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Universidade do Minho Escola de Psicologia Carla Gabriela Pinto Santana Bem-Me-Quero: Uma Intervenção Breve para a Promoção de Bem-estar em Crianças e Adolescentes Hospitalizados junho de 2019 UMinho | 2019 Carla Gabriela Pinto Santana Bem-Me-Quero: Uma Intervenção Breve para a Promoção de Bem-estar em Crianças e Adolescentes Hospitalizados
ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição-NãoComercial-SemDerivações CC BY-NC-ND https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/
iii Agradecimentos Primeiramente, quero agradecer aos meus pais por todos os sacrifícios que fizeram para eu poder viver os meus sonhos! À minha orientadora, Professora Doutora Teresa Freire, pela sua ajuda durante esta etapa, pela partilha de conhecimentos, e principalmente, por ser um exemplo de ambição e de determinação, fazendo-me querer ser sempre mais e melhor. Obrigada! À Delfina por partilhar as suas alegrias comigo, pela amizade genuína e por todas as palavras certas no momento certo. Não será o fim, prometo! À Andrade por ser a amiga mais irritante, mas também a que está sempre lá, pelos conselhos, por toda a ajuda e companhia. Ao Marco por ser uma inspiração, um exemplo de perseverança e determinação! À minha Maria por acreditar sempre em mim e por me deixar fazer parte da sua vida! À Alexandra pela disponibilidade e colaboração neste estudo. À Drª Almerinda, à enfermeira Teodora, profissionais de saúde do Hospital de Braga, à Drª Edite, à Drª Rosa e a às enfermeiras do internamento da pediatria do Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa pela cooperação na realização desta investigação Ao meu grupo de investigação, agradeço sinceramente por todos os momentos de partilha e de conhecimentos. Aprendi muito com vocês, obrigada! E um último obrigada a todos aqueles que de uma forma ou de outra fizeram parte deste meu caminho! O meu mais sincero OBRIGADA a todos!
iv DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. Braga, 4 de junho de 2019 (Carla Gabriela Pinto Santana)
v Bem-Me-Quero: Uma Intervenção Breve para a Promoção de Bem-estar em Crianças e Adolescentes Hospitalizados Resumo Introdução: A hospitalização tende a afetar o percurso desenvolvimental normativo das crianças e adolescentes, influenciando os seus níveis de bem-estar. No hospital, o brincar permite reduzir as emoções e os sentimentos negativos e restaurar a descontinuidade provocada nas suas vidas. Neste sentido, desenvolveu-se uma intervenção breve em grupo, na forma de jogo de tabuleiro, visando promover uma experiência de hospitalização positiva. Objetivos: Este estudo examinou o impacto ao nível do afeto e das perceções acerca do internamento. Adicionalmente, averiguou-se o que os participantes mais gostaram e o que aprenderam. Metodologia: A intervenção foi aplicada num único momento, em hospitais públicos. A amostra inclui 17 participantes com idades compreendidas entre os 10 e os 17 anos, em internamento na Pediatria, há pelo menos 24 horas. Resultados: Os resultados mostraram um aumento de afeto positivo e uma diminuição de afeto negativo comparativamente ao grupo de comparação. Verificou-se uma diminuição acentuada da Perceção Negativa da Experiência de internamento e um aumento da Perceção Positiva da Experiência bem como da Emoções/Sentimentos Positivos. Os resultados qualitativos da apreciação da intervenção por parte do grupo experimental, indicaram uma avaliação positiva. Conclusão: Os resultados confirmam a importância e os efeitos deste tipo de intervenção em contexto hospitalar. Palavras-chave: bem-estar; crianças e adolescentes; desenvolvimento positivo; hospitalização; intervenção breve
vi Bem-Me-Quer o: A Brief Intervention for a Wellness Promotion in Hospitalized Children and Adolescents Abstract Introduction: Hospitalization tends to affect the normative developmental path of children and adolescents, influencing their levels of well-being. In the hospital, play allows to reduce negative emotions and feelings and restore the disruption that this have caused in their lives. Therefore, a brief group intervention was developed in the form of a board game aiming to promote a positive experience of hospitalization. Objectives: This study analyzed the impact on the level of affection and perceptions about hospitalization. In addition, we found out what the participants liked most as well as what they learned. Methodology: The intervention was applied in a single moment in public hospitals. The sample comprises seventeen participants aged between 10 and 17 years in a pediatric internment, for at least 24 hours. Results: The results showed an increase in positive affect and a decrease in negative affect on the experimental group comparing to the comparison group. There was a marked decrease in the Negative Perception of the Internment Experience and an increase in the Positive Perception of Experience, as well as in Emotionality/Positive Feelings. The qualitative results of the evaluation of the intervention by the experimental group indicated a positive evaluation. Conclusion: The results confirm the importance and the effects of this type of intervention in a hospital context. Keywords: brief intervention; children and adolescents; hospitalization; positive development; well-being
vii Índice Bem-Me-Quer o: Uma Intervenção Breve para a Promoção de Bem-estar em Crianças em Adolescentes Hospitalizados .................................................................................................................................... 8 A Hospitalização ............................................................................................................................. 8 O Brincar no hospital .................................................................................................................... 10 O presente estudo ........................................................................................................................ 11 Emoções positivas .................................................................................................................... 12 Forças de caráter e gratidão ...................................................................................................... 12 A Intervenção Breve Bem-Me-Quero .............................................................................................. 13 Método ............................................................................................................................................. 14 Amostra ....................................................................................................................................... 14 Procedimento ............................................................................................................................... 15 Instrumentos ................................................................................................................................ 15 Análise de dados .......................................................................................................................... 17 Resultados ....................................................................................................................................... 17 Discussão......................................................................................................................................... 23 Limitações e Investigações futuras ................................................................................................ 25 Referências ...................................................................................................................................... 26 Anexos ............................................................................................................................................. 30 Índice de Figuras Figura 1 . Descrição da Experiência de Internamento do Grupo de Comparação ...………………………..18 Figura 2 . Descrição da Experiência de Internamento do Grupo Experimental ………………………………19 Figura 3. Respostas dos participantes da intervenção acerca do que mais gostaram ……………………20 Figura 4. Respostas dos participantes da intervenção acerca do que menos gostaram ………………….21 Figura 5 . Respostas dos participantes da intervenção acerca do que aprenderam ………………………..22
BEM-ME-QUERO: INTERVENÇÃO BREVE 14 breve, em média, dura cerca de 2 a 3 dias, e de modo a que os pacientes já tenham experienciado o internamento, estabeleceu-se o limite de 24 horas. A intervenção é aplicada num só momento, devido, também, a esta curta duração do internamento. A abordagem em grupo tem por base a premissa de que as interações com os pares são fundamentais para o desenvolvimento das crianças e dos adolescentes, visto que proporcionam suporte neste contexto hospitalar. Os grupos desta intervenção são constituídos por 2 a 4 elementos. A intervenção foi desenvolvida na forma de jogo de tabuleiro aborda os tópicos de emoções positivas, pontos fortes e prática de gratidão, quer individualmente quer em discussão e partilha em grupo. Cada tópico representa uma paragem do jogo na qual constam perguntas relacionadas com o internamento a que todos os elementos do grupo respondem. Como por exemplo “E no internamento, qual foi o maior desafio que ultrapassaste?” , “Pensa no teu período de hospitalização e refere três coisas pelas quais estás agradecido(a).” . No percurso até cada tópico constam algumas frases do género “Sabias que…” , para que os participantes explorem e aprofundem o seu conhecimento relativamente a cada um dos tópicos. Em exemplo, “ Sabias que… as emoções positivas podem enfraquecer o efeito das emoções negativas? ”, “Sabias que … a gratidão permite experienciar bons sentimentos e ajuda a diminuir os níveis de stress?” . No fim do jogo é pedido a cada participante que escreva uma carta de gratidão a ele próprio com ênfase na experiência do internamento, focando os aspetos positivos. Terminada esta atividade é proposto aos elementos que escrevam uma frase/conselho positivo num pequeno livro Bem-Te-Quero , dedicado às futuras crianças e adolescentes hospitalizados, dotando com significado, a experiência de internamento dos participantes desta intervenção. Método Amostra A amostra deste estudo foi constituída por 17 participantes, maioritariamente do sexo masculino (70.6%), sendo 29.4% do sexo feminino, com idades compreendidas entre os 10 e os 17 anos de idade (Midade=13.65, DP=2.50) , em internamento na Pediatria em dois hospitais públicos do norte do país (58.8% e 41.2%, respetivamente). Como critério de inclusão, os participantes teriam de estar no internamento há pelo menos vinte e quatro horas. Os pacientes pediátricos deste estudo, em geral, não consideraram estar infelizes no internamento nos dois momentos de avaliação. Numa escala de Likert de 1 – extremamente infeliz , a 7 – extremamente feliz , o grupo de comparação apresentou uma média de 4.17 no primeiro momento e
BEM-ME-QUERO: INTERVENÇÃO BREVE 15 de 4.50 no segundo momento enquanto que o grupo experimental revelou uma média de 5.18 no momento pré-teste e de 5.64 no momento pós-teste. Procedimento Até se obter a versão final intervenção, posteriormente aplicada no internamento, realizou-se uma reflexão falada dos itens (Almeida & Freire, 2008) para averiguar a compreensão do seu conteúdo, tendo-se recorrido a uma criança e um adolescente de 12 e 17 anos, correspondentemente. Foram efetuadas alterações na linguagem, tornando-a acessível para a faixa etária em estudo. Posteriormente, e após autorização por parte da Comissão de Ética para a Saúde de ambos os hospitais (referência nº 140/2015 e referência nº 4/2019, respetivamente), contactou-se as Diretores do Serviço de Pediatria dos respetivos hospitais para dar conhecimento da intervenção. De modo a obter a indicação dos pacientes viáveis a participar neste estudo, recorreu-se à Enfermeira responsável do internamento que dava, então, permissão para abordar as crianças e adolescentes. De forma a cumprir critérios éticos e deontológicos, foi requerida a autorização dos pais/cuidadores bem como o consentimento da criança/adolescente, a fim de participar na intervenção, sendo informado que a sua participação era confidencial e a qualquer momento poderiam desistir sem quaisquer repercussões. Os participantes foram agrupados em grupos com um mínimo de dois elementos. Na impossibilidade de se constituir um grupo, esses elementos integraram o grupo de comparação. Para a avaliação da intervenção efetuou-se um estudo piloto, utilizando medidas de avaliação pré e pós-intervenção, com utilização de grupo de comparação. Instrumentos Questionário inicial: sociodemográfico e dados clínicos - Composto por questões relativas à identificação das crianças e adolescentes (e.g., sexo, idade, ano de escolaridade) e ao processo clínico (e.g., data de admissão, motivo do internamento). Kidscreen-27 (Versão Portuguesa de Gaspar & Matos (2008); Versão original de Robitail et al., (2007) - Foram utilizadas questões gerais referentes ao bem-estar físico avaliando o nível de atividade física, energia e resistência, bem como a perceção da criança/adolescente sobre a sua saúde; e psicológico, explorando as emoções positivas, a satisfação com a vida, bem como sentimentos de tristeza e solidão, retiradas do instrumento Kidscreen-27 . Este instrumento é a versão reduzida do instrumento
BEM-ME-QUERO: INTERVENÇÃO BREVE 16 Kidscreen-52 e avalia a qualidade de vida relacionada com a saúde em crianças e adolescentes com idades entre os 8 e os 18 anos. - Ambos os grupos responderam a estas questões no momento pré-teste. Escala de Afetividade Positiva e Negativa – Versão Reduzida Portuguesa (PANAS-VRP) (Versão Reduzida Portuguesa de (Galinha, Pereira, & Esteves, 2014); Versão Portuguesa adaptada por Galinha & PaisRibeiro (2005); Versão original de Watson, Clark, & Tellegen (1988)) - Desenvolvida para medir o afeto positivo (AP) e o afeto negativo (AN), definidos como dimensões que descrevem a experiência afetiva dos indivíduos. O afeto negativo traduz o mal-estar subjetivo e o afeto positivo reflete o prazer e o bem-estar subjetivo. Este construto pode assim medir o humor, o estado afetivo e o traço dos indivíduos. A versão reduzida da PANAS portuguesa (PANAS-VRP) foi analisada numa amostra de 535 estudantes universitários, apresentando boas características psicométricas, invariância temporal num intervalo de dois meses e uma correlação elevada (α>.80), em ambas as dimensões, com a versão integral da escala, indicando que medem os mesmos constructos. - Esta escala foi respondida por ambos os grupos, nos dois momentos de avaliação. Questões desenvolvidas especificamente para o estudo - Questão sobre como os participantes, de ambos os grupos, se têm sentido no internamento (“Quão feliz te tens sentido desde que entraste no hospital?”) , cuja resposta é na forma de escala de Likert sendo 1 – extremamente infeliz e 7 – extremamente feliz . Esta questão apenas foi respondida no momento pré-teste. - Questão sobre como os participantes, de ambos os grupos. se sentem no internamento (“Quão feliz te tens sentes neste momento, no hospital?”) , sendo a resposta na forma de escala de Likert em que 1 corresponde a extremamente infeliz e 7 corresponde a extremamente feliz . - Item único acerca da experiência de internamento, de ambos os grupos do estudo. (“Descreve a tua experiência de internamento em 3 palavras…”). Questionário de avaliação da intervenção breve - Este questionário foi preenchido no momento pós-intervenção pelo grupo experimental. - Composto por um conjunto de questões para avaliação da intervenção em relação a aspetos como: o que os adolescentes mais gostaram e menos sobre a intervenção (“Em geral, o que mais gostei
BEM-ME-QUERO: INTERVENÇÃO BREVE 17 foi. ..” e “Em geral, o que eu menos gostei foi ... ”) ; o que consideram que aprenderam através da intervenção (“Nesta intervenção aprendi ...”). Análise de dados Procedeu-se a uma análise mista dos dados, articulando metodologias quantitativa e qualitativa, a fim de aferir os efeitos surtidos pela participação na intervenção. A análise dos dados foi realizada com recurso ao IBM® SPSS (Statistical Package for the Social Sciences) (Versão 22.0). Realizaram-se análises de diferenças de médias entre os níveis de felicidade, e os níveis de afeto positivo e negativo, com o objetivo de analisar a diferença entre os momentos antes e após a intervenção. Adicionalmente, foram conduzidas análises qualitativas para averiguar (a) como os pacientes pediátricos descreviam o internamento e (b) o que os participantes mais e menos gostaram da intervenção, assim como, o que aprenderam, com o propósito de avaliar os efeitos produzidos pela intervenção breve. Resultados Foram conduzidas análises de comparação de médias através do teste não paramétrico Wilcoxon. no sentido de verificar se existem diferenças ao nível do afeto positivo e negativo entre os dois momentos de avaliação. O estudo revelou efeitos estatisticamente significativos para o valor de p <.05 ao nível do afeto positivo ( Z = -2.10, p = .04) e negativo ( Z = -2.21, p = .03) no grupo experimental. A intervenção parece ter contribuído para a diminuição do afeto negativo ( MPRÉ = 1.65, DP = .72; MPÓS = 1.18, DP = .29) e aumento do afeto positivo ( MPRÉ = 2.84, DP = .79; MPÓS = 3.35, DP = .87) observado no momento pós. O grupo de comparação não evidenciou resultados significativos quer para o afeto positivo ( Z = -.38, p =.17), quer para o afeto negativo ( Z = -1.60 , p =.11), no momento pós avaliação. No que concerne à descrição da experiência de internamento, procedeu-se a uma análise qualitativa em que as respostas dos participantes foram codificadas em (a) Características Estruturais, (b) Outros e (c) Experiência subjetiva, sendo que esta última se subdivide em Perceção da Experiência de Internamento Positiva/Negativa e Emoções/Sentimentos Positivos e Emoções/Sentimentos Negativos. De salientar que, de forma a garantir a fiabilidade da categorização, procedeu-se a uma avaliação por parte de vários codificadores, tendo no final, os codificadores principais, isto é, os investigadores principais, chegado a acordo referente à codificação final. Os resultados obtidos podem ser observados nas Figuras 1 e 2.
BEM-ME-QUERO: INTERVENÇÃO BREVE 18 Figura 1. Descrição da Experiência de Internamento do Grupo de Comparação Figura 1. Percentagem de respostas dadas para cada categoria. Através dos dados pode observar-se que no primeiro momento houve uma maior prevalência das categorias Perceção Negativa da Experiência (33.3%), Emoções/Sentimentos Negativos (26.7%) e Perceção Positiva da Experiência (26.7%). No segundo momento verificou-se maior incidência nas categorias Emoções/Sentimentos Negativos (35.7%), Perceção Positiva da Experiência (21.4%) e Perceção Negativa da Experiência (21.4%). Ademais, denota-se a presença da categoria Emoções/Sentimentos Positivos apenas no momento pós-avaliação. 6,7 6,7 26,7 26,7 33,3 7,1 14,3 35,7 21,4 21,4 Características Estrututrais Outros Emoções/Sentimentos Positivos Emoções/Sentimentos Negativos Perceção Positiva da Experiência Perceção Negativa da Experiência % Categorias Descrição da Experiência de Internamento Grupo de Comparação Momento Pré Momento Pós
BEM-ME-QUERO: INTERVENÇÃO BREVE 19 Figura 2. Descrição da Experiência de Internamento do Grupo Experimental Figura 2. Percentagem de respostas dadas para cada categoria. Os dados indicam uma prevalência de respostas nas categorias de Perceção Positiva da Experiência (37%) e Perceção Negativa da Experiência (25.9%). Relativamente ao momento pós-avaliação, as respostas concentraram-se nas categorias de Perceção Positiva da Experiência (42.9%) e Emoções/Sentimentos Positivos (32.1%). Denota-se ainda uma ausência, em ambos os momentos, da categoria Emoções/Sentimentos Negativos. A avaliação qualitativa referente à participação na intervenção breve Bem-Me-Quero pretendeu apurar (a) o que os participantes mais gostaram na intervenção, (b) o que menos gostaram e (c) o que aprenderam na intervenção. As respostas dos participantes foram categorizadas, existindo, para tal, mais uma vez, houve acordo entre os codificadores principais. Os resultados obtidos encontram-se nos gráficos que se seguem. 11,1 14,8 11,1 37 25,9 17,9 32,1 42,9 7,1 Características Estruturais Outros Emoções/Sentimentos Positivos Emoções/Sentimentos Negativos Perceçaõ Positiva da Experiência Perceçaõ Negativa da Experiência % Categorias Descrição da Experiência de Internamento Grupo Experimental Momento Pré Momento Pós
BEM-ME-QUERO: INTERVENÇÃO BREVE 20 Figura 3. Respostas dos participantes da intervenção acerca do que mais gostaram Figura 3. Percentagem de respostas dadas. Face ao que os participantes mais gostaram na intervenção breve Bem-Me-Quero , estes referiram, maioritariamente, as atividades realizadas (42%) (e.g., “Jogar” , “Gostei de responder às perguntas” ); o Conhecimento Pessoal (25%) (e.g., “ De como me fez pensar e descobrir coisas que nunca tinha pensado” , “Termos de colocar as afirmações do jogo na nossa pele” e o Desenvolvimento Pessoal (25%) (e.g., “ A parte do jogo que nos dá autoconfiança” , “Termos abordado temas que muitas vezes nos amedrontam com outras pessoas” ). 25% 17% 42% 8% 8% Em geral, o que mais gostei foi… Desenvolvimento Pessoal Conhecimento Pessoal Atividades Realizadas Tudo Recordação de Experiências Positivas
BEM-ME-QUERO: INTERVENÇÃO BREVE 21 Figura 4. Respostas dos participantes da intervenção acerca do que menos gostaram Figura 4. Percentagem de respostas dadas. No que concerne ao que os participantes menos gostaram na intervenção breve Bem-Me-Quero , foi mencionado sobretudo, as características das atividades (36%) (e.g., “Termos de escrever muito, pois eu não gosto de escrever” , “De não saber o que responder em algumas perguntas”) e Nada (36%) (e.g., “Gostei de tudo” ) . 36% 36% 18% 9% Em geral, o que menos gostei foi… Nada Características das Atividades Recordação de Experiências Negativas Reflexão autorrealizada
BEM-ME-QUERO: INTERVENÇÃO BREVE 22 Figura 5. Respostas dos participantes da intervenção acerca do que aprenderam Figura 5. Percentagem de respostas dadas. Por fim, e em relação ao que aprenderam com a sua participação na intervenção foram referidos, principalmente, aspetos alusivos à Mudança Pessoal (72%) (e.g., “Que nem sempre estamos tão mal quanto parece e podemos sempre superar os nossos defeitos/desafios” , “Que para ultrapassar as dificuldades da vida tenho que ser otimista” ) e ao Conhecimento Pessoal (27%) (e.g., “Que as nossas características positivas são forças que existem dentro de nós e que nos ajudam a ultrapassar desafios” , “Que tenho 24 qualidades” ). No que respeita às mensagens escritas no pequeno livro Bem-Te-Quero , todos os participantes da intervenção breve desejaram escrever uma mensagem positiva direcionada às futuras crianças e adolescentes hospitalizados. De seguida, pode ler-se ver duas das mensagens escritas de cada hospital deste estudo. “A todos os meninos e meninas que passarem por este hospital desejo as melhoras de saúde e desejo muita força, coragem e amor. Mesmo que às vezes uma coisa pareça difícil ou mesmo impossível eu sei que vocês são capazes de a superar.” Anónimo, 17 anos 73% 27% Nesta intervenção aprendi… Mudança Pessoal Conhecimento Pessoal
BEM-ME-QUERO: INTERVENÇÃO BREVE 23 “Sempre que te sentires triste, lembra-te das coisas boas que te aconteceram.” Anónimo, 10 anos Discussão A hospitalização altera a vida diária das crianças e adolescentes, sendo acompanhada por experiências desagradáveis (Carney et al., 2003; Crnkovic et al., 2009; Eisen et al., 2008). O presente estudo teve como principal propósito desenvolver uma intervenção breve que promova uma experiência de hospitalização positiva. A intervenção é desenvolvida sob a forma de jogo de tabuleiro, na qual se abordaram os tópicos de emoções positivas, forças de caráter e gratidão. A literatura aponta que intervenções focadas nestes aspetos contribuem para o bem-estar das crianças e adolescentes. Os resultados deste estudo vão de encontro a estudos anteriores de Wilson, Megel, Enenbach, e Carlson (2010), os quais mostraram que os pacientes descrevem o internamento realçando aspetos mais e menos positivos, pelo que não é considerado invariavelmente negativo. Depreende-se que, após aplicada a intervenção Bem-Me-Quero , parece haver uma tendência para o aumento da frequência da Emoções/Sentimentos Positivos, bem como da Perceção Positiva da Experiência de Internamento, no momento pós-avaliação. Estes efeitos são apoiados por dados de estudos anteriores, nos quais o jogar contribuiu para o bem-estar físico e emocional e para a redução da intensidade dos sentimentos negativos que acompanham a hospitalização (Koukourikos et al., 2015). Comparativamente com o grupo de comparação observou-se a presença de Emoções/Sentimentos Positivos apenas na avaliação realizada no segundo momento. Estes resultados podem ser explicados pela possibilidade de alguns participantes terem criado amizades com outras crianças no internamento, contribuindo, assim, para uma experiência mais positiva (Carney et al., 2003). Não obstante, a percentagem de Emoções/Sentimentos Negativos referentes à experiência de internamento, no segundo momento de avaliação, também aumenta, presumivelmente derivado do facto das crianças e adolescentes hospitalizados terem de interagir com pessoas desconhecidas num ambientes estranho, bem como por experienciarem eventos desagradáveis e serem submetidos a procedimentos médicos dolorosos (Pelander & Leino-Kilpi, 2010), o que pode, efetivamente contribuir para este resultado. Estes dados reforçam a importância deste tipo de intervenções no contexto hospitalar, pois apesar dos esforços empreendidos pelos hospitais para proporcionar uma experiência de internamento o mais agradável possível, ainda se denota um aumento da Emoções/Sentimentos Negativos quando não é realizada qualquer tipo de intervenção. Face a esta categoria, não foi possível determinar o efeito da intervenção,
30 Anexos Anexo A – Materiais da Intervenção Breve
31 Anexo B – Autorização da Comissão de Ética para a Saúde do Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa
32 Anexo C – Autorização da Comissão de Ética para a Saúde do Hospital de Braga 30
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