Revista Latinoamericana de Etnomatemática E-ISSN: 2011-5474 [email protected] Red Latinoamericana de Etnomatemática Colombia Sousa, Filipe; Palhares, Pedro; Oliveras, María Luisa Raciocínio proporcional e resolução de problemas em contextos piscatórios portugueses Revista Latinoamericana de Etnomatemática, vol. 8, núm. 2, junio-septiembre, 2015, pp. 76-104 Red Latinoamericana de Etnomatemática San Juan de Pasto, Colombia Disponível em: http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=274041586005 Como citar este artigo Número completo Mais artigos Home da revista no Redalyc Sistema de Informação Científica Rede de Revistas Científicas da América Latina, Caribe , Espanha e Portugal Projeto acadêmico sem fins lucrativos desenvolvido no âmbito da iniciativa Acesso Aberto
Sousa, F., Palhares, P., & Oliveras, M. L. (2015). Raciocínio proporcional e resolução de problemas em contextos piscatórios portugueses. Revista Latinoamericana de Etnomatemática, 8(2), 76-104. 76 Artículo recibido el 28 de noviembre 2014; Aceptado para publicación el 20 de abril de 2015 Raciocínio proporcional e resolução de problemas em contextos piscatórios portugueses Proportional reasoning and problem solving in portuguese fishing contexts Filipe Sousa 1 Pedro Palhares 2 María Luisa Oliveras 3 Resumo Desde os tempos remotos que o ser humano, em particular os mercadores, utilizavam conhecimentos matemáticos que lhes permitiam resolver problemas ligados às trocas comerciais, e que os menos hábeis no contexto dos negócios e da matemática, julgavam não ter solução ou serem de difícil resolução. Os problemas que envolvessem raciocínio proporcional eram considerados de média ou elevada complexidade. No entanto, os mercadores há muitos séculos atrás, sem escolarização formal, resolviam engenhosamente problemas de relativa complexidade. Ainda hoje, alguns profissionais, apesar da sua baixa escolarização, têm uma relação muito próxima com problemas que envolvam raciocínio proporcional. É o exemplo de comunidades piscatórias que utilizam conhecimentos matemáticos informais no seu quotidiano, mas que por vezes se torna difícil transpô-los para a sala de aula e vice-versa. Também em contextos escolares que não nos piscatórios, os alunos revelam dificuldades na resolução de problemas sobre raciocínio proporcional. Este trabalho tratando-se de uma investigação de natureza qualitativa e com enfoque na Etnomatemática como pano de fundo, foi desenvolvido em duas comunidades piscatórias (Câmara de Lobos-Madeira e Caxinas) recolhendo informação sobre elementos matemáticos utilizados no seu quotidiano (construção de barcos). Em fase posterior teve lugar a aplicação de tarefas no contexto do raciocínio proporcional em duas escolas com alunos (10-12 anos) de contextos distintos: alunos da comunidade piscatória de Caxinas e alunos de contexto mais citadino de Vila Nova de Famalicão. Os dados são apresentados de forma descritiva e interpretativa, nomeadamente as estratégias de resolução e as dificuldades dos alunos. Apresenta-se também uma breve referência sobre a possível influência/interferência da matemática escolar no desempenho dos alunos destes dois contextos sociais tão distintos, perante as mesmas tarefas matemáticas. Com a escassez deste tipo de investigação (Etnomatemática – Raciocínio Proporcional – Contexto Piscatório) em Portugal, pode ser o impulso para novas investigações na Etnomatemática, estudando contrastes e/ou semelhanças no desempenho de alunos de contextos culturais específicos relativamente aos demais. Palavras-chave: Etnomatemática; Educação Matemática; Raciocínio Proporcional. Abstract Since ancient times human beings, particularly the merchants, used mathematical knowledge enabling them to solve problems related to trade, which the least skilled in the business or the mathematics context, thought to 1 Doutorando em Ciências da Educação – Educação Matemática. CIEC, Institute of Education, University of Minho. Braga, Portugal. Email:
[email protected] 2 University Professor, CIEC, Institute of Education, University of Minho. Braga, Portugal. Email:
[email protected] 3 University Professor, Faculty of Education, University of Granada. Granada, España. Email:
[email protected]
Revista Latinoamericana de Etnomatemática Vol. 8, No. 2, junio-septiembre de 2015 77 have no solution or to be too difficult to solve.Problems involving proportional reasoning were considered of medium to high complexity. However, the merchants, many centuries ago, without formal schooling, ingeniously solved some problems of relative complexity.Even today, some professions, despite their low levels of education, have a very close relationship with problems involving proportional reasoning. Such is the case of fishing communities that use informal mathematical knowledge in their daily lives, although sometimes this becomes difficult to translate into the classroom language and vice versa. This study, of a qualitative nature with Ethnomathematics as a reference, was developed in two fishing communities (Câmara de Lobos - Madeira and Caxinas) by collecting information on mathematical elements used in everyday life (boat building). At a later stage, tasks in the context of proportional reasoning were applied with students (of 10-12 years) of two schools of different contexts: with the fishing community of Caxinas and with the more urban context of Vila Nova de Famalicão. Data will be presented in a descriptive and interpretative form, including both students' strategies and difficulties. Also we will present a brief analysis on the possible influence or interference of school mathematics on the performance of students in these two very different social contexts while faced with the same mathematical tasks. Keywords: Ethnomathematics; Mathematics Education; Proportional Reasoning. INTRODUÇÃO Em escolas de países culturalmente distintos, é frequente encontrar alunos com fraco aproveitamento escolar, mas com capacidades matemáticas singulares em situações do quotidiano. Atendendo a esta problemática, pretende-se investigar estratégias e dificuldades de alunos de contextos culturais distintos, bem como averiguar se a matemática escolar influência a forma como os alunos resolvem tarefas de contexto cultural específico. Este estudo, desenvolveu-se em Portugal junto de duas comunidades piscatórias: Câmara de Lobos - Madeira e Caxinas - norte de Portugal, mas também em duas escolas de contextos cultuais distintos: escola das Caxinas (contexto piscatório) e escola de Calendário (contexto citadino). Numa primeira fase do trabalho procedeu-se à recolha de informação sobre o conhecimento matemático utilizado no quotidiano piscatório e fez-se, numa segunda fase, a “transposição” desses conhecimentos matemáticos, aplicando tarefas matemáticas em contexto de sala de aula. A informação recolhida nas comunidades piscatórias envolve conhecimentos sobre raciocínio proporcional, no contexto da construção de barcos. As tarefas, no contexto da resolução de problemas, e enquadradas com os documentos curriculares, foram aplicadas em sala de aula, em duas fases distintas; antes da lecionação do tema matemático relacionado com a proporcionalidade direta, e após a lecionação desse tema matemático. Assim, este artigo apresenta uma das tarefas utilizadas em sala de aula,
Sousa, F., Palhares, P., & Oliveras, M. L. (2015). Raciocínio proporcional e resolução de problemas em contextos piscatórios portugueses. Revista Latinoamericana de Etnomatemática, 8(2), 76-104. 78 sobre proporcionalidade direta, realizada em 4 turmas de duas escolas de contextos diferentes, analisando as estratégias, dificuldades e a possível influência que a matemática escolar pode ter na escolha da(s) estratégia(s) de resolução por parte dos alunos, sem esquecer os diferentes contextos sociais dos alunos. Brousseau (1997) reconhece que os matemáticos, ao comunicar matemática, tendem a despersonalizar e remover tanto o contexto como as marcas temporais. O objetivo é um passo importante na matemática formal, porque ao fazê-lo, generalidade e abstração são então alcançados. Os professores, contudo, devem dar sentido a esse conteúdo matemático e por isso têm de personalizar, contextualizar e inscrevê-lo temporalmente. Isso chama-se transposição didática. Acreditamos que a etnomatemática (a matemática de grupos culturais identificáveis) (D'Ambrosio, 2006) pode-nos ajudar nesse processo de contextualização, mas também à humanização da matemática (Palhares, 2012). Atendendo ao problema e objetivos descritos em introdução: “pretende-se investigar estratégias e dificuldades de alunos de contextos culturais distintos, bem como averiguar se a matemática escolar influência a forma como os alunos resolvem tarefas de contexto cultural específico”, vamos tentar responder às seguintes questões de investigação: Que estratégias são utilizadas pelos alunos na resolução de problemas que envolvem relações de proporcionalidade direta? Quais as dificuldades que os alunos revelam na resolução de problemas que envolvem relações de proporcionalidade direta? Haverá influência da matemática escolar na escolha de estratégias de resolução por parte dos alunos? ETNOMATEMÁTICA Este trabalho está intimamente ligado à etnomatemática. Etimologicamente, D’ Ambrósio entende a palavra etnomatemática como “a arte ou técnica (techné = tica) de explicar, de entender, de se desempenhar na realidade (matema), dentro de um contexto cultural próprio (etno).” (D’Ambrósio, 1993, p. 10). A Etnomatemática implica uma conceituação muito mais ampla do etno e da matemática. Muito mais do que simplesmente uma associação a etnias (D’Ambrósio, 1998), é a
Revista Latinoamericana de Etnomatemática Vol. 8, No. 2, junio-septiembre de 2015 79 investigação de tradições, práticas e conceções matemáticas de um grupo social subordinado, mas também, o trabalho pedagógico que se desenvolve com o objetivo de identificar e descodificar o conhecimento do grupo e estabelecer comparações entre o seu conhecimento e o conhecimento académico (Knijnik, 2008). A etnomatemática envolve tanto uma prática investigativa como uma prática pedagógica (Oliveira, 2004). Não se limita às questões do quotidiano, ela revela-se também uma proposta educacional comprometida com os grupos menos favorecidos que nos desafia a buscar meios reveladores da trama imposta pelos grupos dominantes (Monteiro, 2004). Nas sociedades multiculturais nós, educadores, temos que refletir sobre que cultura queremos utilizar nas nossas salas de aula. A dominante? A minoritária? Ou, talvez, possamos dar origem a uma nova cultura, resultante de todas as culturas que convivem entre si e que será a herança de todos os cidadãos que vivem no mesmo território. Conhecimento e cultura são os dois fundamentos da matemática. A partir do relativismo epistemológico e demarcação das culturas como sistemas de interpretação do mundo, talvez possamos passar a falar de etnomatemática, ou multimatemáticas (Oliveras, 2006). Neste trabalho adopta-se a posição de D’Ambrósio (1993; 1998; 2002); Oliveira (2004); Monteiro (2004); Knijnik (2008), que resumidamente assumem um carácter investigativo da matemática presente em minorias sociais e um carácter educacional que pretende conjugar esse conhecimento matemático com o conhecimento matemático formal/escolar. O carácter investigativo deste estudo enquadra-se na recolha de informação diretamente dos vários elementos de comunidades piscatórias, de matemáticas do quotidiano utilizadas nas suas atividades profissionais. O carácter educativo enquadra-se na análise dessas matemáticas, o seu enquadramento a nível curricular bem como a sua contextualização e implementação em sala de aula. Uma proposta educacional centrada na Etnomatemática implica uma reorganização escolar no que respeita à multiculturalidade, à valorização do saber do quotidiano, para que assim se possa entender o currículo (flexível e passível de alterações que contemplem os saberes dos diferentes grupos culturais (Monteiro, Orey & Domite, 2004)) como um sistema de valores e identidade, que permita a alunos e professores serem agentes deste processo.
Sousa, F., Palhares, P., & Oliveras, M. L. (2015). Raciocínio proporcional e resolução de problemas em contextos piscatórios portugueses. Revista Latinoamericana de Etnomatemática, 8(2), 76-104. 80 RACIOCÍNIO PROPORCIONAL Os conhecimentos relacionados com questões de proporcionalidade e de raciocínio proporcional, são considerados de grande importância no quotidiano e utilizados desde a antiguidade. A proporcionalidade e o raciocino proporcional são conceitos fundamentais da Matemática escolar. Mas, para Nunes (2010) as pessoas que aprendem matemática fora da escola constroem a sua aprendizagem com base na compreensão das situações, em vez da aprendizagem algorítmica. Elas também são mais versáteis nos seus esquemas de raciocínio. E, de facto, proporcionalidade e raciocínio proporcional estão presentes em muitas situações da vida cotidiana, tanto das crianças como dos pais (Sousa, 2008). Mais importante, é termos em linha de conta, que as crianças também desenvolvem esse tipo de versatilidade em situações que fazem sentido para elas. Este é um tema fundamental da álgebra, primeiro pelas suas ligações com as áreas de matemática, tais como números e geometria, mas especialmente no estudo das funções lineares. Ao longo do ensino básico, o conceito é desenvolvido no contexto dos números racionais e na sua interpretação como uma função. Devemos no entanto distinguir proporcionalidade de raciocínio proporcional. Enquanto a proporcionalidade desempenha um papel importante em aplicações dominadas por princípios físicos, o raciocínio proporcional utiliza-se para compreender contextos e aplicações baseadas na proporcionalidade (Lamon, 2005). O raciocínio proporcional vai muito além da mecanização, está associado a competências no sentido de fazer análises conscientes de relação entre quantidades. Implica, tanto a compreensão de uma relação constante entre duas grandezas (invariância), como a percepção de que estas mesmas grandezas estão relacionadas e variam de forma conjunta (covariância). Ou seja, na resolução de problemas, por exemplo, a mecanização e uso da expressão a/b = c/d não é suficiente, é necessária também a utilização do raciocínio proporcional. Langrall & Swafford (2000) defendem que o raciocínio proporcional envolve quatro componentes:
Revista Latinoamericana de Etnomatemática Vol. 8, No. 2, junio-septiembre de 2015 81 reconhecimento da diferença entre as mudanças absolutas ou aditivas e as relativas ou multiplicativas; reconhecimento de situações em que usar a razão é apropriado; compreensão de que as quantidades que constituem uma razão covariam de forma a que a relação entre elas não se altere; capacidade para construir, de forma crescente, as estruturas unitárias complexas. Estratégias de resolução Pesquisas realizadas sublinham variadas estratégias utilizadas pelos alunos na resolução de tarefas que envolvem situações de proporcionalidade direta. Investigadores como Oliveira (2000); Vergnaud (1991); René de Cotret (1991); Tournaire (1986); Noelting (1978); Karplus et al., (1974) salientam as seguintes estratégias: Estratégia aditiva. É estabelecida uma relação, sendo que o valor dessa relação é adicionado várias vezes até que seja encontrado o valor solicitado no problema. Exemplo A embarcação “Rosa Maria” descarregou na lota da Póvoa de Varzim 900kg de pescado, faturando 1500 euros. Para faturar 4500 euros, quantos kg de pescado teria que descarregar? Para faturar 4500 euros, terá de faturar 1500 euros + 1500 euros + 1500 euros. Então, usando o mesmo raciocínio para o pescado, terá que descarregar: 900 kg + 900 kg + 900 kg = 2700 kg O barco “Rosa Maria teria que descarregar 2700 kg de pescado. Procura do valor unitário ou “quanto para um”. É procurado o valor correspondente à unidade, para de seguida responder ao que é pedido no problema. Exemplo Três cabazes de sardinha custam, na lota, 60 euros. Qual será o preço de 10 cabazes de sardinha? Se o preço de 3 cabazes é 60 euros, então o preço de 1 cabaz é 20 euros. Então o preço de 10 cabazes será 200 euros.
Sousa, F., Palhares, P., & Oliveras, M. L. (2015). Raciocínio proporcional e resolução de problemas em contextos piscatórios portugueses. Revista Latinoamericana de Etnomatemática, 8(2), 76-104. 82 Estratégia escalar ou “tantas vezes como”. É estabelecido o fator de proporcionalidade entre grandezas da mesma natureza. Exemplo Três cabazes de sardinha custam, na lota, 60 euros. Qual será o preço de 9 cabazes de sardinha? Se o número de cabazes é o triplo, então o preço também será o triplo, ou seja 180 euros. Estratégia funcional. Num determinado problema, é estabelecido um fator de proporcionalidade entre grandezas de natureza diferentes. Exemplo Três cabazes de sardinha custam, na lota, 60 euros. Qual será o preço de 9 cabazes de sardinha? O preço (60 euros) é 20 vezes superior ao número de cabazes (3 cabazes), então, para 9 cabazes o preço também será 20 vezes mais, ou seja 180 euros. Estratégia linear. O problema é resolvido com recurso a uma estratégia aditiva e uma estratégia funcional. Exemplo A embarcação “Rosa Maria” descarregou na lota da Póvoa de Varzim 900kg de pescado, faturando 1500 euros. Para faturar 5250 euros, quantos kg de pescado teriam que descarregar? Para faturar 5250 euros, terá de faturar o triplo de 1500, mais 750 euros que é metade de 1500 euros. Então, usando o mesmo raciocínio para o pescado: 3 x 900 kg = 2700 kg 900 kg : 2 = 450 kg 2700 kg + 450 kg = 3150 kg O barco “Rosa Maria” teria de descarregar 3150 kg de pescado. Estratégia do produto cruzado ou “regra de três simples” É um processo mecânico (um algoritmo) que permite calcular corretamente algumas situações de proporcionalidade direta. É muitas vezes, desprovido de raciocínio matemático e de
Revista Latinoamericana de Etnomatemática Vol. 8, No. 2, junio-septiembre de 2015 83 significado no contexto dos problemas. (Hart, 1984; Post, Lesh & Behr, 1988; Cramer, Post e Currier, 1993). Exemplo Três cabazes de sardinha custam, na lota, 60 euros. Qual será o preço de 9 cabazes de sardinha? x 9 60 3 METODOLOGIA Neste estudo, desenvolve-se um trabalho de natureza qualitativa porque “investigar de forma qualitativa representa um processo sério, rigoroso, carregado de dúvidas e inseguranças” (Garcia, 1992, p. 14). A investigação qualitativa valida a utilização de variados desenhos de investigação como por exemplo, estudos de caso múltiplos em contexto etnográfico. Este foi o recurso metodológico utilizado nesta investigação, porque consistiu em observar de forma detalhada os indivíduos em cada um dos contextos específicos referidos (Lessard-Hérbert, Goyette & Bouti, 1994). Construíram-se tarefas, no contexto da resolução de problemas, que em colaboração com os professores, foram aplicadas em sala de aula, oferecendo experiências de aprendizagem ricas e significativas no contexto social dos alunos. As tarefas foram aplicadas em turmas de 5.º e 6.º anos de escolaridade (10-12 anos), de duas escolas com contextos culturais e profissionais distintos: uma pertence à área geográfica de uma das comunidades piscatórias, e a outra, de um meio citadino. Na primeira fase da investigação, junto dos calafates (construtores de barcos), utilizou-se a observação participante, as entrevistas não estruturadas (com a ajuda de gravações áudio e vídeo) e também a análise de documentos. Na segunda fase do estudo, além da observação participante e de entrevistas não estruturadas gravadas em vídeo, foram analisados documentos e experiências de ensino em contexto de sala de aula.
Sousa, F., Palhares, P., & Oliveras, M. L. (2015). Raciocínio proporcional e resolução de problemas em contextos piscatórios portugueses. Revista Latinoamericana de Etnomatemática, 8(2), 76-104. 90 acontece no grupo da figura 7. Neste caso os alunos conseguem chegar corretamente à solução de forma mecânica, sem raciocínio proporcional. Vejamos: Investigador – Expliquem-me qual a estratégia que utilizaram… Aluno – Dividimos a medida real pela medida no desenho. Investigador – E porque é que fizeram isso? Como é que pensaram? Aluno – Porque é assim que se faz, quando queremos saber a escala dividimos a medida real pela medida no desenho, foi assim que nos ensinaram nas aulas. Os alunos deste grupo, (embora não seja pedido diretamente) sabem que devem determinar a escala e aplicam uma “receita” que lhes permite rapidamente chegar à resposta. Este mecanismo é despido de qualquer raciocínio e portanto para estes alunos a tarefa não passou de um exercício. A resolução apresentada por este grupo de trabalho é o exemplo de que o problema foi corretamente resolvido, mas sem a utilização do raciocínio proporcional. A proporcionalidade é muitas vezes limitada ao uso de procedimentos mecânicos, o que na opinião de Spinillo (1994) não garante a compreensão do significado das relações envolvidas, e que neste caso, não devemos considerar que estamos a trabalhar com raciocínio proporcional, mas com proporcionalidade. Dificuldades (antes da lecionação do tema relativo à proporcionalidade) Os alunos do grupo 5 (figura 10) começam por relacionar as duas grandezas (medida real e medida no desenho), estabelecendo um fator de proporcionalidade que lhes permite obter uma grandeza a partir da outra. Ignoram as unidades de medida a assumem que ao utilizarem o fator de proporcionalidade, dividem 14 centímetros por dois e obtêm 7 metros, no entanto têm dificuldade em transpor essa forma de pensar quando dividem 1 centímetro por 2 para obter 0,5 metros. Ou seja inicialmente consideram o 2 como fator de proporcionalidade, mas depois utilizam o 2 no sentido de metade (de 1 centímetro) obtendo 0,50 centímetros.
Revista Latinoamericana de Etnomatemática Vol. 8, No. 2, junio-septiembre de 2015 91 Figura 10. Estratégia utilizada pelo grupo 5. No grupo 7 (figura 11) os alunos apresentam uma resposta sem mostrar como a obtiveram. Parecem utilizar o mesmo raciocínio do grupo 5, pois obtêm a mesma resposta. Em ambos os casos há evidências de dificuldades na comunicação matemática, não respondendo de forma clara e com o devido rigor matemático. O grupo 9 (figura 12) tem a preocupação de converter metros para centímetros para trabalhar com uma única unidade de medida, mas depois tem dificuldade em desenvolver uma estratégia de resolução. Figura 11. Estratégia utilizada pelo grupo 7. Figura 12. Estratégia utilizada pelo grupo 9. Dificuldades (após a lecionação do tema relativo à proporcionalidade) Figura 13. Estratégia utilizada pelo grupo 8.
Sousa, F., Palhares, P., & Oliveras, M. L. (2015). Raciocínio proporcional e resolução de problemas em contextos piscatórios portugueses. Revista Latinoamericana de Etnomatemática, 8(2), 76-104. 92 O grupo 8 (figura 13) procura estabelecer uma relação de proporcionalidade direta entre as duas grandezas (medida real e medida no desenho). Primeiro utilizando as unidades de medida apresentadas no problema, depois convertendo metros em centímetros para utilizarem apenas uma unidade de medida. Usam a regra de três simples (produto cruzado) para tentar chegar à solução. É evidente alguma confusão no raciocínio que desenvolvem, revelando dificuldades no estabelecimento de um fator de proporcionalidade que assumem ser 14. Além disso erram nos cálculos, obtendo 0,2 metros e 20 centímetros, não conseguindo confirmar que estes resultados estavam errados, apesar de utilizarem a propriedade fundamental das proporções. A utilização desta propriedade revela que algo está errado, no entanto estes alunos não têm sentido crítico suficientemente apurado para se aperceberem que a solução não está correta. Os alunos deste grupo de trabalho utilizaram a estratégia do produto cruzado, criando restrições ao uso do raciocínio proporcional em vez de o facilitar (Lesh, R., Post, T., & Behr, M., 1988). Para estes investigadores (1983) e esta estratégia é ensinada nas escolas é mal compreendida pelos alunos, que a veem como algo “infalível” que lhes permite resolver rapidamente um problema, como se verifica neste caso e que é corroborado por Post, Behr & Lesh (1988). Para alguns grupos de trabalho, a simples tarefa de medir com rigor o comprimento do barco no desenho, torna-se uma dificuldade, pois nem sempre o conseguem fazer com rigor como se pode verificar na figura 7. Escola de Calendário Estratégias (antes da lecionação do tema relativo à proporcionalidade) Figura 14. Estratégia utilizada pelos grupos 1; 9 e 10.
Revista Latinoamericana de Etnomatemática Vol. 8, No. 2, junio-septiembre de 2015 93 As estratégias aqui apresentadas são muito semelhantes e envolvem raciocínios igualmente semelhantes, apresentando no entanto algumas variantes. Em todas as resoluções os alunos utilizam uma estratégia funcional, estabelecendo relações proporcionais entre grandezas de natureza diferente. Assumem que o fator de proporcionalidade é 2 (metade/dobro) e com base nessa descoberta utilizam esse fator de proporcionalidade para determinar que metade de 1 centímetro corresponde a 0,5 metros. Ainda assim há diferenças na forma como apresentam cada uma das resoluções. Os grupos da figura 14 apresentam alguns cálculos e uma breve explicação escrita, enquanto o grupo da figura 16 apresenta uma explicação escrita mais longa (embora pouco clara) e cálculos escassos. O grupo da figura 15 apresenta apenas cálculos sem resposta. Figura 15. Estratégia utilizada pelo grupo 2. Figura 16. Estratégia utilizada pelo grupo 6.
Sousa, F., Palhares, P., & Oliveras, M. L. (2015). Raciocínio proporcional e resolução de problemas em contextos piscatórios portugueses. Revista Latinoamericana de Etnomatemática, 8(2), 76-104. 94 Os grupos 3; 4; 5; 7 e 8 (cerca de metade dos alunos) não conseguem desenvolver uma estratégia com lógica, nem utilizam mesmo que erradamente o raciocínio proporcional. Cingem-se a adicionar ou a subtrair os números apresentados no enunciado do problema, apresentando respostas totalmente descabidas. Apesar de alguns grupos de trabalho utilizarem estratégias multiplicativas, que surgem num estádio intermédio do raciocínio proporcional (Lesh, Post & Behr, 1988) e são ponto de vista do raciocínio proporcional, mais complexas do que as estratégias aditivas (Lamon, 2005), cerca de metade dos alunos não consegue encontrar uma estratégia que lhes permita resolver o problema. No que respeita à capacidade de resolver o problema, verifica-se uma discrepância considerável relativamente aos alunos da escola das Caxinas, que nesta fase (antes da lecionação do tema sobre a proporcionalidade direta) apenas dois grupos de trabalho não conseguiram resolver o problema. Este facto pode ter explicação na experiência diária no mundo físico e social dos alunos, ou seja, na compreensão intuitiva do mundo (Singer, Kohn e Resnick, 1997) que influencia a compreensão matemática da criança. Estratégias (após a lecionação do tema relativo à proporcionalidade) Os grupos de trabalho apresentam estratégias de resolução bastantes variadas com incidência na utilização da regra de três simples. O grupo 1 (Figura 17) responde corretamente, representa corretamente a escala, mas não mostra como chegou à resposta. Revela portanto dificuldades em apresentar as suas estratégias limitando-se praticamente a responder. O grupo 2 (Figura 18) apresenta uma estratégia de resolução em tudo semelhante à que utilizaram antes da lecionação do tema relativo à proporcionalidade, como se pode verificar pela figura 15. Figura 17. Estratégia utilizada pelo grupo 1.
Revista Latinoamericana de Etnomatemática Vol. 8, No. 2, junio-septiembre de 2015 95 Figura 18. Estratégia utilizada pelo grupo 2. Os grupos 3 e 4 (Figura 19) utilizam a regra de três simples (produto cruzado), ferramenta adquirida com a intervenção da matemática escolar. Utilizam uma estratégia funcional, estabelecendo uma relação entre variáveis de natureza diferente, com unidades de medida diferentes e efetuando todos os cálculos sem se preocuparem com esse facto. Obtêm o valor correto em metros que convertem corretamente para centímetros e respondem corretamente. Figura 19. Estratégia utilizada pelos grupos 3 e 4. O grupo 5 (Figura20) desenvolve um raciocínio em que utiliza inicialmente uma estratégia aditiva e numa segunda fase uma estratégia multiplicativa. Estabelece a razão de 1 para 2 relativamente às grandezas “medida real”(em metros) e “medida no desenho”(em centímetros). Vão adicionando sucessivamente os termos dessa razão até obter a razão de 7 para 14, ou seja, 7 metros para 14 centímetros. Este grupo começa por obter a razão unitária, para de seguida por adições sucessivas obter a relação estabelecida no enunciado “14 centímetros no desenho correspondem a 7 metros no barco real”. Concluem então que 2 centímetros no desenho equivalem a 1 metro no barco real. Com base neste pressuposto e
Sousa, F., Palhares, P., & Oliveras, M. L. (2015). Raciocínio proporcional e resolução de problemas em contextos piscatórios portugueses. Revista Latinoamericana de Etnomatemática, 8(2), 76-104. 96 como pretendem saber a quanto corresponde 1 centímetro no desenho, decidem dividir ambas as grandezas por dois e assim concluir que a 1 centímetro no desenho corresponde no barco a meio metro que são 50 centímetros. Nesta resolução do problema os alunos utilizam uma estratégia linear estabelecendo relações aditivas e multiplicativas. Compreender a diferença entre adicionar e multiplicar bem como os contextos em que cada uma se pode usar, requer alguma maturidade matemática (Lamon, 2005) Esta situação evidencia a dificuldade que os alunos têm em passar das estruturas aditivas para multiplicativas. Figura 20. Estratégia utilizada pelo grupo 5. A figura 21 ilustra a resolução do grupo 6, que utiliza a regra de três simples (produto cruzado), mas converte antecipadamente para metros a grandeza apresentada em centímetros. Efetua corretamente todos os cálculos e responde corretamente ao problema. Este grupo faz referência explícita à escala mesmo sem que o enunciado refira que se pretende determinar a escala. Existem aqui evidências de que o grupo se apropriou desta ferramenta (regra de três simples) para determinar a escala e há também evidência de que o grupo conhece a propriedade fundamental das proporções, pois utiliza-a para confirmar se o resultado obtido está correto. Fica claro neste caso que a matemática escolar alterou a estratégia utilizada pelos alunos, comparando esta estratégia com a estratégia utilizada pelo mesmo grupo antes da lecionação do tema relacionado com a proporcionalidade (figura 14).
Revista Latinoamericana de Etnomatemática Vol. 8, No. 2, junio-septiembre de 2015 97 Figura 21. Estratégia utilizada pelo grupo 6. A figura 22 ilustra a resolução do grupo 8, que antes da lecionação do tema relativo à proporcionalidade não conseguiu desenvolver uma estratégia correta e chegar à solução do problema. Aqui estamos perante uma estratégia funcional com fortes evidências de aplicação mecânica de procedimentos. Não fica claro que os alunos utilizam o raciocínio proporcional, mostrando apenas uma única operação que lhes permite obter a resposta correta ao problema. Mais uma forte evidência de que a matemática escolar influenciou a forma como os alunos resolveram o problema, despindo a estratégia de qualquer forma de raciocínio matemático. Figura 22. Estratégia utilizada pelo grupo 8. O grupo 10 (Figura 23) procura numa primeira fase a razão unitária (1 metro para 2 centímetros), indica que a escala é 1:2 e apresenta como solução do problema 0,5 centímetros. Numa segunda fase utiliza a regra de três simples (produto cruzado), representando uma proporção como uma igualdade entre duas razões, mostrando
Sousa, F., Palhares, P., & Oliveras, M. L. (2015). Raciocínio proporcional e resolução de problemas em contextos piscatórios portugueses. Revista Latinoamericana de Etnomatemática, 8(2), 76-104. 98 claramente que existe uma relação entre as duas grandezas (medida no desenho e medida real) e com alusão clara ao cálculo da escala. Quando o aluno reconhece a semelhança estrutural representada pelos dois lados da equação, que é o que acontece neste caso, então há evidências de raciocínio proporcional (Lesh, Post & Behr, 1988). O grupo não responde ao problema mas calcula corretamente a medida real que corresponde a 1 centímetro no desenho. Figura 23. Estratégia utilizada pelo grupo 10. Nas suas estratégias, a maioria dos alunos, sente necessidade de representar na folha de registo, todos os cálculos efetuados. Os alunos preferem apresentar as suas estratégias utilizando cálculos em detrimento de textos escritos. Ainda assim verificam-se dificuldades na comunicação matemática escrita. Parte considerável dos grupos apresenta os seus raciocínios e estratégias de forma pouco clara, verificando-se uma literacia matemática algo pobre. Dificuldades (antes da lecionação do tema relativo à proporcionalidade) Na fase de implementação da tarefa antes da lecionação do tema relativo à proporcionalidade, os alunos da escola de Calendário, revelaram muitas dificuldades em encontrar uma estratégia e a desenvolver um raciocínio que lhes permitisse chegar à solução do problema. Dos 10 grupos de trabalho, 5 não conseguiram desenvolver um raciocínio lógico e correto, nem sequer que envolvesse o raciocínio proporcional. Para
Revista Latinoamericana de Etnomatemática Vol. 8, No. 2, junio-septiembre de 2015 99 metade dos grupos os conhecimentos do quotidiano sobre proporcionalidade não foram suficientes para resolver com sucesso o problema. Dificuldades (após a lecionação do tema relativo à proporcionalidade) Figura 24. Estratégia utilizada pelo grupo 7. Os alunos do grupo 7 (figura 24) optam por utilizar a regra de três, mas não interpretam corretamente o problema, pelo que procuram determinar algo que não é pedido. Este grupo considera na sua resolução a noção de percentagem, não se apercebendo que no problema, embora se trate de proporcionalidade, este não envolve percentagem. Este grupo não estabelece uma relação proporcional entre a medida no desenho e a medida real. Convencidos de que o seu raciocínio está correto, aplicam mecanicamente de forma precipitada a regra de três simples obtendo uma solução descontextualizada com o que é pedido no problema. À semelhança de outras investigações (Oliveira, 2009) o grupo revela pouco sentido crítico relativamente ao resultado obtido, o que se verifica também