebol. Contudo, apesar de hoje o futebol ser um dos maiores fenómenos socioculturais, vale a pena destacar que o seu início deu-se de forma excludente e longe de ser uma prática democrática de livre acesso a todos os extratos sociais, pois, inicialmente o futebol “[...] estava vinculado a um recorte específico de género, classe e raça: era restrito aos homens ricos e brancos, pertencentes às elites brancas. Aos pobres, negros e mulheres, a prática do futebol não era permitida” (Broch, 2021, p. 697). Para Broch (2021), o cenário feminino no desporto precisou e ainda precisa de lidar com muitos obstáculos. Os tempos experienciados pelo futebol masculino e feminino são muito distintos, pois o desenvolvimento do futebol com equipas formadas por homens, teve por base alguns dos privilégios do género masculino, e não precisou de lidar com a repressão com que as equipas femininas lidam. Segundo a mesma autora, o futebol enquanto expressão cultural, mobiliza discursos e saberes que historicamente colocam as mulheres em situação de desigualdade. O que se perceciona em relação às árbitras é que esses discursos e práticas mantêm-se, e as violências continuam a ser praticadas no universo futebolístico, relativamente a jogadoras, árbitras, treinadoras, dirigentes e apoiantes, uma vez que os homens acreditam que neste desporto não há lugar para as mulheres (Broch, 2021).
10 Segundo Federico et al. (2023), mesmo sendo visíveis progressos consideráveis, a igualdade de remuneração continua a ser um desafio importante no desporto feminino. Embora se tenham registado algumas melhorias, os salários das mulheres continuam a ser significativamente inferiores aos dos homens. Se existe alguma mudança em direção à igualdade, a divisão de género tende a persistir na prática desportiva ao longo do tempo e os processos de feminização relativa (em desportos novos e tradicionalmente masculinos) tendem a não ser sustentáveis ao longo do tempo. No conjunto das atividades desportivas altamente masculinizadas, observa-se um maior número de atividades praticadas maioritariamente por homens, incluindo dois dos desportos nacionais mais seguidos e valorizados em Portugal: Futebol e Ciclismo. (Cimbrini et al., 2019). E enquanto modalidade com mais atletas federados, o futebol ainda é visto como um desporto maioritariamente masculino (PORDATA, 2020). Segundo o Boletim Estatístico (2023), as remunerações médias, tanto ao nível da remuneração base, como dos ganhos, são sempre superiores nos homens em todos os níveis de qualificação, em todos os níveis de habilitação, para todos os graus de antiguidade e em todos os grandes grupos profissionais. Pode-se observar que a jogadora mais bem paga do mundo, a norueguesa Ada Hegerberg, tem um salário, aproximadamente, 331 vezes inferior ao jogador mais bem pago do mundo, Lionel Messi. Desde 2017, Ada distanciou-se dos relvados, rejeitando, jogar o Campeonato do Mundo de 2019, como forma de protesto em relação às desigualdades do trabalho e remunerações entre jogadores e jogadoras (GE, 2019). 2.5 Arbitragem de Futebol O árbitro de futebol tem como principal função o dever de zelar pela aplicação das Leis do Jogo (International Football Association Board, 2023). Para Righetto (2016), o árbitro de futebol é aquele que possibilita o cumprimento dos limites do jogo oficial ou de forma ordenada, tendo como elementos o próprio jogo (espaço, tempo, jogadores e materiais), o procedimento dos objetivos do jogo (bola, golo) e o adversário. Nesse sentido, para a atividade, são estabelecidas condutas esperadas e infratoras que serão punidas pelo árbitro de acordo com as regras e a interpretação das leis de jogo.
11 Desde meados dos anos 1930, a International Football Association Board, no livro das leis de jogo, estipula que estas leis se dividem em 17, sendo elas: 01. O Terreno de Jogo; 02. A Bola; 03. Os Jogadores; 04. O Equipamento dos Jogadores; 05. O Árbitro; 06. Os Outros Elementos da Equipa de Arbitragem; 07. A Duração do Jogo; 08. O Começo e Recomeço do Jogo; 09. A Bola em Jogo e Fora do Jogo; 10. Determinação do Resultado do Jogo; 11. Fora de Jogo; 12. Faltas e Incorreções; 13. Pontapés Livres; 14. O Pontapé de Penálti; 15. O Lançamento Lateral; 16. O Pontapé de Baliza; 17. O Pontapé de Canto As regras do futebol, conforme nos demonstram Righetto (2016) e Righetto e Reis (2017), foram modificadas ao longo dos anos para corresponder às necessidades dos jogos. Numa primeira fase, a presença do árbitro não estava determinada, sendo as decisões tomadas pelos capitães das próprias equipas. Por volta do ano de 1868 com a introdução da lei do fora de jogo, a atividade necessitou da presença de um mediador que se encontrava fora do terreno de jogo e com uma visão privilegiada para afirmar a legalidade ou ilegalidade de jogadas duvidosas, em que o árbitro só interferia na partida quando consultado pelas equipas. Outra inserção que marca a evolução da arbitragem, é o apito, que passou a ser utilizado por volta do ano de 1878, com a necessidade do aumento da intervenção nos jogos. A crescente competitividade entre as equipas, assim como os momentos de tensão e protesto relativamente a lances do jogo, fizeram com que a figura do árbitro se tornasse in-
12 dispensável, tendo sido a sua entrada em campo autorizada pelo International Football Association Board a partir de 1891 e o poder que tem atualmente foi-lhe concedido em 1894, com a criação da regra do penálti. Desde então, o árbitro tornou-se uma figura importante, de tal modo que os jogos de futebol oficiais (seja ao nível profissional ou amador) não podem ocorrer sem ele (Silva & Añes, 2008). Ao árbitro é exigida uma boa condição física (Oliveira et al., 2011) uma vez que decisões rápidas, baseadas no julgamento correto do árbitro, e uma ação imediata contribui para o desenvolvimento imparcial dos jogos (Oliveira et al., 2011). Segundo Salgado (2024), Fontelas Gomes, presidente do Conselho de arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol, numa entrevista dada ao Jornal “A BOLA”, aos árbitros é exigida uma capacidade física quase comparável à de um jogador. O futebol está mais rápido, mais intenso, mais disputado e mais competitivo. E os árbitros têm de estar preparados. Os árbitros têm uma carreira muito precária, em que tal como explica o Presidente do Conselho de Arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol, na mesma entrevista ao jornal “A Bola”, muitos árbitros acabam por optar por ter negócios próprios de forma a poderem compatibilizar a arbitragem com uma atividade profissional ou têm patrões compreensivos. Em relação à remuneração, esta também não é constante, depende do jogo e da competição, podendo oscilar, consoante os jogos que se faz e também se são ou não jogos internacionais, que têm um peso bastante grande nesses proventos, mas um árbitro ganha, por norma, por mês, entre os cinco e os seis mil euros brutos, já a remuneração mensal de uma árbitra encontra-se entre os novecentos e os mil e quinhentos euros. A isto acresce que são pagos a recibo verde, como prestadores de serviços o que leva a uma carga fiscal elevada, conforme explica o presidente do conselho de arbitragem, na mesma entrevista. Os escalões de árbitros(as) e árbitros(as) assistentes estão divididos em categorias, conforme resumido nas tabelas abaixo, realizadas com base em informações recolhidas no Regulamento da Arbitragem (2024) e no site da International Federation of Association Football (FIFA). Tabela 1 - Quadro de árbitros(as) de futebol por categorias
13 Quadro de árbitros(as) de futebol por categorias Homens Mulheres Categorias Internacionais Men Elite Women Elit Men First Women First Men Second Women Second Categorias Nacionais Categoria 1 (C1) Categoria Feminina 1 (CF1) Categoria 2 (C2) Categoria Feminina 2 (CF2) Categoria 3 (C3) Categoria Feminina 3 (CF3) Categoria 3 CORE (C3 CORE) Categoria 4 (C4) Categoria 4 CORE (C4 CORE) Categorias Distritais Categoria Feminina 4 (CF4) Categoria 5 (C5) Categoria Feminina 5 (CF5) Categoria 6 (C6) Categoria Feminina 6 (CF6) Categoria 7 (C7) Categoria Feminina 7 (CF7) Estagiário Nível 1 (EC1) Estagiário Feminina Nível 1 (EC1) Tabela 2 - Quadro de árbitros(as) assistentes de futebol por categorias Quadro de árbitros(as) Assistentes de futebol por categorias Homens Mulheres Categorias Internacionais Men International Assistant Referee Women International Assistant Referee Categorias Nacionais Arbitro Assistente Categoria 1 (AAC1) Árbitra Assistente Categoria Feminina (AACF) Arbitro Assistente Categoria 2 (AAC2)
20 decorrer das entrevistas, as várias perguntas do guião eram sempre expostas, exceto nos casos em que a entrevistada abordasse determinadas temáticas de forma espontânea, enquanto estava a responder a uma pergunta do guião. Ao mesmo tempo, foram também explorados novos pontos pela entrevistadora, sempre que se considerasse que fossem pertinentes. Assim sendo, era sempre proposta uma questão sobre determinado assunto, e de seguida a entrevistada explanava o seu ponto de vista, fazendo com que a questão seguinte, colocada pelo investigador, dependesse da resposta que fosse fornecida pela entrevistada, relativamente à questão anterior. O número de árbitras contactadas para a realização das entrevistas foi muito superior ao número das efetivamente realizadas, como mencionado anteriormente, pelo facto de algumas demonstrarem falta de tempo e outras pouco à vontade para falar sobre o tema, chegando a mencionar que poderiam ser prejudicadas, apesar de terem sido elucidadas do total anonimato das entrevistas. Para além disso, de forma a garantir o menor constrangimento possível e o consentimento das entrevistadas, as entrevistas foram sempre realizadas individualmente e no início de cada entrevista foi colocada a questão: “Concordas em dar esta entrevista, que a mesma seja gravada e que a informação que dela surgir seja tratada no meu estudo e posteriormente seja publicada, sempre de forma anónima, sem nunca pronunciar o teu nome?” As entrevistas tiveram uma duração mínima aproximada de 25 minutos e máxima de 1 hora e 38 minutos, sempre com a gravação de vídeo e voz, com a autorização das entrevistadas, em que todas as entrevistadas mostraram abertura e para a gravação das entrevistas. Tendo em conta a evolução e consequentes alterações do futebol feminino e da arbitragem feminina, sentiu-se a necessidade de contactar novamente algumas das entrevistadas, aquelas que poderiam ter sido abrangidas em algumas das alterações, como o aumento dos prémios de jogo ou por terem sido convidadas a dedicarem-se a tempo integral à arbitragem. Este novo contacto foi efetuado durante o mês de setembro de 2024, de forma a coincidir com início da época 2024/2025, sendo apenas colocadas em específico as questões, cuja opinião poderia ser diferente devido às alterações ocorridas, entretanto. 3.4 Tratamento e análise dos dados
21 Segundo Esteves (2006) a análise de conteúdo passa pela “(…) realização de interferências pelo investigador, que por se apresentarem com um fundamento explícito podem ser questionadas por outros, e podem ser corroboradas ou contrariadas por outros procedimentos de recolha e tratamento de dados, no quadro de uma mesma investigação ou de investigações sucessivas.” Para o mesmo autor, existem diferentes formas para tratar os dados obtidos, tendo em conta que há várias formas de compreender o objeto de investigação e de formular as questões de partida, porque o conhecimento prévio do objeto em estudo apresenta níveis distintos de conhecimento, visto que cada investigador é diferente entre si. Deste modo, independentemente da análise construída, o que importa é que a mesma seja sujeita a processos internos de validação, que numa fase posterior se sujeita à crítica, se for o caso, que seja realizada uma contestação dos resultados obtidos, dado que a fundamentação dos argumentos e as decisões que foram tomadas são explanados (Esteves, 2006). Deste modo, pretende-se que o investigador obtenha um conjunto de dados de natureza, particularmente, descritiva e que compreenda, através dos dados recolhidos, o significado atribuído pelos interlocutores consoante as suas experiências e situações (Bogdan & Biklen, 1994). Após a realização e transcrição das entrevistas, efetuou-se o tratamento da informação recolhida através do método da análise de conteúdo. Esta técnica de investigação permite tratar as informações e analisar testemunhos de caráter mais profundo e subjetivo, possibilitando assim a interpretação das entrevistas e a produção de conclusões mais objetivas e sistemáticas (Quivy & Campenhoudt, 1998; Stemler, 2001) Após a realização das entrevistas, estas foram transcritas na sua íntegra, tentando sempre ter o cuidado de não distanciar muito no tempo a realização da entrevista e a transcrição da mesma, de forma a se conseguir retirar o máximo proveito possível da situação vivida aquando do momento da entrevista (Cabral-Cardoso, 2015), sendo registado por exemplo, hesitações, pausas ou risos. Tudo isto, para que tudo que o fosse verbalizado fosse transcrito. A transcrição das entrevistas revestiu-se de enorme utilidade para se proceder à análise dos dados obtidos. Assim, após leitura cuidada e rigorosa das entrevistas, e com o auxílio do software QRS NVivo, efetuou-se a organização dos elementos e conteúdos em categorias e subcategorias (Tabela 4) que traduzem os principais temas abordados no guião de entrevista e vão ao
22 encontro dos objetivos de partida, tendo sido aperfeiçoadas à medida que a análise foi progredindo. 3.5 Caracterização das Participantes As entrevistas foram realizadas a árbitras de nove distritos (Braga, Évora, Vila Real, Coimbra, Lisboa, Porto, Viana do Castelo, Aveiro e Região Autónoma da Madeira), sendo as entrevistadas um total de dezoito árbitras. As idades das entrevistadas estão compreendidas entre os vinte e os trinta e quatro anos. Relativamente ao estado civil, três das dezasseis árbitras são casadas e as restantes são solteiras. Apenas duas entrevistadas referiram ter filhos. Verifica-se que as entrevistadas têm entre quatro e quinze anos de carreira como árbitras. Quanto ao nível de escolaridade, pode verificar-se que cinco têm o 12º ano, seis possuem licenciatura e sete têm mestrado. Seguidamente apresenta-se a tabela 3, onde é apresentada a caracterização das participantes em estudo. Tabela 3: Caraterização das participantes em estudo Entrevistada Distrito Idade Estado Civil Nº de Filhos Anos de experiência como árbitra Grau de Escolaridade Duração da Entrevista Árbitra 1 Braga 24 anos Solteira 0 9 anos Mestrado 01:31:55 Árbitra 2 Braga 26 anos Solteira 0 11 anos Licenciatura 01:24:27 Árbitra 3 Évora 29 anos Solteira 0 10 anos Mestrado 01:30:25 Árbitra 4 Braga 24 anos Solteira 0 6 anos Licenciatura 01:04:38
23 Árbitra 5 Vila Real 27 anos Casada 0 9 anos Mestrado 01:38:07 Árbitra 6 Coimbra 30 anos Solteira 0 7 anos 12º ano 01:32:04 Árbitra 7 Lisboa 23 anos Solteira 0 3 anos Licenciatura 01:00:48 Árbitra 8 Porto 24 anos Solteira 0 3 anos Licenciatura 00:57:15 Árbitra 9 Viana do Castelo 31 anos Casada 1 13 anos Licenciatura 00:25:05 Árbitra 10 Coimbra 33 anos Solteira 0 19 anos Mestrado 01:37:52 Árbitra 11 Braga 34 anos Solteira 0 10 anos Mestrado 01:34:26 Árbitra 12 Braga 27 anos Casada 1 11 anos 12º ano 00:52:16 Árbitra 13 Porto 30 anos Solteira 0 12 anos Mestrado 01:36:41 Árbitra 14 Aveiro 20 anos Solteira 0 3 anos 12º ano 00:53:27 Árbitra 15 Lisboa 23 anos Solteira 0 1 ano 12º ano 01:24:15 Árbitra 16 Viana do Castelo 30 anos Casada 0 12 anos Mestrado 01:30:44
24 Árbitra 17 Madeira 22 anos Solteira 0 2 anos 12º ano 01:14:05 Árbitra 18 Lisboa 24 anos Solteira 0 7 anos Licenciatura 01:16:35
25 4. ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS Neste capítulo encontra-se a análise e a discussão dos resultados da investigação realizada, tendo em conta as três questões de partida. Este estudo contou com a participação de 18 árbitras pertencentes aos diferentes quadros de seis associações distritais e da Federação Portuguesa de Futebol. As três grandes temáticas desta análise centram-se i) nas motivações das mulheres para enveredarem pela arbitragem de futebol, ii) na discriminação de género e as diferentes vertentes em que pode ser percecionada e iii) nas expectativas futuras para a arbitragem feminina de futebol em Portugal. Sendo uma dissertação realizada no âmbito do mestrado em Gestão de Recursos Humanos, foi dada também relevância a questões como a gestão de carreiras das árbitras e a remuneração. Começa-se por analisar os motivos apresentados pelas entrevistadas para ingressarem, manterem ou abdicarem da arbitragem de futebol, de forma a dar resposta à seguinte pergunta de partida: Quais são as principais motivações das árbitras de futebol? Logo em seguida, é dado enfoque àquilo que está na origem da persistência das desigualdades de género na arbitragem em Portugal. Pretende-se perceber quais os principais desafios e obstáculos que as árbitras percecionam, com o objetivo de responder à segunda questão de partida: O que está na origem (desafios/obstáculos) da persistência das desigualdades de género na arbitragem em Portugal? E, por fim, objetiva-se compreender quais são as principais expectativas das árbitras portuguesas em relação ao futuro no que respeita à arbitragem em Portugal, para responder à questão: Quais as expectativas em relação ao futuro da arbitragem no feminino? Deste modo, e tendo por base as três questões de partida desta investigação, os dados recolhidos nas dezoito entrevistas realizadas foram organizados em três categorias e respetivas subcategorias, tal como apresentado seguidamente na Tabela 3. Tabela 4: Categorias e Subcategorias de Análise – Grelha de Análise
26 I. Quais são as principais motivações das árbitras de futebol? 4.1Motivos que levam as mulheres a ingressarem, continuarem e/ou abandonarem a carreira de árbitra de futebol II. O que está na origem (desafios/obstáculos) da persistência das desigualdades de género na arbitragem em Portugal? 4.2Desafios e obstáculos das mulheres árbitras em Portugal 4.2.1Conciliação da carreira de árbitra com a vida pessoal e profissional 4.2.2Progressão de carreira na arbitragem: comparação com os homens árbitros e valorização do mérito 4.2.3Tratamento dado às árbitras por parte dos Jogadores / Treinadores /Dirigentes dos clubes / Comunicação social 4.2.4Tratamento dado às árbitras por parte do Público (Homens vs Mulheres) 4.2.5Tratamento dado às árbitras por parte dos colegas árbitros (Homens e Mulheres) 4.2.6Assédio (moral/sexual) 4.2.7Remuneração 4.2.8A realidade geográfica
27 III. Quais as expectativas em relação ao futuro da arbitragem no feminino? 4.3 - Evolução da arbitragem de futebol em Portugal 4.1 Motivos que levam as mulheres a ingressarem, continuarem e/ou abandonarem a carreira de árbitra de futebol A primeira categoria de análise visa perceber o que leva uma mulher a enveredar por uma carreira tantas vezes associada aos homens e a um “mundo de homens” que é o futebol. Deste modo, as participantes do estudo foram questionadas diretamente sobre os motivos específicos que as levaram a ingressar na arbitragem de futebol. Foram por elas apontados vários motivos associados à decisão de enveredar pela arbitragem, como o gosto pelo desporto, e em muitos casos o gosto específico por futebol, uma vez que a maior parte das entrevistadas já praticava desporto ou estava ligada a ele, antes de iniciar a carreira de árbitra, tal como explica Gubby e Martin (2024), todas as participantes começaram como jogadoras antes de se tornarem árbitras com experiência relevante. Os excertos que se seguem são ilustrativos da ligação prévia das árbitras ao desporto. “(…) estava a tirar o curso de desporto e também já praticava ginástica e voleibol, e quando me falaram do curso para árbitros de futebol, não hesitei (…)” (Árbitra 3) Outra participante relembra a sua realidade: “Começamos logo desde pequeninos a jogar futebol, o meu pai e o meu irmão também jogavam futsal e eu ia ver sempre os jogos deles, porque eu adorava aquilo! Entretanto ainda tentamos criar uma equipa de futsal feminino (…) mas não houve adesão. Então, quando fui para a universidade para o curso de desporto, pensei que já era um bocado tarde para continuar a tentar jogar futsal ou futebol e surgiu a oportunidade de ser árbitra de futebol e pensei: é mesmo isto!” (Árbitra 5)
28 Por sua vez, a entrevistada abaixo, menciona especificamente o seu gosto pelo futebol: “(…) sempre gostei muito de futebol e na altura andava no desporto escolar e não haviam muitas equipas femininas, falava-se muito pouco ou nem se falava de futebol feminino e eu, então, vi a arbitragem como uma maneira de ficar próxima da modalidade (…)” (Árbitra 16) As pessoas com quem se lida no dia-a-dia também são um elemento de grande influência em muitas áreas e a arbitragem não é exceção. Algumas das entrevistadas realçam a importância que alguns familiares, amigos ou conhecidos, nuns casos homens noutros casos mulheres, tiveram no início do seu percurso. No excerto abaixo, a entrevistada fala da influência de outra árbitra, para iniciar o seu percurso: “(…) tive um bocado a influência de uma árbitra que conhecia, amiga do meu irmão. Ela insistia muito para eu experimentar e foi a partir daí que tudo surgiu. Pensei que não ia gostar, mas agora adoro isto e não quero deixar!” (Árbitra 4) Outra árbitra evidencia a influência do seu pai: “O meu pai teve muita influência na minha decisão, ele já tinha sido árbitro e dirigente. Eu sempre gostei de jogar e ver futebol, numa das vezes que fui ver um jogo de futebol na minha terra, surgiu a ideia de ser árbitra (…)” (Árbitra 7) Por outro lado, vários membros da família tiveram interferência da decisão da entrevistada seguinte: “Então, a arbitragem surgiu na minha vida através da minha família, porque estou inserida numa família de árbitros, o meu pai foi árbitro, o meu avô foi árbitro e o meu tio foi árbitro (…) normalmente aos domingos quando almoçávamos todos juntos era sempre tema de conversa e foi algo que sempre suscitou a minha curiosidade e quando tinha
29 idade, aos 14 anos, fui tirar o curso de árbitra para perceber o que é que era realmente este mundo.” (Árbitra 10) No caso da árbitra abaixo, a influência surgiu por parte de um amigo: “(…) tinha um amigo no secundário que era árbitro de futebol, achei surpreendente alguém ir para árbitro de futebol, retive aquilo e passados já alguns anos, andei a pesquisar para ver quando começavam os cursos e decidi tirar o curso de árbitra!” (Árbitra 11) Tal como outras árbitras mencionadas anteriormente, a seguinte entrevistada teve influência de um familiar, neste caso, o tio: “(…) tinha um familiar, neste caso o meu tio, que era árbitro de futebol, fez parte dos quadros da federação e no ano que subiu à federação, incentivou-me a tirar o curso de árbitra e eu decidi experimentar (…)” (Árbitra 16) As questões monetárias também têm muita influência sobre as tomadas de decisão, tendo sido um motivo apontado por algumas das entrevistadas para inicialmente ingressarem nesta carreira. Especificamente, o facto de o curso para árbitros ser gratuito e todos os jogos serem pagos, isto é, assim que um árbitro termina o curso com uma duração de cerca de três meses e começa a fazer jogos, estes são sempre remunerados, mesmo durante a primeira e a segunda época, quando ainda são considerados estagiários. O fator monetário, aliado às idades muito jovens com que normalmente se inicia a carreira e a situação em que os jovens se encontram nessa fase (geralmente ainda estudam), faz com que a arbitragem se torne atrativa. Estes aspetos foram assim explicados pelas seguintes participantes: “A remuneração também contribuiu para arriscar na arbitragem, porque quando era jogadora era só despesas, ainda estava a estudar e algum dinheiro extra dava muito jeito naquela altura (…)” (Árbitra 11) Outra árbitra também explica que:
36 “(…) sempre que vejo que há possibilidade, falo com a minha entidade patronal para que me autorize a realizar jogos no horário laboral e muitas vezes tento compensar noutras alturas, a gestão não é fácil, mas também gosto de fazer jogos e acredito que é importante demonstrar alguma disponibilidade na arbitragem, para que saibam que podem contar comigo (…)” (Árbitra 11) A entrevistada seguinte demonstra que tem vontade de fazer mais jogos, o que nem sempre é possível: “Gostava de ter mais tempo para fazer jogos durante a semana, mas nem sempre consigo pedir isso ao meu patrão. Ele até acha piada ao facto de eu ser árbitra, mas se lhe peço várias vezes para ir fazer jogos, sinto que ele não gosta, então tento evitar pedirlhe muitas vezes, tento fazer uma gestão entre o trabalho e a arbitragem (…)” (Árbitra 12) Por outro lado, uma das árbitras englobadas no novo programa da Federação Portuguesa de Futebol, explica que: “Tive a sorte de ser convidada para fazer parte do grupo de seis árbitras escolhidas para estar dedicadas à arbitragem quase a tempo inteiro, o que me facilita muito em termos de tempo. Agora consigo ir para os jogos durante a semana mais tranquila, já não tenho que me preocupar com o meu trabalho. Não é tudo fácil, mas nesse aspeto é muito melhor agora.” (Árbitra 5) Apesar dos vários esforços da Federação Portuguesa de Futebol para promover a profissionalização da arbitragem feminina e assim ser mais fácil conciliar a carreira de árbitra com a vida pessoal, ainda são em número muito reduzido as árbitras que conseguem fazer da arbitragem uma ocupação profissional. 4.2.2 Progressão de carreira na arbitragem e valorização do mérito: comparação com os homens árbitros
37 Quando se compara a carreira de homens e mulheres árbitras, a opinião das entrevistadas foi muito semelhante: de forma generalizada, as entrevistadas assumem que, atualmente, a progressão de carreira na arbitragem é mais célere para as mulheres do que para os homens, o que pode ser considerado um “benefício” que têm comparativamente ao género masculino. Consideram que esta ainda é uma realidade, uma vez que o número de mulheres na arbitragem ainda é muito reduzido, pelo que se torna mais fácil ascender a patamares mais elevados, como conseguirem subir aos quadros da Federação Portuguesa de Futebol ou mesmo serem árbitras internacionais. Apesar de o percurso das árbitras não ser fácil, acaba por ser facilitado pelo reduzido número de árbitras existente em Portugal, comparativamente ao número de homens árbitros. Algumas das entrevistadas tendem também a afirmar que esta realidade pode estar prestes a alterar-se com o crescimento do futebol feminino em Portugal e consequente aumento do número de árbitras. As entrevistadas tendem a ver este crescimento como positivo, uma vez que poderá gerar mais competitividade e resultar num aumento da qualidade da arbitragem feminina e maior exigência por parte dos órgãos que gerem a arbitragem. “Bem… o facto de sermos poucas, ao nível de subir é mais fácil, sem dúvida, conseguimos chegar mais rápido onde queremos, porque não temos quase nenhuma concorrência. Os homens precisam de lutar mais, muito mais, para conseguir chegar aos mesmos patamares nos quadros masculinos, que nós em pouco tempo conseguimos nos quadros femininos (…)” (Árbitra 17) Da mesma forma, outra árbitra afirma que: “(…) o facto de nós sermos menos pode fazer-nos sentir-nos valorizadas (…) neste momento, uma árbitra que entre para o quadro mais baixo do distrital, se trabalhar e cumprir com os requisitos mínimos exigidos, consegue chegar aos quadros da Federação muito mais rápido do que um homem. (…) Eu, por exemplo, senti isso na minha associação. Senti que consegui subir muito mais rápido do que os meus colegas homens, no ano em que subi à Federação, basicamente nem tive concorrência, isto nos homens nunca acontecia, pelo menos na minha associação…” (Árbitra 18)
38 Existem também árbitras que conseguem ver outros aspetos positivos para as mulheres quando comparadas com os homens, como o facto de atualmente o futebol feminino estar a desenvolver-se e crescer consideravelmente, o que gera, na opinião destas entrevistadas, diversas oportunidades para as mulheres, que há alguns anos seriam impensáveis. “Neste momento estamos a viver uma grande oportunidade para as mulheres, no sentido do desenvolvimento da mulher entrar no mundo do homem, porque é este o caminho que a UEFA e a FIFA pretendem que se faça e por isso abrem-se portas e, por exemplo, as árbitras internacionais portuguesas poderem fazer jogos de homens pode ser considerada uma vantagem em relação aos homens, no sentido em que nós não tivemos que passar por um seminário para sermos aprovadas para um quadro e qualquer homem tem que passar por um seminário para ser aprovado para esse quadro. No caso das mulheres, só por sermos internacionais fomos inseridas nesse quadro, tivemos que fazer as provas para conseguir estar a atuar, mas fomos diretamente inseridas neste quadro. Aliás, nós fomos ao seminário, mas a nossa integração nesse quadro não dependia do seminário. Esta exceção foi aberta apenas para as árbitras internacionais, as restantes têm que fazer o mesmo caminho que os homens.” (Árbitra 10) Outra entrevistada menciona: “Atualmente as mulheres estão com mais oportunidades que os homens. Neste momento, a Federação está a dar oportunidades gigantes para as mulheres alcançarem a categoria dos homens e apitar o mesmo que os homens estão a apitar. Na minha opinião, o conselho de arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol quer replicar exatamente o que já acontece nos outros países (…)” (Árbitra 13) No que respeita à valorização do esforço e mérito, as opiniões das árbitras divergem entre as que têm a perceção de que o seu esforço é valorizado e, por outro lado, as que sentem que o seu esforço não é recompensado da melhor forma e tendem, por vezes, a comparar as suas carreiras com as dos colegas homens. Ou seja, algumas árbitras entendem que a sua experiência e mérito não são valorizados, quer por alguns dirigentes da arbitragem, quer pelo
39 meio do futebol, quer por alguns colegas árbitros, comparativamente ao valor que é dado aos árbitros homens em circunstâncias semelhantes. Segundo Gubby e Martin (2024) às vezes, as árbitras destacam que o seu foco ao arbitrar é demonstrar o seu conhecimento e entendimento do jogo, não sentem a necessidade de demonstrar o quão bem as mulheres podem arbitrar, indicam ainda que a sua preocupação é garantir que as decisões sejam corretas e não pensam na pressão do desempenho específico em função do género. Percebe-se que existem diferenças nas perceções da valorização do esforço em função dos níveis em que as entrevistadas estão inseridas. As árbitras nos patamares mais elevados tendem a assumir que o seu esforço por vezes não é valorizado, mas não se comparam com os homens, pois nestes patamares os quadros são compostos apenas por mulheres. A tendência nas respostas é de um sentimento de desvalorização por parte das entidades da arbitragem, pelo público, e pelo meio do futebol em si. Estas perceções decorrem dos feedbacks que vão obtendo, pela falta de apoio, ou até pelo prestígio que não lhes é dado. “De todo que ainda não temos a mesma visibilidade e aceitação! Em Portugal, as mulheres ainda não são vistas com normalidade no mundo do futebol. Até vou falar em relação aos meus familiares, eles dizem muitas vezes que o futebol feminino nem é futebol e que as jogadoras nem correm, ou seja, eu sou árbitra e eles estão a dizer-me isto a mim... Se na nossa família há pessoas a dizerem isto, imaginemos como seja quem não conhece ninguém ligado ao futebol feminino. Portanto, as mulheres ainda não têm grande visibilidade e oportunidade. (…) As mulheres têm que batalhar muito para terem as oportunidades que merecem, tanto árbitras como jogadoras. Felizmente já há alguns países que já estão a fazer isso e estão muito mais evoluídos (…)” (Árbitra 5) A árbitra abaixo demonstra também que: “(…) muitas vezes ouvimos que só temos as notas que temos porque somos mulheres, mas não! É porque sabemos o que estamos a fazer, estudamos e treinamos para conseguir as notas que temos. E o mesmo em relação às notas que os observadores nos atribuem, se as conseguimos é porque fizemos um bom jogo e merecemos as notas que nos dão, não é por sermos raparigas ou sermos as coitadinhas. (…) Nós temos que fazer um
40 esforço sempre maior porque estamos sempre a ter que provar que merecemos estar nos lugares que estamos e temos competência (…)” (Árbitra 11) No mesmo seguimento, outra entrevistada explica: “(…) digo isto com alguma tristeza, mas não temos as mesmas oportunidades que os homens e acho que dificilmente alguma vez vamos ter… O facto de os quadros de homens e mulheres serem distintos faz com que existam muitas diferenças. As condições dadas aos homens não são as mesmas que são dadas às mulheres, quando falo de condições, refiro-me às condições de treino, de apoio psicológico, de saúde, … que as entidades que regulam a arbitragem, ainda não nos dão da mesma maneira (…)” (Árbitra 16) Na opinião de algumas entrevistadas, a integração dos árbitros homens e mulheres em início de carreira é diferente no sentido em que os homens têm, logo desde início, oportunidades que as mulheres não têm. Elas afirmam que com as mesmas provas escritas e físicas e obtendo os mesmos resultados ou superiores nesses elementos avaliativos, são dadas mais oportunidades aos homens do que às mulheres: “(…) Quando estive na minha primeira equipa, constituída só por mulheres, sentia que tínhamos essencialmente jogos de escalões inferiores, em comparação com os colegas com os mesmos anos de arbitragem.” (Árbitra 1) Outra árbitra explica que: “A minha integração foi diferente da dos homens, eles sempre tiveram mais oportunidades do que eu, como por exemplo, quando era necessário substituir um árbitro mais experiente convidavam os meus colegas homens, que tinham tirado o curso comigo (com a mesma experiência que eu) em vez de mim ou de outras raparigas (…)” (Árbitra 8) Da mesma forma, a entrevistada abaixo recorda:
41 “Lembro-me que quando comecei, a minha integração foi muito diferente da dos meus colegas rapazes! (risos) Enquanto eu tinha 1 ou 2 jogos por mês, eles tinham muitos mais, mas eu própria nem me importava porque ainda tinha receio de não estar preparada e na altura não me importei (…)” (Árbitra 10) 4.2.3 Tratamento dado às árbitras por parte dos Jogadores (as) / Treinadores (as) /Dirigentes dos clubes / Comunicação social Quando se fala em árbitros ou arbitragem de futebol, o primeiro pensamento remete frequentemente para a forma como estes agentes são tratados, quer pelos intervenientes diretos do futebol (jogadores, treinadores, dirigentes), quer pelo público e comunicação social. Tal como referido por Balch e Scott (2007), os treinadores, jogadores, adeptos e meios de comunicação fazem com que os árbitros estejam constantemente confrontados com críticas. Segundo Pfister (2015), Black e Fielding-Lloyd (2019), os meios de comunicação social continuam a servir como canal para transmitir mensagens sutis de género que banalizam o desempenho atlético das mulheres, objetificam os seus corpos e reproduzem definições binárias estreitas de feminilidade. Isto afeta não só as mulheres que jogam futebol, mas também aquelas que assumem outros papeis, como dirigentes, árbitras e treinadoras. Quando investigamos essas notícias, há evidências convincentes que confirmam a presença de desigualdades de género profundamente enraizadas e duradouras no futebol (Caudwell, 2011 ; Clarkson et al., 2019). No que concerne ao tratamento por parte dos jogadores, treinadores e dirigentes, a opinião das árbitras é unânime: todas admitem que estes intervenientes tentam ter maior cuidado com as mulheres árbitras, comparativamente ao tratamento que é dado aos seus colegas homens, pelo menos no início dos jogos, depois com o decorrer do jogo o tratamento vai-se aproximando e torna-se muito semelhante, conforme explicam Drury et al. (2022) no seu estudo, uma árbitra comentou que os jogadores “podem ocasionalmente gritar senhor” ao apelar para que ela tome uma decisão a seu favor, considerando mais preocupante talvez, a perceção generalizada de que os homens eram a “norma” na arbitragem e significava que as mulheres tinham poucas oportunidades e eram regularmente esquecidas em termos das contribuições que podiam fazer.
42 Neil et al. (2013) e Drury et al. (2022) reconhecem o abuso sofrido por árbitras de futebol em relação aos papeis tradicionais de gênero, como seu lugar na cozinha desempenhando funções de "dona de casa". As entrevistadas referem que com o decorrer do jogo, passam a existir comentários muito negativos também para as mulheres árbitras, tal como o fazem com os árbitros do sexo masculino. Isto sucede nos jogos masculinos, pois nos jogos femininos, as árbitras consideram que o tratamento é mais igualitário. Para as árbitras, estes intervenientes nos jogos femininos tendem a ser mais cuidadosos com as palavras que utilizam e a ter um tratamento mais gentil para com elas. “(…) no campo, a nível de jogadores, eles já são assim um bocadinho mais ponderados na forma como vêm falar connosco…” (Árbitra 4) Outra participante manifesta que: “O tratamento não é igual ao dos homens, por mais que nós queiramos igualdade, não é igual. Os jogadores respeitam-nos mais! Dentro de campo respeitam mais sendo uma árbitra do que um árbitro, mesmo os treinadores, também respeitam mais uma mulher, pelo menos nota-se que tentam fazê-lo, mas o público não! O público é mais agressivo connosco do que com os árbitros homens (…)” (Árbitra 6) A entrevistada abaixo relata a realidade nos jogos de futebol feminino: “Quando são jogos femininos, o tratamento é igual, não sinto qualquer distinção, mesmo com os meus assistentes homens. No futebol feminino, já toda a gente está habituada a lidar com homens e mulheres, toda a gente nos trata da mesma forma.” (Árbitra 9) A árbitra seguinte explica a sua experiência nos seguintes termos: “(…) dentro de campo nunca senti muita dificuldade, pelo contrário, senti sempre que os jogadores tinham uma maneira diferente (mais cuidada) de nos abordar, de nos tratar,
43 claro que há sempre exceções, mas de uma forma geral, aceitam bem as nossas decisões. E nunca senti que o facto de ser mulher me impedisse de fazer o meu trabalho.” (Árbitra 18) Relativamente à comunicação social, a perceção é de que ainda não é algo muito discutido, por outras palavras, as entrevistadas indicam que como ainda não é muito comum falarse da arbitragem feminina e discutir-se jogos do futebol feminino, acabam por não ser alvos de grande escrutínio e, nos poucos momentos em que se fala das mulheres árbitras, é maioritariamente para realçar o trabalho das árbitras ou para mostrar as conquistas que se vão conseguindo atualmente. Exemplo disto é a recente notícia do Jornal Record de 13 de agosto de 2023, em que uma árbitra fez história na arbitragem portuguesa ao tornar-se na primeira mulher a integrar a equipa de arbitragem num jogo da 1.ª Liga. “(…) talvez por o futebol feminino em Portugal ainda não ter grande mediatismo, apesar de que cada vez tem mais, nós, árbitras, ainda passamos um pouco despercebidas (…) as únicas coisas que me recordo de falarem sobre árbitras nos jornais ou nas televisões, foi por verem mulheres em jogos de homens com alguma relevância. Normalmente ouve-se mais falar de árbitras estrangeiras.” (Árbitra 8) Outra árbitra destaca o tratamento favorável dado pelos órgãos de comunicação social: “Acho que as árbitras e as jogadoras ainda estão numa fase de serem protegidas pela comunicação social, até pelas questões de discriminação, hoje em dia não é visto com bons olhos discriminar uma mulher, neste caso. Quando falam é para falar coisas boas, mas acredito que com o tempo vai mudar e a tendência é haver escrutínio como existe atualmente com os árbitros do futebol masculino (…)” (Árbitra 14) 4.2.4 Tratamento dado às árbitras por parte do público (Homens vs Mulheres) Neste aspeto, mais uma vez, a perceção das entrevistadas é unânime, quando afirmam que o tratamento dado pelo público aos árbitros em geral é muito mau, “tanto os árbitros
44 quanto as árbitras reconhecem a dificuldade de lidar com o abuso dos espectadores em comparação com os jogadores, que eles parecem incapazes de regular (Devís-Devís et al., 2021). O que acaba por não constituir uma novidade para quem costuma assistir a jogos de futebol. As entrevistadas, assumem também que esse tratamento é, em muitos momentos, mais insultuoso e agressivo em jogos onde estão árbitras a exercer as suas funções. Comentários sobre a [falta de] capacidade fisiológica ou psicológica inata das mulheres para arbitrar futebol masculino de elite são refutados e, em última análise, sexistas (Jones & Edwards, 2013). No entanto, as afirmações verbais sobre a capacidade das árbitras devido ao seu sexo ainda são prevalentes e vivenciadas por árbitras (Forbes et al., 2015 ; Webb et al., 2021). Existe a preocupação de que as mulheres tenham que trabalhar consideravelmente mais do que os homens para justificar o seu lugar no jogo (Drury et al., 2022; Grubb et al., 2023). Esta visão é ainda mais ilustrada por Reid e Dallaire (2020) que descrevem discursos de género que apresentam as árbitras como "incompetentes", fracas, inadequadas, desinformadas, inábeis e dóceis, em contraste com os traços valorizados nos desportos associados à masculinidade, como força, destreza física, confiança e assertividade. O maior ênfase das árbitras entrevistadas vai, no entanto, para o tratamento que as mulheres do público nos jogos de futebol lhes dão, que segundo Devís-Devís et al. (2021) também no seu estudo, foi demonstrado que as espectadoras usam linguagem sexista relacionada aos papeis tradicionais de género para provar seu valor no domínio do futebol, dominado pelos homens. Por vezes insultos homofóbicos, bem como ameaças violentas e sexuais também são vivenciados predominantemente por árbitras (Drury et al., 2022). Pelas entrevistas realizadas, percebe-se que as mulheres do público, principalmente nos jogos masculinos, quer sejam de escalões jovens ou adultos, dão frequentemente um tratamento completamente desapropriado às mulheres árbitras. “(…) nas bancadas ainda há muita inferiorização relativamente às mulheres dentro do campo, mas acredito que com o avançar do tempo as coisas também vão melhorando. (…) Muitas vezes nem são os homens a dirigir-se a nós, são mais as mulheres, elas insultam-nos. E isto acontecer de mulheres para mulheres nunca é um ponto positivo, porque devíamos ser as primeiras a ajudarmo-nos umas às outras! (…) Incomoda-me principalmente nos jogos de crianças, quando uma mãe me diz para ir para casa lavar a loiça,
45 para ir para casa arrumar, que em casa é que é o nosso lugar… Isto sim acaba por ser muito mau exemplo.” (Árbitra 4) Outra árbitra relata várias expressões de que já foi alvo: “(…) já não está tão mau como quando comecei, porque acho que era uma coisa nova na minha zona, mas sim continua, (risos) e ainda vai demorar para acabar o machismo por parte das pessoas. (…) Ainda hoje continuam a dizer para ir lavar a loiça, para ter cuidado para ver se quando chegar a casa não tenho os chinelos quentes porque enquanto tu estás aqui, o teu homem também pode estar com mulheres em casa, a insinuar que o meu namorado me está a trair enquanto eu estou no jogo. Também me dizem muitas vezes que ao domingo devia estar no shopping ou a pintar as unhas e não num campo de futebol, mas aquele comentário que mais me enerva é o de enfiar a bandeira noutro sítio. Enfim… são muitos, ficaria aqui o dia todo!” (Árbitra 5) A árbitra abaixo faz referência a um dos comentários que mais a marcou: “(…) a nível de público, respeitam mais um árbitro do que uma árbitra. Dizem-me coisas horríveis, mas tento concentrar-me no jogo e muitas passam-me ao lado. Mas apercebome que as mulheres ainda são piores, por incrível que pareça. São bem piores! Lembrome de um comentário que me marcou, logo no início quando vim para a arbitragem, de uma mãe de um jogador que me disse algo como: umas vêm para aqui com cú, outras vem com mamas! Na altura não gostei nada!” (Árbitra 6) Outra entrevistada dá a sua opinião sobre o tratamento a que estão sujeitas: “No início, sinto que se tentam controlar e tratar-nos melhor por sermos mulheres, mas se começa a descambar os nomes são muito piores, por exemplo, aos homens chamam “palhaço”, a nós chamam “puta”. Mas mesmo quando no início nos tratam melhor, de forma mais cuidada do que com os nossos colegas homens, não me sinto bem, porque queria que me tratassem igual e não melhor só por ser mulher, acabamos por nos sentir logo condicionadas.” (Árbitra 15)
52 “Há uns anos, aconteceu-me uma situação muito constrangedora, estava num balneário que de dentro eu não conseguia ver para fora, mas que de fora se via sombras para dentro. Na altura, o público acedeu a essa zona porque para sair da bancada passavam por lá e tiraram fotos minhas enquanto eu estava a mudar de roupa e a tomar banho e depois partilharam essas fotos com outras pessoas. Uma amiga mostrou-me porque sabia que era eu que estava naquele jogo, mas como não dava para ver a minha cara, não se conseguia ver que era eu e porque também preferi não mexer naquilo, na altura, preferi não fazer queixa (…)” (Árbitra 1) Uma das participantes explica como é difícil lidar com alguns comportamentos por parte dos colegas: “(…) já senti assédio por parte de colegas árbitros e é muito complicado, porque depois estamos no mesmo meio, temos que nos cruzar com eles nos treinos e às vezes até em alguns jogos. (...) Enviam-me mensagens que eu sei que são com outras intenções e como sei que vou ter que estar com ele, às vezes sinto-me na obrigação de responder. Às vezes manda-me coisas mesmo inapropriadas! Depois penso, que na próxima semana já o vou ver no centro de treinos e depois vai ser ainda mais constrangedor. Por muito que eu dê muito para trás nas mensagens, envia sempre mais e mais mensagens e depois fico mesmo constrangida e depois parece que não há volta a dar… (voz angustiada) e pronto parece que se torna um ciclo…” (Árbitra 4) A entrevistada abaixo refere uma situação que a deixou muito desconfortável: “Há uns anos, um senhor que tinha idade para ser meu pai, na altura ele ainda era árbitro (…) não sei como, mas esse homem conseguiu o meu número e mandou-me uma mensagem a dizer que eu era mais bonita ao vivo do que nas fotos e não sei mais o quê… na altura vi a mensagem e não conhecia o número, então respondi a dizer que não sabia como conseguiu o meu número, mas agradecia que o apagasse. A partir daí começou a destratar-me, a chamar-me arrogante de merda, tens a mania… depois disto, essa pessoa continuou constantemente (mas digo-te, uma coisa que metia medo) a mandar-me
53 mensagens, sempre a mandar mensagens e a ameaçar-me que se queria subir na arbitragem teria que falar mais com ele. Quando vi aquela mensagem passei-me (voz de raiva), juro-te! Passei-me, fiquei cega, queria ir à polícia, disse ao meu namorado a à minha família. Mas depois aconselharam-me a bloquear o número dele e a bloqueá-lo em todos os sítios possíveis. Foi a única forma de resolver o assunto!” (Árbitra 13) 4.2.7 Remuneração A remuneração é considerada um problema para todas as entrevistadas dos quadros superiores, uma vez que nos patamares distritais não há distinção entre homens e mulheres. É importante referir que nos níveis superiores há diferenças entre os montantes que os homens e mulheres auferem, pelo facto de atuarem em competições diferentes. Para Kerniski e Barbieri (2019) identificaram que a desvalorização feminina do futebol ainda é uma realidade e que um dos motivos para isso é porque o futebol masculino movimenta uma quantidade de dinheiro muito superior do que o futebol feminino. As árbitras atuam geralmente em competições femininas e os árbitros em competições masculinas, pelo que as diferenças na remuneração não se prendem com o facto de serem árbitros homens ou mulheres, mas sim pelo facto de haver uma separação e distinção entre as competições do futebol masculino e feminino. Um dos principais motivos para as diferenças salariais dos árbitros que atuam nas competições masculinas ou femininas pode estar relacionado com as diferenças que ainda se sentem, conforme descrevem Drury et al., (2022) o futebol masculino e o feminino como "desportos fundamentalmente diferentes" ou "dois jogos completamente diferentes". A justificação para essa diferença está relacionada com a sensação de que o jogo masculino era mais rápido e habilidoso e que o jogo feminino era mais "respeitoso". Na opinião de algumas árbitras, esta diferença salarial também se verifica, na sua maioria, pela perceção que têm de que a diferença remuneratória entre as competições masculinas e femininas é demasiado elevada. De forma geral, para as árbitras que atuam nos quadros da Federação Portuguesa de Futebol, deve haver disparidade entre a remuneração dos árbitros que atuam nas competições masculinas e as árbitras que atuam nas competições femininas, mas não tão evidenciada.
54 “Na minha opinião, a remuneração para as árbitras, neste caso, nas competições femininas, devia aumentar ainda mais, principalmente na Liga BPI, porque os esforços fora de campo que as árbitras fazem são cada vez mais. (…) o valor devia aproximar-se mais, não deve ser para já, equiparado ao futebol masculino, no entanto não deveria ser tão desnivelado. (…)” (Árbitra 3) Na mesma linha, outra árbitra argumenta: “Acho normal nesta fase os homens receberem mais do que nós, porque o futebol feminino ainda tem que evoluir muito e o nível de exigência para os homens em categorias semelhantes ainda é superior, mas essa diferença não devia ser tão grande, apesar do aumento no prémio de jogo que tivemos este ano, ainda estamos muito longe das competições masculinas de topo. Mas também acredito que quando o futebol feminino tiver ainda mais visibilidade, os valores deverão ser mais semelhantes.” (Árbitra 8) A entrevistada que se segue partilha da mesma ideia: “(…) eu compreendo que o mercado do futebol masculino dá muito dinheiro, dá milhões, ou seja, os árbitros têm que ser remunerados como tal, mas estamos a falar de uma diferença gigante e que não devia ser tão grande, diferente sim, mas nunca tão grande.” (Árbitra 13) Outra entrevistada reforça as opiniões anteriores: “(…) a principal diferença é a nível monetário, há uma discrepância enorme entre o topo da categoria masculina a nível nacional e o topo da categoria feminina. A diferença no valor do prémio é absurdo! Faz sentido haver diferença, mas não devia ser tão grande, porque na minha opinião o topo do futebol feminino ainda não está no nível que está o futebol masculino, mas está a aproximar-se aos poucos, até em termos de mediatismo. Os árbitros que atuam no topo do masculino ainda têm mais trabalho e pressão do que as mulheres de topo, por isso faz sentido que recebam mais por isso, mas não uma diferença tão grande (…)” (Árbitra 16)
55 No excerto seguinte, a árbitra explica os motivos para a diferença não dever ser tão grande: “(…) acho bem que exista diferença no valor que é pago aos homens para as mulheres, mas agora começa a haver mais competitividade nas competições femininas, há mais visibilidade, com a inserção do VAR, com a exigência que é imposta às árbitras, e tudo mais… por isso, a remuneração devia aumentar ainda mais na primeira liga feminina, e se a primeira liga cresce, as outras têm que acompanhar esse crescimento! (…) O futebol está a crescer muito e a nossa remuneração não está a acompanhar esse crescimento! É algo que já temos batalhado, vamos aos poucos...” (Árbitra 18) 4.2.8 A Realidade Geográfica Tal como Bronfenbrenner (1996) assegura, as atitudes dependem das características do ambiente, das características das pessoas que participam desse ambiente e das características de personalidade, devendo-se também considerar que existem determinadas expectativas de conduta de um papel que estão associadas ao poder que a sociedade fornece a esse papel. No início deste estudo também se entendeu que a área geográfica de onde cada árbitra é oriunda (mais a norte, mais a sul, mais litoral ou interior do país) pudesse ter alguma influência na sua perceção em relação à discriminação de género. Todavia, com a realização das entrevistas, percebeu-se que não é a localização geográfica que coloca mais ou menos desafios às árbitras, visto que aqueles parecem estar sobretudo relacionados com as pessoas que estão à frente de cada associação, de cada clube, de cada instituição ligada ao futebol. A localização geográfica pode ter apenas alguma interferência na medida em existem menos árbitras a atuar em determinada zona do país, o que faz com que o público não esteja tão habituado a ver mulheres árbitras. Segundo os testemunhos das entrevistadas, esta questão só pode ter alguma (pouca) influência no público, porque em termos de apoio nas suas carreiras ou aceitação do seu trabalho em campo, todas afirmam não haver influência da zona geográfica.
56 “Sinto sempre que fico para trás, tendo as mesmas notas que os homens. Temos isso na nossa associação claramente, tenho colegas em categorias abaixo que começam logo a apitar seniores e eu não posso apitar e estou numa categoria do nacional, em que faço as mesmas provas físicas que alguns deles. Essa possibilidade só nos é dada se prestarmos as provas de maior resistência, portanto as provas das categorias mais altas dos árbitros aqui no distrito, tenho a perfeita noção que as minhas colegas de outros distritos não sentem esta dificuldade, pois nas associações delas, é-lhes permitido apitar jogos masculinos do distrital, mesmo depois de subir aos quadros da Federação” (Árbitra 2) A árbitra seguinte demonstra uma realidade muito diferente da anterior: (…) na minha associação somos muito poucas mulheres, então no início, as pessoas (público) não estavam habituadas a ver raparigas a serem árbitras, como fomos quase as primeiras, eles não estavam habituados. (…) eu não me posso queixar de falta de apoio dos meus colegas, nem da minha associação, estão sempre preocupados comigo para me tentarem ajudar. (…) A minha associação nunca me deixou de lado, sempre que há jogos importantes, eu fiz! Sempre senti que me viam da mesma maneira que veem os homens. Ainda hoje, quando não tenho jogo da federação, estou sempre ou quase sempre nomeada para fazer jogos de honra na minha associação.” (Árbitra 5) Outra entrevistada relata uma experiência semelhante à anterior: “Na minha associação sempre me deram as mesmas oportunidades que deram aos homens, nunca senti que houvesse diferença. Somos todos tratados igual! Acho que isso depende muito dos dirigentes, porque sei por algumas colegas, que nas associações delas, não é bem assim, não têm a nossa sorte, quem está à frente não lhes dá as mesmas oportunidades que nos dão aqui, por exemplo, jogos de seniores e depois claro que isso também faz com que nós consigamos ter mais experiência.” (Árbitra 9) 4.3 Evolução da Arbitragem de Futebol em Portugal
57 Para responder à última questão de investigação (Quais as expectativas em relação ao futuro da arbitragem no feminino?), foi essencial questionar as entrevistadas sobre como imaginam a arbitragem no futuro, o que é que elas acreditam que vá acontecer. As respostas a esta questão, mais uma vez, foram concordantes por parte de todas as árbitras entrevistadas, uma vez que todas elas têm a perceção de que nos últimos anos o futebol feminino cresceu como nunca antes aconteceu em Portugal e, por consequência, a arbitragem feminina também cresce e evolui. Como já referido anteriormente, este crescimento no futebol e na arbitragem acaba por andar a par. Quando questionadas em relação ao futuro, todas são perentórias em afirmar que o caminho ainda é longo, mas que será certamente um futuro risonho, com muito crescimento e principalmente muitas oportunidades para as árbitras portuguesas. Os excertos abaixo ilustram essa visão positiva sobre o futuro da arbitragem. “(…) Acho que ainda temos um longo caminho pela frente, ainda temos que lutar muito pelos nossos direitos e sobretudo mostrar que temos as mesmas capacidades que os homens. Mas a tendência é melhorar. O investimento no futebol feminino é cada vez maior, o que me leva a crer que será cada vez melhor.” (Árbitra 8) No excerto que se segue, a entrevistada faz uma apreciação desde o início do seu percurso até àquilo que poderá ser o futuro: “Tem sido uma evolução muito progressiva, porque quando eu entrei as coisas eram muito diferentes. (…) Desde há uns anos, tem sido um crescimento enorme! (…) Acredito num futuro bom para a arbitragem feminina, com mais oportunidades para as mulheres no futebol masculino, com remunerações mais semelhantes, com muitas coisas boas para nós, mulheres. (…)” (Árbitra 10) A árbitra que se segue relaciona o crescimento do futebol feminino com o crescimento da arbitragem feminina: “Com o crescimento do futebol feminino, com alguns exemplos de árbitras estrangeiras a atuar nas competições dos homens e com o trabalho de algumas árbitras portuguesas
58 em abrir caminho, as coisas têm melhorado muito, por isso o futuro só pode vir a ser melhor. As mentalidades das pessoas no geral também mudam e cada vez nos aceitam mais. Tenho a certeza que as coisas vão melhorar muito e vão surgir muitas oportunidades para as mulheres. (…)” (Árbitra 14) Segue-se outro excerto que evidencia um pensamento semelhante aos anteriores, relativamente ao futuro: “As coisas já têm evoluído, acredito que os nossos dirigentes, colegas árbitros e mesmo o público já veem que temos feito um bom trabalho e que somos capazes, coisas que aconteciam há seis ou sete anos atrás, de duvidarem das nossas capacidades, provavelmente hoje não acontecem, porque agora ver uma mulher árbitra já é algo mais normal e o facto de haver jogos femininos a passar na televisão também influencia porque as pessoas habituam-se. (…) Isto está a começar a crescer, a nossa seleção também impulsionou muito isso e o facto de a nossa realidade crescer pode fazer com que a competitividade venha a aumentar e as oportunidades também. Espero que daqui a muitos anos consigamos igualar a realidade dos homens. (risos)” (Árbitra 18)
59 5. CONCLUSÃO Com o suporte da análise e interpretação dos resultados, percebe-se que, como em muitas outras áreas, há opiniões distintas para determinados temas e mais semelhantes para outros. Primeiramente, percebemos que os motivos subjacentes à decisão para enveredar pela carreira de árbitra podem ser vários, mas os que se destacam são: a influência de familiares, amigos e conhecidos, uma vez que incutem esse gosto ou pelo menos despertam a curiosidade pela arbitragem. Outro motivo muito apontado para o ingresso por esta carreira é o gosto pelo desporto, em particular pelo futebol. Com frequência, a falta de oportunidade para jogar futebol, quer seja por não existirem muitas equipas femininas ou por simplesmente já não fazer sentido para elas jogarem, faz com que vejam na arbitragem um meio para se manterem ligadas ao desporto que gostam. O estudo revela ainda que um dos principais motivos para as mulheres enveredarem pela arbitragem prende-se com questões financeiras. O facto de o curso ser gratuito e começar-se logo a receber algum dinheiro nos primeiros jogos ajuda a que optem por este percurso e muitas vezes (principalmente no início de carreira), faz com que se mantenham na arbitragem. A maior parte das árbitras afirma que a arbitragem surgiu completamente por acaso nas suas vidas e que todos os motivos anteriormente mencionados podem ter influenciado na decisão tanto de ingressar no curso para árbitros, como depois para se manterem na arbitragem. Ao longo da carreira, as árbitras referem sentir alguns obstáculos, havendo perceções diferentes relativamente a estes. Entre os principais obstáculos apontados contam-se as questões relacionadas com a conciliação da carreira de árbitra com a vida pessoal e profissional, uma vez que têm que conciliar a sua profissão com um alto nível de rendimento na arbitragem. Associado a esta exigência, acresce ainda o facto de algumas entrevistadas quererem ser mães e estarem presentes na vida dos seus filhos e da sua família. O que, na opinião de muitas entrevistadas, torna a carreira de uma árbitra muito difícil. Outro grande obstáculo, que algumas árbitras afirmam ainda sentir, são as diferenças que ainda persistem no que respeita à valorização do esforço e do mérito, quando comparadas com os homens, principalmente no início da carreira. Muitas afirmam que sentiram/sen-
60 tem que muitos colegas preferem fazer equipas com homens porque confiam mais no trabalho de colegas homens, o que, no início, faz toda a diferença na sua integração e nas oportunidades que vão surgindo. Para as árbitras, os maiores desafios que encontram ao nível da discriminação de género são o tratamento inferior dado principalmente por parte do público e de alguns colegas árbitros e a questão das diferenças na remuneração. Quanto ao tratamento dado pelo público, um aspeto sublinhado prende-se com as mulheres que estão no público, visto que todas as árbitras afirmam que os comentários dos homens são maus, mas os que vêm das mulheres são piores e incomodam mais, precisamente por serem efetuados por outras mulheres. Através das entrevistas consegue perceber-se muito claramente a mágoa das entrevistadas, pela forma como estas expressam determinados insultos e expressões proferidas por mulheres do público. Relativamente ao tratamento dado por alguns colegas, embora sejam raros os casos relatados, verifica-se que, quando acontecem, deixam as árbitras em situações constrangedoras, devido à perda de autoridade perante os jogadores, equipas técnicas e público, o que constitui um desafio a ser combatido para todas as que, em algum momento, já sentiram este tratamento por parte de colegas homens. Relativamente às diferenças na remuneração, é notória uma plena aceitação de uma certa diferença de valores, por parte de todas as árbitras, por diversos fatores, como a maior exposição mediática e a diferença nos investimentos financeiros, mas claramente não entendem uma diferença tão díspar no que concerne aos valores auferidos nas competições femininas relativamente às competições masculinas. Este aspeto torna-se um desafio para as árbitras, na medida em que assumem ser uma luta difícil, tendo em conta as realidades ainda tão distintas entre o futebol feminino e o futebol masculino. Para finalizar este estudo, entendeu-se relevante analisar as expectativas das árbitras relativamente à evolução futura da arbitragem de futebol no feminino e entende-se facilmente que todas as árbitras têm a perceção de que a arbitragem feminina acompanha sempre o futebol feminino, e como tal, o crescimento nos últimos anos tem sido evidente e perspetiva-se que esse crescimento acelere ainda mais. Assim, é claro um sentimento otimista de esperança na arbitragem feminina, que se traduz no seu crescimento, evolução, num maior investimento e num aumento de competitividade, o que por sua vez, espera-se, que também trará mais qualidade à arbitragem.
61 Uma das principais limitações sentidas ao longo deste estudo deveu-se ao contacto com as árbitras, pois nem todas se mostraram disponíveis, quer pela escassa disponibilidade de tempo, quer pela relutância para falar sobre a arbitragem e a discriminação de género que poderia estar associada à mesma. Outra limitação sentida foi a dificuldade no acesso a informação específica sobre a arbitragem em Portugal, como a divisão das categorias de árbitros, pois esta informação encontra-se disponível apenas através da legislação para promoção e despromoção dos árbitros, pelo que foi necessário tentar encontrar todas as categorias de árbitros existentes para as agrupar. O presente estudo procurou contribuir para o conhecimento existente sobre a arbitragem feminina em Portugal, proporcionando aos agentes da arbitragem e às próprias árbitras uma visão do estado atual da arbitragem em Portugal. A partir das opiniões e perceções das principais agentes da arbitragem em Portugal, que são as árbitras, é possível, aos dirigentes desportivos, se assim o entenderem, tomar decisões futuras mais informadas ao nível da formação, do apoio específico às árbitras e das intervenções necessárias para redução da discriminação e do preconceito. Ou seja, uma atuação mais enquadrada na realidade atual da arbitragem feminina portuguesa. No que concerne ao impacto social deste trabalho, acredita-se que o mesmo chama à atenção para a importância da presença feminina em papéis de autoridade no desporto, podendo influenciar mudanças sociais, como a promoção de uma nova visão e a inspiração de futuras gerações no desporto. Além da maior visibilidade, o estudo poderá contribuir para uma maior valorização e respeito pelo papel das árbitras, tanto entre atletas quanto entre o público, incentivando uma cultura de respeito e igualdade em ambientes competitivos. Ao recolher e analisar dados sobre as barreiras, desafios e avanços enfrentados pelas mulheres num desporto historicamente dominado por homens, ampliando o conhecimento sobre a desigualdade de género, o estudo poderá estimular a formulação de políticas para promover uma maior igualdade no desporto. Ao nível académico, este trabalho de investigação poderá inspirar outros estudos em áreas semelhantes, como o papel das mulheres noutras funções no desporto (como treinadoras, gestoras desportivas, etc.) e o impacto da sua participação na perceção pública e no desenvolvimento de práticas inclusivas. Este estudo poderá também ser utilizado noutros trabalhos académicos futuros, podendo ser mais aprofundado, sobretudo ao nível da legislação em vigor no que concerne à
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73 APÊNDICES Apêndice 1 - Guião da entrevista Nome: Idade: Estado Civil: Formação Académica: Categoria: Região do País (Distrito): • As árbitras de futebol sentem-se discriminadas? • Quais são os principais motivos de discriminação de género na arbitragem de futebol em Portugal? • A que se deve a persistência das desigualdades de género na arbitragem, tal como documentado na literatura? • Quais são os principais desafios e obstáculos que as árbitras enfrentam? • O que tem vindo/pode ser feito no sentido de alterar tal situação? Parte 1: Questões gerais sobre o percurso da entrevistada (início, motivos, desafios) 1Gostaria que me falasse(s) sobre como surgiu a arbitragem na tua vida. Ou seja, a ideia/intenção de ser árbitra de futebol. 2Já praticavas algum desporto antes de ser árbitra? Se sim, qual? 3O que é que contribuiu para a decisão de ser árbitra? (Deixar que as entrevistadas discorram sobre as suas razões. Se eventualmente não focarem alguns aspetos essenciais, então introduzir questões mais específicas, como): 3.1. Já conhecias alguém ligado à arbitragem, nomeadamente alguma mulher árbitra? Que influência é que teve no teu percurso? 4Pode(s) falar-me sobre como foi o início do percurso na arbitragem e os grandes desafios e obstáculos encontrados? Podes dar exemplos? 4.1. Como resolveste aquelas situações?
74 Parte 2: Questões de discriminação de género/Desafios e obstáculos 5Durante a carreira, que situações/momentos são/podem ser particularmente desafiantes ou colocar constrangimentos pelo facto de ser(es) mulher? (Se elas não se lembrarem, dar exemplos como a constituição de equipa, número de jogos, nomeação para jogos com mais qualidade). 5.1. Em que medida a tua integração foi diferente da dos colegas homens? 6Como é que as mulheres árbitras são tratadas por parte dos vários intervenientes no futebol (jogadores (as), treinadores, dirigentes, público...). Em que é que o modo como são tratadas se distingue do tratamento dado aos homens árbitros? 6.1. E no teu caso em particular? Como sentes que és tratada? (repetir os intervenientes). 7Qual a tua perceção relativamente à valorização da experiência/mérito como árbitra comparativamente à experiência de um homem? Que diferenças podem ser apontadas ou como se expressam essas diferenças? 8Em que medida as mulheres árbitras poderão, em determinados momentos, sentirse inferiores aos homens? Pode(s) concretizar, exemplificar? 8.1. E no teu caso concreto? 9Em que medida as mulheres árbitras podem ser beneficiadas em relação aos homens? Pode(s) concretizar, exemplificar? 9.1. E no teu caso concreto? 10Em algum momento sentiste discriminação da parte de algum colega teu árbitro? Explica em que circunstâncias. E como reagiste? 11O que achas da atual legislação/regulamentos em vigor na arbitragem e como é que esta promove a igualdade de género? 12- (Questão apenas para árbitras de categoria nacional e internacional) O que pensas sobre a remuneração dos/das árbitros/as no que concerne aos jogos femininos e masculinos? 13Tens conhecimento de situações de assédio na arbitragem por parte de colegas com mais experiência na arbitragem ou dirigentes? Se sim, podes explicar o que aconteceu? 13.1. E no teu caso, alguma vez foste desse tipo de comentários e comportamentos assediadores? Se sim, em que circunstâncias e qual a tua reação?
75 14. Na tua opinião, o que mudou ao longo do tempo na arbitragem no que diz respeito às questões de género? Parte 3: O futuro na arbitragem feminina e sugestões de mudança 15Como imaginas o futuro para as mulheres na arbitragem? 16Se tivesses a oportunidade de alterar algum aspeto na arbitragem o que alteravas? Por exemplo, regulamentos das entidades responsáveis, legislação governamental, remuneração? No caso específico do género, que sugestões farias para promover a igualdade entre homens e mulheres? Apêndice 2 - Email Enviado ao Conselho de Arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol Liliana Almeida <[email protected]> quinta, 04/05/2023, 22:11 para Arbitragem, Fontelas, Ana Boa tarde, Estou neste momento, a desenvolver a minha dissertação para conclusão do Mestrado em Gestão de Recursos Humanos, cujo tema é "A Desigualdade de Género na Arbitragem de Futebol: Um contributo empírico para a realidade portuguesa". A minha escolha recaiu sobre este tema pelo facto de existirem tão poucos estudos académicos sobre a arbitragem e ainda em menor número sobre a arbitragem feminina. O objetivo passa sobretudo por perceber quais as dificuldades sentidas pelas árbitras e mostrar que a arbitragem é muito mais do que aquilo que toda a gente vê em campo, mantendo sempre uma visão positiva da classe. A minha amostra para o estudo irá basear-se em entrevistas a cerca de 30 árbitras. (8 árbitras internacionais - árbitras e árbitras assistentes; 7 a 10 árbitras das categorias CF1 e CF2; e 10 a 12 árbitras de categorias distritais). Neste sentido, venho por este meio, solicitar
76 a vossa autorização para entrevistar várias colegas árbitras das categorias respeitantes à Federação Portuguesa de Futebol. Se precisarem de mais informações da minha parte, encontro-me ao vosso inteiro dispor. Fico a aguardar a vossa resposta célere. Cumprimentos. Liliana Almeida Apêndice 3 - Email com resposta afirmativa do Conselho de Arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol Fontelas Gomes <[email protected]> quinta, 10/05/2023, 19:06 para mim, Arbitragem, Ana Boa tarde, Autorizada. José Fontelas Gomes