Dados de escrita de crianças de escolas portuguesas: vogais não acentuadas
Abstract
Este artigo analisa dados longitudinais de escrita de vogais não acentuadas do português europeu, produzidos por crianças no 2º e 4º anos do Ensino Básico. Os dados foram extraídos do corpus EFFE-On, uma base de dados eletrónica de escrita e fala de crianças portuguesas nos anos iniciais de escolaridade. Os resultados mostram frequências distintas de formas ortográficas não convencionais para as vogais nas diversas posições da palavra, relacionadas com os processos de neutralização e de semivocalização. O desempenho observado na amostra é justificável, tendo em consideração o sistema fonológico e as suas manifestações fonéticas, em interligação com a grafia da língua e, ainda, com a prática docente.
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Revista Linguagem & Ensino https://periodicos.ufpel.edu.br/ojs2/index.php/rle/index Pelotas, v. 24, n. 4, OUT-DEZ (2021) Dados de escrita de crianças de escolas portuguesas: vogais não acentuadas Celeste Rodrigues 1 Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras e Centro de Linguística da Universidade de Lisboa, Lisboa, Portugal Maria do Carmo Lourenço-Gomes 2 Universidade do Minho, Escola de Letras, Artes e Ciências Humanas, Centro de Estudos Humanísticos, Braga, Portugal Resumo: Este artigo analisa dados longitudinais de escrita de vogais não acentuadas do português europeu, produzidos por crianças no 2º e 4º anos do Ensino Básico. Os dados foram extraídos do corpus EFFE-On, uma base de dados eletrónica de escrita e fala de crianças portuguesas nos anos iniciais de escolaridade. Os resultados mostram frequências distintas de formas ortográficas não convencionais para as vogais nas diversas posições da palavra, relacionadas com os processos de neutralização e de semivocalização. O desempenho observado na amostra é justificável, tendo em consideração o sistema fonológico e as suas manifestações fonéticas, em interligação com a grafia da língua e, ainda, com a prática docente. Palavras-chave: Escrita infantil; Vogais; Redução vocálica; Formas ortográficas não convencionais; Corpus EFFE-On. Title: Writing data from Portuguese school children: unstressed vowels Abstract: This paper analyses longitudinal writing data on European Portuguese unstressed vowels produced by 2nd and 4th-grade children. The data were taken from the EFFE-On Corpus, an electronic database of writing and speech of Portuguese children in the early years of schooling. The results show distinct frequencies of unconventional orthographic forms for vowels in the various word positions related to neutralisation and semivocalisation processes. The children's performance observed in the sample is justifiable considering the phonological system and its phonetic manifestations in connection with the language’s spelling and with the teaching practice. Keywords: Children writing; Vowels; Vowel reduction; Non-conventional spelling forms; The corpus EFFE-On. 1 Professora Associada da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa; Investigadora do Centro de Linguística da Universidade de Lisboa. E-mail: celesterodr[email protected].pt. ORCID: http://orcid.org/0000-0002-77945569. 2 Investigadora Auxiliar do Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho. E-mail: [email protected]. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9003-0438.
Dados de escrita de crianças Celeste Rodrigues de escolas portuguesas: Maria do Carmo Lourenço-Gomes vogais não acentuadas Linguagem & Ensino, Pelotas, v. 24, n. 4, p. 775-798, out.-dez. 2021 776 Introdução Neste artigo analisamos formas gráficas não convencionais (FNCs) das vogais <e>, <i>, <o> e <u> em sílabas não acentuadas de núcleo não ramificado presentes na escrita de crianças no Ensino Básico em Portugal 3 . São objeto de estudo os dados de alunos nos 2º e 4º anos de escolaridade recolhidos longitudinalmente em uma escola de Lisboa, o que nos permite perceber o quanto as dificuldades das crianças no 2º ano foram superadas no 4º ano de escolaridade. Os dados foram extraídos do corpus EFFE-On (RODRIGUES et al., 2015), uma base de dados eletrónica de escrita e fala de crianças portuguesas nos anos iniciais de escolaridade. O interesse neste assunto decorre de o vocalismo oral não acentuado em português europeu (PE) não ter ainda sido alvo de trabalho sistemático com base em informação deste corpus e de esse estudo poder servir para a elaboração de estratégias de ensino que visem colmatar muitas das FNCs encontradas na escrita infantil em Portugal, algumas das quais ainda se observam em textos de adultos. Na medida em que existem discrepâncias no número de unidades fonológicas, fonéticas e ortográficas, é expectável que ocorram trocas frequentes dos grafemas <e> por <i> e <i> por <e>, bem como trocas de <o> por <u> e de <u> por <o>. Uma vez que existem quatro carateres diferentes para representar as vogais em estudo que regularmente correspondem a três vogais fonéticas ([i], [ɨ], [u]), poderíamos supor que estas gerassem poucas FNCs na escrita das crianças. Todavia, é comum a ocorrência de desacertos na escrita com motivação na forma fonética ou devido à arbitrariedade na escrita de algumas vogais fonéticas (custume > costume, sobir > subir, imendar > emendar, descutir > discutir), o que pode ser justificado por, pelo menos, três fatores: (i) a existência da mesma representação ortográfica em posição acentuada e não acentuada, (ii) a existência de palavras com vogais pretónicas que correspondem a formas idiossincráticas da língua que conservam a qualidade da vogal fonológica e, ainda, (iii) a existência de variação na produção de algumas vogais. Neste trabalho pretendemos apurar se as vogais ortográficas geram frequência de erro divergente, qual a razão que motiva eventuais diferenças, além de identificar os tipos de erro mais comuns para as diversas vogais analisadas. Em função dos resultados obtidos, tecemos algumas considerações acerca dos problemas identificados no estudo. Na sequência desta primeira secção, em “Fundamentação do estudo”, revemos algumas questões relacionadas com a evolução do vocalismo não acentuado em PE, com o seu comportamento fonológico no PE contemporâneo, incluindo aspetos da sua variação e, 3 O processo de elevação das vogais médias produz resultado distinto do que atua na vogal /a/ não acentuada, pois estas resultam como vogais fechadas e /a/ como uma vogal média – razão pela qual deixamos /a/ fora do presente estudo. Segundo Castro (2006, p. 193), a vogal /a/ podia ser já realizada com o alofone [], em posição não acentuada ou antes de consoante nasal, no Português Clássico (com início na primeira metade do século XVI, CASTRO, 2006, p. 185).
Dados de escrita de crianças Celeste Rodrigues de escolas portuguesas: Maria do Carmo Lourenço-Gomes vogais não acentuadas Linguagem & Ensino, Pelotas, v. 24, n. 4, p. 775-798, out.-dez. 2021 777 por último, acerca da relação entre variantes fonéticas e ortografia. Além de referirmos os processos fonológicos a que este está sujeito, mencionamos também os principais tipos de exceções que se observam. A secção “O presente estudo” apresenta os pressupostos metodológicos adotados para a constituição da amostra e para a sua análise, além dos resultados obtidos. Finalmente, na secção “Considerações finais” centrar-nos-emos em comentários sobre os dados apresentados que nos parecem úteis para a elaboração de estratégias didáticas em sala de aula, retomando as questões de investigação apresentadas no início da secção “O presente estudo”. Fundamentação do estudo Sobre o vocalismo não acentuado em PE A história do vocalismo não acentuado do português, apesar de ser um tema abordado por diversos estudos (Cf. MARTINS, 2016, p. 8), é ainda pouco conhecida. Existem evidências várias de que, ao longo dos séculos, fenómenos de elevação das vogais médias /e/ e /o/ foram desencadeados, primeiro, pelas átonas finais, que se transformaram em [i] e [u] e, depois, pelas pretónicas (CASTRO, 2006, p. 194-195; MARQUILHAS, 2003; MARTINS, 2016, p. 8;). Segundo Marquilhas (2003, p. 10) - que discute dados previamente publicados por Marquilhas (2000) -, a maior generalização das vogais [u] e [ɨ] pretónicas não iniciais de palavra deu-se, por analogia com as formas fonéticas das vogais postónicas finais, durante o século XVII, apesar da existência de exceções e de a redução do vocalismo átono pretónico só ser generalizada no século XVIII. Esse fenómeno atinge todas as posições pretónicas não iniciais, e não apenas a que antecede a vogal tónica, ou seja, a posição que era atingida pela harmonização vocálica sempre que a vogal acentuada era alta (p. ex., minino > menino, divia > devia), uma característica herdada da época designada “Português Antigo” e que se mantém em algumas variedades de português brasileiro (PB). Além disso, no seu trabalho (p. 11 e segs.) são apresentados testemunhos, escritos por pessoas com pouco treino em escrita, que deixam revelar formas que ocorrem na oralidade como a presença de [ɨ] na pronúncia, por centralização dissimilatória: relegioso (religioso, 1414), hadeuinhailla (adivilhai-la, 1642), para além de diversos exemplos com sobreutilização de <e> como foremos (formos, 1648), esperito (esp’rito, 1648). Martins (2016, p. 7-9) considera, assim, que no período designado “Português Clássico”, ou seja, entre os meados do século XVI e os meados do século XVIII, não existe ainda uma generalização completa da elevação das vogais pretónicas em estudo. Sendo um fenómeno de difusão analógica como proposto por Marquilhas (2003), a sua progressão é lenta, já que vai afetando o léxico e as diversas posições na palavra, a pouco e pouco. De resto, certas exceções continuam a existir em português no período conhecido como “Português Moderno” nas vogais pretónicas e postónicas não finais. Entre elas, encontram-se as seguintes:
Dados de escrita de crianças Celeste Rodrigues de escolas portuguesas: Maria do Carmo Lourenço-Gomes vogais não acentuadas Linguagem & Ensino, Pelotas, v. 24, n. 4, p. 775-798, out.-dez. 2021 778 a. vogais em posição postónica não final: Alcácer, túnel b. vogais em posição inicial: hospício, hospital, olvidar, obter, herança c. vogais antes de /l/ em coda silábica: soldado, amolgar, delgado d. ditongos: anoitecer, deitar, afrouxar, endeusar e. vogais de palavras compostas que preservam acento secundário: mulherzinha, dorzinha completamente f. vogais de algumas palavras de uso afetivo: bolinha, fofinho, bonequinha g. vogais nasalizadas: tontura, central. h. vogais de palavras como: credor, aproximar, exceção, adotar Além destes tipos de exceções, há ainda a reportar a existência de variação linguística em algumas palavras como florista, protagonizar, mestrado, interveniente que podem apresentar a vogal média não acentuada com ou sem a centralização. Podemos ver assim que, do ponto de vista histórico, a neutralização das vogais pretónicas, apesar de ser de aplicação muito generalizada, possui um conjunto apreciável e heterogéneo de exceções nas quais a neutralização não se aplica. De resto, em alguns casos, nem se pode determinar com clareza qual é natureza da vogal fonológica, por falta da respetiva ocorrência em sílaba acentuada. Dessa maneira, falar-se de elevação de um ou dois graus nem sempre é adequado. Sistema fonológico das vogais do PE contemporâneo O sistema fonológico das vogais do português é constituído por sete vogais /i, e, , a, , o, u/ contrastantes em sílaba acentuada. Em PE, estas vogais fonológicas reduzem-se a [i], [ɨ], [] ou [u] foneticamente em sílaba não acentuada, conforme é representado na Figura 1, de acordo com o que é referido em diversos estudos fonológicos da língua (ANDRADE, 2020; MATEUS, 1982; MATEUS; ANDRADE, 2000; RODRIGUES, 2003; VELOSO, 2010; VIGÁRIO, 2003, para referir apenas alguns). Figura 1 – Representação da neutralização das vogais não acentuadas em PE Vogais Coronais Dorsais Labiais Altas /i/ [ɨ] /u/ Médiasaltas /e/ /o/ Médias- [ɐ] baixas // /ɔ/ Baixas /a/
Dados de escrita de crianças Celeste Rodrigues de escolas portuguesas: Maria do Carmo Lourenço-Gomes vogais não acentuadas Linguagem & Ensino, Pelotas, v. 24, n. 4, p. 775-798, out.-dez. 2021 779 Apesar da grande regularidade de aplicação das generalizações acima referidas em PE, as vogais médias em posição inicial de palavra não reduzem nos mesmos termos. Assim, /e/ e // podem ser pronunciadas como [e] e [] ou ser realizadas como [i] em posição inicial de palavra ([i]rvilha, [e]missão, []lvira), ao contrário do que tende a acontecer em posição medial e final, onde são realizadas como [ɨ] geralmente. Além disso, estas duas vogais podem ser realizadas respetivamente como [e] ou [] em posição medial pretónica, em casos excecionais (s[ ]/[e]gmento, alv[ ]/[e]olar, hi[ ]/[e]rarquia). Deste modo, a ocorrência da vogal central [ɨ] (/e, / e, raramente, /i/) restringe-se à posição medial e final, apesar de esta vogal também poder ser elidida - o que nos parece poder conduzir a omissões de vogal na escrita infantil. As vogais /o/ e // são produzidas como [o] ou [] em posição inicial de palavra ([o]/ []casião) em quase todas as variedades de PE (embora [u] possa existir em algumas variedades setentrionais). Em posição medial e final de palavra, /o/ e // são regularmente realizadas como [u] – o que pode dar origem a trocas na grafia de crianças nas fases iniciais do aprendizado ortográfico. Em certas palavras excecionais as vogais /o/ e // podem ser realizadas como [o] ou [], em posição pretónica (desenv[ ]/[o]lver, h[]m[]géneo). Existe, assim, neutralização em sílaba átona das vogais médias Coronais sob a forma de [ɨ] e das vogais Labiais sob a forma de [u]. No caso das vogais Labiais existe neutralização com a vogal /u/ complementarmente, visto que as três vogais confluem na mesma pronúncia. No caso das médias Coronais não existe essa neutralização com a vogal /i/, posto que esta continua a ter a sua realização [i]. Do ponto de vista fonológico, o(s) processo(s), vulgarmente conhecidos como redução das vogais átonas, que englobam a elevação (ou fechamento) das vogais /e o / para vogais altas, a elevação de /a/ para [] e a centralização de /e/ e // para [ɨ] têm sido descritos de acordo com diferentes perspetivas teóricas. Entre as propostas mais recentes para descrição do PE, encontra-se a de Veloso (2016), no quadro da Fonologia dos Elementos. O autor analisa o comportamento do vocalismo átono em PE como resultado de dois processos de origens distintas, independentes e contraditórios. Com efeito, o autor considera que as vogais médias labiais reforçam a sua Labialidade e as vogais palatais perdem a sua Palatalidade. Por esse motivo, as labiais resultam foneticamente com dois Elementos |U| ([u]), uma vez que a Abertura é perdida, e as palatais resultam sem traços especificados devido à perda simultânea dos Elementos de Palatalidade |I| e abertura |A| ([ɨ]). As vogais médias palatais adquirem, portanto, a forma da vogal que o autor identifica como vogal não marcada no sistema fonológico, [ɨ], distanciando-se da proposta de Mateus (1996; 1997) e Mateus e Andrade (2000) que apontaram a vogal /i/ como vogal subespecificada (e a partir da qual descreveram da especificação das restantes vogais). Veloso (2010) sustenta que as vogais [ɨ] e [], não estão sujeitas a alternância morfofonológica, sejam consideradas parte do sistema fonológico, ou seja, que /ɨ/ e // existam
Dados de escrita de crianças Celeste Rodrigues de escolas portuguesas: Maria do Carmo Lourenço-Gomes vogais não acentuadas Linguagem & Ensino, Pelotas, v. 24, n. 4, p. 775-798, out.-dez. 2021 780 fonologicamente em palavras como: base, que, casa, mas sejam derivadas a partir de outras vogais em palavras como celebrar, conhecer, focado, por exemplo. Veloso (2010) considera que /ɨ/ é a vogal menos marcada, porque ela pode ser descrita com total ausência de traços especificados, na sua perspetiva. Mateus e Andrade (2000), por seu lado, consideraram que a inclusão das duas vogais, atrás referidas, no sistema fonológico era desnecessária, uma vez que ambas podem ser derivadas a partir de outras vogais fonológicas. Desta forma, [ɨ] foi considerada apenas uma vogal fonética, típica do PE, derivável de /i/ ou das vogais /e/ e // em posição não acentuada, tal como a vogal [] foi considerada fonética, por corresponder maioritariamente a /a/ em sílaba não acentuada. Com efeito, esta vogal só ocorre noutros dois contextos: em sílabas acentuadas seguidas de nasal (cama, cana, manha) e, em representação da vogal /e/, antes de consoante palatal (tenha, seja, telha) em PE. Portanto, em Mateus e Andrade (2000), os autores optaram por uma descrição mais económica do sistema fonológico do que a que veio a ser defendida por Veloso em trabalhos mais recentes, a qual reflete a natureza essencialmente prosódica do fenómeno de redução que genericamente atinge todo o vocalismo átono do PE. A proposta de Veloso (2010) remete para a interferência de questões morfológicas e prosódicas nos contextos em que se observam [] e [ɨ]. Uma vez que não nos ocuparemos da vogal [] e que [ɨ] é o resultado fonético de diferentes vogais sempre em sílaba átona (cf. Figura 1, acima), parece-nos possível adotar aqui a descrição fonológica proposta por Mateus e Andrade (2000), seguida por diversos outros trabalhos (ANDRADE, 2020; RODRIGUES, 2003; VIGÁRIO, 2003; por exemplo). Variação sociolinguística em PE Em posição inicial de palavra, segundo Rodrigues (2016), a neutralização das vogais Coronais como [ɨ] e a neutralização das vogais Labiais como [u] não acontecem no PE da região de Lisboa, por exemplo. Todavia, em certas variedades setentrionais de português (nomeadamente, na do Minho), a neutralização das Labiais como [u] no início de palavra é possível ([u]missão). Assim, no PE falado na região de Lisboa, as vogais Labiais iniciais são pronunciadas como [o] ou [], muitas vezes, sem correspondência exata com a qualidade fonológica das mesmas. O trabalho de Mascarenhas (1996, p. 104-105) mostra que, em posição inicial de palavra, a variante aberta das vogais Labiais ocorre mais nos falantes mais jovens sobretudo nos do género masculino em Lisboa, e que no Porto é mais frequente nos falantes do género feminino. Essa distribuição foi interpretada do seguinte modo em Rodrigues (2016): o fenómeno de abertura é uma inovação, em expansão entre os mais jovens de Lisboa do género masculino, que sem consciência do fenómeno, estão a difundi-lo rapidamente, sendo seguidos sobretudo pelas falantes femininas do Porto que são mais sensíveis à inovação da variedade falada na região de Lisboa do que os restantes falantes. No que se refere às vogais Coronais, Mascarenhas (1996) conclui que a elevação para [i] é a forma preferida em posição inicial de palavra, embora [e] ocorra em Lisboa antes da vibrante final
Dados de escrita de crianças Celeste Rodrigues de escolas portuguesas: Maria do Carmo Lourenço-Gomes vogais não acentuadas Linguagem & Ensino, Pelotas, v. 24, n. 4, p. 775-798, out.-dez. 2021 781 de sílaba. Segundo os dados reportados por Rodrigues (2003) 4 , [i] é, efetivamente, o alofone mais corrente em Lisboa mesmo nas sílabas com vibrante em final de sílaba - o que mostra a contínua difusão do fenómeno -, e isso também acontece em Braga. As vogais médias Coronais e Labiais estão sujeitas a elisão em PE, além dos fenómenos de neutralização. Rodrigues (2016, p. 106-107) afirma que a elisão das vogais Labiais átonas /o/ e // atinge um valor um pouco mais alto em Lisboa em posição medial e final do que em Braga e está relacionada com o perfil sociolinguístico dos falantes e, parcialmente, com a estrutura da sílaba. A elisão destas vogais é proporcionalmente mais elevada do que a das vogais cardinais /i a u/ não acentuadas. É mais frequente nos homens mais jovens em Lisboa e, também, nos falantes mais jovens e instruídos de Braga, independentemente do género. Rodrigues conclui que: uma vez que as mulheres do dialeto standard elidem menos do que os homens, a taxa de elisão está relacionada com o prestígio (quanto menos elisão, mais prestígio). Não havendo uma clara estigmatização da elisão, ela está a difundir-se rapidamente entre os falantes jovens de Braga, contrariamente ao que sucede entre os mais velhos, sem grandes diferenças de comportamento entre os falantes dos dois géneros (RODRIGUES, 2016, p. 106-107). Já no que se refere às vogais Coronais neutralizadas sob a forma [ɨ] em posição medial, a frequência de elisão é condicionada pela estrutura da sílaba, pela qualidade da vogal fonológica e pelo perfil dos falantes (idade e género). Uma vez que a elisão ocorre nas vogais altas fonologicamente e nas vogais elevadas foneticamente, a confusão entre <e> e <i> e omissão do grafema na escrita infantil são expectáveis. A frequência de elisão dos falantes jovens do género masculino é sempre mais alta do que a dos menos jovens e que a das falantes da mesma cidade, tanto nas vogais médias Coronais como nas Labiais, podendo atingir valores percentuais muito elevados, dependendo do tipo de sílaba e também do falante (cf. RODRIGUES, 2003, p. 214-224 e p. 138-153). Da mesma forma que nas vogais Coronais, são de esperar confusões gráficas entre <o> e <u> e omissões de grafema para as vogais labiais. Relação entre variantes fonéticas e ortografia Em Portugal, não são muitos os trabalhos com descrições exaustivas de conjuntos organizados de materiais de escrita, que nos permitam perceber as características do processo de desenvolvimento da aprendizagem da grafia das vogais não acentuadas (mas veja-se, por exemplo, PINTO, 1997; 1998; 2017; SERRANO et al., 2011; VELOSO, 2003). Faltam, portanto, descrições sistemáticas que nos permitam concluir quais são as representações ortográficas relativas ao sistema vocálico problemáticas para as crianças, em cada fase da aprendizagem. 4 Rodrigues (2003) contemplou no seu estudo falantes com os seguintes perfis: (i) faixas etárias: 13-19, 20-25, 26-39, 40-55 e > 55; (ii) graus de escolaridade: sem instrução escolar, escolaridade até ao 9º ano, escolaridade 12º ano e com licenciatura, no mínimo; (iii) género: masculino e feminino.
Dados de escrita de crianças Celeste Rodrigues de escolas portuguesas: Maria do Carmo Lourenço-Gomes vogais não acentuadas Linguagem & Ensino, Pelotas, v. 24, n. 4, p. 775-798, out.-dez. 2021 782 Por esta razão, não é ainda clara a ordem de dificuldade das representações ortográficas para as crianças ao longo da escolarização. Nesta secção procuramos traçar um quadro geral dos estudos que referem aspetos pontuais (em vez de sistemáticos) de representações ortográficas não convencionais adotadas pelas crianças. Em Serrano et al. (2011), foi comparado o desempenho de crianças portuguesas, francesas e espanholas em tarefas de leitura e escrita, tendo-se concluído que um dos fatores que prejudica o desempenho das crianças portuguesas é a existência de redução vocálica (Cf. SERRANO et al., 2011, p. 200). Veloso (2003), por seu turno, analisou dados de escrita infantil referentes à estrutura da sílaba (nomeadamente, a emergência das capacidades de manipulação fonémica e as divisões silábicas explícitas das sequências consonânticas Obstruinte+Lateral e Obstruinte //+Obstruinte do português), tendo observado que o conhecimento ortográfico pode desencadear a reformulação do conhecimento fonológico nos aspetos estudados – ou seja, que o conhecimento ortográfico funcione como um “filtro” do conhecimento fonológico preexistente, nas palavras de PINTO (1998, p. 181-182). Os materiais do corpus EFFE-On (RODRIGUES et al., 2015) têm sido estudados em alguns outros trabalhos, além do presente estudo, tendo revelado o seu potencial para estudos diferenciados, entre outros, Gomes e Rodrigues (no prelo); Lourenço-Gomes, Rodrigues e Alves (2016); Pampim, Reis, Mendonça e Fernandes (2019); Rodrigues e Lourenço-Gomes (2016); Rodrigues e Lourenço-Gomes (2018). O estudo de Lourenço-Gomes, Rodrigues e Alves (2016), para além de apresentar o corpus, identifica os seus objetivos, os princípios metodológicos seguidos na sua constituição, a sua fundamentação nas áreas da psicolinguística e do ensino bem como a análise de alguns dados preliminares do vocalismo acentuado. Rodrigues e Lourenço-Gomes (2016) analisaram as estruturas /e/, /eI/ e /oU/ em dados de crianças de Lisboa dos 2º e 4º anos, mostrando que as crianças apresentam dificuldade em representá-las, devido ao desacerto entre as representações ortográficas e fonéticas. Rodrigues e Lourenço-Gomes (2018), por seu lado, mostraram que as diferentes estruturas com nasalidade no núcleo silábico suscitam muitas dificuldades em crianças de Lisboa e do Porto nos 2º e 4º anos, igualmente, porque as representações fonético-fonológicas e ortográficas não se encontram ainda dominadas. Já Gomes e Rodrigues (no prelo), exploraram os dados dos 2º e 4º anos de Lisboa, Porto e Chaves acerca dos grafemas do som /ʃ/, agrupando os dados das crianças com desenvolvimento típico e atípico do corpus. As autoras concluíram que existem diferenças importantes nos resultados de escrita que refletem diferenças fonológicas entre as variedades linguísticas consideradas. Pampim, Reis, Mendonça e Fernandes (2019) estudaram dados de escrita de Lisboa acerca da estrutura da sílaba, em particular, os ataques ramificados. Costa (2020) estudou o desempenho de crianças acerca de estruturas silábicas complexas, dando especial atenção aos ataques ramificados. Costa, Rodrigues e Freitas (no prelo) analisaram os materiais relativos às consoantes em final de palavra, //, /l/ e /S/.
Dados de escrita de crianças Celeste Rodrigues de escolas portuguesas: Maria do Carmo Lourenço-Gomes vogais não acentuadas Linguagem & Ensino, Pelotas, v. 24, n. 4, p. 775-798, out.-dez. 2021 783 Estes estudos do desenvolvimento da escrita de textos de crianças portuguesas salientam a necessidade de haver algumas alterações no ensino dos primeiros anos de escolaridade, já que as crianças das diferentes regiões apresentam diferenças importantes no seu desenvolvimento de diversas estruturas, como foi salientado por Lourenço-Gomes, Rodrigues e Alves (2016). Portanto, além do interesse que o corpus tem para a área da linguística, nomeadamente, no âmbito da fonologia, ele possibilita a realização de estudos que visem promover uma reflexão sobre estratégias didáticas particulares para resolver questões apontadas em alguns dos trabalhos referidos acima e de muitas outras que podem ser relacionadas com os vários tipos de FNCs encontradas nos textos das crianças. No Brasil, os trabalhos acerca do desenvolvimento da escrita em crianças e adultos têm sido mais produtivos. Para efeitos comparativos, o estudo de Miranda e Pachalski (2020), com base em materiais do GEALE e em estudos anteriores (MIRANDA, 2011; 2013; MONTEIRO, 2014; PACHALSKI; MIRANDA, 2019), mostra que o número mais significativo de erros ocorre em vogais pretónicas. Esse comportamento das crianças decorre da existência na fala de uma “produção oral bastante alternada de vogais altas e intermediárias em contextos de alçamento nas primeiras duas séries do Ensino Fundamental” (MIRANDA; PACHALSKI, 2020, p. 388). Ora, existindo oscilação na pronúncia das vogais pretónicas, fonologicamente estas encontram-se sem a sua especificação integral na representação fonológica das crianças (MATZENAUER; MIRANDA, 2013; MIRANDA 2011; 2013). Nessa medida, tornam-se alvo de dúvida no ato de escrever e, quando a criança finalmente percebe como são escritas convencionalmente, dá-se uma reestruturação da representação fonológica pré-existente. Ou seja, as autoras sugerem que a aquisição da escrita alfabética atua no sentido de alterar as representações infantis, tornando-as similares às dos adultos (MIRANDA; PACHALSKI, 2020, p. 389). Apesar de a distribuição das variantes fonéticas das vogais do PE ser distinta das do PB, no intuito de poderem ser feitos estudos comparativos das duas variedades de português, inspirámo-nos no quadro proposto por Miranda e Pachalski (2020) para o PB e criámos o quadro, mais abaixo, com as variantes fonéticas e ortográficas possíveis das vogais orais, nas três posições (inicial, medial e final) das palavras que são regularmente pronunciadas em PE. No Quadro 1, abaixo, são apresentadas as representações da vogal fonológica, fonética e ortográfica, em posição acentuada e não acentuada, de palavras regulares quanto à redução do vocalismo não acentuado. Não incluímos as principais exceções ao comportamento do vocalismo não acentuado do português, já conhecidas e anteriormente referidas. Entre essas exceções, contam-se (i) as vogais em ditongos (ouriço, deitar); (ii) as vogais que em latim continham uma oclusiva em coda (adoção < lat. adoptione, conceção < lat. conceptione); (iii) os advérbios em -mente (completamente, supostamente), por preservarem um acento secundário; (iv) as palavras com -zavaliativo (frestazinha, cãozão), pela mesma razão; (v) as vogais de palavras com uso afetivo (bolinha, fofinho, bonequinha) que podem coexistir com formas com redução regular das vogais sublinhadas, e (vi) as sílabas travadas por -r e -l de
Dados de escrita de crianças Celeste Rodrigues de escolas portuguesas: Maria do Carmo Lourenço-Gomes vogais não acentuadas Linguagem & Ensino, Pelotas, v. 24, n. 4, p. 775-798, out.-dez. 2021 790 no 2º do que no 4º ano, como expectável. Apesar de <u> mostrar um percentual muito elevado no 2º ano (50%), isso não deve ser sobrevalorizado já que correspondente a apenas uma dentre duas ocorrências. O que nos parece mais importante é o fato de as vogais <e> e <o> não serem alvo de FNCs nesta posição no 4º ano, ao passo que no 2º ano apresentavam respetivamente uma frequência de 21,43% e 14,29%. Para a posição pretónica medial chama a atenção a frequência de FNcs referentes à vogal <u>. Das 72 ocorrências, 53 são FNCs (73, 61%), em contraste com o que se observa no 4º ano, em que das 233 ocorrências, apenas 42 são FNCs (18,03%). Relativamente à posição postónica medial as crianças da amostra não evidenciam grandes dificuldades. Para a vogal <e>, no 2º ano, das 59 ocorrências apenas 2 eram FNCs (3,39%) e no 4º ano, das 170 ocorrências apenas 2 eram FNCs (1,18%); para <i> as 83 ocorrências do 2º ano foram escritas corretamente e, das 244 do 4º ano, apenas 2 eram FNCs (0,82%); para <o>, das 125 ocorrências do 2º ano, 4 correspondem a FNCs (3,20%) e as 418 do 4º ano foram escritas corretamente; finalmente, para <u>, o número de ocorrências é sempre muito baixo, tanto para o 2º ano (registam-se 3 ocorrências, 2 das quais FNCs) quanto para o 4º ano (5 ocorrências e 2 FNCs). Na posição final absoluta apenas se registam FNCs para as vogais <e> e <o>, porém muito esporádicas (2º ano/4º ano: <e> 7 FNCs em 275 ocorrências, 2,55%/3 FNCs em 1504 ocorrências, 0,20%; <o> 13 FNCs em 1073 ocorrências, 1,21%/ 5 FNCs em 2791 ocorrências, 0,18%). Vejamos agora, na Tabela 3 abaixo, como se distribuem as ocorrências em função da posição na palavra. Diga-se que, para a vogal <e>, distinguimos as ocorrências em palavras em que a vogal corresponde a um núcleo vazio, como em escola (referidas na tabela como “eS.C_inicial”), daquelas a que <e> corresponde a um núcleo preenchido fonologicamente, como elevador. Excluímos da tabela 3 os contextos onde não ocorrem FNCs e os que a língua não permite, como o contexto final absoluto seguido de consoante (C) ou vogal (V). Por isso, os valores divergentes do número de ocorrências desta tabela face às anteriores devem-se à existência de estruturas que foram sempre escritas de modo correto. Note-se, ainda, que alguns dos contextos não existem na língua. Por exemplo, <u> não acentuado em posição final de palavra. Porém, os dados também podem ser apresentados em função das FNCs se encontrarem ou não antes de uma vogal, como se faz na tabela seguinte (Tabela 3), o que permite distinguir os dois contextos relevantes para os processos de neutralização e de semivocalização. Com efeito, o comportamento das diferentes vogais é o seguinte: i) as vogais átonas <i>, <u>, <e> e <o> tendem a semivocalizar antes de uma vogal; <i> e <u> mantêm-se com realização vocálica antes de uma consoante; e <e> e <o> são reduzidas (elevadas e centralizadas no caso de <e> e somente elevadas no caso de <o>) antes de uma consoante. Por essa razão, a tabela seguinte mostra mais claramente o que se passa de diferente quando as vogais <e> e <o> não acentuadas são semivocalizadas e quando são reduzidas a [ɨ] e [u].
Dados de escrita de crianças Celeste Rodrigues de escolas portuguesas: Maria do Carmo Lourenço-Gomes vogais não acentuadas Linguagem & Ensino, Pelotas, v. 24, n. 4, p. 775-798, out.-dez. 2021 791 Tabela 3 – Distribuição de FNCs, por vogal e por segmento seguinte (consoante/vogal) Ano escolar Vogal/contexto 2º 4º n FN-C % n FN-C % e eS.C_inicial Pre-C 339 23 6,78 656 5 0,76 Inicial Pre-C 14 3 21,43 41 − − Pretónico medial Pre-C 521 40 7,68 1903 42 2,21 Pre-V 20 19 95,00 34 14 41,18 Postónico medial Pre-C 57 2 3,51 170 2 1,18 Pre-V 2 − − − − − Total parcial 1228 94 4308 66 i Inicial Pre-C 42 6 14,29 90 7 7,78 Pre-V 1 − − − − − Pretónico medial Pre-C 329 12 3,65 815 13 1,60 Pre-V 36 1 2,78 68 2 2,94 Postónico medial Pre-C 33 − − 118 − − Pre-V 50 − − 126 2 1,59 Total parcial 491 19 1217 24 o Inicial Pre-C 56 8 14,29 50 − − Pretónico medial Pre-C 353 40 11,33 1203 56 0,05 Pre-V 96 21 21,88 73 8 10,96 Postónico medial Pre-C 125 4 3,20 418 − − Total parcial 1703 86 4535 69 u Inicial Pre-C 2 1 50,0 17 1 5,88 Pretónico medial Pre-C 68 50 73,53 197 42 40,0 Pre-V 4 3 75,00 36 Postónico medial Pre-C 3 2 66,67 5 2 21,32 Total parcial 77 56 255 45
Dados de escrita de crianças Celeste Rodrigues de escolas portuguesas: Maria do Carmo Lourenço-Gomes vogais não acentuadas Linguagem & Ensino, Pelotas, v. 24, n. 4, p. 775-798, out.-dez. 2021 792 A Tabela 3, acima, mostra que as FNCs ocorrem mais antes de consoante do que de vogal, ou seja, ocorrem quando não existe contexto para semivocalização; e que a posição pretónica medial seguida de vogal apresenta, de igual modo, FNCs frequentemente; que os resultados do 4º ano espelham os do 2º, embora sejam mais baixos. Temos, contudo, de reconhecer o facto de alguns resultados percentuais elevados se deverem à existência a um número baixo de ocorrências. No que se refere às vogais <e> e <o> seguidas de consoante, observa-se que ambas aparecem em diversos contextos com FNCs, mas é, de modo muito nítido, em posição pretónica quando a vogal é seguida por outra vogal que as FNCs apresentam uma percentagem mais elevada (95% e 41,18% respetivamente no 2º e no 4º ano, no caso de <e>; e 21,88% e 10,96% respetivamente no 2º ano e no 4º ano, para a vogal <o>). Isso significa que as crianças erraram muitas vezes em palavras como chatiar > chatear, passiar > passear, Liunor > Leonor, liopardo > leopardo, além de errarem em palavras em que as vogais não acentuadas são seguidas por consoante, ou seja, atroplava > atropelava, arrumars > arrumares, cria > queria, fuctão > foguetão, acurdou > acordou. Vejamos, por fim, o Gráfico 3 onde consta a distribuição dos principais tipos de FNCs tendo em conta os dados analisados. São incluídos no gráfico somente os tipos de FNCs que apresentaram mais de oito ocorrências nos dados, sendo as diversas ocorrências produzidas por diferentes crianças, permitindo assim clarificar quais são os tipos de FNCs que mais importa considerar, nomeadamente omissão do grafema da vogal, omissão de toda a sua sílaba e substituição por <e>, <o> e <u>. Gráfico 2 – Distribuição das FNCs na amostra, consoante os cinco tipos de alterações envolvendo as vogais <e>, <i>, <o> e <u>, no 2º e 4º anos de escolaridade No Gráfico 3, acima, podemos constatar que a omissão de vogal ocorreu mais frequentemente para <e> nos dois anos de escolaridade (62,71% no 2º ano e 32,14% no 4º ano, um valor relativamente alto). Exemplos deste tipo de FNCs são: cria > queria, entreçante > interessante, fliz > feliz. Isto se aplica à posição tónica medial. 0 20 40 60 80 100 120 <e> <i> <o> <u> <e> <i> <o> <u> 2º ano 4º ano omissão vogal omissão sílaba substituição <o> substituição <u> substituição <e>
Dados de escrita de crianças Celeste Rodrigues de escolas portuguesas: Maria do Carmo Lourenço-Gomes vogais não acentuadas Linguagem & Ensino, Pelotas, v. 24, n. 4, p. 775-798, out.-dez. 2021 793 A omissão de sílaba ocorreu exclusivamente no caso da vogal <e>, na estrutura eS.C (escola) apenas no 2º ano (78,26%), como em tive > estive, tiver > estiver. No caso das substituições, as vogais <i>, <o> e <u> geram, cada uma, um tipo específico de FNC. A vogal <i> é substituída por <e> em posição pretónica medial apenas no 2º ano (84,62%), como nos casos em pexina > piscina, insestia > insistia. Na vogal <o>, a substituição mais frequente é pela vogal <u> em posição pretónica medial (2º ano, 78,69%; 4º ano, 67,19%), como em piu > pio, vou > voo. A substituição de <u> por <o> atinge 96,23% no 2º ano e 97,62% no 4º ano, novamente em posição pretónica medial, como em broxinha > bruxinha, chotou > chutou, forioza > furiosa. Considerações finais No início desta seção, centrar-nos-emos no comentário dos casos que nos parecem mais interessantes no que diz respeito à elaboração de estratégias didáticas em sala de aula, em função dos resultados apresentados da nossa amostra. No que diz respeito às substituições, é de crer que a principal atenção dos professores se centre na correção das grafias das vogais <o> e <u>, vogais que apresentam taxas persistentes de FNCs elevadas. Salienta-se, no entanto, que o facto de se chamar a atenção para a grafia de uma certa vogal - como acontece no caso da vogal /o/ medial que por ser produzida como [u] - não implica que a confusão deixe de existir. Pode até acarretar, como se vê bem nestes resultados, que uma criança erre ainda mais na grafia da outra vogal, neste caso da vogal /u/. O aumento de FNCs para /u/ que se observou no 4º ano deve-se provavelmente mais a esta razão do que ao facto de haver maior diversidade de palavras escritas. Contudo, a vogal <e> continua a apresentar uma taxa de omissão importante no 4º ano, merecendo por isso especial cuidado da parte dos professores também. É, de resto, a única vogal para a qual a omissão é relevante nos dados observados. Não seria, talvez, de esperar que este tipo de FNC e a omissão de toda a sílaba fossem tão frequentes apenas na vogal <e>. Porém, tendo em conta a descrição que anteriormente fizemos, dando conta do facto de esta vogal poder não ser pronunciada, tais dados são compreensíveis. Na realidade, [ɨ] (<e>) é a vogal que mais pode ser suprimida foneticamente em PE, distinguindo-se neste aspeto de [u], pois este último, nos casos em que deixa de apresentar estrutura formântica, muitas vezes deixa arredondamento no segmento que o precede. Desta forma, podemos concluir que as vogais não apresentam resultados idênticos umas às outras, quando observamos os comportamentos ortográficos das crianças. No entanto, esses comportamentos são compreensíveis se tivermos em consideração as características do sistema fonológico e das suas manifestações fonéticas, em interligação com as características da grafia na língua e da prática docente (remetemos o leitor para as secções Sistema fonológico das vogais do PE contemporâneo e Relação entre variantes fonéticas e ortografia). Neste sentido, o trabalho dos professores precisa ser reforçado no que se refere
Dados de escrita de crianças Celeste Rodrigues de escolas portuguesas: Maria do Carmo Lourenço-Gomes vogais não acentuadas Linguagem & Ensino, Pelotas, v. 24, n. 4, p. 775-798, out.-dez. 2021 794 à consciencialização das crianças acerca das estruturas, da sua variação fonética e da relação que se estabelece entre ortografia e estrutura fonológica. Uma vogal fonética que apresente mais do que uma grafia levanta mais problemas do que uma que as não apresente, veja-se o caso do [u] e [ɨ]. Uma vogal fonética suprimida que exista ortograficamente, vai gerar dificuldades de modo inevitável – veja-se os valores de FNCs por omissão de [ɨ] <e>. Temos aqui por isso dois tipos de FNCs muito distintos, um das FNCs ortográficas e outro das FNCs que se relacionam com as características dos segmentos fonológicos e as suas realizações fonéticas. As vogais que são mais frequentes não são as que são escritas com mais correção, visto que <e> e <o> são mais frequentes no léxico e são as que causam mais FNCs do que <i> e <u> como um todo, proporcionalmente. As vogais em sílabas internas são mais suscetíveis de apresentar FNCs do que as iniciais e finais em PE em crianças com o perfil aqui analisado. Quanto às questões de investigação referidas na seção “O presente estudo”, os resultados contrariam parcialmente a questão 1 (As vogais iniciais /e/, // e /i/ não acentuadas devem gerar muitas FNCs por troca dos grafemas <e> e <i> na escrita das crianças de Lisboa, visto que todas são realizadas como [i].). As vogais não recuadas geraram muitas FNCs por troca de <i> por <e> em posição inicial (por exemplo, egreija), mas a troca de <e> por <i> não foi frequente (ilefante, por exemplo), ao contrário do que se previa. O que mostra, de novo, que surgem mais FNCs devido a possível insistência do professor no facto de nem sempre que se pronuncia [i] se dever escrever <i>. Este aspeto é particularmente relevante, porque mostra que as técnicas do docente nem sempre surtem o efeito esperado, uma vez que as crianças procedem a generalizações indevidas que acarretam mais FNCs do que, eventualmente, cometeriam sem qualquer chamada de atenção. De acordo com a questão 2 (As vogais não acentuadas /e/ e //, realizadas como [ɨ], e a vogal /i/ devem originar menos FNCs por troca dos grafemas <e> e <i> em posição medial do que em posição inicial de palavra, uma vez que a centralização de /i/ é apenas residual, ao contrário da que se regista para as duas outras vogais, para as quais se espera a utilização mais regular do grafema <e>.), temos o seguinte (cf. Tabela 3): as vogais médias não recuadas, escritas como <e>, apresentam frequência alta de FNCs em posição medial quando são seguidas por vogal (95% no 2º ano, 41,18% no 4º ano), ou seja, em contexto de semivocalização, mas não quando são seguidas de consoante (7,68% no 2º ano e 2,21% no 4º ano). Em posição inicial, <e> só apresenta 21,43% de FNCs antes de uma consoante no 2º ano, não havendo FNCs no 4º ano. Mostra-se assim que, para <e>, o valor de FNCS em posição medial antes de uma consoante é inferior ao registado em posição inicial antes de consoante. No que se refere à vogal <i> em posição medial, esta atinge 3,65% no 2º ano e 1,60% no 4º ano antes de uma consoante, o único contexto em que é possível a comparação com <i> inicial que regista 14,29% de FNCs no 2º ano e 7,78% no 4º ano. No que se refere à questão 3 (As vogais iniciais /o/, // não acentuadas (realizadas como [o] ou [] em Lisboa) e /u/ não devem gerar muitas FNCs, por troca dos grafemas <o> e <u> na escrita das crianças de Lisboa, porque não existe neutralização fonética das três vogais
Dados de escrita de crianças Celeste Rodrigues de escolas portuguesas: Maria do Carmo Lourenço-Gomes vogais não acentuadas Linguagem & Ensino, Pelotas, v. 24, n. 4, p. 775-798, out.-dez. 2021 795 nesta posição.), há quase sempre frequência mais alta de FNCs em posição medial do que inicial, especialmente no que se refere à vogal <u> (cf. Tabela 3). A vogal <u> inicial no 2º ano, seguida de uma consoante, regista 50% (correspondentes a uma única ocorrência), mas, nesse mesmo contexto, em posição medial, regista 73,53% no 2º ano e 40% no 4º ano (com um número razoável de ocorrências analisadas, 68 e 197, respetivamente). Além disso, quando a vogal <u> medial é seguida por uma vogal, das 4 ocorrências no 2º ano, 3 foram erroneamente grafadas, não havendo FNCs no 4º ano, o que vai ao encontro da nossa questão. No caso de <o> inicial antes de consoante no 2º ano, verifica-se 14,29% de FNCs, mas em posição medial antes de uma consoante regista-se 11,33% no 2º e 0,05% no 4º ano. Já antes de uma vogal em posição medial, a percentagem de FNCs no 2º ano é 21,88%, mantendo-se em 10,96% no 4º ano. Ou seja, a vogal não acentuada <o>, em posição medial, gera frequência mais alta de FNCs no contexto de semivocalização do que no de neutralização. A questão 4 (As vogais não acentuadas /o/, // e /u/ mediais, produzidas regularmente como [u], devem gerar muitas FNCs por troca dos grafemas <o> e <u>.) foi largamente evidenciada nos dados para esta amostra, já que se regista grande número de FNCs em posição medial para as três vogais fonológicas arredondadas, como acabámos de referir. Os dados mostram que é baixa a frequência de FNCs das vogais finais <e> e <o> que constituem morfemas, ou seja, a nossa questão 5 também foi evidenciada nos dados – cf. Tabela 3 (As vogais médias finais não acentuadas que constituem morfemas de classe – ou seja, morfemas temáticos nos nomes (/e/ e /o/ - base, gato) ou nos verbos (bebe) e de tempo (/e/ - fale) e pessoa-número nos verbos (/o/ - faço) - não devem gerar muitas FNCs, posto que para cada uma há só uma representação fonética e a sua frequência no léxico é elevada.). Com efeito, só surgiram duas ocorrências com troca de <o> por <u> em posição final absoluta, razão pela qual não são incluídas na Tabela 3 (casacu > casaco, piu > pio). De modo idêntico, a vogal <e>, em posição final absoluta, também não gerou muitas FNCs por substituição por <i> (apenas surgiu: dissi > disse). Importa ainda sublinhar que globalmente os resultados obtidos mostram um comportamento bom na escrita desde o 2º ano e uma melhoria sensível no 4º ano nesta amostra. No entanto, isso não se manifesta com todas as vogais e em todas as posições da palavra. Em particular, as vogais <o> e <u> constituem ainda unidades geradoras de dificuldade na ortografia no 4º ano, sobretudo em posição pretónica. A posição pretónica é, de resto, a que gera mais FNCs globalmente na amostra aqui analisada, o que mostra que as caraterísticas do vocalismo não acentuado deveriam ser explicitadas cedo às crianças para que estas compreendessem mais facilmente as relações de parentesco morfológico que se estabelecem entre palavras derivadas e flexionadas com e sem acento lexical e as respetivas formas gráficas. Isso deveria incluir algum trabalho com os processos fonológicos regulares de elevação e neutralização e com as suas exceções, utilizando uma abordagem pedagógica adequada ao nível de ensino das crianças que promovesse a consciência fonético-fonológica e a respetiva relação com a forma ortográfica.
Dados de escrita de crianças Celeste Rodrigues de escolas portuguesas: Maria do Carmo Lourenço-Gomes vogais não acentuadas Linguagem & Ensino, Pelotas, v. 24, n. 4, p. 775-798, out.-dez. 2021 796 Referências ANDRADE, A. Vocalismo. In: RAPOSO; NASCIMENTO; MOTA; SEGURA; MENDES; ANDRADE (Org.). Gramática do Português. v. III, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2020. p. 32413332. CAGLIARI, L. C. Alfabetização e Linguística. Rio de Janeiro: Scipione, 1989. CASTRO, I. Introdução à História do Português. Lisboa: Edições Colibri, 2006. COSTA, T. Quando o “tigere” pede “desclopa”: representações escritas de formatos silábicos complexos no 1.º ciclo de escolaridade. Comunicação apresentada no I Phonoshuttle Opo-Lis – Ponte aérea de fonologia, 13 de novembro de 2020. COSTA, T.; RODRIGUES, C.; FREITAS, M. J. (no prelo). Consoantes (não) soantes em final de palavra: dados da escrita de crianças portuguesas. GOMES, J.; RODRIGUES, C. (no prelo). O grafema <x> e o dígrafo <ch>: um estudo longitudinal do desempenho ortográfico de crianças de três dialetos portugueses. LOURENÇO-GOMES, M. do C.; RODRIGUES, C.; ALVES, I. EFFE-Escreves como falas - falas como escreves? Revue Romane, v. 51, n. 1, p. 36-69, 2016. https://doi.org/10.1075/rro.51.1.02gom MARQUILHAS, R. Mudança analógica e elevação das vogais pretónicas. In: CASTRO, I. E DUARTE, I. (Org.). Razões e Emoção. Lisboa: INCM, vol. II, 2003. p. 7-18. MARQUILHAS, R. A Faculdade das Letras. Leitura e Escrita em Portugal no séc. XVII. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2000. MARTINS, A. M. Introdução: O português numa perspetiva diacrónica e comparativa. In: MARTINS, A. M.; CARRILHO, E. (Eds.). Manual de Linguística Portuguesa. Berlin/Boston: De Gruyter, 2016. p. 1-39. https://doi.org/10.1515/9783110368840-003 MASCARENHAS, l. Estudo da variação dialectal entre Lisboa e Porto das vogais átonas [-rec] e [+arred] em contexto inicial. 1996. 128 f. Dissertação (Mestrado em Linguística Portuguesa) – Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Lisboa, 1996. MATEUS, M. H. M. Aspectos da Fonologia Portuguesa. Lisboa: INIC, Textos de Linguística 6, 1982. MATEUS, M. H. M. Redundâncias lexicais e subespecificação: o sistema do Português. In: XII ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA, v. I, 1996, BragaGuimarães. Actas do ENAPL XII, Lisboa: Colibri, 1997. p. 203-214. MATEUS, M. H. M. Ainda a subespecificação na Fonologia do Português. In: XIII ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA, v. II, 1997, Lisboa. Actas do XIII ENAPL. Lisboa: Colibri, 1997. p. 63-73. MATEUS, M. H. M.; ANDRADE, E. D’. The Phonology of Portuguese. Oxford: Oxford University Press, 2000. MATZENAUER, C. L. B.; MIRANDA, A. R. M. Variação na aquisição da fonologia. In: BISOL, L.; COLLISCHONN, G. (Org.). Fonologia: teorias e perspectivas. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2013. p. 117-132.
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